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06 outubro, 2026

Avibras Aeroco faz primeira entrega ao Exército e transforma retomada industrial em resultado concreto

Cinco meses após reiniciar as operações, empresa entrega lote de munições em Formosa; marco ocorre dias depois da transferência de contrato de R$ 60,8 milhões que prevê 3.072 foguetes ASTROS



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LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Avibras Aeroco alcançou nesta terça-feira, 6 de outubro, um dos marcos mais relevantes desde a retomada de suas operações: a entrega do primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro (EB). O material foi recebido no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt), em Formosa (GO), principal estrutura logística de apoio ao Sistema ASTROS da Força Terrestre.


A entrega ocorre apenas cinco meses depois do início oficial das atividades da nova empresa, em maio, após um longo período de crise financeira, recuperação judicial e paralisação industrial da antiga Avibras. Mais do que cumprir uma etapa contratual, o evento representa a primeira demonstração concreta de que a reorganização empresarial conseguiu reativar a cadeia produtiva, recompor equipes especializadas e voltar a colocar material de emprego militar nas mãos do principal cliente nacional da companhia.

Que munições foram entregues? 

A Avibras Aeroco não informou, em seu comunicado, o tipo nem a quantidade das munições que compõem o primeiro lote. Esse ponto impede afirmar, neste momento, que a entrega corresponda a um contrato específico.

Há, entretanto, uma coincidência relevante. Em 25 de setembro, poucos dias antes da entrega, foi publicada a sub-rogação total do Contrato nº 130/2023, pelo qual a Avibras Aeroco assumiu da Avibras Divisão Aérea e Naval S.A. todos os direitos e obrigações de uma encomenda do Exército no valor de R$ 60.800.818,56, com vigência até 31 de dezembro de 2026.

Como o LRCA Defense Consulting revelou em 28 de setembro, a documentação original desse contrato prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, destinados ao treinamento das guarnições, e 56 contêineres completos AV-CL/SS-30, cada um contendo oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições.

Os AV-SS-09 TS representam a maior parcela quantitativa da encomenda e somam R$ 37,96 milhões. Os contêineres com os 448 SS-30 correspondem a outros R$ 22,85 milhões. Embora a proximidade entre a transferência contratual e a entrega desta terça-feira torne plausível uma relação entre os dois fatos, não há, até o momento, confirmação pública da empresa ou do Exército que permita estabelecer essa vinculação como fato. 



De uma fábrica paralisada à primeira entrega em cinco meses 
A velocidade da retomada é um dos aspectos mais relevantes do anúncio. A Avibras Aeroco iniciou oficialmente suas operações em maio de 2026, reunindo ativos estratégicos, instalações e o portfólio tecnológico transferidos no processo de reorganização da antiga Avibras Indústria Aeroespacial.

A reativação foi apoiada por uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O processo permitiu reintegrar trabalhadores, contratar profissionais especializados, recompor fornecedores e colocar novamente em funcionamento áreas ligadas à fabricação de mísseis, foguetes, veículos especiais e sistemas aeroespaciais.

Em maio, a nova companhia também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Em julho, durante visita às instalações de Jacareí (SP), o Ministério da Defesa registrou que a fábrica já operava na produção de componentes metálicos para mísseis e foguetes, na montagem de sistemas de defesa e na fabricação de veículos especiais.

Segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a empresa precisou, nesses cinco meses, ativar áreas produtivas, incorporar mão de obra especializada e restabelecer elos de sua cadeia de suprimentos. A primeira entrega mostra que essa recomposição ultrapassou a fase de preparação fabril e chegou efetivamente à etapa de produção, aceitação logística e fornecimento ao cliente.

O Exército como elemento central da recuperação 
O Exército Brasileiro tem exercido papel central na retomada da Avibras Aeroco. Já em 6 de maio, representantes da empresa reuniram-se no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, com autoridades responsáveis por fabricação, tecnologia, avaliação e artilharia para alinhar demandas em andamento e discutir futuros contratos.

