Pesquisar este portal

02 maio, 2026

Empresa brasileira constrói primeira fábrica de explosivos militares da Arábia Saudita

Mac Jee, de São José dos Campos, transfere tecnologia de produção de TNT, RDX e HMX ao reino saudita em parceria com a Saudi Chemical Company 


*LRCA Defense Consulting - 01/05/2026

Uma empresa brasileira de defesa está no centro de um dos contratos mais estratégicos  e mais discretos  da indústria bélica nacional: a Mac Jee, sediada em São José dos Campos (SP), projetou e colocou em operação a primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, dentro das instalações da Saudi Chemical Company Limited (SCCL), a maior companhia de energia civil e militar daquele país.

A estrutura, com cerca de 500 mil metros quadrados, o equivalente a aproximadamente 70 campos de futebol, produz TNT e RDX, compostos utilizados em diferentes tipos de bombas e munições. Em 2022, foi anunciado que a capacidade de produção seria de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX, com tecnologia para adaptar a capacidade de fabricação de acordo com a necessidade de cada cliente.

O objetivo declarado pelo lado saudita é atingir a autossuficiência, ou seja, suprir toda a demanda militar do reino por explosivos e espoletas de detonação de bombas até 2030, alinhando-se às metas da Visão 2030, o ambicioso programa de diversificação econômica e industrial do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Acordo sigiloso, aprovação em três ministérios
A autorização para a exportação de equipamentos e tecnologia ao regime saudita foi concedida ainda no segundo semestre de 2018. As etapas mais relevantes da implantação da fábrica, porém, ocorreram entre 2019 e 2022, período em que as autorizações para exportação de tecnologia militar à Arábia Saudita aumentaram de forma expressiva.

Por lei, negócios da indústria privada de defesa com governos estrangeiros dependem do aval de três ministérios: Defesa, Ciência e Tecnologia, e Relações Exteriores (Itamaraty). Todos foram acionados. Procurados pela imprensa na época, os três pastas informaram que não poderiam comentar motivações ou condições do acordo firmado com a Mac Jee. O valor do contrato também permanece desconhecido.

Entre 2019 e 2021, a Arábia Saudita apresentou 21 solicitações de compra de armas, blindados, bombas e serviços ao governo brasileiro. Desses pedidos, 17 foram aprovados. No biênio anterior, foram 10 pedidos, com 8 autorizados, uma aceleração significativa no ritmo das relações bilaterais de defesa.

Em 2022, a Mac Jee firmou parceria com o Ministério de Investimento da Arábia Saudita

Quem é a Mac Jee
O Grupo Mac Jee faz parte da Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil e é composto pelas empresas Mac Jee Defense, Mac Jee Technology e Equipaer. Com sede e fábricas em São José dos Campos e Paraibuna (SP), além de escritório comercial em Paris, a empresa tem mais de 15 anos de mercado e exporta a maior parte de seus produtos para o Oriente Médio.

O portfólio é extenso: munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone suicida Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX (High Melting eXplosive, também chamado de octogen, um poderoso e relativamente insensível alto explosivo, quimicamente relacionado ao RDX) e propelentes sólidos compósitos para foguetes.

Com atuação crescente no setor de defesa, a Mac Jee direciona seus esforços também para o desenvolvimento e a produção de soluções avançadas em mísseis (ar-ar, antirradiação, de cruzeiro, balísticos e hipersônicos), apoiada em uma base industrial robusta, engenharia especializada, parceria com a Força Aérea Brasileira e com institutos avançados de engenharia, e investimentos contínuos em tecnologias de propulsão, guiagem e integração de sistemas 

A empresa foi, por anos, comandada pelo francês radicado no Brasil Simon Jeannot, que costumava dizer que seus negócios dependiam, antes de tudo, de diplomacia. "A venda de sistemas de defesa é, antes de tudo, diplomacia. Antes de ser técnica, antes de ser financeira, é diplomacia", afirmou em entrevista em 2020.

Em 2020, ocorreu uma transição de liderança na Mac Jee, ao fim da qual, Alessandra Stefani assumiu o cargo de CEO, sucedendo Simon Jeannot à frente da gestão executiva da empresa, enquanto ele passou a presidir o Conselho de Administração, atuando com foco na direção estratégica do grupo e na consolidação de sua expansão no setor de defesa e aeroespacial. 

