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20 outubro, 2026

Cerimônia cancelada deixa contrato do ATMOS sem data e reabre impasse na Artilharia

Exército desmarca assinatura prevista para 27 de outubro sem explicar o motivo; lote inicial seria fabricado em Israel, e a eventual participação da Avibras ficaria restrita à fase seriada



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LRCA Defense Consulting - 20/10/2026 - 18h50

O Exército Brasileiro cancelou a cerimônia de assinatura do contrato do lote experimental do obuseiro autopropulsado Atmos 2000, de 155 mm, marcada para as 14h de 27 de outubro no Comando Logístico (Colog), em Brasília. O Comando do Exército confirmou a decisão nesta terça-feira (20) ao jornalista Marcelo Godoy, colunista do Estadão, sem informar o motivo nem indicar nova data. A suspensão da solenidade não equivale, por ora, à revogação da escolha do sistema nem ao encerramento do programa.

O recuo ocorre um dia depois de vir a público que a contratação voltaria a andar, destravada por um memorando de entendimento entre a Avibras Aeroco e a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, fabricante do Atmos. Escolhido pelo Exército em abril de 2024, o sistema integra um planejamento de 36 viaturas, com valor estimado em quase R$ 1 bilhão. O processo está parado há cerca de dois anos, período marcado pelo desacordo entre os governos brasileiro e israelense a respeito das operações militares de Israel em Gaza e da ação de colonos na Cisjordânia.

O que mudou entre 19 e 20 de outubro 
Na segunda-feira (19), a expectativa era de que o Colog formalizasse o contrato do lote inicial; o LRCA Defense Consulting registrou a previsão e examinou as possibilidades de integração industrial na fábrica da Avibras em Jacareí (SP). A confirmação do cancelamento, no dia seguinte, desfaz esse cronograma. Até o fechamento desta edição, não havia indicação pública de quando a assinatura poderá ocorrer.

A hipótese político-eleitoral 
Segundo a coluna de Godoy, havia receio de que a assinatura, marcada para dois dias após o segundo turno das eleições, fosse interpretada como um favorecimento aos empresários Joesley e Wesley Batista, que assumiram o controle da Avibras Aeroco por meio da Globe Investimentos. Como o contrato havia sido congelado por razões geopolíticas, sua retomada logo após a mudança de controle da fabricante tornou-se politicamente sensível. O Exército não apresentou essa explicação de forma oficial; trata-se de apuração jornalística, e não de causa confirmada.

A compra da Avibras pela Globe foi anunciada em 15 de outubro. Conforme o LRCA já informou, a operação preserva o controle acionário nacional da fabricante, que retomou a produção neste ano, após cerca de quatro anos de paralisação, e voltou a entregar material ao Exército em outubro. A Globe é uma holding de investimentos pessoais dos irmãos Batista e, segundo a comunicação da companhia, não integra a J&F S.A.

Participação da Avibras ainda é hipótese 
Antes do memorando, previa-se que o Atmos brasileiro utilizasse o chassi Tatra, o mesmo dos lançadores de foguetes e mísseis do sistema Astros, produzido pela Avibras, e que a montagem fosse feita no País. A nova apuração do Estadão indica um arranjo mais restrito: as duas viaturas do lote experimental seriam fabricadas em Israel. Somente após a avaliação desse lote poderia ser contratada a série de 34 unidades, fase em que a Avibras eventualmente entraria. Ainda segundo o jornal, a própria indústria brasileira estimava que sua fatia não passaria de 10% do valor do contrato.

O presidente da Avibras, Sami Hassuani, disse à coluna que a empresa analisa propostas de parceria de oito grupos, quatro brasileiros e quatro estrangeiros, e que o memorando com a AEL não significa que a fabricante participará desde o lote experimental.

Depois da assinatura do memorando, o Colog examinou aspectos jurídicos e técnicos e concluiu não haver impedimento para que a Avibras figure como subcontratada, desde que o contrato inicial não seja alterado. Trata-se de uma possibilidade contratual, não de uma encomenda industrial formalizada.

Uma aquisição em duas etapas 
O lote experimental serviria para avaliar as compensações comerciais e tecnológicas (offset), a cadeia logística e a integração do Atmos aos demais sistemas de artilharia do Exército, além de permitir nova comprovação de preços. A compra das 34 viaturas restantes dependeria desses resultados e de decisões contratuais posteriores. Para o primeiro contrato, a Força contava com recursos obtidos com base na Lei Complementar nº 235.

Impactos militares e industriais 
O Atmos combina um obuseiro de 155 mm/52 calibres com plataforma sobre rodas e recursos automatizados de navegação e pontaria. A mobilidade reduz o tempo de permanência em posição de tiro, atributo valioso diante da vigilância por drones e da ameaça de contrabateria, embora não dispense camuflagem, dispersão, defesa antidrone e integração a sensores e sistemas de comando e controle.

Para a Base Industrial de Defesa, o valor de uma eventual participação brasileira dependerá menos da montagem final e mais das competências efetivamente absorvidas: engenharia, componentes, manutenção, munições e suporte logístico. Com um teto estimado em 10% do valor contratual, essa absorção tende a ser limitada. A IMBEL foi apontada, em propostas examinadas anteriormente pelo LRCA, como possível participante da cadeia de munições de 155 mm, mas não há contrato público que defina suas obrigações.

O que está em jogo 

O cancelamento deixa sem data o início de uma aquisição relevante para modernizar os fogos de longo alcance do Exército e obriga a separar três questões: a escolha técnica do Atmos, a decisão político-administrativa de contratar e o alcance real da participação da indústria nacional. São dimensões ligadas, mas distintas.

O próximo passo decisivo será um posicionamento formal do Exército sobre o cronograma e a manutenção das condições contratuais. Havendo assinatura, caberá verificar quais contrapartidas e qual participação brasileira estarão, de fato, no papel.

14 outubro, 2026

Exército inaugura enlace quântico de 12 km e amplia proteção de suas redes estratégicas

Demonstração de comunicação quântica entre o CITEx e o Ministério da Defesa e ativação de estrutura dedicada à segurança da EBNet reforçam a proteção das redes estratégicas e a autonomia tecnológica do Exército Brasileiro



*LRCA Defense Consulting - 14/10/2026 - 22h05

O Exército Brasileiro apresentou, em 30 de setembro de 2026, em Brasília, dois avanços voltados à proteção de sua infraestrutura digital: a inauguração da Rede Quandanga de Comunicação Quântica, que liga o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx) ao Ministério da Defesa, e a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército. Embora tenham funções distintas, as iniciativas convergem para a ampliação da segurança e da resiliência das comunicações militares.

A Rede Quandanga utiliza 12 quilômetros de fibra óptica entre as duas organizações. Segundo o Exército, trata-se da maior ligação quântica por fibra óptica realizada no Brasil. O enlace foi desenvolvido a partir de pesquisas do Instituto Militar de Engenharia (IME), que integrou um equipamento importado responsável pelo canal quântico e pela distribuição de chaves criptográficas a um dispositivo brasileiro de criptografia. A informação foi apresentada pelo coronel Vítor Andrezo, gerente do projeto.

Um teste de interceptação 
Durante a cerimônia, os responsáveis demonstraram transmissões de dados por uma conexão convencional e por outra protegida pela tecnologia quântica, submetendo ambas a simulações de ataque. De acordo com o relato oficial, a tentativa de violação foi bem-sucedida no canal convencional, enquanto o sistema quântico identificou e impediu a interceptação simulada. O resultado demonstra o funcionamento do arranjo nas condições do ensaio, mas não significa que toda a infraestrutura conectada esteja imune a ataques cibernéticos.

A tecnologia empregada está associada à distribuição quântica de chaves, conhecida pela sigla QKD, de Quantum Key Distribution. Em vez de transportar necessariamente os dados por um canal quântico, o método utiliza propriedades físicas de estados quânticos para estabelecer chaves criptográficas e revelar determinadas interferências no processo de distribuição. A proteção final das informações também depende dos algoritmos, equipamentos e procedimentos de segurança utilizados nos sistemas convencionais. 


