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22 julho, 2026

Safran equipará eVTOL da Eve Air Mobility com sistema de navegação inercial SkyNaute

Contrato fechado durante o Farnborough International Airshow prevê dois conjuntos por aeronave e estende à mobilidade aérea urbana uma tecnologia já consolidada em aplicações militares

 

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LRCA Defense Consulting - 22/07/2026

A Safran Electronics & Defense foi selecionada para fornecer seu sistema de navegação inercial SkyNaute à aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL) desenvolvida pela Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada à mobilidade aérea urbana (Urban Air Mobility, UAM). O anúncio foi feito nesta quarta-feira (22/07) durante o Farnborough International Airshow 2026, no Reino Unido, onde as duas empresas mantêm estandes e vêm anunciando uma sequência de parcerias ao longo da semana.

Pelo acordo, cada eVTOL da Eve receberá dois conjuntos do SkyNaute, arquitetura redundante já usual em sistemas de navegação críticos para a segurança de voo. Segundo o comunicado das empresas, o sistema mantém desempenho mesmo quando os sinais do Sistema Global de Navegação por Satélite (GNSS) estão indisponíveis, degradados ou sujeitos a interferência, um requisito considerado central para operações de táxi aéreo em ambiente urbano, onde a densidade de construções e a proximidade de outras aeronaves reduzem a margem de erro aceitável.

O que é o SkyNaute
O SkyNaute é um sistema híbrido de navegação inercial e GNSS baseado na tecnologia patenteada HRG Crystal (Hemispherical Resonator Gyroscope, giroscópio ressonador hemisférico) da Safran. O princípio físico substitui os giroscópios a laser ou a fibra óptica tradicionais por um ressonador de sílica em forma de casca hemisférica, do tamanho aproximado de uma cápsula de café, que a Safran descreve como capaz de operar por mais de um milhão de horas médias entre falhas sem desgaste mecânico relevante.

A vantagem prática dessa arquitetura é o tamanho: o conjunto ocupa cerca de três litros e pesa perto de três quilos, o que o torna competitivo em peso e consumo elétrico frente a sistemas inerciais de desempenho equivalente. Para um eVTOL, cuja autonomia depende diretamente da economia de cada quilograma de carga útil, esse ganho de massa tem peso direto na equação comercial da aeronave.

Uma tecnologia de dupla utilização
O SkyNaute não nasceu para a aviação urbana. A Safran já emprega a família HRG Crystal em aplicações de defesa terrestre, naval e espacial, e o próprio sistema equipa o programa de modernização dos helicópteros de ataque Tiger, de forças armadas europeias, além de aeronaves civis certificadas. A empresa descreve a tecnologia como uma estratégia de uso dual, na qual desenvolvimentos amadurecidos no mercado militar migram para aplicações civis certificáveis, e vice-versa.

Benjamin Declety, vice-presidente executivo da unidade global de aviônicos da Safran Electronics & Defense, afirmou que o fornecimento à Eve coloca a expertise da companhia em navegação inercial a serviço da próxima geração da aviação civil. Já Johann Bordais, CEO da Eve Air Mobility, disse que a integração de uma solução avançada de navegação é essencial para maximizar segurança, confiabilidade e desempenho do eVTOL da empresa.

Um Farnborough de anúncios acumulados para a Eve
O contrato com a Safran chega em uma semana de agenda carregada para a Eve Air Mobility no salão britânico. Dias antes, em 17 de julho, a empresa já havia firmado memorando de entendimento com a Hitachi Energy para estudar a infraestrutura elétrica de vertiportos, incluindo carregamento de alta potência e o reaproveitamento de baterias de aeronaves como armazenamento estacionário de energia. Em 19 de julho, véspera da abertura do evento, a Eve também anunciou carta de intenções com a Shearwater Global Capital para até 16 eVTOLs, movimento que se soma a uma carteira que a empresa afirma superar 2.700 compromissos de compra.

Paralelamente, a Eve avança nos ritos regulatórios do programa: a companhia atualizou nesta semana o status da certificação junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e à Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), mantendo abertas as consultas técnicas com a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) para validação concorrente do projeto. O protótipo de engenharia em escala real da empresa, batizado PR-EVE, soma dezenas de voos desde sua estreia em dezembro de 2025 e se prepara para a fase de voos de transição, etapa mais exigente da campanha de ensaios antes da produção dos primeiros protótipos conformes, prevista para começar ainda neste ano.

