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28 agosto, 2026

Taurus confirma virada estratégica e amplia core: de armas leves para veículos não tripulados

Em entrevista exclusiva ao LRCA, o CEO Global Salesio Nuhs detalha portfólio de doze sistemas, nova governança e estratégia de financiamento, mas mantém sob sigilo contratual o nome do parceiro tecnológico do projeto e uma negociação internacional em curso



*LRCA Defense Consulting - 28/08/2026

A Taurus Armas está promovendo a mudança mais significativa de seu posicionamento estratégico desde a migração de armas curtas para armas coletivas: a incorporação de sistemas aéreos e terrestres não tripulados ao núcleo do negócio, ao lado das armas leves que sustentam a companhia há 87 anos. O movimento foi anunciado publicamente durante o COP International 2026, realizado em São Paulo entre 11 e 13 de agosto, e detalhado em entrevista exclusiva concedida pelo CEO Global da empresa, Salesio Nuhs, ao LRCA.

“Não estamos apresentando novos produtos. Estamos apresentando uma nova Taurus”, resumiu Nuhs durante sua participação no evento, ao lado de Gelson Cardoso, gerente de inovação da companhia. A frase sintetiza um processo que começou de forma discreta no fim de 2024 e ganhou corpo ao longo de 2026, com demonstrações ao comando do Exército Brasileiro, articulação com o Corpo de Fuzileiros Navais e negociações de financiamento com órgãos federais de fomento. 

UAV de ataque (drone lançador de munição)

UAV kamikase (drone suicida)

UAV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

Um portfólio de doze sistemas, ainda sem nome oficial 
Material institucional obtido pela reportagem, usado pela companhia em apresentação ao Exército Brasileiro, detalha um ecossistema de doze plataformas: sete sistemas aéreos (UAV ISR, UAV Kamikaze, UAV de Ataque, UAV TAS, UAV Cargo e VTOL, além do Cyber Swarm, tecnologia de enxame) e cinco terrestres (UGV EOD, UGV ISR, UGV TAGS, UGV Cargo e UGV Cleaner), somados a sistemas complementares como o Cyber Launcher, hub móvel de lançamento de drones, o Cyber DiB, drone em caixa autônoma, e o Tars K9, quadrúpede modular.

O material trazia o nome “Taurus Cyber Robotics” associado ao conjunto, mas Nuhs esclareceu ao LRCA que essa denominação não é oficial. “A divisão de sistemas não tripulados ainda está em processo de estruturação e, portanto, ainda não possui uma denominação definitiva. O nome Taurus Cyber Robotics, utilizado anteriormente, foi apenas um título empregado em uma apresentação interna realizada para o Exército Brasileiro e não corresponde à denominação formal da nova divisão”, afirmou o CEO. 

VTOL (drone de asa fixa multipropósito)

UAV Cargo (drone de logística)


Cyber Swarm (enxame de drones de reconhecimento e ataque)

Do ‘soldado voador’ ao TAS disparando munição real 

A origem do projeto remonta a dezembro de 2024, quando Nuhs revelou, durante o Taurus Investor Day, em São Paulo, que a companhia estudava, com uma fabricante italiana de drones, o conceito de um “soldado voador” armado com uma submetralhadora ultraleve em desenvolvimento. Ao longo de 2025, o conceito evoluiu para o TAS (Tactical Air Soldier), quadricóptero configurável com o fuzil Taurus T4 5,56mm, a pistola-metralhadora Taurus RPC de 9mm ou lançador de granadas de 40mm, apresentado na LAAD Defence & Security 2025 e reapresentado no World Defense Show 2026, em Riade.

Em maio de 2026, no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, o TAS disparou munições reais contra alvos. O comando do Exército também assistiu, segundo o release do COP International, à demonstração de uma configuração para lançamento de munição de morteiro de 120mm. Segundo Nuhs, o TAS não foi um desvio de rota, mas uma antecipação deliberada. “O que fizemos foi antecipar especificamente esse desenvolvimento para demonstrar, na prática, nossa capacidade tecnológica e assumir o protagonismo de sermos o primeiro fabricante de armas a integrar uma arma a um drone, controlar seu voo e realizar com sucesso o disparo e o acerto do alvo”, disse. 