Da pesquisa à aplicação institucional 
A inauguração em Brasília representa uma nova etapa de uma trajetória de pesquisas que o LRCA acompanha desde 2025. Naquele ano, o portal noticiou a instalação do primeiro enlace óptico no espaço livre do Exército, entre o IME e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Com aproximadamente 800 metros e capacidade de até 1 Gbit/s, a ligação emprega comunicação óptica por laser e integra a infraestrutura de pesquisa associada às redes Hermes Quântica e Rio Quântica. Esse enlace óptico não deve ser confundido com um sistema QKD plenamente operacional.

Em setembro de 2026, pesquisadores do IME vinculados à Rede Hermes Quântica ativaram um equipamento de QKD baseado no protocolo BB84. Segundo o instituto, os ensaios iniciais utilizaram bobinas de fibra óptica equivalentes a 40 quilômetros de percurso, em ambiente laboratorial. O sistema, fornecido pela suíça ID Quantique, possui alcance nominal de até 120 quilômetros, sujeito às condições da implementação. O IME também anunciou planos de ensaios em enlaces reais no Rio de Janeiro e, posteriormente, na Região Amazônica, utilizando infraestrutura do Programa Amazônia Conectada.

A Rede Hermes Quântica, coordenada pelo IME, concentra-se em aplicações de Defesa. A Rede Rio Quântica envolve, além do instituto militar, a Universidade Federal Fluminense, o CBPF, a PUC-Rio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os projetos recebem apoio de instrumentos de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, incluindo recursos da FINEP e do CNPq.

Supervisão centralizada da EBNet 
O segundo anúncio foi a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército, subordinado ao CITEx. A nova estrutura reúne, pela primeira vez, as atividades de observação, monitoramento e operação da rede corporativa privativa da Força, a EBNet.

Segundo o general de brigada Rodolfo Roque Salguero de La Vega Filho, chefe do CITEx, o centro concentra informações captadas por equipamentos, sensores e sistemas, permitindo acompanhamento mais proativo da rede. A centralização busca antecipar falhas, reduzir interrupções e reforçar a proteção dos serviços digitais utilizados pelo Exército. A medida resulta da padronização de soluções e da adoção de novas ferramentas de monitoramento e segurança.

O novo centro não deve ser confundido com a Rede Quandanga: enquanto o enlace quântico constitui uma aplicação específica de proteção da distribuição de chaves, o centro atua na gestão e na segurança da infraestrutura de telemática. O anúncio conjunto não comprova que a tecnologia quântica já esteja integrada ao conjunto da EBNet. 


Soberania tecnológica e perspectivas para a Defesa 
A aproximação entre instituições de pesquisa e estruturas operacionais é especialmente relevante em um cenário de crescente dependência das Forças Armadas de redes digitais para comando, controle, logística e intercâmbio de informações. A capacidade de desenvolver, integrar e avaliar soluções críticas no País reduz determinadas dependências tecnológicas, embora a presença de equipamento importado no enlace mostre que a autonomia nessa área ainda é um objetivo em construção.

A iniciativa se insere em um esforço mais amplo. O Programa Defesa Cibernética na Defesa Nacional, conduzido sob liderança do Exército, inclui uma Iniciativa Quântica no âmbito de seu subprograma de independência tecnológica. Em setembro de 2026, o Exército e o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer também firmaram entendimento para desenvolver o Projeto AURORA, voltado à pesquisa de redes optoeletrônicas resilientes e tecnologias de comunicação quântica. Não há, contudo, elementos suficientes para afirmar que esses projetos já constituam uma arquitetura operacional integrada.

Na cerimônia em Brasília, o general de Exército Hertz Pires do Nascimento, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia, associou os lançamentos ao esforço de modernização da segurança digital da Força e mencionou o exercício Guardião Cibernético 8.0 como outra expressão dessa prioridade institucional.

A evolução das pesquisas do IME até a demonstração de um enlace de 12 quilômetros entre organizações da Defesa constitui um resultado concreto. O desafio seguinte será ampliar a maturidade dos sistemas, avaliar sua operação continuada e determinar em que medida poderão ser incorporados a redes militares de maior abrangência. Por ora, a importância dos anúncios está na combinação entre experimentação tecnológica, integração nacional de soluções criptográficas e fortalecimento da gestão cotidiana das comunicações do Exército.

09 outubro, 2026

Exército, IMBEL e EDGE formalizam cooperação estratégica com os Emirados Árabes Unidos

Comunicado oficial confirma as quatro organizações na Carta de Intenções, vincula o entendimento à Força Terrestre 40 e prevê discussões sobre modernização militar, desenvolvimento industrial e transferência de tecnologia



*LRCA Defense Consulting - 09/10/2026 - 13h36 (atualizado em 13/10, às 10h04)

O EDGE Group confirmou oficialmente que assinou, em Abu Dhabi, uma Carta de Intenções com o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Exército Brasileiro, representado pelo Estado-Maior do Exército (EME), e a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL). O instrumento orienta futuras iniciativas conjuntas nos campos militar, operacional, industrial, tecnológico, comercial e governamental. A cerimônia havia sido noticiada em setembro pela revista militar emiradense Al Jundi, que enfatizou a cooperação técnica, operacional e logística.

A confirmação, divulgada pelo EDGE em 13 de outubro, esclarece o papel formal das quatro organizações, anteriormente indicado pelo coronel da reserva Jetson Turquiello Machado da Silva, executivo de desenvolvimento de negócios do grupo para o Brasil e a América Latina. A fotografia oficial da assinatura também exibe os símbolos do Ministério da Defesa emiradense, do Exército, da IMBEL e do EDGE. A Carta de Intenções, contudo, não constitui, por si só, contrato de aquisição ou garantia de transferência de tecnologia. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.

Segundo o comunicado, o acordo se apoia no Acordo de Cooperação em Defesa Brasil–Emirados Árabes Unidos de 2014 e no acordo de 2019 sobre intercâmbio e proteção mútua de informações e materiais classificados. O propósito é orientar discussões para identificar soluções às necessidades do Exército Brasileiro, em alinhamento ao processo de transformação da Força Terrestre 40 e ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID).

Uma cooperação que já produziu iniciativas concretas 
A aproximação entre o EDGE e instituições brasileiras antecede a nova Carta de Intenções. Em abril de 2026, o grupo anunciou uma iniciativa com o Exército para avaliação operacional dos armamentos CARACAL CAR 816, de 5,56 mm, e CSR50, de 12,7 mm, por unidades especializadas. A avaliação não representa, por si só, uma decisão de aquisição.

Em agosto, o EDGE e o Comando de Defesa Cibernética do Exército anunciaram a criação de um Centro de Excelência em Defesa Cibernética, com investimentos diretos das duas instituições e atividades previstas de capacitação, resposta a incidentes, pesquisa e desenvolvimento. Trata-se de iniciativa distinta, cuja vinculação à nova Carta de Intenções não foi anunciada.

IMBEL e EDGE: contribuições previstas à cooperação 
O EDGE descreve papéis complementares para os participantes: o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos oferece a dimensão governamental e bilateral; o Exército Brasileiro apresenta necessidades operacionais e prioridades de modernização; a IMBEL contribui com capacidades industriais nacionais de defesa; e o EDGE disponibiliza seu portfólio integrado, experiência em sistemas e presença industrial crescente no Brasil. Essa divisão de contribuições explicita a dimensão industrial do entendimento, sem definir ainda projetos ou contratos.

Há antecedentes de integração tecnológica entre essas organizações. Em dezembro de 2024, o EDGE anunciou uma solução de comunicações seguras para o CENSIPAM, combinando dispositivo da KATIM, tecnologias da SIATT e rádios da IMBEL. O novo comunicado menciona transferência de tecnologia e programas conjuntos futuros como áreas de cooperação, mas não identifica sistemas selecionados, montantes de investimento, cronogramas, direitos de propriedade intelectual ou obrigações específicas de fabricação no Brasil.