A relação com os sauditas transformou a Mac Jee. Fontes ligadas ao projeto confirmaram à imprensa que a empresa "subiu de patamar no mercado" após ser contratada para o serviço. A mudança foi visível inclusive internamente: a Mac Jee passou a instalar salas de oração em suas dependências para atender clientes muçulmanos. Hoje, a companhia mantém equipes de engenharia baseadas em Riade, contribuindo diretamente para a operação das plantas industriais.

A parceria com a Saudi Chemical Company
O parceiro saudita da Mac Jee é a Saudi Chemical Company - SCCL (companhia privada de capital aberto), descrita pela própria empresa brasileira como "parceiro regional de confiança". A SCCL é a maior companhia de produção de energia civil e militar da Arábia Saudita e abrigou fisicamente toda a estrutura da nova fábrica de explosivos.

Em comunicado recente, a Mac Jee destacou que suas capacidades na região do Golfo cobrem a produção de TNT militar, RDX Tipo I e II, HMX e propelentes sólidos compósitos para propulsão de foguetes, um conjunto de materiais energéticos que posiciona a Arábia Saudita em patamar inédito de autossuficiência industrial no setor bélico regional.

Presença crescente: do World Defense Show a Riade
A relação com a Arábia Saudita vai além da fábrica. A Mac Jee marcou presença em todas as edições do World Defense Show (WDS) em Riade, um dos maiores eventos de defesa do mundo, onde apresentou seus principais produtos a compradores do Oriente Médio e travou contato com as mais altas patentes militares sauditas.

No WDS 2024, o presidente do Conselho da Mac Jee, Simon Jeannot, recebeu em seu estande o Major General Fayyadh bin Hamed Al-Ruwaili, Chefe do Estado-Maior Geral do Reino da Arábia Saudita. Em fevereiro de 2026, a empresa voltou ao WDS com novidades, incluindo planos de localização de produção no país e expansão para sistemas de mísseis em cooperação com a Força Aérea Brasileira.

Controvérsia
Especialistas estrangeiros levantaram preocupações sobre o uso dual dos materiais produzidos na fábrica: em teoria, o RDX fabricado nas instalações construídas pela Mac Jee poderia ser utilizado em ogivas de mísseis balísticos, cujo programa saudita, desenvolvido com apoio chinês, foi revelado pela CNN Internacional em 2021. 

No entanto, técnicos ligados ao projeto brasileiro afirmaram que a tecnologia nacional não seria destinada à fabricação de mísseis balísticos, em respeito aos compromissos do Brasil com o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), ao qual o país aderiu em 1995.

A Visão 2030 e a nova indústria bélica saudita
O projeto da Mac Jee se insere num movimento estrutural da Arábia Saudita. O príncipe Mohammed bin Salman determinou que o Ministério da Defesa só fecharia contratos com fornecedores estrangeiros se esses acordos estivessem vinculados ao desenvolvimento da indústria local. A Autoridade Geral para Indústrias Militares (GAMI) anunciou investimentos superiores a US$ 20 bilhões na indústria de defesa doméstica ao longo de dez anos, com a meta de que 50% do orçamento militar seja gasto localmente até 2030, gerando, segundo o próprio governo saudita, 100 mil empregos.

Durante a participação na World Defense Show 2022, a Mac Jee anunciou a assinatura de um acordo de parceria com o Ministério de Investimento da Arabia Saudita, passando a integrar um seleto grupo de empresas brasileiras aptas a cooperar no fomento das tecnologias de fabricação e desenvolvimento de sistemas, transferência de tecnologia, entre outras colaborações importantes para indústria de defesa. 

A Mac Jee é, nesse contexto, uma das peças centrais da estratégia saudita de soberania industrial na área de explosivos e materiais energéticos, tecnologias que o Brasil domina e que, até então, eram praticamente inexistentes nesse país.

"No setor de defesa, eles veem o país como amigo e grande parceiro. A indústria de defesa precisa aproveitar esse momento, e a gente está surfando essa onda", disse Alessandra Stefani, presidente e CEO da Mac Jee, em agosto de 2022.

O Gripen sobrevoa Lisboa: como a Suécia corteja Portugal numa das maiores decisões de defesa da sua história recente

De Linköping a Alverca, passando por Brasília e Lisboa, uma teia de interesses industriais, geopolíticos e tecnológicos está sendo tecida em torno de uma única questão: que caça irá substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa?

