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05 setembro, 2026

Analista turco defende compra do C-390 para substituir C-130 na força aérea da Turquia

Artigo do centro de estudos ODAP, de Istambul, aponta o cargueiro da Embraer como caminho para renovar a frota de transporte militar turca e aprofundar a cooperação industrial com o Brasil



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026 

Um artigo publicado nesta sexta-feira (4) pelo ODAP (Centro de Estudos do Oriente Médio, Eurásia e Ásia-Pacífico), think tank sediado em Istambul, defende que o C-390 Millennium, cargueiro militar fabricado pela Embraer, é a alternativa mais adequada para substituir a envelhecida frota de C-130 Hercules operada pela Força Aérea da Turquia. O texto é assinado por Umur Tugay Yücel, cientista político e especialista em política externa, e argumenta que a troca de plataforma envolve, além do aspecto técnico, dimensões estratégicas, econômicas e geopolíticas para Ancara.

Uma frota que envelhece 

Segundo o autor, o C-130 forma há décadas a espinha dorsal do transporte aéreo militar turco, cumprindo missões que vão da ajuda humanitária a operações transfronteiriças e atividades da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No entanto, boa parte dos exemplares em serviço na Turquia foi produzida ainda nas décadas de 1960 e 1970, com base em um projeto que remonta aos anos 1950. Programas de modernização estenderam a vida útil da frota, mas, para Yücel, não bastam mais diante do envelhecimento estrutural, do aumento dos custos de manutenção e das exigências do ambiente de combate atual, como guerra eletrônica e sistemas digitais de missão.

O artigo também associa a dependência de plataformas americanas a riscos políticos, citando as restrições sofridas pela Turquia no programa do caça F-35 em razão da lei americana Caatsa (Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, ou lei de combate aos adversários dos Estados Unidos por meio de sanções).

O C-390 como resposta às novas exigências 
Yücel descreve o C-390 como um projeto concebido do zero para as necessidades operacionais do século XXI, e não apenas como herdeiro dos cargueiros tradicionais. Entre os pontos destacados estão a velocidade de cruzeiro de Mach 0,8, obtida com motores turbofan; a capacidade de carga de aproximadamente 26 toneladas, com compatibilidade total com paletes padrão da Otan; e a arquitetura de aviônica baseada em comandos de voo eletrônicos, a chamada tecnologia fly-by-wire, que reduz a carga de trabalho do piloto e amplia a segurança de voo. O texto lembra ainda a versatilidade da aeronave, empregada como cargueiro, aeronave de reabastecimento em voo, plataforma de busca e salvamento e para evacuação médica, além de sua capacidade de transportar até 84 militares.

O artigo cita a adoção do C-390 por países da Otan como Portugal, Países Baixos, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Suécia, além da Coreia do Sul e do Uzbequistão, este último membro da Organização dos Estados Turcos, como indicativo da maturidade tecnológica da aeronave e de sua compatibilidade com os padrões da aliança.

Um novo eixo de cooperação entre Turquia e Brasil 
Para o cientista político, o principal atrativo do C-390 para Ancara vai além da ficha técnica. O artigo sustenta que a compra da aeronave poderia evoluir para produção conjunta, compartilhamento de tecnologia e centros locais de manutenção, com a participação de empresas turcas como TAI, ASELSAN, HAVELSAN e TEI no ecossistema industrial do C-390. Segundo o autor, a infraestrutura aeroespacial turca oferece base suficiente para esse tipo de parceria, enquanto as políticas de controle de exportação do Brasil, mais flexíveis do que as dos Estados Unidos, tornariam a Embraer um parceiro estratégico para um país que busca autonomia em sua cadeia de suprimentos de defesa.

O texto conclui que a escolha do C-390 se somaria à política externa turca de diversificação de parceiros, reduzindo a dependência de Washington e de fornecedores europeus e projetando uma cooperação de defesa entre Turquia e Brasil em ambos os lados do Atlântico. 
 

Comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, 
em Portugal, para conhecer de perto o C-390


Negociações já em curso 

A publicação do ODAP chega em meio a negociações que já estão em andamento entre os dois países. Em abril de 2025, durante a Feira Internacional de Defesa e Segurança (LAAD), no Rio de Janeiro, a Turkish Aerospace e a Embraer assinaram um memorando de entendimento para explorar cooperação industrial, incluindo a produção de jatos comerciais E190 e E195-E2 na Turquia. Na mesma ocasião, o então ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro, afirmou à agência Reuters que a Embraer negociava a venda do C-390 também para Turquia, Polônia e Finlândia.

Mais recentemente, o comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, para conhecer de perto o C-390 que equipa a esquadra portuguesa, em um gesto interpretado pela imprensa especializada como sinal do interesse turco em suceder a frota de C-130. Segundo apurações da LRCA Defense Consulting, o Brasil segue como facilitador diplomático das negociações, que incluem, além da Turquia, países como Polônia, Grécia, Colômbia e Marrocos.

O artigo completo, em inglês, está disponível no site do ODAP.

03 setembro, 2026

Brasil eleva Embraer e Petrobras a peças de uma nova agenda industrial com a África do Sul

Ata da Comissão Mista Brasil-África do Sul associa o KC-390, os jatos E2 e o retorno da Petrobras dentro de uma mesma estratégia de aprofundamento econômico entre os dois países 

Renderização de um C-390 nas cores da Força Aérea Sul-Africana

*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

O chanceler brasileiro Mauro Vieira colocou, em uma única frase de discurso, três negócios que normalmente seriam tratados como notícias separadas. Na ata final da VIII Sessão da Comissão Mista Brasil-África do Sul, realizada em 26 de agosto de 2026, em Pretória, o Vieira “destacou também as negociações em curso relativas à aeronave brasileira de transporte militar KC-390 e aos jatos regionais E2 da Embraer, e observou as oportunidades decorrentes da retomada das operações da Petrobras na África do Sul”, segundo o documento assinado por ele e pelo ministro sul-africano Ronald O. Lamola.

Isoladamente, nenhum dos três temas é inédito. O interesse sul-africano pelo KC-390 já é acompanhado desde 2023; a presença comercial da Embraer no País, por meio da Airlink, é antiga; e o retorno da Petrobras à exploração na África do continente vem sendo construído desde 2024. A novidade está em outro lugar: pela primeira vez, os três temas aparecem reunidos dentro do texto oficial de uma reunião ministerial de alto nível, como parte da mesma agenda econômica e estratégica bilateral, e não mais como notícias setoriais dispersas.