Compromisso anunciado pela direção do EDGE 

Hamad Al Marar, diretor-geral e CEO do EDGE Group, afirmou que o Brasil está construindo capacidades soberanas de defesa e que o grupo pretende contribuir para esse processo. Segundo o executivo, o EDGE colocará seu portfólio, seus engenheiros e sua presença industrial no Brasil a serviço da modernização do Exército e do fortalecimento duradouro da BID. Trata-se de um compromisso estratégico anunciado pela direção do conglomerado, cujo desdobramento em programas e contratos ainda dependerá de definições posteriores.

A iniciativa se insere em uma aproximação mais ampla. Em declaração conjunta durante o G20 de 2024, Brasil e Emirados Árabes Unidos destacaram a expansão dos vínculos em defesa e segurança. O EDGE vem ampliando sua atuação industrial no País, inclusive por meio da SIATT, da Akaer, da Condor e de outras iniciativas. Esses antecedentes ajudam a compreender o contexto do acordo, mas não significam que cada projeto anterior tenha sido incorporado à nova Carta de Intenções.

Próximas etapas e resultados esperados 
O comunicado de 13 de outubro resolve a dúvida sobre os signatários, mas não detalha quais capacidades militares terão prioridade, quais sistemas serão avaliados, como ocorrerá eventual transferência de tecnologia ou se haverá financiamento e metas industriais. A Carta de Intenções estabelece uma direção de trabalho e diálogo; a execução dependerá de instrumentos e decisões subsequentes.

Para o Exército Brasileiro, a relevância do entendimento será medida pela transformação das intenções em capacidades operacionais verificáveis. Para a IMBEL e a BID, o resultado dependerá de oportunidades efetivas de engenharia, produção e absorção tecnológica. A declaração do CEO do EDGE sinaliza disposição de mobilizar recursos técnicos e industriais, mas os resultados concretos ainda precisarão ser demonstrados.

06 outubro, 2026

Avibras Aeroco faz primeira entrega ao Exército e transforma retomada industrial em resultado concreto

Cinco meses após reiniciar as operações, empresa entrega lote de munições em Formosa; marco ocorre dias depois da transferência de contrato de R$ 60,8 milhões que prevê 3.072 foguetes ASTROS



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LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Avibras Aeroco alcançou nesta terça-feira, 6 de outubro, um dos marcos mais relevantes desde a retomada de suas operações: a entrega do primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro (EB). O material foi recebido no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt), em Formosa (GO), principal estrutura logística de apoio ao Sistema ASTROS da Força Terrestre.


A entrega ocorre apenas cinco meses depois do início oficial das atividades da nova empresa, em maio, após um longo período de crise financeira, recuperação judicial e paralisação industrial da antiga Avibras. Mais do que cumprir uma etapa contratual, o evento representa a primeira demonstração concreta de que a reorganização empresarial conseguiu reativar a cadeia produtiva, recompor equipes especializadas e voltar a colocar material de emprego militar nas mãos do principal cliente nacional da companhia.

Que munições foram entregues? 

A Avibras Aeroco não informou, em seu comunicado, o tipo nem a quantidade das munições que compõem o primeiro lote. Esse ponto impede afirmar, neste momento, que a entrega corresponda a um contrato específico.

Há, entretanto, uma coincidência relevante. Em 25 de setembro, poucos dias antes da entrega, foi publicada a sub-rogação total do Contrato nº 130/2023, pelo qual a Avibras Aeroco assumiu da Avibras Divisão Aérea e Naval S.A. todos os direitos e obrigações de uma encomenda do Exército no valor de R$ 60.800.818,56, com vigência até 31 de dezembro de 2026.

Como o LRCA Defense Consulting revelou em 28 de setembro, a documentação original desse contrato prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, destinados ao treinamento das guarnições, e 56 contêineres completos AV-CL/SS-30, cada um contendo oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições.

Os AV-SS-09 TS representam a maior parcela quantitativa da encomenda e somam R$ 37,96 milhões. Os contêineres com os 448 SS-30 correspondem a outros R$ 22,85 milhões. Embora a proximidade entre a transferência contratual e a entrega desta terça-feira torne plausível uma relação entre os dois fatos, não há, até o momento, confirmação pública da empresa ou do Exército que permita estabelecer essa vinculação como fato. 



De uma fábrica paralisada à primeira entrega em cinco meses 
A velocidade da retomada é um dos aspectos mais relevantes do anúncio. A Avibras Aeroco iniciou oficialmente suas operações em maio de 2026, reunindo ativos estratégicos, instalações e o portfólio tecnológico transferidos no processo de reorganização da antiga Avibras Indústria Aeroespacial.

A reativação foi apoiada por uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O processo permitiu reintegrar trabalhadores, contratar profissionais especializados, recompor fornecedores e colocar novamente em funcionamento áreas ligadas à fabricação de mísseis, foguetes, veículos especiais e sistemas aeroespaciais.

Em maio, a nova companhia também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Em julho, durante visita às instalações de Jacareí (SP), o Ministério da Defesa registrou que a fábrica já operava na produção de componentes metálicos para mísseis e foguetes, na montagem de sistemas de defesa e na fabricação de veículos especiais.

Segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a empresa precisou, nesses cinco meses, ativar áreas produtivas, incorporar mão de obra especializada e restabelecer elos de sua cadeia de suprimentos. A primeira entrega mostra que essa recomposição ultrapassou a fase de preparação fabril e chegou efetivamente à etapa de produção, aceitação logística e fornecimento ao cliente.

O Exército como elemento central da recuperação 
O Exército Brasileiro tem exercido papel central na retomada da Avibras Aeroco. Já em 6 de maio, representantes da empresa reuniram-se no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, com autoridades responsáveis por fabricação, tecnologia, avaliação e artilharia para alinhar demandas em andamento e discutir futuros contratos.

Em julho, nova reunião na unidade industrial de Jacareí reuniu a Diretoria de Fabricação, o Comando de Artilharia do Exército, as gerências do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e do Subprograma Artilharia de Campanha, além da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia. O encontro tratou tanto dos contratos existentes quanto de novas possibilidades de cooperação.

A escolha de Formosa para a primeira entrega é igualmente significativa. O Forte Santa Bárbara concentra o Comando de Artilharia do Exército e organizações diretamente ligadas ao emprego, treinamento, manutenção e logística de mísseis e foguetes. É ali que se encontra o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, responsável por sustentar a capacidade operacional do ASTROS.

ASTROS volta ao centro da atividade industrial 

O Sistema ASTROS continua sendo o principal ativo tecnológico e comercial da Avibras Aeroco. Desenvolvido no Brasil e exportado para diferentes países, o sistema permite empregar munições de diferentes calibres e alcances a partir de uma arquitetura móvel de lançadores, viaturas de comando, remuniciamento, apoio e controle de tiro.

Para o Exército, a disponibilidade regular de foguetes não se limita à formação de estoques. As munições de treinamento são necessárias para manter guarnições qualificadas, realizar exercícios de tiro e preservar a prontidão de unidades especializadas. Já os foguetes operacionais recompõem e ampliam a capacidade de fogo da Força Terrestre.

A retomada industrial ocorre paralelamente à evolução tecnológica do próprio ASTROS. Em agosto, Avibras Aeroco e Exército realizaram com sucesso mais uma etapa da certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), no Centro de Avaliações do Exército, na Restinga da Marambaia (RJ). O armamento, integrado ao sistema, foi desenvolvido para alcançar alvos a até 300 quilômetros.

O Programa Estratégico ASTROS-FOGOS também contempla a evolução da artilharia brasileira para capacidades de maior alcance e precisão, incluindo o foguete guiado SS-40G e o MTC, além da modernização mais ampla da Artilharia de Campanha. 


