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11 setembro, 2026

De cargueiro a arsenal aéreo: Embraer avança com o C-390/Barracuda e leva conceito a operadores e potenciais clientes

Encontro com a Anduril na MSPO 2026 mostra que parceria anunciada em Farnborough começa a avançar para a prospecção operacional e comercial, com atenção especial à Europa e à Polônia



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

Menos de dois meses depois de anunciar, no Farnborough International Airshow, um Memorando de Entendimento com a Anduril para estudar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M ao C-390 Millennium, a Embraer deu um novo passo na iniciativa. Durante a MSPO 2026, em Kielce, na Polônia, representantes seniores das duas empresas voltaram a se reunir para avançar o acordo e, principalmente, levar a proposta ao diálogo com operadores atuais e forças aéreas que avaliam a aeronave brasileira.

A novidade é relevante porque desloca o foco da parceria. Em julho, Embraer e Anduril apresentaram essencialmente um conceito tecnológico e operacional. Agora, a própria Embraer informa que as conversas na MSPO envolveram clientes e potenciais clientes do C-390, cuja questão recorrente foi a rapidez com que a nova capacidade poderia ser incorporada a uma plataforma que já operam ou estão considerando adquirir.

Do memorando à prospecção junto aos operadores 
O acordo anunciado em Farnborough, em 21 de julho, prevê a busca conjunta pela integração do Barracuda-500M paletizado ao C-390. O conceito utiliza sistemas roll-on/roll-off e procedimentos convencionais de lançamento aéreo, evitando, em princípio, a necessidade de transformar permanentemente a aeronave de transporte em uma plataforma de ataque.

A combinação permitiria que o C-390 transportasse e lançasse simultaneamente dezenas de munições de longo alcance, agregando à sua função de mobilidade aérea a possibilidade de gerar efeitos cinéticos e não cinéticos a distância. A Anduril apresenta o Barracuda como uma família concebida desde o início para fabricação simplificada, custos inferiores aos de mísseis de cruzeiro tradicionais e produção em grande escala.

Na MSPO, porém, a discussão ganhou uma dimensão comercial mais concreta. Segundo a nova publicação da Embraer, a resposta de operadores do C-390 e de forças aéreas que avaliam a aeronave reforçou o interesse pelo conceito. A pergunta sobre a velocidade de incorporação da capacidade sugere que os potenciais usuários já começam a observar o Barracuda não apenas como uma experiência tecnológica, mas como possível opção para suas próprias frotas. 

A Polônia está no centro dessa convergência 
O local escolhido para esse novo movimento não é secundário. A Polônia está avaliando o C-390 no programa DROP, destinado à renovação de sua aviação de transporte. Segundo o portal polonês Defence24, o processo poderá resultar na aquisição de até oito aeronaves. A Embraer vem ampliando sua presença industrial no País e, em março, apresentou o C-390 à WZL-2, em Bydgoszcz, no contexto da cooperação para manutenção, reparo e revisão da aeronave.

Ao mesmo tempo, a Polônia já ocupa posição central na estratégia europeia da Anduril. Em julho, a empresa norte-americana, a Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ) e a WZL-2 firmaram acordo para estabelecer em Bydgoszcz a montagem e, progressivamente, a produção local do Barracuda-500M lançado de superfície. A previsão divulgada pelas empresas é produzir milhares de unidades, ampliando gradualmente a participação de componentes poloneses e europeus.

A presença simultânea desses dois movimentos cria uma convergência particularmente interessante: o País que avalia o C-390 também se prepara para produzir o Barracuda-500M. Isso não significa que exista, até agora, uma decisão polonesa de adquirir a configuração C-390/Barracuda, mas torna a Polônia um ambiente especialmente favorável para demonstrar a lógica industrial e operacional da proposta.

O C-390 como plataforma de efeitos em massa 
O conceito acompanha uma transformação mais ampla observada nas guerras recentes. Estoques limitados de armamentos sofisticados e caros passaram a conviver com a necessidade de lançar grande número de vetores, saturar defesas, manter capacidade de reposição e sustentar operações prolongadas. Nesse cenário, quantidade, custo unitário e velocidade de produção passam a integrar o próprio cálculo do poder de combate.

