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*LRCA Defense Consulting - 08/03/2026
Quando Johan Segertoft, vice-presidente da Saab e chefe da
unidade de negócio dos caças Gripen, desembarcou em Lisboa e declarou ao Expresso
que o seu avião é "o caça mais avançado do mundo", muitas
sobrancelhas se ergueram. O F-35, afinal, é considerado o padrão dourado da
aviação de combate ocidental: furtivo, interligado, produzido pela americana
Lockheed Martin com o peso da NATO nas costas. O que poderia um caça sueco de
tamanho médio ter a dizer-lhe?
Muito, segundo Segertoft. E Portugal parece estar a ouvir
com uma atenção que, há apenas dois anos, seria improvável.
O momento em que tudo mudou
Durante décadas, a Força Aérea Portuguesa sonhou com o F-35.
Em 2019, a sua liderança reiterou publicamente esse desejo. O avião de quinta
geração, com a sua furtividade característica e sensores integrados de última
geração, era o horizonte natural para substituir os 28 F-16AM e BM que compõem
a frota atual, aeronaves que se aproximam velozmente do fim da vida útil.
Mas o mundo mudou. Em março de 2025, o ministro da Defesa,
Nuno Melo, anunciou o cancelamento da aquisição dos F-35, citando preocupações
com custos, imprevisibilidade das relações com Washington e a necessidade de
privilegiar alternativas europeias. A mudança de posição ocorreu num contexto
de tensões crescentes entre a Europa e os EUA, com o governo Trump a pressionar
aliados através de tarifas comerciais e a tornar os parceiros europeus menos
confortáveis com uma dependência excessiva de equipamento militar americano.
Embora os EUA tenham aumentado a pressão nos últimos dias, foi neste vácuo que a Saab entrou com passo firme.
O argumento sueco: não é furtividade, é software
A Saab não tenta vender o Gripen como um substituto do F-35
em termos de furtividade. Admite a diferença. O que contesta é a relevância
crescente dessa característica no campo de batalha moderno.
Executivos e engenheiros da empresa argumentam que os
avanços tecnológicos em aviônica tornaram a furtividade menos decisiva do que
era. A eficácia de uma aeronave, segundo esta visão, mede-se cada vez menos
pela velocidade ou agilidade e cada vez mais pela capacidade de usar poder
computacional para superar o adversário.
No centro desta filosofia está a arquitetura de software do
Gripen E, aquilo que a própria Saab compara, nas palavras de Segertoft, a um
iPhone: um dispositivo cujo hardware permanece estável enquanto o software
evolui continuamente. O sistema DIMA (Distributed Integrated Modular
Avionics) permite que todos os componentes da aeronave funcionem como um
único sistema integrado, com interfaces de software abertas que tornam possível
introduzir novas funcionalidades de forma ágil, sem necessidade de reverificar
o sistema inteiro.
Na prática, isto significa que o Gripen pode receber
atualizações entre missões e integrar novas capacidades em meses, em vez de
anos.
É sobre este ponto que assenta o argumento central de
Segertoft: enquanto o F-35 é, em grande medida, um produto
"congelado" numa geração, o Gripen é um sistema em permanente
evolução. A furtividade, defende, pode ser parcialmente compensada por uma
"bolha eletrônica de 360 graus" (guerra eletrônica avançada, radares AESA e
consciência situacional superior) a um custo de operação que a Saab diz ser uma
fração dos seus rivais.
A IA que pilota em combate
O argumento mais espetacular que Segertoft trouxe a Lisboa
foi o dos voos comandados por inteligência artificial. Não é ficção científica,
já aconteceu.
Em junho de 2025, a Saab e a empresa alemã de IA Helsing
anunciaram a conclusão bem-sucedida dos primeiros três voos integrando o agente
de inteligência artificial "Centaur" num Gripen E real, sobre o Mar
Báltico. Nestes voos, o agente assumiu o controle de manobras de combate além
do alcance visual, o chamado beyond-visual-range, sugerindo disparos de
mísseis contra um Gripen de treino adversário e evitando trajetórias
desfavoráveis, enquanto o piloto humano permanecia a bordo como comandante
final.
O que impressionou os analistas não foi apenas a capacidade
técnica da IA, mas a velocidade de integração: o trabalho pré-voo do agente
Centaur começou apenas seis meses antes dos primeiros testes, com o sistema
inicialmente treinado em simuladores do Gripen. Isto só foi possível graças à
arquitetura aberta do avião, que separa o software crítico de voo do software
tático, permitindo inserir o agente de IA sem tocar nos sistemas de segurança.
Segundo o próprio Segertoft, os desenvolvimentos em IA e em
sistemas não tripulados poderão também melhorar o desempenho dos pilotos
humanos, criando uma simbiose entre homem e máquina que a Saab acredita ser o
futuro do combate aéreo.
Portugal no mapa: custos, autonomia e indústria nacional
Para Portugal, a equação tem três componentes decisivos:
custo, soberania tecnológica e retorno industrial.
No que toca ao custo, a Saab garante que o preço de operação
do Gripen E corresponde a apenas uma fração do F-35 ou do Rafale francês,
embora não avance valores por unidade, pois estes dependem do número de
aeronaves encomendadas e de outros fatores negociais.
