Uma reportagem sobre o princípio que transforma soldados em irmãos...
*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026
"Como ex-piloto de helicóptero de combate que voou por dois anos em território hostil em zonas de combate, posso dizer que é muito reconfortante saber que, se você fosse abatido... tínhamos uma fé inabalável de que o exército dos EUA pararia tudo e que a nova missão em toda a área de responsabilidade seria seu resgate. Sou incrivelmente grata pela coragem do CSAR. Eles vão conseguir o segundo piloto."
— Amber S., ex-piloto de helicóptero de combate (LinkedIn)
O presente e o passado se encontram sobre o Irã
Nas últimas horas, o mundo acompanha em tempo real uma operação de busca e
resgate de combate (CSAR) em território inimigo profundo. Um F-15E da Força
Aérea dos EUA foi abatido sobre o sudoeste do Irã, e equipes de resgate foram
imediatamente mobilizadas. Pelo menos um helicóptero envolvido na
operação foi atingido por fogo iraniano, mas conseguiu pousar com segurança. O
presidente Trump está sendo informado pessoalmente sobre a perda do caça e sobre o
andamento das buscas. Fontes ocidentais confirmaram que um dos tripulantes foi
resgatado com sucesso.
O testemunho da ex-piloto de helicóptero de combate Amber S., citado na abertura desta reportagem, ganha assim um contexto dramático e atual: equipes CSAR especializadas são mantidas em alerta constante e acionadas rapidamente quando uma aeronave é perdida. "Esses pessoal do CSAR come, respira e dorme essa missão", disse o especialista Buckley. "Nenhum homem para trás. Nenhuma mulher para trás. Vamos buscá-los."
Uma promessa não escrita, mas gravada na alma
Embora amplamente conhecida e repetida nas Forças Armadas dos EUA, a
expressão "leave no man behind" ("não deixe ninguém para
trás") não está registrada em nenhuma doutrina militar oficial. É uma
cultura das forças armadas e, por isso mesmo, carrega um peso ainda maior.
Esse ethos está gravado inclusive nos juramentos individuais: o juramento do Aviador diz "jamais deixarei um aviador para trás"; o juramento do Soldado afirma "jamais deixarei um camarada caído". As equipes CSAR desempenham papel central nesse compromisso, especialmente no resgate de pilotos abatidos em território inimigo. Se um piloto não for resgatado em menos de uma hora, sua chance de sobrevivência cai para cerca de 50% e despenca rapidamente.
Segundo pesquisa publicada no Journal of Military Ethics, a frase cria um compromisso individual profundo entre os combatentes que, por sua vez, fortalece o espírito de luta e o moral da unidade, ao mesmo tempo em que garante às famílias que seus parentes não serão abandonados, vivos ou mortos.
O impacto no moral: por que isso muda tudo
O impacto devastador no moral de uma unidade cujos soldados
se sentem abandonados é bem documentado: a dúvida se instala, a confiança se
corrói, e a própria base da camaradagem desmorona.
O inverso também é verdadeiro e tem consequências táticas concretas. As Forças Armadas britânicas, durante a Primeira Guerra Mundial, perceberam o valor estratégico do resgate para o moral: pilotos se mostravam muito mais dispostos a voar em situações perigosas quando sabiam que seriam resgatados se fossem abatidos.
Isso não é apenas sentimento. Isaac Ben-Israel, chefe de estudos de segurança da Universidade de Tel Aviv, articula a dimensão prática: "Pessoas que sabem que não serão abandonadas lutam melhor."
Casos históricos que definiram o princípio
- Capitão Roger Locher, Vietnã, 1972: o capitão Roger Locher foi abatido sobre território norte-vietnamita e conseguiu evitar a captura por 23 dias em território inimigo. O general John Vogt ordenou que todas as unidades sob seu comando paralisassem as operações, incluindo grandes campanhas de bombardeio sobre Hanói, e se concentrassem no esforço de resgate. Aproximadamente 150 aeronaves americanas foram redirecionadas para localizar e resgatar um único piloto. Locher foi recuperado com sucesso.
- A Batalha de Mogadíscio, Somália, 1993: a queda de um helicóptero durante a Batalha de Mogadíscio e os esforços subsequentes de recuperação resultaram na morte de 18 soldados americanos e 73 feridos. As consequências foram enormes, levaram a uma mudança de política pelo governo Clinton e à retirada das forças dos EUA da Somália. O preço pago para honrar o princípio pode ser alto, mas o abandono cobra um preço ainda maior.
