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15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


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LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

08 setembro, 2026

SIATT e Safran avançam para cooperação estratégica em defesa no Brasil

Acordo entre a SIATT, empresa do EDGE Group, e a Safran Electronics & Defense prevê explorar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e tecnologias críticas, com destaque para a criação de capacidade brasileira de desenvolvimento e produção de motores-foguete de propelente sólido 
 


*LRCA Defense Consulting - 08/09/2026

A SIATT, empresa brasileira do EDGE Group especializada em sistemas de armas inteligentes e integração de sistemas, assinou nesta terça-feira, 8 de setembro, um Memorando de Entendimento (MoU) com a Safran Electronics & Defense para explorar uma nova frente de cooperação tecnológica e industrial no Brasil. O acordo envolve sistemas de mísseis, munições vagantes (loitering munitions), defesa costeira e tecnologias associadas, mas seu ponto de maior alcance estratégico está na intenção de estabelecer, em território brasileiro, capacidade para desenvolver e produzir motores-foguete de propelente sólido. 

Motores-foguete passam ao centro da nova parceria 
Segundo o anúncio do EDGE, a cooperação deverá avaliar a implantação dessa capacidade nas instalações da SIATT no Brasil. O entendimento também abrange tecnologias consideradas críticas para sistemas de armas modernos, entre elas unidades de medição e navegação inercial, receptores GNSS, atuadores, miras eletro-ópticas e sistemas de busca e aquisição de alvos (seekers).

A iniciativa ainda está em fase exploratória. O MoU não representa, por si só, um contrato de produção, uma joint venture já constituída ou a definição de um sistema de armas específico. O que está formalmente estabelecido é um marco para estudar projetos e formas de cooperação. Essa distinção é importante porque o comunicado não informa cronograma, investimento, modelo societário ou quais produtos serão desenvolvidos inicialmente.

O momento industrial da SIATT 
A assinatura ocorre apenas 13 dias depois de a SIATT colocar em operação a Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no Vale do Paraíba. A planta, com 6.200 m² de área construída nessa primeira etapa, foi concebida para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados aos setores de Defesa e Espaço. 

A coincidência temporal não prova que o MoU com a Safran tenha sido motivado diretamente pela nova fábrica, mas cria uma conexão industrial evidente: a SIATT passa a contar justamente com uma infraestrutura projetada para ampliar sua atuação em propulsão e, agora, anuncia uma parceria com uma das maiores empresas europeias do setor aeroespacial e de defesa para estudar a criação de uma capacidade específica de motores-foguete sólidos.

Segundo o LRCA Defense Consulting, a nova unidade de Caçapava faz parte de um processo de expansão industrial do EDGE no Brasil e foi planejada em três fases. Ao final da implantação, a previsão divulgada é de 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos. 

Nova unidade em Caçapava (SP)

Uma lacuna histórica da indústria brasileira 
A propulsão de mísseis é uma das áreas mais sensíveis de uma cadeia de defesa. O motor-foguete não é apenas um componente de um míssil, mas um elo determinante para desempenho, alcance, aceleração, armazenamento e disponibilidade operacional do sistema. A capacidade de projetar e fabricar esse componente em escala industrial reduz dependências externas e pode facilitar a evolução de diferentes famílias de armas.

No caso brasileiro, o MANSUP é um exemplo particularmente relevante. O programa contou historicamente com a participação da AVIBRAS no desenvolvimento do motor-foguete e da integração dos protótipos, enquanto a SIATT ficou responsável pelo sistema de guiagem, navegação, controle e telemetria.

Isso significa que a nova iniciativa não deve ser interpretada como simples repetição do que a SIATT já fazia no MANSUP. O movimento anunciado agora aponta para a possibilidade de a empresa ampliar sua competência industrial em propulsão, potencialmente transformando uma capacidade vinculada a programas específicos em uma competência transversal aplicável a diferentes sistemas.

A parceria EDGE e Safran ganhou velocidade em 2026 
O acordo anunciado no Brasil é mais um capítulo de uma aproximação que ganhou força ao longo de 2026. Em fevereiro, EDGE e Safran Electronics & Defense assinaram um Memorando de Entendimento para explorar o desenvolvimento, a produção e a comercialização de sistemas avançados de armas ar-superfície, com possibilidade de evolução para sistemas superfície-ar e uma nova geração de armas inteligentes.

Em junho, durante a Eurosatory 2026, em Paris, os grupos assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica mais amplo. No dia seguinte, anunciaram os termos para duas possíveis joint ventures, uma nos Emirados Árabes Unidos e outra na França, além de uma linha de desenvolvimento conjunto de uma arma guiada de maior alcance baseada na família Hammer. 

A extensão dessa parceria ao Brasil, por meio da SIATT, amplia geograficamente a cooperação e acrescenta uma dimensão industrial que interessa diretamente à Base Industrial de Defesa brasileira. O próprio EDGE afirmou que o acordo brasileiro leva sua rede global de parcerias para o País e associa a Safran à SIATT na construção de capacidade de motores-foguete em território nacional.

