Com Akaer, Condor e SIATT
sob seu guarda-chuva, conglomerado estatal dos Emirados Árabes Unidos consolida
presença industrial no País; especialistas veem ganhos em empregos e divisas,
mas alertam para riscos à autonomia tecnológica da base industrial de defesa
*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026
O EDGE Group, conglomerado de
defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou em 16 de julho de 2026
um acordo para adquirir 100% da Akaer Engenharia, empresa aeroespacial e de
defesa sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A operação,
que ainda depende de aprovação regulatória, é a terceira compra do grupo
emiradense na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de
2023, depois das participações na SIATT e na Condor Tecnologias Não Letais.
Em
entrevista à CNN Brasil, o diretor financeiro (CFO) do EDGE Group, Rodrigo
Torres, revelou que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas
procuraram o conglomerado durante a feira LAAD para discutir alternativas que
evitassem o fechamento da Akaer, pedindo que se avaliasse não necessariamente
uma aquisição, mas uma parceria capaz de impedir a falência de outra grande
empresa da defesa brasileira.
As três aquisições
A primeira aproximação do EDGE
Group ao Brasil ocorreu em setembro de 2023, quando o conglomerado adquiriu 50%
da SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), empresa de São José
dos Campos especializada em mísseis inteligentes e cliente histórica da Marinha
do Brasil. A companhia desenvolve a família de mísseis antinavio MANSUP, com
alcance de até 70 quilômetros, e a versão estendida MANSUP-ER, de maior
alcance, que deverá equipar as novas fragatas Classe Tamandaré.
Em 2024, o grupo ampliou a
presença no País com a compra de 51% da Condor Tecnologias Não Letais, sediada
em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e considerada uma das líderes mundiais em
tecnologias não letais como gás lacrimogêneo, munição de impacto e granadas de
fumaça, com presença comercial em mais de 85 países.
A terceira peça é a Akaer,
fundada em 1992 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), que
acumula mais de 32 anos de atuação nos setores aeroespacial, de defesa e de
indústria 4.0, com mais de dez milhões de horas de engenharia dedicadas a sistemas
e estruturas aeronáuticas.
Segundo comunicado oficial do próprio EDGE Group, a
empresa já prestou apoio de engenharia ao Gripen NG, da Saab, ao Hürjet, da
Turkish Aerospace, e a diferentes programas da Embraer, entre eles Super
Tucano, ERJ-E1, ERJ-E2, Legacy 450/500 e KC-390, além de contribuir com o
747-8, da Boeing, o B-250, da Calidus, e a frota de patrulha marítima P-3
Orion, da Força Aérea Brasileira. No Exército, participa da modernização dos
blindados EE-9 Cascavel.
Segundo o EDGE Group, a
aquisição da Akaer daria ao grupo uma base de engenharia permanente dentro do
ecossistema aeroespacial brasileiro, fortalecendo sua capacidade de cumprir
cronogramas de industrialização em programas de VANTs e ampliando suas capacidades
em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, além de tecnologias
espaciais. O diretor-geral e CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, afirmou que a
Akaer agrega profunda capacidade de engenharia ao grupo, com uma equipe
altamente especializada e três décadas de experiência em programas
aeroespaciais complexos, e que a prioridade é a continuidade das pessoas, dos
programas e dos clientes da Akaer.
O investimento acumulado do
EDGE Group no Brasil já soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590
milhões), segundo executivo do próprio grupo, em declaração feita durante o IV
Simpósio de Defesa e Segurança Internacional dos Fuzileiros Navais, em julho de
2026.
A ligação confirmada com o
Jeniah
Diferentemente do que se sabia
até a divulgação oficial da compra, o vínculo entre Akaer e EDGE Group não se
limitava a um memorando de intenções. Segundo Torres, cerca de 40% da receita
da Akaer já vinha de contratos com o grupo árabe, sobretudo no desenvolvimento
do Jeniah, veículo de combate não tripulado a jato do EDGE, para o qual a
fabricante brasileira produz a estrutura, o interior da plataforma e a
integração de motores, cabos e sistemas.