TAS dispara munições reais contra alvos no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre

O que a Taurus mantém internamente, e o que terceiriza 

Questionado sobre a origem da tecnologia, já que drones aéreos e terrestres são áreas historicamente alheias ao core da companhia, Nuhs afirmou que a estratégia não é desenvolver cada componente do zero. “O mercado já possui componentes amplamente consolidados e validados em áreas como baterias, sensores, sistemas de comunicação e parte da eletrônica embarcada. O foco da Taurus está nas tecnologias que realmente agregam diferencial competitivo, capacidade operacional e soberania tecnológica”, disse, citando como prioridades internas as camadas de integração, software de missão, autonomia, inteligência artificial aplicada, comando e controle e integração de armamentos.

Sobre a capacidade de levar os doze sistemas à produção seriada, o CEO foi categórico: “Não dependemos de parceiros para viabilizar a produção seriada dos sistemas. Os parceiros complementam nossa capacidade, fornecendo tecnologias e hardware especializados, enquanto a Taurus mantém o domínio da engenharia do produto, da integração dos sistemas, da industrialização, dos testes, da certificação e do suporte ao ciclo de vida”. 

UGV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

UGV TAGS (drone para apoio de fogo armado)

UGV Cleaner (drone de crearance & desminagem)

UGV EOD (drone de intervenção e manipulação)

Nova governança para dois negócios distintos 
A companhia já promoveu uma reorganização de sua Diretoria para acomodar a nova frente de negócio. Jean Castilhos foi promovido a Diretor de Engenharia, Armas, Munições e Acessórios, com a missão de preservar foco e continuidade no core tradicional da companhia. Leonardo Sesti, que já dirigia o Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia (CITE), permanece no cargo, mas passa a atuar de forma mais voltada aos veículos não tripulados. Segundo a empresa, a mudança não exigiu aprovação do Conselho de Administração, por se tratar de decisão de alçada executiva.

“Cada negócio passa a contar com liderança e responsabilidades claramente definidas, evitando dispersão de foco”, justificou Nuhs, que também rebateu, de forma direta, a leitura de que a expansão para sistemas não tripulados representaria um salto maior do que a capacidade da companhia. “Evoluímos das armas individuais, como revólveres e pistolas, para as armas coletivas, incluindo fuzis e metralhadoras, e agora avançamos para sistemas não tripulados. É uma ampliação progressiva das nossas competências dentro do mesmo ambiente de defesa e segurança, e não uma diversificação para um setor sem relação com aquilo que já fazemos”, afirmou.

Financiamento sob demanda, sem valores fechados 
A Taurus evita, por ora, divulgar o investimento total previsto para a nova área. Segundo a empresa, o planejamento estratégico prevê que o desenvolvimento da nova área seja realizado de forma gradual e financeiramente disciplinada, com utilização prioritária de instrumentos públicos de fomento à inovação, incluindo editais de subvenção econômica da Finep, nos quais parte dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação pode ser suportada por recursos não reembolsáveis. A companhia também mantém tratativas com o BNDES e poderá realizar aportes próprios dentro do orçamento vigente, preservando sua geração de caixa e sem comprometer os investimentos e a operação do negócio tradicional.

A empresa evitou, também, comentar como a aquisição em curso da fabricante turca de armas coletivas Mertsav Savunma se concilia, no fluxo de caixa, com os investimentos em sistemas não tripulados, informando apenas que ambos os projetos seguem o mesmo princípio de disciplina financeira e que valores não serão antecipados antes da conclusão da due diligence. 

Cyber Laucher (drone lançador de múltiplos UAVs)

UGV Cargo (resgate e logística)


Cyber Dib (drone em caixa autônoma)

Parceiro do TAS e negociação internacional seguem em sigilo

Nem todas as perguntas enviadas pelo LRCA foram respondidas em detalhe. A Taurus confirmou que existe cláusula contratual que impede a divulgação do nome do fabricante brasileiro de drones do agronegócio, parceiro no desenvolvimento do TAS. A empresa também confirmou que negocia uma primeira aquisição internacional de um sistema de menor escala, mencionada no release do COP International, mas não revelou país, cliente ou sistema envolvido, alegando compromissos de confidencialidade.

