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27 outubro, 2026

Jatos da Embraer viram ambulâncias aéreas a serviço da proteção civil europeia

Iniciativa não representa o lançamento de uma nova variante pela Embraer, mas mostra como uma plataforma comercial brasileira pode assumir uma função especializada de interesse estratégico



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LRCA Defense Consulting - 27/10/2026 - 10h15

A Polônia vai transformar quatro jatos Embraer E195 da LOT Polish Airlines em aeronaves de evacuação aeromédica. A Agência Governamental de Reservas Estratégicas (RARS) assinou, em 14 de outubro, contrato com a empresa austríaca Air Ambulance Technology GmbH para fornecer os equipamentos médicos, elaborar a documentação técnica e obter o Certificado Suplementar de Tipo (STC) que autorizará a modificação das aeronaves. O acordo, divulgado pela agência em 20 de outubro, tem valor bruto de 32,2 milhões de zlotys (cerca de € 7,3 milhões, ou US$ 8,2 milhões) e deverá ser concluído até 30 de abril de 2027.

Segundo a publicação especializada polonesa ZBiAM, a licitação foi aberta em maio e recebeu duas propostas. O projeto é financiado pelo rescEU, componente do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. As aeronaves envolvidas são E195 da primeira geração da família E-Jets, e não E195-E2. A iniciativa não representa o lançamento de uma nova variante pela Embraer, mas mostra como uma plataforma comercial brasileira pode assumir uma função especializada de interesse estratégico.

Cinco configurações para diferentes necessidades 

O contrato prevê seis postos de cuidados intensivos e 16 posições para pacientes em macas que não necessitem de terapia intensiva. Esses recursos serão combinados em cinco configurações alternativas, aplicadas a uma aeronave de cada vez, e não como capacidade simultânea de seis pacientes intensivos mais 16 em macas:

• 16 pacientes em macas, com pelo menos quatro assentos para pessoal adicional;

• um paciente intensivo e 12 em macas, com pelo menos seis assentos;

• dois pacientes intensivos e dez em macas, com pelo menos seis assentos;

• quatro pacientes intensivos e quatro em macas, com pelo menos oito assentos;

• seis pacientes intensivos, com pelo menos nove assentos para pessoal de apoio.

A escolha do arranjo dependerá do perfil de cada missão de evacuação.

A certificação como núcleo do contrato 

A documentação do certame refere-se às aeronaves pela designação técnica de certificação, ERJ 190-200, e identifica os quatro aviões pelos números de série 19000415, 19000444, 19000462 e 19000516. O STC deverá cobrir a instalação e a fixação dos equipamentos, a segurança da cabine e a operação em voo, elementos indispensáveis para que a adaptação seja aprovada para uso aeronáutico.

As exigências feitas aos licitantes dão a medida do rigor. A contratada precisava ser organização de projeto certificada segundo a Parte 21, Subparte J, da regulamentação europeia de aeronavegabilidade, e comprovar ter obtido, nos três anos anteriores, ao menos um STC da Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) para conversão aeromédica com posto de terapia intensiva, incluindo a possibilidade de remover o equipamento e devolver a aeronave à configuração original.

Os postos de pacientes devem ser instaláveis a bordo no modo quick-change, e as macas de terapia intensiva precisam acomodar ventilador, monitor cardíaco com desfibrilador, bombas de infusão e cilindros de oxigênio, além de gaveta aquecida para fluidos. A documentação prevê conversão rápida, mas não fixa, nas fontes públicas examinadas, um tempo comprovado para a reconfiguração.

Quatro aeronaves identificadas 

Os E195 selecionados têm as matrículas SP-LNA, SP-LNB, SP-LNC e SP-LND e foram entregues à LOT entre abril de 2011 e fevereiro de 2012. Conforme a ZBiAM, todos são arrendados da Zuma Leasing. A preparação de quatro aeronaves não significa que todas operarão simultaneamente em missões médicas: o modelo busca flexibilidade, permitindo que qualquer uma delas assuma a função quando necessário.

O compromisso polonês com o rescEU 

O contrato decorre do acordo firmado entre a LOT e a RARS em 7 de julho de 2025. Por ele, a Polônia comprometeu-se a manter em prontidão permanente três aeronaves: duas multiemprego, capazes de transportar ao menos 65 pessoas ou 19 toneladas de carga, e uma dedicada à evacuação aeromédica, com capacidade mínima para 16 pacientes em macas ou seis em terapia intensiva. A disponibilidade é de 24 horas por dia, sete dias por semana, para missões acionadas pela Comissão Europeia na Europa e em seu entorno. De acordo com o portal polonês Altair, a Polônia é o único país da União Europeia a sediar essa capacidade aérea especializada do rescEU. À época, a LOT informou ao portal aeroTELEGRAPH que empregaria dois Boeing 737 nas missões de transporte.

Há um descompasso de calendário. Em 2025, a companhia indicou ao aeroTELEGRAPH que a aeronave aeromédica deveria entrar em operação a partir de junho de 2026; com o contrato de equipamentos e certificação previsto para terminar apenas em abril de 2027, a capacidade plena tende a ficar para o segundo trimestre do próximo ano.

A LOT não é estreante no segmento: em 2010, adaptou dois Boeing 767-300 para missões de evacuação médica, com 18 posições de macas, uma delas de terapia intensiva, segundo o portal Pasazer. Agora, trata-se de uma capacidade de proteção civil, com aplicações humanitárias e de resposta a crises, e não de uma aquisição de aeronaves pelas Forças Armadas polonesas.

Uma resposta à necessidade europeia de mobilidade médica 
O transporte aéreo de pacientes torna-se especialmente importante quando hospitais e sistemas de saúde precisam redistribuir rapidamente pessoas entre regiões ou países. Nesse contexto, aeronaves comerciais com cabines adaptáveis ampliam a capacidade de resposta sem exigir uma frota inteiramente dedicada a missões médicas.

A localização da Polônia, na fronteira oriental da OTAN e vizinha da Ucrânia, confere interesse estratégico adicional à iniciativa. O enquadramento oficial, porém, é o de proteção civil europeia, e as fontes disponíveis não vinculam o contrato especificamente à guerra nem a evacuações militares.

A conexão com o C-390 Millennium 
A solução polonesa dialoga com outra iniciativa acompanhada pela LRCA Defense Consulting: o sistema modular de evacuação aeromédica destinado aos C-390 Millennium da Força Aérea Real Holandesa. Em abril de 2026, o LRCA noticiou a conclusão da Revisão Crítica de Design (CDR) desse sistema, no qual a Embraer atua como integradora e a norte-americana Knight Aerospace fornece os módulos hospitalares do tipo roll-on/roll-off. Os Países Baixos são o cliente lançador da capacidade, com um pedido firme e sete opções.

