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23 setembro, 2026

Tulpar avança na avaliação do Exército após demonstração de tiro na Itália

Delegação chefiada pelo Vice-Chefe do EME acompanhou a mobilidade e os disparos do blindado com canhão de 120 mm, novo sinal do interesse brasileiro pela proposta turca




*LRCA Defense Consulting - 23/09/2026 (atualizado às 15h22)

O processo brasileiro de escolha da nova família de blindados sobre lagartas ganhou um dado relevante: uma delegação do Exército Brasileiro, liderada pelo Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, general de divisão Eduardo Tavares Martins, acompanhou na Itália uma demonstração de mobilidade e tiro real do Tulpar equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A presença de representantes do EME na campanha mostra que o interesse pelo veículo turco avançou além das apresentações comerciais e das visitas institucionais realizadas anteriormente.

Demonstração no campo de provas italiano 
A demonstração acompanhada pela delegação brasileira foi realizada em 23 de setembro de 2026 no UTTAT de Nettuno, organização do Ministério da Defesa da Itália dedicada à avaliação de armamentos terrestres, nas proximidades de Roma. A atividade incluiu a mobilidade do Tulpar e tiro real com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A data foi divulgada no mesmo dia pela revista Tecnologia & Defesa, juntamente com uma fotografia dos militares brasileiros diante do blindado.

A demonstração de 23 de setembro não deve ser confundida com a campanha técnica de integração e certificação concluída anteriormente pela Otokar e pela Leonardo e anunciada oficialmente em 18 de setembro. Essa campanha, também realizada no UTTAT de Nettuno, incluiu disparos com o veículo parado e em movimento e validou as interfaces mecânicas, elétricas, eletrônicas e digitais entre a plataforma e a torre. Segundo as empresas, o sistema de armas, o controle de tiro, a estabilização e a funcionalidade geral atingiram os objetivos planejados. Não foram divulgados o número de disparos, os tipos de munição empregados nem os resultados quantitativos obtidos.


A presença brasileira muda a dimensão da notícia 
Quando a conclusão da campanha técnica foi anunciada, em 18 de setembro, a Otokar e a Leonardo não informaram a presença de militares brasileiros. A demonstração promovida cinco dias depois mostra que o Exército não acompanhava o desenvolvimento apenas a distância. Uma delegação chefiada pelo Vice-Chefe do EME observou diretamente o comportamento da configuração oferecida ao País.

Isso não significa que os disparos constituíram uma avaliação oficial comparativa organizada pelo EB, nem que o veículo tenha sido homologado ou selecionado. A presença do EME, contudo, proporciona à Força dados próprios e impressões diretas sobre a mobilidade, o recuo do armamento, a estabilidade da plataforma e o funcionamento conjunto da torre com o chassi.

Uma sequência de aproximações de alto nível 
A demonstração integra uma sequência de contatos que evidencia a atenção dedicada ao Tulpar. Em 31 de outubro de 2025, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, visitou as instalações da Otokar na Türkiye. Em abril de 2026, uma delegação liderada pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Junior, conheceu as instalações da empresa e acompanhou a apresentação das versões do Tulpar destinadas às funções de carro de combate e veículo de combate de fuzileiros. Essa atividade ocorreu na Turquia e foi distinta da demonstração realizada em 23 de setembro, na Itália, com a presença do Vice-Chefe do EME.

Posteriormente, uma delegação liderada pelo chefe do Centro de Doutrina do Exército, general Diógenes de Souza Gomes, voltou a examinar a proposta durante a Eurosatory 2026. Dessa forma, o veículo já foi apresentado aos níveis de comando, planejamento estratégico, gestão de projetos e formulação doutrinária da Força Terrestre.


Os argumentos da proposta
O Tulpar participa da seleção para a Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas, ao lado do CV90, do Lynx e do ASCOD. A proposta da Otokar abrange uma configuração Medium Tank com a HITFACT MkII de 120 mm para a VBC CC e uma versão de combate de infantaria com armamento de 30 mm para a VBC Fuz.

Entre os principais argumentos favoráveis estão a arquitetura modular, a faixa de peso de aproximadamente 28 a 45 toneladas, a possibilidade de utilizar um mesmo chassi para diferentes funções e a disposição da Otokar de discutir produção local e transferência de tecnologia. A massa inferior à dos carros de combate pesados também pode favorecer a mobilidade estratégica em um País com limitações de pontes, estradas e transporte ferroviário.