Questionada diretamente se avalia comprar, licenciar tecnologia ou formar uma joint venture com alguma empresa de drones para viabilizar o portfólio de doze sistemas, a Taurus respondeu que a possibilidade não está descartada, embora não haja negociação em curso nesse sentido no momento.

Protocolo com o CFN segue em vigor, em paralelo ao Exército 
Um ponto que parecia contraditório entre a cobertura anterior do LRCA e a fala do CEO foi esclarecido ao longo das perguntas enviadas pela reportagem. Em maio de 2026, o LRCA havia noticiado que o Corpo de Fuzileiros Navais assinara protocolo de intenções com a Taurus para o desenvolvimento de um drone armado destinado a tropas anfíbias. Nuhs, por sua vez, havia dito que o desdobramento do projeto para a Marinha viria “em uma etapa seguinte” à validação com o Exército. Questionada sobre a aparente contradição, a empresa esclareceu que o protocolo com o CFN segue vigente e está sendo tratado de forma concomitante ao trabalho já em curso com o Exército, e não apenas em etapa posterior.
TARS K9 (Taurus Robotic Soldier K9)


O contexto: uma Base Industrial de Defesa em ebulição 
A movimentação da Taurus ocorre em meio a um adensamento acelerado do segmento de sistemas não tripulados na Base Industrial de Defesa brasileira. Em maio de 2026, o Exército recebeu o primeiro robô EOD inteiramente produzido no País, fabricado pela Ambipar Robotics, de Jacareí (SP). No campo aéreo, a XMobots avança com a versão armada do Nauru 1000C, equipado com mísseis Enforcer Air desenvolvidos com a MBDA, além do conceito de enxame do Nauru 100D. O Estado-Maior do Exército mantém, ainda, consulta pública aberta para a aquisição de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas de categoria 3 (SARP 3), sinalizando que o emprego de aeronaves armadas deve deixar de ser exceção nas Forças Armadas brasileiras nos próximos anos.

O que ainda falta esclarecer 
A Taurus chega ao fim desta apuração com um discurso consistente sobre governança, disciplina financeira e divisão de competências entre o que desenvolve internamente e o que terceiriza. Ao mesmo tempo, mantém sob sigilo contratual informações que normalmente pesam na avaliação de risco de um projeto dessa envergadura: o nome do parceiro tecnológico central do TAS, os termos da negociação internacional em andamento e o valor total a ser investido na nova frente de negócio ao longo dos próximos anos. A empresa também não estabeleceu, até o momento, um teto de investimento ou um percentual de receita que sirva de limite para o projeto, condicionando o ritmo de expansão à disponibilidade de recursos de fomento e à evolução dos requisitos operacionais definidos junto às Forças Armadas. 


Uma aposta alinhada à guerra do futuro 

O momento escolhido pela Taurus para essa virada não é aleatório. Conflitos recentes, da Ucrânia ao Oriente Médio, consolidaram os sistemas não tripulados como elemento decisivo do campo de batalha contemporâneo, capazes de neutralizar blindados, artilharia e ativos de alto valor a um custo muito inferior ao das plataformas que substituem. Diante dessa mudança de paradigma, fabricantes tradicionais de armamento em todo o mundo enfrentam a mesma escolha: adaptar-se à lógica dos sistemas autônomos e integrados, ou correr o risco de ver seu portfólio tradicional perder relevância estratégica diante de forças mais bem equipadas para o combate não tripulado.

Ao decidir alterar seu próprio core de negócio, incorporando robótica e inteligência artificial à sua base histórica em armas leves e coletivas, a Taurus se posiciona no lado ofensivo dessa transformação, e não no reativo. É uma postura de inovação pouco comum entre fabricantes tradicionais, que tendem a proteger o negócio consolidado até que a disrupção se torne inevitável. Se a companhia conseguir sustentar essa transição com a mesma disciplina de governança e capital que hoje descreve em discurso, o resultado pode ser uma Taurus estrategicamente mais relevante do que jamais foi como fabricante apenas de armas leves: uma das poucas empresas de defesa mundiais capazes de entregar, sob uma mesma marca, todo o espectro que vai do revólver ao sistema autônomo integrado.

