*LRCA Defense Consulting - 19/05/2026
Visando adequar a proteção de seus meios blindados e dentro do escopo do Projeto Estratégico Defesa Antiaérea, o Exército Brasileiro adquiriu 37 Viaturas Blindadas de Combate Antiaérea (VBC AAe) Gepard 1A2 junto ao Exército Alemão. Os sistemas foram comprados em maio de 2013 por US$ 41 milhões. Trata-se, portanto, de uma aquisição de segunda mão altamente custo-efetiva: menos de US$ 1,1 milhão por viatura, incluindo processo de revitalização realizado pelo fabricante Krauss-Maffei Wegmann antes da entrega.
Antes da entrega ao Exército Brasileiro, as viaturas foram submetidas na Alemanha a um processo de revitalização que compreendeu a instalação de um sistema de extinção de incêndios, tradução das indicações para o português do Brasil e montagem de um novo sistema de cabeamentos para permitir a instalação de sistemas de comunicações fornecidos pelo Exército Brasileiro.
Distribuição e organização
Atualmente, as viaturas estão distribuídas entre a 5ª
Brigada de Cavalaria Blindada (Paraná), a 6ª Brigada de Infantaria Blindada
(Rio Grande do Sul) e a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (Rio de
Janeiro), sendo que o ensino de operação é conduzido somente pela EsACosAAe. A
concentração no sul do país reflete a lógica original de proteção das brigadas
blindadas, que são justamente as grandes unidades cujo combate exige cobertura
antiaérea orgânica e com mobilidade equivalente à da tropa apoiada.
O Exército Brasileiro adquiriu aproximadamente 540.000 tiros para a viatura. Equipado com dois canhões antiaéreos de 35 milímetros, com elevada cadência de tiro e alcance de 5,5 quilômetros, o Gepard faz parte do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea.
O problema do radar frente a alvos pequenos
Um ponto crítico que separa o emprego brasileiro do
ucraniano foi revelado com incomum franqueza pela própria instituição. Na
Operação Punhos de Aço 2025, no mês de outubro, foi possível adestrar as
guarnições de defesa antiaérea da 6ª Brigada de Infantaria Blindada. O
principal desafio se relacionou à maneira pela qual o operador realiza a
designação e a apreensão do alvo, tendo em vista as capacidades dos radares
atualmente disponíveis nas viaturas do inventário e o material de confecção do
alvo. A VBC Gepard 1A2 possui dois radares: um de busca, com alcance horizontal
de 750 até 15.750 metros, alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda
"Echo"; e um de tiro, com alcance horizontal de 300 a 15.000 metros,
também com alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda
"Juliet".
Esses radares foram projetados para aeronaves tripuladas e helicópteros de ataque, alvos com seção transversal de radar (RCS) muito maior que a de um drone comercial ou de um munição errante do tipo Shahed. Os chefes de peça e os atiradores não conseguiram utilizar o processo de designação óptica e foi necessário recorrer ao método tradicional de busca de alvo de forma manual, calcado na utilização do periscópio e na execução da mira empregando precessões à frente do aeromodelo, efetuando disparos cujas trajetórias são corrigidas pela observação em tempo real. Isso faz com que o engajamento e a neutralização da ameaça se tornem tarefas bastante difíceis, exigindo habilidade, familiaridade do operador com o equipamento e bastante treino. A efetividade se relaciona também ao grande volume de fogos disparados, com um consequente alto consumo de munição.
O próprio blog do Exército, no entanto, extrai a lição correta da experiência: o Gepard será o método prioritário a ser utilizado para a supressão de ameaças advindas da abrangente gama de modelos de drones hoje facilmente adquiridos no mercado e amplamente empregados em ações hostis de toda a natureza.
O que a Ucrânia já demonstrou
O emprego ucraniano é o argumento mais robusto em favor do
aproveitamento do Gepard no papel anti-drone. De acordo com um adido de defesa
ucraniano nos Estados Unidos, o Gepard foi usado com grande eficácia contra as
munições errantes, possivelmente de fabricação iraniana ou russa, do tipo Shahed-136. Um
único sistema é creditado com a destruição de mais de dez drones Shahed-136 e
dois mísseis de cruzeiro. Um sistema como o Gepard é mais eficaz e, portanto,
mais custo-efetivo do que sistemas de defesa aérea mais avançados e caros como
o NASAMS ou mísseis IRIS-T.
