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18 julho, 2026

AERO Concepts e IAE apresentam turbina a etanol aerotransportável pelo KC-390

Unidade geradora UGEE1000BR, apresentada no Instituto de Aeronáutica e Espaço em São José dos Campos, resulta de duas décadas de parceria entre a empresa e a Força Aérea Brasileira e coloca o País entre os seis do mundo capazes de produzir turbinas a gás
 
 
*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026
 
Na última segunda-feira, 13 de julho, a AERO Concepts apresentou a UGEE1000BR ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), unidade vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos (SP). O equipamento é a primeira unidade brasileira de geração de energia elétrica equipada com turbina a gás desenvolvida integralmente no País e movida a etanol hidratado, combustível renovável amplamente disponível no território nacional.
A agenda reuniu autoridades de primeiro escalão do Governo Federal e da Aeronáutica, entre elas o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno. A presença de autoridades desse nível evidenciou a relevância estratégica atribuída ao projeto pelo Governo.
Duas décadas de trabalho conjunto
A entrega da UGEE1000BR ocorreu dois anos após o desafio lançado pelo presidente Lula e pelo comandante da Aeronáutica para o desenvolvimento da primeira unidade geradora movida integralmente a etanol, mas a trajetória tecnológica que sustenta o projeto é bem mais longa. Segundo a AERO Concepts, o trabalho é uma continuidade de pesquisas iniciadas em 2005 entre as equipes da empresa e do DCTA, com investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento a partir de 2016.
A base tecnológica do projeto é a TR5000 (também identificada como ATJA45-30), principal plataforma de turbinas a gás aeronáuticas da AERO Concepts, desenvolvida em parceria com a FAB sob o DCTA. Para a aplicação de geração elétrica em solo, a turbina foi reconfigurada para operar com etanol, dando origem ao protótipo funcional integrado a um contêiner transportável que resultou na UGEE1000BR.
O diretor do Grupo AERO Concepts, engenheiro Alexandre Roma, classificou o momento como um marco forjado em vinte anos de parceria entre as equipes da empresa e da FAB, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo ele, o feito prova que "o Brasil agora domina tecnologias restritas a pouquíssimas nações", ainda que o projeto não deva ser tratado como encerrado, mas como o alicerce de um Programa de Estado voltado à proteção e à perpetuação dessa capacidade tecnológica.
Como funciona e para que serve
Com potência de 1 megawatt (MW), a UGEE1000BR tem capacidade para abastecer o equivalente a cerca de 3.600 residências. O funcionamento segue a lógica de um motor de avião: o ar é comprimido e misturado ao etanol em uma câmara de combustão, e os gases resultantes movimentam a turbina conectada a um gerador, convertendo energia térmica em eletricidade. A caixa de redução de rotações do equipamento também é de desenvolvimento nacional.
Dividida em módulos, a unidade foi projetada para ser aerotransportável pelo KC-390 Millennium, da Embraer, e para operar de forma integrada com plantas solares e sistemas de armazenamento em baterias, ampliando a autonomia energética em cenários de uso contínuo. O comandante da FAB, tenente-brigadeiro Damasceno, destacou que a solução é compacta, móvel e integrada em um contêiner de 20 pés, concebida para proporcionar rápido transporte, instalação e operação em localidades remotas.
Entre as aplicações previstas estão o atendimento a pelotões de fronteira sem infraestrutura elétrica estável, hospitais de campanha, operações fora de base e cenários de calamidade, além da possibilidade dual de substituir geradores a diesel em aplicações civis e industriais, reduzindo emissões de carbono e a dependência de combustíveis fósseis.
 Vídeo do portal Defesa Raíz no YouTube
Repercussão e próximos passos
Durante a apresentação, o presidente Lula afirmou que o Brasil passa a ser o sexto país do mundo a produzir uma turbina, destacando o simbolismo de a tecnologia ser movida a etanol em um País que é referência global em biocombustíveis. O vice-presidente Alckmin, por sua vez, associou o feito à trajetória brasileira na produção de etanol, iniciada há cerca de cinco décadas, e à abertura de uma nova matriz energética a partir do biocombustível.
Segundo Alexandre Roma, os investimentos públicos acumulados na infraestrutura laboratorial utilizada pelo IAE ao longo dos anos, incluindo bancos de ensaio e equipamentos compartilhados por diferentes projetos, somam cerca de R$ 200 milhões, valor que não corresponde ao custo específico da UGEE1000BR, mas ilustra a dimensão do apoio da FAB e da Finep à capacidade laboratorial que viabilizou o desenvolvimento.
A próxima etapa do projeto prevê a implantação de um sistema de ciclo combinado e a conexão da unidade a uma usina sucroenergética, testes que, segundo os desenvolvedores, poderão abrir caminho para aplicações civis, militares e industriais em maior escala, inclusive diante do crescimento da demanda global de energia impulsionado pela expansão de data centers, computação em nuvem e inteligência artificial.
A AERO Concepts afirma projetar-se como a única empresa do mundo com domínio simultâneo, dentro de determinadas faixas de potência, sobre turbinas a vapor e a gás aplicadas à geração de energia, ao acionamento mecânico e à propulsão naval, terrestre e aeronáutica, com avanços também em desenvolvimento na área de motores para as mesmas aplicações. 
A empresa defende que a continuidade do programa depende de apoio irrestrito como fornecedora estratégica não apenas para o Ministério da Defesa, mas também para o MCTI, o Ministério de Minas e Energia e demais órgãos federais voltados à inserção do Brasil no mercado internacional de tecnologia.

