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03 agosto, 2026
FlyBIS assina protocolo com a Prefeitura de Gramado para operar eVTOLs da Eve a partir de 2028
BNDES aprova financiamento de até R$ 3,7 bilhões para exportação de jatos da Embraer ao Canadá
Operação da linha Exim Pós-embarque viabiliza venda de até 19 E195-E2 à Porter Airlines, com entregas previstas até 2030 e cobertura do Seguro de Crédito à Exportação
*LRCA Defense Consulting - 03/08/2026
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou nesta segunda-feira (03/08) um financiamento entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,7 bilhões destinado a viabilizar a exportação de até 19 aeronaves E195-E2 da Embraer para a canadense Porter Aviation Holdings, controladora da Porter Airlines. As entregas dos jatos, segundo o banco, devem ocorrer até dezembro de 2030.
A operação será estruturada por meio da linha BNDES Exim Pós-embarque, modalidade voltada ao financiamento de exportações brasileiras já embarcadas ou entregues ao comprador estrangeiro. O contrato conta com cobertura do Seguro de Crédito à Exportação (SCE), lastreado no Fundo de Garantia à Exportação (FGE) e operado pela Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF), mecanismo que reduz o risco da transação para o banco e amplia a competitividade da oferta brasileira frente a concorrentes internacionais.
A Porter Airlines opera o modelo E195-E2 desde 2023 e já recebeu 54 das 75 aeronaves encomendadas à Embraer, das quais três contaram com apoio financeiro prévio do BNDES, em contrato firmado em dezembro de 2025. A companhia aérea atende rotas na América do Norte, no Caribe e na América Latina. O novo aporte é o primeiro financiamento direto do BNDES destinado especificamente a exportações da Embraer para uma companhia aérea canadense.
Para o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, “O apoio do BNDES às exportações da Embraer garante a manutenção do nível de produção, de emprego da indústria aeronáutica nacional e com a ampliação de mercado para uma aeronave mais tecnológica”, afirmou, em comunicado divulgado pelo banco.
O vice-presidente executivo financeiro e de Relações com Investidores da Embraer, Felipe Santana, declarou que a operação amplia a parceria entre a fabricante e o banco de fomento no apoio às exportações brasileiras. Já o CFO da Porter Airlines, Rob Palmer, afirmou que a frota E195-E2 tem sido determinante para a expansão da companhia aérea na América do Norte e que a participação do BNDES reforça a confiança do mercado na estratégia de crescimento da empresa.
A aprovação ocorre poucos dias depois de a Porter Aviation Holdings ter anunciado, em comunicado próprio de 29 de julho, ter obtido o compromisso de financiamento do BNDES para as mesmas 19 aeronaves, com a formalização e o anúncio institucional do banco brasileiro vindo somente nesta segunda-feira.
A operação também se soma a uma linha de R$ 13,5 bilhões anunciada pelo BNDES na semana anterior, com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), destinada a companhias aéreas que operam no País. Desse total, R$ 8 bilhões foram reservados para capital de giro e o restante para investimentos em combustível sustentável, manutenção, infraestrutura aeroportuária e aquisição de aeronaves.
O financiamento à Porter se insere em um histórico mais amplo de apoio do BNDES às vendas internacionais da família E2. Em janeiro de 2025, o banco havia fechado com a arrendadora Azorra, com apoio da ITASCA MGA Limited, uma linha de US$ 190 milhões para financiar até oito jatos E2, elevando para US$ 640 milhões o total disponibilizado à companhia para viabilizar a entrega de 23 aeronaves a operadoras como Royal Jordanian, Azul e Scoot.
Para investidores, a aprovação reforça a capacidade da Embraer de sustentar o fluxo de entregas internacionais e preservar a carteira de pedidos do programa E2, um dos principais motores de crescimento da fabricante em meio à concorrência global com Airbus, Boeing, ATR e Bombardier.
Eve Air Mobility alcança o primeiro marco de voo de transição, avançando com o programa eVTOL rumo ao voo convencional
O voo incluiu a ativação da hélice propulsora traseira da aeronave (pusher), sinalizando o início da fase de transição do voo vertical para o voo horizontal. Durante o ensaio, a aeronave atingiu uma velocidade estabilizada de 27 nós (50 km/h) e velocidade máxima de 30 nós (55 km/h), com a hélice propulsora operando até 1.200 RPM.