Essa aposta também carrega um fator que não pode ser desprezado na avaliação de risco: o histórico do próprio executivo à frente da decisão. Salesio Nuhs assumiu o comando global da Taurus em 2018, quando a companhia enfrentava dificuldades financeiras severas e chegou a ser cotada como candidata a uma recuperação judicial. Em pouco mais de meia década, sob sua gestão, a empresa se reergueu a ponto de se tornar a maior vendedora de armas leves do mundo em volume, em um turnaround considerado "de livro" no setor. Se as mesmas características de liderança, iniciativa e capacidade de execução que sustentaram essa recuperação se repetirem na nova frente de sistemas não tripulados, as chances de que o movimento atual também dê certo são, no mínimo, consideráveis.

O tamanho dessa aposta, porém, é proporcional ao risco de execução. O sucesso deste novo turnaround dependerá menos do portfólio já demonstrado, e mais da capacidade da empresa de transformar protótipos e demonstrações em contratos recorrentes, sem comprometer o caixa nem a rentabilidade do negócio tradicional que ainda sustenta a companhia. É essa equação, entre ousadia estratégica e disciplina de execução, que definirá se a Taurus estará indo além do que suas capacidades permitem ou se, realmente, liderará a próxima geração da indústria de defesa brasileira.

27 abril, 2026

Taurus antecipa integração com a Mertsav e apresenta armas turcas como parte de seu portfólio militar

A maior vendedora de armas leves do mundo apresentou a militares, policiais e autoridades um portfólio com metralhadoras e lançadores de granada de uma empresa turca que ainda não foi formalmente adquirida, mas que, na prática, já opera como parte da família Taurus

Imagem destaca as metralhadoras e os laçadores de granadas da Mertsav ao lado 
de duas submetralhadoras Taurus RPC 9mm com supressores

*LRCA Defense Consulting - 27/04/2026

Havia algo incomum no salão da AMTT São Paulo entre os dias 13 e 17 de abril de 2026. Entre pistolas, fuzis e o drone armado TAS, produtos inequivocamente brasileiros, saídos das linhas de produção da Taurus em São Leopoldo (RS) e nos Estados Unidos, militares das forças armadas e integrantes das forças policiais manuseavam armas que não constam de nenhum catálogo oficial da empresa gaúcha. 

Ao menos, não ainda, embora na postagem que fez em suas mídias sociais a empresa tenha escrito que "a Taurus recebeu, na AMTT São Paulo, profissionais e autoridades das Forças Armadas e Policiais para uma agenda de apresentações e demonstrações técnicas de seu portfólio Taurus Military Products".

Algumas das armas apresentadas são turcas, produzidas pela Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de Istambul e Kırıkkale que a Taurus está em negociações para adquirir há mais de um ano e que, segundo o Fato Relevante mais recente, publicado em 2 de abril de 2026, ainda aguarda a conclusão de auditorias, negociações finais e aprovações regulatórias para ter a operação efetivada.

No entanto, o que se viu na AMTT conta uma história diferente. Uma história de integração que, na prática, já está em curso.

O que estava no salão
O portfólio apresentado sob o guarda-chuva Taurus Military Products reunia produtos de origens distintas, mas com uma identidade visual e comercial unificada. Do lado brasileiro, estavam presentes as submetralhadoras RPC 9mm nas versões de cano de 8" e 4,5", ambas equipadas com supressores, a arma revolucionária que a Taurus posiciona como concorrente direta da HK MP5 e que não possui nenhum parafuso na estrutura, um pioneirismo mundial declarado pela empresa.

Também figuravam a pistola TX9 (lançada no World Defense Show de Riade, em fevereiro), os fuzis T4 e T10 em diferentes calibres, e o TAS - Tactical Air Soldier, o drone armado desenvolvido em parceria com uma empresa brasileira especializada, cuja estação de tiro é de fabricação Taurus.

Do lado turco, e este é o ponto central desta matéria, o salão contava com um conjunto expressivo de sistemas assinados pela Mertsav:

Metralhadoras:

  • MMG556: metralhadora leve calibre 5,56mm NATO, compatível com carregadores STANAG e correia M27, com três opções de comprimento de cano;

  • MMG762: metralhadora de médio calibre 7,62mm NATO, variante aprimorada da FN Minimi 7,62 (Maximi/Mk.48);

  • MHMG-127: metralhadora pesada calibre 12,7mm (.50 BMG), projetada para atingir alvos terrestres e aéreos a longa distância.