12 julho, 2026

FAB ativa Comando de Atividades Espaciais para centralizar governança espacial de Defesa

Novo comando, subordinado ao Comandante da Aeronáutica, reúne atribuições estratégicas para consolidar o Brasil como Autoridade Espacial de Defesa

 

*LRCA Defense Consulting - 12/07/2026

A Força Aérea Brasileira (FAB) ativou, em 7 de julho de 2026, o Comando de Atividades Espaciais (COES), novo Grande Comando destinado a centralizar, integrar e coordenar as atividades espaciais de interesse da Defesa. A criação e a ativação do COES foram formalizadas pela Portaria GABAER/GC3 nº 1.684, de 24 de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União (DOU1 nº 118, de 26 de junho de 2026) e assinada pelo Comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno. O ato entrou em vigor exatamente em 7 de julho de 2026, data da cerimônia militar de ativação, realizada das 11h às 12h no Salão Nobre da Base Aérea de Brasília, segundo a agenda oficial do Ministério da Defesa.

A cerimônia reuniu o Ministro da Defesa, José Mucio Monteiro Filho, o próprio Damasceno, além de autoridades civis e militares, representantes da academia e da indústria. Entre os presentes estava a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), representada por seu presidente, Julio Shidara, acompanhado de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, empresa associada à entidade. A Saipher participou da cerimônia e foi representada por seu Diretor de Inovação e Novos Negócios, Brigadeiro José Vagner Vital , e por seu Consultor Estratégico, Tenente-Brigadeiro Jeferson Domingues de Freitas. 

Pela portaria de criação, o COES é diretamente subordinado ao Comandante da Aeronáutica, e tem por finalidade planejar, coordenar, controlar, integrar e empregar as capacidades espaciais de interesse do Ministério da Defesa; atuar na implantação da Consciência Situacional Espacial; exercer as atribuições de Autoridade Espacial de Defesa, nos termos da Lei nº 14.946, de 31 de julho de 2024; coordenar o ciclo de vida das capacidades espaciais, da concepção à desativação; e desenvolver e consolidar a doutrina espacial de defesa. A sede do novo comando fica na área perimetral do Sexto Comando Aéreo Regional (VI COMAR), no Distrito Federal, e o cargo de Comandante do COES é privativo de Oficial-General ou Coronel do Quadro de Oficiais Aviadores da ativa. O apoio administrativo caberá ao Grupamento de Apoio do Distrito Federal (GAP-DF), que atuará como Unidade Gestora Executora.