O voo teve duração de 3 minutos e 9 segundos, percorreu aproximadamente 0,84 milha náutica (1.550 metros) e atingiu uma altura de 90 pés (27 metros) acima do nível do solo.
"Este primeiro voo de transição parcial é um marco importante na trajetória de desenvolvimento da Eve", afirma Johann Bordais, CEO da Eve Air Mobility. "A ativação bem-sucedida do sistema de propulsão traseiro valida um aspecto fundamental do design da nossa aeronave e nos aproxima cada vez mais de entregar soluções de mobilidade aérea seguras, eficientes e escaláveis."
A fase de transição é um dos aspectos mais críticos do voo de eVTOL, envolvendo a transição da sustentação vertical para o voo horizontal. A conclusão do ensaio inicial de transição parcial representa um avanço significativo nos esforços da Eve para ampliar o envelope de voo da aeronave e validar o desempenho dos seus sistemas.
"Este voo demonstrou com êxito a ativação da hélice propulsora traseira durante o voo e validou as principais metas de desempenho no início da fase de transição", destaca Marcelo Basile, diretor de engenharia da Eve Air Mobility. "Os dados coletados darão apoio à expansão contínua do envelope de voo à medida que avançamos em direção a velocidades mais elevadas e a ensaios de transição progressivamente mais complexos."
A equipe de engenharia de ensaios em voo da Eve continua conduzindo análises de cargas e estruturais para apoiar a futura expansão do envelope de voo. Na sequência do programa de ensaios em voo da aeronave, a empresa planeja realizar testes de enlace de dados para validar o desempenho do enlace de rádio e apoiar operações em velocidades de até 50 nós (92 km/h).
Nas próximas semanas, a Eve prevê expandir progressivamente o envelope de velocidade da aeronave como parte da campanha de ensaios em voo de transição.
02 agosto, 2026
Shamal Space passa a se chamar Shamal Aerospace & Defense em reposicionamento de marca aos três anos de atividade
Empresa liderada por Gilberto Damasceno Junior amplia escopo para soluções de uso duplo em aeroespacial e defesa, com foco em sistemas de navegação inercial de nova geração
*LRCA Defense Consulting - 03/08/2026
A empresa brasileira Shamal Space anunciou, nesta semana, a mudança de sua marca para Shamal Aerospace & Defense, em publicação feita pelo CEO e cofundador Gilberto Damasceno Junior em sua página pessoal no LinkedIn. O anúncio coincide com a celebração do terceiro aniversário da companhia, estabelecida em agosto de 2023.
Segundo Damasceno Junior, o reposicionamento reflete a evolução natural da empresa nos últimos três anos, período em que a equipe, a tecnologia e o escopo de atuação cresceram de forma significativa. Embora a paixão pelo setor espacial permaneça central para a identidade da companhia, sua expertise se ampliou para aplicações de uso duplo nos setores aeroespacial e de defesa, o que motivou a adoção do novo nome.
Da consultoria ao fornecimento de soluções
próprias
A Shamal Space nasceu como braço de consultoria estratégica de negócios
em tecnologias espaciais, integrada ao grupo Shamal Enterprises, fundado por
Damasceno Junior em 2015. Ao longo dos últimos anos, a empresa migrou
progressivamente para o desenvolvimento de hardware próprio, tendo já
apresentado ao mercado, em parceria com a Navollo Aerospace, empresa
brasileira fabricante de veículos lançadores, cubesats e propulsores espaciais,
dois sistemas de navegação inercial (INS): o SINAI D80, voltado a aplicações
táticas civis e lançado em fevereiro de 2025, e o SINAI SD150 FOG, equipado com
giroscópio de fibra óptica (Fiber Optic Gyro), apresentado em abril de
2025. Ambos os equipamentos são descritos pela companhia como tecnologia
integralmente projetada e fabricada no Brasil e livre de restrições do
regulamento norte-americano ITAR (International Traffic in Arms Regulations),
característica que amplia seu potencial de exportação.
Em novembro de 2025, a parceria entre Shamal e Navollo também produziu o primeiro voo estratosférico bem-sucedido de um picossatélite nacional dedicado à conectividade via internet das coisas (IoT), o LEPTONSat, testado no Parque Tecnológico de Sorocaba. O marco abriu caminho para o projeto de uma constelação de picossatélites de fabricação brasileira, com lançamentos previstos para 2026. Mais recentemente, em abril de 2026, durante a feira chilena FIDAE, a Shamal Space foi admitida no Consórcio de Espaço do Chile, ao lado da Associação Chilena de Indústrias de Defesa (ACHIDE).