Defesa: o KC-390 como carro-chefe industrial 
No eixo de defesa, o compromisso já tem lastro contratual. Em abril de 2025, durante a feira LAAD Defence and Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Denel, estatal sul-africana de defesa, assinaram um memorando de entendimento para uma futura colaboração na fabricação de aeroestruturas e em serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO) do KC-390. O acordo foi firmado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança, e Chris Boshoff, CEO da área aeroespacial da Denel.

A ata da Comissão Mista recupera esse memorando e o descreve como potencial gerador de cooperação industrial aeroespacial, desenvolvimento tecnológico, integração em cadeias internacionais de suprimentos e transferência de competências entre as indústrias de defesa dos dois países. O documento tem uma seção própria dedicada ao programa KC-390, na qual os dois governos registram que prosseguem as discussões sobre a possível adoção da aeronave na África do Sul.

Do lado comercial, a ofensiva da Embraer ganhou estrutura dedicada em janeiro de 2026, quando a fabricante nomeou Leandro Marc Pienaar como diretor de Desenvolvimento de Negócios para a África Austral, com a promoção do KC-390 e do A-29 Super Tucano entre suas atribuições. Pienaar, formado em engenharia mecânica pela Universidade de Pretória, veio da Milkor (Pty) Ltd, onde negociou contratos de defesa em todo o continente.

A publicação sul-africana DefenceWeb confirmou, em reportagem de 26 de junho de 2026, que a Embraer vê o KC-390 como a aeronave preferencial para substituir a envelhecida frota de C-130BZ Hercules da Força Aérea Sul-Africana (SAAF). Segundo Marcio Monteiro, diretor de Marketing da Embraer Defesa & Segurança, a força aérea sul-africana gastou 2,3 bilhões de rands entre os exercícios fiscais de 2021/22 e 2025/26 apenas com fretamento de aeronaves para sustentar missões de paz na República Democrática do Congo e em Moçambique, recurso que poderia ter sido direcionado à compra de aviões novos.

Um fator estratégico adicional reforça o interesse: Brasil e África do Sul operam o caça sueco Gripen (a FAB com as versões E/F, a SAAF com C/D), e o KC-390 já foi certificado, em testes conduzidos com a Saab e a Força Aérea Brasileira, para reabastecer Gripens em voo. A África do Sul perdeu sua capacidade de reabastecimento aéreo com a aposentadoria dos Boeing 707 usados como tanque. 

Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa (D) observa o interior de uma aeronave de transporte Embraer C-390 Millennium durante sua visita à Africa Aerospace and Defence (AAD) 2024 Trade and Exhibition na Base Aérea de Waterkloof, em Pretória, em 18 de setembro de 2024. (Foto de Phill Magakoe / AFP)

Aviação comercial: os E2 em um mercado já consolidado 
Se no KC-390 a Embraer ainda negocia uma venda, na família E2 ela já colhe resultados. A Airlink, maior operadora de aeronaves Embraer da África desde 2001 e dona de uma frota de 70 aparelhos da fabricante, fechou em agosto de 2025 um contrato de leasing com a Azorra para dez unidades do E195-E2. As três primeiras aeronaves foram entregues entre setembro e outubro de 2025 e entraram em operação comercial em dezembro daquele ano, com voo inaugural entre Joanesburgo e Durban; as demais devem chegar até 2027.

O mercado sul-africano foi formalmente aberto à nova geração de jatos em 3 de setembro de 2025, quando a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) concedeu a certificação de aceitação de tipo ao E190-E2 e ao E195-E2. Segundo Stephan Hannemann, vice-presidente sênior da Embraer para África e Oriente Médio, a certificação abriu novas oportunidades para as aeronaves no continente.

É nesse contexto que a menção de Vieira a negociações envolvendo os E2 ganha outro significado. Como o negócio com a Airlink já está em curso, a referência do chanceler sugere uma agenda comercial mais ampla do que essa operação isolada, possivelmente incluindo outras companhias aéreas sul-africanas ou aprofundamento da cooperação industrial em torno da família E2, e não apenas a confirmação de um contrato que já foi assinado.

Energia: a Petrobras de volta ao setor exploratório sul-africano 
O terceiro eixo citado por Vieira é a retomada das operações da Petrobras na África do Sul. A estatal brasileira participa do bloco Deep Western Orange Basin (DWOB), na costa sul-africana, operado pela TotalEnergies, dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento da companhia no continente africano desde fevereiro de 2024. A mesma estratégia já rendeu à Petrobras participação em blocos na Namíbia (o 2613, também com a TotalEnergies) e em São Tomé e Príncipe, onde a estatal brasileira é operadora, com 75% do Bloco 3.

A ata da Comissão Mista também registra que os dois países discutem a finalização de um acordo de cooperação nuclear, que permitiria o comércio na área nuclear entre Brasil e África do Sul, além de intercâmbios técnicos sobre transmissão elétrica, energias renováveis e minerais críticos.

Uma agenda industrial em formação 
Reunidos em um único parágrafo da fala oficial do chanceler brasileiro, os três temas (defesa, aviação comercial e energia) desenham algo que ultrapassa o comércio bilateral tradicional entre Brasil e África do Sul, historicamente descrito nas atas da Comissão Mista sobretudo pelos números de exportação de minérios, produtos químicos e alimentos. A ata de 2026 também documenta outros sinais dessa aproximação industrial: a cooperação entre a Denel e a Embraer, apontada como base para participação da indústria sul-africana no programa KC-390; a chegada da missão empresarial sul-africana ao Brasil em agosto de 2026, com empresas dos setores aeroespacial, de defesa e de mineração; e as tratativas para um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos entre os dois países, que ambos os lados pretendem concluir até o fim de 2026.

Ainda não há confirmação de uma decisão de compra do KC-390 pela SAAF, nem detalhamento oficial de quais negociações específicas em torno dos E2 Vieira tinha em mente ao discursar em Pretória. O que a ata deixa mais claro é a intenção política de tratar aeroespacial e energia como setores estratégicos comuns entre os dois países, ao lado de temas já consolidados como agronegócio e mineração.

