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19 outubro, 2026

ATMOS avança com Avibras e abre nova etapa para a artilharia brasileira

Exército prevê contratar dois obuseiros em 27 de outubro; montagem em Jacareí e participação da IMBEL podem ampliar o conteúdo nacional de um programa de 36 viaturas



*LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 15h10

O Exército Brasileiro deverá assinar em 27 de outubro, no Comando Logístico (COLOG), em Brasília, o primeiro contrato relativo à aquisição do obuseiro autopropulsado ATMOS 2000, de 155 mm, desenvolvido pela israelense Elbit Systems. A etapa inicial abrange duas viaturas destinadas à avaliação e precede uma eventual contratação de outras 34 unidades. A data foi informada nesta segunda-feira (19) pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, e repercutida pelo portal Forças Terrestres. Até a publicação desta reportagem, portanto, a assinatura ainda era uma previsão.

A novidade não se limita à retomada de uma aquisição interrompida por divergências diplomáticas entre Brasil e Israel. A entrada da Avibras Aeroco no arranjo industrial, mediante memorando de entendimento com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit, cria a perspectiva de montagem das 36 viaturas em Jacareí (SP). A produção de munições de 155 mm também aparece nas informações divulgadas como uma frente de participação da IMBEL. O detalhamento das obrigações, contudo, dependerá dos instrumentos contratuais.

Da seleção técnica ao novo arranjo industrial 
O ATMOS foi selecionado em abril de 2024 no processo para obtenção de Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado Sobre Rodas (VBCOAP-SR). A contratação não avançou no ritmo inicialmente esperado, em meio à deterioração das relações políticas entre os governos brasileiro e israelense por causa da guerra na Faixa de Gaza.

A solução industrial que agora ganha contornos mais definidos não surgiu de improviso. O LRCA Defense Consulting registrou, em julho de 2026, tratativas entre Avibras, AEL e Elbit. Em 7 de setembro, detalhou a proposta de montagem nacional dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, submetida ao COLOG no fim de agosto. Segundo a apuração publicada por Godoy, a oferta vencedora já contemplava uma parceira nacional sem identificá-la nominalmente, circunstância que teria permitido incluir a Avibras sem alterar as condições essenciais da seleção.

A Avibras e o aproveitamento da experiência com o ASTROS 
A escolha de Jacareí apresenta coerência industrial. A Avibras possui experiência na integração de sistemas de artilharia, veículos especiais e plataformas da família Tatra empregadas no ASTROS. A configuração brasileira do ATMOS é associada, nas informações divulgadas, a um chassi Tatra, embora seus detalhes finais ainda dependam de confirmação contratual e técnica.

Em 15 de outubro, a Avibras anunciou a conclusão de sua aquisição pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista. A reorganização societária e a retomada das atividades industriais formam o contexto da nova oportunidade. A eventual montagem do ATMOS pode diversificar encomendas e preservar competências industriais, mas não equivale, por si só, à transferência integral de tecnologia ou à fabricação nacional de todos os componentes. 

ATMOS 2000

O papel estratégico da IMBEL 
A participação indicada para a IMBEL na produção de munições de 155 mm merece atenção própria. Para uma força terrestre, a disponibilidade de munições, sua qualificação, a capacidade de reposição e o domínio de processos produtivos são elementos essenciais da autonomia logística. Ainda não estão esclarecidos publicamente o escopo exato da produção, os tipos de munição abrangidos e o grau de nacionalização previsto.

Dois obuseiros agora, 34 em etapa posterior 
A assinatura prevista para 27 de outubro diz respeito somente ao lote inicial de duas viaturas. Segundo a apuração de Godoy, o passo seguinte dependerá da avaliação do equipamento, da análise das compensações industriais e tecnológicas (offset), da cadeia logística, da integração aos sistemas de artilharia do Exército e de nova comprovação de preços. A contratação das outras 34 unidades é apontada como possibilidade para 2027, não como obrigação já firmada.

As estimativas financeiras publicadas também exigem cautela: a reportagem atribuída a Godoy menciona aproximadamente R$ 800 milhões, enquanto o Forças Terrestres se refere a investimento total próximo de R$ 1 bilhão. Sem a documentação contratual definitiva, não é adequado tratar qualquer desses valores como preço final fechado.

Mobilidade e sobrevivência no combate moderno 
O ATMOS combina canhão de 155 mm com tubo de 52 calibres e plataforma sobre rodas, além de recursos automatizados de navegação, pontaria e operação. A mobilidade e a redução do tempo de permanência em posição de tiro são atributos particularmente relevantes diante da ameaça de drones de reconhecimento, munições vagantes e fogos de contrabateria. Isso não elimina a necessidade de camuflagem, dispersão, defesa antidrone, comunicações seguras e integração com sensores e sistemas de comando e controle.

Para o Exército, o ganho operacional dependerá menos da simples incorporação de uma peça moderna do que de sua inserção em uma arquitetura de fogos capaz de detectar alvos, transmitir dados, engajar e mudar rapidamente de posição. A nacionalização do suporte e das munições pode ser decisiva para sustentar essa capacidade ao longo do tempo.