A nomeação da cúpula do COES já constava do Diário Oficial da União desde o mês anterior à publicação da portaria de criação. Pela Portaria GABAER nº 850/GC1, de 12 de junho de 2026, também assinada por Damasceno, o tenente-brigadeiro do Ar Sérgio Barros de Oliveira foi nomeado Comandante de Atividades Espaciais. O major-brigadeiro do Ar André Luiz Alves Ferreira foi designado chefe do Estado-Maior do COES, e o brigadeiro do Ar Sandro Bernardon, até então chefe do Centro de Operações Espaciais (COPE), assumiu a Subchefia de Operações Espaciais do novo comando, o que evidencia a continuidade entre a antiga estrutura do COPE e a nova organização.

A criação do COES é o desfecho de um processo formalmente iniciado em 29 de maio de 2026, quando a Portaria GABAER/GC3 nº 1.658 aprovou a Diretriz de Implantação do Comando de Atividades Espaciais (DCA 19-12). O texto da diretriz justifica o novo comando pela dispersão institucional das capacidades espaciais, hoje distribuídas entre diferentes organizações do Comando da Aeronáutica, e pela crescente dependência de serviços espaciais, fatores que, segundo o documento, impõem desafios à coordenação estratégica, à eficiência operacional e à autonomia nacional. A criação do COES decorre das conclusões de um Grupo de Trabalho instituído especificamente para esse fim, consolidadas em relatório final aprovado pelo Comando da Aeronáutica.

A diretriz também define o cronograma de transição. A implantação observará duas fases, a de ativação e a de consolidação, esta última com prazo de até dezoito meses a partir da criação do comando. Nesse período, o Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE) deverá transferir ao COES o controle operacional do COPE em até quinze dias após a ativação, mantendo o apoio administrativo, logístico e de tecnologia da informação durante a transição, enquanto o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) terá até cento e oitenta dias para transferir ao COES a subordinação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) e do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI). A diretriz prevê ainda a criação do Sistema de Atividades Espaciais (SISAE), a ser disciplinado por norma específica e tendo o próprio COES como órgão central.

A criação do comando brasileiro se insere em uma tendência internacional de ampliar a importância organizacional das atividades espaciais nas forças aéreas, segundo reportagem da Revista Asas. A Itália criou o Comando Operazioni Spaziali em 2020, e o Reino Unido lançou o Space Command em 2021. Espanha e França alteraram os próprios nomes de suas forças aéreas, em 2022 e 2020, passando a se chamar, respectivamente, Ejército del Aire y del Espacio e Armée de l'Air et de l'Espace. Nos Estados Unidos, a mudança foi ainda mais ampla, com a criação, em 2019, de uma força armada específica, a United States Space Force.

Durante a cerimônia, o Comandante do COES, Tenente-Brigadeiro Sergio Barros de Oliveira, afirmou que a Força Aérea tem tanto a vocação quanto a autoridade legal para operar em diversas áreas do segmento espacial e permanece determinada a continuar trabalhando em parceria com instituições públicas e privadas, bem como com nações amigas, para superar os desafios que o Brasil enfrenta em sua busca por acesso autônomo ao espaço.

Para o presidente da AIAB, Julio Shidara, a criação do COES tem valor simbólico e prático para o setor. Com a implantação do COES, avaliou Shidara, o Comando da Aeronáutica (COMAER) transmite à sociedade brasileira a mensagem de que elevou a prioridade com que os temas espaciais serão tratados a partir de agora. A entidade avalia que a nova estrutura fortalece o ambiente institucional necessário para ampliar as capacidades nacionais, estimular a inovação e criar oportunidades para a indústria brasileira em áreas estratégicas de alto valor agregado, e manifestou a expectativa de que outras instituições responsáveis pela condução do Programa Espacial Brasileiro (PEB) sigam o mesmo caminho, de modo a reduzir a atual dependência estrangeira em áreas sensíveis para o desenvolvimento e a soberania do País.

Segundo o Brigadeiro Vital, da Saipher, é necessário evitar a fragmentação de esforços, reduzir a vulnerabilidade dos Sistemas Espaciais Brasileiros e estabelecer um ponto focal operacional capaz de pavimentar o caminho para a criação e o desenvolvimento de missões de Controle e Defesa Espacial e de Apoio Espacial. “Essa unidade de comando operacional facilitará a gestão durante crises ou batalhas envolvendo o Domínio Espacial, de forma integrada com os demais domínios”, afirmou.