Mudança de controle avança em paralelo 
A recuperação operacional ocorre ao mesmo tempo em que a estrutura de controle da empresa passa por nova transformação. Em agosto, a Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, acertou a aquisição da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco.

Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições, ao concluir que a transação representava essencialmente uma substituição de agente econômico, sem potencial de produzir problemas concorrenciais. O valor da aquisição não foi divulgado.

A combinação de novo capital, continuidade dos contratos militares e retomada das linhas industriais cria uma situação bastante diferente daquela enfrentada pela companhia nos últimos anos. A sustentabilidade dessa recuperação, porém, continuará dependendo de encomendas domésticas, exportações, investimentos em desenvolvimento tecnológico e capacidade de manter uma cadeia de fornecedores compatível com produtos de defesa de alta complexidade.

Um marco que pode ser mais importante que o tamanho do lote 

Mesmo sem a divulgação da quantidade entregue nesta terça-feira, o significado industrial do evento é claro. Para uma fabricante de sistemas complexos, voltar a produzir não significa apenas religar máquinas. É necessário requalificar processos, restabelecer fornecedores, assegurar matérias-primas e componentes, recompor equipes de engenharia e produção, executar controles de qualidade e atender aos requisitos de aceitação do cliente militar.

A primeira entrega ao Exército indica que a Avibras Aeroco conseguiu percorrer esse ciclo em aproximadamente cinco meses. Trata-se de um indicador concreto de recuperação de capacidade produtiva, ainda que não seja suficiente, isoladamente, para assegurar a sustentabilidade financeira de longo prazo da companhia.

O próximo ponto a observar será a cadência das entregas. Caso o lote esteja relacionado ao Contrato nº 130/2023, a empresa terá diante de si uma encomenda que, em sua configuração original, envolve milhares de foguetes e prazo contratual até o fim de dezembro. Se pertencer a outro instrumento, a entrega continuará tendo relevância própria e reforçará a existência de uma carteira em execução.

De qualquer forma, cinco meses depois de iniciar uma nova etapa empresarial, a fabricante do ASTROS voltou a fazer aquilo que constitui a razão central de sua existência: transformar tecnologia nacional em sistemas e munições entregues às Forças Armadas brasileiras.

26 setembro, 2026

Guardião Cibernético mobiliza instituições em sete cidades e testa resposta a crises digitais

Oito anos após sua criação, exercício coordenado pelo Exército amplia os cenários simulados; setor nuclear inclui transporte marítimo e fontes oficiais divergem sobre o número de participantes

Imagem meramente representativa


*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

O Exercício Guardião Cibernético 8.0 terminou na sexta-feira (25) após cinco dias de simulações de ataques capazes de afetar serviços essenciais. Com sede na Escola Superior de Defesa, em Brasília, e polos em Belém, Manaus, Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, a atividade reuniu Forças Armadas, órgãos públicos, reguladores, empresas e instituições de ensino para testar a resposta conjunta a incidentes cibernéticos. Sua realização coube ao Ministério da Defesa, sob coordenação do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) do Exército, com participação da Marinha e da FAB.

No ambiente simulado, militares do Exército desempenharam o papel de atacantes. Equipes das instituições participantes precisaram identificar, conter e responder às ameaças, enquanto gestores exercitaram decisões e planos de contingência. Os setores envolvidos incluíram energia, água, telecomunicações, finanças, transporte e atividades nucleares. O treinamento, portanto, examinou tanto procedimentos técnicos quanto a articulação entre organizações responsáveis por infraestruturas críticas.

Quatro cenários no setor nuclear 

Uma das novidades mais concretas surgiu no setor nuclear. Segundo a Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), da Marinha, foram trabalhados quatro cenários em Brasília: uma usina nuclear em terra, um hospital, um laboratório e uma embarcação que transportava material nuclear com destino a uma usina nuclear flutuante. O cenário marítimo foi incluído pela primeira vez no Guardião Cibernético. A preparação utilizou o Anshar, simulador de ataques cibernéticos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) informou que todos os cenários destinados ao setor foram inéditos ou reformulados. A autarquia distingue a simulação construtiva, voltada à gestão da crise, comunicação e coordenação institucional, da simulação virtual, em que equipes técnicas respondem a situações em tempo real. A ANSN também menciona um cenário relativo a pequenos reatores modulares, elaborado com colaboração da Marinha, sem especificar se corresponde ao transporte marítimo descrito pela SecNSNQ.

A composição das equipes demonstra a amplitude da resposta exigida por um incidente. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) relatou a participação de profissionais das áreas técnica, jurídica, de comunicação e da alta gestão. O chefe do Centro de Ciência e Tecnologia do Exército, general Hertz Pires do Nascimento, também destacou o papel da comunicação social para informar a população sobre uma crise e as medidas adotadas. 

Contagens oficiais ainda não coincidem 
A dimensão do exercício exige uma ressalva. O Ministério da Defesa informou na abertura cerca de 1.300 participantes, 300 organizações e representantes de 14 países. Nota do Exército divulgada na manhã do último dia repetiu esses números. Já a SecNSNQ registrou mais de 4 mil participantes, 382 instituições públicas e privadas e representantes de 20 países; a CNEN apresentou números próximos para pessoas e instituições.

As notas não esclarecem os critérios usados em cada contagem. Uma possibilidade é que os números menores retratem um conjunto mais restrito de participantes e os maiores incluam atividades nos polos e outras modalidades de participação, mas isso ainda não foi confirmado pelos organizadores. Também não há explicação publicada para a diferença entre 14 e 20 países. Por isso, os dados devem permanecer atribuídos a cada fonte, sem serem tratados como uma série única ou um balanço reconciliado.

Na edição de 2025, a Escola Superior de Defesa havia distinguido cerca de 750 profissionais e 169 organizações de aproximadamente mil pessoas envolvidas em atividades on-line. A experiência anterior mostra que diferentes modalidades podem produzir contagens distintas, mas não define quais critérios foram empregados em 2026.  


O que o exercício ainda precisa demonstrar 
O material divulgado até o momento descreve cenários, setores e procedimentos exercitados, mas não apresenta um relatório consolidado de lições aprendidas. Não foram divulgados, nas fontes consultadas, tempos de detecção ou contenção dos ataques simulados, vulnerabilidades encontradas ou medidas corretivas resultantes. Esses dados permitiriam avaliar com mais precisão o que o Guardião Cibernético revelou sobre a capacidade de resposta nacional.

Ao reunir instituições de setores interdependentes, a oitava edição ampliou as oportunidades de testar decisões e canais de cooperação sob pressão. A extensão desse aprendizado para a proteção efetiva dos serviços essenciais dependerá das correções adotadas após o exercício e de um balanço que permita verificar seus resultados.

23 setembro, 2026

Tulpar avança na avaliação do Exército após demonstração de tiro na Itália

Delegação chefiada pelo Vice-Chefe do EME acompanhou a mobilidade e os disparos do blindado com canhão de 120 mm, novo sinal do interesse brasileiro pela proposta turca




*LRCA Defense Consulting - 23/09/2026 (atualizado às 15h22)

O processo brasileiro de escolha da nova família de blindados sobre lagartas ganhou um dado relevante: uma delegação do Exército Brasileiro, liderada pelo Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, general de divisão Eduardo Tavares Martins, acompanhou na Itália uma demonstração de mobilidade e tiro real do Tulpar equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A presença de representantes do EME na campanha mostra que o interesse pelo veículo turco avançou além das apresentações comerciais e das visitas institucionais realizadas anteriormente.

Demonstração no campo de provas italiano 
A demonstração acompanhada pela delegação brasileira foi realizada em 23 de setembro de 2026 no UTTAT de Nettuno, organização do Ministério da Defesa da Itália dedicada à avaliação de armamentos terrestres, nas proximidades de Roma. A atividade incluiu a mobilidade do Tulpar e tiro real com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A data foi divulgada no mesmo dia pela revista Tecnologia & Defesa, juntamente com uma fotografia dos militares brasileiros diante do blindado.