Para onde aponta a sinergia
A leitura conjunta das
operações sugere que o EDGE Group não está simplesmente colecionando ativos
brasileiros, mas montando uma cadeia industrial complementar. A SIATT contribui
com os mísseis antinavio e anticarro; a Akaer, por meio de sua subsidiária Opto Tecnologia
Optrônica, agrega lentes, câmeras, sensores infravermelhos e baterias, além da
estrutura (frame), do interior da plataforma e da integração de motores,
cabos e sistemas do próprio Jeniah. O vínculo entre as duas empresas remonta a
abril de 2023, quando, durante a LAAD, Akaer e EDGE Group assinaram memorando
de entendimento, firmado por Cesar Silva, então CEO da Akaer, e Ahmed Hasan
Alkhoori, vice-presidente de Programas Estratégicos do EDGE, prevendo
cooperação em sistemas seeker duplos para mísseis, fusores a laser e
kits de guiagem para foguetes de 70 milímetros, além de aeronaves de missão
especial, segundo comunicado da própria Akaer à época.
Segundo o dossiê Uninhabited
Middle East, do International Institute for Strategic Studies (IISS),
publicado em 2026, a Akaer teria contribuído ainda com o design e a análise de
desempenho do motor do REACH-S, VANT de média altitude e longa autonomia (MALE)
da ADASI, subsidiária do EDGE Group, e também apareceria como parceira de
design do Samoom, UAV da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da
sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines. O próprio relatório do
IISS ressalva que essa informação foi apurada por meio de perfis profissionais
de engenheiros da Akaer, e não por comunicado oficial das partes envolvidas, ao
contrário do vínculo com o Jeniah, este confirmado pelo próprio CFO do EDGE
Group.
Já a Condor cumpre um papel
diferente na engrenagem: o de plataforma de distribuição comercial. O EDGE
Group identificou no potencial de exportação da empresa carioca, com canais já
estabelecidos em mais de 85 países, um caminho para ampliar o alcance global do
próprio conglomerado. O resultado apareceu rápido: três semanas após a
aquisição, em 2024, a Condor fechou um contrato de mais de US$ 10 milhões com
um país africano.
O efeito mais concreto dessa
engrenagem já apareceu nas exportações da SIATT: por conta da associação com o
EDGE Group, a empresa fechou um acordo para exportar mísseis MANSUP aos
Emirados Árabes Unidos, em contrato avaliado em US$ 299 milhões, o primeiro
cliente da SIATT fora do Brasil. Segundo executivos do EDGE Group, os problemas
orçamentários das Forças Armadas brasileiras não inviabilizam os projetos,
desde que os produtos nacionais também sejam destinados à exportação, usando
encomendas internacionais para dar escala às fábricas no País e reduzir o custo
dos equipamentos para as próprias Forças Armadas.
Um resgate solicitado pelo
próprio governo
A compra da Akaer ocorre em
meio a dificuldades financeiras da empresa. Desde março de 2025, o Sindicato
dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região denuncia atrasos recorrentes
no pagamento de salários, FGTS e benefícios, quadro que se agravou em dezembro
de 2025 e voltou a se repetir em fevereiro de 2026, quando cerca de 700
trabalhadores ainda não tinham recebido os vencimentos de janeiro. Segundo
Torres, a empresa deixou de pagar a folha de pagamento por um período e o plano
de saúde dos funcionários por quase um ano. A Akaer também viu fracassar, em
fevereiro de 2026, o programa do veículo lançador de pequeno porte (VLPP),
cancelado após a Finep identificar que a empresa não conseguiu comprovar a
aplicação de parte dos recursos repassados ao projeto.