07 julho, 2026

Visita do comandante da Aeronáutica à Mac Jee reforça elo com o 14-X e outros programas estratégicos

Presença do Alto Comando da FAB nas instalações da empresa de São José dos Campos ocorreu no mesmo dia da inauguração do túnel hipersônico T5, e ganha novo significado após declarações do presidente do conselho da empresa sobre um míssil antiaéreo de médio alcance derivado do MAA-1B e um MAR-1 com alcance estendido



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LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

O Grupo Mac Jee recebeu, em 1º de julho de 2026, em suas instalações de São José dos Campos, o tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, comandante da Aeronáutica. A comitiva incluiu o tenente-brigadeiro do ar Valter Borges Malta, comandante-geral de Apoio da Força Aérea Brasileira (COMGAP), o tenente-brigadeiro do ar Mauro Bellintani, diretor-geral do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), e o major-brigadeiro do ar Eric Breviglieri, vice-diretor do mesmo órgão (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial). Em publicação no LinkedIn, a empresa descreveu a visita como reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo grupo e classificou a presença do Alto Comando como reforço à cooperação entre Forças Armadas, base industrial de defesa e centros de inovação tecnológica do país. Durante o encontro, a Mac Jee apresentou capacidades industriais, projetos estratégicos e investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Dois eventos, uma só data
A escolha do dia não parece casual. Também em 1º de julho, a Força Aérea Brasileira inaugurou, no Instituto de Estudos Avançados (IEAv), em São José dos Campos, o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura de 50 metros destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5. O equipamento foi concebido para apoiar o Projeto Estratégico PROPHIPER, conduzido pelo IEAv e financiado pelo Comando da Aeronáutica, cujo objetivo é desenvolver o veículo hipersônico 14-X, com propulsão scramjet integrada à fuselagem. A própria Mac Jee é parte interessada nesse programa: a empresa desenvolve o RATO-14X, veículo acelerador que deve colocar o 14-X em condições para futuros ensaios em voo, em colaboração com o IEAv, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X foi concluída nos dias 2 e 3 de junho, poucas semanas antes da visita do Alto Comando. O lançamento do 14-X está previsto para o fim de 2027, no Centro Espacial de Alcântara.

 

Parcerias já em curso com a FAB
A relação entre a Mac Jee e a Força Aérea não se limita ao programa hipersônico. Em novembro de 2025, a empresa adquiriu, da extinta Mectron, em parceria com a FAB, a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1, de antirradiação, e MAA-1B, ar-ar de curto alcance, ambos hoje sob gestão da companhia sediada no Vale do Paraíba. Em 12 de junho, a Mac Jee também esteve entre as empresas que assinaram protocolos de intenção com o Comando da Aeronáutica durante o 1º Encontro de Inovação Aeroespacial (INOVAERO), na Base Aérea de Salvador, no âmbito do Parque Industrial Tecnológico Aeroespacial da Bahia (PITA-BA), evento que reuniu o ministro da Defesa e o próprio comandante Damasceno.

Fundada em 2007, com capital cem por cento nacional e fábricas em São José dos Campos e Paraibuna, a Mac Jee reúne hoje as empresas Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer. Seu portfólio inclui munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone kamikaze Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX e HMX.

A frente MBDA e o que ela pode significar
A visita ao Alto Comando também ocorre em meio a um movimento mais amplo de aproximação da Mac Jee com fabricantes estrangeiros. Em 29 de maio, a empresa assinou memorando de entendimento com a MBDA, maior grupo europeu de mísseis, formalizando um diálogo iniciado no Paris Air Show de 2023. Entre os eixos de convergência citados pelas próprias empresas estão a propulsão hipersônica, área na qual a MBDA desenvolve o projeto europeu HYDIS (Hypersonic Defence Interceptor System). As competências consolidadas em materiais energéticos e propulsão sólida, exibidas pela Mac Jee na sua trajetória recente, foram apresentadas no AUSA Global Force Symposium 2026, em Huntsville, Alabama.

