Presidente citou a Guerra do Paraguai e disse que o país vai vender “armas da paz”; Alckmin revelou 480 novos empregos e planos de reabrir fábrica em Lorena, mas nenhum aporte financeiro foi anunciado para a dívida trabalhista
*LRCA Defense Consulting - 24/07/2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou nesta sexta-feira, dia 24 de julho, a fábrica da Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), em um discurso marcado por referências históricas e promessas genéricas de novas encomendas às Forças Armadas, mas sem qualquer anúncio de recursos para quitar a dívida trabalhista da empresa. A agenda, que começou às 10h, contou com a presença do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Guerra do
Paraguai e “armas da paz”
Em discurso na
unidade fabril, Lula recorreu à Guerra do Paraguai para justificar a
necessidade de investimentos permanentes em defesa. “Nós gostamos de paz. Mas
um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. A Guerra do Paraguai custou 3
Orçamentos do Brasil na época. Quando você entra em guerra, você não fica
perguntando se tem dinheiro ou não tem dinheiro”, disse, segundo o Poder360.
O presidente também defendeu a ampliação das exportações de material bélico pela Avibras, associando as vendas externas a um discurso de soberania nacional. “Quando eu vender uma arma lá fora, eu falo: essa arma foi feita por trabalhadores brasileiros e trabalhadoras, muitos deles corintianos, e que não querem matar ninguém. Essa arma é da paz. Essa arma não é para você detonar, é só para você falar que tem, para ninguém mexer com você. E nós vamos vender”, declarou, de acordo com o Congresso em Foco.
Na mesma linha, à CNN Brasil, Lula afirmou que o investimento em defesa não pode ser tratado como algo secundário. “Quero ela [as Forças Armadas] bem preparada do ponto de vista de poderio, de armamento, de conhecimento científico e tecnológico para que a gente possa andar de cabeça erguida, sem nenhuma arrogância, falando em paz, mas preparado para não deixar ninguém meter o nariz no nosso país”, disse.
Promessa de novas
encomendas, sem valores ou prazos
O presidente
sinalizou que o governo federal deve ampliar as compras de equipamentos das
Forças Armadas nos próximos anos, embora sem detalhar valores, cronograma ou
fornecedores específicos. “Hoje é um dia especial para as Forças Armadas
brasileiras, que agora têm que se preparar para a gente fazer as encomendas
necessárias, necessárias, num pensamento de médio e longo prazo”, afirmou,
segundo o Congresso em Foco.
Em tom pessoal, Lula recorreu a uma lembrança da juventude para reforçar o argumento. “Teve um tempo, eu era molecão, e tinha uma garrucha .22. Eu não colocava bala na garrucha, eu com medo de me machucar com as balas. O Brasil não pode ser assim. Nós não podemos ter as Forças Armadas, ter Aeronáutica, Marinha, e não ter as coisas que a gente precisa”, disse. À CNN Brasil, completou o raciocínio: “E quando alguém quiser invadir, a gente falar: não invade agora, não, deixa eu comprar, me dá uns seis meses de prazo. Ninguém espera, cara”.
Alckmin detalha
números da retomada em coletiva
Em entrevista
coletiva após a visita, Geraldo Alckmin classificou a Avibras como empresa
“estratégica” e apresentou números da retomada. Segundo o vice-presidente, a
reabertura da fábrica permitiu contratar 480 colaboradores, e a empresa deve
reabrir uma segunda unidade, em Lorena, onde fabrica insumos para o combustível
de foguetes, mísseis e lançadores.
Alckmin também citou dados do setor de defesa como um todo para sustentar o discurso de crescimento. “O Brasil, em produtos de defesa em 2022, exportou US$ 600 milhões. No ano passado [foram] US$ 3,4 bilhões, aumentou cinco vezes a exportação brasileira. A Avibras tem tudo para retomar [o crescimento] e é muito importante para o Brasil ter uma defesa com tecnologia, capacidade de persuasão, isso é importantíssimo para o país, para o desenvolvimento do Brasil”, disse, conforme registrou o g1.