A proposta da Embraer e da Anduril procura inserir o C-390 nessa lógica. Em vez de desenvolver uma aeronave específica para a missão, utiliza-se uma plataforma de transporte já existente, com 26 toneladas de capacidade de carga, elevada velocidade e possibilidade de rápida reconfiguração. O armamento paletizado seria embarcado quando necessário e retirado posteriormente, preservando as demais missões do avião.

Esse aspecto é particularmente atraente para países que operam frotas relativamente pequenas. Uma mesma aeronave poderia continuar cumprindo transporte de tropas e cargas, evacuação aeromédica, reabastecimento em voo, missões humanitárias e outras tarefas, recebendo adicionalmente uma capacidade de lançamento stand-off quando a situação operacional exigisse. 


Uma rede crescente de usuários 
A estratégia também ganha importância à medida que aumenta a comunidade internacional do C-390. A aeronave já foi selecionada por Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Lituânia e, mais recentemente, Colômbia. Uma capacidade modular desenvolvida para a plataforma poderia, em tese, ser oferecida a diversos desses operadores, respeitadas as decisões políticas, requisitos nacionais e autorizações aplicáveis.

É justamente essa base instalada, em expansão, que diferencia a iniciativa. O C-390 deixaria de ser visto somente como um avião que pode eventualmente lançar mísseis e passaria a constituir uma possível rede de plataformas multimissão capazes de receber rapidamente novos módulos e efeitos. Para a Embraer, isso acrescenta valor à aeronave sem descaracterizar sua função principal.

Barracuda: produção em escala como parte da capacidade militar 
A Anduril associa diretamente o Barracuda à necessidade de recompor estoques com rapidez. O primeiro teste bem-sucedido do B-500M lançado por palete ocorreu em setembro de 2024 e foi seguido, segundo a Embraer, por dezenas de outros ensaios, incluindo autonomia colaborativa em rede, engajamentos terminais e validação de cargas úteis.

Na Polônia, a estratégia industrial vai além da simples importação. O acordo com a PGZ prevê produção local do Barracuda-500M e crescente localização da cadeia de suprimentos. Durante a própria MSPO 2026, a Anduril também intensificou a oferta de outros sistemas autônomos às Forças Armadas polonesas, reforçando o País como uma de suas principais portas de entrada no mercado europeu.

O que mudou desde Farnborough 
A integração ainda não pode ser considerada um programa contratado. Embraer e Anduril não anunciaram cliente para a versão paletizada, contrato de desenvolvimento, cronograma de integração ou data para ensaios de lançamento a partir do C-390. O Memorando de Entendimento continua sendo o instrumento formal conhecido.

O que mudou é o estágio da discussão. Em Farnborough, as empresas anunciaram que pretendiam explorar a integração. Em Kielce, passaram a discutir a capacidade com quem já opera o C-390 e com quem pode comprá-lo. A pergunta deixou de ser apenas se o conceito é tecnicamente interessante e começou a incluir outra questão: em quanto tempo ele poderia chegar às frotas. 


Por que isso importa 
Se a parceria avançar para integração e testes, o C-390 poderá ampliar significativamente sua posição no mercado militar internacional. Além de competir como transporte tático e aeronave multimissão, passaria a oferecer uma capacidade de projeção de poder baseada em armamentos paletizados, de longo alcance e produzidos em escala, algo muito relevante para, por exemplo, a licitação de 60 aeronaves que está em curso na Índia. 

Para a Embraer, trata-se de uma nova camada de valor para uma plataforma que já acumula clientes na Europa, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Para a Anduril, o C-390 oferece acesso a uma aeronave moderna, em expansão internacional e capaz de transportar grande quantidade de munições. Para os operadores, a combinação promete transformar rapidamente capacidade logística em capacidade de geração de efeitos, sem exigir uma frota dedicada exclusivamente ao ataque.