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 02/05/2026

Céu azul sobre Linköping. Na cidade que é considerada o berço da Força Aérea sueca, o Gripen-E sobe a pique, mergulha, regressa, manobra com uma agilidade quase irritante para quem olha de baixo. A demonstração, realizada no final de abril para a imprensa portuguesa no aeroporto local, foi calculada. A Saab sabe que Portugal está ouvindo e quer que Portugal veja.

Dois anos depois de a Suécia ter aderido à NATO, e num contexto de aumento dos gastos em Defesa, a sueca Saab quer voar mais alto e estar à altura de outros fornecedores de caças que ambicionam fechar negócio com Portugal para a substituição da esquadra dos F-16, como os Estados Unidos da América, com os F-35, ou o consórcio europeu que inclui a Airbus e os seus Eurofighters.

A questão não é nova, mas ganhou uma urgência inesperada. Durante décadas, a Força Aérea Portuguesa sonhou com o F-35. Em 2019, a sua liderança reiterou publicamente esse desejo. O avião de quinta geração, com a sua furtividade característica e sensores integrados de última geração, era o horizonte natural para substituir os 28 F-16AM e BM que compõem a frota atual, aeronaves que se aproximam velozmente do fim da vida útil.

Mas o mundo mudou.

A virada de março de 2025
Em março de 2025, o ministro da Defesa, Nuno Melo, anunciou o cancelamento da aquisição dos F-35, citando preocupações com custos, imprevisibilidade das relações com Washington e a necessidade de privilegiar alternativas europeias. A mudança de posição ocorreu num contexto de tensões crescentes entre a Europa e os EUA, com o governo Trump a pressionar aliados através de tarifas comerciais e a tornar os parceiros europeus menos confortáveis com uma dependência excessiva de equipamento militar americano.

Foi neste vácuo que a Saab entrou com passo firme, argumentos preparados e uma proposta que vai muito além da venda de um avião.

O argumento técnico central da empresa sueca não é a furtividade, pois admite que o Gripen perde nesse parâmetro face ao F-35. O que contesta é a relevância crescente dessa característica no campo de batalha moderno. Executivos e engenheiros da empresa argumentam que os avanços tecnológicos em aviônica tornaram a furtividade menos decisiva do que era. A eficácia de uma aeronave, segundo esta visão, mede-se cada vez menos pela velocidade ou agilidade e cada vez mais pela capacidade de usar poder computacional para superar o adversário.

No centro desta filosofia está a arquitetura de software do Gripen E, aquilo que a própria Saab compara a um iPhone: um dispositivo cujo hardware permanece estável enquanto o software evolui continuamente. O sistema DIMA (Distributed Integrated Modular Avionics) permite que todos os componentes da aeronave funcionem como um único sistema integrado, com interfaces de software abertas que tornam possível introduzir novas funcionalidades de forma ágil, sem necessidade de reverificar o sistema inteiro.

Inteligência artificial a bordo
Se há um argumento da Saab que captura a imaginação e a atenção dos analistas militares, é o da inteligência artificial integrada em combate real.

Em junho de 2025, a Saab e a empresa alemã de IA Helsing anunciaram a conclusão bem-sucedida dos primeiros três voos integrando o agente de inteligência artificial "Centaur" num Gripen E real, sobre o Mar Báltico. Nestes voos, o agente assumiu o controlo de manobras de combate além do alcance visual, sugerindo disparos de mísseis contra um Gripen de treino adversário e evitando trajetórias desfavoráveis, enquanto o piloto humano permanecia a bordo como comandante final.

O que impressionou os analistas não foi apenas a capacidade técnica da IA, mas a velocidade de integração: o trabalho pré-voo do agente Centaur começou apenas seis meses antes dos primeiros testes, com o sistema inicialmente treinado em simuladores do Gripen. Isto só foi possível graças à arquitetura aberta do avião, que separa o software crítico de voo do software tático, permitindo inserir o agente de IA sem tocar nos sistemas de segurança.

Não é ficção científica. É o argumento mais concreto que a Saab tem para dizer que o Gripen não é um caça do passado, mas sim uma plataforma em permanente evolução.

