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18 julho, 2026

Drones viram táxis de mísseis: a nova camada que estende o alcance da artilharia antiaérea

Alemanha e Rússia já demonstram, por caminhos opostos, que um drone pode multiplicar o alcance de um míssil de defesa aérea; no Brasil, a mesma empresa por trás do conceito alemão, a Diehl Defence, acaba de reforçar sua parceria industrial com a AEL Sistemas em meio à disputa ainda indefinida pelo futuro sistema antiaéreo de média altura do Exército


*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026

A Diehl Defence, principal fabricante alemã de mísseis, e a Polaris Raumflugzeuge, startup aeroespacial também alemã, apresentaram na ILA Berlin 2026, em 10 de junho, um conceito que pode mudar a forma como sistemas de defesa antiaérea de curto e médio alcance são empregados. O Cobra 600, também chamado de Airborne Launching and Attack System (AirLAS), é um drone a jato capaz de carregar um único míssil IRIS-T e levá-lo a centenas de quilômetros de distância da bateria terrestre antes do lançamento, funcionando como um táxi de mísseis avançado.

Como funciona o táxi de mísseis
O Cobra 600 não carrega sensores próprios de busca de alvo. Em operação, o drone permanece conectado por link de dados a um sistema de defesa antiaérea terrestre, que detecta o alvo e o designa remotamente. O drone é então guiado até uma posição de disparo vantajosa, e o próprio buscador infravermelho de imagem (IIR) do míssil IRIS-T assume a aquisição final e o engajamento, após comando de disparo emitido por um operador em terra.

A diferença de alcance é o núcleo do conceito. Segundo a Diehl, o Cobra 600 com o míssil instalado tem alcance de cerca de 400 quilômetros, ante aproximadamente 40 quilômetros do IRIS-T SLM lançado do solo e cerca de 12 a 13 quilômetros do IRIS-T SLS, a versão de alcance ainda mais curto. Na prática, ao retirar o míssil do chão e levá-lo à frente por um vetor não tripulado, a Diehl transforma um sistema de defesa aérea de curto alcance em algo funcionalmente equivalente a um míssil de longo alcance, sem alterar o míssil em si.

O drone tem 6 metros de comprimento (origem do nome Cobra 600), configuração de asa delta com estabilizadores verticais nas pontas das asas e trem de pouso triciclo retrátil, o que permite decolagem e pouso em pistas convencionais ou trechos de rodovia preparados. O exemplar mostrado em Berlim usava dois motores turbojato JetCat P1000-PRO, com capacidade estrutural para receber mais dois, em configuração de quatro motores já antecipada em imagens conceituais divulgadas pela Polaris. O sistema é reutilizável: se o míssil não for disparado ou a missão for interrompida, o drone retorna à base.

O programa foi lançado em 2025, a partir de acordo de cooperação firmado no Paris Air Show daquele ano entre Helmut Rauch, presidente-executivo da Diehl Defence, e Alexander Kopp, presidente-executivo da Polaris Raumflugzeuge. O desenvolvimento é financiado majoritariamente pela própria Diehl, mas a empresa já teria recebido aporte de ao menos uma nação interessada, não identificada publicamente. O primeiro voo de teste, com um míssil fictício instalado, já foi concluído.

Um conceito que já tem precedente, ainda que rudimentar
A ideia de armar um drone com um míssil de defesa aérea não nasce isolada. Desde os primeiros anos da guerra na Ucrânia, a Rússia vem equipando variantes de seus drones Shahed/Geran, de fabricação iraniana licenciada, com mísseis ar-ar R-60, mais antigos e de capacidade inferior ao IRIS-T, ou mesmo mísseis portáteis de defesa antiaérea (MANPADS). O objetivo russo é semelhante em espírito, ou seja, ampliar a capacidade de interceptação de um vetor não tripulado, mas o resultado é tecnicamente mais limitado: o R-60 é uma arma de geração anterior, a integração é improvisada e a manobrabilidade das plataformas russas é inferior à do Cobra 600, que é maior, a jato e projetado desde a concepção para essa função.

Ainda assim, o paralelo russo importa para o argumento central da matéria: dois países em situações estratégicas muito diferentes, a Alemanha reforçando a defesa aérea da Otan e a Rússia sustentando uma guerra de atrito, chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão. Um drone barato pode funcionar como extensão de alcance de um sistema de defesa antiaérea que, de outra forma, ficaria limitado ao seu envelope de disparo original.