Um fornecedor completo para missões aéreas,
espaciais e de defesa
De acordo com o comunicado, a Shamal Aerospace & Defense se propõe
agora a atuar como fornecedora completa de produtos avançados e soluções
integradas para missões aéreas, espaciais e de defesa, trabalhando em conjunto
com parceiros internacionais para levar ao mercado tecnologias como sistemas de
navegação inercial de última geração e outros equipamentos e programas de alta
confiabilidade. A empresa integra ainda o SHAMAL HUB, coletivo de empresas
brasileiras de base tecnológica (deeptechs) do qual também fazem parte, entre
outras, a Navollo Aerospace e a HyperLift Aerospace & Defense.
No texto que acompanha o anúncio, Damasceno Junior recorreu a um trecho do discurso do então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy na Universidade Rice, em setembro de 1962, no qual Kennedy defendeu a corrida espacial americana justamente pelo grau de dificuldade do desafio, e não apesar dele. Para o executivo, a analogia se aplica ao esforço de construir, a partir do Brasil, um negócio espacial e de defesa mirando mercados globais: um empreendimento difícil, mas não impossível, ao qual a empresa afirma seguir dedicada.
A companhia afirmou ainda que o novo nome representa um compromisso com a segurança, a soberania e o avanço tecnológico das missões em que pretende atuar, agradecendo à equipe, a parceiros e a clientes pela trajetória dos últimos três anos.
Exército revela UGV armado com míssil MAX 1.2 AC durante evento no CTEx
01 agosto, 2026
Guarani volta ao radar das Filipinas em plano de compra de mais de 500 blindados
Manila estuda renovar a frota terrestre com centenas de veículos de combate, e o blindado brasileiro, já presente no país, surge como candidato favorecido pela experiência prévia, mesmo sem lista oficial de concorrentes
*LRCA Defense Consulting - 02/08/2026
O Departamento de Defesa Nacional das Filipinas (DND) anunciou a intenção de adquirir mais de 500 blindados para ampliar a mobilidade e a proteção de suas forças terrestres, abrindo espaço para que o VBTP-MR Guarani 6x6, fabricado no Brasil pela Iveco Defence Vehicles (IDV), volte a ser considerado em Manila. O veículo já integra o Exército filipino desde 2024, mas o DND ainda não divulgou uma lista oficial de plataformas candidatas ao novo programa.
O anúncio filipino
O plano foi
revelado pelo secretário de Defesa Nacional das Filipinas, Gilberto Teodoro
Jr., em entrevista à emissora estatal Radyo Pilipinas, em 23 de julho de 2026.
Segundo o ministro, o País asiático pretende adquirir mais de 500 fighting
vehicles para permitir que as tropas terrestres reajam com mais rapidez a
ameaças e reduzam a necessidade de deslocamentos a pé. Teodoro afirmou ainda
que as novas viaturas deverão funcionar como fator de dissuasão, mas não
revelou valores, cronograma ou requisitos técnicos, alegando razões de
segurança.
O porta-voz do Exército filipino (Philippine Army), coronel Louie Dema-ala, confirmou publicamente o apoio da força ao plano, classificando veículos modernos e confiáveis como essenciais para que os soldados respondam com rapidez, manobrem com eficácia e cumpram missões com mais proteção. Dema-ala remeteu ao próprio DND qualquer detalhamento adicional sobre o programa.
A frota blindada atual das Filipinas inclui os tanques leves Sabrah e FV101 Scorpion, variantes do transporte blindado M113 e viaturas sobre rodas como o Kia KM450 e o K151 Raycolt, conjunto majoritariamente envelhecido diante do cenário de tensão no mar do Sul da China. O próprio anúncio ocorre em meio à ampliação de exercícios conjuntos das unidades blindadas filipinas com forças dos Estados Unidos e do Japão, incluindo manobras com viaturas de combate japonesas Type 16, o que sugere que Manila poderá buscar uma combinação de veículos sobre rodas e sobre lagartas, e não a compra de um único modelo para a totalidade do programa.