Outro ponto importante é a comunalidade da HITFACT MkII com a torre adotada no Centauro II BR. Embora as configurações não sejam necessariamente idênticas, a utilização da mesma família de sistemas pode reduzir custos de capacitação, manutenção, munição e apoio logístico.

Avanço real, mas preferência ainda não confirmada 
A sucessão de visitas e a presença de uma delegação do EME nos disparos indicam que o Tulpar se encontra entre as propostas estudadas com maior profundidade. O acompanhamento de uma demonstração de tiro é um sinal mais expressivo do que a visita a um estande ou a observação de um protótipo parado, pois permite conhecer o sistema em funcionamento.

Ainda assim, não há anúncio do Exército que estabeleça uma ordem de preferência entre os quatro finalistas. Para afirmar que o Tulpar lidera a disputa, seriam necessários elementos como avaliações comparativas conduzidas pela Força, solicitação final de propostas, testes no Brasil ou abertura de negociação exclusiva. Até que isso ocorra, a conclusão mais segura é que o blindado turco avançou de forma concreta na avaliação brasileira e consolidou-se como um candidato relevante, sem que haja decisão conhecida sobre o vencedor.

05 setembro, 2026

Analista turco defende compra do C-390 para substituir C-130 na força aérea da Turquia

Artigo do centro de estudos ODAP, de Istambul, aponta o cargueiro da Embraer como caminho para renovar a frota de transporte militar turca e aprofundar a cooperação industrial com o Brasil



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026 

Um artigo publicado nesta sexta-feira (4) pelo ODAP (Centro de Estudos do Oriente Médio, Eurásia e Ásia-Pacífico), think tank sediado em Istambul, defende que o C-390 Millennium, cargueiro militar fabricado pela Embraer, é a alternativa mais adequada para substituir a envelhecida frota de C-130 Hercules operada pela Força Aérea da Turquia. O texto é assinado por Umur Tugay Yücel, cientista político e especialista em política externa, e argumenta que a troca de plataforma envolve, além do aspecto técnico, dimensões estratégicas, econômicas e geopolíticas para Ancara.

Uma frota que envelhece 

Segundo o autor, o C-130 forma há décadas a espinha dorsal do transporte aéreo militar turco, cumprindo missões que vão da ajuda humanitária a operações transfronteiriças e atividades da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No entanto, boa parte dos exemplares em serviço na Turquia foi produzida ainda nas décadas de 1960 e 1970, com base em um projeto que remonta aos anos 1950. Programas de modernização estenderam a vida útil da frota, mas, para Yücel, não bastam mais diante do envelhecimento estrutural, do aumento dos custos de manutenção e das exigências do ambiente de combate atual, como guerra eletrônica e sistemas digitais de missão.

O artigo também associa a dependência de plataformas americanas a riscos políticos, citando as restrições sofridas pela Turquia no programa do caça F-35 em razão da lei americana Caatsa (Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, ou lei de combate aos adversários dos Estados Unidos por meio de sanções).

O C-390 como resposta às novas exigências 
Yücel descreve o C-390 como um projeto concebido do zero para as necessidades operacionais do século XXI, e não apenas como herdeiro dos cargueiros tradicionais. Entre os pontos destacados estão a velocidade de cruzeiro de Mach 0,8, obtida com motores turbofan; a capacidade de carga de aproximadamente 26 toneladas, com compatibilidade total com paletes padrão da Otan; e a arquitetura de aviônica baseada em comandos de voo eletrônicos, a chamada tecnologia fly-by-wire, que reduz a carga de trabalho do piloto e amplia a segurança de voo. O texto lembra ainda a versatilidade da aeronave, empregada como cargueiro, aeronave de reabastecimento em voo, plataforma de busca e salvamento e para evacuação médica, além de sua capacidade de transportar até 84 militares.

O artigo cita a adoção do C-390 por países da Otan como Portugal, Países Baixos, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Suécia, além da Coreia do Sul e do Uzbequistão, este último membro da Organização dos Estados Turcos, como indicativo da maturidade tecnológica da aeronave e de sua compatibilidade com os padrões da aliança.