A isto soma-se uma parceria tecnológica com a Critical Software, empresa portuguesa de Coimbra. A Saab está a alargar as suas parcerias com entidades portuguesas através da assinatura de vários memorandos de entendimento, nomeadamente com a Critical Software, com quem está a desenvolver um programa baseado em Inteligência Artificial que permite o treino de pilotos destes caças através de uma espécie de "jogo virtual".

O trunfo industrial: a OGMA e a Embraer
Mas a proposta da Saab a Portugal vai muito além da tecnologia. O argumento mais sedutor e mais politicamente relevante é o industrial.

A Saab não propõe apenas a venda destes caças a Portugal, mas quer inserir o país na cadeia de produção, numa lógica de cooperação mútua. Daniel Boestad, vice-presidente e diretor da área de negócio Gripen, deixou claro que existe "potencial" para uma parte do processo de montagem de componentes e estrutura destes caças poder ser feita em Portugal, nomeadamente na OGMA, localizada em Alverca.

O responsável acrescentou ainda que existe a possibilidade de ir mais além, admitindo a montagem final em território português, ou operações de manutenção e reparação, hipótese que depende dos contornos de um eventual negócio para a aquisição de caças pelo Estado português.

No centro desta equação está um nome inesperado para quem não conhece a história recente da aviação lusófona: a Embraer.

A fabricante brasileira controla 65% do capital da OGMA desde 2005. A empresa de Alverca tornou-se, ao longo de duas décadas, uma referência europeia em manutenção, reparação e revisão aeronáutica, e é precisamente esse histórico que a posiciona hoje como um elo estratégico entre a Suécia e Portugal.

Este não é um pé-na-porta diplomático. É uma relação industrial já testada e consolidada. A Embraer e a Saab trabalham como parceiras desde 2014, quando o governo brasileiro assinou o contrato para fornecer à Força Aérea Brasileira 36 aeronaves Gripen, que incluíam não apenas a aeronave, mas também apoio logístico, sistemas de apoio, simuladores, treinamento e desenvolvimento. Por meio de um memorando de entendimento assinado em 2023, ambas as empresas reafirmaram a sua colaboração.

Os sinais diplomáticos desta aproximação vinham já de 2024. Em julho desse ano, a OGMA recebeu a visita da Embaixadora da Suécia em Portugal, Elisabeth Eklund, acompanhada por Rickard Strandberg, Encarregado de Assuntos Políticos da Embaixada. Os visitantes foram recebidos pelo CEO da OGMA, Paulo Monginho, e visitaram as instalações da empresa, nomeadamente as áreas de manutenção de aeronaves e motores e aeroestruturas.

Sede da OGMA

O modelo brasileiro: uma referência para Portugal
O programa Gripen no Brasil tornou-se a referência que a Saab mais gosta de citar quando fala com Lisboa. E com razão: os números são impressionantes.

Um dos pilares centrais do programa foi o compromisso da Saab em oferecer acesso irrestrito aos códigos-fonte do caça, algo que os concorrentes Boeing F/A-18 Super Hornet e Dassault Rafale não conseguiram igualar de forma tão abrangente. Este ponto ganhou especial relevância quando, em 2025, tornou-se público que a francesa Dassault rejeitou firmemente o pedido da Índia de acesso aos códigos-fonte dos 62 caças Rafale que adquiriu, citando a importância estratégica e a sensibilidade dos códigos à segurança.

Para Portugal, a lição é clara: escolher um caça é também escolher o grau de autonomia tecnológica que o país terá nas próximas décadas.

O programa de transferência de tecnologia (ToT) associado ao Gripen no Brasil é descrito como o maior da história da Suécia e o mais extenso em curso naquele país. Ele envolve mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos, abrangendo áreas como sistemas de comunicação, integração de armamentos, ensaios em voo, aviônicos, aerodinâmica e produção de componentes estruturais.

A linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto (SP), inaugurada em 2023, é a única fora da Suécia. Das 36 aeronaves contratadas, 15 estão sendo produzidas no Brasil, com a primeira já em fase de montagem final.

A proposta da Saab para Portugal vai além da aeronave em si, enfatizando benefícios industriais e econômicos que poderiam repercutir em Lisboa. A empresa tem um histórico de oferecer transferência de tecnologia e acordos de produção local, como demonstrado em seu acordo de 5,4 mil milhões de dólares com o Brasil em 2014, que incluiu a instalação de uma linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto.