Tecnologias críticas além da propulsão 
Outro aspecto relevante do MoU é a amplitude das tecnologias mencionadas. Sistemas de medição inercial e navegação são fundamentais para determinar a posição, atitude e trajetória de um míssil ou veículo, enquanto receptores GNSS podem complementar a navegação em determinados perfis de missão. Atuadores transformam os comandos do sistema de controle em movimentos físicos, e sensores eletro-ópticos e buscadores podem fornecer informações para aquisição, acompanhamento ou guiagem do alvo.

A Safran já possui presença industrial consolidada no Brasil. A empresa informa ter mais de 750 empregados no País, distribuídos por quatro unidades, e atua em equipamentos aeronáuticos, aviônicos, optrônicos, sistemas de navegação e motores de helicópteros. O Ministério da Defesa também incluiu, em maio de 2026, diversos produtos da Safran Electronics & Defense Brazil na relação de Produtos Estratégicos de Defesa, incluindo sistemas de navegação inercial, miras panorâmicas, telêmetros e equipamentos de observação. 

Portanto, o novo entendimento reúne duas bases industriais complementares: de um lado, a Safran, com décadas de presença e conhecimento tecnológico no País; de outro, a SIATT e o EDGE, com crescente capacidade de desenvolvimento, integração, produção e internacionalização de sistemas de armas.

O que pode surgir dessa cooperação 
O comunicado não identifica quais mísseis ou munições serão desenvolvidos, nem informa se algum projeto existente será adaptado. Ainda assim, a combinação das áreas citadas permite visualizar algumas possibilidades industriais: novos mísseis de alcance ampliado, sistemas de defesa costeira, munições de permanência e armas guiadas que utilizem diferentes combinações de navegação, sensores e propulsão.

Há também uma dimensão potencialmente importante para o setor espacial. A nova unidade de Caçapava foi planejada para atuar simultaneamente em Defesa e Espaço, inclusive com motores-foguete e outros sistemas propulsivos. O compartilhamento de competências entre esses dois domínios pode ampliar a escala econômica de tecnologias de alto valor e contribuir para a retenção, no País, de conhecimento relacionado à propulsão.

Brasil ganha capacidade, mas a autonomia dependerá da execução 
Sob a ótica da Base Industrial de Defesa, o aspecto mais significativo do anúncio é menos o nome da parceria e mais a possibilidade de transformar cooperação tecnológica em capacidade industrial permanente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece a defesa como setor estratégico para soberania, inovação, geração de empregos qualificados e reindustrialização, além de destacar a inserção competitiva do Brasil em cadeias globais de valor.

A entrada de uma empresa como a Safran pode acelerar a maturação de competências da SIATT e abrir acesso a mercados e tecnologias que seriam mais difíceis de desenvolver isoladamente. Ao mesmo tempo, o resultado para a autonomia tecnológica brasileira dependerá do grau de transferência efetiva de conhecimento, da participação de profissionais e fornecedores nacionais, da propriedade intelectual estabelecida em cada projeto e da capacidade de manter no País etapas críticas de desenvolvimento, produção, testes e qualificação.

Por enquanto, portanto, o anúncio deve ser lido como o início de uma nova frente de cooperação, e não como uma capacidade já operacional. Mas o momento em que ele ocorre é significativo: a SIATT acaba de colocar em funcionamento uma planta preparada para mísseis e motores-foguete, o EDGE está ampliando sua presença industrial brasileira e a Safran procura aprofundar sua cooperação com o grupo. Se os estudos previstos no MoU forem convertidos em projetos concretos, o Brasil poderá ganhar um novo polo de competência em propulsão e tecnologias críticas para armas guiadas.

Um movimento que reforça a posição do Vale do Paraíba 
O acordo também reforça a concentração, em São José dos Campos e no entorno, de competências brasileiras e internacionais relacionadas a defesa, aeroespacial e espaço. A região já reúne empresas, universidades, institutos de pesquisa e organizações ligadas a sistemas complexos. A expansão da SIATT, somada à crescente presença do EDGE e à histórica atuação da Safran no País, acrescenta mais um elemento a esse ecossistema.

O principal indicador a acompanhar daqui para frente será a passagem do entendimento para contratos, programas e investimentos. Se isso ocorrer, o MoU de 8 de setembro poderá ser lembrado não apenas como mais uma parceria empresarial, mas como o ponto de partida para uma capacidade industrial brasileira de motores-foguete sólidos associada a uma cadeia mais ampla de sensores, navegação, controle e sistemas de armas.

04 setembro, 2026

EDGE conclui compra da Akaer e usa participação da SIATT para preservar selo de empresa estratégica de defesa

Com fatia minoritária da SIATT na aeroespacial de São José dos Campos, grupo dos Emirados Árabes Unidos fecha a terceira aquisição na base industrial de defesa brasileira desde 2023



*LRCA Defense Consulting - 04/09/2026 

O EDGE, conglomerado estatal de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta sexta-feira (4) a conclusão da compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos (SP). O anúncio confirma o fechamento do negócio cujo acordo de compra e venda de ações, o share purchase agreement, havia sido assinado em cerimônia realizada em julho, quando as partes revelaram a intenção de transferir 100% do capital da companhia brasileira ao grupo emiradense.

