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05 setembro, 2026

PLOA 2027 coloca programas de mísseis 14-X e MICLA em duas frentes estratégicas da FAB

Proposta orçamentária reserva R$ 23,7 milhões para o desenvolvimento da propulsão hipersônica e para a aquisição de mísseis de longo alcance; documentos não indicam que os dois projetos sejam integrados 



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 revela um dado que passou relativamente despercebido no detalhamento dos recursos destinados à Defesa: a Força Aérea Brasileira (FAB) terá, caso a proposta seja aprovada, duas dotações específicas para projetos de elevada complexidade tecnológica. Uma delas reserva R$ 12.694.107 ao Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X, identificado no orçamento como PropHiper. A outra destina R$ 11 milhões à aquisição de mísseis de longo alcance no âmbito do Projeto MICLA.

Somadas, as duas dotações chegam a R$ 23.694.107. Os valores não são expressivos quando comparados aos grandes programas de reaparelhamento das Forças Armadas, mas chamam atenção pela especificidade das ações e pelo que representam em termos de soberania tecnológica. De um lado, o País mantém uma linha de desenvolvimento de propulsão hipersônica. De outro, preserva no orçamento uma iniciativa voltada à obtenção de mísseis de longo alcance.

O dado ganha ainda mais relevância porque aparece poucos dias depois da publicação, pelo LRCA Defense Consulting, de uma análise ampla do PLOA 2027, na qual foram identificados os principais projetos de Defesa contemplados na proposta. Naquela reportagem, o foco estava nos grandes volumes destinados a aeronaves, submarinos, fragatas, blindados, drones e sistemas de mísseis. A análise específica das ações da Aeronáutica permite agora identificar duas rubricas que merecem atenção especial. 

14-X recebe dotação específica para o PropHiper 
A ação 16CN do PLOA 2027 tem uma denominação inequívoca: “Desenvolvimento do Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper)”. A dotação proposta é de R$ 12.694.107, com R$ 11.694.107 classificados como despesas correntes e R$ 1 milhão como investimento. O produto orçamentário é descrito como pesquisa ou projeto desenvolvida(o), com meta física de uma unidade.

A natureza da rubrica é importante. O PLOA não está propondo a compra de um sistema de armas denominado 14-X, nem sua incorporação operacional. O recurso está associado ao desenvolvimento tecnológico da propulsão hipersônica. Portanto, o valor não pode ser interpretado como o custo de uma futura arma hipersônica, mas como uma dotação para a continuidade de uma linha de pesquisa e desenvolvimento.

O 14-X é desenvolvido no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica da FAB e utiliza tecnologia de propulsão do tipo scramjet. Como esse tipo de motor necessita de velocidades muito elevadas para operar, o programa envolve um desafio adicional: levar o veículo às condições adequadas antes que sua própria propulsão hipersônica entre em funcionamento.

RATO-14X é o elo com a campanha de ensaios 
É nesse ponto que entra o RATO-14X, sistema de decolagem assistida por foguete desenvolvido para impulsionar o veículo hipersônico. Segundo informações divulgadas pela Agência Espacial Brasileira e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o projeto é desenvolvido pela FAB, por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em parceria com empresas e instituições de pesquisa.

A Mac Jee participa do desenvolvimento do RATO-14X e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) também firmou parceria com a empresa para atividades relacionadas a aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória. O sistema deverá levar o 14-X a mais de 30 quilômetros de altitude e a velocidades superiores a Mach 8, criando as condições necessárias para os ensaios do veículo hipersônico.

Em julho de 2026, o LRCA Defense Consulting informou que a Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X havia sido concluída e que o lançamento do 14-X estava previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. Na mesma ocasião, foi destacado que o DCTA havia inaugurado o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5 e relacionada ao esforço tecnológico do PropHiper.

MICLA aparece nominalmente no orçamento 
A segunda descoberta é igualmente relevante. A ação 16CQ do PLOA 2027 é denominada “Aquisição de Mísseis de Longo Alcance, Projeto MICLA” e recebe R$ 11 milhões. Aqui, a linguagem orçamentária é diferente da empregada no 14-X: não se trata de desenvolvimento de um projeto, mas de aquisição de armamento.