Um novo eixo de cooperação entre Turquia e Brasil 
Para o cientista político, o principal atrativo do C-390 para Ancara vai além da ficha técnica. O artigo sustenta que a compra da aeronave poderia evoluir para produção conjunta, compartilhamento de tecnologia e centros locais de manutenção, com a participação de empresas turcas como TAI, ASELSAN, HAVELSAN e TEI no ecossistema industrial do C-390. Segundo o autor, a infraestrutura aeroespacial turca oferece base suficiente para esse tipo de parceria, enquanto as políticas de controle de exportação do Brasil, mais flexíveis do que as dos Estados Unidos, tornariam a Embraer um parceiro estratégico para um país que busca autonomia em sua cadeia de suprimentos de defesa.

O texto conclui que a escolha do C-390 se somaria à política externa turca de diversificação de parceiros, reduzindo a dependência de Washington e de fornecedores europeus e projetando uma cooperação de defesa entre Turquia e Brasil em ambos os lados do Atlântico. 
 

Comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, 
em Portugal, para conhecer de perto o C-390


Negociações já em curso 

A publicação do ODAP chega em meio a negociações que já estão em andamento entre os dois países. Em abril de 2025, durante a Feira Internacional de Defesa e Segurança (LAAD), no Rio de Janeiro, a Turkish Aerospace e a Embraer assinaram um memorando de entendimento para explorar cooperação industrial, incluindo a produção de jatos comerciais E190 e E195-E2 na Turquia. Na mesma ocasião, o então ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro, afirmou à agência Reuters que a Embraer negociava a venda do C-390 também para Turquia, Polônia e Finlândia.

Mais recentemente, o comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, para conhecer de perto o C-390 que equipa a esquadra portuguesa, em um gesto interpretado pela imprensa especializada como sinal do interesse turco em suceder a frota de C-130. Segundo apurações da LRCA Defense Consulting, o Brasil segue como facilitador diplomático das negociações, que incluem, além da Turquia, países como Polônia, Grécia, Colômbia e Marrocos.

O artigo completo, em inglês, está disponível no site do ODAP.

25 agosto, 2026

Da Mertsav ao KC-390: o que um Conselho Estratégico pode destravar entre Brasil e Turquia

De metralhadoras pesadas e drones a mísseis e caças, blindados, motores turbojato e aviões de transporte, as indústrias dos dois países já convergem em pelo menos cinco frentes; um acordo governo a governo tende a transformar negociações em curso em contratos fechados



*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.

Um ponto de partida antigo 
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.

O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.

Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.

Cinco frentes já em movimento 
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa. 

Do lado dos aviões de transporte, o interesse é recíproco e crescente: o comandante da Força Aérea da Turquia visitou pessoalmente o KC-390 em operação em Portugal, em maio de 2026, num momento em que a frota turca de C-130 sofre pressão após a perda de uma aeronave, com toda a tripulação, na Geórgia, em novembro de 2025, e que a Grécia (rival e vizinha) sinaliza a compra do C-390.


Blindados
O programa "Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas", que prevê 65 carros de combate e 78 veículos de combate de infantaria, afunilou-se a quatro finalistas, entre eles o Tulpar, da turca Otokar. Em outubro de 2025, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, visitou a fábrica da Otokar em Sakarya; em abril de 2026, foi a vez do chefe do Estado-Maior, general Montenegro Junior, repetir a visita durante a LAAD 2026. A Otokar já sinalizou abertura para transferência de tecnologia e produção local, e a comunalidade entre a torre HITFACT MkII do Tulpar e a do Centauro II, já em uso no Brasil, é um argumento técnico a favor do blindado turco. 


Armas leves e coletivas
A Taurus negocia, desde a LAAD de abril de 2025, a aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de metralhadoras leves e pesadas. Mesmo antes de a operação ser formalizada, a Taurus já venceu, via Estados Unidos, uma licitação para fornecer 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro, e a Marinha assinou, em fevereiro de 2026, um protocolo com a Taurus para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas baseados justamente nos modelos turcos. Em abril de 2026, armas da Mertsav já eram apresentadas ao lado de produtos Taurus, sob o mesmo rótulo comercial, em evento institucional para as Forças Armadas. 


