Um voo pensado para decisores
O KC-390 Millennium ficou baseado no Aeroporto de Roskilde, de onde partiu para o voo de demonstração com convidados selecionados do setor de defesa dinamarquês e de organizações ligadas ao tema, em linha com a descrição do texto original. A dinâmica seguiu o roteiro que a Embraer vem repetindo em outros países da OTAN: apresentação técnica em solo, visita detalhada à cabine e à fuselagem de carga, seguida de um perfil de voo desenhado para evidenciar desempenho, envelopes operacionais e versatilidade da plataforma. Em publicações de participantes nas redes profissionais, o evento é descrito como um encontro restrito, reunindo algumas dezenas de representantes da indústria e de instituições de defesa, o que indica um foco deliberado em formadores de opinião e atores com influência em futuras decisões de compra.
O registro fotográfico do KC-390 taxiando para decolagem em Roskilde, divulgado poucos dias depois, confirma a passagem da aeronave pelo aeroporto dinamarquês e ajuda a compor o pano de fundo visual da ação. Em imagens, o cargueiro aparece em configuração de demonstração, com pintura institucional e sem marcas de cliente final, reforçando seu papel como “showcase” oficial da Embraer em turnê internacional. O voo de 5 de março, portanto, não foi um simples “passeio” para entusiastas, mas parte de um roteiro de demonstrações cuidadosamente coordenado com stakeholders locais.
A presença de Frederico Lemos e o recado da Embraer
A participação de Frederico Lemos, CCO de Defesa & Segurança, é outro elemento que ajuda a decodificar o significado do evento. Como executivo responsável pela frente comercial internacional, Lemos atua na linha de frente das campanhas do KC-390 em mercados-chave da OTAN e da União Europeia. Sua presença em Copenhague indica que a empresa trata a Dinamarca como alvo prioritário de médio prazo, mesmo que ainda não exista um programa formal público para substituir os C-130J da Força Aérea Real Dinamarquesa.
Nos últimos anos, a Embraer investiu na construção de um “ecossistema europeu” para o C/KC-390, com seleções e encomendas já anunciadas por Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Suécia e Eslováquia, entre outros. Em cada nova parada da turnê de demonstrações, o discurso corporativo reforça dois argumentos: a consolidação de uma base de usuários europeia, com benefícios de interoperabilidade e economia de escala; e o fato de o programa ter migrado do status de “promissor” para “produto maduro”, em operação real e adotado por membros da OTAN. Nesse contexto, a ida a Roskilde dialoga diretamente com a necessidade dinamarquesa de manter interoperabilidade com parceiros que já optaram pelo cargueiro brasileiro.
KC-390 x C-130J: a disputa implícita
Embora não haja, até o momento, um anúncio oficial de concorrência aberta na Dinamarca, o pano de fundo técnico e político é claro: o KC-390 se apresenta como alternativa ao C-130J – aeronave já em serviço no país – e ao A400M em debates mais amplos sobre o futuro do transporte tático europeu. Nos briefings, a Embraer costuma enfatizar três eixos centrais de comparação: maior capacidade de carga (até cerca de 26 toneladas), maior velocidade e produtividade por ser um jato, e custos operacionais que, segundo a empresa, permanecem competitivos frente a turboélices tradicionais.
Outro ponto reiterado é a capacidade de operar em pistas semi-preparadas e em cenários de emprego ágil, incluindo missões de carga, lançamento aéreo, evacuação médica, reabastecimento em voo (como KC-390), busca e salvamento e apoio a operações especiais. Essas características se alinham às necessidades de países da OTAN envolvidos em missões expedicionárias e operações de resposta rápida, perfil no qual a Dinamarca se encaixa. Ao voar o KC-390 diante de oficiais, engenheiros e decisores dinamarqueses em Roskilde, a Embraer busca, na prática, plantar a semente de que sua aeronave pode substituir, no futuro, os C-130J hoje em uso; ou, ao menos, compor uma frota mista em parceria com aliados regionais.
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| Imagem: Lars Høy Jørgensen |
A demonstração na Dinamarca ocorre em um momento de forte tração comercial do KC-390 no continente, pois a aeronave ganhou peso político no ambiente europeu. Em comunicados recentes, a Embraer ressalta que a plataforma acumula milhares de horas de voo em operação, inclusive em missões reais de ajuda humanitária e apoio a crises, algo que costuma ser citado nos encontros com autoridades europeias como prova de maturidade operacional.
No discurso dirigido a países da OTAN, a empresa também destaca a convergência de requisitos entre os atuais clientes (Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Suécia, Eslováquia e outros) como fator que simplifica logística, treinamento e doutrina. Ao se aproximar da Dinamarca por meio de um voo de demonstração em Roskilde, a Embraer se insere deliberadamente nessa teia de relações, oferecendo o KC-390 não apenas como produto isolado, mas como parte de um cluster de capacidades compartilhadas entre aliados europeus.
Mais que um voo, um sinal ao futuro
Visto em conjunto, o evento em Roskilde deve ser lido menos como uma ação pontual de relações públicas e mais como um exercício de posicionamento estratégico de longo prazo. Ao abrir o KC-390 para decisores da indústria de defesa e da mídia especializada dinamarquesa, a Embraer busca, ao mesmo tempo, construir familiaridade técnica com a aeronave, inserir-se no debate interno sobre o futuro do transporte tático e capitalizar o momento favorável do programa na Europa. A presença de um executivo de alto escalão, o perfil dos convidados e o contexto de recentes vitórias comerciais no continente compõem um quadro no qual cada demonstração deixa de ser apenas um espetáculo aéreo e passa a funcionar como sinal claro das ambições da fabricante brasileira no coração da OTAN.