19 agosto, 2026

Depois da Suécia, Embraer mira Finlândia e Dinamarca com o KC-390 no Ártico

Presença na DALO Industry Days ocorre um ano após a compra sueca e com a Finlândia em negociação avançada pelo cargueiro 


*LRCA Defense Consulting - 19/08/2026

A Embraer confirmou presença na DALO Industry Days, maior feira da indústria de defesa da Escandinávia, que ocorre nos dias 19 e 20 de agosto em Herning, na Dinamarca. No estande da companhia brasileira, o destaque é o KC-390 Millennium, aeronave de transporte militar e reabastecimento em voo apresentada pela empresa como referência no setor, com histórico de operação junto à OTAN e a forças aéreas de diferentes continentes.

O evento reúne autoridades de defesa dos países nórdicos e ocorre num momento em que o KC-390 já deixou de ser uma novidade distante para a região. A Dinamarca acompanha de perto os desdobramentos do programa desde 2025, quando sua embaixadora em Brasília, Eva Bisgaard Pedersen, visitou ao lado das representações da Suécia, da Finlândia e da Noruega a linha de montagem final da aeronave, em Gavião Peixoto (SP).

A compra sueca como referência 

O caso mais avançado entre os países escandinavos é o da Suécia. Em outubro de 2025, o governo sueco formalizou a compra de quatro unidades do C-390 Millennium, com opção de compra para mais sete aeronaves, dentro de um programa conjunto de aquisição junto com a Holanda e a Áustria. O objetivo é substituir a antiga frota de C-130 Hercules, localmente designada Tp 84, e ganhar interoperabilidade com parceiros europeus dentro da OTAN.

O acordo sueco prevê ainda a criação de centros de manutenção compartilhados entre as tripulações da Suécia, da Holanda e da Áustria, o que tende a consolidar um polo de sustentação logística da aeronave no norte da Europa e facilitar a análise, por parte de vizinhos como a Dinamarca, dos custos e do desempenho do programa.

Dinamarca acompanha sem urgência imediata 
Diferentemente da Suécia, a Dinamarca não enfrenta hoje uma necessidade urgente de substituição de frota. O transporte tático dinamarquês é feito por aeronaves C-130J-30 Super Hercules, versão relativamente moderna do cargueiro da Lockheed Martin, que segue recebendo atualizações de meia-vida para manter a interoperabilidade com aliados da OTAN em missões internacionais.

Ainda assim, a participação dinamarquesa nas tratativas informais com a Embraer, somada à visita da embaixadora Eva Bisgaard Pedersen à fábrica de Gavião Peixoto em 2025, indica que Copenhague monitora o avanço do programa entre seus vizinhos e mantém a opção do KC-390 no radar, ainda que sem prazo definido para uma eventual decisão de compra.

Finlândia é o caso mais próximo de uma decisão 

Entre os países nórdicos, a Finlândia é a que reúne os sinais mais concretos de avanço. A Embraer lista o país entre aqueles com negociação em curso pelo C-390, ao lado de Polônia, Turquia, Marrocos e Índia. A necessidade finlandesa decorre da limitação de sua atual aeronave de transporte, o C295, da Airbus, de categoria inferior ao cargueiro brasileiro e com poucas horas de voo anuais disponíveis para atender à demanda por transporte de material militar.

A entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN, formalizada nos últimos anos, reforçou esse cenário. A Finlândia mantém a maior fronteira terrestre da aliança com a Rússia, fator que amplia a pressão por uma capacidade de transporte tático mais robusta e por maior interoperabilidade com parceiros regionais que já operam ou adquiriram o KC-390. 

O reforço simbólico do vídeo ártico
A presença na DALO Industry Days coincide com a divulgação, pela Embraer, de um vídeo institucional sobre a operação do KC-390 Millennium além do Círculo Polar Ártico, destacando desempenho de jato, sistemas de navegação avançados, capacidade de pouso em pistas contaminadas por gelo e resposta rápida em solo.

O material não é inédito. Ele reaproveita a campanha de testes em clima extremo realizada em março de 2026 no Vidsel Test Range, no norte da Suécia, próximo ao Círculo Polar. À época, o presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, já classificava o KC-390 como uma opção adequada para missões no Norte da Europa e no Ártico, argumento repetido, quase nos mesmos termos, na legenda publicada agora.

A reedição do material tem endereço comercial definido. Fala à Suécia, cliente confirmado e sede dos testes que embasam a mensagem; fala à Finlândia, cujo interesse pelo C-390 se apoia justamente na necessidade de uma aeronave mais robusta para o inverno nórdico e para a fronteira com a Rússia; e fala à Dinamarca, que acompanha o programa sem pressa, mas absorve a narrativa de uma aeronave já testada e aprovada para o ambiente ártico no momento em que a Embraer está fisicamente presente em Herning.


Um padrão de adesão regional 
A trajetória do programa na Escandinávia segue um padrão de contágio regional: a decisão de um país eleva o interesse dos vizinhos pela interoperabilidade resultante. Foi o que ocorreu com a Suécia após a guerra na Ucrânia e a adesão à OTAN, e é o que hoje aproxima Finlândia e Dinamarca do programa, ainda que em estágios distintos de maturidade.

Nesse contexto, a presença da Embraer na DALO Industry Days funciona menos como uma investida comercial direta sobre a Dinamarca e mais como manutenção de visibilidade num mercado em que a companhia já tem um cliente confirmado, a Suécia, e um interessado em estágio avançado, a Finlândia, como vitrines para os demais países nórdicos.

14 agosto, 2026

Sucesso na OTAN aproxima o KC-390 de um lugar na frota de reabastecimento da USAF

Millennium acumula encomendas na Europa e ganha força como candidato ao futuro programa de reabastecimento da Força Aérea dos Estados Unidos



*LRCA Defense Consulting - 14/08/2026

Uma reportagem publicada em 13 de agosto de 2026 pelo portal norte-americano Simple Flying, assinada pelo jornalista Luke Diaz, colocou em discussão um paradoxo que acompanha o KC-390 Millennium, da Embraer, há alguns anos: enquanto o cargueiro tático brasileiro acumula encomendas e opções em pelo menos cinco forças aéreas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) segue sem sinalizar uma compra do avião, mesmo em meio a uma crise conhecida em sua frota de aviões-tanque.