Mísseis
O míssil antinavio MANSUP-ER, da brasileira SIATT, ganhou alcance superior a 200 km (ante 70 km da versão original) graças ao motor turbojato KTJ-3200, da turca Kale Jet Engines, primeira exportação desse motor para fora da Turquia. O arranjo é trilateral, com o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, financiando e trazendo a Repkon, também turca, para a fabricação do corpo estrutural do míssil. 


Drones e defesa antiaérea
O drone Bayraktar TB2, da Baykar, é elegível ao edital brasileiro de VANTs armados, e o comandante do Exército já visitou a fábrica da empresa em 2025. O modelo mais recente, o TB3, é um dos itens hoje discutidos para eventual produção local destinada ao Sisfron, o sistema de monitoramento de fronteiras.

O que muda com um acordo mais amplo 
Se essa é a fotografia do presente, a pergunta relevante é o que um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, com mandato para elaborar um roteiro bilateral, pode destravar em cada uma dessas frentes nos próximos anos.

No caso dos blindados, o efeito mais provável é político, não técnico. A decisão sobre o Tulpar já deveria seguir critérios de desempenho, custo e transferência de tecnologia; um guarda-chuva governo a governo tende a funcionar como acelerador de cronograma e como garantia de continuidade caso o programa avance por mais de um ciclo eleitoral, hipótese nada trivial em um contrato bilionário que atravessa gestões.

No caso da Mertsav, o acordo mais amplo dificilmente muda a lógica comercial da operação, que é da Taurus, mas pode acelerar aprovações regulatórias dos dois lados, sobretudo as que dependem de autorizações de exportação de tecnologia sensível de armas coletivas. Uma Taurus Turquia operando como quarta unidade produtiva do grupo, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Índia, é um desfecho que já está desenhado; o que falta é o ritmo burocrático acompanhar o ritmo comercial.

O item mais promissor, e também o mais urgente do ponto de vista turco, é o aeronáutico. A Turquia precisa substituir uma frota de C-130 envelhecida e agora sob suspeita, depois do acidente fatal de novembro de 2025; comprou, como solução-ponte, C-130J usados da Royal Air Force, mas essa é uma resposta de curto prazo. O KC-390 já conquistou doze países, incluindo, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, sua estreia no Oriente Médio; um pedido turco, ainda que modesto no primeiro lote, teria peso simbólico desproporcional ao tamanho do contrato, pois colocaria o cargueiro brasileiro operando ao lado de aliados da OTAN na fronteira do Mediterrâneo Oriental, região de alta tensão geopolítica. Um acordo governo a governo, no molde do que já se pratica com a exportação de armas Mertsav, tende a ser o instrumento mais rápido para viabilizar essa venda, já que reduz a exposição de ambos os lados a processos de licitação aberta. 


Há ainda uma camada mais especulativa, mas que a imprensa turca já verbaliza havia meses: uma eventual participação brasileira, via Embraer ou Akaer, no desenvolvimento do caça de quinta geração KAAN, cujo primeiro protótipo voou em 2026. Nenhuma das duas empresas confirmou esse desdobramento, e é prudente tratá-lo como hipótese, não como fato; mas a lógica industrial da parceria, com a Akaer já dentro da estrutura do HÜRJET e da relação com a Aselsan, aponta nessa direção, e um Conselho Estratégico é exatamente o tipo de mecanismo político que costuma anteceder decisões desse porte.

No campo dos mísseis, o modelo trilateral do MANSUP-ER (Brasil integrando, Emirados financiando, Turquia fornecendo propulsão e componentes estruturais) já demonstrou funcionar. É razoável esperar que esse arranjo sirva de referência para outros programas, sobretudo em defesa antiaérea de curto alcance e sistemas contra drones, área em que a experiência turca, testada nos conflitos do Cáucaso e do Oriente Médio, é reconhecida internacionalmente.

Uma complementaridade, não uma dependência 
O argumento que sustenta essa aproximação não é apenas comercial. A Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. Nenhum dos dois países está entregando ao outro uma dependência estratégica; ambos preenchem lacunas específicas nas cadeias industriais um do outro, o que é uma condição bem mais saudável, do ponto de vista de soberania, do que a relação clássica entre fornecedor único e comprador cativo.