A demonstração de 23 de setembro não deve ser confundida com a campanha técnica de integração e certificação concluída anteriormente pela Otokar e pela Leonardo e anunciada oficialmente em 18 de setembro. Essa campanha, também realizada no UTTAT de Nettuno, incluiu disparos com o veículo parado e em movimento e validou as interfaces mecânicas, elétricas, eletrônicas e digitais entre a plataforma e a torre. Segundo as empresas, o sistema de armas, o controle de tiro, a estabilização e a funcionalidade geral atingiram os objetivos planejados. Não foram divulgados o número de disparos, os tipos de munição empregados nem os resultados quantitativos obtidos.


A presença brasileira muda a dimensão da notícia 
Quando a conclusão da campanha técnica foi anunciada, em 18 de setembro, a Otokar e a Leonardo não informaram a presença de militares brasileiros. A demonstração promovida cinco dias depois mostra que o Exército não acompanhava o desenvolvimento apenas a distância. Uma delegação chefiada pelo Vice-Chefe do EME observou diretamente o comportamento da configuração oferecida ao País.

Isso não significa que os disparos constituíram uma avaliação oficial comparativa organizada pelo EB, nem que o veículo tenha sido homologado ou selecionado. A presença do EME, contudo, proporciona à Força dados próprios e impressões diretas sobre a mobilidade, o recuo do armamento, a estabilidade da plataforma e o funcionamento conjunto da torre com o chassi.

Uma sequência de aproximações de alto nível 
A demonstração integra uma sequência de contatos que evidencia a atenção dedicada ao Tulpar. Em 31 de outubro de 2025, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, visitou as instalações da Otokar na Türkiye. Em abril de 2026, uma delegação liderada pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Junior, conheceu as instalações da empresa e acompanhou a apresentação das versões do Tulpar destinadas às funções de carro de combate e veículo de combate de fuzileiros. Essa atividade ocorreu na Turquia e foi distinta da demonstração realizada em 23 de setembro, na Itália, com a presença do Vice-Chefe do EME.

Posteriormente, uma delegação liderada pelo chefe do Centro de Doutrina do Exército, general Diógenes de Souza Gomes, voltou a examinar a proposta durante a Eurosatory 2026. Dessa forma, o veículo já foi apresentado aos níveis de comando, planejamento estratégico, gestão de projetos e formulação doutrinária da Força Terrestre.


Os argumentos da proposta
O Tulpar participa da seleção para a Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas, ao lado do CV90, do Lynx e do ASCOD. A proposta da Otokar abrange uma configuração Medium Tank com a HITFACT MkII de 120 mm para a VBC CC e uma versão de combate de infantaria com armamento de 30 mm para a VBC Fuz.

Entre os principais argumentos favoráveis estão a arquitetura modular, a faixa de peso de aproximadamente 28 a 45 toneladas, a possibilidade de utilizar um mesmo chassi para diferentes funções e a disposição da Otokar de discutir produção local e transferência de tecnologia. A massa inferior à dos carros de combate pesados também pode favorecer a mobilidade estratégica em um País com limitações de pontes, estradas e transporte ferroviário.

Outro ponto importante é a comunalidade da HITFACT MkII com a torre adotada no Centauro II BR. Embora as configurações não sejam necessariamente idênticas, a utilização da mesma família de sistemas pode reduzir custos de capacitação, manutenção, munição e apoio logístico.

Avanço real, mas preferência ainda não confirmada 
A sucessão de visitas e a presença de uma delegação do EME nos disparos indicam que o Tulpar se encontra entre as propostas estudadas com maior profundidade. O acompanhamento de uma demonstração de tiro é um sinal mais expressivo do que a visita a um estande ou a observação de um protótipo parado, pois permite conhecer o sistema em funcionamento.

Ainda assim, não há anúncio do Exército que estabeleça uma ordem de preferência entre os quatro finalistas. Para afirmar que o Tulpar lidera a disputa, seriam necessários elementos como avaliações comparativas conduzidas pela Força, solicitação final de propostas, testes no Brasil ou abertura de negociação exclusiva. Até que isso ocorra, a conclusão mais segura é que o blindado turco avançou de forma concreta na avaliação brasileira e consolidou-se como um candidato relevante, sem que haja decisão conhecida sobre o vencedor.

21 setembro, 2026

El Niño se fortalece e Brasil acelera preparação para impactos econômicos, hídricos e militares

NOAA eleva para 75% a chance de um evento de intensidade histórica, ANA mantém no Sul sua única Sala de Crise ativa e CMS amplia capacidades para enfrentar eventos extremos; antes mesmo do pico previsto, rios gaúchos voltam a atingir níveis de inundação


*LRCA Defense Consulting - 22/09/2026

O El Niño de 2026/2027 entrou em uma nova fase. O que até poucos meses atrás era tratado principalmente como uma previsão climática passou a orientar decisões concretas sobre agricultura, abastecimento, energia, recursos hídricos, infraestrutura e preparação militar. E, no Rio Grande do Sul, antes mesmo de o fenômeno alcançar a máxima intensidade projetada, novos temporais voltaram a provocar elevações significativas de rios e risco de inundações.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) considera o fenômeno firmemente estabelecido e prevê intensidade muito forte. No Brasil, os organismos responsáveis pelo Painel El Niño 2026-2027 mantêm a perspectiva de impactos particularmente distintos entre as regiões: excesso de chuva no Sul e condições mais secas e quentes em grande parte do centro-norte do País.

Desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting sobre o assunto, publicada em 5 de setembro, surgiram elementos importantes. A NOAA aumentou a probabilidade de um evento de intensidade histórica, o CEMADEN delimitou melhor o período provável de máxima temperatura do Pacífico, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) colocou em execução um plano específico para enfrentar os impactos do El Niño até março de 2027 e, no Rio Grande do Sul, o risco hidrológico voltou a se materializar.

Ao mesmo tempo, o Comando Militar do Sul (CMS), diretamente marcado pela catástrofe de 2024, apresenta um conjunto de mudanças estruturais, logísticas e operacionais destinadas a enfrentar novos eventos climáticos extremos.

75% de possibilidade de um El Niño histórico 
O Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), informa que o El Niño continua se fortalecendo. Em agosto, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 alcançou +1,8 °C; na Niño 3, +2,5 °C; e na Niño 1+2, +3,4 °C. No Pacífico equatorial oriental, as anomalias ultrapassaram +3,0 °C.

A NOAA mantém probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Mas a atualização de setembro acrescentou um dado especialmente relevante: para o trimestre outubro, novembro e dezembro, existe agora 75% de probabilidade de o evento alcançar RONI trimestral igual ou superior a +2,5 °C e superar em intensidade os El Niños anteriores do registro utilizado pela NOAA, iniciado em 1950.

A previsão oficial atribui ainda 100% de probabilidade de permanência do El Niño até o trimestre janeiro, fevereiro e março de 2027. Depois disso, a probabilidade cai gradualmente: 97% em fevereiro, março e abril; 82% em março, abril e maio; e 43% em abril, maio e junho.

A intensidade do fenômeno, entretanto, não determina automaticamente a magnitude de seus impactos em cada região. Outros padrões oceânicos e atmosféricos podem reforçar, deslocar ou atenuar seus efeitos. Um El Niño excepcionalmente forte aumenta a probabilidade de impactos característicos do fenômeno, mas não permite determinar antecipadamente a intensidade de cada episódio de chuva, seca ou calor.

CEMADEN projeta máxima entre novembro e janeiro 

No Brasil, o CEMADEN acrescenta outra informação importante. No início de setembro, a região Niño 1+2, mais próxima às costas do Peru e do Equador, apresentava anomalia semanal de +3,9 °C.

Embora ainda exista incerteza sobre o valor máximo que será alcançado pela temperatura da superfície do mar, todos os modelos considerados pelo órgão enquadram o episódio na categoria de El Niño muito forte, com anomalias superiores a +2,0 °C na média trimestral.

