Aeronave brasileira da Embraer desponta como favorita
para substituir a frota obsoleta de C-130H da Força Aérea Helênica, com
reabastecimento de caças, sistema de autodefesa e evacuação médica avançada no
pacote
*LRCA Defense Consulting - 22/04/2026
A Força Aérea da Grécia está na reta final de uma das
decisões de defesa mais estratégicas das últimas décadas. A aquisição inicial de três
aeronaves de transporte KC-390 Millennium entra em fase de definição, um
programa que vai muito além da simples substituição dos envelhecidos C-130H,
constituindo uma atualização integral das capacidades de aerotransporte,
evacuação médica e reabastecimento aéreo helênicos.
Segundo informações do portal de defesa grego OnAlert, a
decisão final para o início dos procedimentos necessários pode ser tomada ainda
em maio, com o programa avançando em cooperação com Portugal. Se confirmado, o
movimento representará um salto qualitativo inédito para as Forças Armadas
gregas e um novo e expressivo triunfo comercial para a Embraer no coração da
Europa.
O fim da linha dos Hércules gregos
A situação da frota de C-130H da Grécia é o principal catalisador das
negociações. Apesar dos esforços da Força Aérea Helênica, da indústria
aeroespacial nacional (EAB) e do 356º Esquadrão de Transporte Tático
"Hércules", os índices de disponibilidade do C-130 continuam baixos; no início de 2025, apenas quatro aeronaves estavam operacionais, com a
possibilidade de uma quinta retornar ao serviço nos meses seguintes.
A Grécia possui nove C-130 Hercules em seu inventário, mas a
maioria está em condições inadequadas para voar. O país chegou a considerar a
aquisição de C-130Js usados da Itália, mas nenhum acordo foi alcançado. Uma
solicitação formal ao governo norte-americano para aeronaves C-130J-30 novas
foi feita em dezembro de 2025, porém o balanço final da avaliação militar
parece pender de forma crescente para o lado da Embraer.
Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, a
aeronave brasileira apresenta clara vantagem, não apenas pelo custo de
aquisição em relação à proposta americana para os C-130J, mas também por uma
série de vantagens operacionais e técnico-econômicas relacionadas à manutenção,
suporte, disponibilidade e ao papel múltiplo da plataforma.
Uma aeronave de combate disfarçada de cargueiro
O diferencial da proposta grega está nas especificações exigidas. A Força
Aérea Helênica não estuda uma simples compra de transporte. O KC-390 deverá ser
adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo de
aeronaves de combate e equipamento de evacuação médica (medevac), características que transformam a aeronave em multiplicador de poder para o
conjunto das Forças Armadas.
No pilar de autodefesa, o modelo já adotado por outros
operadores inclui uma suíte integrada de guerra eletrônica, com sensores de
alerta contra radares, lasers e mísseis em aproximação, sistema de lançamento
de flares e chaffs, além de sistema de contramedidas infravermelhas
direcionadas para neutralizar mísseis de guiagem infravermelha. Para os gregos,
que operam em um dos cenários de tensão mais delicados da OTAN, o Mar Egeu e o
Mediterrâneo Oriental, essa configuração é considerada essencial.
O reabastecimento que a Grécia nunca teve
Talvez o aspecto mais estratégico do programa seja a capacidade de
reabastecimento aéreo. A Força Aérea Helênica vê no KC-390 a oportunidade de
obter, ainda que numa primeira fase em escala limitada, uma capacidade que
historicamente faltou ao arsenal grego. As novas aeronaves deverão ter sistema
de reabastecimento com cesta (basket), de modo a poder apoiar, numa primeira
fase, os caças franceses da frota helênica.
Os Rafale gregos, adquiridos em um processo acelerado de
modernização nos últimos anos, ganhariam assim autonomia operacional
significativamente ampliada. Em segundo momento, permanece sobre a mesa a
perspectiva de uma configuração com haste rígida (boom), para que se possa
apoiar também aeronaves de outras categorias, incluindo os F-16, caso as
soluções correspondentes amadureçam.