Lançadores de granada e fuzil com acoplamento:

  • TAC 40: lançador de granada standalone calibre 40 mm;

  • MPA 440: lançador de granadas calibre 40 mm, de repetição múltipla, com sistema de funcionamento por ação de bombeamento;

  • TAN: fuzil de assalto 5,56mm com lançador de granada acoplado, também de origem Mertsav.

Nenhum desses sistemas é ainda fabricado pela Taurus. Nenhum deles está no portfólio formal da empresa brasileira. Mas todos foram apresentados, lado a lado com produtos Taurus, a militares e policiais brasileiros sob o mesmo rótulo comercial: Taurus Military Products.



O que isso significa
A pergunta que naturalmente emerge é: por que uma empresa apresenta, em evento institucional para as Forças Armadas e Policiais de seu próprio país, produtos de uma fabricante estrangeira que ainda não adquiriu?

A resposta mais simples e provavelmente a mais correta é que, operacionalmente, a aquisição já está resolvida. O que falta são os ritos formais: a conclusão da due diligence, a assinatura dos contratos definitivos e as aprovações regulatórias nos dois países envolvidos.

Esta não seria a primeira vez que a lógica dos negócios corre à frente do papel. Em março de 2026, o próprio CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, revelou em uma live que a empresa havia vencido licitação internacional para o fornecimento de 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro via Estados Unidos. Ou seja, a Taurus já vende armas Mertsav para as Forças Armadas do país que sedia a Taurus, antes de a aquisição da Mertsav estar concluída.

Em fevereiro de 2026, a Marinha do Brasil assinou com a Taurus um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas nos calibres 5,56mm, 7,62mm e .50 BMG, precisamente os calibres das três metralhadoras Mertsav exibidas na AMTT. Na cerimônia, realizada na Fortaleza de São José, no Rio de Janeiro, Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus, foi direto: "Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi em calibre 5,56mm e 7,62mm, e a .50."

A presença do BNDES na assinatura daquele protocolo, com o presidente Aloizio Mercadante formalizando apoio por documento oficial, indica que o projeto tem respaldo da política industrial do governo federal, inserido na Missão 6 da Nova Indústria Brasil, dotada de R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026.

Uma empresa que vende antes de ser comprada
A Mertsav não chegou ao radar brasileiro sem credenciais. Antes de aparecer nas apresentaçoes da Taurus, a empresa turca já havia conquistado contratos recentes e relevantes em dois países do Sudeste Asiático.

Para o Exército da Malásia, forneceu 86 metralhadoras pesadas MHMG-127 após disputa com 14 concorrentes. Para os Fuzileiros Navais das Filipinas, saiu vitoriosa com 95 unidades da MMG762, sendo a única licitante a atender todos os requisitos técnicos e financeiros da concorrência. Curiosamente, nessa mesma disputa, Mertsav e Taurus competiram separadamente em outra licitação, para fuzis, como concorrentes diretos. Ambas perderam para a sul-coreana Dasan Machineries.

Essa cena resume bem o estágio em que as duas empresas se encontravam até recentemente: orbitando os mesmos mercados, disputando os mesmos clientes, mas ainda de lados distintos do balcão.

O evento na AMTT de abril de 2026 sugere que esse período chegou ao fim.

O salto que a Taurus quer dar
Para entender a magnitude do movimento, é preciso ter em mente o que a Taurus é hoje e o que pretende ser. A empresa gaúcha, fundada há 86 anos, consolidou-se como a maior vendedora de armas leves do mundo, com mais de 82% de seus produtos exportados para os Estados Unidos. É líder em pistolas e revólveres, com fábricas no Brasil, EUA e Índia.

O que ela não tem e a Mertsav tem é expertise em armas coletivas: metralhadoras leves e pesadas, e lançadores de granada. Desenvolver essa tecnologia do zero exigiria anos de P&D, testes extensivos e homologações custosas. A aquisição da Mertsav, se concluída, comprime esse caminho de forma dramática.