Segundo comunicado da EDGE, todas as condições precedentes usuais para o fechamento da operação foram cumpridas, o que torna a Akaer, na prática, uma subsidiária integral do grupo dos Emirados. “A conclusão desta aquisição marca um importante passo para a EDGE no Brasil. Aguardamos com expectativa a contribuição contínua da Akaer para o ecossistema de defesa do País e a força que seu talento de engenharia traz às capacidades da EDGE em todo o grupo”, disse Hamad Al Marar, diretor-presidente (CEO) da EDGE.

A novidade: SIATT entra no capital da Akaer 
O ponto que distingue esta etapa da operação em relação ao que havia sido anunciado em julho é a estrutura societária adotada para viabilizar o fechamento. A EDGE informou que, como parte da transação, uma participação minoritária no capital da Akaer será mantida pela SIATT, empresa brasileira de mísseis e sistemas de alta tecnologia da qual o próprio grupo emiradense já é sócio. Segundo a EDGE, esse desenho societário reflete a estrutura corporativa acertada para a aquisição, com o objetivo de preservar o enquadramento da Akaer como Empresa Estratégica de Defesa (EED), classificação concedida pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias consideradas essenciais à defesa nacional.

A fórmula chama a atenção porque, até então, o mecanismo discutido publicamente para a manutenção do status de EED da Akaer era a permanência de uma participação brasileira direta, nos moldes do que ocorre na própria SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm o controle votante da empresa. Ao colocar a SIATT, e não um sócio brasileiro independente, como titular da fatia minoritária da Akaer, a EDGE cria uma cadeia societária em que uma empresa já parcialmente sua passa a deter parte de outra companhia do mesmo grupo em solo brasileiro. O desenho definitivo da governança e o percentual exato reservado à SIATT não foram detalhados pelas empresas.

Quem é a Akaer
Fundada em 1992 e sediada em São José dos Campos, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia aeroespacial em programas civis e militares. A empresa participou do desenvolvimento do caça F‑39 Gripen, da Força Aérea Brasileira; do cargueiro multimissão KC‑390 Millennium, da Embraer; da revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha P‑3AM Orion; e venceu, em 2023, a licitação para modernizar o blindado EE‑9 Cascavel do Exército. A companhia também assina o Opto‑ThermoScan, sistema de medição de temperatura corporal, e foi selecionada recentemente pela alemã Deutsche Aircraft para fabricar a fuselagem dianteira do turboélice D328eco, tornando‑se a primeira fornecedora brasileira de nível 1 (Tier 1) da indústria aeroespacial global.

A companhia já trabalhava em parceria com a EDGE no desenvolvimento e na industrialização de sistemas não tripulados antes mesmo da aquisição, incluindo o programa de drone de grande porte JENIAH. Segundo o diretor financeiro (CFO) da EDGE, Rodrigo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo emiradense no momento do anúncio, em julho.

Como a venda chegou a esse ponto 
A negociação avançou em meio a dificuldades financeiras enfrentadas pela Akaer, que acumulou dívidas e passou a ter problemas para honrar compromissos com funcionários e fornecedores. Em julho, Torres afirmou à CNN Brasil que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram a EDGE durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da empresa, pedindo que se avaliasse uma parceria capaz de impedir a falência da companhia. O governo havia liberado, via Finep, R$ 41,3 milhões para a Akaer; parte da verba foi cancelada em 2025 em razão de um suposto desvio de recursos.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deve permanecer como consultor da EDGE por um período de um a dois anos, segundo apurado à época do anúncio. A estrutura acionária da companhia também facilitou a operação: a sueca Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua fatia integralmente recomprada pela então controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que dispensou a negociação com um sócio estrangeiro na operação com a EDGE.

Terceira aquisição do grupo emiradense na defesa brasileira 
A Akaer é a terceira compra da EDGE na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023. As duas anteriores foram a SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm 50,1% do capital e 60% do capital votante, e a Condor Tecnologias Não Letais, líder mundial em armamentos não letais, na qual a EDGE detém participação majoritária. Executivos do grupo já afirmaram publicamente que o investimento acumulado da EDGE no Brasil soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões). O valor pago pela Akaer não foi divulgado pelas empresas.

