Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Polônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Polônia. Mostrar todas as postagens

03 julho, 2026

Embraer abre julho com dois palcos estratégicos: do Golfo da Guiné a Farnborough, uma janela para fechar contratos

De Accra a Londres em alguns dias: ASEC, Farnborough 2026 e uma carteira de negócios em aberto para o Super Tucano e o KC-390 Millennium 


*LRCA Defense Consulting - 03/07/2026

A Embraer entra em julho com uma sequência rara de oportunidades comerciais. Entre os dias 7 e 9, a empresa marca presença no 13º Simpósio de Segurança da África (ASEC), realizado em Accra, capital de Gana, com o A-29 Super Tucano e o KC-390 Millennium no portfólio. Pouco depois, entre 20 e 24 de julho, o Farnborough International Airshow 2026 reúne em Londres a nata da indústria aeroespacial mundial. O calendário forma uma janela de alguns dias que a fabricante dificilmente desperdiçará, especialmente diante de uma carteira de negócios em diferentes estágios de maturação na África, Europa e América do Sul.

Accra como palco: o ASEC e a décima tentativa ganesa
A presença da Embraer no ASEC não é casual. O simpósio, reconhecido por promover parcerias regionais e impulsionar a inovação em segurança no continente, reúne tomadores de decisão de forças armadas da África Ocidental e Central, exatamente o público a que o A-29 Super Tucano mais interessa no momento. E o contexto local não poderia ser mais favorável: Gana avalia a compra da aeronave há mais de dez anos, sem que nenhum contrato tenha sido efetivado até agora.

O interesse remonta a 2015, quando a Embraer anunciou um contrato condicionado para cinco unidades que não se materializou. Em fevereiro de 2024, a empresa levou um A-29 à Base Aérea de Accra para uma demonstração formal diante do então ministro da Defesa Dominic Nitiwul e do então chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, vice-marechal do ar Frederick Asare Kwasi Bekoe. O ministro, ao fim do evento, declarou que a força aérea ganesa havia "se apaixonado" pela aeronave e que as negociações "começariam para valer". O custo estimado para cinco unidades seria de cerca de US$ 52,8 milhões, segundo a consultoria GlobalData.

Em junho de 2026, Marcio Monteiro, diretor de marketing da Embraer Defesa & Segurança, reiterou durante visita de imprensa à fábrica de São José dos Campos que a empresa permanece pronta para apoiar qualquer ordem de Gana e lembrou que contratos de defesa demandam tempo. Ele citou o caso dos Emirados Árabes Unidos, que levou mais de uma década para formalizar a compra do KC-390 Millennium.

A deterioração da segurança no Sahel e a expansão do grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) em direção ao litoral do Golfo da Guiné pressionam os países da sub-região a reforçar suas capacidades de ataque leve e patrulha de fronteiras. Vizinhos como Togo, que deverá receber ainda em 2026 quatro Super Tucanos em um contrato de cerca de US$ 82 milhões, e a Nigéria, que já acumula mais de 10 mil horas de voo com seus 12 A-29 adquiridos em 2021, tornaram-se referências práticas do papel da aeronave nesse ambiente. O ASEC de Accra coloca Gana diretamente diante da proposta brasileira, no momento em que o seu orçamento de defesa está em trajetória de crescimento: segundo a GlobalData, os gastos devem atingir US$ 509,6 milhões até 2029, com taxa de crescimento anual de 11,3%.

Farnborough: o palco preferido para anúncios
O Farnborough International Airshow, que ocorre entre 20 e 24 de julho, é historicamente um dos eventos preferidos pela Embraer para anunciar contratos de suas divisões de defesa e aviação comercial. A visibilidade é máxima e a repercussão imediata na imprensa especializada global funciona como amplificador de credibilidade junto a outros potenciais clientes. Em edições anteriores, a empresa aproveitou o evento para divulgar vendas do Super Tucano e do KC-390.

A sequência ASEC-Farnborough comprime em alguns dias duas janelas de altíssima exposição: uma dirigida especificamente à África Ocidental, outra com alcance global. Se Gana estiver próxima de assinar, ou se Marrocos e Chile convergirem para um contrato do KC-390, o Farnborough é o palco natural para o anúncio.