Os conceitos, entretanto, são distintos. No E195, a adaptação ocorre na cabine de passageiros de uma aeronave comercial, adequada ao transporte entre aeroportos preparados. No C-390, os módulos aproveitam a rampa traseira e o sistema de manuseio de carga de um avião militar multimissão, capaz de operar em pistas não pavimentadas. As duas abordagens são potencialmente complementares, mas não há evidência pública de ligação industrial ou contratual entre os programas.

Oportunidade para a família E-Jets? 
A adaptação dos E195 evidencia um emprego de aeronaves comerciais além do transporte convencional de passageiros. Em tese, soluções semelhantes poderiam interessar a governos, operadores humanitários e empresas especializadas, inclusive em outras variantes da família E-Jets. Isso, contudo, não equivale a um programa de evacuação aeromédica para o E195-E2. O certame vincula o STC aos quatro números de série citados, e não há informação pública sobre eventual ampliação de sua aplicabilidade a outras células do modelo.

Também não foi identificada confirmação pública de participação direta da Embraer na integração contratada pela RARS. A empresa responsável pelo fornecimento e pela certificação é a Air Ambulance Technology GmbH.

A incógnita da renovação de frota 

Há uma variável adicional. A LOT já iniciou a retirada de seus E-Jets: segundo a ZBiAM, o SP-LNP deixou a frota em setembro de 2025 e o SP-LNO, a partir de 4 de outubro de 2026. A companhia substituirá sua frota regional Embraer por 40 Airbus A220, com entregas a partir de 2027, conforme a ch-aviation. Até o momento, não há definição sobre quando os quatro exemplares selecionados deixarão o serviço comercial, nem se permanecerão na frota apenas para a função aeromédica. Essa resposta será decisiva para compreender o horizonte operacional do investimento, feito em aeronaves arrendadas e com cerca de 15 anos de uso.

Uma capacidade discreta, mas estrategicamente relevante 

Mais do que a conversão de quatro aviões, a decisão polonesa demonstra o valor de plataformas de uso dual, capazes de atender ao transporte comercial e, quando necessário, a missões de proteção civil. O contrato combina equipamentos médicos, diferentes arranjos de cabine e certificação europeia, elementos indispensáveis para transformar uma possibilidade técnica em capacidade operacional.

Para a indústria aeronáutica brasileira, o caso reforça a versatilidade dos E-Jets e oferece uma referência concreta de aplicação especializada. Os próximos passos a acompanhar são a obtenção do STC, os testes de conversão e o início efetivo das operações aeromédicas, previsto para depois da execução do contrato.

19 outubro, 2026

Polônia mantém substituição dos Hercules e preserva oportunidade para o C-390 da Embraer

Comandante operacional distingue transporte estratégico e programa Drop; participação polonesa em frota multinacional de A400M não elimina necessidade de aeronaves próprias 

Major-General Ireneusz Nowak (centro), comandante operacional das Forças Armadas Polonesas, no C-390, em janeiro de 2026, na Embraer


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LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 09h39

A Polônia continua considerando a substituição de seus aviões C-130 Hercules, apesar dos planos de participação em uma capacidade multinacional de transporte estratégico baseada no Airbus A400M Atlas. A informação foi reafirmada pelo major-general Ireneusz Nowak, comandante operacional das Forças Armadas polonesas, em entrevista publicada pelo portal Defence24 em 15 de outubro de 2026. A declaração mantém em evidência o programa Drop, no qual o C-390 Millennium, da Embraer, disputa espaço com o C-130J/J-30 Super Hercules, da Lockheed Martin.

Ao tratar das necessidades de transporte aéreo, Nowak defendeu capacidades nacionais soberanas e distinguiu a demanda por uma aeronave da classe do A400M daquela relativa à substituição dos Hercules. Sua manifestação não constitui anúncio de compra, tampouco revela preferência por qualquer concorrente do programa Drop.

Duas necessidades, dois programas 
A Polônia participa do programa multinacional Strategic Airlift Capability (SAC), que utiliza aeronaves C-17 Globemaster III baseadas na Hungria, e assinou uma declaração preliminar para integrar uma iniciativa aliada com A400M. Na avaliação de Nowak, essas soluções compartilhadas são importantes, mas não substituem integralmente uma frota sob controle nacional. O comandante relacionou essa exigência à posição da Polônia no flanco oriental da OTAN e à necessidade de receber rapidamente munições e peças de reposição, inclusive dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, em uma crise.

O general afirmou que o país continua necessitando de transporte estratégico, aproximadamente da classe do A400M, e que não esqueceu o programa Drop, destinado a substituir os Hercules. Essa separação é o dado central para a Embraer: a eventual aquisição ou utilização de A400M não implica, por si só, o encerramento da concorrência por aeronaves de transporte médio.

A Defence24 voltou ao tema em 19 de outubro, destacando que uma frota aliada de A400M seria insuficiente para todas as necessidades polonesas e apontando C-390 e C-130J/J-30 como as duas alternativas em disputa no Drop.

O que está em jogo para a Embraer 
O C-390 foi concebido para transporte tático e logístico, lançamento de cargas e paraquedistas, evacuação aeromédica e, quando configurado para isso, reabastecimento em voo. Seus motores a jato e sua capacidade de transportar cargas volumosas constituem características relevantes em uma comparação com o Hercules. A avaliação efetiva, entretanto, dependerá de requisitos operacionais, infraestrutura, custos ao longo do ciclo de vida, disponibilidade, suporte e condições industriais exigidas pela Polônia.

Em setembro, durante a feira MSPO 2026, em Kielce, a Embraer promoveu o C-390 no mercado polonês. Segundo a Defence24, a oferta se insere no programa Drop, que poderia envolver até oito aeronaves. Esse número deve ser tratado como dimensão potencial noticiada para o programa, e não como encomenda formalizada.

A competição com a Lockheed Martin também não pode ser reduzida a velocidade ou capacidade de carga. A continuidade logística e doutrinária de uma frota Hercules, a interoperabilidade com aliados e as propostas de participação da indústria local são fatores que podem influenciar a decisão. O C-390, por sua vez, poderá buscar diferenciação pela arquitetura mais recente, pelo desempenho e por uma proposta de sustentação e cooperação industrial competitiva.

Autonomia operacional e cooperação industrial 

A defesa de uma capacidade soberana não significa que Varsóvia exija uma aeronave projetada e fabricada integralmente no país. Significa, sobretudo, dispor de meios cuja disponibilidade e emprego possam ser definidos nacionalmente. Ainda assim, uma oferta que envolva manutenção, treinamento, suporte e participação de empresas polonesas poderá ganhar importância política e econômica.

A existência de possibilidades de cooperação industrial não autoriza concluir que haja acordo assinado para produção local do C-390. Tampouco a entrevista de Nowak define volume de compras, cronograma do Drop ou fonte de financiamento para esse programa.