A ambição declarada é explícita: tornar a Taurus a única empresa no mundo capaz de fabricar armas do calibre .22 LR ao .50 BMG, disputando um mercado estimado em US$ 71,5 bilhões até 2032. Para isso, a companhia criou uma nova diretoria específica para o portfólio militar, recrutando um executivo brasileiro com duas décadas de experiência em Israel, referência mundial no setor de defesa.

Caso a aquisição se concretize, como tudo indica, as armas Mertsav passarão a ser produzidas também no Brasil, sem desativação das unidades turcas. A Taurus Turquia se tornaria a quarta unidade produtiva do grupo no mundo.

CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de Henrique Gomes, Diretor da Divisão Militar e Exportação, em visita de cortesia ao General de Exército Basto, Comandante Militar do Sul (CMS), e ao General de Divisão Ferraz, Comandante da 3ª Região Militar (3ª RM)

O sinal mais claro até agora
Desde o primeiro Memorando de Entendimentos, assinado na LAAD de abril de 2025, a operação acumulou prorrogações e adiamentos. O mercado acostumou-se a aguardar o anúncio definitivo. Mas poucos sinais foram tão concretos quanto o que se viu na AMTT de São Paulo.

Apresentar armas turcas para oficiais das Forças Armadas e policiais brasileiras, em evento fechado de alta credibilidade institucional, não é um gesto de intenção. É um gesto de confiança operacional. É o tipo de apresentação que se faz quando o produto já faz parte da família, mesmo que o cartório ainda não tenha registrado o nome.

Mas se a AMTT foi o palco, o que veio a seguir foi a plateia de mais alto escalão até agora. Em 22 de abril, cinco dias após o encerramento do evento em São Paulo, o próprio CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de Henrique Gomes, Diretor da Divisão Militar e Exportação, realizou uma visita de cortesia ao General de Exército Basto, Comandante Militar do Sul (CMS), e ao General de Divisão Ferraz, Comandante da 3ª Região Militar (3ª RM). Na pauta: as atualizações do portfólio Taurus Military Products e os projetos desenvolvidos em alinhamento às necessidades operacionais do Exército Brasileiro.

A escolha do Comando Militar do Sul não é geograficamente acidental. Porto Alegre, sede do CMS e da 3ª RM, fica a menos de 50 quilômetros de São Leopoldo, onde está a principal fábrica da Taurus. A empresa e o Exército são vizinhos há décadas. Mas uma visita de cortesia do CEO a um general de quatro estrelas, com o diretor da divisão militar ao lado e com o portfólio de armas coletivas na pasta, tem um peso diferente de uma reunião de rotina. É o tipo de agenda que se realiza quando há um negócio sério a discutir, e quando se quer que os mais altos escalões da força armada sejam os primeiros a saber o que está por vir.

A sequência dos eventos de abril de 2026, AMTT em São Paulo e visita ao CMS em Porto Alegre, descreve uma empresa em movimento coordenado: apresenta o produto para o corpo técnico e operacional, depois leva o CEO e o Diretor da Divisão Militar para alinhar com o topo da cadeia de comando regional. É a lógica de quem não está mais vendendo uma ideia, mas entregando uma realidade.

A Taurus ainda não adquiriu a Mertsav no papel. Mas em abril de 2026, entre o salão da AMTT e o gabinete do Comandante Militar do Sul, as armas turcas já portavam um sobrenome brasileiro, e os generais provavelmente já sabem disso.

06 abril, 2026

Brasil e Turquia: a aliança industrial de defesa que está redesenhando o mapa geopolítico do Sul Global

Da ratificação legislativa aos contratos concretos, a parceria bilateral entre Brasília e Ancara avança a passos largos e pode transformar a indústria de defesa dos dois países por décadas, com implicações diretas na Embraer, Akaer, SIATT e Taurus 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 06/04/2026

Havia quatro anos que o documento aguardava. Assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022, o Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre Brasil e Turquia percorreu um longo caminho burocrático antes de ganhar força de lei. O Senado Federal brasileiro aprovou o projeto (PDL 262/2024) em setembro de 2025. Agora, nos primeiros dias de abril de 2026, o acordo cruzou o último obstáculo: a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) aprovou o texto por unanimidade, encaminhando-o ao plenário para votação final.

