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15 outubro, 2026

Avibras passa ao controle dos irmãos Batista e prepara expansão internacional

Aquisição pela Globe Investimentos encerra etapa da reorganização societária; Bruno Dantas assume o conselho e exportações ganham prioridade no plano de recuperação 



 *LRCA Defense Consulting - 15/10/2026 - 15h16

A Avibras Aeroco anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro, a conclusão da venda da totalidade de seu capital à Globe Investimentos, empresa de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista. A operação, realizada por meio da aquisição integral da Nova AVB, controladora da fabricante, preserva o controle acionário brasileiro de uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa (BID). Ao mesmo tempo, Bruno Dantas assume a presidência executiva do Conselho de Administração, com a missão de apoiar a reconstrução industrial e ampliar a presença internacional da companhia.

O comunicado da Avibras estabelece como prioridades a retomada da produção em escala, o cumprimento dos compromissos assumidos e o crescimento, especialmente por meio das exportações. A empresa não divulgou o valor da aquisição, novos aportes financeiros ou metas de faturamento e vendas externas.

Da recuperação judicial à mudança de controle 
Fundada em 1961, a Avibras enfrentou uma crise prolongada, entrou em recuperação judicial em 2022 e passou por paralisação de atividades e conflitos trabalhistas. A reestruturação separou ativos industriais e tecnológicos na Avibras Aeroco, cuja produção foi retomada em maio de 2026. Em agosto, a proposta de aquisição pela Globe foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade); em setembro, a Superintendência-Geral do órgão aprovou a operação sem restrições, por não identificar sobreposição relevante de atividades entre os grupos.

A estrutura societária anunciada é precisa: a Globe torna-se acionista única da Nova AVB, que detém integralmente a Avibras Aeroco. A própria empresa esclarece que a Globe é um family office dos irmãos Batista e não integra a J&F S.A. Essa distinção é relevante para identificar corretamente a adquirente e evitar atribuir a compra diretamente ao conglomerado.

Bruno Dantas e a busca por mercados externos 
Ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas possui trajetória no controle externo e na auditoria internacional. Presidiu a Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI) e integrou o Conselho de Auditores das Nações Unidas, por eleição da Assembleia Geral. Segundo o comunicado, sua experiência deverá contribuir para o relacionamento institucional com governos estrangeiros, compradores centrais dos grandes sistemas militares.

A atribuição de Dantas é estratégica, mas não equivale à confirmação de contratos internacionais. A conquista de encomendas dependerá de negociações governamentais, requisitos operacionais, autorizações de exportação, capacidade de entrega e condições de financiamento. Sami Hassuani permanece identificado no comunicado como presidente da Avibras Aeroco.

A retomada industrial já apresenta resultados 
A aquisição ocorre poucos dias depois de um marco operacional: em 6 de outubro, a Avibras Aeroco entregou ao Exército Brasileiro o primeiro lote de munições desde a retomada das atividades. O recebimento ocorreu no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa (GO). A LRCA Defense Consulting noticiou a entrega e destacou que a fabricante não informou a quantidade nem os modelos das munições, o que impede vinculá-la, com segurança, a um contrato específico.

Outro elemento da recuperação é o Contrato nº 130/2023, no valor de R$ 60,8 milhões, cujos direitos e obrigações foram transferidos à Avibras Aeroco. Conforme documentação examinada pela LRCA, o fornecimento prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, de treinamento, e 448 SS-30, acondicionados em 56 contêineres com oito unidades cada. A existência do contrato demonstra demanda doméstica, mas não comprova, por si só, a execução integral das entregas.

Tecnologia estratégica e desafios da nova fase 
A Avibras reúne competências em propulsão, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos. Seu produto mais conhecido é o Sistema de Artilharia ASTROS, que contribuiu para projetar a indústria brasileira de defesa no exterior. A preservação de instalações, conhecimento acumulado e equipes especializadas é particularmente importante porque capacidades dessa natureza exigem tempo, investimentos e continuidade para serem recompostas.

Para transformar a aquisição em recuperação sustentável, a nova controladora precisará conciliar capital de giro, fornecedores, pessoal qualificado, cumprimento de obrigações e uma carteira consistente de encomendas. No mercado externo, a expansão também depende de apoio institucional e da capacidade de oferecer suporte logístico de longo prazo. Esses são desafios decorrentes da natureza do setor, não resultados já alcançados pela transação.

