Evento promovido pela FIESC apresenta o caminho para
empresas da Base Industrial de Defesa conquistarem compradores em dezenas de
países
*LRCA Defense Consulting - 20/03/2026
Num momento em que o mundo debate rearmamento e soberania
tecnológica, empresas brasileiras do setor de defesa passam a ter à disposição
uma via concreta de acesso ao mercado internacional: a inclusão de seus
produtos e serviços no Sistema OTAN de Catalogação (SOC), o padrão
global adotado pelas forças armadas de dezenas de países para identificação,
classificação e gestão de itens militares.
O passo a passo para integrar esse portfólio foi apresentado
a indústrias catarinenses em evento promovido pelo Conselho de Desenvolvimento
da Indústria de Defesa (Condefesa), da Federação das Indústrias de Santa
Catarina (FIESC), em Florianópolis, no dia 18 de março.
Um passaporte para o mercado global
O SOC é administrado pelo Comitê Aliado AC/135, formado pelo Grupo de
Diretores Nacionais de Catalogação dos 65 países integrantes do sistema,
subordinado à Conferência de Diretores Nacionais de Armamentos da OTAN. Estar
nesse catálogo equivale a ter um "passaporte" reconhecido
internacionalmente: o produto catalogado recebe um código padronizado, o
Número de Estoque OTAN (NSN), que facilita sua identificação, rastreamento e
aquisição por qualquer força armada integrante do sistema.
A participação no SOC beneficia a interoperabilidade entre
países e atribui visibilidade internacional de comercialização às empresas e a
seus produtos. Para as empresas, isso significa acesso a compradores
institucionais de alto valor, ou seja: governos, ministérios da defesa e forças armadas, em mercados antes praticamente inacessíveis.
O Brasil no sistema: de 2002 até hoje
O Brasil tornou-se membro TIER 2 do SOC em 2002 e, desde então, tem
catalogado os itens de suprimento produzidos pela Base Industrial de Defesa
nacional, permitindo a projeção internacional dos produtos de defesa fabricados
no País. O órgão responsável por representar o Ministério da Defesa junto ao
sistema é o Centro de Apoio a Sistemas Logísticos de Defesa (CASLODE).
Nos últimos anos, iniciativas concretas têm aprofundado esse
caminho. Em dezembro de 2024, o CASLODE realizou a primeira Catalogação por
Produto Classificado na Base Industrial de Defesa, proveniente da Unidade de
Catalogação CATProBr, em apoio à Associação Brasileira de Indústria de Máquinas
e Equipamentos (ABIMAQ). A nova modalidade, estabelecida pela Orientação
Técnica nº 012/2024, permite que produtos classificados como Estratégicos de
Defesa (PED) ou Produtos de Defesa (PRODE), mas não gerenciados logisticamente
pelas Forças, sejam catalogados no SOC por meio de uma Unidade de Catalogação
privada.
KC-390 e Super Tucano: os casos de sucesso
O maior exemplo do potencial dessa estratégia é o KC-390 Millennium,
avião de transporte e reabastecimento da Embraer. A aeronave já foi adquirida ou selecionada pelas forças aéreas de 11 países: Brasil, Portugal, Hungria, República da
Coreia, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Uzbequistão, Eslováquia e
Lituânia.
Mais recentemente, outro ícone da indústria aeroespacial
brasileira seguiu o mesmo caminho. O A-29 Super Tucano foi reconhecido pelo
NATO Allied Committee 135 (AC/135) e passou a usar o código SOC para
identificação e catalogação do projeto, além de possibilitar a troca de
informações e a interoperabilidade logística com outros membros da OTAN.
Para o Contra-Almirante Marcello Nogueira Canuto, diretor do
CASLODE, esses exemplos revelam uma capacidade que muitas vezes é subestimada:
"O Brasil não é um desconhecido no mercado internacional de defesa. Temos
empresas indutoras que consolidaram produtos reconhecidos e adquiridos por
membros da OTAN e países aliados."
O que muda para a indústria catarinense
Santa Catarina ocupa posição estratégica nesse cenário. O estado já é sede
de projetos estruturantes da defesa nacional, entre eles, o Programa
Fragatas Classe Tamandaré, executado em Itajaí. Das 114 empresas
estratégicas de defesa que o Brasil possui, 14 estão em Santa Catarina.
Para o diretor de Inovação e Desenvolvimento Industrial da
FIESC, José Eduardo Fiates, a catalogação no SOC representa uma mudança
qualitativa para as empresas que almejam o mercado global: "Incorporar
tecnologia ao que produzimos é uma mudança de patamar. Países que exportam
tecnologia constroem reputação, abrem mercados e ocupam posições estratégicas
na economia global." Ele ressalta, porém, que o Brasil ainda precisa
superar uma cultura historicamente voltada à exportação de commodities.
No evento, a CEO da Connectree, Elaine Rodrigues, apresentou
os serviços da empresa, que atua como Unidade de Catalogação (UniCAT)
habilitada para apoiar empresas interessadas em integrar o sistema. A presença
de uma UniCAT privada no processo é justamente o que viabiliza a participação
de indústrias de médio porte que antes dependiam exclusivamente das Forças
Armadas para ter seus produtos catalogados.
Os benefícios concretos da catalogação
Além do acesso ao mercado, entre os principais benefícios da catalogação
estão o rastreamento preciso das fontes de aquisição, a interoperabilidade
internacional entre forças armadas, a redução de estoques por meio de uma
gestão mais eficiente de itens, o desenvolvimento da indústria nacional com
maior inserção em cadeias produtivas globais e a identificação de itens
recicláveis, contribuindo para práticas mais sustentáveis na gestão de
materiais de defesa.
Do ponto de vista estratégico, o país também investe na
formação de pessoal especializado. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026,
um sargento do Exército Brasileiro concluiu o Curso de Identificadores de
Catalogación na Espanha, com o objetivo de estruturar futuramente um curso
nacional sobre o SOC.
Contexto global favorável
O movimento acontece num momento de forte expansão dos gastos militares
globais. Com o aumento do interesse de países europeus e asiáticos em
diversificar seus fornecedores de defesa, reduzindo dependência de potências
tradicionais, o Brasil e sua base industrial têm uma janela de oportunidade
rara. Estar catalogado no SOC é o primeiro passo para que uma empresa seja considerada em processos licitatórios internacionais.
A mensagem deixada pelo evento em Florianópolis é clara: a
indústria catarinense tem produtos, capacidade técnica e agora orientação para
dar esse passo. O catálogo da OTAN não é apenas uma lista, mas uma credencial de
confiança num mercado que movimenta bilhões e seleciona seus fornecedores com
rigor.