O vice-ministro das Relações Exteriores turco, Mehmet Kemal Bozay, foi além do protocolo diplomático durante a sessão. Segundo a transcrição oficial da comissão, ele afirmou que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções", citando projetos em andamento com a Embraer, a Akaer Engenharia e programas conjuntos de drones como o ANKA e o AKSUNGUR. Em outras palavras: mesmo antes da ratificação formal, o acordo já havia gerado realidade industrial.

Embraer e TUSAŞ: quando o jato comercial aponta para o cargueiro e o caça
O símbolo mais visível da cooperação foi selado em abril de 2025, durante a LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro. A Turkish Aerospace (TUSAŞ) e a Embraer assinaram um Memorando de Entendimento para explorar a colaboração industrial, incluindo a potencial produção dos jatos comerciais E2 da Embraer, especificamente o E190-E2 e o E195-E2, na Turquia. O vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin acompanhou pessoalmente a cerimônia de assinatura.

Mas analistas do setor rapidamente perceberam que o acordo vai muito além de jatos regionais. O Ministro da Defesa do Brasil, José Mucio, disse à Reuters que a Embraer está negociando a venda da aeronave de transporte militar KC-390 para a Turquia, Polônia e Finlândia. O KC-390, que compete diretamente com o lendário C-130 Hercules da Lockheed Martin, já foi selecionado por oito países europeus, a maioria deles membros da OTAN, entre 2019 e 2025, somando cerca de 29 aeronaves encomendadas ou planejadas.

Há ainda uma terceira camada, mais ambiciosa: especialistas cogitam a possível participação brasileira no desenvolvimento do caça de 5ª geração KAAN, projeto estratégico da TUSAŞ. O primeiro protótipo do KAAN está previsto para voar entre maio e junho de 2026, com outros dois protótipos em construção. Nenhuma das empresas confirmou oficialmente esse desdobramento, mas a lógica industrial da parceria aponta nessa direção.

O motor que fez história: Kale e SIATT
Um dos marcos mais concretos da cooperação bilateral aconteceu de forma quase silenciosa, mas com enorme peso estratégico. Durante a LAAD 2025, a empresa Kale Jet Engines confirmou o contrato de exportação inaugural do motor turbojato KTJ-3200 para atender a demanda da brasileira SIATT e seu míssil antinavio MANSUP-ER. Foi a primeira exportação desse motor fora da Turquia.

O significado é duplo. Para a Turquia, representa a consolidação de sua indústria de propulsão no mercado internacional. Para o Brasil, resolve um gargalo crítico: o CEO da SIATT, Rogério Salvador, afirmou durante a LAAD 2025 que a indústria brasileira de turbinas não teria disponível e "pronto para uso" o motor pretendido pela empresa.

O MANSUP-ER, graças ao uso do motor turbojato, terá um alcance superior a 200 km, um salto significativo em relação aos 70 km do MANSUP original, que usa propulsão a foguete. O míssil é um projeto conjunto Brasil-Emirados Árabes Unidos e já foi adquirido pelas marinhas dos dois países. A SIATT já iniciou a integração do KTJ-3200 no MANSUP-ER, com múltiplos motores a serem entregues para testes de voo.


Akaer: a engenharia brasileira no coração dos programas turcos
Menos conhecida do grande público, a empresa paulista Akaer Engenharia, sediada em São José dos Campos, representa um caso raro de integração profunda em programas estratégicos estrangeiros. Desde 2023, a empresa participa do programa HÜRJET, o treinador avançado e avião de combate leve em desenvolvimento pela TUSAŞ, sendo responsável pelo projeto estrutural, cálculos e instalação de sistemas da fuselagem traseira e empenagens.

A parceria é a demonstração prática de que o Brasil não é apenas um comprador de tecnologia turca, mas também um fornecedor de competências de alto nível. A relação foi incrementada ainda mais em 2025, com um MoU entre a Akaer e a Aselsan, empresa turca líder em eletrônica de defesa, para o desenvolvimento conjunto de soluções na área.