Imagem renderizada por IA

KC-390 Millennium: uma carteira de negócios em diferentes estágios
Enquanto o Super Tucano espera o desfecho ganês, o KC-390 Millennium alimenta um pipeline de vendas em múltiplas geografias, com negociações em estágios bastante distintos de maturidade.

- Marrocos: o candidato mais maduro
O Marrocos é hoje o cliente potencial mais avançado entre os que ainda não assinaram. A Força Aérea Real Marroquina (FAR) opera uma frota envelhecida de C-130H e KC-130H e busca uma plataforma que una transporte tático e reabastecimento em voo em uma única aeronave, exatamente o perfil do KC-390. A negociação, que inclui cinco unidades avaliadas em mais de US$ 600 milhões, ganhou nova dimensão em junho de 2026, quando o portal Africa Intelligence revelou que a Embraer ampliou a proposta para incluir um centro de comando e controle C4I desenvolvido pela sua subsidiária Atech, sistema que integraria operações terrestres, aéreas e navais em tempo real. O pacote reposiciona a oferta brasileira de uma venda de aeronave para uma solução de defesa integrada. 

Em outubro de 2024, um slide interno da Embraer apresentado durante conferência de usuários do C-390 já havia listado Marrocos entre os próximos clientes do programa, ao lado dos Emirados Árabes Unidos e do Chile. Os EAU assinaram em 4 de maio de 2026 o maior contrato internacional já celebrado para a aeronave: dez pedidos firmes e dez opções. Marrocos é o próximo da lista.

- Polônia: a aposta europeia com lastro industrial
Na Europa, a Polônia tem sido cortejada com uma estratégia centrada em participação industrial. A Embraer assinou memorando de acordo com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 (WZL-2), empresa polonesa com quase oito décadas de experiência em manutenção de aeronaves militares, incluindo o F-16 e o C-130 Hercules. O acordo abrange manutenção, conversão, pintura e integração de sistemas. 

Antes disso, ao final de 2025, a empresa já havia firmado memorandos de entendimento com diversas empresas do grupo estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). A Polônia vive um ciclo de rearmamento acelerado no contexto da guerra na Ucrânia, e a Embraer monta um argumento de capacitação industrial local para tornar o KC-390 competitivo diante de rivais como o Airbus A400M.

- Chile e Colômbia: América do Sul no radar
Na América do Sul, Chile e Colômbia representam os movimentos mais recentes. Em abril de 2026, durante a FIDAE em Santiago, o presidente chileno José Antonio Kast posou ao lado da maquete do KC-390 com o comandante da Força Aérea Brasileira e o CEO da Embraer Defesa & Segurança, em gesto de sinalização política difícil de ignorar. O ministro da Defesa chileno chegou a segurar um quadro com os emblemas da Força Aérea do Chile (FACh) ao lado da aeronave. O país é apontado como candidato a seis unidades. 

A Colômbia, por sua vez, avançou ainda mais: o presidente Gustavo Petro ordenou formalmente, em 30 de março de 2026, a aquisição de dois KC-390 para substituir C-130H fora de serviço. A Embraer tem raízes profundas nos dois países, com o Chile já operando A-29 Super Tucanos.

Uma máquina de vendas em ritmo de cruzeiro
O portfólio de defesa da Embraer nunca esteve tão internacionalizado. O Super Tucano acumula mais de 300 encomendas de 22 forças aéreas, com 39 aeronaves adicionadas à carteira nos últimos dois anos, e a empresa projeta vender cerca de 500 unidades nas próximas duas décadas, com a África respondendo por 28% da demanda. O KC-390, por sua vez, soma mais de 60 encomendas e compromissos de 11 países, com clientes na Europa (Portugal, Países Baixos, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Suécia, Áustria, Lituânia), no Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos) e na América do Sul (Brasil).

A janela que se abre agora, de Accra a Farnborough, é mais do que calendário: é o momento em que negociações que duram anos costumam ganhar nome, valor e data de entrega.