O que ainda precisa ser confirmado 
A assinatura anunciada deverá esclarecer o cronograma de entregas, a divisão de trabalho entre Elbit, AEL e Avibras, a configuração das viaturas, as obrigações de suporte e os mecanismos de transferência de conhecimento. Também será importante verificar a extensão da participação da IMBEL e os critérios para a passagem do lote inicial à produção em série.

Se confirmada, a contratação encerrará uma fase de incerteza e abrirá outra, de execução industrial e validação operacional. Para a Base Industrial de Defesa, o resultado estratégico não estará apenas nas 36 viaturas previstas, mas nas competências que efetivamente permanecerem no País.

15 outubro, 2026

Avibras passa ao controle dos irmãos Batista e prepara expansão internacional

Aquisição pela Globe Investimentos encerra etapa da reorganização societária; Bruno Dantas assume o conselho e exportações ganham prioridade no plano de recuperação 



 *LRCA Defense Consulting - 15/10/2026 - 15h16

A Avibras Aeroco anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro, a conclusão da venda da totalidade de seu capital à Globe Investimentos, empresa de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista. A operação, realizada por meio da aquisição integral da Nova AVB, controladora da fabricante, preserva o controle acionário brasileiro de uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa (BID). Ao mesmo tempo, Bruno Dantas assume a presidência executiva do Conselho de Administração, com a missão de apoiar a reconstrução industrial e ampliar a presença internacional da companhia.

O comunicado da Avibras estabelece como prioridades a retomada da produção em escala, o cumprimento dos compromissos assumidos e o crescimento, especialmente por meio das exportações. A empresa não divulgou o valor da aquisição, novos aportes financeiros ou metas de faturamento e vendas externas.

Da recuperação judicial à mudança de controle 
Fundada em 1961, a Avibras enfrentou uma crise prolongada, entrou em recuperação judicial em 2022 e passou por paralisação de atividades e conflitos trabalhistas. A reestruturação separou ativos industriais e tecnológicos na Avibras Aeroco, cuja produção foi retomada em maio de 2026. Em agosto, a proposta de aquisição pela Globe foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade); em setembro, a Superintendência-Geral do órgão aprovou a operação sem restrições, por não identificar sobreposição relevante de atividades entre os grupos.

A estrutura societária anunciada é precisa: a Globe torna-se acionista única da Nova AVB, que detém integralmente a Avibras Aeroco. A própria empresa esclarece que a Globe é um family office dos irmãos Batista e não integra a J&F S.A. Essa distinção é relevante para identificar corretamente a adquirente e evitar atribuir a compra diretamente ao conglomerado.

Bruno Dantas e a busca por mercados externos 
Ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas possui trajetória no controle externo e na auditoria internacional. Presidiu a Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI) e integrou o Conselho de Auditores das Nações Unidas, por eleição da Assembleia Geral. Segundo o comunicado, sua experiência deverá contribuir para o relacionamento institucional com governos estrangeiros, compradores centrais dos grandes sistemas militares.

A atribuição de Dantas é estratégica, mas não equivale à confirmação de contratos internacionais. A conquista de encomendas dependerá de negociações governamentais, requisitos operacionais, autorizações de exportação, capacidade de entrega e condições de financiamento. Sami Hassuani permanece identificado no comunicado como presidente da Avibras Aeroco.

A retomada industrial já apresenta resultados 
A aquisição ocorre poucos dias depois de um marco operacional: em 6 de outubro, a Avibras Aeroco entregou ao Exército Brasileiro o primeiro lote de munições desde a retomada das atividades. O recebimento ocorreu no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa (GO). A LRCA Defense Consulting noticiou a entrega e destacou que a fabricante não informou a quantidade nem os modelos das munições, o que impede vinculá-la, com segurança, a um contrato específico.

Outro elemento da recuperação é o Contrato nº 130/2023, no valor de R$ 60,8 milhões, cujos direitos e obrigações foram transferidos à Avibras Aeroco. Conforme documentação examinada pela LRCA, o fornecimento prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, de treinamento, e 448 SS-30, acondicionados em 56 contêineres com oito unidades cada. A existência do contrato demonstra demanda doméstica, mas não comprova, por si só, a execução integral das entregas.

Tecnologia estratégica e desafios da nova fase 
A Avibras reúne competências em propulsão, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos. Seu produto mais conhecido é o Sistema de Artilharia ASTROS, que contribuiu para projetar a indústria brasileira de defesa no exterior. A preservação de instalações, conhecimento acumulado e equipes especializadas é particularmente importante porque capacidades dessa natureza exigem tempo, investimentos e continuidade para serem recompostas.

Para transformar a aquisição em recuperação sustentável, a nova controladora precisará conciliar capital de giro, fornecedores, pessoal qualificado, cumprimento de obrigações e uma carteira consistente de encomendas. No mercado externo, a expansão também depende de apoio institucional e da capacidade de oferecer suporte logístico de longo prazo. Esses são desafios decorrentes da natureza do setor, não resultados já alcançados pela transação.

