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11 fevereiro, 2026

Taurus participa do WDS 2026 e sinaliza aquisição estratégica que pode revolucionar seu portfólio militar

Participação com portfólio militar na Arábia Saudita e parceria com a Marinha indicam que a empresa brasileira está próxima de adquirir fabricante turca Mertsav para acelerar entrada no mercado de metralhadoras leves e pesadas 

Pistola TX9 e submetralhadora RPC

*LRCA Defense Consulting - 11/02/2026

A participação da Taurus Armas no World Defense Show 2026 (WDS), realizada em Riade, Arábia Saudita, de 8 a 12 de fevereiro, marca um ponto de inflexão na trajetória da maior vendedora de armas leves do mundo. Mais do que simplesmente apresentar produtos, a empresa brasileira utilizou o evento internacional para consolidar sua entrada definitiva no segmento militar de armas coletivas, um mercado estimado em US$ 71,5 bilhões até 2032.

Entre os lançamentos apresentados em Riade, destaca-se a submetralhadora RPC (Raging Pistol Carbine) em calibre 9x19mm, a "pequena notável" que chega para competir com a Heckler & Koch MP5, submetralhadora alemã de calibre 9 mm, mundialmente reconhecida por sua confiabilidade, precisão e design compacto. 

Mas é a conjunção entre essa participação em Riade e as informações sobre o desenvolvimento de metralhadoras leves e pesadas nos calibres 5,56mm, 7,62mm e .50 BMG que permite deduzir um movimento estratégico de maior alcance: a iminente aquisição da fabricante turca Mertsav Savunma Sistemleri, como será visto mais abaixo.

Submetralhadora RPC: inovação sem parafusos na estrutura
Projetada sob rigorosos protocolos militares, a RPC se apresenta como uma das mais compactas, leves e de maior capacidade em sua categoria. Com opções de cano de 4,5" ou 8", a arma está disponível em duas configurações de regime de disparo: semiautomático ou automático (full auto). Totalmente modular e ambidestra, traz um pioneirismo mundial da Taurus: não possui nenhum parafuso na parte estrutural da arma.

O sistema de funcionamento por blowback com retardo de abertura utilizando roletes (roller delayed blowback) reduz significativamente o recuo durante os disparos, otimizando a controlabilidade mesmo em rajadas plenas. A submetralhadora aceita carregadores de 32 munições e oferece opções de coronha para diferentes aplicações operacionais.

Submetralhadora RPC em uma de suas versões

Taurus Military Products
A submetralhadora RPC é parte do novo portfólio Taurus Military Products, que também inclui a recém-lançada pistola TX9 em calibre 9mm, que tem como um dos principais diferenciais o Taurus Modular System (TMS), frame único com sistema de disparo comum a todos os tamanhos da plataforma, e conta com gatilho Striker-Fired de 3ª geração, além do sistema T.O.R.O. (Taurus Optic Ready Option), que o deixa pronto para o uso de miras ópticas. 

No segmento de armas portáteis, inclui o fuzil T4 (nas versões 5,56x45mm, 7,62x51mm e .300 BLK) o fuzil T4 Pistão em calibre 5,56x45mm, o fuzil T10 em .308 Win/7,62x51mm (que agora conta com a opção de cano de 16”), além do revolucionário drone armado TAS (Tactical Air Soldier).

Portfólio militar apresentado na WDS 2026:

• Pistola TX9 (calibre 9x19mm)

• Submetralhadora RPC (calibre 9x19mm)

• Fuzil T4 Pistão (calibre 5,56x45mm)

• Fuzil T4 (calibres 5,56mm, 7,62x51mm e .300 Blackout)

• Fuzil T10 (calibre .308 Win/7,62x51mm)

• Drone armado TAS - Tactical Air Soldier

Em desenvolvimento (via Mertsav):

• Metralhadoras leves (calibres 5,56mm e 7,62mm)

• Metralhadora pesada (calibre .50 BMG)

Parceria estratégica com a Marinha do Brasil
Em 10 de fevereiro de 2026, um dia antes do encerramento da WDS, a Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), celebrou um Protocolo de Intenções com a Taurus para o desenvolvimento de novos sistemas de armas leves e coletivas nos calibres 5,56, 7,62 e .50, além do inédito drone armado, destinados às tropas anfíbias. A cerimônia, realizada na histórica Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, contou com o apoio institucional do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O Comandante-Geral do CFN, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Vianna Braga, destacou a importância da iniciativa: "O armamento empregado pelo Fuzileiro Naval deve ser sempre o mais confiável. Disso depende a segurança dele, de todas as pessoas que estão à sua volta e daqueles que ele está protegendo. Assim, a busca por armamento desenvolvido especificamente para atender plenamente aos nossos requisitos operacionais representa uma excelente oportunidade".

O CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, foi direto ao afirmar: "Essa colaboração com os Fuzileiros Navais para nós é extremamente importante. Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi em calibre 5.56 mm, a 7.62 mm, e a .50. Isso é uma tecnologia que nós estamos desenvolvendo. O Brasil, a nossa Base Industrial de Defesa, tem que ampliar os seus horizontes, tem que ampliar a sua área de atuação".


Mertsav: a peça que faltava
É precisamente neste ponto que a estratégia da Taurus se revela em sua totalidade. Em 1º de abril de 2025, a empresa divulgou, por meio de Fato Relevante, a celebração de um Memorando de Entendimentos (MoU) não vinculante para possível operação de aquisição do controle societário da empresa turca Mertsav Savunma Sistemleri.

A Mertsav possui mais de 20 anos de experiência no setor de defesa e foi fornecedora durante muitos anos da indústria estatal turca. Atualmente, possui três unidades de produção nas cidades de Istambul e na Área Industrial de Defesa de Kırıkkale. Seu portfólio inclui exatamente aquilo que a Taurus necessita para cumprir o protocolo com o CFN: metralhadoras leves nos calibres 5,56mm e 7,62mm, além de metralhadora pesada em calibre .50 BMG.

Ao longo de mais de 20 anos, a Mertsav produziu os principais componentes de armas como MG-3, G-3, MP-5, HK-33, MPT-76, MPT-55, Bora-12, além de lançadores de granadas, fuzis de gás e equipamentos para desativação de explosivos. Essa expertise fez da empresa um dos mais importantes fornecedores da MKEK (Corporação de Máquinas e Indústrias Químicas), das Forças Armadas da Turquia (TSK) e da Direção Geral de Segurança (EGM).

A transação está sujeita à celebração dos documentos definitivos, bem como à realização de diligência legal, contábil e financeira pela Taurus. Após alguns adiamentos, as partes têm prazo até o final de abril de 2026, renovável por mais três meses, para concluir os estudos de viabilidade. Segundo informações divulgadas à época, caso efetivada, a aquisição reduziria em vários anos o tempo para desenvolvimento destes produtos e permitiria um salto no patamar do portfólio de produtos da empresa brasileira.

A lógica da operação
O compromisso assumido pela Taurus com o Corpo de Fuzileiros Navais, de desenvolver sistemas de armas leves e coletivas nos calibres 5,56mm, 7,62mm e .50, casa perfeitamente com o portfólio da Mertsav. Não se trata de coincidência, mas de planejamento estratégico.

A empresa brasileira já possui domínio tecnológico nos calibres 5,56mm e 7,62mm através de seus fuzis T4 e T10. O que lhe falta, precisamente, é a expertise em metralhadoras, tanto leves quanto pesadas. Desenvolver essa tecnologia do zero levaria anos e exigiria investimentos substanciais em P&D, testes de campo e homologações.

A aquisição da Mertsav resolveria esse gargalo de forma elegante. A empresa turca possui não apenas os projetos e a tecnologia, mas também as linhas de produção em operação e, mais importante, a expertise consolidada ao longo de duas décadas fornecendo para as Forças Armadas turcas, reconhecidamente uma das mais exigentes em termos de equipamento militar.

Com a Mertsav integrada, a Taurus poderia honrar o protocolo com o CFN entregando produtos já testados e comprovados, adaptados às necessidades específicas das tropas anfíbias brasileiras. Mais do que isso: posicionaria o Brasil como único país da América Latina capaz de produzir uma linha completa de armamento militar, do calibre 9mm ao .50 BMG, como afirmou a própria empresa.

Taurus Military Products (em destaque as metralhadoras e o drone armado) e o MoU com a Mertsav

O apoio do BNDES e a Nova Indústria Brasil
A presença do BNDES na cerimônia de assinatura do protocolo com a Marinha não foi meramente protocolar. Durante o evento, o presidente da instituição, Aloizio Mercadante, formalizou o apoio por meio de documento oficial e destacou que a parceria está em plena sintonia com as missões da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada em janeiro de 2024 que mobiliza R$ 3,4 trilhões em investimentos públicos e privados até 2033.