25 junho, 2026

Embraer e WZL-2 assinam novo memorando para ampliar cooperação industrial na Polônia visando o KC-390

Documento assinado em São José dos Campos amplia o escopo da parceria para serviços e suporte, acabamento e conversão de aeronaves, e reforça a ofensiva da fabricante brasileira sobre o programa Drop, da Força Aérea polonesa 


*LRCA Defense Consulting - 25/06/2026

A Embraer assinou, nesta quinta-feira, 25 de junho, um novo Memorando de Acordo (MoA) com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 SA (WZL-2), uma das principais empresas de manutenção aeroespacial da Polônia e integrante do conglomerado estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). A cerimônia ocorreu nas instalações da fabricante brasileira em São José dos Campos (SP) e contou com a participação de Piotr Zawieja, membro do conselho de administração da PGZ, de Marcio Monteiro, diretor de marketing da Embraer Defesa & Segurança, e de Douglas Lobo, vice-presidente de Suporte ao Cliente e Vendas Pós-Venda da Embraer Serviços & Suporte.

Pelo acordo, as duas empresas vão elaborar em conjunto um quadro mais amplo de cooperação futura, que passa a abranger não apenas manutenção, mas também acabamento e conversão de aeronaves, incluindo pintura externa e integração de sistemas. O documento está diretamente vinculado ao KC-390 Millennium e aos serviços de suporte associados à aeronave.

Da apresentação em Bydgoszcz ao novo memorando
O acordo de hoje é o terceiro marco público da relação entre Embraer e WZL-2 em pouco mais de seis meses. Em 2 de dezembro de 2025, em Varsóvia, as empresas firmaram o memorando de entendimento (MoU) original, que lançou as bases da cooperação industrial e tecnológica. Em 13 de março de 2026, a Embraer levou um KC-390 Millennium até as instalações da WZL-2, em Bydgoszcz, para uma apresentação direta à empresa polonesa, chamada pela fabricante de primeiro passo concreto da parceria.

O MoA assinado agora, em território brasileiro, sinaliza um avanço de fase: da apresentação técnica do produto para a formalização de um arcabouço de cooperação industrial mais detalhado, que cobre desde manutenção, reparo e revisão (MRO) até etapas de acabamento e transformação de aeronaves.

Em comunicado, Jakub Gazda, presidente do conselho de administração da WZL-2, disse que o objetivo é desenvolver capacidades industriais e de manutenção na Polônia para apoiar o KC-390, e afirmou esperar benefícios tangíveis tanto para as Forças Armadas polonesas quanto para a indústria de defesa do país. Já Douglas Lobo afirmou que a parceria reforça a estratégia da Embraer de fomentar a cooperação industrial local.

O pano de fundo: o programa Drop
A movimentação ocorre em pleno andamento do programa Drop, conduzido pela Agência de Armamentos do Ministério da Defesa Nacional da Polônia, que busca substituir a envelhecida frota de C-130E/H Hercules do país. Criado em 2019 e suspenso ainda naquele ano por redefinição de requisitos operacionais, o programa foi reativado e atravessa, em 2025 e 2026, uma fase de diálogo técnico com cinco fabricantes convidados a apresentar propostas: Airbus, Boeing, Embraer, Leonardo e Lockheed Martin.

Na prática, a disputa concentra-se em três plataformas: o C-130J Super Hercules, da Lockheed Martin, sucessor natural da frota atual; o A400M Atlas, da Airbus, de maior porte e custo mais elevado; e o KC-390 Millennium, da Embraer, apresentado como alternativa a jato, mais rápida e com maior carga útil que os turboélices concorrentes. A Embraer já propôs à Polônia até 20 aeronaves com produção localizada e transferência de tecnologia. A empresa também já fala em gerar cerca de 1.350 empregos no país e em uma rede de 18 fornecedores poloneses associados ao programa.

Por que a Polônia importa
A Polônia ocupa posição central na arquitetura de defesa da Otan no flanco leste europeu e conduz um dos mais agressivos programas de modernização militar do continente. Para a Embraer, fechar um contrato no país teria peso duplo: agregaria um operador relevante à base já consolidada de clientes europeus do KC-390 (Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia e, mais recentemente, Grécia) e consolidaria a aposta de transformar o país em um polo regional de manutenção da aeronave na Europa Central, em linha com o modelo que a fabricante já constrói com a OGMA, em Portugal.

