Autorização para voos de até 30 km, a 6 mil pés, de dia e à noite marca nova etapa de maturidade do drone brasileiro da XMobots e fortalece uma plataforma que já evolui para versões de reconhecimento, combate reutilizável e emprego em enxame
*LRCA Defense Consulting - 09/09/202
A XMobots acaba de alcançar um marco relevante na trajetória do Nauru 100D. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou o projeto da aeronave não tripulada brasileira para operações com alcance de até 30 quilômetros e altitude de até 6 mil pés em relação ao nível do mar, durante o dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A autorização elimina ainda a exigência anterior de permanência exclusivamente sobre áreas de solo com controle de acesso, ampliando de forma significativa o universo de emprego da plataforma.
Mais do que uma formalidade administrativa, o avanço regulatório representa um passo importante na maturidade de um sistema concebido desde a origem para Defesa e Segurança. Com apenas 9 kg de peso máximo de decolagem, decolagem e pouso vertical elétrico, sensores eletro-ópticos, inteligência embarcada e capacidade de ser transportado por uma pequena equipe, o Nauru 100D passa a reunir mobilidade tática e um envelope operacional autorizado muito mais amplo.
A certificação chega em um momento particularmente importante para a XMobots. Nos últimos meses, a companhia vem transformando o Nauru 100D de um drone tático de inteligência, vigilância e reconhecimento em uma família de sistemas capaz de evoluir para ataque de precisão e operações coordenadas com múltiplas aeronaves.
Uma autorização que muda o patamar operacional
Segundo o release encaminhado pela XMobots à LRCA Defense Consulting, o processo regulatório foi conduzido a partir de requisitos dos regulamentos brasileiros aplicáveis aos sistemas aéreos não tripulados, incluindo a transição do antigo RBAC-E 94 para o novo RBAC 100. A norma, publicada pela Anac em junho de 2026, substituiu a lógica predominantemente baseada no peso das aeronaves por uma abordagem proporcional ao risco operacional.
O RBAC 100 passou a dividir as operações em três categorias: Aberta, Específica e Certificada. Para operações que excedem os limites mais simples da categoria Aberta, como missões além da linha de visada visual ou acima de 120 metros, a regulamentação prevê avaliação proporcional ao risco e requisitos específicos de projeto e operação. A mudança aproxima o ambiente regulatório brasileiro de práticas internacionais e cria espaço para soluções mais complexas, desde que seus fabricantes e operadores demonstrem níveis adequados de segurança.
É nesse contexto que a autorização do Nauru 100D ganha importância. A aeronave deixa de estar associada apenas a demonstrações controladas ou a cenários restritos e passa a contar com uma base regulatória para missões de maior alcance e altitude, inclusive noturnas, respeitadas as demais autorizações e regras aplicáveis ao uso do espaço aéreo.
A XMobots afirma que, com o novo ato, torna-se a empresa brasileira com o maior número de projetos de drones certificados pela Anac. O resultado reforça uma experiência regulatória acumulada pela companhia ao longo de anos, aspecto particularmente relevante em um setor no qual não basta desenvolver uma aeronave capaz de voar: é necessário demonstrar confiabilidade, segurança, controle, navegação e capacidade de resposta a emergências.
Dois operadores, duas mochilas e três minutos
O Nauru 100D foi concebido para reduzir a estrutura necessária ao emprego de um sistema aéreo tático. A aeronave tem 2,1 metros de envergadura, peso máximo de decolagem de 9 kg, velocidade de cruzeiro de aproximadamente 17 m/s (33 nós) e autonomia de até duas horas por bateria. O kit padrão utiliza três baterias, permitindo até seis horas de missões sucessivas, com substituição das fontes de energia entre os voos.
Todo o conjunto pode ser transportado em duas mochilas táticas. Além de acondicionar a aeronave e os equipamentos, elas integram funções de apoio, como estação de comando e controle e sistema de carregamento das baterias. A montagem é do tipo plug and play e pode colocar o sistema em condições de operação em até três minutos.
Essa combinação é particularmente importante para pequenas frações militares, forças especiais, unidades de fronteira e equipes de Segurança Pública. Um sistema que não depende de pista, catapulta ou grande estação terrestre pode acompanhar a tropa, ser lançado a partir de clareiras ou posições improvisadas e mudar de local rapidamente após a missão, reduzindo a exposição da equipe e aumentando a flexibilidade operacional.
Sensores e inteligência embarcada
Na configuração ISR autorizada pela Anac, o Nauru 100D pode receber o sensor SIS031A, conjunto eletro-óptico que combina câmera RGB e infravermelho termal LWIR. A solução permite operação diurna e noturna e oferece funções de detecção, acompanhamento e geolocalização de pessoas, veículos e embarcações.
A própria XMobots informa que o sistema incorpora processamento e inteligência embarcada para aplicações como rastreamento de alvos, leitura de placas, apoio a busca e salvamento e geração de coordenadas geográficas. As imagens e os dados são enviados às equipes em solo, ampliando a consciência situacional e permitindo que a aeronave funcione não apenas como um sensor aéreo, mas como um elemento integrado ao ciclo de decisão.