A conclusão da compra representa, portanto, uma mudança relevante na estrutura de controle e nas perspectivas comerciais da Avibras. A retomada das entregas ao Exército fornece um primeiro indicador concreto de reativação industrial. A dimensão da recuperação, entretanto, será medida pela regularidade da produção, pela execução dos contratos e pela efetiva conquista de novos mercados.

06 julho, 2026

Plano para destravar o ATMOS une Elbit e Avibras Aeroco em Jacareí

Segundo o Estadão, o Ministro José Múcio obteve aval de Lula para acordo que tornaria o obuseiro israelense montado no Brasil; AEL Sistemas negocia com a Avibras Aeroco e o sistema PULS, da Elbit, entra no pacote; comandante do Exército visitou as 18 unidades fabris de Jacareí em 1º de julho; inauguração oficial do complexo foi adiada a pedido da Presidência 

ATMOS 2000

*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

A AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, está negociando com a Avibras Aeroco um acordo que pode finalmente destravar a licitação bilionária por meio da qual o Exército Brasileiro pretende adquirir 36 viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR). A informação é da coluna do jornalista Marcelo Godoy, publicada nesta segunda-feira (7) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo a coluna, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, obteve do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sinal verde para o acordo, que tornaria o ATMOS 2000 "100% nacional", expressão que traduz o enquadramento político da solução, não uma realidade industrial estrita, já que o obuseiro em si é produto israelense. A ideia é que a Avibras Aeroco, que retomou as operações em seu complexo de Jacareí (SP) após aporte de R$ 300 milhões de um grupo de investidores que inclui os irmãos Joesley e Wesley Batista, seja responsável pela montagem e integração local do sistema.

Licitação vencida, contrato suspenso
O ATMOS 2000, montado sobre chassi Tatra T-815 6×6, venceu em abril de 2024 a licitação internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, superando o Zuzana 2 (Excalibur International, Tchéquia), o CAESAR (KNDS, França) e o SH-15 (Norinco, China). O valor estimado do contrato é de cerca de US$ 210 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão ou 180 milhões de euros, dependendo da cotação). A escolha foi considerada tecnicamente superior em desempenho, alcance, precisão e proposta de transferência de tecnologia.

O contrato, no entanto, foi suspenso ainda em 2024. O PT e aliados entendiam que a compra poderia contribuir indiretamente para o esforço de guerra israelense na Faixa de Gaza. Apesar do aval técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), que em dezembro de 2024 rejeitou a medida cautelar da KNDS contra o resultado, e do visto político que o próprio Lula havia dado à compra original, as negociações permaneceram paralisadas. Como escreveu Godoy, parte do governo parecia seguir o ensinamento de Hans Morgenthau: as Forças Armadas são instrumento da política externa, não o seu senhor.

A Avibras como chave política e industrial
A solução desenhada pelo ministério serve a dois objetivos simultâneos. O primeiro é político: associar uma empresa brasileira de grande porte ao projeto reduz o peso simbólico da compra israelense e oferece ao governo uma narrativa de fortalecimento da indústria nacional. O segundo é industrial: a Avibras Aeroco, dona do maior complexo fabril de defesa da América Latina, com 2,7 milhões de metros quadrados e 18 unidades fabris encravadas na Serra do Mar, perto da Rodovia dos Tamoios, já opera o chassi Tatra, o mesmo utilizado no ASTROS II e previsto para o ATMOS.

Em 1º de julho, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, acompanhado do comandante do Sudeste, general Ricardo Piai Carmona, e dos generais Everton Pacheco da Silva (Escritório de Projetos do Exército), Erb Lyra Leal (Departamento de Ciência e Tecnologia), Marcelo Lorenzi Zucco (2ª Divisão de Exército) e Evandro Luís Amorim Rocha (Aviação do Exército), visitou todas as unidades fabris do complexo de Jacareí. Embora o tema do ATMOS não tenha sido tratado diretamente na visita, a coluna do Estadão informa que a alternativa de nacionalização da montagem já é objeto de "conversas iniciais" entre a Força Terrestre, a Avibras Aeroco e a Elbit/AEL. Entre os generais, a solução é vista positivamente como vetor de desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID).

A empresa hoje conta com 500 funcionários, cerca de um terço do efetivo de quando operava a pleno vapor, e deve entregar os primeiros dois lotes de munições ao Exército ainda em 2026. A Avibras Aeroco trata o tema do ATMOS com cautela, tanto por razões empresariais quanto políticas, já que está em fase inicial de retomada.

Sistema PULS

O PULS e a artilharia de precisão integrada
O pacote negociado vai além do obuseiro. Segundo a coluna do Estadão, a AEL Sistemas pode oferecer à Avibras Aeroco também o sistema de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis Precise & Universal Launching System (PULS), desenvolvido pela Elbit. O PULS é uma plataforma de alta precisão e flexibilidade, capaz de disparar diferentes tipos de munições: foguetes não guiados, foguetes guiados e mísseis balísticos de teatro (TBMs - projéteis de curto e médio alcance projetados para atingir alvos dentro de um "teatro de operações" militar específico) a partir de uma mesma unidade de lançamento.