Por que interessa à base industrial brasileira
Para a Embraer, cada novo fornecedor de peso que se soma ao programa da Eve reforça a tese comercial por trás da aposta da fabricante brasileira na mobilidade aérea urbana: a de que a subsidiária pode se tornar um vetor de receita relevante à medida que se aproxima a certificação, hoje projetada para 2028. A entrada da Safran, fornecedora tradicional de sistemas de aviônicos e navegação para plataformas militares e civis, inclusive brasileiras, também sinaliza a maturidade regulatória que a cadeia de fornecimento do eVTOL da Eve já alcança às vésperas da fase de voos de transição.

26 junho, 2026

Imbel e KNDS assinam memorando para produzir munições de artilharia e de blindados no Brasil

Acordo foi firmado durante a Eurosatory 2026 e está ligado ao offset do Centauro II; Imbel também renovou parceria com a Safran, enquanto a KNDS vive reestruturação acionária que aproxima Alemanha e França

Registro da assinatura do memorando de entendimento entre Imbel e KNDS, durante a Eurosatory 2026
 
*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e o grupo franco-alemão KNDS assinaram, em 18 de junho, durante a Eurosatory 2026, um memorando de entendimento (MoU) para cooperação no setor de munições de artilharia e de blindados. O documento prevê o estudo das condições para a transferência ao Brasil de capacidades de produção de munições de 105mm, 155mm e 120mm, com apoio da Direction Générale de l’Armement (DGA), agência francesa de aquisições de defesa. No mesmo evento, a Imbel também renovou parceria com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil para sistemas de controle e direção de tiro de artilharia. As duas assinaturas ocorrem em paralelo a uma reestruturação acionária da própria KNDS, que prepara a entrada do governo alemão em seu capital e uma futura oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris.

Dois memorandos em uma mesma feira
Os dois memorandos foram assinados em dias consecutivos da feira. Segundo nota publicada pela própria Imbel, a renovação do acordo com a Safran ocorreu na quarta-feira, 17 de junho. Já a assinatura do MoU com a KNDS, na quinta-feira, 18 de junho, foi confirmada pela Adidância de Defesa da França no Brasil, que descreveu a iniciativa como parte da relação estratégica de defesa entre os dois países. Essa mesma formulação foi posteriormente replicada em publicações institucionais da própria KNDS e da conta diplomática francesa no Brasil, o que indica um texto padronizado, acordado entre as partes, para a divulgação pública do acordo.

O documento com a KNDS foi assinado pelo diretor-presidente da Imbel, general de divisão R1 Ricardo Rodrigues Canhaci. Segundo a Imbel, a parceria busca fortalecer a cooperação industrial entre as empresas e os dois países, e estudar as condições para a transferência de capacidades de produção de munições para o Brasil.

Já a renovação com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil, voltada à integração de sistemas de controle e direção de tiro para a Arma de Artilharia, com foco em apoio à promoção comercial e em ampliação de oportunidades no mercado internacional, foi firmada pelo CEO da Safran Eletrônica & Defesa Brasil, David Montmasson, e pelo mesmo general Canhaci. Segundo a Imbel, a cerimônia contou ainda com a presença dos diretores Comercial, de Inovação e Industrial da empresa brasileira, e do Sr. Benjamin Faget, vice-presidente de Sistemas Optrônicos da Safran Electronics & Defense.

Munições de 105mm, 155mm e 120mm
Para a Imbel, a parceria garantiria a transferência de tecnologia para a produção de munições de artilharia de 105mm e 155mm, em padrão Otan e com alcance estendido, além de munição de 120mm para carros de combate. Uma das capacidades pretendidas é a produção local, em padrão Nato/Otan, de munições dotadas da tecnologia base bleed, recurso que amplia em pelo menos um terço o alcance total do tiro.

Já para a KNDS, o acordo facilita a importação de componentes e matérias-primas do Brasil, com potencial, no longo prazo, para que munições com a marca da própria KNDS sejam fabricadas e exportadas a partir do território brasileiro. Entre os produtos do portfólio da empresa citados como referência estão a munição de 155mm de alcance estendido LU 211 BB e a nova munição cinética de 120mm SHARD.

O acordo visa tanto o mercado interno (Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais) quanto os mercados de exportação, que atualmente registram forte demanda por munições de artilharia modernas. Um dos antecedentes que pavimentaram a assinatura foi a inauguração, em 10 de julho de 2025, na unidade de Juiz de Fora (MG), de uma nova planta de carregamento de munições pesadas com maquinário atualizado, uma das cinco fábricas que compõem a estrutura da Imbel. A data precisa da inauguração é confirmada pelo próprio site institucional da Imbel; reportagens de terceiros chegaram a situar o episódio em setembro de 2025.