O CEMADEN situa atualmente o período de máxima temperatura entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Isso significa que o intervalo de maior preocupação avança pelo verão e reforça a necessidade de manutenção das medidas preventivas por vários meses.

Essas projeções complementam o quadro apresentado pela LRCA Defense Consulting em 5 de setembro, quando uma reconstrução publicada na revista Science mostrou que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que no período entre os anos 1000 e 1850.

A questão, portanto, deixou de ser apenas se haverá um El Niño muito forte. Passou a ser como País, estados, empresas e Forças Armadas utilizarão a antecedência proporcionada pelos modelos climáticos para reduzir seus impactos.

O Sul já tem a única Sala de Crise ativa da ANA 
A mudança mais importante ocorrida desde a elaboração inicial desta reportagem talvez esteja na preparação dos recursos hídricos.

Em 14 de setembro, a ANA apresentou o Plano de Preparação para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027 sobre os Recursos Hídricos do Brasil. O documento estabelece ações estratégicas, operativas e regulatórias para administrar riscos até março de 2027.

O Plano trabalha com três níveis de acompanhamento: Salas de Crise, destinadas às bacias onde eventos hidrológicos críticos já estão instalados; Salas de Acompanhamento, voltadas a sistemas hídricos estratégicos; e reuniões preventivas de avaliação das condições hidrometeorológicas, que podem ser transformadas em Salas de Crise se houver agravamento.

Há um dado particularmente significativo para o Rio Grande do Sul: a Sala de Crise da Região Sul é atualmente a única Sala de Crise ativa da ANA no País. Seu foco está nas cheias, inundações graduais, enxurradas e segurança de barragens diante do excesso de precipitação.

A ANA também poderá adotar condições especiais de operação de reservatórios quando houver risco de cheias ou redução expressiva dos volumes armazenados. O Plano prevê ainda briefings técnicos mensais ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD) e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), procurando antecipar decisões de preparação, resposta e assistência humanitária.

Trata-se de uma mudança importante de abordagem: o gerenciamento do El Niño passa da observação meteorológica para uma estrutura institucional de acompanhamento e intervenção.

No Rio Grande do Sul, o risco já voltou aos rios 
Enquanto os modelos projetam a máxima intensidade do fenômeno para os próximos meses, o Rio Grande do Sul voltou a enfrentar, neste fim de semana, condições meteorológicas severas.

A Defesa Civil estadual havia advertido que os acumulados entre 19 e 21 de setembro poderiam superar pontualmente 230 milímetros na metade norte do Estado, com possibilidade de mais de 150 milímetros em apenas 12 horas em algumas áreas. Também foram previstas tempestades, granizo e rajadas superiores a 100 quilômetros por hora.

Na tarde de 21 de setembro, a situação já aparecia nos rios. A Defesa Civil informou elevações significativas de arroios e cursos d'água da Região Hidrográfica do Guaíba. O rio Caí, em Nova Palmira, e o rio Paranhana, em Igrejinha, já apresentavam limiares de inundação.

As projeções hidrológicas indicavam risco de inundação também no Jacuí, entre Dona Francisca e Cachoeira do Sul; no Taquari, a partir de Santa Tereza; no Caí; no Paranhana; e no Sinos, em Campo Bom.

Um episódio meteorológico específico não pode ser atribuído isoladamente ao El Niño. O quadro atual, porém, demonstra concretamente o tipo de pressão sobre rios, infraestrutura, energia, transportes, Defesa Civil e capacidade de resposta que torna particularmente sensível a previsão de aumento das chuvas no Sul durante um evento muito forte.

Agricultura e abastecimento passam à prevenção 
No campo, o Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027. Elaborado por cerca de 50 profissionais da Embrapa, com participação do INMET, o conjunto inclui 14 medidas transversais, 139 específicas por segmento produtivo e dez ações de apoio a políticas públicas.

A proposta vai além do evento atual e procura transformar a experiência com o El Niño em capacidade permanente de adaptação agroclimática.

O governo também autorizou a Conab a empregar até R$ 500 milhões na compra, por leilões públicos, de arroz longo fino em casca da safra 2025/2026 para formação de estoques públicos. A iniciativa está entre as ações destinadas a mitigar impactos associados ao El Niño.

O movimento é especialmente significativo para o Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do País e, simultaneamente, uma das áreas mais expostas ao excesso de precipitação projetado para os próximos meses.

Energia: 1,8 GW adicionais antes do período crítico 
O setor elétrico também antecipou decisões. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), seguindo recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aprovou a antecipação do suprimento de cinco contratos de reserva de capacidade, acrescentando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional a partir de 1º de setembro.

O Ministério de Minas e Energia relacionou a medida à segurança do atendimento diante do El Niño e das incertezas geopolíticas sobre os preços dos combustíveis.

Segundo o governo, o fenômeno pode reduzir a disponibilidade de energia produzida na Região Norte e elevar a carga do sistema em razão das temperaturas mais altas. O ONS acompanha continuamente precipitação, temperatura, nebulosidade e ventos, incorporando os possíveis efeitos do El Niño ao planejamento da operação.

O risco econômico vai além das fronteiras 
A dimensão internacional amplia a preocupação. Análise da S&P Global Market Intelligence trata um eventual Super El Niño como choque de oferta capaz de atuar simultaneamente por três canais: produção agrícola, estresse no setor de energia e interrupções na logística e nas operações portuárias.

A combinação pode pressionar preços, cadeias de suprimento e crescimento econômico, com efeitos diferentes conforme a exposição de cada país e setor.

Para o Brasil, isso significa que os impactos não precisam ocorrer apenas onde chover demais ou de menos. Problemas em safras estrangeiras, portos, energia ou fertilizantes podem chegar ao País por meio dos preços e do comércio internacional, enquanto danos internos a rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e terminais portuários podem afetar exportações e abastecimento.

O El Niño passa, assim, a funcionar como multiplicador de riscos já existentes.

CMS transforma as lições de 2024 em capacidade permanente 

É nesse cenário que a preparação militar ganha importância estratégica. A enchente de 2024 mostrou que as Forças Armadas podem ser chamadas a realizar uma operação humanitária de enorme escala ao mesmo tempo em que suas próprias instalações, comunicações, acessos e sistemas são atingidos.

Informações obtidas pela LRCA Defense Consulting junto ao Comando Militar do Sul mostram que as lições daquela crise estão sendo convertidas em novas estruturas, reposicionamento de material de Engenharia, aquisição de equipamentos, exercícios de apoio à Defesa Civil, treinamento do Estado-Maior, acompanhamento sistemático dos alertas e aperfeiçoamento da capacidade de comando e controle.

Engenharia e transporte recebem novas estruturas 
Entre as medidas está a criação da 8ª Companhia de Engenharia de Combate, em São Leopoldo, ativada em 12 de março de 2026.

Segundo o CMS, a unidade deverá contar com meios de Engenharia comprovados na Operação Taquari 2, incluindo pontes móveis e passadeiras, e terá condições de realizar transposição de cursos d'água, reparos de vias e tratamento e purificação de água.

Outra mudança é a 3ª Companhia de Transporte, ativada em 15 de junho no 3º Batalhão de Suprimento, em Nova Santa Rita. A nova organização possui estrutura inicial com 47 militares e 48 viaturas, com a finalidade de garantir pronta resposta em calamidades e apoiar mais de 100 unidades militares na região.

Em uma crise que interrompa pontes e rodovias, capacidade de transporte deixa de ser apenas função logística e passa a constituir elemento central da resposta humanitária.

O CMS também informa o reposicionamento de material de Engenharia, incluindo carregadeira sobre rodas, motores de popa, trator polivalente, embarcação de assalto, coletes salva-vidas e caminhão basculante.

Paralelamente, foi elaborado edital para aquisição de 21 tipos de equipamentos voltados à atuação em ambientes adversos, entre eles botas e macacões impermeáveis, equipamentos de proteção respiratória, coletes salva-vidas, capas de chuva, escadas e material para remoção de entulho.