Drone russo Geran-2 armado com um míssil ar-ar R-60 guiado por infravermelho

O que muda na equação da defesa antiaérea
O conceito ataca uma vulnerabilidade estrutural de qualquer bateria de defesa antiaérea terrestre: o lançador, estacionado e com coordenadas conhecidas, é um alvo de alto valor e baixa mobilidade relativa. Ao lançar o interceptador a partir de uma posição avançada e móvel, em vez de depender exclusivamente do lançador fixo, o operador ganha a possibilidade de engajar ameaças antes que elas cheguem ao alcance de radares terrestres, driblando limitações impostas por terreno e horizonte de radar, além de reduzir o número de radares e lançadores de alto valor que precisam ficar expostos perto da linha de frente.

A Diehl afirma que a arquitetura AirLAS tem potencial de integração com o Future Combat Air System (FCAS), o futuro sistema de combate aéreo europeu, e de adaptação para uso naval, o que sugere ambição além do nicho terrestre inicial. Ainda não há detalhes públicos sobre custo unitário do Cobra 600, cronograma de produção em série ou o nome da nação que já teria investido no programa.

E o Brasil?
O Brasil ainda não tem, em nenhuma fase de desenvolvimento conhecida, um conceito equivalente ao Cobra 600, mas o momento é particularmente sensível para o tema, porque a própria empresa por trás do drone alemão, a Diehl Defence, está no centro da disputa em curso pelo futuro sistema antiaéreo de média e alta altura do Exército Brasileiro, hoje limitado a meios de baixa altitude como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Reportagens do setor mostraram que, entre os candidatos avaliados, estão o IRIS-T SLM/SLS, da Diehl, o Aster (SAMP/T), da Eurosam, e o EMADS, da MBDA; uma portaria assinada pelo chefe do Estado-Maior do Exército, revelada em janeiro, já indicaria o EMADS, associado a um acordo de cooperação governamental com a Itália, como opção definida, mas sem data nem valor de contrato divulgados até o momento, o que significa que a disputa segue, na prática, em aberto.

Nesse cenário, a Diehl Defence e a AEL Sistemas assinaram, em 3 de julho de 2026, em Brasília, um memorando de entendimento para reforçar a cooperação nos programas brasileiros de defesa aérea terrestre de médio e longo alcance. No arranjo, a Diehl segue como contratante principal dos sistemas IRIS-T SLM e, no futuro, do IRIS-T SLX, enquanto a AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems com participação minoritária da Embraer, atua como parceira nacional responsável pela integração de componentes brasileiros, entre eles o enlace de dados tático Link BR2, além do suporte logístico no país. Segundo o executivo-chefe da Diehl, Helmut Rauch, a cooperação de longa data entre as duas empresas, já presente na integração do IRIS-T aos caças F-5M e F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira, estabelece a base industrial para o IRIS-T SLX, que o executivo descreveu como fundamento de uma solução antiaérea soberana para o país.

O IRIS-T SLX, apresentado pela Diehl na feira Enforce Tac 2026, amplia o alcance de engajamento para perto de cem quilômetros, num mesmo lançador de oito células que também aceita munições SLM, sem exigir mudança de radar ou de arquitetura de controle, aproximando-se do patamar de sistemas como o Patriot americano, embora sem substituí-lo. Não há, até o momento, confirmação de que o memorando com a AEL Sistemas altere a definição já reportada para o programa de média altura do Exército; a leitura mais provável é que o acordo mire, antes, a consolidação da presença do IRIS-T já estabelecida na Força Aérea Brasileira como plataforma para uma futura camada terrestre baseada no SLX.

O episódio é relevante para esta matéria por um motivo direto: a mesma empresa que desenvolve o Cobra 600, e o mesmo míssil IRIS-T que o Cobra 600 carrega, já têm parceiro industrial estabelecido e reconhecido pelo Exército e pela Força Aérea Brasileiros. Isso não significa que o conceito de extensão de alcance por drone esteja sendo oferecido ao Brasil, não há indício disso nas fontes consultadas, mas reduz a distância entre a tecnologia demonstrada em Berlim e um eventual interesse brasileiro, caso o programa avance e a Diehl decida ampliar seu portfólio ofertado ao país.