A WZL-2, por sua vez, soma 80 anos de experiência em manutenção, revisão e modernização de aeronaves militares e já presta suporte às frotas de C-130 Hercules e F-16 das Forças Armadas polonesas, além de clientes estrangeiros. Sua entrada na cadeia de suporte ao KC-390 oferece à Embraer um parceiro industrial com histórico consolidado junto às autoridades de defesa do país, ponto sensível em qualquer concorrência que envolva, como o programa Drop, exigências de produção local e transferência de tecnologia.

Embraer disputa terreno na Europa
O movimento com a WZL-2 ocorre em meio a um avanço continuado do KC-390 no continente. Em junho, a Grécia confirmou a aquisição de três unidades dentro de um pacote de até US$ 1,38 bilhão, tornando-se o 13º operador, atual ou futuro, do cargueiro multimissão da Embraer. A aeronave também segue em negociação avançada com a Turquia, com memorando assinado junto à Turkish Aerospace, e com a Finlândia, além de Marrocos e Índia, fora do continente europeu.

A entrada formal da WZL-2 no ecossistema industrial do KC-390 reforça, ainda, a estratégia mais ampla da Embraer de associar a venda da aeronave a compromissos de manutenção, suporte, treinamento e integração industrial local. Não se trata apenas de colocar a aeronave em operação, mas de ancorar, no país comprador, parte da cadeia de sustentação logística de longo prazo da plataforma, fator que tende a pesar a favor da fabricante brasileira em concorrências que avaliam o custo total de ciclo de vida, ou life cycle cost, critério central no programa Drop.

O que vem a seguir
Nem a Embraer, nem a WZL-2 ou a PGZ indicaram, no comunicado desta quinta-feira, um cronograma para a conclusão do quadro de cooperação anunciado, tampouco vincularam formalmente o memorando a uma decisão do programa Drop. Resta à Agência de Armamentos polonesa avançar na fase de diálogo técnico, ainda sem data oficial confirmada para a escolha do fornecedor.

De toda forma, o adensamento sucessivo de acordos entre Embraer e WZL-2, do MoU de dezembro de 2025 à apresentação de março e ao MoA assinado agora, em junho, sugere que a fabricante brasileira trata a Polônia como uma das frentes prioritárias de sua ofensiva europeia, ao lado da disputa pela Grécia, já fechada, e das negociações em curso com Turquia e Finlândia.

 

30 maio, 2026

O Brasil e o drone de duplo uso: o que a lição polonesa revela para a indústria nacional de defesa

Imagem representativa de um drone tipo Shahed-136 voando sobre São José dos Campos, cidade mais estratégica do Brasil para a indústria de defesa

*LRCA Defense Consulting - 25/05/2026

A guerra na Ucrânia consolidou o Shahed-136 como o símbolo mais perturbador da nova era bélica: um drone de asa delta com 3,50 metros de comprimento, 2,50 metros de envergadura e cerca de 200 kg de peso total, propulsionado por um motor a pistão de quatro cilindros derivado de componentes civis de aeromodelismo, com velocidade de cruzeiro de 185 km/h e alcance superior a 2.000 quilômetros. Seu custo de produção, estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil por unidade, permite que dezenas deles sejam disparados simultaneamente, potencialmente sobrecarregando defesas aéreas que dependem de mísseis superfície-ar caros, criando uma assimetria financeira estrutural entre atacantes e defensores.

Na Europa Central, nas fronteiras da guerra, a resposta polonesa ao problema não foi apenas defensiva. De acordo com análises abertas sobre o programa PLargonia, a Polônia desenvolveu um drone do tipo Shahed projetado para ser, simultaneamente, alvo de treinamento realista e arma de ataque unidirecional de baixo custo. Os americanos também aprenderam a lição: o Comando Central dos EUA anunciou a formação da Força-Tarefa Scorpion Strike e o debut operacional do LUCAS (Low-cost Unmanned Combat Attack System), munições de uso único projetadas para voo autônomo e implantação em massa, a um custo de aproximadamente US$ 35 mil por unidade, fração ínfima dos US$ 30 milhões de um MQ-9 Reaper.