A proposta, entretanto, não informa quantos mísseis serão adquiridos, qual configuração será contemplada, quem será o fornecedor, qual será o cronograma de entrega ou qual parcela da dotação corresponde a eventual produção nacional. Também não é possível concluir, apenas a partir do PLOA, que os R$ 11 milhões resultarão em um lote operacional de MICLA-BR.

Ainda assim, a identificação nominal do Projeto MICLA é significativa. O projeto não é uma referência genérica a qualquer míssil de longo alcance. O orçamento vincula expressamente a ação 16CQ ao MICLA, mantendo a iniciativa dentro do planejamento da Aeronáutica para 2027.

Um projeto com história ligada à Avibras 
O MICLA-BR possui uma trajetória anterior à atual proposta orçamentária. O projeto foi desenvolvido pela FAB em parceria com a Avibras e está associado à busca brasileira por um míssil de cruzeiro de longo alcance. Em 2019, um F-5EM foi utilizado como plataforma de ensaios do sistema, em uma das evidências públicas mais importantes de que o projeto havia avançado para a fase de testes em voo.

O MICLA-BR foi descrito em fontes técnicas e documentos de planejamento como um míssil de cruzeiro destinado a lançamento a partir de plataformas aéreas, com alcance previsto na faixa de 300 quilômetros. O projeto também foi relacionado ao desenvolvimento de uma capacidade nacional de ataque de precisão de longo alcance e, historicamente, à futura integração com a família de caças Gripen.

A relação histórica com a Avibras torna a nova dotação especialmente interessante, mas exige cautela. O PLOA não identifica a empresa como destinatária dos R$ 11 milhões. Assim, não é possível afirmar que a previsão orçamentária represente uma nova encomenda à Avibras Aeroco ou mesmo que o eventual fornecimento será realizado pela empresa. O que o documento permite afirmar é que o Projeto MICLA continua nominalmente presente no planejamento orçamentário da FAB.

14-X e MICLA não são dois componentes do mesmo sistema 
A presença das duas ações no mesmo orçamento pode induzir a uma interpretação equivocada. Não há, no PLOA 2027, qualquer indicação de que o MICLA seja o sistema de lançamento do 14-X ou que os R$ 11 milhões destinados ao projeto de mísseis tenham relação direta com a campanha de ensaios hipersônicos.

O sistema associado ao lançamento experimental do 14-X é o RATO-14X. Seu objetivo é acelerar o veículo hipersônico até as condições de velocidade e altitude necessárias para o funcionamento do scramjet. O MICLA, por sua vez, é um projeto de míssil de cruzeiro de longo alcance, com finalidade militar distinta.

A relação entre os dois programas é, portanto, estratégica e não física. O 14-X representa a busca por domínio de tecnologias de propulsão e voo hipersônico. O MICLA representa a busca por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. São iniciativas diferentes, mas ambas inseridas no esforço de ampliar o domínio tecnológico e as capacidades estratégicas da FAB. 

A grande pergunta agora é o que será comprado no âmbito do Projeto MICLA 
O aspecto mais intrigante da ação 16CQ é a palavra “aquisição”. Se o PLOA fosse destinado apenas a financiar pesquisa, desenvolvimento ou estudos, seria natural esperar uma formulação semelhante à utilizada na ação do PropHiper. A escolha do termo indica que a Aeronáutica pretende utilizar a dotação de 2027 para obter algum tipo de material relacionado ao Projeto MICLA.

O orçamento, porém, não permite saber se a aquisição será de protótipos, componentes, subsistemas, unidades para ensaios, itens destinados à integração com plataformas ou efetivamente mísseis completos. Essa informação será decisiva para avaliar o estágio real do programa e deverá ser buscada junto ao Comando da Aeronáutica, ao Ministério da Defesa e às empresas envolvidas.

Também será importante acompanhar a tramitação do PLOA no Congresso Nacional. A proposta ainda poderá sofrer alterações durante a discussão orçamentária e, depois de transformada em Lei Orçamentária Anual, a execução dependerá da programação financeira do Governo Federal.

Duas linhas de alta tecnologia no mesmo orçamento 
O dado mais relevante do PLOA 2027 não está apenas nos R$ 23,7 milhões somados. Está na decisão de manter, lado a lado, duas linhas tecnológicas que podem ter impacto significativo no futuro da Força Aérea.