É nesse ponto que vale olhar para as peças que o Brasil já tem no tabuleiro, ainda que nenhuma delas esteja hoje reunida num programa formal equivalente ao Cobra 600. No campo da plataforma aérea, a Stella Tecnologia é a candidata natural: a empresa, que já desenvolveu o Atobá, maior VANT de longa autonomia produzido no país, testou em voo, em dezembro de 2025, o Albatroz Vortex equipado com a turbina ATJR 15-5, da AERO Concepts, tornando o Brasil um dos poucos países capazes de projetar, fabricar e voar uma turbina a jato nacional integrada a um drone militar. Há ainda a Nest Design Aerospace, que apresentou o ATD-150, drone a jato voltado a simulação de alvos aéreos e de mísseis de cruzeiro, com motor da Turbomachine, outra fabricante nacional de turbinas.

Drones Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA

No campo da integração de armamento a um drone, a XMobots já tem experiência prática: o Nauru 1000C, primeiro drone armado brasileiro, recebeu o míssil leve guiado Enforcer, da MBDA, num arranjo tecnicamente distinto do Cobra 600, mas que demonstra domínio do processo de qualificar uma aeronave não tripulada para carregar e lançar um míssil guiado. Já a AEL Sistemas, subsidiária da Elbit Systems com participação minoritária da Embraer, é hoje parceira formal da própria Diehl Defence na integração do IRIS-T no Brasil, o que a credenciaria, em tese, a atuar como integradora nacional caso a Diehl decidisse um dia oferecer o conceito Cobra 600 ao País. 
 
Nenhuma dessas empresas anunciou, até o momento, um programa de extensão de alcance por drone nos moldes do AirLAS; o que existe, por ora, são competências isoladas, propulsão a jato nacional, integração de mísseis em drones e relacionamento industrial direto com a Diehl, que, somadas, aproximam o Brasil desse tipo de projeto mais do que a ausência de um programa formal sugere à primeira vista.

07 julho, 2026

Diehl Defence e AEL Sistemas assinam memorando para reforçar defesa aérea do Brasil

Acordo fechado em Brasília amplia a parceria em torno do IRIS-T e ocorre em meio à disputa entre concorrentes europeus pelo futuro sistema antiaéreo de média altura do Exército Brasileiro

 


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LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

A alemã Diehl Defence e a brasileira AEL Sistemas assinaram, na sexta-feira (3), em Brasília, um memorando de entendimento (memorandum of understanding, MoU) para reforçar a cooperação nos programas brasileiros de defesa aérea terrestre de médio e de longo alcance, segmento conhecido pela sigla em inglês GBAD (ground based air defence). Segundo comunicado da Diehl Defence, o documento reafirma uma parceria estratégica de longa data entre as duas empresas e formaliza o compromisso conjunto com o desenvolvimento das capacidades antiaéreas do país.

No arranjo, a Diehl Defence segue como contratante principal (prime contractor) dos sistemas IRIS-T SLM, de médio alcance, e, no futuro, do IRIS-T SLX, de alcance estendido. Já a AEL Sistemas atua como parceira nacional, responsável pela integração de componentes tecnológicos brasileiros, entre eles o enlace de dados táticos Link BR2, além do suporte logístico dentro do país.

Conforme a nota da fabricante alemã, o memorando reforça projetos já em curso, como a adoção do IRIS-T como armamento padrão dos caças F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB), e dá continuidade à colaboração de longa data entre as duas empresas voltada à integração do IRIS-T à frota de caças F-5. Essa base de sistemas já existente, segundo a Diehl, deve sustentar o programa de GBAD do Exército Brasileiro.

A assinatura ocorreu durante visita de uma delegação empresarial alemã à América do Sul, liderada pelo ministro federal das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, que esteve em São Paulo e em Brasília nos dias 2 e 3 de julho. O périplo, segundo nota do Itamaraty, deu seguimento à agenda bilateral discutida na 3ª Reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível, realizada em abril, em Hanôver, sob o chanceler federal Friedrich Merz e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele encontro, os dois países já haviam firmado um memorando de cooperação para a aquisição de equipamentos de defesa e atividades correlatas, o que a Diehl Defence descreve como evidência da intensificação da agenda de cooperação teuto-brasileira.

O executivo-chefe da Diehl Defence, Helmut Rauch, afirmou que o Brasil é um mercado estrategicamente importante para a companhia na América do Sul e descreveu a AEL Sistemas como uma parceira que conhece e entende as necessidades das forças armadas do país. Segundo Rauch, a cooperação de longa data une o desempenho do míssil IRIS-T e do IRIS-T SLM, já testado em combate, à expertise brasileira em integração, o que também permite estabelecer a base industrial para o sistema IRIS-T SLX, apontado pelo executivo como fundamento de uma solução antiaérea soberana e sustentável para o Brasil.