Na primeira parte da entrevista à Defence24, publicada em 13 de outubro, Nowak também destacou a crescente importância da integração entre os diferentes componentes das Forças Armadas e da preparação para operações multidomínio. Nesse contexto, a disponibilidade de uma frota própria de transporte militar ganha relevância para a mobilidade de tropas, equipamentos e suprimentos, embora o general não tenha relacionado diretamente essas exigências à escolha do futuro substituto dos Hercules. 

Major-General Ireneusz Nowak, comandante operacional das Forças Armadas Polonesas, no C-390, em janeiro de 2026, na Embraer

A questão do financiamento europeu 

Nowak destacou que o A400M, por ser uma plataforma europeia, se enquadra no instrumento de financiamento SAFE, o que representa uma oportunidade para ampliar a capacidade de transporte estratégico até 2030. A referência temporal e financeira foi feita ao A400M, não ao programa Drop. Seria incorreto transferir automaticamente ao C-390 a previsão de 2030 ou supor que seu financiamento pelo SAFE esteja assegurado.

Esse aspecto pode favorecer a prioridade política atribuída ao A400M, mas não elimina a necessidade operacional de substituir os Hercules. As duas decisões podem avançar em ritmos distintos e sob mecanismos de aquisição diferentes.

Perspectivas para o C-390 
Para a Embraer, o elemento novo não é a confirmação de uma escolha polonesa, que ainda não ocorreu, mas a reafirmação pública de que o programa Drop continua relevante dentro de uma estratégia mais ampla de transporte aéreo. A perspectiva de uma frota de A400M, inclusive multinacional, deixa espaço para uma plataforma de transporte médio destinada a missões complementares.

A oportunidade comercial é concreta, mas permanece condicionada às decisões orçamentárias e aos requisitos finais de Varsóvia. Até que haja anúncio oficial, o C-390 deve ser apresentado como concorrente do C-130J/J-30, não como futuro substituto já selecionado dos Hercules poloneses.

Polônia avalia Super Tucano para renovar treinamento militar, com capacidade antidrone como diferencial

Após demonstrações do A-29 e do Pilatus PC-21, comando polonês busca substituir os Orlik; Embraer pode oferecer uma aeronave multimissão para defesa multicamadas, enquanto Varsóvia prioriza F-16 e FA-50PL para interceptar ameaças mais rápidas

Major-General Ireneusz Nowak (centro), comandante operacional das Forças Armadas Polonesas, no A-29, em janeiro de 2026, na Embraer

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LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 09h25

A Polônia iniciou análises para substituir seus aviões de treinamento PZL-130 Orlik e incluiu o Embraer A-29 Super Tucano e o suíço Pilatus PC-21 em atividades de demonstração e avaliação dos respectivos sistemas de formação de pilotos. A informação foi confirmada pelo major-general aviador Ireneusz Nowak, comandante operacional das Forças Armadas polonesas, em entrevista publicada pelo portal Defence24 em 15 de outubro. Embora o interesse pelo A-29 já fosse conhecido no contexto da defesa contra drones, a declaração revela uma oportunidade distinta para a indústria brasileira: a renovação da frota de instrução militar.

Avaliação concreta, mas nenhuma escolha anunciada 
Segundo Nowak, os militares realizaram em 2026 voos de demonstração e conheceram os sistemas integrados de treinamento associados ao Super Tucano e ao PC-21. O general afirmou que já existem conclusões internas sobre as duas plataformas, sem revelar os resultados. A necessidade ainda deverá ser incorporada aos instrumentos de planejamento de capacidades e ao Plano de Modernização Técnica. Portanto, as avaliações são fatos confirmados, mas não há anúncio de vencedor, contrato ou quantidade de aeronaves a adquirir.

A frota atualmente citada pela Defence24 reúne 28 PZL-130 Orlik TC-II Advanced, empregados na 42ª Base de Aviação de Treinamento, em Radom, integrante da 4ª Ala de Aviação de Treinamento. O Orlik atua em etapa anterior à instrução avançada realizada no M-346 Bielik. A preocupação de Nowak é que, mesmo modernizado, o turboélice polonês já não corresponda plenamente às necessidades de preparação para caças de quinta geração e para os F-16 após modernização.

Super Tucano e PC-21: duas propostas com vocações diferentes 
O PC-21 foi concebido como plataforma de treinamento militar avançado, com sistemas de simulação e recursos destinados a aproximar a instrução turboélice dos procedimentos de aeronaves de combate. Por isso, seu mérito precisa ser examinado à luz do currículo polonês, da integração com simuladores, dos custos de formação e da transição ao M-346 e aos caças.

O A-29 Super Tucano também oferece treinamento militar, mas acrescenta uma característica relevante: é uma aeronave de combate leve, com sensores e armamentos, experiência operacional e capacidade de executar missões além da instrução. Para a Embraer, essa flexibilidade pode ampliar o aproveitamento da frota, desde que a Polônia atribua valor a essas missões adicionais. Não há indicação pública de que o combate a drones seja requisito formal ou fator determinante na escolha do sucessor do Orlik.

A capacidade antidrone é vantagem potencial, não decisão polonesa 
A Embraer vem desenvolvendo um conceito de emprego do A-29 contra sistemas aéreos não tripulados, combinando detecção, identificação, sensores e armamentos já associados à plataforma. A LRCA noticiou, em setembro de 2026, a preparação de uma demonstração de prova de conceito com drones reais. Esse desenvolvimento pode tornar o Super Tucano especialmente útil contra alvos relativamente lentos, como drones de ataque movidos a hélice, em missões de defesa aérea em camadas.

A designação A-29N identifica a configuração voltada a requisitos da OTAN, mas não significa, por si só, que toda aeronave dessa versão já disponha de uma capacidade antidrone integralmente demonstrada e operacional. Também não seria correto afirmar que o PC-21 é tecnicamente incapaz de receber adaptações: a diferença comprovável é que o Super Tucano já dispõe de uma arquitetura de combate e de um programa específico de desenvolvimento dessa missão, ao contrário do PC-21 em sua configuração usual de treinamento. 

Major-General Ireneusz Nowak, comandante operacional das Forças Armadas Polonesas, no A-29, em janeiro de 2026, na Embraer

F-16 e FA-50PL são a prioridade imediata contra drones 
Na mesma entrevista, Nowak esclareceu que o esforço principal polonês está concentrado na integração dos foguetes guiados APKWS II aos F-16 e, em seguida, aos FA-50PL. Segundo o oficial, os pods de designação Sniper dos F-16 já receberam atualizações de software pertinentes, enquanto a disponibilidade do armamento enfrenta restrições de fornecimento. Ele também observou que o avanço de drones a jato, mais velozes e capazes de voar mais alto, alterou o problema operacional antes associado principalmente a alvos do tipo Shahed-136.