O histórico do Guarani em
Manila
O
relacionamento entre o Guarani e o Exército filipino não é novo. Em 2020, a
Elbit Systems, empresa israelense responsável pela integração de subsistemas,
foi confirmada como vencedora de um contrato de aproximadamente US$ 46 milhões
para o fornecimento de 28 unidades do VBTP-MR 6x6 Guarani, fabricadas pela IDV
em Sete Lagoas (MG). Os veículos recebem torre remotamente controlada,
metralhadora de 12,7 mm ou canhão automático de 30 mm conforme a configuração,
sistema de gerenciamento de campo de batalha Torch-X e rádio definido por
software E-LynX, ambos da Elbit.
As primeiras cinco unidades chegaram ao Porto de Manila em fevereiro de 2024. Um segundo lote de nove unidades foi embarcado no Porto de Santos em 2025. Segundo reportagem publicada pela revista Sociedade Militar em 31 de julho de 2026, relatos especializados mais recentes indicam que apenas 14 das 28 viaturas contratadas teriam sido efetivamente entregues até aquele momento, com os atrasos atribuídos majoritariamente à integração dos sistemas da Elbit, e não à fabricação da plataforma pela IDV. Como o governo filipino e as empresas envolvidas não divulgaram um balanço público detalhado do contrato, o número exato de unidades já incorporadas ao Exército filipino deve ser tratado com ressalva.
A exportação do Guarani às Filipinas também já enfrentou um obstáculo regulatório. Em 2023, o Escritório Federal de Assuntos Econômicos e Controle de Exportações da Alemanha (BAFA) suspendeu temporariamente a exportação de componentes de origem alemã presentes no blindado, entre eles aço balístico, placas de proteção contra minas, periscópios, partes da transmissão e componentes do sistema de refrigeração. A restrição foi revertida meses depois, após negociações entre os governos envolvidos, permitindo a continuidade das entregas. O episódio expôs a dependência de uma cadeia internacional de fornecedores em um produto fabricado no Brasil e deve pesar na avaliação filipina sobre segurança de fornecimento em qualquer encomenda futura.
Por que o Guarani é visto como
favorito, sem ser garantido
A principal
vantagem do Guarani é a experiência operacional já acumulada pelo Exército
filipino com a plataforma, somada à estrutura logística, de manutenção e de
treinamento já implantada para sua operação. A adoção de um modelo já conhecido
tende a reduzir custos com ferramental, peças de reposição, simuladores e
formação de equipes técnicas, além de facilitar a integração de novas unidades
a uma cadeia logística já em funcionamento.
Há, no entanto, uma diferença de nomenclatura relevante entre o produto brasileiro e o anúncio filipino. O Guarani atualmente em serviço nas Filipinas é classificado principalmente como veículo blindado de transporte de pessoal, enquanto o termo fighting vehicles, usado por Teodoro, remete normalmente a um veículo de combate de infantaria, categoria que costuma receber armamento mais pesado e missão de apoio direto às tropas desembarcadas. Como o DND ainda não revelou os requisitos técnicos do programa, permanece em aberto se a futura encomenda incluirá o Guarani, viaturas mais pesadas, veículos sobre lagartas ou uma combinação de plataformas especializadas.
A relação de defesa entre
Brasil e Filipinas
O vínculo
militar entre os dois países ultrapassa o programa Guarani. Brasil e Filipinas
assinaram, em 2022, um memorando de cooperação em defesa que abriu espaço para
iniciativas em logística, indústria, treinamento e intercâmbio tecnológico. Em
fevereiro de 2026, o DND classificou o Brasil como parceiro relevante para seu
programa de modernização das Forças Armadas e como seu único parceiro formal de
defesa na América Latina, sinalizando interesse em ampliar a cooperação
industrial. A Força Aérea das Filipinas também opera seis unidades do A-29
Super Tucano, da Embraer, outro produto brasileiro incorporado ao processo de
modernização militar filipino, o que reforça o histórico institucional que pode
facilitar negociações governamentais e novos acordos industriais em torno do
Guarani, ainda que cada aquisição dependa de avaliação própria.