Com Akaer, Condor e SIATT sob o mesmo guarda-chuva, o grupo passa a reunir, dentro do País, capacidades que vão do projeto conceitual de plataformas (com a Akaer) a mísseis guiados e sistemas de navegação (com a SIATT) e armamentos não letais (com a Condor). A Akaer também aparece, segundo dossiê do International Institute for Strategic Studies (IISS) sobre sistemas não tripulados no Oriente Médio, como parceira de projeto do motor do REACH-S, UAV da ADASI, subsidiária da EDGE, e do Samoom, drone da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Questionamentos sobre soberania 
A operação também gerou reação de entidades ligadas à ciência e à engenharia nacionais. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Clube de Engenharia e outras entidades levaram à Presidência da República um pedido de suspensão da operação e de auditoria, argumentando que a manutenção do enquadramento como EED para uma empresa de controle integralmente estrangeiro representa um nó jurídico ainda não resolvido. Até a conclusão do negócio, o governo não havia explicitado publicamente o critério que seria adotado para validar a preservação do status da Akaer.

Analistas da BID citam como precedente a aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram, no médio prazo, a migrar para fora do raio de influência nacional, o que reforça o interesse em acompanhar como a EDGE conduzirá a governança e a transferência de tecnologia na Akaer.

O que observar daqui para frente 
Falta ainda esclarecer o percentual exato da participação da SIATT no capital da Akaer e o desenho final de governança que sustentará o enquadramento como EED perante o Ministério da Defesa. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pela EDGE para o Brasil, inclusive em cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão agora observado, de uma empresa do próprio grupo servindo de veículo para cumprir exigências societárias brasileiras, se repetirá em outras companhias da base industrial de defesa nacional.

27 agosto, 2026

SIATT liga a produção de mísseis e foguetes em Caçapava e avança na consolidação da base industrial de defesa

Primeira fase da planta, com 6.200 m² de área construída, reforça a Base Industrial de Defesa e amplia a capacidade da empresa em mísseis, foguetes guiados e motores-foguete para os setores de Defesa e Espaço



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A SIATT iniciou, nesta quarta-feira (26), a operação da Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no interior de São Paulo. A cerimônia reuniu autoridades civis e militares, executivos do Grupo EDGE e da própria empresa, marcando uma nova etapa da expansão que o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos vem promovendo na Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

Com 6.200 m² de área construída nesta primeira fase, a nova planta amplia a capacidade da SIATT para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar sistemas de defesa considerados de alta complexidade, entre eles mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados também a aplicações espaciais. Segundo a empresa, a unidade foi concebida para apoiar programas estratégicos brasileiros e para permitir ampliações sucessivas, conforme a evolução das demandas do País e do mercado internacional.

A mesa da cerimônia reuniu o Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luis Fernandes; o Vice-Governador de São Paulo, Felicio Ramuth; o Presidente do Conselho de Administração da SIATT, Azhaury Cunha Filho; o Presidente do Cluster de Mísseis e Armamentos do Grupo EDGE, Saif Al Dahbashi; o Prefeito de Caçapava, Yan Lopes de Almeida; o Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Viana Braga; o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, General Hertz Pires do Nascimento; e o Diretor-Presidente da SIATT, Rogerio Salvador.

"Um país que pretende decidir sobre o próprio futuro precisa também decidir as suas escolhas, e essa liberdade se sustenta não apenas em meios militares, mas também em ciência, engenharia e uma indústria capaz de transformar conhecimento em soluções concretas", disse o Diretor-Presidente da SIATT durante a cerimônia.

Já o Presidente do Conselho de Administração da empresa, Azhaury Cunha Filho, associou a nova planta à sede da SIATT em São José dos Campos, inaugurada no ano passado. "Existe uma diferença fundamental entre dominar uma tecnologia e possuir a capacidade industrial de produzi-la de forma recorrente, confiável e em escala. A nossa sede em São José dos Campos e esta planta de Caçapava representam justamente essa transição. Estamos transformando conhecimento acumulado durante muitos anos em uma capacidade industrial permanente", afirmou. 


Continuidade de um ciclo de investimentos
A entrada em operação da Fase 1 não é um evento isolado. A unidade de Caçapava já vinha sendo construída desde pelo menos 2025, quando a SIATT apresentou o projeto durante a LAAD, e passou a concentrar, ao longo deste ano, entregas relevantes para as Forças Armadas: em maio, a empresa entregou ao Exército Brasileiro, em Formosa (GO), o primeiro lote de produção em série do míssil MAX 1.2 AC, fabricado justamente na planta paulista, que responde tanto pela fabricação dos motores quanto pela montagem final dos sistemas.

A fábrica também está associada ao programa MANSUP, míssil antinavio de superfície da SIATT, que recebeu encomenda de US$ 350 milhões dos próprios Emirados Árabes Unidos; a demanda ajudou a viabilizar, em escala, um programa que, sem parceiro externo, teria mais dificuldade de sair do papel. A SIATT é ainda a integradora do SisGAAz, programa estratégico de vigilância e monitoramento do litoral brasileiro.

Fortalecimento da Base Industrial de Defesa 
Para a SIATT, a ampliação da planta de Caçapava se insere em um movimento mais amplo de consolidação da BID e de busca do País por maior soberania e autonomia tecnológica em setores estratégicos. Ao ampliar o domínio de tecnologias críticas e reforçar a estrutura fabril, a empresa afirma buscar reduzir dependências externas e aumentar a capacidade nacional de produzir sistemas essenciais à Defesa Nacional, além de abrir caminho para novas parcerias com empresas, instituições de ciência e tecnologia e organizações nacionais e internacionais.