A MSPO 2026, portanto, não trouxe ainda o contrato que transformará o conceito em capacidade operacional. Trouxe, porém, algo importante para o caminho até ele: a confirmação de que Embraer e Anduril estão avançando além do anúncio inicial e colocando o C-390/Barracuda diante de operadores e potenciais compradores. A partir de agora, os próximos marcos a observar serão a definição de um cliente, o financiamento da integração, os primeiros ensaios com a aeronave e um eventual cronograma de entrada em serviço.

01 setembro, 2026

Portugal autoriza assinatura de MoU com a Grécia sobre o KC-390, e CEO da Embraer confirma negociação

Despacho publicado no Diário da República em 26 de agosto habilita o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa português a formalizar a parceria estratégica bilateral; Francisco Gomes Neto citou a Grécia no earnings call de agosto, mas com cautela que sinaliza contrato ainda não fechado


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

Dois documentos tornados públicos nas últimas semanas permitem, pela primeira vez, fixar com precisão em que ponto se encontra o processo de aquisição dos três KC-390 pela Grécia: iminente, mas não concluído. O primeiro é um despacho do Ministério da Defesa de Portugal publicado no Diário da República em 26 de agosto de 2026, autorizando formalmente o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assinar um Memorando de Entendimento com o homólogo grego sobre uma "parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar". O segundo é a transcrição do earnings call do segundo trimestre da Embraer, realizado em 10 de agosto, em que o CEO Francisco Gomes Neto mencionou a Grécia no contexto de suas campanhas de defesa em andamento, com uma escolha de palavras que merece atenção cuidadosa.

Tomados em conjunto, os dois documentos redesenham o mapa do processo: Portugal está juridicamente pronto para assinar; a Embraer acompanha a negociação, mas ainda não a contabiliza como contrato; e a janela de assinatura mais provável é a primeira quinzena de setembro de 2026.

O despacho português: o lado Lisboa está pronto
O Diário da República é o diário oficial de Portugal, e um despacho ministerial publicado nele tem força de ato administrativo vinculante. O documento de 26 de agosto aprova a minuta de um Memorando de Entendimento entre os ministérios da Defesa de Portugal e da Grécia e autoriza o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assiná-lo. O texto menciona explicitamente o interesse grego na aquisição de aeronaves KC-390 no âmbito da parceria estratégica bilateral.

DIÁRIO DA REPÚBLICA — DESPACHO DE 26/08/2026 (síntese)

Ato: Despacho ministerial, Ministério da Defesa Nacional de Portugal

Objeto: Aprovação da minuta de Memorando de Entendimento entre os Ministérios da

   Defesa de Portugal e da Grécia

Matéria: "Parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar"

Referência ao KC-390: explícita no texto do despacho

Autorização: diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa fica habilitado a assinar

Publicação: Diário da República, 26 de agosto de 2026

O significado prático é preciso: o lado português está juridicamente habilitado para assinar. A publicação no Diário da República não é uma formalidade interna, é o ato que confere ao signatário a competência legal para vincular o Estado português. Sem esse despacho, o MoU não poderia ser assinado por representante do governo de Lisboa. Com ele publicado, a única etapa que resta é a marcação da data e do local da cerimônia, mais a concordância do lado grego que, como demonstrado pela aprovação do KYSEA em 23 de julho, já completou seu próprio ciclo de autorizações institucionais.

A arquitetura jurídica do negócio é composta por duas camadas. O MoU intergovernamental Portugal-Grécia estabelece o quadro da parceria estratégica e os termos da transferência dos slots de produção que Portugal reservou na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. O contrato de aquisição propriamente dito, os EUR 597,5 milhões aprovados pelo Parlamento heleno em junho e referendados pelo KYSEA em julho, pode ser assinado no mesmo ato ou em momento imediatamente posterior. Em outros programas com estrutura semelhante, como o MoU de MRO entre a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) em maio de 2026, o instrumento preparatório e o ato principal foram separados por dias, não meses.