Mudança de controle acionário
da fabricante
O cenário
industrial por trás do Guarani também mudou nos últimos meses. Em 18 de março
de 2026, o grupo italiano Leonardo concluiu a aquisição da Iveco Defence
Vehicles e da marca de caminhões militares ASTRA, negócio avaliado em
aproximadamente €1,6 bilhão. A operação inclui a planta de Sete Lagoas (MG),
onde é fabricado o Guarani, e reorganiza a IDV como uma OEM (Original Equipment
Manufacturer) integrada ao portfólio de eletrônica, sensores e torres da
Leonardo, com potencial de elevar o padrão de exportação do blindado
brasileiro.
Um desdobramento corporativo mais recente, contudo, ainda gera incerteza sobre o desenho final do grupo. Segundo comunicado da própria Leonardo, reproduzido pela Investing.com em 31 de julho de 2026, a companhia mantém negociações não vinculativas com a alemã Rheinmetall sobre a venda de parte da IDV recém-adquirida. O diretor financeiro do grupo, Giuseppe Aurilio, descreveu a existência de um acordo de cavalheiros com a Rheinmetall, sem caráter formalmente vinculativo, e classificou a venda como uma entre várias alternativas em avaliação, e não a única. O executivo destacou que o negócio de caminhões da IDV está em crescimento e é lucrativo, o que colocaria a Leonardo em posição mais confortável para negociar. O diretor-executivo Lorenzo Mariani acrescentou que o grupo recebeu consultas de outras partes interessadas na mesma unidade.
É importante notar que essas tratativas com a Rheinmetall dizem respeito, segundo fontes internacionais como Defense Post e MarketScreener, ao negócio de caminhões militares e logísticos da IDV, marcas ASTRA e Eurocargo, e não à linha de veículos blindados de combate, na qual se insere o Guarani. Ainda assim, o episódio confirma que a reestruturação societária em torno da fabricante segue em curso, num momento em que Manila avalia expandir sua frota blindada, o que reforça a relevância de acompanhar a governança da IDV como variável relevante para qualquer negociação futura entre Brasil e Filipinas.
O que ainda não está confirmado
Até o
fechamento desta reportagem, nenhuma fonte filipina ou brasileira havia
confirmado a inclusão formal do Guarani em uma licitação ou lista restrita do
novo programa de mais de 500 veículos. O DND não divulgou plataformas
candidatas, valores ou cronograma. A menção ao blindado brasileiro no
noticiário internacional decorre, por ora, de inferência editorial baseada no
histórico de relacionamento e na infraestrutura logística já instalada nas
Filipinas, e não de documento oficial de licitação.
IMBEL inicia carregamento de granadas de 155 mm na nova planta da Fábrica de Juiz de Fora
Unidade realizou o primeiro lote de granadas AE M107 com TNT na Nova Planta de Carregamento, etapa que marca a validação operacional da estrutura inaugurada em 2025
*LRCA Defense Consulting - 01/08/2026
Nesta quinta-feira (30), a IMBEL realizou, na Fábrica de Juiz de Fora (FJF), em Minas Gerais, o primeiro carregamento de um lote de granadas AE M107 de 155 mm com TNT na Nova Planta de Carregamento (NPC) da unidade. A operação marca o início de uma sequência de atividades voltadas ao refinamento contínuo dos processos operacionais da planta, com foco na validação de equipamentos e sistemas, no aperfeiçoamento dos procedimentos produtivos e na garantia de conformidade com os requisitos normativos de qualidade e segurança.
O processo teve início com a entrada, pelo túnel de pré-aquecimento, do carro de transporte de granadas, movimentado pelo sistema indexador até a Estação de Carregamento. Ali ocorreu o preenchimento das granadas com explosivo fundido, previamente preparado nas Cubas de Fusão e transferido por meio da Cuba de Vazamento. Cada granada foi carregada até o massalote, concluindo o processo de enchimento e liberando o conjunto para a etapa seguinte.
Na etapa de resfriamento, o carro foi direcionado a uma cabine específica, onde ferramentas de aquecimento, previamente ajustadas, promoveram uma solidificação controlada do explosivo. O procedimento assegura uma carga isenta de defeitos internos, contribuindo para a qualidade, a confiabilidade e a segurança do produto final.
Segundo a IMBEL, a operação representa um marco no processo de integração e operação da NPC, permitindo a consolidação dos parâmetros de processo e a coleta de dados essenciais para a otimização contínua da produção. Os resultados obtidos devem servir de base para o aperfeiçoamento das rotinas operacionais, fortalecendo a capacidade produtiva da Empresa e reafirmando seu compromisso com a excelência, a segurança e a qualidade dos produtos.