O caso da SIATT também ilustra a estratégia do Grupo EDGE no Brasil desde que se tornou acionista e parceiro estratégico da empresa, em 2023. O conglomerado dos Emirados Árabes Unidos já expandiu a fábrica da Condor, em São Paulo, e assumiu papel de destaque na tentativa de solução para a crise da Akaer, movimento que partiu do próprio Ministério da Defesa. O histórico do grupo no País sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia já desenvolvida no Brasil. 


Empregos e próximas fases 
A implantação da Unidade Caçapava está estruturada em diferentes fases; as Fases 2 e 3 preveem novas ampliações da infraestrutura e aumentos sucessivos da capacidade de produção. Quando concluído, o projeto deverá gerar 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos, além de consolidar um ecossistema regional formado por empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições de engenharia e tecnologia.

Segundo a SIATT, à medida que essas etapas avançarem, a empresa poderá atender a um número maior de programas estratégicos do Brasil e buscar novas oportunidades no mercado internacional, em alinhamento com as políticas de Estado e com as diretrizes brasileiras para a exportação de produtos e tecnologias de Defesa.

Sobre a SIATT 

A SIATT é uma EED (Empresa Estratégica de Defesa) sediada em São José dos Campos, com parque industrial que inclui a subsidiária de Caçapava. Especializada em armamentos inteligentes, a empresa fornece sistemas de Defesa baseados em mísseis e é a integradora do SisGAAz. Desde 2023, o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, é acionista e parceiro estratégico da empresa.

25 agosto, 2026

Da Mertsav ao KC-390: o que um Conselho Estratégico pode destravar entre Brasil e Turquia

De metralhadoras pesadas e drones a mísseis e caças, blindados, motores turbojato e aviões de transporte, as indústrias dos dois países já convergem em pelo menos cinco frentes; um acordo governo a governo tende a transformar negociações em curso em contratos fechados



*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.

Um ponto de partida antigo 
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.

O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.

Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.

Cinco frentes já em movimento 
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa. 

Do lado dos aviões de transporte, o interesse é recíproco e crescente: o comandante da Força Aérea da Turquia visitou pessoalmente o KC-390 em operação em Portugal, em maio de 2026, num momento em que a frota turca de C-130 sofre pressão após a perda de uma aeronave, com toda a tripulação, na Geórgia, em novembro de 2025, e que a Grécia (rival e vizinha) sinaliza a compra do C-390.


Blindados
O programa "Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas", que prevê 65 carros de combate e 78 veículos de combate de infantaria, afunilou-se a quatro finalistas, entre eles o Tulpar, da turca Otokar. Em outubro de 2025, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, visitou a fábrica da Otokar em Sakarya; em abril de 2026, foi a vez do chefe do Estado-Maior, general Montenegro Junior, repetir a visita durante a LAAD 2026. A Otokar já sinalizou abertura para transferência de tecnologia e produção local, e a comunalidade entre a torre HITFACT MkII do Tulpar e a do Centauro II, já em uso no Brasil, é um argumento técnico a favor do blindado turco. 


Armas leves e coletivas
A Taurus negocia, desde a LAAD de abril de 2025, a aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de metralhadoras leves e pesadas. Mesmo antes de a operação ser formalizada, a Taurus já venceu, via Estados Unidos, uma licitação para fornecer 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro, e a Marinha assinou, em fevereiro de 2026, um protocolo com a Taurus para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas baseados justamente nos modelos turcos. Em abril de 2026, armas da Mertsav já eram apresentadas ao lado de produtos Taurus, sob o mesmo rótulo comercial, em evento institucional para as Forças Armadas. 


Mísseis
O míssil antinavio MANSUP-ER, da brasileira SIATT, ganhou alcance superior a 200 km (ante 70 km da versão original) graças ao motor turbojato KTJ-3200, da turca Kale Jet Engines, primeira exportação desse motor para fora da Turquia. O arranjo é trilateral, com o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, financiando e trazendo a Repkon, também turca, para a fabricação do corpo estrutural do míssil. 


Drones e defesa antiaérea
O drone Bayraktar TB2, da Baykar, é elegível ao edital brasileiro de VANTs armados, e o comandante do Exército já visitou a fábrica da empresa em 2025. O modelo mais recente, o TB3, é um dos itens hoje discutidos para eventual produção local destinada ao Sisfron, o sistema de monitoramento de fronteiras.

O que muda com um acordo mais amplo 
Se essa é a fotografia do presente, a pergunta relevante é o que um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, com mandato para elaborar um roteiro bilateral, pode destravar em cada uma dessas frentes nos próximos anos.