Uma parceira com raízes na indústria nacional e vínculo com Israel
A AEL Sistemas é uma empresa brasileira com mais de quarenta anos de atuação em sistemas eletrônicos militares e espaciais, hoje subsidiária do grupo israelense Elbit Systems, com participação minoritária da Embraer em seu capital. Além do desenvolvimento do Link BR2, a companhia integra outros programas estratégicos de comando e controle do Ministério da Defesa, como o Sterna, o SIC3MB e o RDS-Defesa, e forneceu sistemas embarcados para plataformas como o A-29 Super Tucano, o F-5M, o E-99 e o KC-390 Millennium.

O Link BR2, enlace tático criptografado que compartilha dados entre aeronaves, radares e centros de comando, está em operação desde 2020 nos caças F-5M e avança em fase de integração ao F-39 Gripen; workshop realizado no Laboratório de Guerra Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica reuniu, em julho de 2025, representantes da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate, do Comando de Preparo, do Primeiro Grupo de Defesa Aérea e do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial para acelerar esse processo.

Uma disputa ainda em aberto no Exército
O memorando chega em um momento de indefinição sobre qual sistema deve equipar o programa específico do Exército Brasileiro para defesa antiaérea de média e de alta altura, lacuna identificada como prioridade emergencial pela força, que hoje conta apenas com meios de baixa altitude, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Reportagens do setor mostraram que, entre os candidatos avaliados pelo Exército, estavam o IRIS-T SLM/SLS, da Diehl Defence, o Aster (SAMP/T), da Eurosam, e o EMADS, da MBDA; segundo apuração publicada em janeiro, uma portaria assinada pelo chefe do Estado-Maior do Exército já indicaria o sistema italiano EMADS, associado a um acordo de cooperação governamental, como a opção definida para o projeto, sem data nem valor de contrato ainda divulgados.

Diante desse cenário, o memorando entre a Diehl Defence e a AEL Sistemas parece mirar, antes, a consolidação da presença do IRIS-T já estabelecida na Força Aérea Brasileira, com a integração ao F-39 Gripen e à futura frota de F-5, e a possibilidade de que essa base sirva de plataforma para uma futura camada de defesa aérea terrestre baseada no IRIS-T SLX. Não há, até o momento, confirmação de que o acordo altere a definição já reportada para o programa de média altura do Exército, e a própria nota da Diehl Defence não detalha qual órgão das Forças Armadas seria o cliente final da cooperação anunciada.

O IRIS-T SLX, apresentado pela Diehl Defence na feira Enforce Tac 2026, combina em um mesmo lançador de oito células munições das famílias SLM e SLX, sem exigir mudanças no radar ou na arquitetura de controle já existentes, e amplia o alcance de engajamento para perto de cem quilômetros, aproximando-se do patamar de sistemas como o Patriot, americano, embora sem substituí-lo por completo.

Contexto mais amplo da cooperação teuto-brasileira
A assinatura em Brasília integra uma agenda mais ampla da visita de Wadephul ao Brasil, que também incluiu um evento sobre terras raras na embaixada alemã e a participação do chanceler alemão em painel sobre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, promovido pela Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo. Nesses eventos, representantes dos dois governos citaram defesa, segurança e minerais críticos entre os setores prioritários para o aprofundamento do relacionamento bilateral, o que reforça a leitura de que o memorando entre a Diehl Defence e a AEL Sistemas se insere em um esforço diplomático e industrial coordenado, e não em um episódio isolado.

06 julho, 2026

Plano para destravar o ATMOS une Elbit e Avibras Aeroco em Jacareí

Segundo o Estadão, o Ministro José Múcio obteve aval de Lula para acordo que tornaria o obuseiro israelense montado no Brasil; AEL Sistemas negocia com a Avibras Aeroco e o sistema PULS, da Elbit, entra no pacote; comandante do Exército visitou as 18 unidades fabris de Jacareí em 1º de julho; inauguração oficial do complexo foi adiada a pedido da Presidência 

ATMOS 2000

*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

A AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, está negociando com a Avibras Aeroco um acordo que pode finalmente destravar a licitação bilionária por meio da qual o Exército Brasileiro pretende adquirir 36 viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR). A informação é da coluna do jornalista Marcelo Godoy, publicada nesta segunda-feira (7) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo a coluna, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, obteve do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sinal verde para o acordo, que tornaria o ATMOS 2000 "100% nacional", expressão que traduz o enquadramento político da solução, não uma realidade industrial estrita, já que o obuseiro em si é produto israelense. A ideia é que a Avibras Aeroco, que retomou as operações em seu complexo de Jacareí (SP) após aporte de R$ 300 milhões de um grupo de investidores que inclui os irmãos Joesley e Wesley Batista, seja responsável pela montagem e integração local do sistema.