No campo hipersônico, o Brasil procura dominar tecnologias de propulsão, materiais, aerodinâmica, controle e ensaios em velocidades superiores a Mach 5. No campo dos mísseis de longo alcance, busca preservar e transformar em capacidade militar um conhecimento acumulado ao longo de anos, incluindo a experiência do MICLA-BR e sua relação histórica com a indústria nacional.

O orçamento de 2027, portanto, não permite concluir que o Brasil esteja prestes a colocar em serviço uma arma hipersônica ou um novo míssil de cruzeiro. Permite, entretanto, afirmar algo mais preciso: a FAB reservou espaço orçamentário específico para continuar o desenvolvimento do 14-X e, simultaneamente, para adquirir material no âmbito do Projeto MICLA.

É uma combinação que merece acompanhamento. No caso do 14-X, porque 2027 pode ser o ano de uma campanha de ensaio em voo que representará um dos mais ambiciosos testes tecnológicos da história aeroespacial brasileira. No caso do MICLA, porque a palavra “aquisição” pode indicar uma mudança de estágio do programa, cuja natureza somente poderá ser esclarecida quando forem conhecidos os contratos, objetos de compra e fornecedores.

A partir desses dois movimentos, o PLOA 2027 passa a oferecer uma leitura adicional do esforço de modernização da FAB: além dos grandes programas já conhecidos, como Gripen e KC-390, existe uma agenda de tecnologias de alto risco e alto impacto potencial que continua recebendo recursos específicos.

26 julho, 2026

Hyperlift revela detalhes do motor RISCRAM e do projeto de um drone de combate hipersônico

Empresa paulista testa peças do motor supersônico em bancada e conta à LRCA como um projeto de foguete reutilizável virou a base de um UCAV militar 

Rendererização por IA do UCAV RISCRAM
 

*LRCA Defense Consulting - 26/07/2026

A Hyperlift Aerospace & Defense, empresa brasileira sediada em São Paulo, com laboratório de pesquisa e desenvolvimento em Belo Horizonte, está desenvolvendo um motor de propulsão chamado RISCRAM (Rocket Ignited Supersonic Combustion Ram Jet), capaz, segundo a empresa, de operar da velocidade zero até regimes hipersônicos. A tecnologia nasceu como um projeto de foguete reutilizável, mas hoje serve de base para um conceito de drone de combate supersônico, o UCAV (sigla em inglês para veículo aéreo de combate não tripulado) RISCRAM. Em entrevista concedida à LRCA Defense Consulting, o engenheiro aeroespacial Marco Gabaldo, CEO da empresa, detalhou a origem do projeto, o estágio atual dos testes e os principais desafios para transformar o conceito em um demonstrador voador.

O que é o RISCRAM
Na prática, o RISCRAM é um motor de ciclo combinado: em vez de usar um único tipo de propulsão, ele combina, em um mesmo corpo, características de turbojato, foguete e scramjet (motor de combustão supersônica), alternando entre eles conforme a velocidade e a altitude do voo. A vantagem dessa arquitetura é que ela permite decolar do solo, acelerar até velocidades hipersônicas (acima de cinco vezes a velocidade do som) e, no caso da versão original do projeto, ainda alcançar órbita baixa, tudo com o mesmo veículo.

O conceito nasceu em 2014, como uma patente do próprio Gabaldo em parceria acadêmica com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pensada para um lançador espacial reutilizável de dois estágios, capaz de colocar até 500 kg em órbita baixa. A associação com a marca comercial Hyperlift e a exploração de uma aplicação militar vieram alguns anos depois.

Da encomenda estrangeira ao conceito de drone de combate
Segundo Gabaldo, a virada para uma aplicação militar ocorreu em 2023, a partir de uma demanda de uma empresa do Catar, interessada em entrar no setor de defesa com um produto disruptivo. Foi esse contato que levou a Hyperlift a pensar, primeiro, em um drone supersônico e, na sequência, em um conceito mais ambicioso: um UCAV hipersônico movido a motor 
RISCRAM. O CEO afirma que a relação comercial com o cliente catariano não está mais ativa, em razão de mudanças internas no ministério da defesa do país e na equipe de contatos com a qual a Hyperlift dialogava.

A empresa mantém, internamente, um programa dedicado ao tema, mas boa parte dele é sigilosa, tanto pela versão militar simplificada do motor RISCRAM quanto pelo próprio projeto do drone. Segundo Gabaldo, as forças armadas brasileiras não demonstraram, até o momento, interesse formal pelo projeto.