A conclusão da compra representa, portanto, uma mudança relevante na estrutura de controle e nas perspectivas comerciais da Avibras. A retomada das entregas ao Exército fornece um primeiro indicador concreto de reativação industrial. A dimensão da recuperação, entretanto, será medida pela regularidade da produção, pela execução dos contratos e pela efetiva conquista de novos mercados.

11 outubro, 2026

Retaguarda sob fogo: o alerta de um logístico do Exército

Em artigo na Revista Doutrina Militar Terrestre, o coronel Jonathas da Costa Jardim sustenta que drones e mísseis de longo alcance acabaram com a ideia de uma retaguarda segura e propõe rever a forma como a Força Terrestre posiciona e protege suas bases logísticas



*LRCA Defense Consulting - 11/10/2026 -12h15

Durante décadas, bastou afastar os depósitos de munição, combustível e peças algumas dezenas de quilômetros da linha de frente para mantê-los fora de perigo, porque a artilharia inimiga simplesmente não chegava lá. Essa premissa, que ainda orienta os manuais do Exército Brasileiro (EB), vem sendo desmontada diariamente na Ucrânia, na Rússia e no Oriente Médio. É o que demonstra o coronel Jonathas da Costa Jardim no artigo "A vulnerabilidade de estruturas logísticas face aos sistemas de ataque de longo alcance", publicado na edição de maio a agosto de 2026 da Revista Doutrina Militar Terrestre.

O texto parte de uma constatação incômoda: pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, instalações logísticas situadas a centenas de quilômetros da linha de contato estão sendo atacadas e destruídas de forma sistemática por mísseis de cruzeiro, drones kamikaze e munições guiadas. Para o autor, não se trata de um fenômeno restrito ao teatro russo-ucraniano, mas de uma tendência que redefine o próprio conceito de vulnerabilidade logística, e o Exército precisa se preparar para ela ainda em tempo de paz.

Quem é o coronel Jonathas 
Para o leitor fora dos quartéis, o nome pode não dizer muito, mas o currículo explica por que suas análises merecem atenção. Oficial do Quadro de Material Bélico, declarado aspirante pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 2002, ele fez carreira justamente na engrenagem que mantém o Exército em condições de combater: manutenção, suprimento e transporte.

Comandou a 111ª Companhia de Apoio de Material Bélico, no biênio 2017-2018, e o Batalhão Central de Manutenção e Suprimento (BCMS), em 2024-2025. O BCMS é subordinado à Base de Apoio Logístico (Ba Ap Log), do Comando Logístico (COLOG), organização que faz a ponte entre o material produzido pela indústria e as unidades operacionais. Ou seja, o autor escreve sobre a vulnerabilidade dos nós logísticos depois de ter comandado um deles.

A formação acadêmica acompanha a experiência de tropa. Jonathas é mestre em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), concluiu o curso de Comando e Estado-Maior na ECEME (2019-2020) e obteve mestrado acadêmico em Segurança e Defesa pela Universidade de Madras, na Índia (2023). Também é bacharel em Direito, pela Universidade São José, e pós-graduado em Direito Militar, pela Fundação Trompowsky. Foi instrutor da EsAO (2012-2013) e, a partir de 2021, da ECEME, ou seja, ajudou a formar as gerações de capitães e oficiais de estado-maior que hoje planejam a logística da Força.

O currículo internacional é extenso. Fez o curso de Operações de Inteligência na Escuela de Inteligencia Militar del Ejército, na Bolívia (2014), o aperfeiçoamento de oficiais em logística na Escuela de Armas, na Argentina, e o curso de Estado-Maior de Defesa no Defense Services Staff College, na Índia (2022-2023). Atualmente, é aluno do Curso de Estado-Maior Conjunto da Academia de Defensa Militar Conjunta (ADEMIC), das Forças Armadas do Equador. Essa trajetória lhe dá uma visão comparada de como diferentes exércitos pensam o apoio ao combate.

Uma produção dedicada à logística 
O artigo mais recente é o capítulo atual de uma linha de pesquisa coerente. Em 2023, na revista PADECEME, da ECEME, Jonathas analisou a logística da guerra russo-ucraniana à luz dos fatores da decisão. Na edição de janeiro a março de 2025 da própria Doutrina Militar Terrestre, ainda como tenente-coronel e comandante do BCMS, tratou dos desafios logísticos do EB no contexto das Operações Multidomínio. Ali defendeu a criação de um Comando de Transportes Logísticos (COMTL), vinculado ao Ministério da Defesa, e apresentou o projeto do BCMS de impressão 3D de peças de reposição para rádios Harris e Motorola, itens de difícil aquisição.