Essa avaliação não torna o A-29 irrelevante para a defesa aérea. Significa, porém, que a Polônia não está apresentando o turboélice como resposta principal à ameaça mais rápida. Em uma arquitetura de defesa em camadas, um interceptador de menor custo pode preservar caças e mísseis mais caros para alvos que exigem maior desempenho. Sua utilidade concreta dependerá de alerta antecipado, comunicações, condições meteorológicas, armamento, regras de engajamento e capacidade de alcançar os drones antes que atinjam seus objetivos.

Formar pilotos mais rapidamente também pesa na decisão 
Nowak defendeu mudanças na organização do ensino militar polonês, reduzindo interrupções entre etapas de instrução teórica e prática. A proposta descrita pelo general prevê maior continuidade da formação em voo, para evitar perda de proficiência. Nesse contexto, a futura aeronave será julgada não apenas pelo desempenho individual, mas pela contribuição ao sistema completo de treinamento, incluindo disponibilidade, simuladores, logística e progressão dos alunos.

Oportunidade para a Embraer, com limites claros 
A experiência do A-29 em diferentes forças aéreas e a adoção do A-29N por Portugal reforçam a credibilidade da proposta brasileira no ambiente da OTAN. Para a Embraer, a eventual combinação de treinamento e missões secundárias de vigilância, ataque leve e interceptação de drones lentos oferece um argumento comercial que o PC-21, essencialmente dedicado à instrução, não apresenta da mesma forma.

Entretanto, a decisão de Varsóvia poderá privilegiar a eficácia pedagógica e a compatibilidade com a cadeia de treinamento já existente, independentemente da capacidade de combate adicional. Também não há elementos públicos suficientes para afirmar qual concorrente possui vantagem em preço, custo por hora de voo ou preferência militar.

A principal novidade, portanto, não é uma suposta escolha polonesa pelo Super Tucano, mas a confirmação de que a aeronave brasileira foi efetivamente examinada para uma necessidade de treinamento. Se a Polônia buscar uma plataforma estritamente formadora de pilotos, a disputa seguirá um conjunto de critérios. Se valorizar uma frota capaz de instruir e contribuir para a defesa em camadas contra drones lentos, o A-29 terá um diferencial a apresentar. A decisão ainda está aberta.

16 setembro, 2026

C-390 com mísseis Barracuda amplia o alcance comercial e estratégico da Embraer

Integração paletizada poderá transformar o cargueiro em vetor de ataque de longo alcance e reforçar propostas à Índia, à Polônia e a operadores atuais, mas o projeto ainda está na fase de desenvolvimento 

Imagm renderizada apenas para ilustração


*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

O C-390 Millennium poderá ganhar uma capacidade que altera substancialmente seu valor militar e comercial. A Embraer e a norte-americana Anduril assinaram, em 21 de julho de 2026, durante o Farnborough International Airshow, um memorando de entendimento para buscar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M em um sistema paletizado lançado pela rampa traseira da aeronave.

A proposta não transforma permanentemente o cargueiro em bombardeiro. O conceito emprega módulos de missão removíveis, procedimentos convencionais de lançamento aéreo e uma arquitetura de instalação e retirada rápidas. Assim, a mesma aeronave poderá continuar executando transporte de tropas e cargas, reabastecimento em voo, evacuação aeromédica, busca e salvamento e ajuda humanitária e, quando necessário, receber um conjunto capaz de produzir ataques de precisão a longa distância.

Essa combinação interessa especialmente a países que necessitam de mobilidade estratégica, mas também procuram ampliar seus estoques e vetores de ataque sem adquirir uma frota dedicada de bombardeiros. Índia e Polônia aparecem como oportunidades particularmente coerentes. A primeira conduz um programa para uma nova aeronave de transporte médio e negocia ampla produção local. A segunda é alvo de uma campanha industrial do C-390 e, simultaneamente, firmou parceria para fabricar o próprio Barracuda-500M em território polonês.

Uma capacidade além do transporte aéreo 
Segundo a Embraer, a solução paletizada permitirá ao C-390 lançar dezenas de munições simultaneamente. A formulação deve ser interpretada como objetivo do conceito, porque as empresas ainda não divulgaram a configuração final, o número exato de armas por aeronave, o cronograma de ensaios nem a data em que a capacidade poderá estar disponível aos clientes.

A Anduril informa que o Barracuda-500M possui alcance superior a 500 milhas náuticas, aproximadamente 926 quilômetros, e capacidade de carga útil acima de 100 libras, cerca de 45 quilogramas. A empresa apresenta a família Barracuda como uma resposta à necessidade de recompor rapidamente estoques de munições de precisão: o projeto teria 50% menos componentes, exigiria 95% menos ferramentas e consumiria metade do tempo de fabricação de sistemas comparáveis.

O ganho operacional decorre da combinação entre alcance, quantidade e dispersão. Um C-390 poderia decolar de uma base afastada, aproximar-se apenas até uma área segura de lançamento e liberar as armas fora do alcance imediato de parte das defesas inimigas. A aeronave não teria de penetrar o espaço aéreo mais contestado. Depois da missão, o equipamento paletizado poderia ser retirado e o cargueiro retornaria às tarefas logísticas.

O modelo acompanha a tendência, já explorada pelo programa norte-americano Rapid Dragon, de usar aeronaves de transporte como plataformas de lançamento. A diferença comercial é relevante: em vez de vincular o ataque de longo alcance apenas a caças e bombardeiros caros e disponíveis em pequena quantidade, a força aérea passa a utilizar parte de sua frota logística para gerar massa em momentos críticos.

Índia combina grande necessidade e ambição industrial 
A Índia é provavelmente o mercado no qual a nova capacidade produz o maior impacto potencial. Embraer e Mahindra Group mantêm uma aliança para oferecer o C-390 ao programa Medium Transport Aircraft da Força Aérea Indiana. As empresas pretendem, caso a aeronave seja selecionada, estabelecer produção, montagem, cadeia de suprimentos e manutenção, reparo e revisão no País, com a ambição de transformar a Índia em centro regional do programa.

O Barracuda acrescenta à proposta uma função que vai além da substituição de cargueiros. Para uma força aérea que precisa operar em grandes distâncias e diante de ambientes estratégicos distintos, um conjunto removível de mísseis permitiria preservar a frota para transporte na rotina e convertê-la para ataque de longo alcance em uma crise. A capacidade poderia complementar, e não substituir, os vetores dedicados já existentes ou futuros.