Cinco países da OTAN já apostaram no Millennium 
O KC-390 Millennium já foi escolhido por Áustria (04), Países Baixos (05), Chéquia (02), Hungria (02), Suécia (04), Eslováquia (carta de intenção para 03) e Lituânia (processo adiado), além de Portugal (06 e mais 10 opções), primeiro operador europeu e maior parceiro internacional do programa. A esses nomes somam-se ainda, fora da OTAN, os Emirados Árabes Unidos, que assinaram contrato em maio de 2026 para até vinte aeronaves, marcando a estreia do modelo no Oriente Médio, a Coreia do Sul (02) na Ásia, a Colômbia (02) na América latina e o Uzbequistão (02) na Ásia Central. Ao todo, 11 países - sendo cinco da OTAN - já operam, encomendaram ou selecionaram o KC-390, que compete diretamente com o Lockheed Martin C-130 Hercules em uma disputa por substituir frotas envelhecidas de transporte tático em toda a Aliança.

O interesse da USAF e a doutrina de emprego ágil 
De acordo com a reportagem, a USAF vive um momento de reorganização de suas forças sob a doutrina de Emprego de Combate Ágil (Agile Combat Employment, ou ACE), que prevê a dispersão de caças em pequenas pistas remotas e semipreparadas no Pacífico como forma de reduzir a vulnerabilidade a ataques concentrados. Nesse cenário, o Simple Flying aponta o Chengdu J-20, caça furtivo chinês otimizado para patrulhas de longo alcance contra alvos de alto valor como aviões-tanque, como uma das principais ameaças que a Aeronáutica norte-americana busca mitigar. Um avião-tanque de menor porte e perfil mais flexível, como o Millennium, poderia reforçar a sobrevivência da frota logística da USAF, inclusive no apoio a futuras aeronaves de combate colaborativas, os drones que a Força Aérea pretende produzir aos milhares para operar ao lado dos caças F-35 e F-47.

Capacidade menor do que o 
KC-46 e o KC-135, mas superior ao C-130J 
Em termos de volume de combustível transportado, o KC-390 carrega cerca de 31.751 kg, valor inferior aos 96.162 kg do Boeing KC-46 Pegasus e aos 90.718 kg do veterano KC-135 Stratotanker. Ainda assim, a reportagem original destaca que o Millennium supera a variante KC-130J do Hercules (27.670 kg), usada há anos pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e compatível com diversas plataformas de aliados, o que explica parte do apelo do avião brasileiro entre operadores europeus que modernizam suas frotas de reabastecimento.

Programa de próxima geração perde força no orçamento 
O interesse limitado da USAF pelo KC-390 ocorre justamente quando o programa concebido para substituir os antigos KC-135, o NGAS (Next Generation Air Refueling System), perde espaço orçamentário. Levantamentos independentes mostram que o financiamento do NGAS foi zerado na proposta orçamentária de 2027, com a verba redirecionada para uma nova linha chamada Advanced Tanker Systems, voltada a sistemas de missão em vez do desenvolvimento de uma nova aeronave. No ano anterior, o programa havia recebido cerca de 13 milhões de dólares, valor considerado modesto diante da concorrência por recursos com outros programas prioritários da Força Aérea, como o caça F-47, o bombardeiro furtivo B-21 Raider e o míssil intercontinental Sentinel.

A crise por trás da hesitação: o KC-46 ainda não resolveu seus problemas 
Parte da explicação para a cautela da USAF em relação a qualquer novo avião-tanque, incluindo o KC-390, está nos problemas crônicos do KC-46 Pegasus, da Boeing. O general John Lamontagne, vice-chefe do Estado-Maior da Força Aérea, afirmou ao Senado dos Estados Unidos que a Aeronáutica não assinará contrato para 75 KC-46 adicionais até que a fabricante resolva deficiências consideradas de categoria 1, a mais grave classificação usada pelo Pentágono. Entre as falhas seguem pendentes o sistema de visão remota usado pelos operadores de boom e o atuador telescópico da lança de reabastecimento, que já impediu o KC-46 de reabastecer aeronaves como o A-10 Thunderbolt II. O Congresso chegou a limitar a aquisição de KC-46A a 183 unidades e bloqueou a desativação de KC-135 adicionais até que o plano de correções esteja plenamente definido. 


Embraer aposta em produção nos Estados Unidos 
Diante desse cenário, a Embraer intensificou a ofensiva comercial pelo mercado americano. A empresa já sinalizou disposição para investir mais de 500 milhões de dólares em uma linha de montagem dedicada ao KC-390 em território americano, caso receba uma encomenda de porte suficiente da USAF, atendendo às exigências do Buy American Act. A companhia argumenta que mais da metade do conteúdo material de cada aeronave já é fornecida por 59 fornecedores americanos, o que facilitaria a transição para produção local. No segundo trimestre de 2026, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, confirmou estar avaliando os Estados Unidos como uma terceira linha de montagem do C-390, ao lado da unidade em Gavião Peixoto, no País, e de uma segunda linha em estudo na Índia.

De L3Harris a Northrop Grumman: o histórico acompanhado pela LRCA 
A LRCA Defense Consulting acompanha a movimentação mais intensa da Embraer junto à USAF desde 2022, quando a fabricante brasileira firmou parceria com a L3Harris para desenvolver o chamado Agile Tanker, uma versão do Millennium equipada com lança de reabastecimento rígida (flying boom) e sistemas de missão voltados às exigências da USAF. A parceria, no entanto, foi descontinuada em 2024. 
 
Em fevereiro de 2026, a Embraer anunciou novo memorando de entendimento, desta vez com a Northrop Grumman, para desenvolver um boom autônomo para o KC-390, além de sistemas de sobrevivência e comunicação. O objetivo declarado da Embraer é posicionar o Millennium como o elemento intermediário de uma futura "família de sistemas" de reabastecimento da USAF, ao lado de uma aeronave de maior porte e de um tanque não tripulado de menor custo.

O principal obstáculo técnico do KC-390 na configuração atual, segundo o Simple Flying, continua sendo a ausência de uma lança de reabastecimento fixa de série, item que o projeto com a Northrop Grumman busca suprir. Enquanto isso, o crescente número de operadores europeus e do Oriente Médio segue reforçando o argumento comercial da Embraer, mesmo sem sinal concreto de que a USAF vá, de fato, avaliar formalmente o Millennium para o NGAS.

04 agosto, 2026

Colômbia assina contrato para dois KC-390 Millennium e amplia parceria de mais de 35 anos com a Embraer

Acordo estimado em US$ 366,4 milhões inclui equipamentos de missão, pacote de suporte e programa de offset; entregas estão previstas para 2029 e 2030

 

*LRCA Defense Consulting - 04/08/2026

A Fuerza Aeroespacial Colombiana (FAC) assinou contrato com a Embraer para a aquisição de duas aeronaves KC-390 Millennium, cargueiro multimissão fabricado no Brasil. O anúncio foi confirmado pela fabricante, que classificou o acordo como um marco na modernização das capacidades de transporte aéreo e reabastecimento em voo da força colombiana. A negociação já vinha sendo acompanhada desde março, quando o presidente Gustavo Petro determinou a aceleração das tratativas para substituir parte da envelhecida frota de C-130H Hercules.

