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12 março, 2026

Avibras volta à vida: o que a retomada da fabricante do ASTROS e do primeiro míssil de cruzeiro brasileiro significa para o país

 

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LRCA Defense Consulting - 12/03/2026

Em uma assembleia realizada ontem na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, os trabalhadores da Avibras Indústria Aeroespacial aprovaram o acordo de quitação das dívidas trabalhistas da empresa e encerraram uma greve de 1.280 dias, uma das mais longas da história sindical brasileira. A decisão vai muito além de um capítulo trabalhista. Ela sinaliza o possível renascimento da empresa mais estratégica da Base Industrial de Defesa (BID) do país: a única integradora nacional de foguetes e mísseis, e a responsável por programas que, se perdidos, levariam décadas para ser reconstituídos.

O arsenal que ficou parado
Para entender o peso do que esteve em risco, é preciso conhecer o que a Avibras fabrica.

Com sede em São José dos Campos e instalações em Jacareí e Lorena, a empresa é responsável pelo ASTROS 2020, nova geração do Sistema ASTROS, seu produto de maior sucesso, capaz de lançar mísseis de cruzeiro e foguetes guiados. Também desenvolve motores foguetes para a Marinha e para a Força Aérea Brasileira, sistemas C4ISTAR e a aeronave remotamente pilotada Falcão (descontinuada).

O carro-chefe é o ASTROS II MK6 (Artillery Saturation Rocket System), referência mundial em sua classe e já provado em combate, capaz de lançar diferentes calibres de foguetes e, na versão mais avançada, também os mísseis táticos de cruzeiro. O sistema é operado pelas Forças Armadas brasileiras e exportado para países como Arábia Saudita, Indonésia, Malásia e Qatar.

Mas é o míssil que concentra a maior atenção estratégica. O AV-MTC, Míssil Tático de Cruzeiro da Avibras, tem alcance de 300 km (para exportação; o interno é superior a 1.000 km), é movido a turbina e estava em fase final de desenvolvimento e certificação quando a crise financeira paralisou tudo. Apelidado de "Matador", o míssil combina foguete de combustível sólido para lançamento com turbojato durante o voo de cruzeiro subsônico, e navega por sistema GPS ativo com giroscópio a laser, atingindo precisão de aproximadamente 30 metros. Trata-se do primeiro míssil de cruzeiro 100% brasileiro, e um dos poucos desse tipo desenvolvidos no hemisfério Sul.

Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), cerca de 90% do desenvolvimento desse armamento já estava concluído, faltando apenas a fase final de testes e disparos experimentais. O Exército havia encomendado um lote inicial de 100 unidades. A paralisia da empresa colocou esse projeto em compasso de espera, com o risco real de que outra empresa ou, pior, outra nação herdasse a tecnologia.

Esse risco não era hipotético. Em 2024, a empresa australiana DefendTex chegou a propor a aquisição da Avibras, em uma operação vista pela LRCA Defense Consulting como de natureza geopolítica, que permitiria à Austrália desenvolver capacidade de mísseis para se contrapor à presença chinesa no Indo-Pacífico, essencialmente exportando décadas de conhecimento tecnológico brasileiro. O governo australiano acabou não viabilizando o negócio, mas o episódio escancarou a vulnerabilidade da situação.

A nova geração que pode chegar com a retomada
A crise não impediu a Avibras de projetar o futuro. Em 2023, a empresa apresentou o ASTROS III, concebido a partir das lições aprendidas com o conflito na Ucrânia, onde sistemas de saturação de artilharia se revelaram determinantes. O novo lançador, baseado em chassi 8x8 de alta mobilidade, oferece capacidade significativamente superior ao ASTROS II: quatro mísseis de cruzeiro por lançador, contra dois no modelo anterior, e até 72 foguetes de menor calibre por plataforma.

No mercado externo, os produtos da Avibras também avançavam. Em julho de 2023, a empresa assinou um Memorando de Entendimento com a empresa saudita Scopa Defense, que previa injeção de recursos na companhia e pedidos de mísseis de cruzeiro AV-MTC 300 e dos novos foguetes guiados SS-150, com alcance de 150 km.

Além disso, a Avibras é peça central no programa espacial brasileiro. A empresa desenvolve o VSB-30, veículo suborbital do Programa Espacial Brasileiro, e o S50, o maior motor-foguete já fabricado no Brasil, com 12 toneladas de propelente sólido e uso de fibra de carbono no envelope-motor.