Essa capacidade de reabastecimento já está consolidada na
versão KC-390 operada pelo Brasil. A Força Aérea Brasileira intensificou
operações de reabastecimento em voo com o KC-390 Millennium durante eventos
críticos como a COP30 em Belém, apoiando caças F-5M Tiger II responsáveis pela
defesa aérea da região; a aeronave permitiu que os caças permanecessem em voo
por mais tempo sem precisar pousar para abastecimento, ampliando o alcance e a
eficiência das missões de vigilância.
Medevac e a realidade insular grega
O terceiro pilar do projeto é a evacuação aeromédica. A plataforma pode ser
equipada para missões de evacuação aeromédica com modernos pacotes de suporte
médico, permitindo o transporte de feridos ou doentes em condições muito
superiores às que garantem soluções mais antigas. Para a Grécia, com suas
centenas de ilhas habitadas, essa capacidade tem dimensão tanto militar quanto
humanitária.
O KC-390 Millennium suporta uma gama de missões que inclui
transporte de carga, transporte de tropas, evacuação aeromédica,
reabastecimento aéreo e combate a incêndios, e pode ser reconfigurado
rapidamente para diferentes missões usando kits modulares.
Portugal como porta de entrada... e modelo
O papel de Portugal é considerado fundamental. A cooperação com a Força
Aérea Portuguesa oferece à Atenas a possibilidade de se apoiar em um quadro já
estabelecido de exploração operacional, suporte e transferência de
conhecimento. Lisboa já incorporou o tipo ao serviço e funciona essencialmente
como o pilar europeu do KC-390.
A parceria lusitana com a Embraer está em franca expansão.
Em setembro de 2025, Portugal assinou aditamento ao contrato para aquisição da
sexta aeronave KC-390 Millennium e inclusão de dez novas opções de compra para
potenciais aquisições por futuras nações parceiras. A Base Aérea nº 11 de Beja
consolida-se como centro de referência europeu para o treinamento de
tripulações do modelo.
A expansão europeia da aeronave brasileira
A dinâmica europeia em torno do KC-390 é, por si só, um argumento de peso
para Atenas. Até o momento, um total de oito países europeus selecionaram a
aeronave, incluindo Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca,
Eslováquia, Suécia e Lituânia, a maioria deles membros da OTAN.
O KC-390 é mais veloz que o C-130J (870 km/h contra 660 km/h)
e carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas do turbopropulsor
americano). Os motores turbofan IAE V2500, amplamente utilizados na aviação
comercial com mais de 7.200 unidades construídas, tornam sua manutenção mais
simples e barata.
No plano global, a Embraer chegou a um acordo de colaboração
com a Northrop Grumman para desenvolver uma nova versão da aeronave destinada a
operações de reabastecimento em voo para a Força Aérea dos Estados Unidos,
anúncio feito em fevereiro de 2026 em Melbourne, na Flórida. O interesse
americano reforça o prestígio internacional da plataforma precisamente no
momento em que a Grécia avalia sua adesão ao programa.
Decisão iminente
As informações do OnAlert indicam que o programa já recebeu o "sinal
verde" tanto do Estado-Maior das Forças Armadas gregas (GEETHA) quanto da
liderança política. O que está em jogo agora é a formalização da decisão e o
início dos procedimentos institucionais e interestatais que abrirão caminho
para a implementação da aquisição.
O plano inicial contempla a aquisição de três aeronaves em
uma primeira fase, com previsão de unidades adicionais em um segundo momento.
Esse modelo permite à parte grega limitar o impacto econômico inicial, avançar
mais rapidamente nos procedimentos e integrar gradualmente o novo tipo na
estrutura operacional da Força Aérea Helênica.
Se a decisão for confirmada ainda em maio, como indicam as
fontes, a Grécia se tornará o mais novo membro de um clube europeu em rápida
expansão, ao passo que a Embraer consolidará mais um avanço decisivo na substituição dos
veteranos C-130 no Velho Continente.