Licitação vencida, contrato suspenso
O ATMOS 2000, montado sobre chassi Tatra T-815 6×6, venceu em abril de 2024 a licitação internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, superando o Zuzana 2 (Excalibur International, Tchéquia), o CAESAR (KNDS, França) e o SH-15 (Norinco, China). O valor estimado do contrato é de cerca de US$ 210 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão ou 180 milhões de euros, dependendo da cotação). A escolha foi considerada tecnicamente superior em desempenho, alcance, precisão e proposta de transferência de tecnologia.

O contrato, no entanto, foi suspenso ainda em 2024. O PT e aliados entendiam que a compra poderia contribuir indiretamente para o esforço de guerra israelense na Faixa de Gaza. Apesar do aval técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), que em dezembro de 2024 rejeitou a medida cautelar da KNDS contra o resultado, e do visto político que o próprio Lula havia dado à compra original, as negociações permaneceram paralisadas. Como escreveu Godoy, parte do governo parecia seguir o ensinamento de Hans Morgenthau: as Forças Armadas são instrumento da política externa, não o seu senhor.

A Avibras como chave política e industrial
A solução desenhada pelo ministério serve a dois objetivos simultâneos. O primeiro é político: associar uma empresa brasileira de grande porte ao projeto reduz o peso simbólico da compra israelense e oferece ao governo uma narrativa de fortalecimento da indústria nacional. O segundo é industrial: a Avibras Aeroco, dona do maior complexo fabril de defesa da América Latina, com 2,7 milhões de metros quadrados e 18 unidades fabris encravadas na Serra do Mar, perto da Rodovia dos Tamoios, já opera o chassi Tatra, o mesmo utilizado no ASTROS II e previsto para o ATMOS.

Em 1º de julho, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, acompanhado do comandante do Sudeste, general Ricardo Piai Carmona, e dos generais Everton Pacheco da Silva (Escritório de Projetos do Exército), Erb Lyra Leal (Departamento de Ciência e Tecnologia), Marcelo Lorenzi Zucco (2ª Divisão de Exército) e Evandro Luís Amorim Rocha (Aviação do Exército), visitou todas as unidades fabris do complexo de Jacareí. Embora o tema do ATMOS não tenha sido tratado diretamente na visita, a coluna do Estadão informa que a alternativa de nacionalização da montagem já é objeto de "conversas iniciais" entre a Força Terrestre, a Avibras Aeroco e a Elbit/AEL. Entre os generais, a solução é vista positivamente como vetor de desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID).

A empresa hoje conta com 500 funcionários, cerca de um terço do efetivo de quando operava a pleno vapor, e deve entregar os primeiros dois lotes de munições ao Exército ainda em 2026. A Avibras Aeroco trata o tema do ATMOS com cautela, tanto por razões empresariais quanto políticas, já que está em fase inicial de retomada.

Sistema PULS

O PULS e a artilharia de precisão integrada
O pacote negociado vai além do obuseiro. Segundo a coluna do Estadão, a AEL Sistemas pode oferecer à Avibras Aeroco também o sistema de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis Precise & Universal Launching System (PULS), desenvolvido pela Elbit. O PULS é uma plataforma de alta precisão e flexibilidade, capaz de disparar diferentes tipos de munições: foguetes não guiados, foguetes guiados e mísseis balísticos de teatro (TBMs - projéteis de curto e médio alcance projetados para atingir alvos dentro de um "teatro de operações" militar específico) a partir de uma mesma unidade de lançamento.

Tanto o ATMOS quanto o PULS podem ser montados sobre o chassi Tatra, o mesmo utilizado pela Avibras no ASTROS II. Segundo oficiais do Exército ouvidos pela coluna, essa compatibilidade abre caminho para uma evolução natural do ASTROS, com ganho expressivo de capacidade de fogo de precisão a longa distância. A integração simplificaria também a cadeia logística da Força Terrestre, que já opera e mantém o chassi tcheco.