Em maio de 2026, em coautoria com o tenente-coronel Átila Alves de Souza, publicou na Revista Brasileira Militar de Ciências um estudo sobre logística preditiva como multiplicador de força. O texto usa a Operação Epic Fury como exemplo de emprego de inteligência artificial na coordenação entre logística e operações e propõe indicadores de confiabilidade e disponibilidade para o EB. O fio condutor de toda essa produção é o mesmo: acompanhar as guerras em curso quase em tempo real e convertê-las em propostas concretas para a doutrina brasileira.

Uma doutrina pensada para a artilharia de tubo 
O núcleo do novo artigo é a análise dos manuais de campanha que regem a logística terrestre, em especial Logística Militar Terrestre (EB70-MC-10.238, hoje em revisão pelo Centro de Doutrina do Exército), Batalhão Logístico (EB70-MC-10.317) e Grupamento Logístico (EB70-MC-10.357). Segundo o autor, esses documentos estabelecem que as bases logísticas devem ficar "fora do alcance da artilharia do inimigo" e organizam sua defesa contra forças especiais infiltradas, mas não tratam de forma sistemática da proteção contra mísseis de cruzeiro, drones de longo alcance ou munições lançadas de aeronaves.

Na prática, o parâmetro implícito de segurança acaba sendo dado pelos próprios sistemas do EB: o obuseiro autopropulsado M109 A5+ BR, com alcance máximo de 30 km, e os foguetes do sistema ASTROS II, que vão de 30 a 90 km. Pelo critério tradicional, uma base logística de brigada posicionada a 80 km da linha de contato seria considerada segura. Contra drones com autonomia de 300 a 800 km ou mísseis de cruzeiro que passam de 1.000 km, ela está exposta. O coronel chama essa situação de "segurança ilusória".

Jonathas tem o cuidado de não acusar a doutrina de erro. Para ele, o descompasso decorre da mudança radical do cenário tecnológico nos últimos 15 anos. Ele lembra que a ideia de paralisar o inimigo atacando os nós de sua estrutura industrial e logística já existia nos anos 1930, com a Industrial Web Theory da Air Corps Tactical School norte-americana. A novidade, escreve, está na tecnologia, que tornou esses ataques mais baratos, numerosos e precisos.

A conta econômica explica a escolha dos alvos. Um drone do tipo Shahed-136 custa entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto um míssil Patriot PAC-3 usado para interceptá-lo passa de US$ 3 milhões. Do outro lado, a destruição de uma única base logística de brigada pode tirar de combate uma grande unidade inteira por dias ou semanas, com prejuízo de dezenas de milhões de dólares em material. Para quem ataca, a troca é amplamente vantajosa.

A guerra confirma o diagnóstico 
O artigo apoia o diagnóstico em casos recentes. Cita a Operação Epic Fury, com quase mil ataques nas primeiras doze horas, empregando bombardeiros B-2, caças F-22 e F-16 e mais de 160 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos a mais de 1.500 km das plataformas de lançamento. Registra também que, em maio de 2026, mais de 500 drones ucranianos de longo alcance atingiram a região de Moscou e refinarias russas, comprometendo cerca de 25% da capacidade de refino e paralisando temporariamente as unidades de Kirishi, Norsi e Ryazan. Um gráfico elaborado pelo autor mostra ataques ucranianos documentados entre 2023 e 2026 a até 1.300 km da fronteira.

Dados de outras fontes, do mesmo período, reforçam a tese. Na Ucrânia, o Ministério da Defesa lançou em maio o programa Logistics Lockdown, voltado a escalar ataques com drones de médio alcance contra a logística russa entre 20 e 150 km atrás da linha de frente. O Institute for the Study of War (ISW) contabilizou ao menos 303 ataques desse tipo em junho, quase 50% a mais que os 210 registrados em maio. Segundo a Guarda Nacional ucraniana, os russos passaram a desmontar comboios e a deslocar suprimentos em viaturas isoladas mesmo a 20 ou 70 km da frente, exatamente o tipo de dispersão forçada que o coronel descreve.

Em profundidade estratégica, a campanha contra a indústria de energia russa também se intensificou. Levantamento do Financial Times com dados da consultoria polonesa Rochan Consulting apontou pelo menos 194 ataques bem-sucedidos de drones ucranianos contra refinarias russas desde o início de 2026, com recorde de 16 em maio. Em julho, Kiev atingiu uma refinaria em Ufa, a mais de 1.300 km da linha de frente.