Para o Brasil, gastando algo como US$ 25 bilhões anuais em defesa, a Turquia representa uma fonte de tecnologia livre de restrições ITAR e BAFTA, o que facilita exportações futuras de produtos que incorporem componentes turcos. Para a Turquia, cujo setor de defesa busca mercados além da OTAN, o País é um cliente de peso e uma porta de entrada para toda a América Latina, região onde a Otokar já negocia com a Colômbia e o KC-390 desperta interesse além das fronteiras brasileiras.

O risco a monitorar é o inverso do entusiasmo: acordos governo a governo tendem a acelerar processos que já estão tecnicamente maduros, mas raramente resolvem, por si só, gargalos orçamentários. O programa de blindados do Exército convive com restrições fiscais conhecidas, e a decisão sobre o Tulpar deverá refletir isso independentemente do que for costurado entre os vice-presidentes.

17 maio, 2026

General turco examina KC-390 em Portugal e avião brasileiro ganha espaço no leste do Mediterrâneo

Visita do comandante da Força Aérea da Turquia à Base de Beja ocorre enquanto Ankara busca renovar frota envelhecida de C-130 e a vizinha Atenas avalia compra do cargueiro da Embraer 


*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

A Base Aérea de Beja, em Portugal, voltou a ser palco de um encontro com alto peso simbólico para o programa KC-390. O general Ziya Cemal Kadıoğlu, comandante da Força Aérea da Turquia, visitou a instalação durante missão oficial a Lisboa e examinou de perto o cargueiro fabricado pela Embraer, que equipa a Esquadra 506 da Força Aérea Portuguesa. A visita, realizada a convite do general Sérgio Roberto Leite da Costa Pereira, comandante da Força Aérea Portuguesa, incluiu ainda passagens pela Embaixada turca em Lisboa, pelo Centro de Operações Conjuntas das Forças Armadas Portuguesas e pelo quartel-general do STRIKFORNATO.

A informação foi divulgada por Tolga Özbek, analista de defesa, em perfil no LinkedIn, e rapidamente circulou entre entusiastas e especialistas da área. O texto destaca que a visita "contribui para o fortalecimento da cooperação de defesa entre Turquia e Portugal" e que plataformas como o KC-390 podem representar "uma área potencial de interesse" para a força aérea turca.

Uma frota sob pressão
O interesse turco no KC-390 surge em um momento de particular sensibilidade para a aviação de transporte de Ankara. A Força Aérea da Turquia opera há décadas aeronaves da família C-130 Hercules, nas variantes B e E, adquiridas em diferentes momentos: os primeiros exemplares chegaram nos anos 1960, seis unidades C-130B foram incorporadas no início da década de 1990 e outros seis C-130E foram comprados da Arábia Saudita em 2011. Em novembro de 2025, um desses aviões, com matrícula 68-01609, caiu na região de Sighnaghi, na Geórgia, logo após decolar de Ganja, no Azerbaijão, matando todos os 20 militares a bordo. Foi a pior perda militar turca desde fevereiro de 2020.

O acidente levou o Ministério da Defesa turco a suspender temporariamente os voos da frota de C-130 para inspeções técnicas detalhadas, determinando que somente as aeronaves aprovadas nas verificações poderiam retomar as operações. O episódio expôs a vulnerabilidade de uma frota envelhecida e reacendeu debates sobre a urgência de sua renovação.

Para tentar preencher a lacuna no curto prazo, a Turquia fechou, em outubro de 2025, um acordo para adquirir 12 aeronaves C-130J-30 Super Hercules desativadas pela Royal Air Force (RAF) britânica. As aeronaves foram entregues a uma empresa de manutenção no Reino Unido, onde passam por revisão e modernização, incluindo substituição de caixas centrais de asa, atualização de aviônicos e adaptações aos requisitos turcos. A empresa Marshall Aerospace, em Cambridge, é responsável por parte do programa, estimado em mais de 200 milhões de libras ao longo de quatro anos. As entregas à força aérea turca devem começar após 2026.

A par dos C-130, a Turquia também conta com aeronaves A400M adquiridas da Airbus, mas os Hércules seguem sendo o pilar do transporte tático. A compra dos exemplares britânicos descartados foi vista por parte da imprensa especializada como uma solução intermediária para uma frota que, no longo prazo, precisará ser substituída. É nesse contexto que a visita de Kadıoğlu ao KC-390 em Beja ganha contornos estratégicos.