É por meio do ASTROS que a Avibras Aeroco planeja lançar o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de até 450 km e previsto para teste em novembro de 2026, e o futuro Míssil Tático Balístico (S+100), de natureza hipersônica. A eventual incorporação do PULS ao mesmo sistema de lançamento criaria uma plataforma de fogo de precisão que abrangeria desde foguetes não guiados até mísseis de teatro.

O contexto que pressiona por uma decisão
A urgência em torno do programa vai além do impasse político com Israel. O Exército Brasileiro opera hoje obuseiros com projetos de cerca de 70 anos. O general Tomás Paiva tem reiterado publicamente a necessidade de modernização da artilharia divisionária diante do novo cenário geopolítico, citando os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio como demonstração da centralidade do fogo de precisão, dos drones e dos mísseis no campo de batalha moderno. Na sexta-feira (4), o general reafirmou à coluna do Estadão com síntese direta: "Nós queremos drones."

No SSNTFT 2026, realizado em Brasília em 27 de maio, o mesmo general havia rompido com décadas de discurso oficial ao afirmar: "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça." Dias antes, o ministro Múcio, em encontro reservado com representantes da BID, havia sido ainda mais contundente: "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa."

É nesse ambiente que a solução Elbit/AEL/Avibras ganha tração. A perspectiva de um acordo de paz no Oriente Médio, somada à nacionalização da montagem, oferece ao governo Lula uma saída que preserva a escolha técnica do Exército sem o custo político de um contrato direto com empresa israelense em plena guerra. Para a BID brasileira, representa a possibilidade de que o maior programa de artilharia do Exército em décadas ancore capacidade produtiva real em território nacional.

Próximos passos... e um adiamento que fala por si
As conversas entre Exército, Avibras Aeroco e Elbit/AEL estão em estágio inicial. Não há anúncio oficial de contrato assinado. O desfecho depende da conclusão das negociações entre as empresas, da formalização do aval presidencial em instrumento contratual e, possivelmente, da evolução do quadro diplomático no Oriente Médio.

Nesse contexto, um detalhe da agenda chama atenção. A inauguração oficial do complexo de Jacareí, originalmente marcada para 2 de julho de 2026, foi adiada com poucos dias de antecedência a pedido formal da Presidência da República, para permitir a participação de autoridades do governo federal. 

A justificativa oficial é protocolar. Mas a coincidência com o momento em que o sinal verde presidencial para o acordo ATMOS/Avibras acaba de ser dado, segundo a coluna do Estadão, abre uma leitura alternativa, além de uma possível injeção de novos recursos e da mera capitalização política do evento: o governo pode preferir que a cerimônia ocorra já num estágio mais avançado ou formalizado das negociações, transformando a inauguração num marco político de peso, não apenas para a Avibras Aeroco, mas para o próprio governo Lula, que teria, enfim, uma narrativa de solução para um impasse que se arrasta há mais de dois anos.

26 junho, 2026

Link-BR2: tecnologia nacional consolida interoperabilidade entre as Forças Armadas


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LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou, em 25 de junho, um balanço sobre o emprego do Link-BR2 durante operações conjuntas recentes, reforçando o papel do sistema nacional de enlace de dados na construção de uma arquitetura de comando e controle mais integrada entre Marinha, Exército e Aeronáutica. Segundo a Agência Força Aérea, a tecnologia permite o compartilhamento seguro e instantâneo de informações entre aeronaves, radares, sensores e centros de comando, formando uma visão operacional comum e reduzindo o tempo de análise e decisão em cenários de alta complexidade.

Uma rede que substitui o rádio convencional
O Coronel Aviador da Reserva Fernando Mauro Medardoni, responsável pelo projeto na AEL Sistemas, empresa desenvolvedora da plataforma, recorre a uma analogia para explicar o funcionamento do sistema. “O Link-BR2 pode ser entendido como uma grande rede de dados que conecta os principais atores no cenário tático de forma segura e eficaz. É como se estivéssemos levando a lógica da internet para o ambiente operacional militar”, afirma. Na prática, dados como posição de meios aéreos e informações de sensores passam a ser distribuídos em rede, em vez de transmitidos isoladamente por voz, o que, segundo o oficial, transforma informações de valor limitado em uma visão ampliada e coordenada do cenário.