Setembro de 2025: os acordos de Lisboa
Em setembro de 2025, durante uma visita a Lisboa do ministro da Defesa sueco, a diplomacia industrial deu um salto qualitativo.

A Saab assinou dois acordos com as empresas OGMA e Critical Software. Com a OGMA, controlada maioritariamente pela Embraer, a colaboração volta-se principalmente para áreas de produção, manutenção, reparação e revisão de aeronaves militares. No caso da Critical Software, os projetos articulados concentram-se em software para aviação e sistemas críticos de missão.

Daniel Boestad, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios Gripen na Saab, foi claro: "A OGMA e a Critical são excelentes parceiros independentemente do que aconteça." Os acordos não estão condicionados à compra dos Gripen por Portugal; são, segundo a empresa, uma resposta ao aumento global de procura que a Saab enfrenta.

Em dezembro do mesmo ano, foi a vez de um novo acordo com o AED Cluster Portugal, a associação que reúne mais de 160 entidades do setor aeronáutico, espacial e de defesa nacional.

"Portugal tem de estar no ciclo produtivo"
Do lado português, o ministro da Defesa Nuno Melo tem sido explícito quanto às condições que Portugal impõe a qualquer aquisição de caças: o retorno industrial é inegociável.

"Temos de produzir mais na Europa e comprar mais na Europa. As opções têm de ser as europeias e Portugal tem de estar no ciclo produtivo. Não quer dizer que esteja de A a Z, mas na produção de componentes ou manutenção", declarou o ministro.

O ministro acrescentou: "Cerca de 80% das aquisições da UE vêm de fora da UE, portanto há uma margem brutal. E têm de ser nossas também."

O ministro deu ainda o exemplo do KC-390, o avião de transporte da Embraer que Portugal opera e em cujas vendas tem participação financeira direta: "Cada KC que é vendido significam 10 milhões que entram nos cofres do Estado."

A ideia para o Gripen pode passar por um modelo de negócio semelhante ao que a Saab já desenvolve com a Força Aérea brasileira: através da Embraer, parte do caça Gripen é produzido no Brasil. Este modelo é semelhante ao que une Portugal e a Embraer na produção das aeronaves KC-390, que a cada venda gera lucro para o Estado português.

Imagem meramente ilustrativa

Portugal já está dentro do Gripen
Há um dado que a Saab gosta de sublinhar e que poucos conhecem: Portugal já participa, ainda que de forma limitada, na cadeia de produção do Gripen.

Daniel Boestad adiantou que Portugal "já é parte da construção do Gripen", através do fornecimento de material, mencionando empresas como a Vangest (localizada na Marinha Grande), a metalúrgica Ristaltek, ou a Thyssenkrupp em território português.

Para o vice-presidente da Saab, "Portugal é muito interessante e tem muito potencial. Não tem a maior indústria de Defesa, mas a que tem é brilhante."

As sombras no horizonte
A proposta sueca não é isenta de fragilidades, e seria desonesto ignorá-las.

Uma das principais é a dependência do Gripen E de componentes fabricados nos EUA, em particular o motor F414G da GE Aviation, que exige licenças de exportação e suporte de manutenção de empresas americanas, o que complica a narrativa de "autonomia total" face a Washington.

Para atenuar esse problema, a Saab enfatizou a arquitetura aberta do jato, que permite aos clientes desenvolver o seu próprio software e integrar sistemas não americanos. Para Portugal, essa flexibilidade poderia permitir a colaboração com empresas de defesa europeias, reduzindo a dependência das cadeias de suprimentos americanas ao longo do tempo.

Do lado português, o processo foi também perturbado por instabilidade política interna: em 2025, o primeiro-ministro Luís Montenegro apresentou a demissão na sequência de uma moção de censura, e as eleições subsequentes foram fator de atraso nas decisões estratégicas de defesa. A concorrência inclui ainda o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale.

Portugal ainda não deu início ao processo formal de substituição dos F-16, de acordo com o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, que afirmou que a escolha terá por base critérios técnicos, sem manifestar preferência. O general João Cartaxo Alves, agora Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), nunca escondeu a sua preferência por um caça de quinta geração, ou seja, os americanos F-35, quando ainda liderava a Força Aérea.