Também haveria espaço para uma oferta industrial ampliada, envolvendo montagem do avião, manutenção e eventual participação indiana em equipamentos de missão. Isso dependeria, porém, de negociações específicas entre governos e empresas, de autorizações de exportação norte-americanas e das exigências indianas de conteúdo local. Até agora, a Índia não selecionou o C-390 nem anunciou a aquisição do Barracuda para emprego aéreo. A reportagem publicada pelo portal indiano IDRW identifica uma oportunidade plausível, mas não registra uma decisão oficial da Força Aérea Indiana.

Polônia reúne as duas pontas da proposta 
Na Polônia, a convergência é ainda mais direta. A Embraer promove o KC-390 como futura aeronave de transporte e reabastecimento do país e assinou memorandos com empresas polonesas. Em março de 2026, apresentou a aeronave à Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2, em Bydgoszcz, como parte da cooperação para manutenção, reparo e revisão. A fabricante brasileira também já avaliou a possibilidade de montagem final na Polônia.

Paralelamente, a Polska Grupa Zbrojeniowa e a Anduril anunciaram, em julho, um acordo para produzir em Bydgoszcz a versão terrestre Surface-Launched Barracuda-500M. A parceria prevê fabricação local e integração industrial. Embora a variante terrestre não seja idêntica ao sistema paletizado destinado ao C-390, a presença do fabricante, da cadeia produtiva e da tecnologia no mesmo país reduz barreiras de cooperação e cria uma combinação comercial particularmente atraente.

Para Varsóvia, uma frota de C-390 poderia cumprir transporte, reabastecimento em voo, apoio a forças dispersas e lançamento de munições a longa distância. Para a Embraer, a oferta uniria aeronave, capacidade militar adicional e participação da indústria local. Isso não significa que a Polônia tenha decidido adquirir o cargueiro ou integrar nele o Barracuda. Significa que duas campanhas antes separadas passaram a formar um possível ecossistema comum.

Operadores atuais também entram no horizonte 
A possibilidade não se limita a Índia e Polônia. Em julho de 2026, a Embraer relacionava Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia entre os países que haviam selecionado o C-390. Em agosto, a Colômbia tornou-se o 13º país a escolher a plataforma.

Nem todos terão interesse político, doutrinário ou financeiro em adquirir mísseis de cruzeiro. Para alguns operadores, o valor principal do C-390 continuará sendo a mobilidade aérea, o apoio humanitário ou o reabastecimento em voo. Outros, especialmente membros da OTAN preocupados com a disponibilidade de munições e com operações dispersas, poderão considerar o módulo paletizado uma forma de ampliar a capacidade de ataque sem alterar permanentemente suas aeronaves.

A modularidade cria ainda uma vantagem de ciclo de vida. Um cliente poderia adquirir inicialmente o avião para transporte e, mais tarde, incorporar o conjunto de missão, desde que a integração seja certificada e autorizada. A Embraer passaria a oferecer não apenas uma aeronave multimissão, mas uma plataforma capaz de receber novas funções por meio de equipamentos removíveis.

Oportunidade relevante, com obstáculos técnicos e políticos 
A integração exigirá mais do que acomodar paletes no compartimento de carga. Será necessário demonstrar separação segura pela rampa, comportamento aerodinâmico, comunicação com as munições, planejamento de missão, interfaces de comando, compatibilidade eletromagnética, segurança de armamento e procedimentos de certificação. Ensaios em solo e em voo deverão validar o emprego em diferentes velocidades, altitudes e condições operacionais.

Há também questões de soberania e controle de exportações. O Barracuda é um sistema norte-americano, e cada venda dependerá das autorizações aplicáveis. Países interessados poderão exigir acesso a interfaces, integração com seus próprios sistemas de comando e controle, autonomia sobre dados de missão e participação industrial. A atratividade do conceito será medida não apenas pelo alcance do míssil, mas pelo preço, pela escala de produção e pela liberdade real de emprego concedida ao operador.

Para o Brasil, a iniciativa abre uma discussão adicional. O C-390 é a principal plataforma militar de exportação da indústria aeronáutica nacional, mas a arma proposta é estrangeira. A parceria amplia a competitividade internacional do avião e pode gerar engenharia, integração e serviços para a Embraer. Ao mesmo tempo, evidencia a importância de o País desenvolver munições de longo alcance e arquiteturas próprias que, no futuro, também possam ser integradas à aeronave, como o MARSUP, que em desenvolvimento pela SIATT e pela FAB, por exemplo.

C-390 passa a disputar uma categoria mais ampla 
O memorando com a Anduril deve ser visto como o início de um caminho tecnológico e comercial, não como capacidade já entregue. Ainda assim, ele modifica a percepção do produto. O C-390 deixa de ser apresentado somente como substituto moderno de cargueiros táticos e passa a disputar espaço como plataforma modular para produzir efeitos operacionais a longa distância.

Na Índia, isso reforça uma proposta associada à produção local e à autonomia industrial. Na Polônia, conecta o avião brasileiro a um míssil que poderá ser fabricado no próprio país. Entre operadores atuais, oferece uma rota de crescimento da capacidade sem a compra imediata de uma nova classe de aeronaves. Se a integração cumprir o que promete, a Embraer terá acrescentado ao C-390 um argumento que combina logística, dissuasão e poder de ataque em uma única frota.

11 setembro, 2026

De cargueiro a arsenal aéreo: Embraer avança com o C-390/Barracuda e leva conceito a operadores e potenciais clientes

Encontro com a Anduril na MSPO 2026 mostra que parceria anunciada em Farnborough começa a avançar para a prospecção operacional e comercial, com atenção especial à Europa e à Polônia



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

Menos de dois meses depois de anunciar, no Farnborough International Airshow, um Memorando de Entendimento com a Anduril para estudar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M ao C-390 Millennium, a Embraer deu um novo passo na iniciativa. Durante a MSPO 2026, em Kielce, na Polônia, representantes seniores das duas empresas voltaram a se reunir para avançar o acordo e, principalmente, levar a proposta ao diálogo com operadores atuais e forças aéreas que avaliam a aeronave brasileira.

A novidade é relevante porque desloca o foco da parceria. Em julho, Embraer e Anduril apresentaram essencialmente um conceito tecnológico e operacional. Agora, a própria Embraer informa que as conversas na MSPO envolveram clientes e potenciais clientes do C-390, cuja questão recorrente foi a rapidez com que a nova capacidade poderia ser incorporada a uma plataforma que já operam ou estão considerando adquirir.

Do memorando à prospecção junto aos operadores 
O acordo anunciado em Farnborough, em 21 de julho, prevê a busca conjunta pela integração do Barracuda-500M paletizado ao C-390. O conceito utiliza sistemas roll-on/roll-off e procedimentos convencionais de lançamento aéreo, evitando, em princípio, a necessidade de transformar permanentemente a aeronave de transporte em uma plataforma de ataque.