O earnings call: Gomes Neto confirma, mas escolhe as palavras
Na teleconferência de resultados do segundo trimestre, realizada em 10 de agosto, dezesseis dias antes do despacho português, o CEO Francisco Gomes Neto foi questionado pelo analista Ron Epstein, do Bank of America, sobre o impacto da situação geopolítica nas campanhas de defesa da Embraer. A resposta citou a Grécia, mas em termos que diferem significativamente do que foi dito sobre a Colômbia.


EMBRAER — EARNINGS CALL Q2 2026 (10/08/2026) — TRANSCRIÇÃO PARCIAL

"You saw the recent announcement after the UAE, we announced Colombia recently.

 You saw Greece also mentioning a potential deal through Portugal of KC-390.

 We are working on other campaigns as well that I cannot disclose at this point."

— Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer

   Resposta ao analista Ron Epstein (Bank of America)

 
A distinção lexical é o elemento analítico central. A Colômbia foi apresentada como "newest KC-390 customer" (cliente confirmado), contrato assinado em 4 de agosto, anunciado no próprio call. A Grécia foi descrita como "mentioning a potential deal through Portugal" (um negócio potencial), ainda em discussão, não um cliente. A Embraer tem histórico consistente de precisão terminológica neste ponto: só anuncia um país como cliente quando o contrato está assinado. A linguagem de Gomes Neto em 10 de agosto era, portanto, uma confirmação de que o processo grego estava avançado, mas incompleto.

O despacho do Diário da República, publicado dezesseis dias depois, resolve a equação do lado português. Se na data do call o processo ainda estava em negociação, a publicação da autorização de assinatura pelo governo de Lisboa indica que as conversações evoluíram rapidamente para a etapa final. O padrão é coerente com o que o Army Recognition descreveu em 26 de julho: "acordo esperado para ser assinado no outono de 2026, com setembro como possível data-alvo".

Por que setembro e não outubro
Há três razões concretas para que setembro seja o prazo real, e não apenas o desejável. A primeira é a pressão dos slots de produção: a Grécia assumirá três posições previamente reservadas por Portugal na linha de Gavião Peixoto. Esses slots têm janelas temporais associadas ao cronograma de produção da Embraer, e a linha está crescentemente pressionada pela carteira de pedidos acumulada: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves, maio de 2026), Colômbia (2, agosto de 2026), Eslováquia (em negociação final) e potencialmente outros clientes não divulgados que Gomes Neto mencionou no mesmo call. Cada mês de atraso na formalização aumenta o risco de conflito de slots.

A segunda razão é o cronograma de entrega: a Grécia precisa receber a primeira aeronave em 2027. Para isso, o contrato precisa estar assinado com margem suficiente para que a Embraer complete os processos de aceitação, configuração e transferência. Fontes do setor estimam que o prazo mínimo entre assinatura e primeira entrega, neste tipo de contrato com slots pré-reservados, é de doze a dezoito meses. Um contrato assinado em setembro de 2026 deixa exatamente doze a quinze meses para a entrega de 2027, uma margem ajustada, mas viável.

A terceira razão é política: o governo Mitsotakis tem interesse em fechar o maior programa de defesa da história moderna da Grécia antes do fim do terceiro trimestre de 2026. O Escudo de Aquiles foi assinado em Tel Aviv em 31 de agosto. A narrativa de um "setembro de contratos", com o KC-390 seguindo imediatamente o sistema antiaéreo israelense, é um ativo político de primeira grandeza para um governo que fez da modernização das Forças Armadas um dos pilares de sua agenda.

O que ainda falta para o contrato ser assinado
O despacho português de 26 de agosto autoriza a assinatura do MoU intergovernamental, não do contrato de aquisição em si. A sequência mais provável é: MoU Portugal-Grécia assinado em data próxima, formalizando a parceria estratégica e a transferência de slots; em seguida, ou no mesmo ato, o contrato de compra e venda entre as partes, no valor de EUR 597,5 milhões aprovado pelas instituições gregas.

Do lado grego, todos os obstáculos institucionais foram superados: aprovação parlamentar (10 de junho), aprovação do KYSEA (23 de julho), negociações técnicas com Portugal conduzidas pela Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA). Do lado português, o despacho de 26 de agosto fecha o ciclo de autorizações. Do lado da Embraer, a empresa acompanha e viabiliza tecnicamente a transferência de slots, sem ser a parte signatária do acordo governo a governo.