Tanto o ATMOS quanto o PULS podem ser montados sobre o chassi Tatra, o mesmo utilizado pela Avibras no ASTROS II. Segundo oficiais do Exército ouvidos pela coluna, essa compatibilidade abre caminho para uma evolução natural do ASTROS, com ganho expressivo de capacidade de fogo de precisão a longa distância. A integração simplificaria também a cadeia logística da Força Terrestre, que já opera e mantém o chassi tcheco.

É por meio do ASTROS que a Avibras Aeroco planeja lançar o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de até 450 km e previsto para teste em novembro de 2026, e o futuro Míssil Tático Balístico (S+100), de natureza hipersônica. A eventual incorporação do PULS ao mesmo sistema de lançamento criaria uma plataforma de fogo de precisão que abrangeria desde foguetes não guiados até mísseis de teatro.

O contexto que pressiona por uma decisão
A urgência em torno do programa vai além do impasse político com Israel. O Exército Brasileiro opera hoje obuseiros com projetos de cerca de 70 anos. O general Tomás Paiva tem reiterado publicamente a necessidade de modernização da artilharia divisionária diante do novo cenário geopolítico, citando os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio como demonstração da centralidade do fogo de precisão, dos drones e dos mísseis no campo de batalha moderno. Na sexta-feira (4), o general reafirmou à coluna do Estadão com síntese direta: "Nós queremos drones."

No SSNTFT 2026, realizado em Brasília em 27 de maio, o mesmo general havia rompido com décadas de discurso oficial ao afirmar: "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça." Dias antes, o ministro Múcio, em encontro reservado com representantes da BID, havia sido ainda mais contundente: "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa."

É nesse ambiente que a solução Elbit/AEL/Avibras ganha tração. A perspectiva de um acordo de paz no Oriente Médio, somada à nacionalização da montagem, oferece ao governo Lula uma saída que preserva a escolha técnica do Exército sem o custo político de um contrato direto com empresa israelense em plena guerra. Para a BID brasileira, representa a possibilidade de que o maior programa de artilharia do Exército em décadas ancore capacidade produtiva real em território nacional.

Próximos passos... e um adiamento que fala por si
As conversas entre Exército, Avibras Aeroco e Elbit/AEL estão em estágio inicial. Não há anúncio oficial de contrato assinado. O desfecho depende da conclusão das negociações entre as empresas, da formalização do aval presidencial em instrumento contratual e, possivelmente, da evolução do quadro diplomático no Oriente Médio.

Nesse contexto, um detalhe da agenda chama atenção. A inauguração oficial do complexo de Jacareí, originalmente marcada para 2 de julho de 2026, foi adiada com poucos dias de antecedência a pedido formal da Presidência da República, para permitir a participação de autoridades do governo federal. 

A justificativa oficial é protocolar. Mas a coincidência com o momento em que o sinal verde presidencial para o acordo ATMOS/Avibras acaba de ser dado, segundo a coluna do Estadão, abre uma leitura alternativa, além de uma possível injeção de novos recursos e da mera capitalização política do evento: o governo pode preferir que a cerimônia ocorra já num estágio mais avançado ou formalizado das negociações, transformando a inauguração num marco político de peso, não apenas para a Avibras Aeroco, mas para o próprio governo Lula, que teria, enfim, uma narrativa de solução para um impasse que se arrasta há mais de dois anos.

Avibras S.A. e Avibras Aeroco: como a mesma marca virou duas empresas diferentes

Entenda o mecanismo jurídico que separou o passivo da antiga fabricante de mísseis da operação industrial que retomou a produção em Jacareí 

 

*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

Um edital de convocação de assembleia geral extraordinária da Avibras Indústria Aeroespacial S.A., em recuperação judicial, marcada para o dia 13 de julho, tem gerado dúvida entre leitores e fontes da indústria de defesa: essa é a mesma empresa que retomou a produção de mísseis e foguetes em Jacareí sob o nome de Avibras Aeroco? A resposta é não. São duas pessoas jurídicas distintas, com CNPJs diferentes, e a distância entre elas é o resultado de um mecanismo jurídico específico da recuperação judicial brasileira, usado para separar a operação industrial do passivo bilionário que quase levou a companhia à falência.

Duas empresas, dois CNPJs
A Avibras Indústria Aeroespacial S.A. (CNPJ 60.181.468/0001-51) é a sociedade anônima fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), responsável historicamente pelo sistema Astros e por mísseis e foguetes usados pelas Forças Armadas brasileiras. É essa mesma pessoa jurídica, ainda registrada como "em recuperação judicial", que convocou a assembleia do dia 13 de julho, com pauta genérica de eleição de diretoria.

Já a Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (CNPJ 62.990.385/0001-39) é uma sociedade limitada distinta, fundada em 1º de outubro de 2025, sediada em Jacareí. É essa empresa nova, com registro ativo e atividade de fabricação de equipamento bélico pesado, que reiniciou a produção industrial em 4 de maio de 2026 e hoje negocia contratos com Exército e Força Aérea.