 

Possíveis novos capítulos
Um eixo que pode ganhar relevância a partir da aproximação com o Alto Comando é o de defesa aérea multicamada e combate a drones. A Mac Jee já mantém memorando com a norte-americana MSI Defense Solutions para integrar o foguete guiado Armadillo, calibre de 70mm, ao sistema EAGLS de combate a aeronaves não tripuladas, tema que dialoga diretamente com as lacunas de defesa antiaérea de curto alcance hoje discutidas no âmbito do Exército Brasileiro. Outra frente em aberto é o Anshar, drone kamikaze de fabricação própria apresentado no Dubai Airshow de 2023, com alcance declarado de até 180 quilômetros e uma hora de autonomia de voo, mas sem contrato público confirmado com a FAB até o momento.

De fornecedora de componentes a desenvolvedora de sistemas completos
A visita do Alto Comando ganha um significado adicional à luz de declarações do próprio presidente do conselho da Mac Jee, Simon Jeannot, em vídeo institucional (abaixo) gravado durante a Eurosatory 2026, feira de defesa terrestre realizada recentemente em Paris. 

Míssil ar-ar de quarta geração MAA-1B com alcance de 40 quilômetros. Ar-ar ou antiaéreo?
Ao apresentar o portfólio da empresa, Jeannot afirmou que o míssil ar-ar de quarta geração desenvolvido com a FAB (referência ao MAA-1B, já testado em nível de maturidade tecnológica TRL 7 e com produção iniciada) está servindo de base para uma nova família de mísseis antiaéreos de médio alcance, equipada com propulsor mais longo e alcance de 40 quilômetros.

O MAA-1B, apelidado Piranha II, é uma evolução do MAA-1A e tem origem no americano AIM-9 Sidewinder, guardando semelhanças conceituais com o israelense Python 4, da Rafael. Originalmente concebido pela extinta Mectron em parceria com a Embraer e o DCTA, é um míssil de curto alcance com guiamento infravermelho de sensor duplo, alta manobrabilidade e resistência a contramedidas como flares, com cerca de 2,8 metros de comprimento e 89 quilos, velocidade próxima de Mach 3,5 e alcance original de até 12 quilômetros, empregado a partir de caças F-5M em testes operacionais. 

É justamente esse perfil de manobrabilidade e guiamento por infravermelho, adequado ao combate contra alvos ágeis a curta distância, que torna o MAA-1B uma base tecnológica plausível para um interceptador de curto a médio alcance, categoria que depende de mísseis capazes de reagir rapidamente a ameaças de baixa altitude, como aeronaves tripuladas, drones e mísseis de cruzeiro. 

Jeannot, porém, não especifica qual seria a plataforma de lançamento dessa nova família: sua fala não menciona uma viatura, um lançador terrestre ou qualquer outro vetor de solo, tampouco descarta a manutenção do lançamento a partir de caças, como no MAA-1B original. Vale registrar, no entanto, que o termo por ele empregado, "mísseis antiaéreos", costuma ser reservado, no vocabulário do setor de defesa, a sistemas de defesa aérea de solo (os chamados SAM, na sigla em inglês), em contraposição a "ar-ar", usado para mísseis lançados por aeronaves contra alvos também aéreos. 

Essa escolha de palavras abre espaço para a hipótese de uma versão de fato destinada a emprego terrestre (SAM), mas, na ausência de confirmação explícita sobre o lançador, também não se pode descartar que se trate simplesmente de uma versão aperfeiçoada do próprio míssil ar-ar, com maior alcance de engajamento contra alvos aéreos.

 

Míssil antirradiação 
MAR-1 com alcance superior a 100 quilômetros
Segundo o dirigente, o MAR-1 também está sendo estendido: partindo de um alcance de referência de 70 quilômetros, citado por ele no vídeo, a empresa desenvolve uma versão com propulsor maior capaz de superar os 100 quilômetros.