A pergunta que se coloca é direta: o Brasil poderia, e deveria, percorrer caminho semelhante?

O que o Brasil já tem
O ponto de partida é mais sólido do que se imagina. O país dispõe de um ecossistema aeroespacial único no hemisfério sul, construído ao longo de décadas a partir da Embraer, do ITA e do DCTA. Em outubro de 2025, empresas como Mac Jee e Aero.ID demonstraram o drone lançador de munições MQ-18 Arqus no Arsenal de Guerra do Rio para representantes do Exército, enquanto Stella Tecnologia, Hyperlift, AEL, XMobots, SIATT e Modirum/Gespi participaram de workshops militares anteriores, indicando um ecossistema robusto e inovador. O setor registrou exportações de US$ 3,1 bilhões em 2025, aumento de 74% em relação ao ano anterior.

A Stella Tecnologia, agora parceira estratégica do Grupo Thales, tornou-se referência técnica ao desenvolver o Atobá, considerado o maior drone já produzido na América Latina, com capacidade de voo de 35 horas e envergadura 40% maior que a do israelense Hermes 900. Em janeiro de 2026, o Albatroz Vortex completou com sucesso seu primeiro voo de teste na Base Aérea de Santa Cruz equipado com uma turbina a jato também desenvolvida no país, pela AERO Concepts, tornando o Brasil membro de um grupo seleto de nações com essa capacidade.

A XMobots, por sua vez, apresentou na LAAD Security Milipol Brazil 2026 uma versão armada do Nauru 100D configurada como UCAV, com capacidade de retornar à base após a missão, diferencial ainda pouco explorado por fabricantes sul-americanos. A empresa também revelou o conceito Swarm, com lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés e capacidade produtiva declarada de 360 unidades por mês.

No plano institucional, o Exército Brasileiro lançou em dezembro de 2025 uma Requisição de Informações (RFI) para aquisição de drones de ataque das categorias 0 e 1, buscando soberania tecnológica em sistemas de vigilância, inteligência e ataque preciso. A Marinha inaugurou o primeiro esquadrão de drones militares do país no mesmo período e avança, em 2026, com a criação de uma escola para formação de fuzileiros no uso dessas aeronaves.

O conceito SACI-722
Para ilustrar como um drone nacional desse tipo poderia se materializar, é possível esboçar um conceito hipotético batizado de SACI-722, sigla de "Sistema Autônomo de Combate e Interdição", com o nome "SACI" se referindo a uma figura mitológica brasileira e o número "722" remetendo à data da independência do Brasil, ambos de fácil pronúncia e memorização. A denominação já comunica o posicionamento estratégico do sistema: não um simples clone do Shahed-136, mas uma plataforma de concepção nacional que absorve a lógica de projeto do original iraniano e incorpora o aprendizado acumulado tanto na Ucrânia quanto no recente conflito entre EUA e Irã.

As especificações hipotéticas replicam a faixa de tamanho e massa que representa o equilíbrio ótimo entre carga útil transportável, alcance e custo de fabricação. A propulsão seria por motor a pistão de dois tempos, solução mais simples e barata do que a turbina a jato e compatível com a capacidade industrial atual do polo aeroespacial de São José dos Campos. O alcance de 1.500 km seria bem acima do necessário para qualquer cenário operacional no contexto sul-americano, e a navegação combinaria sistema inercial (INS) com GNSS, com guiagem autônoma por missão pré-programada. A assinatura radar reduzida completaria o perfil, dificultando a detecção e aumentando a taxa de penetração em cenários de saturação de defesas. 