Da inauguração à
validação operacional
A NPC foi
inaugurada em cerimônia realizada em Juiz de Fora no início de agosto de 2025,
com a presença de autoridades militares e de representantes de empresas
parceiras da Base Industrial de Defesa (BID). Na ocasião, o diretor-presidente
da IMBEL, general de divisão veterano Ricardo Rodrigues Canhaci, destacou que a
nova estrutura representa um passo importante para a garantia da soberania
nacional, ressaltando que ela resulta da evolução de uma planta originalmente
importada, hoje modernizada pela engenharia nacional.
O chefe da fábrica de Juiz de Fora, coronel veterano Renato Mitrano Perazzinni, explicou que a instalação eleva a capacidade de carregamento de granadas e cabeças de guerra em calibres entre 60 mm e 155 mm, incluindo versões de alcance estendido, carga oca e explosivos insensíveis, estes últimos voltados à redução de riscos de acidentes no manuseio e no transporte. Segundo ele, o avanço abrange também a nacionalização, a independência e o domínio técnico dos sistemas capazes de fabricar essas munições.
Um capítulo na
trajetória da FJF
A Fábrica de Juiz
de Fora integra o Sistema de Ciência e Tecnologia (SCT) do Exército Brasileiro
e detém exclusividade na fabricação de munições para a Força Terrestre. Suas
origens remontam a 1934, quando foi criada como Fábrica de Estojos e Espoletas
de Artilharia (FEEA), designação alterada para FJF em 1939.
O início das operações da NPC dá sequência a um processo de nacionalização já em curso na unidade. Em 2022, a fábrica entregou ao Exército Brasileiro o primeiro lote do Tiro 155 mm M107 fabricado integralmente no País, com componentes como o corpo da granada, as estopilhas MK2A4 e M82 e a carga de projeção M3A1 produzidos sem dependência de fornecedores estrangeiros.
A validação da NPC deve ampliar o portfólio de carregamento da IMBEL e reduzir a dependência externa em um segmento considerado estratégico para as Forças Armadas, consolidando a Empresa como fornecedora nacional de munições de artilharia de médio e grande calibre.
O Brasil é rico demais para continuar pobre em defesa
Independentemente do desfecho da guerra, dificilmente esse movimento será revertido. Quem investiu bilhões em tecnologia, capacidade produtiva e mão de obra especializada buscará novos mercados, consolidará sua liderança tecnológica e ampliará sua influência política e econômica.
Enquanto isso, o Brasil ainda discute se investir em defesa é gasto ou investimento.
Essa é uma visão perigosa para um país que reúne algumas das maiores riquezas estratégicas do planeta. Amazônia, Amazônia Azul, minerais críticos, água doce, produção de alimentos e uma matriz energética diversificada colocam o Brasil em posição de crescente relevância em um mundo cada vez mais competitivo por recursos.
A história demonstra que riquezas atraem interesses. E interesses sem capacidade de dissuasão transformam vulnerabilidades em oportunidades para terceiros.
O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira deixou de ser apenas uma agenda militar. Tornou-se uma agenda de desenvolvimento nacional. Uma indústria forte gera empregos qualificados, impulsiona inovação, desenvolve tecnologias de uso dual e reduz a dependência de fornecedores externos justamente quando eles priorizam suas próprias necessidades.
O risco de permanecer inerte é evidente. Europa, Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Turquia e Israel ampliam rapidamente seus complexos industriais de defesa. Quanto maior essa capacidade, maior será sua competitividade, sua influência diplomática e seu domínio tecnológico. Se o Brasil não acelerar seus investimentos, correrá o risco de tornar-se apenas consumidor de soluções produzidas por outros, perdendo autonomia sobre sua própria segurança.
As Forças Armadas têm papel central nesse processo. São elas que induzem inovação, estimulam a indústria nacional e garantem a continuidade de projetos estratégicos. Mas isso exige previsibilidade orçamentária, planejamento de longo prazo e uma política de Estado, coisa que não temos.
O mundo já iniciou uma nova corrida industrial. A questão não é se o Brasil pode investir mais em sua Base Industrial de Defesa.
A pergunta é outra, quando as grandes potências disputarem influência, mercados e recursos estratégicos, estaremos preparados para defender nossos interesses ou dependeremos da capacidade industrial daqueles que já decidiram acelerar?