O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, também originado no fim dos anos 1990 em parceria entre a Mectron e o DCTA. Trata-se de um míssil ar-terra tático do tipo fire-and-forget ("dispare-e-esqueça"), com guiamento passivo por radar, estrutura de cerca de 4 metros e 266 quilos, ogiva de 90 quilos e materiais que reduzem sua assinatura de radar, empregado a partir de aeronaves como AMX, F-5M e Gripen E/F. Sua função é localizar e atacar radares e sistemas de defesa antiaérea inimigos em missões de supressão de defesas aéreas (SEAD), abrindo corredores de penetração para outras aeronaves de combate; o míssil já foi exportado ao Paquistão, integrado aos caças Mirage ROSE e ao JF-17. 
 
Na versão estendida, Jeannot associou o novo alcance a uma antena de banda larga descrita como capaz de cobrir a maior parte do espectro de frequências utilizado por radares, permitindo ao míssil da Mac Jee, segundo o dirigente, detectar e atacar uma gama mais ampla de sistemas inimigos. Esse tipo de antena de banda larga é o componente central de qualquer míssil antirradiação: é ela quem localiza a emissão do radar alvo e guia o míssil até a fonte, de forma análoga ao papel do buscador (seeker) em outras famílias de mísseis desse tipo, como o norte-americano AGM-88 HARM. Ampliar a cobertura de frequências da antena significa, na prática, tornar o míssil capaz de atacar uma variedade maior de radares e sistemas de defesa aérea adversários, incluindo modelos mais modernos que operam em bandas menos usuais. Jeannot classificou essa tecnologia de antena como exclusiva e rara no mundo, sob controle brasileiro, argumento que a empresa já vinha utilizando para posicionar o MAR-1 como ativo estratégico de soberania nacional.

Linha de mísseis livre de restrições ITAR
Jeannot também enquadrou toda a linha de mísseis da empresa como livre de restrições ITAR, o regime de controle de exportação de defesa dos Estados Unidos, reforçando o discurso de soberania tecnológica que a Mac Jee já vinha associando a outros produtos, como os materiais energéticos fornecidos à Arábia Saudita. 

 
Trajetória de transformação e aposta da FAB na empresa
Tomado em conjunto com a visita de 1º de julho, o anúncio de Jeannot sugere uma trajetória de transformação: de fornecedora de componentes e materiais energéticos, a Mac Jee caminha para se firmar como desenvolvedora de sistemas de mísseis completos, incluindo uma possível frente de defesa antiaérea que, até então, não fazia parte do que a empresa divulgava publicamente sobre o MAA-1B. Até o fechamento desta matéria, porém, nem a Mac Jee havia detalhado prazos, contratos ou nomes oficiais de programa para o míssil antiaéreo, nem a publicação sobre a visita do Alto Comando mencionava desdobramentos concretos além do encontro institucional.

Ainda assim, é difícil minimizar o peso simbólico do gesto. Não é todo dia que uma empresa de capital nacional recebe, ao mesmo tempo, o comandante da Aeronáutica, o comandante-geral de Apoio e toda a cúpula do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial em suas próprias instalações, e justamente no dia em que a FAB inaugurava um túnel hipersônico construído para testar tecnologia da qual a própria Mac Jee é parte interessada. 

No jogo institucional da base industrial de defesa brasileira, esse tipo de visita costuma funcionar como reconhecimento explícito a um parceiro que ganhou peso estratégico, sobretudo para uma empresa que, em poucos meses, deixou de ser apenas fornecedora de componentes e coadjuvante em programas de terceiros para se posicionar como protagonista de uma linha própria de mísseis ar-ar, antirradiação e, possivelmente, antiaéreos.

Se essas movimentações (a aquisição do MAR-1 e do MAA-1B, o avanço do RATO-14X, o memorando com a MBDA e o anúncio de Jeannot na Eurosatory) se confirmarem como trajetória consistente, e não apenas como sequência de anúncios pontuais, a visita de 1º de julho poderá ser lembrada menos como um evento protocolar e mais como o momento em que o Alto Comando da FAB sinalizou publicamente sua aposta na empresa.