Segundo a Embraer, o contrato contempla, além das duas aeronaves, equipamento de missão, um pacote integrado de serviços e suporte, e um programa de offset estruturado para atender às exigências regulatórias colombianas. A FAC poderá empregar o KC-390 Millennium em ações de assistência humanitária, resposta a desastres, transporte de carga e tropas, lançamentos aéreos e reabastecimento em voo. As aeronaves terão conectividade plena para operar de forma integrada com os caças Gripen, adquiridos recentemente pela Colômbia junto à sueca Saab, ampliando a interoperabilidade da força aérea colombiana.


Valores e cronograma
Reportagens do setor de defesa da região, como as publicadas por Infodefensa, Cronista e Aviacionline, estimam o valor total do contrato em US$ 366.430.371, o que equivale a mais de US$ 159 milhões por aeronave. O esquema de pagamento previsto contempla uma parcela antecipada de US$ 182.872.498, com desembolsos distribuídos entre 2027 e 2030. Há, no entanto, divergência entre fontes quanto à distribuição exata das parcelas anuais: Infodefensa indica repasses de US$ 94.337.349 em 2027 e US$ 88.535.149 em 2028, enquanto a Aviacionline descreve pagamentos de US$ 94 milhões em 2027, US$ 88 milhões em 2028, cerca de US$ 93 milhões em 2029 (incluindo a entrega da primeira aeronave) e US$ 90 milhões em 2030.

As duas aeronaves serão fabricadas na planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, e voarão diretamente até a base aérea El Dorado, em Bogotá, onde passarão a integrar o Comando Aéreo de Transporte Militar (CATAM) da FAC. A primeira unidade deve ser entregue até 30 de outubro de 2029; a segunda, até 30 de novembro de 2030. O contrato também prevê sistema de reabastecimento em voo em configuração probe and drogue, com boom e pods REVO equipados com câmeras e sensores eletro-ópticos.

Uma parceria de mais de três décadas
Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a companhia está honrada com a escolha da FAC e destacou que a decisão reforça uma parceria que remonta a mais de 35 anos, iniciada com a aquisição do turboélice EMB-312 Tucano pela força aérea colombiana e seguida pela compra do A-29 Super Tucano. Segundo o executivo, o KC-390 deve ampliar de forma significativa as capacidades colombianas de transporte aéreo e reabastecimento em voo, elevando o padrão operacional da força.

Capacidades da aeronave
Projetado e desenvolvido no século XXI, o KC-390 Millennium é apresentado pela Embraer como a aeronave de transporte militar mais moderna de sua categoria. Tem capacidade de carga de 26 toneladas, superior à de outros cargueiros militares de porte médio, e velocidade de cruzeiro de 470 nós (cerca de 870 km/h), o que lhe garante maior alcance e menor tempo de voo em comparação a concorrentes turboélice, como o C-130J. A aeronave pode operar a partir de pistas curtas, não pavimentadas ou semipreparadas, e cumprir missões de transporte de carga e tropas, lançamento aéreo de equipamentos e pessoal, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios florestais e ajuda humanitária. Quando configurada com o kit de reabastecimento em voo (AAR) de instalação rápida, a aeronave pode operar tanto como reabastecedora quanto como receptora.

Alcance internacional
Além da Força Aérea Brasileira, o KC-390 Millennium já havia sido selecionado pelas forças aéreas de Portugal, Hungria, Coreia do Sul, Holanda, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia. Com a assinatura do contrato, a Colômbia se torna o 13º país a selecionar a aeronave e a primeira nação latino-americana, além do Brasil, a adquirir o modelo.

Substituição da frota e alternativas avaliadas
O KC-390 vai substituir parte da frota de C-130H Hercules da FAC, composta por aeronaves com décadas de uso e crescentes restrições de disponibilidade. Durante o processo de seleção, a força aérea colombiana chegou a avaliar, ao lado do modelo brasileiro, o Lockheed Martin C-130J Super Hercules e o Airbus A400M Atlas, sob critérios técnicos e operacionais, entre eles a capacidade de operar em pistas curtas e não preparadas, relevante para regiões como a Amazônia, a Orinóquia e o litoral do Pacífico colombiano.

A decisão presidencial de acelerar a compra, formalizada por Petro em 30 de março de 2026, gerou debate interno na FAC, já que o KC-390 incorpora sistemas de autoproteção e contramedidas eletrônicas desenvolvidos pela indústria israelense, país sobre o qual o próprio Petro havia determinado anteriormente restrições à aquisição de armamentos e equipamentos militares.

Contrato assinado em meio a transição política tensa
A assinatura ocorre nos últimos dias do mandato de Gustavo Petro, que deixa a Presidência da Colômbia em meio a um processo de transição marcado por forte tensão política. O presidente eleito, Abelardo de la Espriella, chegou a suspender as reuniões de transição com o governo colombiano após acusações mútuas envolvendo o resultado eleitoral, e a posse está marcada para o dia 7 de agosto. O contexto adiciona uma camada de escrutínio sobre contratos de defesa firmados nesta fase final de governo, embora não haja, até o momento, indicação de que o acordo com a Embraer esteja sob contestação formal por parte da futura gestão.

O ministro da Defesa colombiano, Pedro Sánchez Suárez, afirmou anteriormente que o país reservou orçamento para adquirir até 14 aeronaves de transporte tático pesado e 33 helicópteros, sinalizando que a compra dos dois KC-390 Millennium pode ser o primeiro passo de um programa mais amplo de modernização da força aérea colombiana.