A origem: o colapso financeiro de 2022
A crise começou a se aprofundar a partir de 2020, com redução de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e endividamento crescente. Em 18 de março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial, alegando dívida de R$ 600 milhões; ao longo do processo, com o acúmulo de passivos trabalhistas, fiscais e com fornecedores, esse valor foi estimado por diferentes fontes entre R$ 800 milhões e R$ 1,5 bilhão. Cerca de 900 funcionários entraram em greve em setembro daquele ano, cobrando salários atrasados, e a paralisação se estendeu por mais de mil dias.

Entre 2024 e 2025, ao menos três grupos estrangeiros, o chinês Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, manifestaram interesse em adquirir o controle da empresa, mas nenhuma dessas tratativas avançou.

O plano alternativo e a saída de João Brasil
Em 26 de maio de 2025, a Assembleia Geral de Credores aprovou um plano alternativo de recuperação judicial, apresentado pela Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento e Direitos Creditórios, então principal credora da empresa. O plano previa a destituição do controlador histórico, João Brasil Carvalho Leite, e a nomeação de um interventor judicial para conduzir a transição. A homologação judicial, assinada pelo juiz Matheus Amstalden Valarini, da 2ª Vara Cível de Jacareí, saiu em 30 de junho de 2025.

A partir daí, as ações da companhia passaram por mais de uma mudança de mãos: primeiro do próprio João Brasil para a Brasil Crédito, em 25 de junho de 2025, no âmbito de uma penhora judicial; depois, em 25 de julho de 2025, da Brasil Crédito para a Vita Gestão e Investimentos Ltda., empresa do advogado Fábio Guimarães Leite, que assumiu como diretor provisório (interventor) e, na sequência, como acionista majoritário com 99% das ações. O edital de convocação da AGE de 13 de julho de 2026 já traz um outro nome como acionista majoritária, a Martinelli Gestora de Ativos e Participações Ltda.; a reportagem não localizou, até o fechamento desta matéria, comunicado público que detalhe a transferência de controle da Vita para a Martinelli, e esse ponto segue em apuração.

O mecanismo jurídico: o que é uma UPI
A separação entre a Avibras antiga e a Avibras Aeroco segue uma lógica prevista no artigo 60 da Lei nº 11.101, de 2005, a lei de recuperação judicial e falências. Esse dispositivo permite que uma empresa em recuperação venda parte ou a totalidade de seus ativos operacionais por meio de uma unidade produtiva isolada (UPI), um conjunto de bens, contratos e capacidade produtiva vendido a um novo proprietário livre de qualquer ônus da empresa de origem, inclusive dívidas trabalhistas, tributárias e regulatórias.

Na prática, a UPI funciona como uma cisão: o comprador recebe um CNPJ novo e "limpo", herda o parque industrial, os contratos e a propriedade intelectual, mas não herda o passivo bilionário que levou a antecessora à recuperação judicial. Esse passivo permanece na sociedade original, que continua existindo formalmente, sujeita ao processo judicial, até que os credores sejam pagos segundo o plano aprovado, ou até eventual encerramento da recuperação. É exatamente essa engenharia societária, hoje comum em processos de recuperação de empresas industriais de grande porte, que explica a coexistência das duas Avibras.

Nasce a Avibras Aeroco
Constituída em outubro de 2025 dentro do próprio processo de recuperação judicial, a Avibras Aeroco herdou os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da antiga companhia, entre eles o sistema de artilharia Astros, o míssil tático de cruzeiro MTC-300 e o míssil tático balístico em desenvolvimento. A retomada da produção, oficializada em 4 de maio de 2026, foi viabilizada por um aporte privado de R$ 300 milhões, reunido pelo Fundo Brasil Crédito junto a investidores, entre eles o empresário Joesley Batista, controlador do grupo J&F, que entrou como financiador em abril de 2026 com participação estruturada por meio de conversão de créditos.

À frente da nova empresa está Sami Youssef Hassuani, engenheiro com mais de quatro décadas de trajetória no setor de defesa e ex-presidente da própria Avibras, que já vinha assessorando o Fundo Brasil Crédito durante o processo de reestruturação. Em março de 2026, a Avibras Aeroco fechou acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região para o pagamento de cerca de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas, parcelados em até 48 meses, e para a reintegração de 271 trabalhadores.

O que resta da antiga Avibras S.A.
A Avibras Indústria Aeroespacial S.A. segue existindo como pessoa jurídica, ainda classificada como "em recuperação judicial" nos registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP), respondendo pelo passivo represado do período anterior à venda da UPI. É essa estrutura residual, sob controle da Martinelli Gestora de Ativos e Participações Ltda., que convocou a assembleia geral extraordinária de 13 de julho de 2026, na sede da empresa em São José dos Campos, com pauta declarada de eleição de diretoria e outros assuntos de interesse da sociedade. O edital não detalha se a reunião tratará da conclusão formal da cisão de ativos ou de outras providências ligadas ao encerramento do processo de recuperação.