No que toca à soberania, o argumento europeu ganhou força
com a mudança de tom de Washington. A ênfase do governo Trump no comércio
recíproco e a imposição de tarifas sobre produtos europeus levaram alguns
membros da NATO a diversificar os seus fornecedores de defesa. Um caça cujos
upgrades dependem exclusivamente de autorizações americanas tornou-se, para
muitos governos europeus, um risco estratégico inaceitável.
Mas é no retorno industrial que a proposta sueca se torna
mais concreta... e mais sedutora.
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| Imagem meramente ilustrativa |
A carta da indústria: OGMA, Critical Software e o Cluster
AED
Em setembro de 2025, durante uma visita a Lisboa, a Saab
assinou memorandos de entendimento com duas empresas portuguesas: a OGMA e a
Critical Software. Em dezembro, foi a vez de um novo acordo com o AED Cluster
Portugal, a associação que reúne mais de 160 entidades do setor aeronáutico,
espacial e de defesa nacional.
A OGMA poderá participar em atividades de produção,
manutenção, reparação e revisão das aeronaves Gripen, enquanto a Critical
Software deverá envolver-se em projetos de desenvolvimento de software de
aviação de elevada complexidade.
Daniel Boestad, vice-presidente de Desenvolvimento de
Negócios Gripen na Saab, foi claro: "A OGMA e a Critical são excelentes
parceiros independentemente do que aconteça." Os acordos não estão
condicionados à compra dos Gripen por Portugal; são, segundo a empresa, uma
resposta ao aumento global de procura que a Saab enfrenta.
Para o ministro da Defesa Nuno Melo, a participação
industrial é uma condição não negociável. "Temos de produzir mais na
Europa e comprar mais na Europa", declarou. "Portugal tem de estar no
ciclo produtivo."
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| Sede da OGMA em Alverca, Portugal |
A Embraer: o elo que liga tudo
No centro desta teia industrial encontra-se um nome
inesperado para quem não conhece a história recente da aviação lusófona: a
Embraer.
A fabricante brasileira controla 65% do capital da OGMA
desde 2005. A empresa de Alverca tornou-se, ao longo de duas décadas, uma
referência europeia em manutenção, reparação e revisão aeronáutica, e é
precisamente esse histórico que a posiciona hoje como um elo estratégico entre
a Suécia e Portugal.
A Embraer já tem um papel central no programa Gripen
brasileiro. O acordo entre o Brasil e a Saab, assinado em 2014 por 5,4 bilhões de dólares para a compra de 36 caças, tornou-se o maior programa de
transferência tecnológica e industrial da história da Suécia, com a criação
estimada de 13 mil empregos diretos e indiretos. A linha de produção do Gripen
E em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, emprega atualmente 200
trabalhadores e ancora a presença industrial brasileira no programa.
A hipótese que circula nos corredores da defesa é ainda mais
ambiciosa: além de produzir os Gripen do Brasil, da Colômbia (e eventualmente do
Peru), a Embraer, através da OGMA, poderia tornar-se o hub de produção
dos Gripen destinados a Portugal e possivelmente a outros clientes europeus,
diversificando as capacidades produtivas da Saab e acelerando os seus prazos de
entrega.
Há ainda uma complementaridade operacional que a Saab não
cansa de sublinhar. O Gripen E pode ser reabastecido em voo, e Portugal está a
preparar-se para adquirir os kits de reabastecimento para os seus KC-390 da
Embraer. Segundo a Saab, a combinação das duas aeronaves, utilizadas tanto pela
Suécia como pelo Brasil, é o exemplo de uma "parceria de sucesso" que
Portugal poderia replicar.
As sombras no horizonte
A proposta sueca não está isenta de fragilidades. Uma das
principais é a dependência do Gripen E de componentes fabricados nos EUA, em
particular o motor F414G da GE Aviation, que exige licenças de exportação e
suporte de manutenção de empresas americanas, o que complica a narrativa de
"autonomia total" face a Washington.
Acresce que Portugal não tomou ainda nenhuma decisão formal.
A avaliação inclui também o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale. O processo
foi ainda perturbado por instabilidade política interna: em 2025, o
primeiro-ministro Luís Montenegro apresentou a demissão na sequência de uma
moção de censura, e as eleições subsequentes foram fator de atraso nas decisões
estratégicas de defesa.
Um momento de virada
O que se passa hoje em Portugal é, no entanto, sintomático de uma
transformação mais ampla. A Europa questiona a dependência de sistemas de armas
americanos. Os conflitos em curso, sobretudo na Ucrânia e no Oriente Médio, onde a capacidade de
atualização rápida de software e a guerra eletrônica provaram ser tão decisivas
quanto o hardware, mudaram os termos do debate estratégico.
A Saab afirma estar "pronta para apoiar Portugal na
aquisição da futura plataforma para a Força Aérea Portuguesa" e apresenta
o Gripen E como "uma solução verdadeiramente europeia, combinando
velocidade de inovação, adaptabilidade e eficiência de custos".
Se Portugal escolher o Gripen, não comprará apenas um avião.
Comprará um modelo de soberania industrial, um acesso à cadeia de valor global
de um programa aeronáutico em expansão e, através da OGMA e da Embraer, uma
posição singular na encruzilhada entre a Europa e o Brasil num dos setores de
maior valor tecnológico do século XXI.
Johan Segertoft voltou para Estocolmo. Mas o debate que
trouxe a Lisboa está longe de terminar.