O único elemento de incerteza remanescente é a data exata e o local da cerimônia, Lisboa, Atenas ou outro ponto, que não foi anunciado por nenhum dos dois governos até o momento de publicação desta matéria. Mas os instrumentos jurídicos estão prontos. A caneta está sobre a mesa.

CRONOLOGIA: DOS ESTUDOS AO MoU

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia o KC-390 em operação em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para capacidade de MRO na Grécia — primeiro sinal público de decisão tomada

10 jun. 2026

Parlamento heleno aprova o programa: EUR 597,5 milhões, 3 aeronaves via Portugal

23 jul. 2026

KYSEA referenda os contratos — ciclo institucional grego encerrado

31 jul. 2026

Army Recognition: "setembro como possível data-alvo" para assinatura do acordo com Portugal

10 ago. 2026

Earnings call Embraer Q2: CEO cita Grécia como "potential deal through Portugal" — não como cliente confirmado

26 ago. 2026

Diário da República (Portugal) publica despacho autorizando assinatura do MoU com a Grécia sobre KC-390

31 ago. 2026

Escudo de Aquiles assinado em Tel Aviv — programa paralelo, distinto do KC-390

Set. 2026*

Assinatura do MoU Portugal-Grécia e do contrato de aquisição do KC-390 (data não anunciada)

2027

Previsão de entrega da 1ª aeronave à Força Aérea Helênica

2030

Conclusão das entregas das 3 aeronaves

(*) Linhas em verde: eventos confirmados por ato oficial. Setembro: projeção baseada em documentos primários.

Fontes: Diário da República de Portugal — Despacho 10563/2026 (26/08/2026) | Embraer Q2 2026 Earnings Call Transcript (Motley Fool / Globe and Mail, 10/08/2026) | Army Recognition (26/07/2026) | LRCA Defense Consulting

 

30 agosto, 2026

Contrato do Embraer C-390 entre Grécia e Portugal pode ser assinado em setembro, na esteira do Escudo de Aquiles

Com o acordo israelense marcado para 31 de agosto em Tel Aviv, o governo Mitsotakis tem razões políticas e operacionais para fechar também o acordo com Lisboa no início de setembro; Diretoria de Armamentos grega negocia ativamente com a contraparte portuguesa, segundo fontes especializadas



*LRCA Defense Consulting - 30/08/2026

A Grécia assina nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Ministério da Defesa israelense em Tel Aviv, os contratos do Escudo de Aquiles, o sistema antiaéreo multicamadas avaliado em EUR 3,1 bilhões que combina sistemas da Rafael e da Israel Aerospace Industries (IAI). O ato encerra o ciclo formal do maior programa de aquisição de defesa da história moderna do País. O que ainda aguarda assinatura é o contrato dos três C-390 Millennium da Embraer, que tramita em pista separada, com Lisboa, e tudo indica que essa assinatura possa ocorrer em setembro, possivelmente dias após a cerimônia israelense.

As informações disponíveis na imprensa especializada internacional convergem para esse cenário. O portal Army Recognition, em análise publicada em 26 de julho, indicou que o acordo governo a governo com Portugal está previsto para o outono de 2026, "com setembro como possível data-alvo". A FlightGlobal estimou que o contrato todo estaria concluído até junho de 2027, o que é compatível com a entrega do primeiro C-390 em 2027. Nenhuma das duas publicações fixou uma data específica, mas o mosaico de informações levanta uma pergunta central: haveria razões concretas para que o governo grego acelerasse a assinatura do C-390 para a primeira ou segunda semana de setembro?

Por que setembro faz sentido 
A primeira razão é política. A assinatura do Escudo de Aquiles em Tel Aviv cria um momento de alta visibilidade para o programa de modernização das Forças Armadas gregas. O primeiro-ministro Mitsotakis e o ministro Dendias têm interesse em sustentar esse momentum, e fechar o contrato do C-390 logo em seguida, enquanto a atenção da imprensa ainda está concentrada nos programas de defesa gregos, seria um reforço natural da narrativa de que a Grécia está executando, e não apenas anunciando, sua agenda de rearmamento.