Há comunicação de dívidas entre as duas empresas?
Em tese, quase nenhuma. O mecanismo da UPI foi desenhado justamente para isso: o parágrafo único do artigo 60 da Lei nº 11.101/2005 estabelece que o objeto da alienação fica livre de qualquer ônus e que o comprador não sucede o devedor em nenhuma obrigação, o que abrange dívidas civis, tributárias, trabalhistas e regulatórias. Essa blindagem foi reforçada pela Lei nº 14.112, de 2020, e é hoje o principal atrativo desse tipo de operação para investidores dispostos a assumir ativos de empresas em crise.

A doutrina especializada e a jurisprudência, porém, reconhecem três brechas pelas quais um passivo da Avibras antiga poderia, em tese, voltar a incomodar a Avibras Aeroco. A primeira é a chamada sucessão de fato, ou teoria da aparência: se a separação entre as duas empresas não for mantida de forma rigorosa na prática, com contabilidade, quadro de pessoal, fluxo de caixa e comunicação institucional próprios, a Justiça, sobretudo a trabalhista, pode desconsiderar a blindagem legal e reconhecer que se trata, na prática, do mesmo grupo econômico. É apontado por especialistas em recuperação judicial como o ponto de maior sensibilidade desse tipo de operação.

A segunda exceção é o passivo ambiental, que tem natureza propter rem, ou seja, adere ao imóvel, e não ao antigo proprietário. Como a Avibras Aeroco opera na mesma planta industrial de Jacareí, historicamente dedicada à fabricação de explosivos e propelentes, essa é, em tese, uma das poucas categorias de passivo que não é automaticamente blindada pela alienação da UPI. Não há, até o momento, qualquer notícia pública que aponte um problema concreto de contaminação ou passivo ambiental na planta, mas trata-se de um risco que a legislação não afasta por completo.

A terceira diz respeito ao rito da venda: o Superior Tribunal de Justiça exige, como regra geral, leilão público para a alienação de UPI, e só admite venda direta em caráter excepcional, com justificativa explícita, votação destacada em assembleia de credores e homologação judicial clara sobre os efeitos da não sucessão. Esta editoria não teve acesso ao trecho do plano de recuperação ou à ata que descreva em detalhe como se deu esse rito no caso da Avibras; a robustez da blindagem jurídica depende diretamente do cumprimento desse procedimento, o que poderia ser confirmado junto ao processo nº 1002302-16.2022.8.26.0292, em curso na 2ª Vara Cível da Comarca de Jacareí.

Vale registrar ainda que, pelo menos até abril de 2026, a situação fiscal da Avibras antiga não estava plenamente equacionada: a participação de Joesley Batista no financiamento da retomada envolvia negociação em andamento com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional sobre uma dívida de cerca de R$ 200 milhões, valor que a própria União já havia usado, em 2025, para ameaçar pedir a convolação da recuperação judicial em falência. Uma eventual falência da Avibras Indústria Aeroespacial S.A. não atinge, pela lei, o CNPJ da Avibras Aeroco, mas tende a manter o nome Avibras associado a turbulência judicial por mais tempo, com repercussão política e de imagem para o setor de defesa como um todo.

O que fica em aberto
Além da comunicabilidade jurídica entre as duas empresas, duas questões seguem sem confirmação pública e merecem acompanhamento: a real pauta por trás da assembleia de 13 de julho, já que o edital usa linguagem genérica, e a cadeia exata de transferência de controle entre a Vita Gestão e Investimentos e a Martinelli Gestora, que aparece agora como acionista majoritária da S.A. remanescente. Para a indústria de defesa e para o público em geral, a distinção prática importa: contratos, garantias e responsabilidades futuras dizem respeito à Avibras Aeroco, a empresa hoje em operação em Jacareí; a Avibras Indústria Aeroespacial S.A. é, juridicamente, o capítulo anterior dessa história, ainda em curso nos tribunais.

30 junho, 2026

Avibras Aeroco anuncia portfólio de drones, projeta R$ 500 milhões em 2028 e revela detalhes do MTC e do S+100

O projeto do drone Falcão, em variantes a pistão e/ou a turbina, pode fornecer a base da nova família de VANTs da Avibras

*LRCA Defense Consulting - 30/06/2026

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Sami Youssef Hassuani, diretor-presidente da Avibras Aeroco, revelou que a empresa pretende entrar no mercado de aeronaves não tripuladas, tem um protótipo de VANT pronto e um sistema antidrone por fragmentação de explosivos em desenvolvimento. Hassuani também detalhou especificações inéditas do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), confirmou a natureza hipersônica do futuro Míssil Tático Balístico (S+100), divulgou a nova inauguração da empresa e anunciou metas financeiras ambiciosas para os próximos anos. Esta matéria completa e amplia a anterior: Avibras Aeroco retoma produção e prepara dois novos mísseis após reestruturação

MTC-300: até 450 km, 200 kg de ogiva e meta de 200 unidades por ano
A matéria traz detalhes técnicos do MTC-300 que não haviam sido divulgados publicamente até então. O míssil, que pesa pouco mais de uma tonelada, tem alcance inicial de 300 quilômetros, podendo atingir alvos a até 450 quilômetros com precisão (CEP) de 9 metros. Carrega uma ogiva de até 200 quilos e é movido por motor com força de oito toneladas. O próximo lançamento de teste está previsto para novembro de 2026; ainda faltam três voos para concluir o processo de certificação.