Treinar antes da cheia 
A preparação não se limita à aquisição de meios. A 5ª Divisão de Exército realizou, em São João Batista, Santa Catarina, exercício de apoio à Defesa Civil com aproximadamente 400 militares, cerca de 60 viaturas e um blindado Guarani, integrados a órgãos civis. As situações simuladas envolveram gerenciamento de abrigos, evacuação de escolas e resgate de feridos e pessoas ilhadas.

A 6ª Divisão de Exército, por sua vez, planejou a Operação Jacuí em Eldorado do Sul, município severamente atingido em 2024. O exercício foi concebido para ampliar a cooperação interagências, desenvolver estratégias de resposta rápida e fortalecer a atuação conjunta do Exército, Defesa Civil e autoridades municipais diante de grandes emergências.

O próprio comando precisa continuar funcionando 
Talvez a mudança mais importante esteja no nível de comando e controle. O CMS realizou, em seu Centro de Coordenação de Operações, exercício de acionamento do Estado-Maior baseado em cenário fictício de enchentes severas numa região entre as mais atingidas em 2024.

Foram testados o funcionamento completo do centro, a ativação do Centro de Coordenação Civil-Militar, a Sala de Imprensa e a estrutura de videoconferência operacional.

A iniciativa se soma às medidas já informadas anteriormente pelo CMS à LRCA: plano de evacuação do Quartel-General Integrado, possibilidade de continuidade das atividades de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda e redundância de tecnologia da informação mediante ligação com servidores de outro Comando Militar de Área.

O objetivo é evitar que a interrupção de energia ou o alagamento de uma instalação paralise o sistema de comando.

O CMS acrescenta ainda o acompanhamento mais intenso e sistemático dos canais de alerta da Defesa Civil e o aprimoramento da capacidade de comando e controle das operações. Na prática, a previsão meteorológica passa a integrar o ciclo de decisão militar antes da emergência, e não apenas depois que o desastre ocorre.

Duas missões ao mesmo tempo 
Esse ponto é decisivo. Em um evento extremo, as Forças Armadas precisam cumprir duas tarefas simultâneas: preservar sua própria capacidade operacional e empregar essa capacidade em apoio à população.

Quartéis, depósitos, sistemas de comunicações, energia, água, combustível, hospitais, aeródromos e rotas logísticas também podem ser atingidos. Se a primeira missão falhar, a segunda fica comprometida.

A preparação apresentada pelo CMS indica uma mudança de postura em relação a 2024: criar redundância, distribuir meios, aumentar capacidades de Engenharia e transporte, exercitar o comando e integrar-se antecipadamente à Defesa Civil.

Isso não significa que um novo desastre de magnitude igual ou superior ao de 2024 esteja solucionado de antemão. Significa que parte importante das vulnerabilidades conhecidas foi incorporada ao planejamento.

E há agora uma conexão institucional importante: enquanto o CMS prepara suas estruturas e tropas para enfrentar eventos extremos, a ANA mantém justamente no Sul a única Sala de Crise ativa do País. A preparação militar e a gestão federal dos recursos hídricos passam, portanto, a responder preventivamente ao mesmo cenário de risco.

Da previsão à preparação, e da preparação ao primeiro teste 
As reportagens da LRCA Defense Consulting sobre o atual ciclo do El Niño registram uma evolução clara. Em julho, a questão era a aproximação do fenômeno e a capacidade de resposta do Rio Grande do Sul. Em 5 de setembro, a reconstrução publicada na Science mostrou que a variabilidade recente do El Niño ultrapassa a observada ao longo de muitos séculos e recolocou em evidência as vulnerabilidades ainda existentes em Porto Alegre.

Agora, o cenário avançou novamente. A NOAA atribui 75% de probabilidade a um El Niño capaz de superar em intensidade os eventos de seu registro desde 1950; o CEMADEN situa a máxima temperatura entre novembro e janeiro; a ANA colocou em execução um plano nacional de preparação e mantém uma Sala de Crise especificamente para a Região Sul; agricultura, abastecimento e energia já adotaram medidas preventivas; e o CMS transformou parte das lições de 2024 em novas capacidades.

Ao mesmo tempo, antes mesmo do pico projetado, as chuvas de setembro voltam a elevar rios gaúchos a níveis de inundação e colocam diferentes bacias em situação de risco.

A vantagem de 2026 sobre 2024 é que, desta vez, existe uma janela de preparação e parte das instituições já começou a utilizá-la.

O maior risco seria confundir antecedência com garantia de segurança.

A questão que se coloca para o País já não é apenas quando e com que intensidade o El Niño chegará ao pico. É saber se infraestrutura civil, sistemas produtivos, setor energético, Defesa Civil e Forças Armadas conseguirão transformar meses de aviso em resiliência real.

No Sul, esse processo já começou. Os próximos meses mostrarão até onde ele foi suficiente.

08 setembro, 2026

Do orçamento às fronteiras: drones ganham novo peso na Defesa brasileira

Fala de José Múcio encontra respaldo em uma das maiores dotações de investimento da Força Terrestre, com R$ 520 milhões para a ação Aviação do Exército e Drones; SISFRON recebe outros R$ 467 milhões



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LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que o Brasil deverá investir fortemente em drones para reforçar a proteção das fronteiras encontra respaldo direto na programação orçamentária proposta para 2027. O PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação “Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones” e outros R$ 467 milhões ao SISFRON, sistema destinado ao monitoramento das fronteiras terrestres.

Os valores não significam que R$ 520 milhões serão destinados exclusivamente à compra de drones. A ação 3138 reúne capacidades da Aviação do Exército e sistemas não tripulados. Ainda assim, a presença explícita de “Drones” no título da ação e sua posição entre os maiores projetos de investimento do Exército revelam uma prioridade que ganha especial significado após a manifestação do ministro. 

Múcio aponta os drones como multiplicadores de força 
Em entrevista à coluna de Matheus Leitão, publicada pelo Metrópoles em 8 de setembro, Múcio afirmou que as Forças Armadas investirão “muito” na aquisição de drones para reforçar a proteção das fronteiras. O ministro disse que o Brasil mantém atualmente cerca de 20 mil militares nessa faixa do território e considerou o contingente insuficiente diante da extensão territorial do País.

Segundo Múcio, os drones terão a função de ampliar a capacidade de vigilância sem depender exclusivamente da expansão do efetivo. Ele citou a experiência da Ucrânia e apontou China e Turquia como referências tecnológicas. O ministro também afirmou que pretende visitar fábricas de drones nesses dois países e relatou que fabricantes brasileiros já haviam apresentado equipamentos ao Ministério da Defesa. 

O orçamento já coloca os drones entre os grandes projetos do Exército 

O PLOA 2027 prevê, no âmbito do Exército, R$ 1,02 bilhão para a Implantação do Projeto Forças Blindadas, R$ 671,4 milhões para o sistema ASTROS-FOGOS, R$ 520 milhões para a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões para o SISFRON. A ação de Aviação do Exército e Drones, portanto, figura entre as quatro maiores iniciativas de investimento da Força Terrestre.

A proposta orçamentária não identifica fabricantes, modelos ou quantidade de drones que poderão ser adquiridos. Também não é possível atribuir toda a dotação de R$ 520 milhões a aeronaves remotamente pilotadas, pois a ação abrange outras capacidades da Aviação do Exército. O dado seguro é que o planejamento orçamentário de 2027 passa a explicitar os drones como componente próprio da ação.
 
Drones e SISFRON formam uma combinação estratégica 
A proximidade entre as duas dotações é relevante. O SISFRON foi concebido como uma arquitetura de vigilância, monitoramento, comunicações, inteligência e comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo da faixa de fronteira. A incorporação de SARP e outros vetores aéreos não tripulados permite levar sensores a áreas onde a presença permanente de tropas ou de infraestrutura fixa é limitada.