31 julho, 2026

Documentos revelam termos da compra dos dois KC-390 da Colômbia, em meio a crise na transição de governo

Proposta financeira da Embraer supera US$ 366 milhões, com entregas previstas até 2030, enquanto o Ministério da Defesa colombiano alerta para a necessidade de fechar o negócio antes da posse do novo governo

 
*LRCA Defense Consulting - 31/07/2026 (atualizado em 01/08)

A rádio colombiana Caracol Radio divulgou nesta sexta-feira, 31 de julho de 2026, documentos que comprovam que a Força Aeroespacial Colombiana (FAC) avança na compra de duas aeronaves KC-390 Millennium, fabricadas pela Embraer. Segundo a reportagem, assinada pelo jornalista José David Rodríguez, a proposta financeira apresentada pela Embraer SA totaliza US$ 366.430.371 e inclui as aeronaves, treinamento, suporte logístico, equipamentos especializados e demais recursos necessários para sua operação. Na documentação, o modelo é identificado como "KC-390, aeronave básica", enquanto a finalidade do processo é descrita como a aquisição de aeronaves de transporte tático militar pesado, treinamento, equipamentos associados e suporte logístico.
A reportagem da Caracol Radio confirma e detalha uma informação já antecipada em 14 de julho pelo portal espanhol Infodefensa, segundo o qual o presidente Gustavo Petro teria determinado o encerramento do processo de aquisição das duas aeronaves. Àquela altura, a FAC ainda comparava o KC-390 com o C-130J Super Hercules, da Lockheed Martin, e o A400M Atlas, da Airbus. Antes disso, em 30 de março de 2026, o próprio Infodefensa já havia noticiado uma primeira ordem presidencial para iniciar o processo de compra, atribuída ao interesse de Petro em reforçar uma aliança de defesa aérea com o Brasil, a partir de conversas e compromissos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Confirmação no SECOP II
A existência do processo foi confirmada de forma independente na consulta pública do SECOP II (Sistema Electrónico para la Contratación Pública), a plataforma oficial de contratos do Estado colombiano. O registro identifica a FAC como entidade contratante e apresenta o seguinte resumo do processo:

País

Colômbia

Entidade estatal

Força Aeroespacial Colombiana (FAC)

Referência do processo

232-00-A-COFAC-CODAF-2026

Descrição

Aquisição de aeronaves de transporte tático militar pesado

Fase atual (na consulta)

Apresentação da oferta

Data de publicação

29 de julho de 2026, 21h (UTC-5)

Prazo para apresentação de propostas

31 de julho de 2026, 8h (UTC-5)

Quantia

COP 1.566.000.000.000

A quantia registrada no SECOP II, de COP 1.566.000.000.000, corresponde a aproximadamente US$ 366 milhões pela taxa de câmbio do período, valor que coincide com os US$ 366.430.371 informados pela Caracol Radio com base na proposta financeira da Embraer, o que confirma de forma independente os números revelados pela emissora. Chama a atenção também a janela de tempo do processo: a oferta foi publicada em 29 de julho às 21h e o prazo para apresentação de propostas se encerrou em 31 de julho às 8h, um intervalo de menos de 36 horas, o que reforça o caráter apressado da tramitação nas últimas semanas do governo Petro.

Valores e cronograma de entrega
De acordo com os documentos obtidos pela Caracol Radio, cada aeronave está avaliada em mais de US$ 159 milhões, totalizando US$ 319.915.860 pelas duas unidades. Os US$ 46,5 milhões restantes da proposta cobrem equipamentos adicionais, treinamento, suporte logístico e outros elementos necessários à operação. Os documentos estipulam ainda um pagamento adiantado de US$ 182.872.498, a ser desembolsado entre 2027 e 2028, conforme o cronograma financeiro do contrato, com os pagamentos restantes condicionados à fabricação e entrega das aeronaves e de seus equipamentos associados. Os preços foram descritos como fixos e imutáveis durante toda a execução do contrato.
Segundo o cronograma obtido pela emissora, a primeira aeronave deverá ser entregue antes de 30 de outubro de 2029, e a segunda, antes de 30 de novembro de 2030. O contrato prevê ainda o treinamento inicial de pilotos e pessoal técnico da FAC, suporte logístico por 24 meses, equipamentos de apoio em solo e o transporte da primeira aeronave das instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no Brasil, até a Base Aérea de CATAM, em Bogotá.
Reabastecimento em voo e uso humanitário
Um dos pontos centrais da oferta é que a primeira aeronave será configurada para realizar reabastecimento em voo, por meio da instalação de sistemas sob as asas, um tanque auxiliar, câmeras e outros equipamentos que permitirão o fornecimento de combustível a outras aeronaves durante operações, entre elas os caças Gripen E/F que a Colômbia também adquiriu da sueca Saab. A mesma unidade incorporará um pacote de sistemas de contramedidas para aumentar sua proteção. As duas aeronaves serão equipadas com comunicações via satélite, rádios militares seguros e sistemas de navegação avançados.
O KC-390 também poderá ser empregado em missões humanitárias e de evacuação aeromédica. A oferta inclui 74 macas, com sistema de empilhamento, o que permitirá adaptar a aeronave para o transporte simultâneo de dezenas de pacientes em emergências ou desastres, uma capacidade relevante para um País marcado pela Cordilheira dos Andes, por extensas áreas amazônicas e por regiões com infraestrutura aeroportuária limitada.
O impasse dos sistemas israelenses
A negociação segue esbarrando em uma questão política sensível para o governo Petro. Segundo o Infodefensa, determinadas configurações do KC-390 incorporam sistemas desenvolvidos pela indústria israelense, entre eles o sistema de missão da aeronave, criado pela Elbit Systems por meio de sua subsidiária brasileira AEL Sistemas, responsável por elementos críticos da cabine, incluindo os sistemas de visualização e o Head-Up Display (HUD). A configuração também pode integrar suítes de autoproteção e guerra eletrônica de origem israelense, entre elas sistemas Dircm (Directional Infrared Countermeasures), dispensadores de contramedidas (CMDS) e pods de guerra eletrônica ativa (AECM), o que colide com restrições que o próprio Petro impôs à aquisição de equipamentos de origem israelense.
Uma compra fechada às pressas na transição de governo
O avanço do negócio ocorre em um momento politicamente delicado. A Colômbia atravessa o processo de empalme (transição institucional) entre o governo de Gustavo Petro e o do presidente eleito, Abelardo De la Espriella, ainda não empossado. O comitê de transição designado pelo mandatário eleito suspendeu sua participação no processo em 7 de julho de 2026, após atritos com a equipe de Petro, o que levou vários ministérios, entre eles o da Defesa, a manter as reuniões previstas e a deixar prontos os relatórios de gestão diante de cadeiras vazias reservadas aos delegados do novo governo.
Segundo relatos reproduzidos em fóruns especializados em defesa colombianos, um informe de empalme do Ministério da Defesa, sob o comando do ministro Pedro Sánchez, alertaria para a necessidade de concluir o processo de compra dos KC-390 ainda durante a atual gestão, o que tem gerado debate sobre a conveniência de fechar um contrato dessa magnitude sem mecanismo de financiamento plenamente assegurado antes da posse do governo entrante. Não há, até o momento, confirmação oficial de assinatura do contrato.
Peça de um rearmamento mais amplo
A eventual chegada do KC-390 se soma a uma renovação mais ampla da aviação militar colombiana, que também inclui a aquisição de 17 caças Gripen E/F, da Saab, em substituição aos veteranos Kfir, de origem israelense. Caso o contrato seja formalizado, a Colômbia se tornará mais um operador do C-390 Millennium, que já opera ou foi selecionado por Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Coreia do Sul, Suécia, Eslováquia, Emirados Árabes Unidos, Lituânia e Uzbequistão, além do Brasil. 
O mesmo movimento de renovação de frotas de transporte tático alcança outros países da região, caso do Chile, cujo presidente José Antonio Kast já sinalizou publicamente interesse pela aeronave, e de Marrocos, cuja negociação avançada prevê a compra de cinco unidades em um contrato estimado em mais de US$ 600 milhões.