 

Taurus mira a Turquia e um mercado de US$ 74 bilhões
A movimentação mais recente, e também a de maior repercussão no mercado financeiro, envolve a Taurus Armas. Em 2 de abril de 2026, a empresa apresentou uma proposta não vinculante para adquirir o controle acionário da Mertsav Savunma Sistemleri, companhia turca especializada no desenvolvimento e na fabricação de sistemas de armas de médio calibre.

A lógica estratégica por trás da operação é direta. A Mertsav possui três unidades de produção em Istambul e na Área Industrial de Defesa de Kırıkkale, além de um portfólio que inclui metralhadoras leves nos calibres 5,56 mm e 7,62 mm, metralhadoras pesadas calibre .50 BMG e outros armamentos. Trata-se exatamente do segmento de produtos que a Taurus precisa incorporar para ampliar sua atuação no mercado militar e, inclusive, atender compromissos já assumidos com o Corpo de Fuzileiros Navais brasileiro.

Ao adquirir a Mertsav, a Taurus encurtaria em vários anos o desenvolvimento dessa linha de armamentos e daria um salto de capacidade no segmento militar. Como esta Consultoria já observou anteriormente, a operação teria um significado inédito: seria a primeira vez que uma empresa brasileira absorveria tecnologia estrangeira de ponta no campo das armas coletivas com o objetivo explícito de nacionalizar sua produção e, posteriormente, exportá-la.

Mais do que uma aquisição corporativa, a operação representaria uma mudança de identidade para a Taurus. A empresa deixaria de ser apenas a maior vendedora mundial de armas leves para se transformar em um fabricante completo de sistemas militares, com produtos que abrangeriam desde o calibre .22 LR até o .50 BMG.

Para a própria Mertsav, a transação também mudaria radicalmente sua posição no mercado. Deixaria de ser uma empresa turca pouco conhecida internacionalmente para se tornar a fornecedora da tecnologia que equipará duas Forças Armadas brasileiras. Isso porque, por meio de uma licitação internacional vencida pela Taurus, a empresa fornecerá 300 metralhadoras pesadas calibre .50 ao Exército Brasileiro.

Se a aquisição for concluída, a Taurus passará a contar com unidades produtivas no Brasil, nos Estados Unidos, na Índia e na Turquia, tornando-se uma das poucas fabricantes de armamentos do hemisfério sul com presença efetivamente global.

A geopolítica por trás dos contratos
O que está sendo construído entre Brasília e Ancara não é apenas uma série de acordos comerciais. É uma reconfiguração estratégica que responde a um momento de fragmentação global.

A cooperação Brasil-Turquia reflete o esforço brasileiro de diversificar suas parcerias internacionais, reduzindo dependências históricas e buscando inovação em setores estratégicos da defesa. Do lado turco, a lógica é simétrica: a indústria de defesa do país busca ampliar mercados além da OTAN, e o Brasil, com cerca de US$ 25 bilhões gastos anualmente em defesa, representa um cliente estratégico de primeira ordem.

A Turquia foi bem-sucedida na fabricação de drones e se tornou um exportador influente, com papel importante em conflitos como o de Nagorno-Karabakh, projetando sua indústria de defesa para o cenário mundial. O Brasil, por sua vez, já aparece entre os novos atores que ganharam espaço no mercado europeu de defesa, ao lado de Coreia do Sul e Turquia, segundo relatório da Fondation pour la Recherche Stratégique.

A complementaridade é quase perfeita: a Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. O acordo de 2022, ao proteger propriedade intelectual e permitir transferência de tecnologia, cria o arcabouço legal para explorar exatamente essa sinergia.

O que vem a seguir
Com a ratificação turca iminente no plenário da TBMM, espera-se uma aceleração dos projetos em curso. Fontes diplomáticas indicam novas rodadas de negociação e visitas técnicas ainda em 2026. O primeiro voo do MANSUP-ER está previsto para meados deste ano. A Taurus aguarda conclusão da due diligence com a Mertsav. E a TUSAŞ promete pelo menos duas novidades relevantes na feira SAHA 2026.

A parceria que começou como um protocolo de intenções assinado em 2022 tornou-se, em quatro anos, um eixo concreto da política industrial de defesa de dois países que querem ser protagonistas, e não coadjuvantes. na ordem global que se redesenha.

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