O nexo com o offset do Centauro II
A munição de 120mm para uso no blindado Centauro II é resultado do offset (compensação industrial) acordado após a aquisição da viatura blindada de combate de cavalaria média sobre rodas (VBC Cav) 8x8. Em um primeiro momento, devem ser incluídas munições de treinamento dos tipos HEAT-T e HESH-T, respectivamente, alto explosivo de carga oca e alto explosivo de carga moldada, ambas traçantes.

Chama atenção a cronologia do processo: o Exército Brasileiro ainda não assinou o contrato de aquisição do primeiro lote de blindados 8x8, estimado em sete exemplares, mas já trabalha para receber o offset da munição de 120mm. Atualmente, a Força opera apenas as duas unidades do lote de avaliação, entregues entre agosto e setembro de 2024. A previsão é de uma aquisição total de até 98 exemplares, com entregas planejadas entre 2028 e 2033.

Uma parceria renovada, outra inédita
Diferentemente do memorando com a KNDS, descrito pelas partes como uma nova etapa de cooperação, o MoU entre Imbel e Safran é a renovação de uma parceria de longa data. Há registro de memorandos anteriores entre as duas empresas firmados em 2017 e em dezembro de 2020, este último também assinado por David Montmasson, então diretor-geral da Safran Eletrônica & Defesa Brasil.

A relação foi novamente renovada em dezembro de 2024, durante a 8ª Mostra BID Brasil, com a assinatura dos mesmos representantes que voltaram a firmar o acordo na Eurosatory 2026: Montmasson e o general Canhaci. Entre os resultados já colhidos dessa cooperação está a integração do sistema Gênesis de artilharia, da Imbel, a sensores e equipamentos óticos e inerciais da Safran, usada inclusive em viaturas blindadas Guarani e Cascavel.

IMBEL e Safran

Confirmações institucionais convergentes
A assinatura do MoU com a KNDS foi confirmada, com o mesmo texto padronizado, em pelo menos três canais distintos: a conta institucional da Adidância de Defesa da França no Brasil no Instagram, a página da KNDS France no LinkedIn e a cobertura jornalística especializada. Em sua publicação, a KNDS descreveu o acordo como mais uma ilustração de seu compromisso em construir parcerias de longo prazo com aliados e parceiros estratégicos, enquadrando a cooperação brasileira dentro de uma estratégia global da companhia.

Até a conclusão desta reportagem, o site institucional da Imbel havia publicado nota própria e detalhada sobre a renovação com a Safran, mas nenhuma nota equivalente sobre o conteúdo técnico do MoU com a KNDS. A própria KNDS também não havia detalhado o acordo em seus canais corporativos além da publicação padronizada no LinkedIn, o que reforça o caráter ainda preliminar do memorando, que tem natureza de intenção, não de contrato vinculante.

O pano de fundo: a reestruturação acionária da KNDS
O MoU com a Imbel foi assinado num momento de transformação societária da própria KNDS. Em 22 de junho, os governos da Alemanha e da França anunciaram acordo para que Berlim adquira uma participação de 40% na empresa, hoje detida em 50% pelo Estado francês e em 50% pela família alemã controladora da antiga Krauss-Maffei Wegmann (KMW), cuja saída planejada abriu espaço para a entrada do governo alemão.

Segundo apurou a agência Reuters, a operação avalia a KNDS entre 15 bilhões e 18 bilhões de euros, e a Alemanha também busca obter uma “ação de ouro” na unidade alemã da empresa, o que lhe daria influência ampliada sobre decisões de pessoal e estratégicas, garantindo equilíbrio de poder entre Paris e Berlim. O acordo abre caminho para uma oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris, na qual, segundo o CEO da KNDS, Jean-Paul Alary, os acionistas privados venderão 20% do capital, enquanto os Estados francês e alemão deterão 40% cada um.

A movimentação ocorre poucos dias depois de Berlim e Paris cancelarem oficialmente o programa conjunto do caça de nova geração FCAS, por divergências sobre divisão de trabalho e propriedade intelectual entre as empresas dos dois países. O contraste é relevante: enquanto um programa bilateral de defesa colapsa, a cooperação industrial entre os dois países se reorganiza por outra via, a da própria estrutura acionária da KNDS, que se posiciona como uma das principais referências globais do setor de defesa terrestre.