26 julho, 2026

KC-390 sobrevoa Belgrado em nova etapa da disputa por transportes militares na Sérvia

Demonstração do protótipo PT-ZNG na base aérea de Batajnica reforça avanço da Embraer sobre um mercado europeu historicamente dominado pelo C-130 Hercules
 
 
*LRCA Defense Consulting - 26/07/2026

Um Embraer KC-390 Millennium realizou, entre os dias 23 e 24 de julho de 2026, um voo de demonstração para a Força Aérea Sérvia (RViPVO), em Belgrado. A aeronave é o protótipo PT-ZNG (número de série 39000003), o terceiro exemplar construído do programa e usado pela Embraer como avião de demonstração em campanhas comerciais ao redor do mundo. Foi a primeira vez que o modelo visitou o país.
O avião chegou vindo diretamente do Farnborough International Airshow, na Inglaterra, onde havia sido exposto, com escala técnica em Budapeste. Pousou primeiro no Aeroporto Internacional Nikola Tesla, em Belgrado, e depois seguiu para a Base Aérea Coronel-piloto Milenko Pavlović, em Batajnica, sede da aviação militar sérvia.
Segundo relatos de entusiastas de aviação que acompanharam o pouso, a demonstração incluiu uma decolagem inicial rumo ao norte, com voltas sobre as cidades de Zrenjanin e sobre a região de Vojvodina, seguida de uma arremetida sobre Batajnica. A aeronave entrou então em um padrão de espera sobre Pančevo e, na sequência, realizou uma passagem baixa em alta velocidade sobre a base antes do pouso final. O vento soprava a 16 nós durante a manobra; tanto a arremetida quanto a passagem baixa foram feitas com vento de cauda direto.
Uma oferta ao Ministério da Defesa
A visita não é um evento isolado. Em fevereiro de 2026, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Sérvia, general Milan Mojsilović, confirmou, em entrevista ao jornal Politika, que o país avalia propostas para reequipar sua frota com novos caças multimissão, aviões de treinamento inicial e aeronaves de transporte. A demonstração do KC-390 em Batajnica é lida pela imprensa especializada sérvia como um movimento comercial direto da Embraer junto ao Ministério da Defesa e ao Comando da Força Aérea, na tentativa de se posicionar como candidata a essa futura aquisição.
Atualmente, o componente de transporte da RViPVO é formado por dois C295W da Airbus, adquiridos em 2023 por 81 milhões de euros (66 milhões pelas aeronaves e 15 milhões em equipamentos, treinamento e suporte logístico), além de um único An-26 de origem soviética ainda em condições operacionais. A frota é considerada pequena diante das ambições de modernização da força aérea sérvia, que também está incorporando 12 caças Rafale franceses.
Justamente a chegada dos Rafale dá relevância à variante tanque do C-390: pela primeira vez, a Sérvia terá caças com capacidade de reabastecimento em voo, e o KC-390 pode ser oferecido não apenas como transportador de tropas e cargas, mas também como plataforma de reabastecimento aéreo, reduzindo a dependência de aeronaves-cisterna dedicadas. O avião vem de fábrica equipado com dois sistemas de mangueira e cesto sob as asas, capazes de transferir até 1.500 litros de combustível por minuto, além de poder receber combustível de outro petroleiro por meio de sonda.

Vídeo com o KC-390 inicia aos 1:29 
Concorrência em várias frentes
O KC-390 não é o único avião estrangeiro apresentado recentemente em Batajnica. Em julho de 2025, a Embraer já havia levado ao mesmo aeródromo seu Super Tucano, de treinamento avançado e ataque leve; em fevereiro de 2026, foi a vez do concorrente americano Beechcraft AT-6B Wolverine, da Textron. Em março de 2026, a fabricante tcheca Aero Vodochody apresentou seu L-39NG, comercializado sob o nome Skyfox. No segmento de transporte pesado, a europeia Airbus já havia levado seu A400M à Conferência SEAS 2024, em Belgrado, destacando a capacidade de transportar viaturas blindadas Lazar 3 e BOV M-16 Miloš, além de helicópteros H145M, com autonomia suficiente para operar diretamente a partir da capital sérvia.
Paralelamente à visita do avião brasileiro, o primeiro-ministro tcheco, Andrej Babiš, esteve em Belgrado praticamente ao mesmo tempo, promovendo a venda do L-39NG e do transporte leve L-410, com condições de financiamento apresentadas como vantajosas. O Ministério da Defesa sérvio já solicitou a todos os fabricantes envolvidos, além dos parâmetros técnicos, as respectivas condições de crédito, passo que a imprensa local interpreta como indicativo de que o processo de decisão está em fase avançada.
Um programa em expansão}
O C/KC-390 Millennium nasceu de estudos da Embraer entre 2005 e 2007 e ganhou impulso em 2009, com um contrato de US$ 1,5 bilhão firmado com a Força Aérea Brasileira para a construção de dois protótipos. O primeiro exemplar voou em 3 de fevereiro de 2015, e a entrega em série ao Brasil começou em setembro de 2019. Portugal foi o primeiro cliente de exportação, com pedido de cinco aeronaves em 2019, depois ampliado; seguiram-se Hungria, República Tcheca, Áustria, Países Baixos, Coreia do Sul, Suécia e, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, com contrato para dez aeronaves e opção para mais dez. O cliente mais recente é a Grécia, cuja comissão parlamentar aprovou em junho de 2026 a compra de três unidades adicionais, via opções do contrato português, em negócio avaliado em cerca de 600 milhões de euros.
O preço unitário do KC-390 subiu de forma significativa ao longo dos anos: de uma estimativa inicial de US$ 50 milhões a US$ 55 milhões em 2016, para cerca de US$ 85 milhões no pedido húngaro de 2020, e para uma faixa entre 130 milhões e 150 milhões de euros no contrato conjunto de Áustria e Países Baixos, fechado em 2024. No acordo grego mais recente, o valor por unidade superou os 150 milhões de euros.
Por ora, não há confirmação de que a Sérvia tenha aberto um processo formal de aquisição de um novo avião de transporte pesado, nem prazo estabelecido para uma decisão. A demonstração em Batajnica indica, no entanto, que a Embraer já colocou o KC-390 na mesa de discussões do Ministério da Defesa sérvio, ao lado de outras plataformas ocidentais que disputam o mesmo espaço.