O Gripen como aposta estratégica
O que se passa hoje em Portugal é sintomático de uma transformação mais ampla. A Europa questiona a dependência de sistemas de armas americanos. Os conflitos em curso, sobretudo na Ucrânia e no Oriente Médio, onde a capacidade de atualização rápida de software e a guerra eletrônica provaram ser tão decisivas quanto o hardware, mudaram os termos do debate estratégico.

O custo é outro elemento central. Comparado aos seus concorrentes, o Gripen E/F oferece vantagens distintas para uma nação como Portugal. O F-35A, embora incomparável em furtividade e fusão de sensores, tem um custo unitário superior a 80 milhões de dólares e despesas anuais de manutenção que podem sobrecarregar orçamentos menores de defesa.

Sem detalhar valores, o responsável da Saab estimou que a aquisição deste tipo de programa, totalizando todo o seu ciclo de vida, ronda "um terço" do custo comparativamente às empresas concorrentes no mercado.

Há ainda uma lógica de complementaridade operacional que a Saab não cansa de sublinhar: o Gripen E pode ser reabastecido em voo, e Portugal está a preparar-se para adquirir os kits de reabastecimento para os seus KC-390 da Embraer. A combinação das duas aeronaves, utilizadas tanto pela Suécia como pelo Brasil, é apresentada pela Saab como o exemplo perfeito de uma parceria de sucesso que Portugal poderia replicar.

Uma decisão que vai além dos aviões
A Saab afirma estar "pronta para apoiar Portugal na aquisição da futura plataforma para a Força Aérea Portuguesa" e apresenta o Gripen E como "uma solução verdadeiramente europeia, combinando velocidade de inovação, adaptabilidade e eficiência de custos". Se Portugal escolher o Gripen, não comprará apenas um avião. Comprará um modelo de soberania industrial, um acesso à cadeia de valor global de um programa aeronáutico em expansão e, através da OGMA e da Embraer, uma posição singular na encruzilhada entre a Europa e o Brasil num dos setores de maior valor tecnológico do século XXI.

A decisão final pertence a Lisboa. Mas o debate técnico, estratégico, industrial e geopolítico já está em pleno andamento. E Johan Segertoft, o vice-presidente da Saab que desembarcou em Lisboa para dizer que o Gripen é "o caça mais avançado do mundo", voltou para Estocolmo com a certeza de que Portugal está, de fato, a ouvir.

O que vai fazer com o que ouviu é outra história. Essa ainda se escreve... 

01 maio, 2026

ALADA e Atech firmam parceria estratégica para fortalecer a indústria de defesa brasileira no mercado global

Acordo de cooperação entre a estatal aeroespacial e a empresa do Grupo Embraer reforça o modelo G2G e amplia a presença do Brasil no setor internacional de defesa em momento de expansão recorde das exportações  


*LRCA Defense Consulting - 01/05/2026

Na última segunda-feira, 28 de abril, duas das empresas mais estratégicas do setor de defesa e tecnologia brasileiro sentaram-se à mesa na capital federal para selar uma parceria que pode marcar um novo capítulo na projeção internacional da indústria nacional. A ALADA – Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil e a Atech – Negócios em Tecnologias S/A, integrante do Grupo Embraer, assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) na sede da ALADA, em Brasília, formalizando uma cooperação estratégica voltada ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira por meio de negociações governo a governo, o chamado modelo G2G.

O documento foi assinado pelo presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida, e pelo diretor-presidente da Atech, Rodrigo Persico de Oliveira Padron.

Quem são as signatárias
A ALADA é uma estatal relativamente jovem, mas de origem institucional robusta. Subsidiária da empresa pública NAV Brasil – Serviços de Navegação Aérea S/A, ela foi constituída com base na Lei nº 15.083, de 2 de janeiro de 2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a primeira lei do ano. Concebida como um catalisador do Programa Espacial Brasileiro (PEB), a empresa foi desenhada para identificar oportunidades, facilitar interações e promover a geração de negócios no setor aeroespacial, atuando ainda como representante institucional do Estado brasileiro em negociações internacionais.

A empresa também atua na execução de projetos estratégicos que envolvem o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB) e os lançamentos por meio do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Mais recentemente, ganhou protagonismo adicional ao ser designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir contratos no modelo G2G em nome do Estado brasileiro.