Da entrada em operação ao caça Gripen
O Link-BR2 é desenvolvido pela AEL Sistemas (em parceria com a Mectron Communication) e está em operação desde 2020, integrado inicialmente aos caças F-5M. Em outubro de 2024, o programa concluiu uma etapa de testes em que, pela primeira vez, os voos contaram com soluções embarcadas de criptografia e cibersegurança desenvolvidas pela Kryptus, etapa apontada como crucial para a certificação final do sistema.

Mais recentemente, entre os dias 22 e 24 de julho de 2025, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) sediou, no Laboratório de Guerra Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um workshop dedicado à integração do Link-BR2 ao caça F-39 Gripen, reunindo militares da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), do Comando de Preparo (Comprep), do 1º Grupo de Defesa Aérea e do próprio DCTA. Para o Coronel Romulo Silva de Oliveira, representante da Copac, o encontro foi decisivo para o progresso operacional da Força; já o Coronel George Luiz Guedes de Oliveira, gerente técnico do projeto F-X2, destacou o Link-BR2 como uma das principais ferramentas de conectividade e consciência situacional da FAB.

O sistema integra ainda um conjunto mais amplo de programas sensíveis de comando e controle conduzidos pela AEL Sistemas para o Ministério da Defesa, entre eles o Sterna, o SIC3MB e o RDS-Defesa, este último voltado ao rádio definido por software para interoperabilidade entre as três Forças.

Exportação e dependência tecnológica: duas faces da mesma moeda
A maturidade alcançada pelo Link-BR2 já repercute fora do país. Durante a feira aeroespacial chilena FIDAE 2026, em abril, a Alada (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil) firmou memorando de entendimento com a AEL Sistemas para ampliar a atuação conjunta em exportações governamentais (no modelo G2G), colocando o Link-BR2, ao lado do WAD (Wide Area Display) do Gripen, no radar de potenciais parceiros internacionais.

Esse avanço, contudo, convive com um ponto de atenção identificado por analistas do setor: a AEL Sistemas é subsidiária da israelense Elbit Systems no Brasil. Um eventual veto político brasileiro à aquisição de produtos e serviços de empresas israelenses, hipótese discutida em análises do setor de defesa ao longo de 2025, poderia, em tese, afetar a continuidade de programas que dependem da AEL, entre eles o próprio Link-BR2, o Sisfron e a suíte aviônica do F-39 Gripen. Trata-se, até o momento, de um risco hipotético, sem decisão de governo confirmada, mas que ilustra a sensibilidade estratégica da cadeia de fornecimento por trás de um sistema apresentado como símbolo de soberania tecnológica nacional.

 

Escudo-Tínia 2026: a vitrine do combate em rede
O emprego mais recente do Link-BR2 ocorreu durante o Exercício Conjunto (Excon) Escudo-Tínia 2026, realizado de 11 a 29 de maio na Base Aérea de Anápolis (BAAN), pela primeira vez fora do Rio Grande do Sul, sede tradicional do treinamento. A edição reuniu mais de 40 aeronaves (entre elas F-39 Gripen, F-5M, A-29 Super Tucano, A-1M, E-99, KC-390 Millennium e C-105 Amazonas), cerca de 2.000 militares e quase 1.000 horas de voo, com meios da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da FAB.

Em visita operacional à BAAN no dia 20 de maio, oficiais-generais das três Forças destacaram o papel do sistema na integração alcançada durante o exercício. “O grande sucesso desse exercício conjunto é reunir as Forças Armadas em torno de sistemas integrados, como o Link-BR2. Com todas as Forças conectadas, conseguimos ampliar a interoperabilidade e a capacidade de atuação conjunta”, afirmou um dos oficiais-generais presentes. O Major-Brigadeiro do Ar Ramiro Kirsch Pinheiro, Vice-Chefe de Operações Conjuntas do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, reforçou que o exercício permite treinar a proteção do espaço aéreo nacional de forma integrada entre meios aéreos, sistemas de defesa antiaérea e estruturas de operações especiais das três Forças.

O conjunto dos episódios recentes, do workshop de integração ao Gripen à validação em ambiente operacional no Escudo-Tínia, indica que o Link-BR2 deixou de ser um projeto em fase de maturação para se consolidar como peça central da arquitetura de comando e controle das Forças Armadas brasileiras, com efeitos que já transbordam para a política de exportação da base industrial de defesa nacional.

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