O PLOA 2027, nesse sentido, combina dois instrumentos complementares: uma ação de R$ 520 milhões que agora explicita os drones e uma ação de R$ 467 milhões destinada ao SISFRON. Somadas, as duas dotações alcançam R$ 987 milhões, embora constituam ações orçamentárias distintas e não possam ser tratadas como uma única verba para aquisição de drones.
 
A experiência com o Nauru 1000C coloca a XMobots em posição privilegiada 
Entre as empresas brasileiras, a XMobots apresenta o caso público mais consistente de aderência às necessidades do Exército. O Nauru 1000C foi selecionado para a Aviação do Exército como SARP Categoria 2 e passou por avaliação técnica e operacional e experimentação doutrinária. Em 2024, o sistema foi empregado em experimentação com tropa no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Sant’Ana do Livramento, justamente em ambiente associado à missão de vigilância de fronteira.

O sistema reúne três aeronaves, estações de controle, sensores eletro-ópticos, radares e outros equipamentos de apoio. A XMobots informou recentemente ao LRCA que já acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações em sua família de plataformas e que sua capacidade instalada supera duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas Nauru e o sensor XSIS 222A.

A empresa também vem ampliando a família Nauru. O Nauru 100D, de menor porte, emprega arquitetura eVTOL e foi apresentado em versões de inteligência, vigilância e reconhecimento e, posteriormente, como plataforma armada. Essa amplitude de portfólio pode permitir ao Exército trabalhar com diferentes categorias de SARP em uma arquitetura escalonada. 

Stella Tecnologia amplia a oferta nacional para sistemas de maior porte 
Outra empresa a ser acompanhada é a Stella Tecnologia, responsável pelo desenvolvimento do SARP Atobá. A plataforma foi concebida para missões de vigilância e monitoramento de grandes áreas e possui autonomia muito superior à de pequenos sistemas táticos. O LRCA registrou ainda a existência do projeto Condor, de maior porte e voltado ao monitoramento persistente de fronteiras.

A parceria da Stella com a Thales e a Omnisys acrescenta uma dimensão importante: sensores, sistemas de bordo, comunicações e integração de capacidades. Isso reforça a possibilidade de que futuros programas sejam estruturados não apenas em torno da aeronave, mas de todo o sistema de missão. 

Harpia amplia as opções da BID para vigilância de longo alcance 
Outro sistema que merece atenção nesse cenário é o Harpia, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD). O SARP de asa fixa foi concebido para missões de vigilância e reconhecimento em grandes áreas e apresenta características particularmente adequadas às dimensões e às condições geográficas brasileiras.

O Harpia possui autonomia de até 12 horas, pode ser lançado por catapulta e recuperado por paraquedas e airbag, dispensando pista convencional. Seu sistema de comunicação foi certificado para operações BVLOS a até 180 quilômetros da estação de pilotagem, enquanto a aeronave pode percorrer distâncias muito superiores em sua autonomia de voo. A plataforma também pode receber diferentes cargas úteis, incluindo sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética e equipamentos de guerra eletrônica.

A maturidade do sistema é outro fator relevante. Em abril de 2026, o Harpia recebeu a Autorização de Projeto da ANAC, permitindo sua produção em série, e posteriormente obteve o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA. A AdTech SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa, enquanto o Harpia integra a relação de Produtos Estratégicos de Defesa.

A plataforma também já apresenta experiência operacional. O Governo do Acre adquiriu o sistema para emprego integrado pelos órgãos estaduais de segurança, e o Harpia vem sendo considerado para aplicações em outras regiões de difícil acesso. Em julho de 2026, o sistema participou da Operação Furnas, da Marinha do Brasil, onde foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento em ambiente ribeirinho. A participação ocorreu em meio à avaliação do equipamento para o futuro Programa SARP-E da Marinha.

Para o Exército, o interesse potencial é evidente. As mesmas características que tornam o Harpia adequado ao monitoramento de áreas ribeirinhas, florestais e de difícil acesso também podem ser aplicadas à vigilância de extensos trechos de fronteira. Seu emprego poderia ocupar uma camada intermediária entre pequenos drones táticos e sistemas de maior porte, oferecendo autonomia elevada, mobilidade e capacidade de operar sem infraestrutura aeroportuária convencional.

Akaer, AEL Sistemas e Santos Lab também permanecem relevantes nesse ecossistema. A Akaer possui competências em engenharia aeronáutica e sistemas não tripulados; a AEL Sistemas reúne experiência em SARP, sensores, comunicações e integração de sistemas; e a Santos Lab mantém uma posição consolidada no segmento de plataformas menores, como a família Carcará. O ponto central é que a BID brasileira não depende de uma única solução: há um conjunto crescente de empresas capazes de atender diferentes camadas de uma futura arquitetura nacional de sistemas não tripulados.

Uma arquitetura em camadas pode ser mais provável do que um único drone 
A extensão das fronteiras brasileiras e a variedade de missões sugerem que uma eventual expansão não deverá depender de um único modelo. Pequenos sistemas podem apoiar unidades em missões de reconhecimento local; SARP de Categoria 2 podem proporcionar vigilância tática e operacional; plataformas de maior porte podem realizar missões persistentes sobre grandes áreas.

Nessa arquitetura, a aeronave é apenas um dos elementos. Sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radares, enlaces de dados, estações de controle, processamento de imagens, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras e integração com o SISFRON são componentes igualmente importantes.

O impacto potencial para a Base Industrial de Defesa
A dimensão dos recursos previstos pode produzir efeitos que vão muito além da eventual compra de aeronaves. Um programa de expansão de SARP tende a movimentar fornecedores de sensores, aviônicos, comunicações, software, inteligência artificial, propulsão, estruturas, baterias, estações de controle, logística e manutenção.

Esse aspecto é especialmente relevante porque o Brasil já possui uma cadeia tecnológica capaz de fornecer parte considerável desses elementos. O desafio será transformar competências dispersas em uma arquitetura integrada, com produção em escala, disponibilidade operacional, atualização tecnológica e capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

A XMobots é um exemplo dessa verticalização. Segundo informações divulgadas pela própria empresa e repercutidas pelo LRCA, mais de R$ 220 milhões foram destinados desde 2022 ao desenvolvimento de soluções de Defesa e Segurança. A empresa também afirma possuir uma estrutura que integra engenharia aeronáutica, software embarcado, aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
 
O que ainda não está definido 
É importante evitar interpretações que o PLOA não permite sustentar. A proposta não informa quantos drones serão comprados, quais modelos serão selecionados, quais empresas participarão de futuras concorrências ou qual parcela dos R$ 520 milhões será efetivamente aplicada em sistemas não tripulados.

Além disso, o PLOA é uma proposta. O texto ainda passa pelo Congresso Nacional, pode sofrer alterações e, depois de aprovado e sancionado, sua execução dependerá da programação financeira e da disponibilidade efetiva de recursos.
 
Uma mudança de patamar 
Mesmo com essas ressalvas, há uma mudança qualitativa. O Exército já emprega SARP nacionais e vem experimentando sua utilização em diferentes ambientes. O PLOA 2027 agora explicita “Drones” no nome de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre, ao mesmo tempo em que mantém uma dotação robusta para o SISFRON.

A declaração de José Múcio, portanto, deve ser lida menos como uma ideia isolada e mais como uma manifestação política que converge com uma linha de planejamento já refletida na proposta orçamentária. Se os recursos forem preservados e transformados em contratos, o País poderá assistir a uma expansão significativa do emprego de sistemas não tripulados na vigilância das fronteiras.

Para a Base Industrial de Defesa, a oportunidade é ainda maior: o programa poderá representar não apenas a aquisição de aeronaves, mas a consolidação de uma cadeia nacional de sistemas autônomos, sensores e comando e controle. Nesse cenário, o desafio será fazer com que o investimento em drones se traduza em capacidade operacional permanente, autonomia tecnológica e maior presença brasileira em um dos segmentos que mais rapidamente transformam a guerra e a vigilância territorial.

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