A segunda razão é operacional. A Grécia vai assumir três posições de produção previamente reservadas por Portugal na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. Esses slots têm prazo: se não forem transferidos formalmente dentro de uma janela definida pelo contrato português, podem ser realocados a outros clientes. A Embraer tem uma fila crescente de pedidos: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves em maio de 2026), Eslováquia (em negociação final) e eventualmente a Turquia no horizonte. A pressão do tempo existe e favorece a conclusão rápida.

A terceira razão é procedimental. O ciclo de aprovações institucionais gregos está completo: o Parlamento aprovou o programa em 10 de junho, o KYSEA referendou os contratos em 23 de julho. A Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA) da Grécia está conduzindo as negociações com a contraparte portuguesa, segundo o Army Recognition. Não há mais nenhum obstáculo político interno; o que resta é apenas a conclusão técnica e jurídica de um acordo cujos termos financeiros (EUR 597,5 milhões, com custo unitário de EUR 157,9 milhões) já foram publicamente detalhados.

Por que os dois contratos são independentes 

É preciso ser claro sobre o que não acontece em Tel Aviv nesta semana: a assinatura do Escudo de Aquiles não arrasta o C-390. Os dois programas envolvem partes completamente distintas. O acordo israelense é firmado entre a GDDIA grega e a SIBAT, a Diretoria de Cooperação Internacional de Defesa do Ministério da Defesa de Israel, com a participação de Rafael e IAI. O acordo do C-390 é firmado entre a GDDIA grega e as autoridades de defesa portuguesas, com a Embraer como fabricante. Portugal não tem assento na cerimônia de Tel Aviv, assim como Israel não tem papel no acordo com Lisboa.

O mecanismo usado para o C-390 é o das opções de compra transferíveis que Portugal incluiu no aditivo de setembro de 2025 ao seu contrato original com a Embraer. Esse instrumento permite que Portugal ceda a nações parceiras da OTAN até dez opções de compra de aeronaves. A Grécia exercerá três dessas opções, o que juridicamente significa que a assinatura ocorre entre a autoridade de defesa portuguesa e a grega, com a Embraer como parte técnica do acordo, não como signatária direta do ato de governo a governo.

O que diz a imprensa especializada 

A cobertura da imprensa internacional sobre este ponto específico, a data de assinatura do contrato C-390, é escassa, mas o que existe aponta consistentemente para setembro. O Army Recognition é a fonte mais explícita, citando setembro como "possível data-alvo". O Air Data News, em 26 de julho, registrou que "se o contrato for assinado, a Grécia se tornará mais um operador europeu do C-390", sem fixar data. O Overt Defense, em 29 de julho, informou que "um contrato final ainda não havia sido assinado", o que confirma que a assinatura estava pendente mesmo após a aprovação do KYSEA. O Greek City Times, em sua cobertura de 23 de julho, registrou que a primeira entrega está prevista para 2027, o que implica contrato assinado no máximo até o final de 2026, com margem exígua.

Nenhuma das fontes consultadas indica que há obstáculos conhecidos nas negociações com Portugal. As questões técnicas (slots de produção, cronograma de entregas, configuração das aeronaves com reabastecimento aéreo, autodefesa e evacuação aeromédica) parecem ter sido resolvidas antes mesmo da aprovação parlamentar de junho, dado o nível de detalhe financeiro já então público.

O papel da Embraer e da HAI 

Do lado industrial, a Embraer tem interesse direto na velocidade de formalização. A empresa está em plena campanha europeia: além da Grécia, acompanha as negociações finais com a Eslováquia e monitora o processo turco, que ganhou nova visibilidade após a visita do general Ziya Cemal Kadıoğlu à Base Aérea de Beja em maio de 2026. Um contrato assinado com a Grécia em setembro seria um ativo de campanha para essas negociações paralelas: a prova de que o mecanismo governo a governo com Portugal funciona, é rápido e entrega os slots prometidos.