Foi nesse cenário que, segundo
o CFO do EDGE Group, o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas
procuraram o conglomerado durante a LAAD para buscar uma solução que evitasse o
fechamento da companhia, tratando o caso, ao menos inicialmente, como uma
possível parceria, e não como uma venda integral. Governo federal, Ministério
da Defesa e Forças Armadas foram informados sobre a negociação ao longo dos
meses seguintes, segundo o executivo. O atual controlador da Akaer, Cesar
Silva, deixará a gestão da empresa, mas deverá permanecer como consultor do
EDGE Group por um período de um a dois anos.
Um fator que teria facilitado a
negociação foi a atual estrutura acionária da Akaer: a Saab, que chegou a deter
42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente
recomprada pela controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de
2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sem
restrições, o que dispensaria a negociação com um sócio estrangeiro na operação
com o EDGE Group.
Manutenção do status de Empresa
Estratégica de Defesa
Apesar da compra de 100% do capital por um grupo estrangeiro, o EDGE
Group afirma que a Akaer continuará credenciada como Empresa Estratégica de
Defesa, enquadramento concedido pelo Ministério da Defesa a companhias
responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias
essenciais para a defesa nacional, e que envolve requisitos societários e de
governança. Segundo Torres, será mantida estrutura local de governança e
participação brasileira suficiente para atender às regras do credenciamento,
ainda que o desenho definitivo dependa das aprovações regulatórias.
Impactos para a base industrial
de defesa
Em termos de empregos, o efeito
tende a ser positivo no curto prazo: a entrada de capital estrangeiro
resolveria rapidamente a crise que hoje compromete salários e benefícios de
cerca de 600 a 700 trabalhadores, preservando postos de trabalho qualificados
que, sem aporte externo, estariam sob risco real de extinção, quadro agravado
pelo fato de a busca por uma solução ter partido do próprio Ministério da
Defesa. O histórico do grupo no País, com a construção de nova unidade
industrial da SIATT em Caçapava (SP) e a expansão da fábrica da Condor em São
Paulo, sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não
apenas de absorver tecnologia já desenvolvida.
Em exportações e divisas, o
efeito já é mensurável: os contratos da SIATT com os Emirados Árabes Unidos
(US$ 299 milhões) e da Condor com país africano (mais de US$ 10 milhões)
representam entrada de moeda estrangeira viabilizada por ativos brasileiros que,
operando isoladamente, dificilmente teriam acesso à mesma rede comercial
internacional do EDGE Group, hoje presente em mais de 30 países. A lógica
declarada pelo próprio grupo, de usar encomendas internacionais para dar escala
às fábricas brasileiras e reduzir custos para as Forças Armadas nacionais,
reforça esse potencial.
O ponto que segue exigindo
atenção é a autonomia tecnológica. Diferentemente das participações minoritária
e majoritária mantidas na SIATT e na Condor, a aquisição integral da Akaer
configura um padrão distinto, o de controle acionário total. Há precedente
relevante nesse sentido, o da aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em
2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram a
migrar, no médio prazo, para fora do raio de influência nacional. O fato de a
operação ter sido solicitada pelo próprio Ministério da Defesa, e de o EDGE
Group ter se comprometido a manter estrutura local de governança e participação
brasileira suficiente para preservar o status de EED, reduz parte desse risco
em relação ao que se poderia esperar de uma aquisição puramente oportunista,
mas não o elimina, já que o desenho definitivo dessas salvaguardas ainda
depende das aprovações regulatórias.
O que observar daqui para
frente
A confirmação regulatória da
compra da Akaer e o desenho final das condições de governança e participação
brasileira exigidas para manter o status de Empresa Estratégica de Defesa devem
ser os próximos marcos a acompanhar. Também merece atenção o ritmo de novos
anúncios prometidos pelo EDGE Group para 2026, incluindo áreas de
cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão observado no
caso Akaer, de conversão de uma parceria técnica em controle acionário, se
repetirá em outras empresas da BID brasileira.