Essa eficiência não é acidente. Como aponta Tim De Zitter em artigo no LinkedIn, o calibre de 35 mm ocupa o ponto de equilíbrio ideal para esse tipo de ameaça: letal o suficiente para destruir drones de forma confiável, econômico o suficiente para disparar em volume, e rápido o suficiente para criar uma densa barreira cinética antes que o alvo chegue ao seu objetivo.
A lacuna que precisa ser preenchida
O principal gargalo brasileiro não é o canhão, é o sensor. A
integração do Gepard com radares modernos capazes de detectar alvos de baixa
seção radar, como o Saber M60, já foi estudada conceitualmente. Uma
possibilidade de operação dos Gepard para proteger um ponto estratégico envolve
viaturas posicionadas com datalink a um centro de monitoramento e alarme,
podendo ser um radar Saber M60. Sete Gepard assim dispostos podem cobrir uma
área de 12 km². Esse conceito, desenvolvido ainda no período de chegada das viaturas,
permanece válido e relativamente barato de implementar: o custo não está em
comprar novos canhões, mas em integrar sensores adequados aos que já existem.
O Exército utiliza hoje equipamentos como os mísseis portáteis Igla-S e RBS-70, as viaturas blindadas de combate Gepard 1A2 e o radar Saber M60. A força já possui, portanto, os blocos básicos de um sistema anti-drone de curto alcance. O que falta é a integração efetiva entre eles para o engajamento de alvos de pequena seção radar, além de treinamento consistente no modo manual de tiro.
O contexto da modernização em curso
Atualmente, o Exército conta apenas com sistemas de baixa
altitude, como o sueco RBS-70 NG e o Gepard. Esses equipamentos são eficazes
contra ameaças em baixas altitudes, mas não impedem que aeronaves inimigas
invadam o espaço aéreo e lancem mísseis de cruzeiro. A nova prioridade foi
classificada como emergencial, o que permite a dispensa de processo
licitatório.
A modernização ocorre em um contexto de transformações no cenário internacional, marcado por disputas geopolíticas entre grandes potências e o surgimento de novas tecnologias e ameaças que vêm redesenhando o ambiente global de segurança. O programa "Força 40" prevê avanços em doutrina, pessoal, capacidades e estratégia, incluindo sistemas avançados de defesa antiaérea, antimíssil e contra drones, integrados e de alta precisão.
Essa modernização, porém, envolve sistemas de médio e longo alcance, voltados a ameaças em altitude. O Gepard continuará sendo, por muitos anos, o único meio cinético autopropulsado de baixa altitude disponível ao Exército. A pergunta correta, portanto, não é quando ele será substituído, mas como aproveitá-lo melhor enquanto os novos sistemas não chegam.
O gato velho ainda caça
A análise de Tim De Zitter resume bem a situação: um bom
projeto envelhece de forma diferente. O Gepard não se tornou obsoleto porque o
tipo de ameaça para o qual ele é mais eficaz - o drone de médio porte voando em
baixa altitude - simplesmente não existia em escala quando ele foi concebido. A
guerra alcançou o seu terreno.
O Exército Brasileiro tem em mãos 37 viaturas com canhões de alto desempenho, munição em estoque e pessoal em processo de adestramento. O exercício Punhos de Aço 2025 mostrou honestamente onde estão os limites atuais, mas também mostrou que o método manual de tiro é treinável e que a instituição tem consciência da relevância do problema.
A integração com radares aptos a detectar alvos de baixa RCS, a adoção de datalinks modernos e o treinamento intensivo no tiro contra aeromodelos são passos de custo relativamente baixo que podem transformar um sistema dos anos 1970 em uma resposta adequada para a ameaça da década de 2020, exatamente como a Ucrânia demonstrou ao mundo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).