A combinação permitiria que o C-390 transportasse e lançasse simultaneamente dezenas de munições de longo alcance, agregando à sua função de mobilidade aérea a possibilidade de gerar efeitos cinéticos e não cinéticos a distância. A Anduril apresenta o Barracuda como uma família concebida desde o início para fabricação simplificada, custos inferiores aos de mísseis de cruzeiro tradicionais e produção em grande escala.

Na MSPO, porém, a discussão ganhou uma dimensão comercial mais concreta. Segundo a nova publicação da Embraer, a resposta de operadores do C-390 e de forças aéreas que avaliam a aeronave reforçou o interesse pelo conceito. A pergunta sobre a velocidade de incorporação da capacidade sugere que os potenciais usuários já começam a observar o Barracuda não apenas como uma experiência tecnológica, mas como possível opção para suas próprias frotas. 

A Polônia está no centro dessa convergência 
O local escolhido para esse novo movimento não é secundário. A Polônia está avaliando o C-390 no programa DROP, destinado à renovação de sua aviação de transporte. Segundo o portal polonês Defence24, o processo poderá resultar na aquisição de até oito aeronaves. A Embraer vem ampliando sua presença industrial no País e, em março, apresentou o C-390 à WZL-2, em Bydgoszcz, no contexto da cooperação para manutenção, reparo e revisão da aeronave.

Ao mesmo tempo, a Polônia já ocupa posição central na estratégia europeia da Anduril. Em julho, a empresa norte-americana, a Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ) e a WZL-2 firmaram acordo para estabelecer em Bydgoszcz a montagem e, progressivamente, a produção local do Barracuda-500M lançado de superfície. A previsão divulgada pelas empresas é produzir milhares de unidades, ampliando gradualmente a participação de componentes poloneses e europeus.

A presença simultânea desses dois movimentos cria uma convergência particularmente interessante: o País que avalia o C-390 também se prepara para produzir o Barracuda-500M. Isso não significa que exista, até agora, uma decisão polonesa de adquirir a configuração C-390/Barracuda, mas torna a Polônia um ambiente especialmente favorável para demonstrar a lógica industrial e operacional da proposta.

O C-390 como plataforma de efeitos em massa 
O conceito acompanha uma transformação mais ampla observada nas guerras recentes. Estoques limitados de armamentos sofisticados e caros passaram a conviver com a necessidade de lançar grande número de vetores, saturar defesas, manter capacidade de reposição e sustentar operações prolongadas. Nesse cenário, quantidade, custo unitário e velocidade de produção passam a integrar o próprio cálculo do poder de combate.

A proposta da Embraer e da Anduril procura inserir o C-390 nessa lógica. Em vez de desenvolver uma aeronave específica para a missão, utiliza-se uma plataforma de transporte já existente, com 26 toneladas de capacidade de carga, elevada velocidade e possibilidade de rápida reconfiguração. O armamento paletizado seria embarcado quando necessário e retirado posteriormente, preservando as demais missões do avião.

Esse aspecto é particularmente atraente para países que operam frotas relativamente pequenas. Uma mesma aeronave poderia continuar cumprindo transporte de tropas e cargas, evacuação aeromédica, reabastecimento em voo, missões humanitárias e outras tarefas, recebendo adicionalmente uma capacidade de lançamento stand-off quando a situação operacional exigisse. 


Uma rede crescente de usuários 
A estratégia também ganha importância à medida que aumenta a comunidade internacional do C-390. A aeronave já foi selecionada por Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Lituânia e, mais recentemente, Colômbia. Uma capacidade modular desenvolvida para a plataforma poderia, em tese, ser oferecida a diversos desses operadores, respeitadas as decisões políticas, requisitos nacionais e autorizações aplicáveis.

É justamente essa base instalada, em expansão, que diferencia a iniciativa. O C-390 deixaria de ser visto somente como um avião que pode eventualmente lançar mísseis e passaria a constituir uma possível rede de plataformas multimissão capazes de receber rapidamente novos módulos e efeitos. Para a Embraer, isso acrescenta valor à aeronave sem descaracterizar sua função principal.

Barracuda: produção em escala como parte da capacidade militar 
A Anduril associa diretamente o Barracuda à necessidade de recompor estoques com rapidez. O primeiro teste bem-sucedido do B-500M lançado por palete ocorreu em setembro de 2024 e foi seguido, segundo a Embraer, por dezenas de outros ensaios, incluindo autonomia colaborativa em rede, engajamentos terminais e validação de cargas úteis.

Na Polônia, a estratégia industrial vai além da simples importação. O acordo com a PGZ prevê produção local do Barracuda-500M e crescente localização da cadeia de suprimentos. Durante a própria MSPO 2026, a Anduril também intensificou a oferta de outros sistemas autônomos às Forças Armadas polonesas, reforçando o País como uma de suas principais portas de entrada no mercado europeu.

O que mudou desde Farnborough 
A integração ainda não pode ser considerada um programa contratado. Embraer e Anduril não anunciaram cliente para a versão paletizada, contrato de desenvolvimento, cronograma de integração ou data para ensaios de lançamento a partir do C-390. O Memorando de Entendimento continua sendo o instrumento formal conhecido.

O que mudou é o estágio da discussão. Em Farnborough, as empresas anunciaram que pretendiam explorar a integração. Em Kielce, passaram a discutir a capacidade com quem já opera o C-390 e com quem pode comprá-lo. A pergunta deixou de ser apenas se o conceito é tecnicamente interessante e começou a incluir outra questão: em quanto tempo ele poderia chegar às frotas. 


Por que isso importa 
Se a parceria avançar para integração e testes, o C-390 poderá ampliar significativamente sua posição no mercado militar internacional. Além de competir como transporte tático e aeronave multimissão, passaria a oferecer uma capacidade de projeção de poder baseada em armamentos paletizados, de longo alcance e produzidos em escala, algo muito relevante para, por exemplo, a licitação de 60 aeronaves que está em curso na Índia. 

Para a Embraer, trata-se de uma nova camada de valor para uma plataforma que já acumula clientes na Europa, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Para a Anduril, o C-390 oferece acesso a uma aeronave moderna, em expansão internacional e capaz de transportar grande quantidade de munições. Para os operadores, a combinação promete transformar rapidamente capacidade logística em capacidade de geração de efeitos, sem exigir uma frota dedicada exclusivamente ao ataque.

A MSPO 2026, portanto, não trouxe ainda o contrato que transformará o conceito em capacidade operacional. Trouxe, porém, algo importante para o caminho até ele: a confirmação de que Embraer e Anduril estão avançando além do anúncio inicial e colocando o C-390/Barracuda diante de operadores e potenciais compradores. A partir de agora, os próximos marcos a observar serão a definição de um cliente, o financiamento da integração, os primeiros ensaios com a aeronave e um eventual cronograma de entrada em serviço.