Segundo o diretor-presidente, o sistema será operado tanto pelo Exército Brasileiro quanto pela Força Aérea Brasileira (FAB) e é lançado pelo sistema de artilharia ASTROS, também da Avibras Aeroco. A empresa projeta vender até 200 unidades por ano e exportar o míssil para países do Golfo Pérsico e do Sudeste Asiático. Na comparação com o mercado norte-americano, Hassuani foi direto: os fornecedores americanos só entregariam em 2032 o que for encomendado agora, enquanto a Avibras Aeroco estaria em condições de exportar em dois anos.

AV-SS-100 confirmado como hipersônico
O Míssil Tático Balístico AV-SS-100, em desenvolvimento conjunto com o Exército Brasileiro, foi descrito por Hassuani como hipersônico, um detalhe que vai além das informações anteriormente divulgadas pela empresa, que falavam apenas em voo supersônico e trajetória direta ao alvo. Com alcance superior a 120 quilômetros, o AV-SS-100 é mais barato que o MTC-300 e complementa o portfólio de fogos de longo alcance da Avibras Aeroco ao cobrir uma faixa de engajamento diferente, com velocidade de impacto significativamente maior.

Lançamento do futuro Míssil Tático Balístico AV-SS-100 pelo ASTROS (renderização)

Drones: empresa tem protótipo pronto e desenvolve sistema antidrone
A Avibras Aeroco pretende abrir um portfólio de aeronaves não tripuladas, com foco em sistemas de maior alcance e autonomia de voo, tanto para vigilância quanto para ataque. "Todos os nossos clientes querem drones", afirmou Hassuani, acrescentando que essas plataformas são mais baratas que os mísseis e aumentam a capacidade de vigilância do campo de batalha com tempo de resposta imediato para o engajamento de alvos.

A empresa já dispõe de um protótipo de VANT pronto, segundo Hassuani, que não revelou o nome ou as especificações da aeronave. A Avibras teve, em sua história, um projeto de VANT batizado de Falcão, desenvolvido a partir do final dos anos 2000 em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e posteriormente incorporado, em 2013, à Harpia Sistemas, consórcio formado pela Embraer Defesa & Segurança e pela AEL Sistemas (subsidiária da israelense Elbit Systems), e posteriormente descontinuado. Não há, porém, confirmação de que o protótipo citado por Hassuani na entrevista ao Estadão seja esse mesmo programa; a identidade da aeronave permanece a esclarecer. No entanto, segundo alguns dados públicos
, o Falcão segue formalmente listado no portfólio da empresa, mas isso é um dado de contexto, não uma confirmação.

Além do VANT, a Avibras Aeroco está desenvolvendo um sistema antidrone que satura o céu com uma cortina formada pela fragmentação de explosivos, com o objetivo de neutralizar enxames de aeronaves inimigas. O conceito responde à ameaça crescente representada por drones de pequeno porte em operações de combate, tendência amplamente documentada nos conflitos em curso na Ucrânia e no Oriente Médio.

Produção, empregos e metas financeiras
Dois meses após a reabertura, a Avibras Aeroco já conta com 500 funcionários e 90% da cadeia de fornecedores restabelecida. Em julho de 2026, a empresa inicia a montagem de novos foguetes e o corte de chapas para blindados do Exército Brasileiro. A data também marca a abertura oficial do complexo industrial de Jacareí, no interior de São Paulo, que deverá receber os comandantes das três forças armadas. A cerimônia havia sido adiada anteriormente.

O complexo tem 2,7 milhões de metros quadrados e 18 unidades fabris encravadas na Serra do Mar, próximas à Rodovia dos Tamoios. O acesso é controlado: celulares e computadores são proibidos no interior das instalações, e o servidor de engenharia não se comunica com a internet. A empresa dispõe de quatro estiradeiras de aço para a fabricação de foguetes, em processo a frio. Existem apenas cinco dessas máquinas no Brasil, quatro das quais pertencem à Avibras Aeroco. O Prédio dos Estirados, uma das 18 unidades fabris, tem capacidade para produzir até 5 mil foguetes envelopados por mês, incluindo os foguetes SS-80 e SS-40 e os foguetes Skyfire-70 de 70 mm usados pelos Super Tucanos exportados pela Embraer e pelos helicópteros do Exército e da FAB.

Para 2027, a empresa projeta entregas maiores ao Exército e à FAB, bem como as primeiras remessas de novas encomendas ao exterior. A meta é faturar R$ 500 milhões em 2028, quando Hassuani espera que a empresa esteja "em pleno vapor". Em 2029, a previsão é iniciar operações em dólar.

Inauguração do complexo: adiamento e novo calendário em julho
Em julho, o complexo industrial de Jacareí será oficialmente aberto com a presença dos comandantes das três forças armadas. A cerimônia, originalmente prevista para 2 de julho de 2026, foi adiada em 24 de junho, poucos dias antes da data marcada, a pedido formal da Presidência da República. Conforme comunicado enviado aos convidados, a reprogramação visou permitir a participação de autoridades do Governo Federal que manifestaram interesse em prestigiar o evento. A nova data, ainda em definição quando do adiamento, está confirmada para julho, segundo a entrevista de Hassuani ao Estadão.