A página técnica da fabricante acrescenta características voltadas à redução da detectabilidade, com baixa assinatura visual, acústica e térmica, emprego de materiais antirreflexo e resistência a chuva forte. Em um ambiente militar, esses atributos são relevantes porque a sobrevivência de pequenos drones depende cada vez mais da capacidade de operar discretamente, permanecer pouco tempo expostos e transmitir informação antes que sejam localizados ou neutralizados.
Da vigilância ao ataque reutilizável
A autorização agora obtida refere-se à configuração ISR do Nauru 100D. A mesma arquitetura, entretanto, serve de base para o Nauru 100D UCAV, versão de combate que a XMobots vem desenvolvendo para emprego de munições.
Em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, a empresa demonstrou ao Exército Brasileiro uma operação coordenada entre as versões ISR e UCAV. Na simulação, o primeiro drone localizou e transmitiu as coordenadas do alvo, enquanto a aeronave armada realizou o ataque. Segundo a XMobots, a demonstração registrou erro circular provável de 1,4 metro.
O conceito apresenta uma diferença importante em relação às munições vagantes: depois de liberar a carga, o Nauru 100D UCAV pode retornar à base, ser rearmado e empregado novamente. Estão em estudo cargas de alto explosivo (HE) e antitanque (HEAT), além de correção de trajetória em tempo real. A proposta procura preservar a plataforma aérea e concentrar o custo consumível na munição, uma lógica que pode ser relevante em conflitos prolongados, nos quais custo, disponibilidade industrial e capacidade de reposição passaram a ter peso semelhante ao desempenho individual dos sistemas.
O LRCA Defense Consulting já havia destacado, em agosto, que a modularidade é um dos pontos centrais do projeto. Informações obtidas diretamente junto à empresa indicaram que as configurações ISR e UCAV utilizam a mesma célula aérea, recebendo módulos de carga útil diferentes conforme a missão. Isso abre a possibilidade de uma frota comum ser reconfigurada entre reconhecimento e ataque, simplificando treinamento, manutenção e logística.
O próximo passo: operações em enxame
A XMobots também trabalha no conceito Nauru 100D Swarm. A arquitetura apresentada pela companhia prevê um contêiner de 20 pés capaz de lançar até 30 aeronaves, sendo três destinadas ao reconhecimento e aquisição de alvos e outras 27 ao ataque coordenado.
O conceito, ainda em desenvolvimento, busca levar a plataforma de uma lógica de emprego individual para uma arquitetura distribuída. A empresa já divulgou alcance previsto entre 120 e 340 quilômetros para o sistema contentorizado, mas vários aspectos essenciais, como comunicações, nível de autonomia, resistência à guerra eletrônica e cronograma de produção, ainda dependem do amadurecimento do projeto e dos requisitos de futuros usuários.
A certificação da configuração ISR não significa, por si só, a certificação automática das futuras versões armadas ou do sistema em enxame. Ela, porém, consolida a célula básica, seus sistemas de navegação, comando e controle e a experiência regulatória associada à plataforma, criando uma base tecnológica mais madura sobre a qual novas configurações poderão evoluir.

Um ativo para Defesa, Segurança e soberania tecnológica
Fundada em 2007, em São Carlos (SP), a XMobots reúne cerca de 500 profissionais, mais de 250 deles engenheiros, segundo a empresa. Seu modelo de desenvolvimento verticalizado abrange aeronaves, aviônicos, software embarcado, sensores, navegação, controle, inteligência artificial, comunicações e sistemas de missão.
O Nauru 100D é também o primeiro representante da chamada geração Delta da companhia, concebida para ampliar a produção por meio de uma arquitetura modular e processos industrializados. O LRCA Defense Consulting já mostrou que a plataforma foi desenvolvida com foco em escalabilidade, substituição rápida de componentes e fabricação em maior série, características que ganham importância diante das lições dos conflitos contemporâneos, nos quais drones passaram a ser empregados e perdidos em grande quantidade.
Nesse cenário, a autorização da Anac tem significado que vai além dos 30 quilômetros e dos 6 mil pés. Ela indica que um sistema nacional voltado a missões críticas começa a transpor a fronteira entre desenvolvimento tecnológico, demonstração militar e operação regulamentada em ambientes mais complexos.
Para o Brasil, o resultado reforça um ponto estratégico: possuir uma indústria capaz de projetar a aeronave, desenvolver sensores e inteligência embarcada, produzir sistemas de comando e controle e, ao mesmo tempo, conduzir seus produtos pelos processos regulatórios necessários à operação real. Para a XMobots, a certificação amplia a credibilidade do Nauru 100D justamente quando a plataforma avança de um pequeno drone de reconhecimento para uma família com potencial de ocupar diferentes níveis do campo de batalha não tripulado.