Um conceito, não um produto fechado
Circulou recentemente nas redes sociais um resumo com especificações do conceito de UCAV 
RISCRAM: 4 metros de comprimento, 2,4 metros de envergadura, 1.400 kg de massa máxima de decolagem e um motor com cerca de 1.000 kgf de empuxo. Gabaldo confirmou que esses números partiram da própria Hyperlift, mas fez questão de relativizá-los: tratam-se de valores de um conceito inicial, que a empresa pode reformular a qualquer momento, conforme a necessidade de um eventual cliente. Ou seja, não há, por ora, um projeto de engenharia fechado, e sim um estudo conceitual em evolução.

Onde a tecnologia está hoje
Sobre o estágio real de maturidade, Gabaldo afirmou que já houve ensaios de queima em diferentes velocidades e que a bancada de testes está em evolução constante, incluindo câmeras e sistemas de medição mais precisos. Segundo ele, o programa se encontra hoje entre os níveis 4 e 5 da escala de maturidade tecnológica (a chamada TRL, de Technology Readiness Level), o que corresponde à validação em bancada de componentes como a entrada de ar e a câmara de combustão, ensaiados em um veículo de teste em escala reduzida, ainda distante de um motor completo e de um demonstrador voador.

A bancada de testes fica em Belo Horizonte, no laboratório Alfalab. Os ensaios contam com o apoio de um patrocinador do setor de metalurgia e fundição de Minas Gerais que, segundo Gabaldo, ainda não autorizou a divulgação de seu nome associado ao projeto RISCRAM; por isso, a LRCA optou por não identificá-lo nesta reportagem.

Como o motor funciona, da decolagem ao pouso
De acordo com a explicação fornecida pela Hyperlift, o voo de um veículo 
RISCRAM completo (na concepção original, de lançador reutilizável) seguiria quatro fases. Na decolagem e na aceleração inicial, um motor turbojato leva a aeronave a até Mach 2 ou 3, enquanto um foguete auxiliar ajuda a ganhar a velocidade necessária para a transição ao voo hipersônico. A partir de cerca de Mach 5, o turbojato é desligado e a propulsão passa a ser feita pelo motor RISCRAM/scramjet, que sustenta o voo em altitudes elevadas. Em seguida, à medida que o ar rarefeito reduz a eficiência do scramjet, o motor foguete assume sozinho a aceleração final até a órbita baixa, onde ocorreria a liberação da carga útil. Na reentrada, a sequência se inverte: o veículo volta ao regime hipersônico, depois transiciona de novo para o turbojato e realiza um pouso horizontal, em uma lógica operacional que a empresa compara à do ônibus espacial americano, embora com voo atmosférico autopropelido na fase final.

Vale reforçar que essa sequência completa de quatro fases descreve o conceito original do lançador espacial reutilizável. O drone de combate UCAV aproveitaria a mesma lógica de motor combinado, mas dispensaria as fases de inserção orbital e reentrada, por se tratar de uma aplicação atmosférica.

Do motor de foguete ao motor de guerra: o que muda
Segundo a Hyperlift, a versão civil do motor 
RISCRAM, pensada para o lançador espacial, é uma plataforma de grande porte, totalmente reutilizável, projetada para suportar dezenas ou centenas de ciclos operacionais, com foco em baixo custo por lançamento e uso de combustíveis comerciais de alta eficiência. Já a versão militar, destinada ao UCAV ou a um eventual míssil hipersônico, seria uma plataforma mais compacta e leve, de projeto descartável ou parcialmente sacrificável, pensada para uma única missão. Essa versão usaria combustíveis militares de maior densidade energética e maior estabilidade para armazenamento prolongado, priorizando aceleração, alcance e capacidade de sobrevivência em ambiente hostil, em vez de reutilização.

O que falta para sair do papel
Questionado sobre o principal obstáculo para avançar do conceito atual a um demonstrador voador, Gabaldo foi direto: dinheiro. Segundo ele, as etapas iniciais, de modelagem matemática e simulação computacional, já foram concluídas, e a fase de protótipos laboratoriais, com ensaios estruturais e de combustão em bancada, está em andamento. Já as etapas seguintes, que envolvem testes em túnel de vento, a construção de um demonstrador voador e uma campanha de ensaios em voo, dependem de captação de recursos, nacionais ou internacionais, que a empresa afirma buscar atualmente.