Notas da editoria
O memorando de entendimento entre Imbel e KNDS é, por definição, um instrumento não vinculante. As próprias partes descrevem o objetivo como “estudar as condições” para a transferência de capacidades de produção, não como o início efetivo dessa transferência. Esta editoria tratará eventuais avanços contratuais, prazos e valores como fatos novos, a serem apurados separadamente.

A reestruturação acionária da KNDS é um processo institucional em andamento, sem relação contratual direta com o MoU brasileiro; sua menção tem caráter de contexto, para situar o momento em que a cooperação com o Brasil foi firmada.

19 janeiro, 2026

Safran vende participação na EZ Air para Embraer em movimento estratégico


*LRCA Defense Consulting - 19/01/2026

A gigante aeroespacial francesa Safran anunciou nesta segunda-feira a venda de sua participação de 50% na EZ Air, joint venture de interiores de aeronaves localizada no México, para sua parceira brasileira Embraer. A transação marca uma reorganização estratégica nas operações de interiores de cabine da Safran, que vem implementando um robusto programa de recompra de ações.

Detalhes da transação
A operação inclui a participação da Safran na unidade fabril de Chihuahua, além de atividades de pós-venda e trabalhos de engenharia no Brasil. O valor da transação não foi divulgado pelas empresas. Com o acordo, a fábrica de Chihuahua, que emprega aproximadamente 1.100 pessoas, passará a ser 100% controlada pela Embraer.

As partes da Safran Cabin Brazil relacionadas à fabricante brasileira serão transferidas para a Embraer, enquanto os demais serviços de engenharia permanecerão sob controle da empresa francesa. A conclusão da operação está sujeita a aprovações regulatórias e outras condições habituais.

Sobre a EZ Air
Originalmente estabelecida pela Zodiac Aerospace antes de sua aquisição pela Safran em 2018, a EZ Air fornece interiores completos para as aeronaves regionais E-Jet das séries E1 e E2 da Embraer, incluindo compartimentos de bagagem, cozinhas, banheiros, painéis de piso e paredes laterais.

A joint venture, iniciada em 2013, representava uma parceria estratégica importante entre as duas empresas. Com a Embraer assumindo o controle total, a fabricante brasileira ganha maior autonomia sobre a cadeia de suprimentos de seus jatos regionais, produtos que são fundamentais em seu portfólio.

Contexto estratégico
A movimentação da Safran ocorre em um momento de forte desempenho financeiro para a companhia francesa. O grupo tem executado um ambicioso programa de recompra de ações no valor de 5 bilhões de euros entre 2025 e 2028, tendo já realizado 1,4 bilhão de euros em 2025. Apenas em janeiro de 2026, a empresa iniciou uma nova tranche de recompra de até 500 milhões de euros.

A presença da Safran no México permanece significativa mesmo após a venda da EZ Air. O grupo mantém operações em Tijuana e Chihuahua dedicadas a equipamentos aeronáuticos, incluindo fiação elétrica, trens de pouso e sistemas de controle de voo. Em Querétaro, a empresa opera duas plantas especializadas em propulsão aeronáutica, produzindo componentes críticos para motores CFM56 e LEAP.

Chihuahua: hub aeroespacial
A região de Chihuahua consolidou-se como um dos principais polos aeroespaciais da América do Norte, abrigando operações de empresas como Honeywell, Bell Helicopter, Textron Aviation, entre outras. O cluster aeroespacial local possui mais de 40 operações certificadas e se posiciona como centro estratégico para manufatura e MRO (manutenção, reparo e revisão) no continente.

Perspectivas
Para a Embraer, a aquisição representa maior integração vertical e controle sobre componentes essenciais de suas aeronaves regionais, segmento onde a companhia brasileira mantém posição de liderança global. A fabricante tem investido consistentemente na modernização de sua linha E2, que compete diretamente com modelos de Airbus e Boeing no mercado de jatos regionais.

Já a Safran demonstra foco em concentrar recursos em suas áreas principais: propulsão aeronáutica, sistemas eletrônicos de defesa e equipamentos aeroespaciais de maior valor agregado. A empresa recentemente adquiriu as atividades de controle de voo e atuação da Collins Aerospace por 1,8 bilhão de dólares, reforçando sua posição em sistemas de missão crítica.

A transação deverá ser concluída nos próximos meses, após o cumprimento das condições regulatórias necessárias.

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