O acordo sindical e a vitória judicial que reabriram as portas
A assembleia de ontem aprovou um acordo que envolve R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas referentes a cerca de 1.400 funcionários. O parcelamento varia de 12 a 48 vezes conforme a faixa salarial. A empresa desligará formalmente seus 850 funcionários ativos, quitará os valores devidos e recontratará 450 trabalhadores para reiniciar a produção em Jacareí: 210 em uma primeira fase, em abril, e outros 240 a partir de junho.

A decisão judicial que pavimentou o caminho veio na véspera: no dia 10, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou recursos de credores do mercado financeiro que tentavam anular o plano alternativo de recuperação judicial, aprovado em agosto de 2025 por 99,2% dos credores presentes à assembleia geral.

Foi eleito ainda Sérgio Henrique Machado, diretor do sindicato, como representante dos trabalhadores no conselho de administração da empresa, uma conquista que garante voz ativa da categoria nas decisões estratégicas futuras.

"Quatro anos sem apoio federal adequado"
A vitória dos trabalhadores veio com um preço alto. A greve teve início em 9 de setembro de 2022, desencadeada por atrasos sistemáticos no pagamento de salários. Por quase quatro anos, cerca de 1.400 metalúrgicos viveram a incerteza de salários atrasados, planos de saúde cancelados e FGTS sem depósito.

O presidente do Sindicato, Weller Gonçalves, comemorou o resultado, mas não deixou de cobrar. Segundo ele, em quatro anos de luta o governo federal apresentou promessas, mas não ações concretas de apoio, apesar do caráter estratégico inegável da empresa. A Avibras segue negociando com o Ministério da Defesa a venda de equipamentos para obter o fôlego financeiro necessário à retomada plena.

O que está verdadeiramente em jogo
Para muitos analistas, a Avibras é o equivalente brasileiro da Saab ou da Thales, companhias que representam o coração tecnológico de suas nações. Hoje ela é o maior fabricante e exportador de armamento e sistemas de defesa do Brasil, e a única integradora dos sistemas de propulsão de foguetes e mísseis fabricados no país.

O Exército Brasileiro acompanha de perto o processo de retomada, ciente de que a Avibras concentra competências sensíveis que reduzem a dependência externa do país em áreas críticas de soberania.

E o contexto geopolítico não deixa dúvida sobre a urgência. O Exército apresentou ao presidente Lula um plano estratégico de R$ 456 bilhões para modernizar a defesa nacional até 2040, e entre os projetos prioritários está justamente o míssil tático de cruzeiro (AV-TM 300 "Matador") e um novo míssil balístico (S+100) da Avibras.

Com a aprovação do acordo ontem, esse futuro voltou a ser possível.

11 março, 2026

Aeronaves contra drones: o caçador não pode virar caça

Helicópteros e jatos pagam preço alto por interceptar drones a curtíssima distância, e a Embraer indica o A-29 Super Tucano cUAS como alternativa mais segura, acessível e eficaz para redefinir essa luta



*LRCA Defense Consulting - 11/03/2026

Um helicóptero AH-64E Apache Guardian da Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos (EAU) cai em missão de interceptação de drones iranianos Shahed-136. Dois tripulantes morrem. O governo confirma o acidente, mas evita detalhar as circunstâncias, e o silêncio oficial fala por si. O episódio não é isolado. Desde que o conflito entre Irã e a coalizão Israel-EUA escalou de forma sem precedentes neste ano, os EAU já registraram mais de 1.400 ataques com drones de longo alcance em apenas dez dias. Para dar conta do volume, as forças emiratenses colocaram no ar tudo que tinham: F-16, Apaches, Black Hawks armados. E o custo operacional desta aposta está começando a aparecer.

"Ao destruir um drone carregado de explosivo a curta distância, forma-se uma nuvem de fragmentos capaz de abater o próprio interceptor."

O Apache dos EAU: quando o caçador vira presa
A queda de um helicóptero Apache (provavelmente), ocorrida em 9 de março, ilustra com dramaticidade o dilema tático que os EAU enfrentam diante de um ataque em larga escala com drones kamikazes do tipo Shahed-136. Segundo relatos e imagens que circularam nos dias anteriores ao acidente (vídeo abaixo), aeronaves emiratenses aproximavam-se dos drones a distâncias muito curtas antes de abrir fogo, a única forma de garantir a derrubada com os armamentos disponíveis.