O número de 480 colaboradores contratados, dito pelo próprio vice-presidente na coletiva, diverge de registros anteriores: o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região vinha informando cerca de 271 trabalhadores recontratados no início da retomada, subindo para aproximadamente 500 até julho. A fala de Alckmin é a mais recente e oficial disponível até o momento, mas a variação entre as fontes ainda não foi esclarecida publicamente.
Tarifaço dos EUA
tratado à parte, fora do discurso
Assim como já
havia sido antecipado por reportagens anteriores, Lula não mencionou o novo
tarifaço dos Estados Unidos durante o pronunciamento na fábrica. O tema só
apareceu depois, na coletiva de Alckmin à imprensa, quando o vice-presidente
classificou como “injusta” e “descabida” a nova taxa de 12,5% imposta pelo
governo americano a produtos brasileiros, sob justificativa de supostas
práticas de trabalho forçado.
Sobre a possibilidade de o governo brasileiro usar a Lei da Reciprocidade como resposta, Alckmin evitou cravar uma decisão. Segundo a CNN Brasil, o vice-presidente disse que o governo vai decidir sobre o uso da lei “no momento adequado”, defendendo, por ora, apoio aos setores afetados pela tarifa, busca de novos mercados e manutenção da mesa de negociação com os Estados Unidos.
O que ficou de
fora
Apesar do tom
favorável à indústria de defesa, a visita não trouxe anúncio de recursos
federais para o pagamento da dívida trabalhista da Avibras, estimada em cerca
de R$ 230 milhões e negociada com o Sindicato dos Metalúrgicos. Segundo o
jornal OVALE, a entidade sindical entregou a Lula, durante a visita, um pedido
formal de aporte federal de R$ 300 milhões, mas o presidente não informou
prazo, fonte de recursos ou qualquer decisão sobre o pleito.
Também não houve, ao menos publicamente, qualquer menção à negociação em curso entre a AEL Sistemas, a Elbit Systems e a Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do obuseiro autopropulsado Atmos 155 mm, no âmbito da licitação do Exército Brasileiro para aquisição de 36 viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado (VBCOAP 155 mm SR).
Uma promessa vaga
em ano eleitoral
A ausência de
valores, prazos ou contratos específicos na promessa de novas encomendas chama
atenção por coincidir com um ano eleitoral e com uma sequência recente de
agendas de Lula pelo Vale do Paraíba, região que reúne parte importante da base
industrial de defesa e aeroespacial do País (Embraer, em São José dos Campos, e
agora a Avibras, em Jacareí).
É possível argumentar que a formulação “médio e longo prazo” reflete simplesmente o ritmo naturalmente lento de contratações no setor de defesa, que costuma depender de ciclos orçamentários plurianuais e de negociações prolongadas, como já ocorre há mais de dois anos na tratativa em torno do ATMOS.
Mas também é possível ler a fala como um gesto político de
baixo custo, que sinaliza apoio a uma indústria estratégica sem assumir
compromisso orçamentário imediato, em um momento no qual o próprio Sindicato
dos Metalúrgicos cobrava, no mesmo evento, uma resposta concreta e não a
obteve.
Nenhuma das duas leituras pode ser tomada como certa a partir do que
foi dito publicamente até aqui; a diferença só deve ficar clara quando, e se, a
promessa se traduzir em contrato, orçamento ou cronograma.
Assim, pelo menos por enquanto, a
visita presidencial resultou, para a Avibras Aeroco e para a BID, em "muita fumaça e pouco fogo", haja
vista que nada de concreto foi anunciado pelo presidente ou pelo
vice-presidente durante o ato.
Retomada da
Avibras
A Avibras retomou
suas atividades em Jacareí neste ano, após mais de três anos de crise
financeira, recuperação judicial e uma greve que se estendeu por cerca de 1.280
dias, uma das mais longas da indústria brasileira. O acordo que encerrou a
paralisação, assinado em março com o Sindicato dos Metalúrgicos, previu a
quitação de aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas para cerca
de 1,4 mil pessoas; a produção voltou a rodar em maio. A empresa também
recebeu, recentemente, o credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa
(EED), concedido pelo Ministério da Defesa.







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