SACI-722 — ESPECIFICAÇÕES HIPOTÉTICAS

Comprimento

3,50 m

Envergadura

2,50 m

Peso máximo

200 kg

Carga explosiva

40–50 kg

Propulsão

Motor a pistão, 2 tempos

Alcance

1.500+ km

Navegação

INS / GNSS

Guiagem

Autônoma (missão pré-programada)

Lançamento

Plataforma móvel (caminhão / reboque)

Operação

Autônoma ou em enxame

Missões

Ataque de precisão, interdição de área, alvo de treinamento

O perfil de missões abrangeria três funções: ataque de precisão contra alvos estratégicos, interdição de área (operações militares destinadas a desviar, desorganizar, retardar ou destruir o potencial militar e as linhas de suprimento do inimigo antes que ele possa utilizá-las efetivamente contra forças amigas) e, de forma igualmente relevante, alvo de treinamento para os sistemas de defesa aérea das próprias Forças Armadas. Essa última função é exatamente o que a Polônia reconheceu com o PLargonia: um drone que ensina os defensores hoje pode ameaçar um adversário amanhã. O mesmo airframe serviria a ambos os propósitos, ampliando o mercado interno e justificando o investimento em linha de produção.

O conceito não é ficção científica. Cada um de seus subsistemas já tem correspondência em projetos reais em andamento no Brasil: o airframe de asa delta encontra paralelo, embora limitado, nas experiências da Stella Tecnologia, da Mac Jee e da XMobots; a propulsão a pistão é menos exigente do que a turbina já testada pela AERO Concepts, portanto factível em prazo mais curto; e a navegação INS/GNSS é dominada por institutos de pesquisa e empresas privadas há mais de uma década. O que falta não é tecnologia, é integração deliberada sob um programa estruturante.

Drone conceitual hipotético SACI-722 (Sistema Autônomo de Combate e Interdição)

Vantagens para a indústria de defesa
Um programa nacional desse tipo geraria efeitos em toda a cadeia produtiva: estruturas aeronáuticas em compósitos e alumínio, propulsão, eletrônica embarcada, navegação inercial, ogivas e sistemas de lançamento. Empresas como XMobots, Stella, SIATT, Mac Jee, AERO Concepts, 
AEL Sistemas, FT Sistemas, Advanced Technologies, SkyDrones, Speedbird Aero, Moya Aero e outras já orbitam esse ecossistema e poderiam se beneficiar de um programa estruturante, à semelhança do que o Super Tucano representou para o segmento de aeronaves de ataque leve.

A nova fase da Avibras Aeroco, com domínio de tecnologias críticas de propulsão e integração de sistemas complexos, a posiciona como ativo estratégico para esse tipo de programa, desde que superados os graves problemas financeiros que a empresa ainda enfrenta. A reestruturação poderia ser acelerada com a perspectiva de contratos de série nesse segmento. 

O modelo de produção descentralizada, em pequenas fábricas, seria compatível com a estrutura industrial brasileira, que conta com dezenas de fabricantes de pequeno porte em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul com capacidade ociosa em usinagem de precisão, eletrônica e compósitos.

Vantagens para o país
Do ponto de vista estratégico nacional, as vantagens são múltiplas. A primeira é a soberania tecnológica: o Brasil busca ativamente VANTs de combate isentos de restrições ITAR, as regulações norte-americanas que limitam a transferência de tecnologia bélica. Um drone nacional não teria essas restrições por definição e poderia ser exportado para países da América Latina, África e Oriente Médio sem depender de autorizações de terceiros.

A segunda é a defesa do território. Com 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres e 8,5 mil km de litoral, o Brasil enfrenta desafios estruturais de monitoramento e defesa, principalmente da Amazônia Legal e da Amazônia Azul. É importante distinguir, porém, os nichos de cada plataforma: o Atobá e sistemas similares são drones reutilizáveis de longa permanência, projetados para missões ISR de vigilância persistente, com autonomia de até 35 horas e capacidade de pousar e retornar ao serviço. O "SACI-722", como qualquer drone do tipo Shahed, é descartável por natureza: nos exercícios de defesa aérea é deliberadamente abatido pelos sistemas em treinamento; em combate, destrói-se no impacto com o alvo. Trata-se, portanto, de nichos complementares e não concorrentes. O SACI-722 preencheria uma lacuna que o Atobá não foi concebido para preencher: a de munição de emprego único para ataque e para exercícios realistas de interceptação, categorias hoje inexistentes no arsenal brasileiro.