O Ministério da Defesa dos Emirados classificou o incidente como 'falha técnica', sem revelar localização, detalhes da missão ou modelo da aeronave. Mas múltiplas fontes especializadas identificaram o aparelho como um AH-64E Apache Guardian. Dois militares morreram.

A tática de interceptação direta, com caças F-16 Block 60 'Desert Falcon' e helicópteros AH-64E e UH-60M Black Hawk armados, foi adotada pelos Emirados justamente pela flexibilidade de perseguir os drones sobre zonas despovoadas, reduzindo o risco sobre centros urbanos. 

O problema: 
em distância mínima, se houver a detonação da ogiva ao abater um Shahed-136, isto gerará uma nuvem de estilhaços que podem atingir mortalmente o próprio interceptor. Mesmo que não haja esta explosão, estilhaços do drone ainda podem atingir a aeronave caçadora.

EAU — o volume do ataque

• Mais de 1.400 drones Shahed-136 lançados contra os Emirados em 10 dias

• Aeronaves empregadas: F-16 Block 60, AH-64E Apache, UH-60M Black Hawk armado

• Método: aproximação direta a curta distância antes de abrir fogo

• Resultado: AH-64E Apache (provavelmente) abatido em 9 de março; dois militares mortos


Ucrânia já aprendeu essa lição, e do jeito mais duro
A experiência ucraniana com os mesmos drones Shahed-136 acumula precedentes documentados e dolorosos. Os episódios formam uma linha direta de causa e efeito entre o método de interceptação próxima e a perda das aeronaves interceptoras:

• 2022: um MiG-29 ucraniano é destruído após estilhaços de um drone detonado a curtíssima distância atingirem a cabine do piloto.

 2023: um piloto de Su-27 perde a vida durante uma interceptação de drones suicidas. A aeronave foi danificada pelos fragmentos da explosão.

 Junho de 2025: um F-16 ucraniano, parte da aguardada frota fornecida pelo Ocidente, é abatido ao repelir um ataque combinado russo com drones e mísseis. As circunstâncias específicas são contestadas, mas o padrão se repete.

O denominador comum desses três casos é o mesmo: destruir um drone carregado de explosivo a pouca distância equivale, em alguma medida, a voar deliberadamente em direção a uma explosão. O interceptor sofre o resultado da missão que acabou de cumprir.

"Um F-16 pode derrubar um Shahed-136, mas se ele explode a 50 metros, o piloto pode não voltar para contar a história."

A lógica é cruel: para ser eficaz com canhão ou metralhadora, o piloto precisa se aproximar. Ao se aproximar, se expõe à nuvem de fragmentos, principalmente se acertar a cabeça explosiva. A distância de segurança depende da ogiva, do ângulo de tiro, da altitude e de uma série de variáveis que mudam a cada intercepção, e frequentemente são subestimadas no calor da operação.

Helicópteros AH-64E Apache dos EAU destroem drones iranianos com seus canhões M230. O perigo maior é acertar a cabeça explosiva...

A aposta da Embraer: o Super Tucano como drone hunter
É nesse contexto que a Embraer tomou uma decisão estratégica em novembro de 2025: posicionar formalmente o A-29 Super Tucano como plataforma anti-drone. A proposta não exige uma nova versão do avião, apenas a ativação de capacidades que o turboélice já carrega, combinadas com armamentos provados em combate.

O conceito gira em torno de três elementos centrais: o sensor EO/IR (eletro-óptico/infravermelho) instalado sob o nariz da aeronave, os data links para receber coordenadas de ameaças de fontes externas, e os foguetes de 70 mm guiados a laser, em especial o sistema APKWS II (Advanced Precision Kill Weapon System) da BAE Systems. Cada foguete custa cerca de US$ 30.000, frente a US$ 450.000 a US$ 1 milhão de um míssil ar-ar convencional, e demonstrou eficácia real contra drones em operações no Oriente Médio.

A-29 Super Tucano — configuração anti-drone (cUAS)

• Sensor EO/IR: rastreamento e designação laser de alvos UAS

• Data links: recepção de coordenadas de ameaças via fontes externas

• Sistema de inteligência artificial Gunslinger para acelerar a tomada de decisão tática 

• Foguetes: 70 mm guiados a laser APKWS II (detonação por espoleta de proximidade)

• Metralhadoras: 2x .50 cal (12,7 mm) integradas nas asas

• Capacidade de manter patrulha constante com excelente custo/benefício  

• Custo por hora de voo: ~US$ 1.500 vs. US$ 30.000+ de um caça pesado

• Capacidade de operar em pistas curtas e não pavimentadas

• Manutenção simples

• Mais de 600.000 horas de voo acumuladas globalmente


Por que pode ser mais seguro que helicópteros e jatos
A vantagem central do A-29 na missão anti-drone não está na velocidade nem no payload; está na geometria do engajamento. Ao combinar um foguete guiado com espoleta de proximidade e um sensor EO/IR capaz de rastrear o alvo à distância, o turboélice pode detonar o drone sem precisar chegar à distância mínima exigida por um canhão ou metralhadora.