A empresa por trás do projeto
A Hyperlift divide sua estrutura entre São Paulo, onde ficam a engenharia, a administração e as áreas de marketing e financeiro, e Belo Horizonte, sede do laboratório de prototipagem e P&D. A empresa recruta estagiários de faculdades para tarefas específicas, por prazos limitados de 90 dias, sem envolvimento direto nos projetos em desenvolvimento. Os subsistemas de eletrônica e telemetria são terceirizados, com um parceiro espanhol e outro brasileiro. A equipe hoje é pequena (dois gerentes em um projeto e três em outro, além de terceirizados), mas a previsão da empresa é chegar a cerca de 15 pessoas assim que o principal aporte financeiro for confirmado. As prioridades de investimento para o próximo ano incluem a construção e os testes dos motores, além de sistemas de hidráulica, eletrônica, controle de fluxo, sistema de combustível, superfícies de controle, chassi e telemetria, somados a salários, bolsas e custos fixos como aluguel e consumíveis.

Nota metodológica
Esta reportagem é a primeira sobre o motor 
RISCRAM e o conceito de UCAV hipersônico da Hyperlift. As informações aqui apresentadas têm como origem principal entrevista concedida à LRCA Defense Consulting pelo CEO da empresa, Marco Gabaldo, complementada por dados públicos do Catálogo da Indústria Espacial Brasileira, mantido pela Agência Espacial Brasileira (AEB), e por registros de patente internacional ligados ao projeto. Especificações técnicas e cronogramas de desenvolvimento citados nesta matéria refletem o estágio conceitual do projeto, segundo descrito pela própria empresa, e podem ser alterados conforme sua evolução. Não houve, até o fechamento desta matéria, verificação independente das informações fornecidas pela Hyperlift. O tema do revestimento LEAR, também desenvolvido pela empresa, não é abordado nesta matéria e poderá ser tratado posteriormente.

Abaixo, segue a versão da matéria em inglês técnico. 

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Hyperlift reveals details of the RISCRAM engine and unveils a hypersonic combat UCAV concept

Brazilian company validates key propulsion components on a ground test rig and explains to LRCA how a reusable launch vehicle evolved into the foundation of a next-generation hypersonic combat aircraft.

*LRCA Defense Consulting – July 26, 2026


Hyperlift Aerospace & Defense, a Brazilian aerospace company headquartered in São Paulo with an R&D laboratory in Belo Horizonte, is developing the RISCRAM (Rocket Ignited Supersonic Combustion Ramjet), a combined-cycle propulsion system that, according to the company, is intended to operate from zero airspeed to sustained hypersonic flight. Originally conceived for a reusable launch vehicle, the technology has evolved into the basis of a conceptual hypersonic Unmanned Combat Aerial Vehicle (UCAV). In an exclusive interview with LRCA Defense Consulting, CEO and aerospace engineer Marco Gabaldo discussed the origins of the program, its current stage of development and the technical and financial challenges that remain before a full-scale flight demonstrator can be built.

What is RISCRAM?
RISCRAM combines turbojet, rocket and scramjet operating modes within a single propulsion architecture, allowing the vehicle to transition between propulsion cycles as speed and altitude increase. The original concept envisioned a reusable two-stage launch vehicle capable of placing payloads of up to 500 kilograms into low Earth orbit. Today, the same propulsion philosophy underpins studies for future military applications, including a hypersonic UCAV.
 
From space access to defense
Gabaldo explained that interest from a Qatari customer in 2023 prompted Hyperlift to investigate military applications. Initial work focused on a supersonic unmanned aircraft before evolving into a more ambitious hypersonic combat platform. Although that commercial relationship has since ended, the company continues internal development of the concept. Much of the program remains confidential, and no formal Brazilian government requirement has yet been announced.

Technology readiness
According to Hyperlift, combustion tests have already been completed under different operating conditions, while the ground-test infrastructure continues to be upgraded with more advanced instrumentation. The company estimates that the program currently lies between Technology Readiness Levels (TRL) 4 and 5, representing laboratory validation of critical technologies such as the inlet and combustion chamber rather than an integrated flight-ready propulsion system.
 