25 agosto, 2026

Airbus A400M e Embraer C-390 avançam juntos na estratégia aérea polonesa

Compra de até quinze aeronaves da Airbus pelo mecanismo SAFE da União Europeia ocorre em paralelo ao avanço do KC-390 Millennium, da Embraer, e reforça a doutrina polonesa de complementaridade entre transporte tático e estratégico

Major-General Ireneusz Nowak, Subcomandante das Forças Armadas Polonesas, no KC-390 em Jan/26


*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

A Polônia negocia com a Airbus a compra de aeronaves de transporte A400M Atlas, movimento que se soma, e não substitui, ao avanço já em curso do KC-390 Millennium, da Embraer, na base industrial polonesa. O vice-ministro da Defesa Nacional, Paweł Zalewski, confirmou à Polish Radio 24, em agosto de 2026, que o país negocia "em duas direções", cobrindo tanto a variante de transporte quanto a de reabastecimento aéreo do A400M. Segundo Zalewski, o financiamento deve vir do mecanismo SAFE (Security Action for Europe) da União Europeia, possivelmente com o aproveitamento de cotas não utilizadas por outros países membros.

O analista polonês Jarosław Wolski, em publicação no X no dia 25 de agosto, estimou que o número de aeronaves negociadas varia de oito a quinze unidades, com fontes inclinando-se para a faixa superior. A Airbus, por sua vez, já apresentou à Polônia uma proposta direta para dez a quatorze aeronaves, segundo apurou a Polish Radio. O interesse polonês no A400M segue uma carta de intenções assinada em julho, durante cúpula da OTAN em Ancara, quando o país aderiu, junto de Bélgica, Croácia, Espanha, França, Turquia e Reino Unido, a uma iniciativa de cooperação para operar uma frota compartilhada do modelo. 

Delegação polonesa, liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak, 
Subcomandante das Forças Armadas Polonesas em visita à Embraer e ao KC-390 em Jan/26

Embraer amplia presença industrial na Polônia

Enquanto a negociação do A400M avança, a Embraer também amplia sua presença industrial na Polônia em torno do KC-390. Em dezembro de 2025, a fabricante brasileira assinou um memorando de entendimento com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 SA (WZL-2), uma das principais empresas de manutenção aeroespacial do país e integrante do conglomerado estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). O acordo foi formalizado em evento em Bydgoszcz, em março de 2026, quando o KC-390 Millennium foi oficialmente apresentado à WZL-2. Em 25 de junho de 2026, as duas empresas assinaram um novo memorando de acordo, que amplia o escopo da parceria para serviços de suporte, acabamento e conversão de aeronaves, reforçando a ofensiva da Embraer sobre o programa Drop, da Força Aérea polonesa.

O programa Drop, conduzido pela Agência de Armamentos do Ministério da Defesa Nacional da Polônia, busca substituir a envelhecida frota de C-130E/H Hercules do país. Criado em 2019 e suspenso ainda naquele ano por redefinição de requisitos operacionais, o programa foi reativado e atravessa, em 2025 e 2026, uma fase de diálogo técnico com cinco fabricantes convidados a apresentar propostas: Airbus, Boeing, Embraer, Leonardo e Lockheed Martin. A Embraer propôs à Polônia vinte unidades do C-390, com produção localizada e transferência de tecnologia.

As duas aquisições são complementares e não excludentes
A coexistência dos dois programas não é acidental. Em reportagem publicada por esta consultoria em 26 de janeiro de 2026, o coronel Sebastian Paluch, responsável por aquisições na Força Aérea polonesa, já havia descrito uma abordagem de complementaridade entre camadas de capacidade: o espanhol C295 cobre o transporte leve, o KC-390 assumiria o segmento médio e o A400M ficaria com cargas pesadas e deslocamentos estratégicos. Paluch resumiu a lógica à época: "não se trata de uma competição, mas de camadas de capacidade alinhadas aos padrões operacionais da OTAN". A mesma distinção foi detalhada em entrevista dos coronéis Paluch e Ireneusz Nowak ao portal Defence24, quando Paluch enquadrou os cargueiros em três códigos operacionais da Aliança: TCC-L, para transporte tático leve; TCC-M, para o segmento médio, onde entram o C-130 Hercules e o C-390; e TCC-H, para o transporte pesado, categoria do A400M, que não tem concorrente de porte equivalente desde o fim da linha de produção do C-17 em 2016.

O pano de fundo estratégico é a percepção polonesa de ameaça russa, agravada pela guerra na Ucrânia. Segundo o general Ireneusz Nowak, subcomandante das Forças Armadas polonesas, o País deve estar preparado para sustentar posições por meses ou até anos, doutrina que exige uma base logística robusta, e não apenas capacidade de combate. A frota atual de C-130, envelhecida, e a ausência de uma aeronave equivalente ao A400M tornam as duas aquisições, a tática e a estratégica, complementares e não excludentes. 

No painel acima dos presentes, a frase em polonês: "Bem-vindo à Embraer"
 sobre um KC-390 já estilizado para a Força Aérea Polonesa

Risco ao KC-390?
Para a indústria brasileira de defesa, o avanço paralelo do A400M não representa, portanto, um risco direto ao KC-390 na Polônia; ao contrário, confirma que Varsóvia trata as duas aeronaves como camadas distintas de uma mesma arquitetura de transporte aéreo, com o modelo brasileiro mirando justamente o nicho médio deixado pela aposentadoria dos Hercules mais antigos.

03 julho, 2026

Embraer abre julho com dois palcos estratégicos: do Golfo da Guiné a Farnborough, uma janela para fechar contratos

De Accra a Londres em alguns dias: ASEC, Farnborough 2026 e uma carteira de negócios em aberto para o Super Tucano e o KC-390 Millennium 


*LRCA Defense Consulting - 03/07/2026

A Embraer entra em julho com uma sequência rara de oportunidades comerciais. Entre os dias 7 e 9, a empresa marca presença no 13º Simpósio de Segurança da África (ASEC), realizado em Accra, capital de Gana, com o A-29 Super Tucano e o KC-390 Millennium no portfólio. Pouco depois, entre 20 e 24 de julho, o Farnborough International Airshow 2026 reúne em Londres a nata da indústria aeroespacial mundial. O calendário forma uma janela de alguns dias que a fabricante dificilmente desperdiçará, especialmente diante de uma carteira de negócios em diferentes estágios de maturação na África, Europa e América do Sul.

Accra como palco: o ASEC e a décima tentativa ganesa
A presença da Embraer no ASEC não é casual. O simpósio, reconhecido por promover parcerias regionais e impulsionar a inovação em segurança no continente, reúne tomadores de decisão de forças armadas da África Ocidental e Central, exatamente o público a que o A-29 Super Tucano mais interessa no momento. E o contexto local não poderia ser mais favorável: Gana avalia a compra da aeronave há mais de dez anos, sem que nenhum contrato tenha sido efetivado até agora.