No caso dos blindados, o efeito mais provável é político, não técnico. A decisão sobre o Tulpar já deveria seguir critérios de desempenho, custo e transferência de tecnologia; um guarda-chuva governo a governo tende a funcionar como acelerador de cronograma e como garantia de continuidade caso o programa avance por mais de um ciclo eleitoral, hipótese nada trivial em um contrato bilionário que atravessa gestões.

No caso da Mertsav, o acordo mais amplo dificilmente muda a lógica comercial da operação, que é da Taurus, mas pode acelerar aprovações regulatórias dos dois lados, sobretudo as que dependem de autorizações de exportação de tecnologia sensível de armas coletivas. Uma Taurus Turquia operando como quarta unidade produtiva do grupo, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Índia, é um desfecho que já está desenhado; o que falta é o ritmo burocrático acompanhar o ritmo comercial.

O item mais promissor, e também o mais urgente do ponto de vista turco, é o aeronáutico. A Turquia precisa substituir uma frota de C-130 envelhecida e agora sob suspeita, depois do acidente fatal de novembro de 2025; comprou, como solução-ponte, C-130J usados da Royal Air Force, mas essa é uma resposta de curto prazo. O KC-390 já conquistou doze países, incluindo, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, sua estreia no Oriente Médio; um pedido turco, ainda que modesto no primeiro lote, teria peso simbólico desproporcional ao tamanho do contrato, pois colocaria o cargueiro brasileiro operando ao lado de aliados da OTAN na fronteira do Mediterrâneo Oriental, região de alta tensão geopolítica. Um acordo governo a governo, no molde do que já se pratica com a exportação de armas Mertsav, tende a ser o instrumento mais rápido para viabilizar essa venda, já que reduz a exposição de ambos os lados a processos de licitação aberta. 


Há ainda uma camada mais especulativa, mas que a imprensa turca já verbaliza havia meses: uma eventual participação brasileira, via Embraer ou Akaer, no desenvolvimento do caça de quinta geração KAAN, cujo primeiro protótipo voou em 2026. Nenhuma das duas empresas confirmou esse desdobramento, e é prudente tratá-lo como hipótese, não como fato; mas a lógica industrial da parceria, com a Akaer já dentro da estrutura do HÜRJET e da relação com a Aselsan, aponta nessa direção, e um Conselho Estratégico é exatamente o tipo de mecanismo político que costuma anteceder decisões desse porte.

No campo dos mísseis, o modelo trilateral do MANSUP-ER (Brasil integrando, Emirados financiando, Turquia fornecendo propulsão e componentes estruturais) já demonstrou funcionar. É razoável esperar que esse arranjo sirva de referência para outros programas, sobretudo em defesa antiaérea de curto alcance e sistemas contra drones, área em que a experiência turca, testada nos conflitos do Cáucaso e do Oriente Médio, é reconhecida internacionalmente.

Uma complementaridade, não uma dependência 
O argumento que sustenta essa aproximação não é apenas comercial. A Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. Nenhum dos dois países está entregando ao outro uma dependência estratégica; ambos preenchem lacunas específicas nas cadeias industriais um do outro, o que é uma condição bem mais saudável, do ponto de vista de soberania, do que a relação clássica entre fornecedor único e comprador cativo.

Para o Brasil, gastando algo como US$ 25 bilhões anuais em defesa, a Turquia representa uma fonte de tecnologia livre de restrições ITAR e BAFTA, o que facilita exportações futuras de produtos que incorporem componentes turcos. Para a Turquia, cujo setor de defesa busca mercados além da OTAN, o País é um cliente de peso e uma porta de entrada para toda a América Latina, região onde a Otokar já negocia com a Colômbia e o KC-390 desperta interesse além das fronteiras brasileiras.

O risco a monitorar é o inverso do entusiasmo: acordos governo a governo tendem a acelerar processos que já estão tecnicamente maduros, mas raramente resolvem, por si só, gargalos orçamentários. O programa de blindados do Exército convive com restrições fiscais conhecidas, e a decisão sobre o Tulpar deverá refletir isso independentemente do que for costurado entre os vice-presidentes.

02 agosto, 2026

Exército revela UGV armado com míssil MAX 1.2 AC durante evento no CTEx

Ambipar Robotics e SIATT integram plataforma robótica terrestre a lançador duplo do míssil anticarro nacional; VBMT Guaicurus foi apresentado com o mesmo armamento no mesmo evento 