Mac Jee formaliza estrutura própria na Arábia Saudita e nomeia executivo saudita para dirigi-la
Vindo da SAMI, Khalaf Alabdullah assume a Mac Jee Arábia Saudita em movimento que sinaliza a passagem de fornecedor de engenharia a produtor instalado no Reino, sem confirmação regulatória até o momento
*LRCA Defense Consulting - 01/08/2026
A Mac Jee anunciou, em julho de 2026, a nomeação de Khalaf Alabdullah como CEO da Mac Jee Arábia Saudita, com responsabilidade sobre as operações da companhia no Reino e na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA). O anúncio foi feito no perfil da empresa no LinkedIn e replicado em 25 de julho pelo portal StrongYes, publicação de recursos humanos sediada no Golfo. A informação não foi reproduzida, até o fechamento desta matéria, por veículos especializados em defesa no Brasil ou no exterior.
O ponto relevante do comunicado não está no nome do executivo, ainda pouco conhecido fora dos círculos industriais sauditas, mas na existência de uma entidade chamada Mac Jee Arábia Saudita. É a primeira vez que a companhia brasileira, sediada em São José dos Campos (SP), assume publicamente uma estrutura societária identificada no Reino, com liderança local e escopo regional definido, depois de anos operando por meio de escritório comercial e de contratos de engenharia executados dentro de instalações de clientes sauditas.
O que o comunicado diz e o que
não diz
No texto
divulgado, a Mac Jee afirma que a nomeação representa marco na estratégia de
crescimento internacional e reforça o compromisso de longo prazo com o Reino.
Declara ainda que pretende contribuir para o desenvolvimento da base industrial
de defesa saudita por meio de transferência de conhecimento, desenvolvimento
tecnológico, formação de talento local e produção local de soluções avançadas
de defesa, em alinhamento com os objetivos estratégicos do país.
A leitura atenta mostra que a produção local aparece na frase de compromisso, ao lado de itens declaradamente prospectivos, e não em uma descrição de ativos existentes. O comunicado não afirma que a Mac Jee opere unidade fabril de sua propriedade no Reino. Trata-se de objetivo declarado, não de fato consumado, distinção que importa tanto para a análise industrial quanto para a leitura regulatória do movimento.
Quem é Khalaf Alabdullah
A Mac Jee
descreve o executivo como um dos principais nomes do setor de defesa da região,
com histórico em sistemas de mísseis, programas estratégicos e parcerias
internacionais de defesa. Não há, contudo, registro público prévio do nome em
programas sauditas de defesa, em bases de imprensa especializada ou em
comunicados oficiais do Reino. Buscas em português, inglês e árabe não
localizaram menções anteriores ao anúncio da empresa.
O único dado biográfico adicional disponível vem da reportagem do StrongYes, que informa, com base no perfil profissional do próprio executivo, que ele ocupava anteriormente a função de Director of Capabilities and Business Development na Saudi Arabian Military Industries (SAMI), a estatal de defesa vinculada ao Fundo de Investimento Público saudita. A informação é autodeclarada e não foi confirmada pela SAMI. Se correta, explicaria a ausência de rastro na imprensa, por tratar-se de posição de direção intermediária, sem exposição pública, e daria sentido à menção a sistemas de mísseis no comunicado da Mac Jee.
A fábrica saudita e a questão da
titularidade
A presença
industrial da Mac Jee na Arábia Saudita não é novidade. Desde dezembro de 2024, este portal registra que a empresa instalou no Reino uma planta de material
energético com capacidade de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX,
ocupando cerca de 500 mil metros quadrados dentro das instalações da Saudi
Chemical Company Limited (SCCL), a maior companhia de produção de energia civil
e militar do país. Em maio de 2026, reportagem do mesmo portal detalhou que a
companhia brasileira projetou e colocou em operação a estrutura, cujas
capacidades declaradas abrangem TNT militar, RDX Tipo I e II, HMX e propelentes
sólidos compósitos para propulsão de foguetes.