O interesse remonta a 2015, quando a Embraer anunciou um contrato condicionado para cinco unidades que não se materializou. Em fevereiro de 2024, a empresa levou um A-29 à Base Aérea de Accra para uma demonstração formal diante do então ministro da Defesa Dominic Nitiwul e do então chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, vice-marechal do ar Frederick Asare Kwasi Bekoe. O ministro, ao fim do evento, declarou que a força aérea ganesa havia "se apaixonado" pela aeronave e que as negociações "começariam para valer". O custo estimado para cinco unidades seria de cerca de US$ 52,8 milhões, segundo a consultoria GlobalData.

Em junho de 2026, Marcio Monteiro, diretor de marketing da Embraer Defesa & Segurança, reiterou durante visita de imprensa à fábrica de São José dos Campos que a empresa permanece pronta para apoiar qualquer ordem de Gana e lembrou que contratos de defesa demandam tempo. Ele citou o caso dos Emirados Árabes Unidos, que levou mais de uma década para formalizar a compra do KC-390 Millennium.

A deterioração da segurança no Sahel e a expansão do grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) em direção ao litoral do Golfo da Guiné pressionam os países da sub-região a reforçar suas capacidades de ataque leve e patrulha de fronteiras. Vizinhos como Togo, que deverá receber ainda em 2026 quatro Super Tucanos em um contrato de cerca de US$ 82 milhões, e a Nigéria, que já acumula mais de 10 mil horas de voo com seus 12 A-29 adquiridos em 2021, tornaram-se referências práticas do papel da aeronave nesse ambiente. O ASEC de Accra coloca Gana diretamente diante da proposta brasileira, no momento em que o seu orçamento de defesa está em trajetória de crescimento: segundo a GlobalData, os gastos devem atingir US$ 509,6 milhões até 2029, com taxa de crescimento anual de 11,3%.

Farnborough: o palco preferido para anúncios
O Farnborough International Airshow, que ocorre entre 20 e 24 de julho, é historicamente um dos eventos preferidos pela Embraer para anunciar contratos de suas divisões de defesa e aviação comercial. A visibilidade é máxima e a repercussão imediata na imprensa especializada global funciona como amplificador de credibilidade junto a outros potenciais clientes. Em edições anteriores, a empresa aproveitou o evento para divulgar vendas do Super Tucano e do KC-390.

A sequência ASEC-Farnborough comprime em alguns dias duas janelas de altíssima exposição: uma dirigida especificamente à África Ocidental, outra com alcance global. Se Gana estiver próxima de assinar, ou se Marrocos e Chile convergirem para um contrato do KC-390, o Farnborough é o palco natural para o anúncio.

Imagem renderizada por IA

KC-390 Millennium: uma carteira de negócios em diferentes estágios
Enquanto o Super Tucano espera o desfecho ganês, o KC-390 Millennium alimenta um pipeline de vendas em múltiplas geografias, com negociações em estágios bastante distintos de maturidade.

- Marrocos: o candidato mais maduro
O Marrocos é hoje o cliente potencial mais avançado entre os que ainda não assinaram. A Força Aérea Real Marroquina (FAR) opera uma frota envelhecida de C-130H e KC-130H e busca uma plataforma que una transporte tático e reabastecimento em voo em uma única aeronave, exatamente o perfil do KC-390. A negociação, que inclui cinco unidades avaliadas em mais de US$ 600 milhões, ganhou nova dimensão em junho de 2026, quando o portal Africa Intelligence revelou que a Embraer ampliou a proposta para incluir um centro de comando e controle C4I desenvolvido pela sua subsidiária Atech, sistema que integraria operações terrestres, aéreas e navais em tempo real. O pacote reposiciona a oferta brasileira de uma venda de aeronave para uma solução de defesa integrada. 

Em outubro de 2024, um slide interno da Embraer apresentado durante conferência de usuários do C-390 já havia listado Marrocos entre os próximos clientes do programa, ao lado dos Emirados Árabes Unidos e do Chile. Os EAU assinaram em 4 de maio de 2026 o maior contrato internacional já celebrado para a aeronave: dez pedidos firmes e dez opções. Marrocos é o próximo da lista.

- Polônia: a aposta europeia com lastro industrial
Na Europa, a Polônia tem sido cortejada com uma estratégia centrada em participação industrial. A Embraer assinou memorando de acordo com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 (WZL-2), empresa polonesa com quase oito décadas de experiência em manutenção de aeronaves militares, incluindo o F-16 e o C-130 Hercules. O acordo abrange manutenção, conversão, pintura e integração de sistemas. 

Antes disso, ao final de 2025, a empresa já havia firmado memorandos de entendimento com diversas empresas do grupo estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). A Polônia vive um ciclo de rearmamento acelerado no contexto da guerra na Ucrânia, e a Embraer monta um argumento de capacitação industrial local para tornar o KC-390 competitivo diante de rivais como o Airbus A400M.

- Chile e Colômbia: América do Sul no radar
Na América do Sul, Chile e Colômbia representam os movimentos mais recentes. Em abril de 2026, durante a FIDAE em Santiago, o presidente chileno José Antonio Kast posou ao lado da maquete do KC-390 com o comandante da Força Aérea Brasileira e o CEO da Embraer Defesa & Segurança, em gesto de sinalização política difícil de ignorar. O ministro da Defesa chileno chegou a segurar um quadro com os emblemas da Força Aérea do Chile (FACh) ao lado da aeronave. O país é apontado como candidato a seis unidades. 

A Colômbia, por sua vez, avançou ainda mais: o presidente Gustavo Petro ordenou formalmente, em 30 de março de 2026, a aquisição de dois KC-390 para substituir C-130H fora de serviço. A Embraer tem raízes profundas nos dois países, com o Chile já operando A-29 Super Tucanos.

Uma máquina de vendas em ritmo de cruzeiro
O portfólio de defesa da Embraer nunca esteve tão internacionalizado. O Super Tucano acumula mais de 300 encomendas de 22 forças aéreas, com 39 aeronaves adicionadas à carteira nos últimos dois anos, e a empresa projeta vender cerca de 500 unidades nas próximas duas décadas, com a África respondendo por 28% da demanda. O KC-390, por sua vez, soma mais de 60 encomendas e compromissos de 11 países, com clientes na Europa (Portugal, Países Baixos, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Suécia, Áustria, Lituânia), no Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos) e na América do Sul (Brasil).

A janela que se abre agora, de Accra a Farnborough, é mais do que calendário: é o momento em que negociações que duram anos costumam ganhar nome, valor e data de entrega.

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