O adiamento com antecedência tão curta não é trivial: para convidados de fora de São Paulo, como representantes militares de outros estados e eventuais delegações internacionais, a mudança implicou rever deslocamentos e estadias já planejados. A confirmação de autoridades do escalão presidencial, além de elevar o nível de representação esperado de ministros e comandantes, redimensiona o próprio evento como vitrine política.

Duas hipóteses, não confirmadas oficialmente, circulavam no setor à época do adiamento. A primeira é a de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pudesse anunciar, na nova data, a liberação do aporte público previsto no plano de reestruturação da Avibras Aeroco, estimado em outros R$ 300 milhões, que poderiam vir da Finep, do BNDES ou do PAC e que, até dezembro de 2025, não havia sido destravado. A segunda é de natureza eleitoral: 2026 é ano de eleição presidencial, e a presença de Lula em um evento que simboliza o encerramento de uma crise de 1.280 dias de greve, com recuperação de empregos qualificados e discurso de soberania industrial, reuniria elementos típicos de capitalização política. Um indício contextual reforçou essa leitura: no dia 26 de junho, dois dias após o comunicado de adiamento, o presidente afirmou, durante o batismo da fragata Cunha Moreira, em Itajaí (SC), que incluirá a defesa nacional em seu programa de governo pela primeira vez, como compromisso público sobre o tipo de defesa que o país deve ter. 

Sistema de defesa antiaérea de média altitude no ASTROS MK6 (renderização Avibras Aeroco)

Eurosatory e MBDA: defesa aérea no centro de uma parceria histórica
Recém-chegado da Eurosatory, feira de defesa realizada em Paris em junho de 2026, Hassuani revelou que a Avibras Aeroco manteve contatos com fornecedores e parceiros, sem fechar negócios. Entre as empresas com as quais se reuniu estão a francesa MBDA (com ênfase em defesa aérea), a alemã Rheinmetall, a franco-alemã KNDS, as turcas Aselsan e Baykar e as israelenses AEL Sistemas e Elbit Systems.

A menção específica à defesa aérea na reunião com a MBDA não é fortuita. A Avibras tem com o consórcio europeu, maior fabricante de mísseis da Europa, uma parceria que remonta a 2013, quando, na LAAD, apresentou um conceito antiaéreo baseado no míssil MICA VL, associado ao Dassault Rafale, então finalista do programa FX-2 da FAB. Com a não seleção do Rafale, o foco migrou para o míssil CAMM (Common Anti-Air Modular Missile). Em novembro de 2014, a Avibras e a MBDA apresentaram ao Exército Brasileiro, em Brasília, o conceito do AV-MMA (Míssil Modular Antiaéreo), desenvolvido em conjunto, com cerca de 70% de conteúdo nacional e baseado nas plataformas e veículos do Sistema ASTROS 2020. O projeto, no entanto, não chegou a ser contratado, e a crise de 2022 encerrou esse ciclo em momento crítico.

Em dezembro de 2025, o Exército formalizou a escolha do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), da MBDA, para preencher a lacuna de defesa antiaérea de média altitude e médio alcance, com aquisição via acordo governo a governo (G2G) com a Itália e investimento estimado em até R$ 5 bilhões. O míssil selecionado é o CAMM-ER (versão de alcance estendido, superior a 45 km), da mesma família que equipa as fragatas da Classe Tamandaré. A Avibras Aeroco não integra essa primeira fase, cujo contrato já está definido.

Existe, porém, uma janela nas fases seguintes, sustentada por dois pilares: a arquitetura aberta do EMADS, que prevê explicitamente a integração futura com radares da Base Industrial de Defesa nacional, e a sinalização do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que a aquisição poderá abrir caminho para a fabricação de mísseis no Brasil, mediante transferência de tecnologia com a Itália. Se esse cenário se concretizar, a Avibras Aeroco, única empresa nacional com histórico documentado de parceria com a MBDA no desenvolvimento de sistemas superfície-ar, seria a candidata natural para sediar essa produção. O fato de a empresa manter ativo o sistema de média altitude em seu portfólio e de Hassuani ter destacado a defesa aérea como tema central nas conversas com a MBDA na Eurosatory sugere que o diálogo entre as duas empresas não foi encerrado.

Consórcios e integração: SIATT, Mac Jee e o modelo europeu como referência
Na entrevista ao Estadão, Hassuani defendeu que empresas nacionais como a Avibras Aeroco, SIATT e Mac Jee estabeleçam parcerias ou consórcios, a exemplo do modelo europeu, para integrar o dinheiro da pesquisa (Finep e FNDCT), o crédito industrial (BNDES) e o orçamento do Ministério da Defesa. Para o executivo, programas estruturados segundo capacidade real de produção e entrega são o único caminho para que o Brasil feche o triângulo da soberania industrial, cujo terceiro vértice, a capacidade de repor estoques em escala e velocidade, passou a ser decisivo nos conflitos modernos a partir de 2022. 

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