 Maior distância de engajamento: foguetes guiados permitem detonar o alvo antes de chegar à zona de risco dos estilhaços, ao contrário do fogo com canhão.

 Melhor geometria de tiro: a maior velocidade e envelope de manobra do A-29, comparado a um helicóptero, permite ao piloto escolher ângulo e altitude mais favoráveis, possibilitando também evitar a nuvem de destroços, mesmo que use suas metralhadoras.

 Custo-benefício operacional: o custo de hora de voo do Super Tucano (~US$ 1.500) permite manter patrulhas anti-drone prolongadas pelo mesmo custo de poucas horas de um caça pesado.

 Escalabilidade: vários A-29 podem ser mantidos em patrulha simultânea pelo custo de um único caça de alta performance, multiplicando a cobertura territorial.

 Bases avançadas: ao operar de pistas curtas e não preparadas, o Super Tucano pode ser posicionado mais próximo das zonas de ameaça, reduzindo o tempo de resposta.

A Embraer foi além do conceito inicial e, em 2026, anunciou, em parceria com a Valkyrie Aero, a integração do sistema de inteligência artificial Gunslinger ao A-29. A suíte de IA é projetada para comprimir o ciclo 'detectar-rastrear-engajar', acelerando a tomada de decisão tática em situações de múltiplas ameaças simultâneas.

"Vários Super Tucanos podem cobrir uma grande área pelo custo de um único caça pesado, com menor risco para as tripulações."


Limitações reais: o A-29 não é bala de prata, mas é uma solução eficaz
A honestidade analítica exige reconhecer os limites do conceito. O A-29 não tem radar orgânico e depende fortemente de designação externa, seja de sistemas terrestres, aeronaves de alerta antecipado ou sensores aliados. Isso é adequado para ameaças 'low and slow', mas torna o Super Tucano menos eficiente contra saturações massivas ou alvos com perfil mais rápido e elevado.

Em barragens com dezenas ou centenas de drones simultâneos, o A-29 é apenas mais uma camada de uma defesa em profundidade, e não substitui artilharia antiaérea com espoleta de proximidade, mísseis SHORAD, sistemas de guerra eletrônica ou defesa dirigida por energia. O drone hunter precisa de um ecossistema de defesa para funcionar com eficiência máxima.

Há ainda a questão dos estilhaços: se por restrição de espoleta ou geometria o engajamento ainda ocorrer muito próximo do drone, o risco persiste, apenas mitigado pela distância típica de emprego do foguete em relação ao canhão. O problema não é eliminado, é reduzido.

O lugar certo na arquitetura de defesa
O papel ideal do A-29 na missão anti-drone é o de elo intermediário em uma arquitetura de C-UAS em camadas: acima da artilharia antiaérea de curto alcance e abaixo dos caças de alta performance. Nessa posição, o Super Tucano resolve um problema que os sistemas de camada alta e baixa têm dificuldade de endereçar com custo e persistência adequados.

A lição dos EAU e da Ucrânia é clara: usar F-16 e Apaches para interceptar Shahed-136 funciona, mas a um custo operacional e humano elevado, especialmente quando o volume de drones obriga o emprego reiterado desse método. O A-29, ao oferecer uma alternativa com menor risco de fragmentos, custo de hora reduzido e capacidade de operar de bases avançadas, ocupa com precisão a lacuna deixada pelos sistemas existentes.

"O Super Tucano não veio substituir o caça ou o míssil; veio protegê-los de ser gastos no papel errado."

Mais de 22 forças aéreas já operam o A-29 Super Tucano. Portugal foi o primeiro país da OTAN a adquirir o modelo. Panamá, Paraguai, Uruguai e Líbano recentemente expandiram ou iniciaram frotas. 

Assim, a mensagem da Embraer para o mercado do Golfo Pérsico, onde os EAU estão pagando o preço da lacuna que o Super Tucano pode preencher, chegou na hora exata.

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