Operational concept
In the reusable launch vehicle configuration, propulsion would begin with turbojet operation supported by a rocket booster during acceleration. At approximately Mach 5, propulsion transitions to scramjet mode for sustained hypersonic atmospheric flight. At higher altitudes, where air density becomes insufficient, rocket propulsion would complete orbital insertion. The military UCAV concept would retain the atmospheric combined-cycle architecture while eliminating the orbital insertion and re-entry phases.

Civilian and military configurations
The reusable civilian configuration prioritizes operational longevity, low launch costs and commercial propellants. By contrast, the military variant is envisioned as a lighter, more compact system optimized for a single mission, employing high-energy-density military propellants and emphasizing acceleration, operational range and survivability rather than reusability.
 
The next milestone
Gabaldo identified funding as the program's principal challenge. Numerical modelling and computational simulations have been completed, while laboratory validation is under way. Wind-tunnel campaigns, construction of an integrated flight demonstrator and an eventual flight-test program will depend on securing additional investment from domestic or international sources.

Editorial note
This English-language edition has been prepared in a style consistent with international aerospace and defense publications, preserving the technical meaning of the original interview while employing terminology commonly used throughout the global aerospace industry. Technical specifications reflect Hyperlift's current conceptual design baseline.

30 junho, 2026

Avibras Aeroco anuncia portfólio de drones, projeta R$ 500 milhões em 2028 e revela detalhes do MTC e do S+100

O projeto do drone Falcão, em variantes a pistão e/ou a turbina, pode fornecer a base da nova família de VANTs da Avibras

*LRCA Defense Consulting - 30/06/2026

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Sami Youssef Hassuani, diretor-presidente da Avibras Aeroco, revelou que a empresa pretende entrar no mercado de aeronaves não tripuladas, tem um protótipo de VANT pronto e um sistema antidrone por fragmentação de explosivos em desenvolvimento. Hassuani também detalhou especificações inéditas do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), confirmou a natureza hipersônica do futuro Míssil Tático Balístico (S+100), divulgou a nova inauguração da empresa e anunciou metas financeiras ambiciosas para os próximos anos. Esta matéria completa e amplia a anterior: Avibras Aeroco retoma produção e prepara dois novos mísseis após reestruturação

MTC-300: até 450 km, 200 kg de ogiva e meta de 200 unidades por ano
A matéria traz detalhes técnicos do MTC-300 que não haviam sido divulgados publicamente até então. O míssil, que pesa pouco mais de uma tonelada, tem alcance inicial de 300 quilômetros, podendo atingir alvos a até 450 quilômetros com precisão (CEP) de 9 metros. Carrega uma ogiva de até 200 quilos e é movido por motor com força de oito toneladas. O próximo lançamento de teste está previsto para novembro de 2026; ainda faltam três voos para concluir o processo de certificação.

Segundo o diretor-presidente, o sistema será operado tanto pelo Exército Brasileiro quanto pela Força Aérea Brasileira (FAB) e é lançado pelo sistema de artilharia ASTROS, também da Avibras Aeroco. A empresa projeta vender até 200 unidades por ano e exportar o míssil para países do Golfo Pérsico e do Sudeste Asiático. Na comparação com o mercado norte-americano, Hassuani foi direto: os fornecedores americanos só entregariam em 2032 o que for encomendado agora, enquanto a Avibras Aeroco estaria em condições de exportar em dois anos.

AV-SS-100 confirmado como hipersônico
O Míssil Tático Balístico AV-SS-100, em desenvolvimento conjunto com o Exército Brasileiro, foi descrito por Hassuani como hipersônico, um detalhe que vai além das informações anteriormente divulgadas pela empresa, que falavam apenas em voo supersônico e trajetória direta ao alvo. Com alcance superior a 120 quilômetros, o AV-SS-100 é mais barato que o MTC-300 e complementa o portfólio de fogos de longo alcance da Avibras Aeroco ao cobrir uma faixa de engajamento diferente, com velocidade de impacto significativamente maior.

Lançamento do futuro Míssil Tático Balístico AV-SS-100 pelo ASTROS (renderização)

Drones: empresa tem protótipo pronto e desenvolve sistema antidrone
A Avibras Aeroco pretende abrir um portfólio de aeronaves não tripuladas, com foco em sistemas de maior alcance e autonomia de voo, tanto para vigilância quanto para ataque. "Todos os nossos clientes querem drones", afirmou Hassuani, acrescentando que essas plataformas são mais baratas que os mísseis e aumentam a capacidade de vigilância do campo de batalha com tempo de resposta imediato para o engajamento de alvos.