 

Beja, a vitrine europeia do KC-390
Portugal é o primeiro país europeu e o primeiro membro da OTAN a operar o KC-390. O contrato original, assinado em 2019, previa cinco aeronaves; em setembro de 2025, foi aditado para incluir uma sexta unidade e dez novas opções de compra que podem ser transferidas a nações parceiras, mecanismo que facilita aquisições futuras por outros membros da aliança sem a necessidade de contratos diretos com a Embraer.

A Base Aérea n.º 11, em Beja, concentra toda a frota portuguesa, incluindo o simulador de voo completo, e forma pilotos de outros países. O quarto KC-390 entregue a Portugal, em janeiro de 2026, trouxe uma novidade relevante: foi o primeiro exemplar da frota portuguesa equipado com kit de reabastecimento aéreo, com tanques instalados na fuselagem e pods sob as asas, tornando-o capaz de atuar como tanqueiro.

A infraestrutura montada em Beja funciona como referência operacional concreta para visitantes militares de todo o mundo. Além do general turco, o ministro da Defesa da Eslováquia visitou a base em março de 2026 para avaliar o KC-390, e o ministro da Defesa da Grécia, Nikos Dendias, fez o mesmo em maio de 2026.

A Grécia na reta final
A visita grega é talvez a de maior impacto imediato para a Embraer. Dendias foi a Portugal a convite do ministro da Defesa português, Nuno Melo, e após o encontro declarou publicamente que a Grécia tem interesse na compra do C-390 Millennium. A Força Aérea Helênica opera hoje C-130 nas variantes B e H, com disponibilidade limitada e frota considerada obsoleta para os padrões atuais da Otan, além de C-27J Spartan de menor porte.

O modelo em avaliação prevê uma aquisição em duas fases: três aeronaves inicialmente, com possibilidade de expansão para mais três unidades. A cooperação com Portugal é apontada como fator decisivo, pois permite à Grécia apoiar-se em um quadro já estabelecido de exploração operacional, suporte e transferência de conhecimento, e eventualmente adquirir as aeronaves via governo a governo por meio das opções contratadas por Lisboa.

Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, o KC-390 apresenta vantagem em relação ao C-130J não apenas no custo de aquisição, mas também em vantagens operacionais e técnico-econômicas relacionadas a manutenção, suporte e disponibilidade. O KC-390 é mais veloz (870 km/h contra 660 km/h do C-130J) e carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas). Os motores turbofan IAE V2500, amplamente empregados na aviação comercial, tornam sua manutenção mais simples e barata.

A Força Aérea Helênica também especificou requisitos que transformam a aeronave em multiplicador de poder: o KC-390 deverá ser adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo de aeronaves de combate e equipamento de evacuação médica. Para a Grécia, com centenas de ilhas habitadas, essa capacidade tem dimensão tanto militar quanto humanitária.

O governo grego sinalizou investimentos da ordem de 28 bilhões de euros em defesa até 2036, após longo período de restrições orçamentárias decorrente da crise financeira de 2009 a 2018. A decisão sobre o KC-390 é esperada para os próximos meses.

 

Um clube que cresce
O KC-390 foi selecionado por 12 países até maio de 2026. Entre os usuários e clientes confirmados estão Brasil (19 unidades), Portugal (6), Hungria, Áustria, República Tcheca, Suécia, Países Baixos, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos. O pedido dos Emirados, anunciado em maio de 2026, totalizou 20 aeronaves (10 firmes e 10 opções) e marcou a estreia do KC-390 no Oriente Médio.

A expansão europeia do programa é notável. Desde a entrada em serviço com a Força Aérea Portuguesa, em 2023, e com a Força Aérea Húngara, em 2024, o KC-390 acumulou mais de 14.000 horas de voo na frota brasileira, com taxa de disponibilidade superior a 99%. Esses números são citados com frequência pelos representantes da Embraer em apresentações a potenciais clientes.