*LRCA Defense Consulting - 02/08/2026

No dia 31 de julho de 2026, durante a cerimônia do Dia do Quadro de Engenheiro Militar, no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, o Exército Brasileiro revelou publicamente um veículo terrestre não tripulado (UGV) armado com um lançador duplo para o míssil anticarro MAX 1.2 AC. O sistema é fruto de um trabalho conjunto entre a Ambipar Robotics, responsável pela plataforma robótica, e a SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), fabricante do míssil, com apoio técnico do próprio CTEx.
A existência do UGV foi registrada em imagens exclusivas pelo jornalista Roberto Caiafa, do canal Defesa Raiz, presente no desfile do CTEx. Segundo relatou Caiafa, testemunha ocular da apresentação, trata-se de um veículo totalmente autônomo em termos de deslocamento, mas operado remotamente para o disparo dos mísseis, o que retira o atirador da linha direta de fogo e amplia a capacidade de emboscada anticarro em terrenos de risco. O jornalista classificou o desenvolvimento como uma possível revolução para o emprego da cavalaria e da infantaria brasileiras, ainda que a plataforma esteja, neste momento, em estágio de demonstração, sem data anunciada para adoção ou produção em série.
No mesmo evento, e também de forma inédita, foi apresentada uma viatura blindada multitarefa (VBMT) 4x4 Guaicurus, produzida pela IDV em Sete Lagoas (MG), equipada com o MAX 1.2 AC sobre a torre manual REMAN, da ARES Aeroespacial e Defesa. Segundo Frederico Medella, diretor comercial e de marketing da ARES, o mesmo míssil também pode ser integrado ao SARC REMAX 4, o que permitiria o disparo de dentro da viatura, sem exposição do atirador pela escotilha. As duas apresentações, do UGV e do Guaicurus, reforçam a estratégia do Exército e da indústria nacional de multiplicar as plataformas capazes de empregar o MAX 1.2 AC.
 
Vídeo do canal @1MinutodeGuerra 
O míssil MAX 1.2 AC
O MAX 1.2 AC, batizado em homenagem ao sargento Max Wolff Filho, herói da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, é um míssil anticarro superfície-superfície de médio alcance, desenvolvido pela SIATT em parceria com o CTEx. Anteriormente conhecido como MSS 1.2 AC, foi oficialmente adotado pelo Exército Brasileiro em julho de 2025, por meio do Boletim do Exército nº 28. 
Utiliza guiamento a laser por feixe (SACLOS), com alcance operacional de até 3.200 metros; em teste recente no Campo de Provas da Marambaia, atingiu 100% de acerto contra um alvo a 2.500 metros. A ogiva de carga oca é projetada para penetrar blindagens pesadas, com capacidade secundária para engajar posições fortificadas, depósitos logísticos, embarcações fluviais e helicópteros ou drones voando em baixa altitude. Em maio de 2026, a SIATT entregou ao Exército, em Formosa (GO), o primeiro lote de produção em série do míssil, fabricado em sua nova planta industrial de Caçapava (SP).
Vídeo do canal Defesa Raiz, no YouTube
Um movimento mais amplo de robotização
A revelação do UGV armado se soma a outros indícios de que a robotização terrestre avança na Base Industrial de Defesa brasileira. Em julho de 2026, a própria Ambipar Robotics já havia entregue ao Exército o primeiro robô nacional de neutralização de artefatos explosivos (EOD), destinado ao 6º Batalhão de Engenharia de Combate. 
Em maio de 2026, a Taurus Armas revelou estar desenvolvendo, em paralelo ao seu portfólio de armas convencionais, uma família de veículos não tripulados aéreos e terrestres para receber armamentos de médio e pesado calibre, sem confirmar o parceiro tecnológico. 
Analistas do setor já apontavam a Ambipar Robotics, fornecedora recorrente de plataformas robóticas ao Exército, como parceira natural para esse tipo de projeto. O Exército também já testou, em anos anteriores, o UGV THeMIS, da estoniana Milrem Robotics, equipado com a torre remota REMAX.
O que ainda falta confirmar
Até o fechamento desta matéria, nem a Ambipar Robotics, nem a SIATT, nem o Exército Brasileiro haviam divulgado nota oficial sobre o UGV armado com o MAX 1.2 AC. A informação está apoiada no registro em vídeo e no relato de Roberto Caiafa como testemunha presencial do desfile do CTEx, e ainda não foi replicada por outros veículos especializados em defesa. Tampouco há, até o momento, cronograma público de testes, adoção ou produção em série para a plataforma.

14 julho, 2026

UAVI entra na defesa e testa drone alvo aéreo com míssil MAX 1.2 AC da SIATT no CAEx

Empresa que nasceu no combate a incêndios leva ao Exército uma plataforma não tripulada capaz de rebocar alvos aéreos, testada em conjunto com a SIATT na Restinga da Marambaia


*LRCA Defense Consulting - 14/07/2026

A UAVI, empresa brasileira sediada no Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (SP) e até então conhecida por seus drones de combate a incêndio (UAVI 100 e UAVI 50 BS), apresentou oficialmente suas soluções ao ambiente de defesa nesta semana, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia (RJ). A empresa descreveu o momento como o início de uma nova fase, afirmando que a mesma engenharia usada para proteger vidas contra incêndios florestais e urbanos passa agora a ser aplicada a demandas das Forças Armadas.

Um alvo com propósito
No mesmo dia da apresentação, a UAVI participou de um teste controlado com a SIATT, empresa brasileira de mísseis integrante do Grupo EDGE. Segundo a divulgação da própria UAVI, um drone de grande porte, desenvolvido especificamente como alvo aéreo, foi utilizado para validar um sistema de defesa em cenário realista.