Em julho, nova reunião na unidade industrial de Jacareí reuniu a Diretoria de Fabricação, o Comando de Artilharia do Exército, as gerências do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e do Subprograma Artilharia de Campanha, além da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia. O encontro tratou tanto dos contratos existentes quanto de novas possibilidades de cooperação.

A escolha de Formosa para a primeira entrega é igualmente significativa. O Forte Santa Bárbara concentra o Comando de Artilharia do Exército e organizações diretamente ligadas ao emprego, treinamento, manutenção e logística de mísseis e foguetes. É ali que se encontra o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, responsável por sustentar a capacidade operacional do ASTROS.

ASTROS volta ao centro da atividade industrial 

O Sistema ASTROS continua sendo o principal ativo tecnológico e comercial da Avibras Aeroco. Desenvolvido no Brasil e exportado para diferentes países, o sistema permite empregar munições de diferentes calibres e alcances a partir de uma arquitetura móvel de lançadores, viaturas de comando, remuniciamento, apoio e controle de tiro.

Para o Exército, a disponibilidade regular de foguetes não se limita à formação de estoques. As munições de treinamento são necessárias para manter guarnições qualificadas, realizar exercícios de tiro e preservar a prontidão de unidades especializadas. Já os foguetes operacionais recompõem e ampliam a capacidade de fogo da Força Terrestre.

A retomada industrial ocorre paralelamente à evolução tecnológica do próprio ASTROS. Em agosto, Avibras Aeroco e Exército realizaram com sucesso mais uma etapa da certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), no Centro de Avaliações do Exército, na Restinga da Marambaia (RJ). O armamento, integrado ao sistema, foi desenvolvido para alcançar alvos a até 300 quilômetros.

O Programa Estratégico ASTROS-FOGOS também contempla a evolução da artilharia brasileira para capacidades de maior alcance e precisão, incluindo o foguete guiado SS-40G e o MTC, além da modernização mais ampla da Artilharia de Campanha. 


Mudança de controle avança em paralelo 
A recuperação operacional ocorre ao mesmo tempo em que a estrutura de controle da empresa passa por nova transformação. Em agosto, a Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, acertou a aquisição da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco.

Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições, ao concluir que a transação representava essencialmente uma substituição de agente econômico, sem potencial de produzir problemas concorrenciais. O valor da aquisição não foi divulgado.

A combinação de novo capital, continuidade dos contratos militares e retomada das linhas industriais cria uma situação bastante diferente daquela enfrentada pela companhia nos últimos anos. A sustentabilidade dessa recuperação, porém, continuará dependendo de encomendas domésticas, exportações, investimentos em desenvolvimento tecnológico e capacidade de manter uma cadeia de fornecedores compatível com produtos de defesa de alta complexidade.

Um marco que pode ser mais importante que o tamanho do lote 

Mesmo sem a divulgação da quantidade entregue nesta terça-feira, o significado industrial do evento é claro. Para uma fabricante de sistemas complexos, voltar a produzir não significa apenas religar máquinas. É necessário requalificar processos, restabelecer fornecedores, assegurar matérias-primas e componentes, recompor equipes de engenharia e produção, executar controles de qualidade e atender aos requisitos de aceitação do cliente militar.

A primeira entrega ao Exército indica que a Avibras Aeroco conseguiu percorrer esse ciclo em aproximadamente cinco meses. Trata-se de um indicador concreto de recuperação de capacidade produtiva, ainda que não seja suficiente, isoladamente, para assegurar a sustentabilidade financeira de longo prazo da companhia.

O próximo ponto a observar será a cadência das entregas. Caso o lote esteja relacionado ao Contrato nº 130/2023, a empresa terá diante de si uma encomenda que, em sua configuração original, envolve milhares de foguetes e prazo contratual até o fim de dezembro. Se pertencer a outro instrumento, a entrega continuará tendo relevância própria e reforçará a existência de uma carteira em execução.

De qualquer forma, cinco meses depois de iniciar uma nova etapa empresarial, a fabricante do ASTROS voltou a fazer aquilo que constitui a razão central de sua existência: transformar tecnologia nacional em sistemas e munições entregues às Forças Armadas brasileiras.

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