A titularidade, porém, é do cliente. A planta foi descrita como a primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, erguida no parque industrial da SCCL. À Mac Jee coube o projeto, a transferência de tecnologia de processo e o comissionamento. Essa configuração é coerente com a nota de esclarecimento divulgada pela empresa em junho de 2023, após reportagem do jornal O Estado de S. Paulo sobre o contrato: naquele documento, a companhia sustentou que o objeto contratual se limitava à exportação de produtos básicos relativos à linha de produção de materiais energéticos de base e que o know-how e o segredo industrial permaneciam reservados ao Brasil. O contrato foi celebrado em 2018, com anuência das autoridades dos dois países.
De escritório comercial a
subsidiária
O material
institucional da Mac Jee descrevia, até recentemente, unidades fabris em São
José dos Campos e Paraibuna, ambas no interior paulista, além de escritórios em
São Paulo, na França e no Oriente Médio. O comunicado de fevereiro de 2024,
distribuído às vésperas do World Defense Show, mencionava que a empresa se
preparava para expandir a capacidade produtiva fora do Brasil, sem detalhar
onde ou quando. Na edição de fevereiro de 2026 do mesmo evento, em Riade, a
companhia voltou com planos declarados de localização de produção no Reino e de
expansão para sistemas de mísseis, este último em cooperação com a Força Aérea
Brasileira.
A criação de uma subsidiária nomeada, com CEO saudita, é salto de natureza diferente. Escritório comercial representa presença de vendas. Contrato de engenharia representa prestação de serviço. Subsidiária com direção local representa intenção de permanência, de contratação no mercado local e de habilitação junto às autoridades do país anfitrião. É o passo que antecede, tipicamente, a instalação de capacidade produtiva própria.
O marcador regulatório que ainda
falta
A confirmação
definitiva da hipótese industrial viria de um documento específico: a licença
de fabricação militar emitida pela Autoridade Geral de Indústrias Militares
(GAMI), órgão que regula, licencia e fiscaliza o setor de defesa saudita e que
responde pela meta da Visão 2030 de nacionalizar mais de 50% do gasto militar
do Reino. Nenhuma empresa fabrica material de defesa em território saudita sem
essa autorização.
Não foi localizado registro de licença da GAMI em nome da Mac Jee. A autoridade não publica lista consolidada de licenciados, o que impede afirmar categoricamente que a licença não exista, mas também impede tratá-la como obtida. Empresas estrangeiras que alcançam esse estágio costumam anunciá-lo, como fez a norte-americana 3D Systems em 29 de julho de 2026, ao divulgar que sua joint venture NAMI, formada com a Dussur e a Saudi Energy, recebeu licença de manufatura militar da GAMI. O silêncio da Mac Jee sobre o ponto é, em si, indicativo.
O movimento no quadro maior
A nomeação
ocorre em fase de adensamento internacional da Mac Jee. Em 29 de maio de 2026,
a empresa assinou memorando de entendimento com o Grupo MBDA, maior fabricante
europeu de mísseis, após visita técnica de representantes do grupo europeu às
suas instalações no mês anterior. A companhia mantém contrato internacional de
cerca de US$ 60 milhões para fornecimento de munições de tecnologia avançada,
firmado em julho de 2025, e integra o programa hipersônico PROPHIPER 14-X da
Força Aérea Brasileira, para o qual desenvolve o foguete acelerador RATO-14X. A
CEO do grupo é Alessandra Stefani; o Conselho de Administração é presidido pelo
fundador Simon Jeannot, que deixou a gestão executiva em 2020 para
concentrar-se na expansão global.
A relação com o Reino, iniciada com o contrato de 2018 e formalizada institucionalmente durante o World Defense Show de 2022, quando Jeannot foi recebido pelo ministro Khalid Al Falih e por Ahmad A. Al-Ohali, então à frente da GAMI, transformou o perfil da empresa. Fontes ligadas ao projeto relataram à imprensa que a companhia mudou de patamar no mercado após o contrato saudita.
O que permanece em aberto
Três pontos
exigem confirmação antes de qualquer afirmação categórica. O primeiro é o
histórico profissional de Khalaf Alabdullah, sustentado por ora apenas em fonte
autodeclarada. O segundo é a natureza jurídica exata da Mac Jee Arábia Saudita,
se subsidiária integral, joint venture com sócio local ou representação
registrada, informação que o comunicado não esclarece e que determina o alcance
real do movimento. O terceiro é a existência de licença da GAMI, sem a qual a
produção local citada no anúncio permanece no campo da intenção.
Procurada, a Mac Jee não havia respondido até o fechamento desta reportagem.








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