A empresa já dispõe de um protótipo de VANT pronto, segundo Hassuani, que não revelou o nome ou as especificações da aeronave. A Avibras teve, em sua história, um projeto de VANT batizado de Falcão, desenvolvido a partir do final dos anos 2000 em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e posteriormente incorporado, em 2013, à Harpia Sistemas, consórcio formado pela Embraer Defesa & Segurança e pela AEL Sistemas (subsidiária da israelense Elbit Systems), e posteriormente descontinuado. Não há, porém, confirmação de que o protótipo citado por Hassuani na entrevista ao Estadão seja esse mesmo programa; a identidade da aeronave permanece a esclarecer. No entanto, segundo alguns dados públicos
, o Falcão segue formalmente listado no portfólio da empresa, mas isso é um dado de contexto, não uma confirmação.

Além do VANT, a Avibras Aeroco está desenvolvendo um sistema antidrone que satura o céu com uma cortina formada pela fragmentação de explosivos, com o objetivo de neutralizar enxames de aeronaves inimigas. O conceito responde à ameaça crescente representada por drones de pequeno porte em operações de combate, tendência amplamente documentada nos conflitos em curso na Ucrânia e no Oriente Médio.

Produção, empregos e metas financeiras
Dois meses após a reabertura, a Avibras Aeroco já conta com 500 funcionários e 90% da cadeia de fornecedores restabelecida. Em julho de 2026, a empresa inicia a montagem de novos foguetes e o corte de chapas para blindados do Exército Brasileiro. A data também marca a abertura oficial do complexo industrial de Jacareí, no interior de São Paulo, que deverá receber os comandantes das três forças armadas. A cerimônia havia sido adiada anteriormente.

O complexo tem 2,7 milhões de metros quadrados e 18 unidades fabris encravadas na Serra do Mar, próximas à Rodovia dos Tamoios. O acesso é controlado: celulares e computadores são proibidos no interior das instalações, e o servidor de engenharia não se comunica com a internet. A empresa dispõe de quatro estiradeiras de aço para a fabricação de foguetes, em processo a frio. Existem apenas cinco dessas máquinas no Brasil, quatro das quais pertencem à Avibras Aeroco. O Prédio dos Estirados, uma das 18 unidades fabris, tem capacidade para produzir até 5 mil foguetes envelopados por mês, incluindo os foguetes SS-80 e SS-40 e os foguetes Skyfire-70 de 70 mm usados pelos Super Tucanos exportados pela Embraer e pelos helicópteros do Exército e da FAB.

Para 2027, a empresa projeta entregas maiores ao Exército e à FAB, bem como as primeiras remessas de novas encomendas ao exterior. A meta é faturar R$ 500 milhões em 2028, quando Hassuani espera que a empresa esteja "em pleno vapor". Em 2029, a previsão é iniciar operações em dólar.

Inauguração do complexo: adiamento e novo calendário em julho
Em julho, o complexo industrial de Jacareí será oficialmente aberto com a presença dos comandantes das três forças armadas. A cerimônia, originalmente prevista para 2 de julho de 2026, foi adiada em 24 de junho, poucos dias antes da data marcada, a pedido formal da Presidência da República. Conforme comunicado enviado aos convidados, a reprogramação visou permitir a participação de autoridades do Governo Federal que manifestaram interesse em prestigiar o evento. A nova data, ainda em definição quando do adiamento, está confirmada para julho, segundo a entrevista de Hassuani ao Estadão.

O adiamento com antecedência tão curta não é trivial: para convidados de fora de São Paulo, como representantes militares de outros estados e eventuais delegações internacionais, a mudança implicou rever deslocamentos e estadias já planejados. A confirmação de autoridades do escalão presidencial, além de elevar o nível de representação esperado de ministros e comandantes, redimensiona o próprio evento como vitrine política.