Do outro lado da mesa, a Atech não é uma recém-chegada. Sua história remonta à década de 1980, quando surgiu no âmbito de um programa de transferência de tecnologia na área de Controle de Tráfego Aéreo da Força Aérea Brasileira. Em 2011, a Embraer Defesa e Segurança anunciou a compra de 50% da empresa, e em setembro de 2013 a integração ao Grupo Embraer foi concluída. Com certificação de Empresa Estratégica de Defesa emitida pelo Ministério da Defesa, a Atech atua em áreas como tráfego aéreo, sistemas de comando e controle, sistemas embarcados e simuladores, e já entrega projetos no Brasil e em países da América Latina, Ásia e África.

O peso do modelo G2G
O acordo entre ALADA e Atech se insere num movimento estrutural mais amplo da política de defesa do Brasil. Em março de 2026, o Ministério da Defesa publicou a Portaria GM-MD nº 1.456, que regulamenta a atuação da pasta em operações de exportação e prestação de serviços técnicos relacionados a produtos de defesa brasileiros, com participação de estatais vinculadas em negociações G2G.

A lógica do modelo é simples e já comprovada por grandes potências exportadoras: mesmo que contratos envolvam empresas privadas, a negociação é conduzida diretamente pelo governo do país fornecedor, que atua como garantidor, supervisionando e assegurando a entrega dos produtos. Potências como EUA e França utilizam amplamente esse modelo, e os próprios caças Gripen foram vendidos ao Brasil por meio de um contrato com o governo da Suécia.

No caso brasileiro, um entrave jurídico impedia que o governo representasse diretamente empresas privadas nesse tipo de transação internacional. A solução encontrada foi usar estatais como ponte institucional entre o comprador estrangeiro e a fornecedora privada. É exatamente nesse papel que a ALADA se posiciona.

A empresa foi designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir esse tipo de contratação em nome do Estado brasileiro, consolidando sua posição institucional nesse segmento.

Um acordo no momento certo
O MoU com a Atech chega em meio a um cenário de expansão sem precedentes das exportações de defesa do Brasil. Segundo o Ministério da Defesa, a indústria brasileira somou US$ 1,02 bilhão em exportações autorizadas apenas no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro dos US$ 457 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.

O setor reúne mais de 300 empresas credenciadas e mais de 2.200 produtos catalogados, representa 3,5% do PIB e envolve até 3 milhões de empregos diretos e indiretos. O segmento aeroespacial lidera, respondendo por cerca de 30% das exportações totais, seguido por eletrônicos como radares e sistemas de guerra eletrônica.

Não é a primeira parceria estratégica recente da ALADA. Em abril, durante a Feira Internacional de Defesa e Aeronáutica do Chile (FIDAE), o Ministério da Defesa assinou memorandos de entendimento com a ALADA, a EMGEPRON e a IMBEL para ampliar a segurança jurídica e fomentar operações de exportação de produtos de defesa no modelo G2G. Na mesma ocasião, a ALADA firmou acordo com a Embraer para alavancar plataformas como o KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano em mercados da América Latina e da África.

O que esperar da parceria
Para Rodrigo Padron, o MoU com a ALADA representa mais do que uma formalidade burocrática. "A assinatura deste acordo reforça a relevância da cooperação entre empresas brasileiras no fortalecimento da Base Industrial de Defesa e na ampliação da competitividade do país no mercado internacional", afirmou o dirigente da Atech.

A combinação das competências das duas organizações é estrategicamente complementar. A Atech é responsável pelos sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo e de defesa aérea brasileiro, além de estar presente em projetos como o Programa das Fragatas da Classe Tamandaré, fornecendo soluções para o sistema de gerenciamento de combate e para o sistema integrado de gestão da plataforma. Esse portfólio tecnológico, articulado pelo papel institucional da ALADA como canal G2G, pode abrir portas em mercados onde a credencial estatal pesa tanto quanto a qualidade do produto.

O formato G2G permite integrar políticas públicas e soluções industriais, assegurando prazos, compliance e interoperabilidade. Para a Base Industrial de Defesa, isso reduz o risco de projeto e amplia a previsibilidade de receita.

O acordo entre ALADA e Atech é, nesse sentido, mais um tijolo na construção de uma arquitetura institucional que o Brasil ainda está aprendendo a erguer, mas que, dado o ritmo das exportações e o volume de parcerias sendo firmadas, parece estar ganhando velocidade e consistência. 

Postagem em destaque