22 julho, 2026

Embraer confirma parceria com a Northrop Grumman para dotar o KC-390 de boom de reabastecimento

Nota publicada nesta quarta-feira no LinkedIn reafirma acordo assinado em fevereiro para evolução do KC-390 Millennium rumo a capacidades avançadas de reabastecimento em voo, com foco na Força Aérea dos Estados Unidos e em nações aliadas  


*LRCA Defense Consulting - 22/07/2026

A Embraer publicou nesta quarta-feira, no LinkedIn, uma nota confirmando a parceria estratégica firmada com a Northrop Grumman para o desenvolvimento conjunto de capacidades de mobilidade aérea avançada aplicadas ao KC-390 Millennium, cargueiro tático multimissão fabricado pela empresa brasileira. Segundo a nota, o objetivo é evoluir a aeronave para oferecer capacidades avançadas de reabastecimento em voo aos Estados Unidos e a nações aliadas.

O que prevê o acordo
As principais características anunciadas incluem um boom de reabastecimento aéreo autônomo e avançado, comunicações aprimoradas, maior consciência situacional e novas opções de sobrevivência, além de sistemas de missão adaptáveis. De acordo com a Embraer, essas melhorias devem ampliar a gama de aeronaves atendidas pelas operações de reabastecimento do KC-390 e expandir seu escopo de missão em diferentes ambientes operacionais.

Hoje, o KC-390 realiza reabastecimento em voo pelo sistema de mangueira e cesta (probe and drogue), operado por meio de pods instalados sob as asas. A adoção de um boom, lança rígida controlada por operador, amplia a compatibilidade da aeronave com caças e outras plataformas equipadas com receptáculo, padrão amplamente utilizado pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF).

Como surgiu a parceria
O acordo entre as duas empresas foi formalizado em 19 de fevereiro de 2026, por meio de um memorando de entendimento. À época, a Embraer Defesa e Segurança e a Northrop Grumman anunciaram que uniriam expertise técnica e industrial para acelerar o desenvolvimento de um sistema de reabastecimento aéreo de nova geração, com vistas ao conceito de emprego ágil em combate (ACE, na sigla em inglês).

Tom Jones, vice-presidente corporativo e presidente da Northrop Grumman Sistemas Aeronáuticos, afirmou que a companhia realiza investimentos estratégicos para suprir uma lacuna em soluções avançadas de mobilidade aérea, sobretudo entre países aliados que buscam maior autonomia e eficiência operacional. Já Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, destacou que o KC-390 é uma plataforma operacional comprovada e de boa relação custo-benefício, com potencial de rápida incorporação à frota da Força Aérea dos EUA.

A parceria com a Northrop Grumman sucede uma tentativa anterior de aliança com a L3Harris Technologies, firmada em 2022 para o desenvolvimento de um chamado Agile Tanker baseado no KC-390, e que não avançou. Executivos da Embraer já indicaram publicamente que essa parceria anterior não segue mais em vigor para o programa de tanque tático.

 

Por que interessa aos Estados Unidos e a aliados
A colaboração se insere no programa da USAF conhecido como Next Generation Air-refueling System (NGAS), terceira etapa de um plano de recapitalização da frota de reabastecedores em voo do País, após o KC-X, que resultou no KC-46 Pegasus, e o KC-Y. A visão da Força Aérea para o NGAS combina um grande tanque de asa larga para o grosso das operações de reabastecimento com aeronaves capazes de operar e sobreviver no mesmo espaço aéreo contestado das aeronaves de combate que apoiam, sendo essa a lacuna na qual o KC-390 se posiciona como candidato tático de médio porte.

Nesse desenho de "família de sistemas", o KC-390 Multi-Mission Tanker é posicionado como opção tática e de menor custo, complementar a um tanque de maior porte e a uma futura aeronave não tripulada de reabastecimento. A Embraer já sinalizou disposição de investir recursos próprios relevantes em uma linha de produção dedicada nos Estados Unidos, atendendo a exigências de conteúdo local do tipo Buy American Act.

Repercussão e contexto recente
A parceria voltou a ser destaque em abril, quando a Embraer levou o KC-390 e a aliança com a Northrop Grumman à conferência ARSAG 2026, em Orlando, apresentando o projeto do sistema de boom centralizado na fuselagem como complemento ao sistema atual de mangueira e cesta da aeronave, com o objetivo declarado de reabastecer caças como o F-35 e outras aeronaves de asa fixa usadas por forças dos Estados Unidos e da OTAN.

O tema também voltou ao noticiário na semana passada, quando o KC-390 realizou, em 17 de julho, uma série de passagens em baixa altitude pelo Mach Loop, no País de Gales, durante campanha internacional de demonstração da aeronave no Reino Unido, episódio que reforçou a exposição da plataforma junto a operadores e especialistas europeus em meio às tratativas com os Estados Unidos.

Histórico da Northrop Grumman no setor de tanques
O retorno da Northrop Grumman ao debate sobre reabastecedores tem paralelo histórico. Em 2008, a empresa integrou consórcio com a então EADS, controladora da Airbus, e venceu inicialmente a competição KC-X da USAF com o KC-45, baseado no A330 MRTT, resultado que depois foi contestado e revertido em favor do Boeing KC-46. A nova aliança com a Embraer marca a reentrada da companhia norte-americana em uma disputa por reabastecedores, agora ao lado de uma fabricante sul-americana.

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