Duas hipóteses, não confirmadas oficialmente, circulavam no setor à época do adiamento. A primeira é a de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pudesse anunciar, na nova data, a liberação do aporte público previsto no plano de reestruturação da Avibras Aeroco, estimado em outros R$ 300 milhões, que poderiam vir da Finep, do BNDES ou do PAC e que, até dezembro de 2025, não havia sido destravado. A segunda é de natureza eleitoral: 2026 é ano de eleição presidencial, e a presença de Lula em um evento que simboliza o encerramento de uma crise de 1.280 dias de greve, com recuperação de empregos qualificados e discurso de soberania industrial, reuniria elementos típicos de capitalização política. Um indício contextual reforçou essa leitura: no dia 26 de junho, dois dias após o comunicado de adiamento, o presidente afirmou, durante o batismo da fragata Cunha Moreira, em Itajaí (SC), que incluirá a defesa nacional em seu programa de governo pela primeira vez, como compromisso público sobre o tipo de defesa que o país deve ter. 

Sistema de defesa antiaérea de média altitude no ASTROS MK6 (renderização Avibras Aeroco)

Eurosatory e MBDA: defesa aérea no centro de uma parceria histórica
Recém-chegado da Eurosatory, feira de defesa realizada em Paris em junho de 2026, Hassuani revelou que a Avibras Aeroco manteve contatos com fornecedores e parceiros, sem fechar negócios. Entre as empresas com as quais se reuniu estão a francesa MBDA (com ênfase em defesa aérea), a alemã Rheinmetall, a franco-alemã KNDS, as turcas Aselsan e Baykar e as israelenses AEL Sistemas e Elbit Systems.

A menção específica à defesa aérea na reunião com a MBDA não é fortuita. A Avibras tem com o consórcio europeu, maior fabricante de mísseis da Europa, uma parceria que remonta a 2013, quando, na LAAD, apresentou um conceito antiaéreo baseado no míssil MICA VL, associado ao Dassault Rafale, então finalista do programa FX-2 da FAB. Com a não seleção do Rafale, o foco migrou para o míssil CAMM (Common Anti-Air Modular Missile). Em novembro de 2014, a Avibras e a MBDA apresentaram ao Exército Brasileiro, em Brasília, o conceito do AV-MMA (Míssil Modular Antiaéreo), desenvolvido em conjunto, com cerca de 70% de conteúdo nacional e baseado nas plataformas e veículos do Sistema ASTROS 2020. O projeto, no entanto, não chegou a ser contratado, e a crise de 2022 encerrou esse ciclo em momento crítico.

Em dezembro de 2025, o Exército formalizou a escolha do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), da MBDA, para preencher a lacuna de defesa antiaérea de média altitude e médio alcance, com aquisição via acordo governo a governo (G2G) com a Itália e investimento estimado em até R$ 5 bilhões. O míssil selecionado é o CAMM-ER (versão de alcance estendido, superior a 45 km), da mesma família que equipa as fragatas da Classe Tamandaré. A Avibras Aeroco não integra essa primeira fase, cujo contrato já está definido.

Existe, porém, uma janela nas fases seguintes, sustentada por dois pilares: a arquitetura aberta do EMADS, que prevê explicitamente a integração futura com radares da Base Industrial de Defesa nacional, e a sinalização do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que a aquisição poderá abrir caminho para a fabricação de mísseis no Brasil, mediante transferência de tecnologia com a Itália. Se esse cenário se concretizar, a Avibras Aeroco, única empresa nacional com histórico documentado de parceria com a MBDA no desenvolvimento de sistemas superfície-ar, seria a candidata natural para sediar essa produção. O fato de a empresa manter ativo o sistema de média altitude em seu portfólio e de Hassuani ter destacado a defesa aérea como tema central nas conversas com a MBDA na Eurosatory sugere que o diálogo entre as duas empresas não foi encerrado.

Consórcios e integração: SIATT, Mac Jee e o modelo europeu como referência
Na entrevista ao Estadão, Hassuani defendeu que empresas nacionais como a Avibras Aeroco, SIATT e Mac Jee estabeleçam parcerias ou consórcios, a exemplo do modelo europeu, para integrar o dinheiro da pesquisa (Finep e FNDCT), o crédito industrial (BNDES) e o orçamento do Ministério da Defesa. Para o executivo, programas estruturados segundo capacidade real de produção e entrega são o único caminho para que o Brasil feche o triângulo da soberania industrial, cujo terceiro vértice, a capacidade de repor estoques em escala e velocidade, passou a ser decisivo nos conflitos modernos a partir de 2022. 

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