A Hellenic Aerospace Industry (HAI), por sua vez, tem interesse em iniciar o mais cedo possível a preparação da infraestrutura de MRO prevista no Memorando de Entendimento assinado com a Embraer em 22 de maio. Quanto antes o contrato principal for assinado, mais cedo começa o cronograma de transferência de tecnologia e capacitação de pessoal que dará à HAI e, por extensão, à indústria de defesa grega, um papel permanente no suporte ao C-390 na Europa.

O cenário mais provável 
A leitura dos dados disponíveis aponta para o seguinte cenário: a assinatura do contrato governo a governo Grécia-Portugal deve ocorrer entre a primeira e a terceira semana de setembro de 2026, provavelmente em Lisboa ou Atenas, com cerimônia separada da de Tel Aviv. A data de setembro não é especulação pura: é o que a fonte mais detalhada (Army Recognition) indica explicitamente, corroborada pela lógica dos prazos de entrega (2027) e pelo fato de que todas as etapas institucionais gregas já foram concluídas.

O único elemento de incerteza é a eventual negociação de pontos específicos ainda abertos com Portugal: configuração final das aeronaves, detalhes do suporte logístico, condições da transferência de slots. Se esses pontos estiverem resolvidos, a assinatura em setembro é altamente provável. Se restarem pendências técnicas, o prazo poderia escorregar para outubro, ainda dentro do "outono de 2026" citado pelo Army Recognition, sem comprometer a entrega de 2027.

O governo Mitsotakis tem todas as razões para querer que os dois contratos, Escudo de Aquiles e C-390, sejam assinados em semanas consecutivas. A narrativa política de um "setembro de contratos", após anos de debate e décadas de equipamentos envelhecidos, é um ativo eleitoral e diplomático de primeira grandeza. A questão não é se, mas quando. 

NOTA METODOLÓGICA
Esta matéria combina dados confirmados (aprovações parlamentar e do KYSEA, valores financeiros, mecanismo contratual com Portugal, data do Escudo de Aquiles em Tel Aviv) com análise editorial fundamentada em fontes especializadas (Army Recognition, FlightGlobal, Overt Defense, Air Data News, Greek City Times). A data de setembro para o contrato do C-390 é indicada pela imprensa especializada, mas não foi confirmada oficialmente por nenhum governo. A LRCA monitorará e atualizará quando houver anúncio oficial.

CRONOLOGIA DO PROGRAMA C-390 NA GRÉCIA

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia C-390 em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para MRO na Grécia (Atenas)

10 jun. 2026

Parlamento grego aprova programa (EUR 597,5 M)


25 agosto, 2026

Airbus A400M e Embraer C-390 avançam juntos na estratégia aérea polonesa

Compra de até quinze aeronaves da Airbus pelo mecanismo SAFE da União Europeia ocorre em paralelo ao avanço do KC-390 Millennium, da Embraer, e reforça a doutrina polonesa de complementaridade entre transporte tático e estratégico

Major-General Ireneusz Nowak, Subcomandante das Forças Armadas Polonesas, no KC-390 em Jan/26


*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

A Polônia negocia com a Airbus a compra de aeronaves de transporte A400M Atlas, movimento que se soma, e não substitui, ao avanço já em curso do KC-390 Millennium, da Embraer, na base industrial polonesa. O vice-ministro da Defesa Nacional, Paweł Zalewski, confirmou à Polish Radio 24, em agosto de 2026, que o país negocia "em duas direções", cobrindo tanto a variante de transporte quanto a de reabastecimento aéreo do A400M. Segundo Zalewski, o financiamento deve vir do mecanismo SAFE (Security Action for Europe) da União Europeia, possivelmente com o aproveitamento de cotas não utilizadas por outros países membros.