- Matt Maupin, Iraque, 2004–2008: o especialista Matt Maupin foi capturado em 2004 perto do Aeroporto de Bagdá. Por anos, as unidades na área onde ele foi capturado continuaram investigando qualquer pista, por menor que fosse. Em março de 2008, seus restos mortais foram finalmente encontrados, numa operação batizada de Operation Trojan Honor (Operação Honra Troiana). Quatro anos de busca por um único soldado.
- Jessica Lynch, Iraque, 2003: durante a missão de resgate de Jessica Lynch, soldados do 75º Regimento de Rangers se recusaram a partir até que os restos mortais de todos os outros soldados mortos na emboscada fossem recuperados, mesmo tendo que cavar corpos em decomposição e transportá-los de volta aos helicópteros. "Isso deve dar uma ideia de quão seriamente o Exército dos EUA leva a crença de não abandonar um camarada caído."
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| Imagem meramente representativa |
O caso israelense: quando a devoção encontra o dilema
Israel é talvez o exemplo mais extremo dessa devoção e de suas
contradições.
Para Israel, a política é clara: "Sempre deixamos nenhum para trás. Soldados mortos também, mesmo valor", disse a porta-voz do Exército israelense Noa Meir à Newsweek. O país chegou a trocar mais de mil prisioneiros palestinos para resgatar o soldado Gilad Shalit, mantido em cativeiro por cinco anos.
Mas Israel também desenvolveu o lado mais sombrio dessa obsessão: a Diretriz Hannibal.
Criada em 1986 após uma série de sequestros de soldados israelenses no Líbano e as polêmicas trocas de prisioneiros que se seguiram, a diretriz autorizava o uso de força máxima para impedir a captura de soldados israelenses, mesmo que isso significasse colocar em risco a vida dos próprios cativos.
Segundo Asa Kasher, que escreveu o código de ética do Exército israelense, a doutrina equivalia à máxima: "Um soldado morto é melhor do que um soldado sequestrado."
A diretriz foi formalmente revogada em 2016, mas investigações do jornal Haaretz revelaram que a ordem foi invocada em 7 de outubro de 2023 em três instalações militares infiltradas pelo Hamas, potencialmente colocando em risco civis além dos militares.
O paradoxo israelense revela a tensão máxima do princípio: o mesmo amor feroz pelo combatente pode, nas circunstâncias erradas, voltar-se contra ele.
As equipes CSAR: a promessa em carne e osso
O resgate em combate é uma corrida contra o tempo e contra o inimigo. Assim
que um piloto é dado como desaparecido, a coleta de inteligência começa em
escala total: "Tudo, desde inteligência humana até imagens de satélite,
drones e sinais eletrônicos, tudo é usado para localizar o piloto",
explicou Scott Fales, ex-sargento-mor e paraquedista de resgate veterano da
Batalha de Mogadíscio.
A operação CSAR nunca é simples. Requer caças para defesa aérea, aeronaves de supressão de defesas inimigas, helicópteros de resgate, aviões-tanque para reabastecimento em voo, drones de reconhecimento e muito mais, tudo coordenado enquanto o inimigo já está alerta e à procura dos tripulantes.
O lema oficial dos paraquedistas de resgate da Força Aérea americana diz tudo: "These Things We Do, That Others May Live" (Fazemos essas coisas para que outros vivam).
Por que isso importa, mesmo quando custa caro
Há críticos que argumentam que o princípio pode ser perigosamente caro. O
comprometimento pode entrar em um ciclo vicioso: ao tentar resgatar um soldado,
perdem-se outros e esses também "não podem ser abandonados".
Mas a maioria dos analistas militares e veteranos converge para uma conclusão: o custo de não honrar o princípio é ainda maior.
Quando uma nação percebe que suas Forças Armadas falharam em honrar esse compromisso, a confiança pública se estilhaça, enviando uma mensagem gélida que mina os valores pelos quais o exército existe para defender.
E há uma dimensão muito humana nisso. O testemunho da piloto Amber S. com o qual abrimos esta reportagem não é retórica: é a diferença entre um piloto que mergulha em território inimigo confiante em seus camaradas, e um que hesita. Entre uma tripulação que dá tudo de si e uma que guarda algo em reserva, por precaução.
Hoje, sobre o sul do Irã, essa promessa está sendo testada mais uma vez, em tempo real e sob fogo inimigo, com recompensas em dinheiro sendo oferecidas pelo governo iraniano para capturar os tripulantes americanos vivos. E mesmo assim, as equipes CSAR estão lá.
Porque é isso que fazem... Que outros possam viver!

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