A terceira é a assimetria de custo como dissuação. O Shahed demonstrou que mesmo potências militares de primeira linha enfrentam dificuldades diante de enxames de drones baratos: cada míssil Patriot usado para derrubá-los custa US$ 4 milhões, contra US$ 20 mil a 50 mil do drone atacante. Para o Brasil, essa capacidade funcionaria principalmente como dissuação e como ativo de barganha diplomática, além de servir ao treinamento das próprias defesas aéreas nacionais, hoje precárias em termos de exercícios com ameaças assimétricas realistas.

A quarta é o potencial de exportação. O mercado global de munições vagantes e drones de ataque de baixo custo está em forte expansão, e países de médio porte da América do Sul, África e Sudeste Asiático buscam soluções sem as amarras políticas das potências ocidentais. O Brasil, com sua tradição de política externa independente e sua condição de aliado não-Otan dos EUA, poderia ocupar esse espaço com relativa facilidade, como fez com o Super Tucano e o KC-390.

Obstáculos reais
Seria ingênuo ignorar as dificuldades. Os principais desafios do setor incluem escalar a produção, treinar e reter pessoal qualificado, padronizar sistemas entre as três forças e consolidar uma doutrina de emprego compatível com a velocidade da mudança tecnológica. O financiamento público para projetos de defesa no Brasil é historicamente intermitente, e o BNDES e a Finep, embora presentes, raramente sustentam programas de longo prazo sem interrupções orçamentárias.

Há também o dilema geopolítico. A proximidade com os EUA implica pressões para não desenvolver certas capacidades, especialmente munições autônomas de ataque. A exportação para países sob sanções americanas poderia criar atritos diplomáticos. O Brasil precisaria definir com clareza para quem exportaria e sob quais condições antes de dar início ao programa.

A corrida global pelo Shahed e o contexto para o Brasil
O caso brasileiro não ocorre no vácuo. A guerra entre Irã e países do Golfo Pérsico, iniciada em fevereiro de 2026, acelerou em escala global a corrida para desenvolver drones do tipo Shahed, e o Oriente Médio tornou-se o epicentro mais recente desse movimento. Uma joint venture entre a startup americana Vector Defense e a saudita SR2 Defense Systems, batizada de SR2Vector, está construindo uma fábrica nos arredores de Riad para produzir o SKYWASP, drone de ataque unidirecional com alcance de 1.500 quilômetros, distância que cobre aproximadamente o trajeto do litoral nordeste da Arábia Saudita até Teerã. A Arábia Saudita, que possui um dos maiores orçamentos de defesa do mundo mas importa quase todo o seu equipamento militar, fixou a meta de localizar 50% desse gasto até 2030. 

O quadro mais amplo é igualmente revelador. Em dezembro de 2025, os EUA anunciaram o desenvolvimento do LUCAS, drone derivado da engenharia reversa do Shahed-136, e implantaram um esquadrão no Oriente Médio. A Polônia avança com o PLargonia. A Ucrânia desenvolveu seus próprios análogos para ataques de longo alcance. Em síntese, o Shahed deixou de ser uma ameaça iraniana para se tornar um padrão industrial que nações de diferentes perfis estratégicos e orçamentários estão correndo para replicar. 

Para o Brasil, esse contexto reforça, e não enfraquece, o argumento em favor de uma plataforma nacional. O mercado de exportação para países de médio porte que buscam essa capacidade sem as restrições políticas das grandes potências tende a se expandir rapidamente nos próximos anos, e o espaço para um fornecedor com a credibilidade industrial e a tradição de neutralidade do Brasil é real. A janela, porém, não ficará aberta indefinidamente. 

Uma questão de prioridade estruturante
A lição polonesa é que a linha entre alvo de treinamento e arma de ataque já foi apagada. Um drone que pode ser produzido em massa, lançado de um caminhão e convertido em instrumento de ataque deixou de ser uma capacidade de nicho para se tornar o núcleo da nova guerra industrial. O Brasil tem o ecossistema industrial, a tradição aeronáutica, as instituições técnicas e as empresas para desenvolver essa capacidade. O que ainda falta é a decisão política de tratar drones de baixo custo e duplo uso como prioridade estruturante da Base Industrial de Defesa, com financiamento contínuo, contratos de série e doutrina de emprego definida pelas três forças. Sem isso, o país continuará admirando a transformação de longe enquanto outros a protagonizam.

Postagem em destaque