Imagens do teste mostram que o drone-alvo não é, ele próprio, o alvo a ser engajado. Trata-se de um multirrotor de grande porte que reboca, por meio de uma estrutura piramidal de hastes, um painel têxtil no clássico padrão quadriculado, em preto e branco, usado como referência óptica para calibração de mira e guiamento. O conceito reproduz, de forma não tripulada, o tradicional alvo rebocado, historicamente arrastado por aeronaves tripuladas presas a um cabo.

 
Por que um alvo aéreo para um míssil anticarro
O sistema testado é o míssil anticarro MAX 1.2 AC, da SIATT, de guiamento óptico do tipo beam-riding, com alcance superior a 2.000 metros. Embora sua missão principal seja contra veículos blindados, a própria SIATT já divulgou que o MAX 1.2 AC é capaz de engajar outros tipos de alvo, incluindo posições fortificadas, depósitos logísticos, embarcações fluviais e helicópteros voando em baixa altitude.

O teste no CAEx parece se inserir justamente nessa capacidade secundária de engajamento de alvos aéreos lentos. Até o momento, não há confirmação de que ele configure uma variante dedicada de defesa antidrone do sistema, hipótese que segue em aberto e deve ser tratada com cautela.

Para quê serve o teste
Para a UAVI, a iniciativa marca a estreia da empresa no fornecimento de plataformas aéreas não tripuladas ao setor de defesa, com potencial para reduzir o risco humano numa função tradicionalmente desempenhada por aeronaves tripuladas, a de rebocar alvos para testes de tiro real. Para a SIATT, o teste contribui para a validação contínua do MAX 1.2 AC, míssil já em produção seriada e adotado tanto pelo Exército Brasileiro quanto pelo Corpo de Fuzileiros Navais.

O teste ocorre em meio a uma intensa agenda de avaliações de sistemas não tripulados no CAEx, instalação que também sediou, entre 22 de junho e 3 de julho, a pré-qualificação de drones lançadores de munição e de sistemas de munições remotamente pilotadas apresentados por empresas da Base Industrial de Defesa do País.

21 maio, 2026

Brasil desenvolve sistema de defesa costeira com mísseis de até 200 km de alcance

Desenvolvido pela empresa brasileira SIATT, o SDCL integra mísseis nacionais e opera de forma autônoma em território e águas costeiras.

Imagem renderizada do Catálogo da Base Industrial de Defesa do Ministério da Defesa


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LRCA Defense Consulting - 21/05/2026

O Brasil dispõe de um sistema de defesa costeira desenvolvido integralmente pela indústria nacional. O SDCL (Sistema de Defesa de Costa e Litoral), produzido pela SIATT (Engenharia, Indústria e Comércio), está catalogado no portfólio da Base Industrial de Defesa do Ministério da Defesa e foi concebido para proteger o litoral brasileiro contra ameaças marítimas e terrestres.

O sistema emprega os mísseis antinavio MANSUP e MANSUP-ER, ambos de fabricação nacional, com capacidade de designação de alvos a partir de múltiplas fontes e sensores, incluindo VANTs (veículos aéreos não tripulados) e satélites.

Plataforma lançadora
A viatura lançadora de mísseis está disponível em duas configurações: tração 6x6 e tração 8x8. Na plataforma 8x8, comporta até quatro mísseis; na 6x6, até dois. O alcance de tiro varia entre 10 km e 200 km, com cálculo de tiro embarcado e capacidade de disparo remoto a partir de posições móveis.

Projetada para operação expedicionária autônoma, a plataforma utiliza viaturas de alta mobilidade com compatibilidade a todo-terreno, permitindo emprego descentralizado e integração entre sensor e efeito.

Arquitetura do sistema
O SDCL contempla um conjunto de viaturas opcionais adaptáveis à doutrina operacional, entre as quais: viatura radar de vigilância, viatura operacional e de inteligência, viatura remanuficiadora/remanejadora (reabastecimento) e viatura de manutenção.

A arquitetura de comunicações incorpora VHF, HF e SATCOM. O sistema de navegação combina INS com GNSS, garantindo navegação e orientação precisas mesmo em ambientes de guerra eletrônica.

Imagem: @Defence360

Contexto estratégico
O SDCL se insere no esforço brasileiro de fortalecer a capacidade de defesa do litoral, que se estende por mais de 7,4 mil quilômetros. Com um dos maiores pré-sais do mundo e infraestrutura portuária de relevância estratégica, o Brasil tem reforçado investimentos em sistemas de negação de área capazes de dissuadir aproximações não autorizadas.

A integração de mísseis de produção nacional ao sistema reforça o objetivo de autonomia tecnológica na área de defesa, reduzindo a dependência de fornecedores externos para equipamentos críticos. O SDCL compõe, junto a outros programas em andamento, o portfólio da indústria de defesa brasileira voltado à proteção das águas jurisdicionais e do litoral. 

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