04 julho, 2026

ALADA e INNOSPACE assinam contrato para primeiro voo de teste do foguete Sebit em Alcântara

Primeiro contrato de lançamento comercial firmado pela estatal brasileira prevê voo suborbital de validação de desempenho, prontidão operacional e confiabilidade da missão, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, no segundo semestre deste ano 


*LRCA Defense Consulting - 04/07/2026

A ALADA (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A.), estatal brasileira responsável pela exploração comercial dos centros de lançamento do país, e a INNOSPACE, empresa sul-coreana de serviços de lançamento de satélites, anunciaram nas redes sociais a assinatura de um contrato de lançamento para o primeiro voo de teste do foguete suborbital multipropósito Sebit, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Trata-se do primeiro contrato de lançamento comercial firmado pela ALADA desde que a empresa foi autorizada, em maio deste ano, a comercializar diretamente os centros de lançamento do Comando da Aeronáutica.

O contrato e a missão de teste
Pelos termos do acordo, a INNOSPACE planeja realizar o primeiro voo de teste do Sebit ainda no segundo semestre de 2026. A missão foi concebida para validar o desempenho de voo do foguete, sua prontidão operacional e a confiabilidade da missão, além de gerar dados essenciais para o aprimoramento do veículo e de seu modelo de serviço. Com base nos resultados, a empresa sul-coreana pretende reforçar a confiabilidade do Sebit e expandir seus serviços suborbitais de teste e verificação a instituições de pesquisa e clientes comerciais, ampliando o portfólio que hoje é centrado na família de lançadores orbitais Hanbit.

O foguete Sebit
Apresentado publicamente pela INNOSPACE em março deste ano, o Sebit é um veículo suborbital multipropósito voltado a testes de carga útil, verificação de tecnologias e missões de pesquisa, voando próximo ao limite do espaço sem entrar em órbita terrestre. O foguete é equipado com um motor híbrido de classe três toneladas e alcança altitudes superiores a 50 quilômetros, o que permite simular ambientes de microgravidade, realizar testes funcionais de componentes espaciais e demonstrar tecnologias em condições de voo de alta altitude e alta velocidade. Um sistema integrado de telemetria acompanha o voo em tempo real, transmitindo dados sobre a posição do veículo e o status da carga útil.

A INNOSPACE no Brasil
A relação da INNOSPACE com o CLA remonta a 2022, quando a empresa foi selecionada, em edital da Agência Espacial Brasileira (AEB) lançado em 2020, para operar a partir da base maranhense, assinando contrato à época com o Comando da Aeronáutica. Em março de 2023, a empresa lançou com sucesso o Hanbit-TLV, protótipo suborbital de estágio único que validou sistemas de propulsão, controle e estrutura posteriormente incorporados ao Hanbit-Nano. Em dezembro de 2025, porém, a tentativa de colocar o Hanbit-Nano em órbita, o que marcaria o primeiro lançamento orbital realizado a partir de território brasileiro por uma empresa privada internacional, terminou em anomalia de voo pouco depois da decolagem. O contrato do Sebit chega, assim, como um novo voo suborbital de validação, em linha com a trajetória de testes incrementais que a empresa sul-coreana já vinha adotando em Alcântara.

A ALADA e o mercado comercial de Alcântara
O acordo com a INNOSPACE se insere em uma sequência de atos que consolidaram o papel comercial da ALADA. Em novembro de 2025, a estatal assinou Acordo de Cooperação Técnica com o Comando da Aeronáutica (COMAER) e a AEB; em fevereiro de 2026, fechou seu primeiro contrato administrativo, relativo ao Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em parceria com a agência espacial francesa CNES; e, em maio, recebeu do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) a autorização para comercializar diretamente tanto o CLA quanto o CLBI junto a operadores privados nacionais e internacionais. Diferentemente dos contratos anteriores da INNOSPACE com a Força Aérea, restritos ao preço de custo por vedação legal ao lucro da União, os novos contratos sob gestão da ALADA permitem a cobrança de preços de mercado, com a receita revertida ao Programa Espacial Brasileiro e à modernização da infraestrutura dos centros de lançamento.

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