O analista polonês Jarosław Wolski, em publicação no X no dia 25 de agosto, estimou que o número de aeronaves negociadas varia de oito a quinze unidades, com fontes inclinando-se para a faixa superior. A Airbus, por sua vez, já apresentou à Polônia uma proposta direta para dez a quatorze aeronaves, segundo apurou a Polish Radio. O interesse polonês no A400M segue uma carta de intenções assinada em julho, durante cúpula da OTAN em Ancara, quando o país aderiu, junto de Bélgica, Croácia, Espanha, França, Turquia e Reino Unido, a uma iniciativa de cooperação para operar uma frota compartilhada do modelo. 

Delegação polonesa, liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak, 
Subcomandante das Forças Armadas Polonesas em visita à Embraer e ao KC-390 em Jan/26

Embraer amplia presença industrial na Polônia

Enquanto a negociação do A400M avança, a Embraer também amplia sua presença industrial na Polônia em torno do KC-390. Em dezembro de 2025, a fabricante brasileira assinou um memorando de entendimento com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 SA (WZL-2), uma das principais empresas de manutenção aeroespacial do país e integrante do conglomerado estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). O acordo foi formalizado em evento em Bydgoszcz, em março de 2026, quando o KC-390 Millennium foi oficialmente apresentado à WZL-2. Em 25 de junho de 2026, as duas empresas assinaram um novo memorando de acordo, que amplia o escopo da parceria para serviços de suporte, acabamento e conversão de aeronaves, reforçando a ofensiva da Embraer sobre o programa Drop, da Força Aérea polonesa.

O programa Drop, conduzido pela Agência de Armamentos do Ministério da Defesa Nacional da Polônia, busca substituir a envelhecida frota de C-130E/H Hercules do país. Criado em 2019 e suspenso ainda naquele ano por redefinição de requisitos operacionais, o programa foi reativado e atravessa, em 2025 e 2026, uma fase de diálogo técnico com cinco fabricantes convidados a apresentar propostas: Airbus, Boeing, Embraer, Leonardo e Lockheed Martin. A Embraer propôs à Polônia vinte unidades do C-390, com produção localizada e transferência de tecnologia.

As duas aquisições são complementares e não excludentes
A coexistência dos dois programas não é acidental. Em reportagem publicada por esta consultoria em 26 de janeiro de 2026, o coronel Sebastian Paluch, responsável por aquisições na Força Aérea polonesa, já havia descrito uma abordagem de complementaridade entre camadas de capacidade: o espanhol C295 cobre o transporte leve, o KC-390 assumiria o segmento médio e o A400M ficaria com cargas pesadas e deslocamentos estratégicos. Paluch resumiu a lógica à época: "não se trata de uma competição, mas de camadas de capacidade alinhadas aos padrões operacionais da OTAN". A mesma distinção foi detalhada em entrevista dos coronéis Paluch e Ireneusz Nowak ao portal Defence24, quando Paluch enquadrou os cargueiros em três códigos operacionais da Aliança: TCC-L, para transporte tático leve; TCC-M, para o segmento médio, onde entram o C-130 Hercules e o C-390; e TCC-H, para o transporte pesado, categoria do A400M, que não tem concorrente de porte equivalente desde o fim da linha de produção do C-17 em 2016.

O pano de fundo estratégico é a percepção polonesa de ameaça russa, agravada pela guerra na Ucrânia. Segundo o general Ireneusz Nowak, subcomandante das Forças Armadas polonesas, o País deve estar preparado para sustentar posições por meses ou até anos, doutrina que exige uma base logística robusta, e não apenas capacidade de combate. A frota atual de C-130, envelhecida, e a ausência de uma aeronave equivalente ao A400M tornam as duas aquisições, a tática e a estratégica, complementares e não excludentes. 

No painel acima dos presentes, a frase em polonês: "Bem-vindo à Embraer"
 sobre um KC-390 já estilizado para a Força Aérea Polonesa

Risco ao KC-390?
Para a indústria brasileira de defesa, o avanço paralelo do A400M não representa, portanto, um risco direto ao KC-390 na Polônia; ao contrário, confirma que Varsóvia trata as duas aeronaves como camadas distintas de uma mesma arquitetura de transporte aéreo, com o modelo brasileiro mirando justamente o nicho médio deixado pela aposentadoria dos Hercules mais antigos.

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