A Missão 6 da NIB, voltada para a defesa nacional, conta com R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026, sendo R$ 79,8 bilhões de recursos públicos e R$ 33,1 bilhões do setor privado. As metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) preveem alcançar 55% de domínio das tecnologias críticas para a defesa até 2026, e 75% até 2033. Atualmente, o Brasil domina 42,7% dessas tecnologias.

"Um dos esforços grandes que o BNDES precisa fazer é o resgate da Indústria Nacional de Defesa", afirmou Mercadante. "Hoje estamos trabalhando com a tropa de pronto emprego, representada pelos Fuzileiros Navais, a única 100% profissional. Nós precisamos que essa tropa se debruce sobre a produção junto com a Taurus, que possui tecnologia secular desenvolvida. Eu vejo isso como uma semente promissora, inclusive para equipamentos mais pesados e mais sofisticados".

Mercado global e posicionamento estratégico
O mercado de armas militar mundial movimentou mais de US$ 41 bilhões em 2023 e possui potencial para atingir US$ 71,5 bilhões até 2032. O segmento militar corresponde atualmente a 39% do mercado total de armas leves do mundo. Dentro desse universo, as metralhadoras leves e pesadas representam cerca de 40%, ou aproximadamente US$ 28,6 bilhões.

A Taurus, que já lidera globalmente em armas leves civis e policiais, enxerga neste segmento uma oportunidade de expansão significativa. A empresa possui unidades produtivas no Brasil, Estados Unidos e Índia, além de escritório na Arábia Saudita, um dos cinco maiores gastos militares do mundo e considerado um dos países que mais investe em defesa.

Segundo a própria Taurus, há mais de 50 países em conflito no mundo atualmente, o que gera uma demanda enorme por produtos militares. Estima-se que, somente a reposição desses equipamentos levaria ainda 10 anos se todos os conflitos cessassem hoje. 

A eventual aquisição da Mertsav também abrirá à Taurus novos mercados no Oriente Médio e em outras regiões para onde a empresa turca direciona suas vendas, complementando a estratégia de internacionalização da fabricante brasileira.

Alguns produtos da Mertsav

Cronologia e perspectivas
A cronologia dos eventos sugere uma operação cuidadosamente planejada. Em abril de 2025, a Taurus anunciou o MoU com a Mertsav. Em setembro de 2025, apresentou sua linha militar completa na feira LAAD, incluindo metralhadoras que ainda estavam "em desenvolvimento". Em fevereiro de 2026, participou da WDS em Riade apresentando a RPC e outros produtos. E, simultaneamente, firmou o protocolo com o CFN comprometendo-se a desenvolver exatamente aquilo que a Mertsav já produz.

O protocolo com a Marinha possui vigência de dois anos e prevê a realização de reuniões técnicas periódicas para avaliar o andamento dos estudos. Caso os estudos apontem soluções viáveis, poderão ser propostos futuramente novos instrumentos jurídicos para a aquisição das tecnologias desenvolvidas.

Embora a Taurus ainda não tenha confirmado oficialmente a conclusão da aquisição da Mertsav, todos os elementos técnicos, estratégicos e cronológicos apontam para a iminência dessa operação. A capacidade de honrar o protocolo com o CFN nos prazos estabelecidos depende essencialmente da tecnologia turca. E a entrada da Taurus na quarta maior feira de defesa do mundo, em Riade, exibindo um portfólio militar ampliado e recém tendo firmado um acordo com a Marinha brasileira, sinaliza confiança de que os recursos tecnológicos necessários estarão disponíveis.

Para a Base Industrial de Defesa brasileira, a possível aquisição representa um marco significativo. Caso concretizada, será a primeira vez que uma empresa brasileira absorve tecnologia estrangeira de ponta no segmento de armas coletivas com o objetivo explícito de desenvolver capacidade nacional de produção e exportação. Mais do que isso: demonstrará que o Brasil possui empresas capazes de competir globalmente não apenas em nichos comerciais, mas também no exigente mercado militar internacional.

A Taurus, que ao longo de seus 86 anos consolidou-se como maior vendedora mundial de armas leves, estaria assim dando o passo definitivo para se tornar não apenas uma fabricante de volume, mas uma empresa completa de soluções de defesa. E o Brasil, pela primeira vez passaria a ter uma indústria nacional capaz de equipar integralmente suas Forças Armadas em armamento leve e coletivo representado por pistolas, fuzis e metralhadoras, com tecnologia própria, produção local e potencial exportador.

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