A visita do general Kadıoğlu em Beja não resultou, até o momento, em qualquer declaração oficial de interesse por parte da Turquia. Mas o simples fato de que o comandante da força aérea de um país que acaba de comprar C-130 usados do Reino Unido tenha se dado ao trabalho de examinar pessoalmente o KC-390 em operação diz algo sobre o horizonte de modernização que Ankara projeta para a próxima década. No leste do Mediterrâneo, o cargueiro brasileiro começa a figurar como uma opção real em planos militares que ainda levam algum tempo para se concretizar.

05 maio, 2026

Míssil Yildirimhan: a entrada da Turquia no seleto clube dos ICBMs

 

 
*LRCA Defense Consulting - 05/05/2026

O anúncio do míssil Yildirimhan na feira SAHA 2026 marca um momento raro e potencialmente histórico na evolução militar da Turquia. Pela primeira vez, o país apresenta publicamente um projeto classificado como míssil balístico intercontinental (ICBM), uma categoria restrita a um grupo muito limitado de nações.

Durante décadas, a Turquia construiu gradualmente sua base de mísseis táticos e de cruzeiro, com sistemas como a família de mísseis Yildirim e o míssil Bora. Ambos representam capacidades relevantes, mas limitadas ao alcance regional.

O Yildirimhan, desenvolvido pelo MSB ARGE, rompe esse limite ao projetar alcance intercontinental, um salto tecnológico que altera o posicionamento estratégico do país.

Características: ambição de potência global
Segundo as informações divulgadas, o sistema apresenta parâmetros típicos de um ICBM moderno:

  • Alcance estimado: cerca de 6.000 km
  • Velocidade: entre Mach 9 e Mach 25
  • Propulsão: combustível líquido (tetróxido de nitrogênio)
  • Configuração: múltiplos motores de foguete

Esse conjunto sugere um míssil de médio a longo alcance avançado, ainda que o limite inferior do alcance o coloque, tecnicamente, na fronteira entre IRBM (intermediate-range) e ICBM clássico, um ponto que especialistas ainda debatem.

O ineditismo: mais político que técnico
O aspecto mais relevante do Yildirimhan não está apenas nos números, mas no que ele representa.

Hoje, a capacidade operacional de ICBMs é dominada por países como:

  • Estados Unidos
  • Rússia
  • China

A entrada da Turquia nesse domínio, mesmo em estágio inicial, indica:

  • Autonomia estratégica ampliada
  • Capacidade de dissuasão além da OTAN
  • Possível reposicionamento geopolítico independente

Isso é particularmente sensível porque a Turquia é membro da OTAN, uma aliança onde capacidades nucleares e vetores estratégicos são tradicionalmente centralizados.

Limitações e dúvidas técnicas
Apesar do impacto do anúncio, há sinais claros de que o programa ainda está em fase preliminar:

  • Ausência de testes públicos confirmados
  • Falta de dados sobre guiagem, precisão e carga útil
  • Dependência de combustível líquido (menos responsivo que sólido)
  • Nenhuma confirmação de capacidade MIRV (múltiplas ogivas)

Esses pontos levantam a possibilidade de que o Yildirimhan seja, neste momento, mais um demonstrador tecnológico do que um sistema plenamente operacional.

Comparação com gerações anteriores
A evolução é evidente:

Sistema

Alcance

Categoria

Yildirim

~300 km

SRBM

Bora

~280–360 km

SRBM

Yildirimhan

~6.000 km

IRBM/ICBM

Esse salto não é incremental, é exponencial.

Implicações estratégicas
Caso o projeto avance, a Turquia poderá:

  • Cobrir praticamente toda a Europa e partes da Ásia
  • Tornar-se fornecedora de tecnologia de longo alcance
  • Aumentar sua autonomia frente a aliados e rivais

Por outro lado, isso pode gerar:

  • Pressões diplomáticas
  • Questionamentos dentro da OTAN
  • Reações de países vizinhos 

Um anúncio que muda o jogo, mesmo sem estar pronto
O Yildirimhan ainda não é, necessariamente, um ICBM plenamente operacional. Mas seu anúncio já cumpre uma função estratégica essencial: sinalizar ambição.

Mais do que um míssil, trata-se de uma declaração de intenção.

Se essa intenção se converter em capacidade real, a Turquia poderá deixar de ser apenas um ator regional para assumir um papel muito mais amplo no equilíbrio estratégico global.

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