No Oriente Médio, segundo o Comando Central norte-americano, a Operação Epic Fury, iniciada pelos Estados Unidos com Israel em 28 de fevereiro de 2026, mirou desde o primeiro momento centros de comando e controle da Guarda Revolucionária, defesas antiaéreas, locais de lançamento de mísseis e drones e bases aéreas iranianas. O Comando Central norte-americano informou que a força-tarefa Scorpion Strike empregou, pela primeira vez em combate, drones de ataque de mão única de baixo custo. A retaliação iraniana, por sua vez, atingiu infraestrutura de energia no Golfo, com incêndio em um polo petrolífero saudita e interrupção temporária da produção de gás natural liquefeito no Catar. Nos dois teatros, as cadeias de suprimento viraram alvo prioritário.

A retaguarda como zona de combate 
Um dos pontos mais fortes do artigo é a análise do Warfighter Exercise 26-03, conduzido pelo V Corps do Exército dos Estados Unidos em março de 2026, na Polônia (Camp Kościuszko) e em Fort Knox, com divisões alemã, lituana e polonesa da OTAN. A principal lição registrada foi que a área de retaguarda deixou de ser um espaço logístico passivo e passou a ser uma zona de combate ativa, que exige comando e controle próprio, defesa antiaérea integrada e poder de combate dedicado.

No exercício, as Maneuver Enhancement Brigades norte-americanas, especializadas em segurança da retaguarda, só protegeram a área de forma eficaz quando reforçadas por uma força-tarefa de infantaria mecanizada com artilharia de 155 mm, morteiros e viaturas blindadas armadas com canhões de 30 mm. Para o autor, se até um exército tecnologicamente superior enfrenta lacunas em defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e mobilidade na retaguarda, o EB, que não dispõe de estruturas equivalentes, precisa olhar para o problema com urgência.

Antiaérea para quem abastece a tropa 
O coronel aponta uma fragilidade estrutural: os grupamentos e batalhões logísticos não possuem artilharia antiaérea orgânica, e o menor escalão que a possui é a brigada. Como as prioridades de defesa antiaérea são definidas pelo comandante a partir da análise de vulnerabilidade, importância, recuperabilidade e possibilidades do inimigo aéreo (fatores VIRP), as instalações logísticas raramente aparecem no topo da lista. Em combate de alta intensidade, os meios disponíveis tendem a ir para os elementos de manobra, deixando janelas de vulnerabilidade exploráveis pelo adversário. Na síntese do autor, a necessidade é maior que a disponibilidade.

O que o autor propõe 
A primeira proposta é a dispersão. Em vez de grandes bases concentradas, Jonathas defende fragmentar a base logística de brigada em destacamentos logísticos geograficamente dispersos, capazes de operar de 48 a 72 horas sem apoio externo, e apoiados por hubs logísticos distribuídos em profundidade. Para reduzir a cauda logística, sugere investir em manufatura aditiva em combate, telemanutenção, plataformas elétricas de transporte com baixa assinatura térmica e acústica e fontes de energia renovável.

A segunda é elevar a prioridade antiaérea das estruturas logísticas no exame de situação, com defesa em camadas composta por mísseis portáteis (Manpads), sistemas anti-SARP com guerra eletrônica, detecção acústica e por radiofrequência, canhões de 20 a 30 mm com munição programável e radares de vigilância para alvos lentos e de baixa altitude. Ele vincula a proposta ao Programa Estratégico Sentinela, dedicado à defesa antiaérea da Força Terrestre e um dos sete programas prioritários do Portfólio Estratégico do Exército, aprovado pelo Estado-Maior em 4 de março de 2026, e sugere considerar capacidades inspiradas no Iron Dome israelense para proteger estruturas críticas e a Base Industrial de Defesa (BID).

A terceira é substituir o critério único de distância por "Zonas de Risco Logístico Escalonadas": uma faixa vermelha, de 0 a 200 km da linha de contato, com dispersão máxima, defesa antiaérea integral e camuflagem; uma amarela, de 200 a 500 km, com dispersão recomendada e antiaérea seletiva; e uma verde, acima de 500 km, com vigilância e planos de contingência. O autor recomenda incorporar o modelo aos exercícios da EsAO e da ECEME, para que os jovens líderes aprendam desde cedo a tratar a proteção da logística como prioridade.

A Zona de Interior também está no alcance 
O artigo vai além do campo de batalha. Jonathas lembra que a BID e as instalações logísticas centrais, como a Base de Apoio Logístico do Exército, formam o elo entre a capacidade produtiva e o emprego operacional. Mesmo com as fábricas intactas, a destruição desse nó interromperia o fluxo para a zona de combate por meses. Em território nacional, tais instalações podem ser alcançadas por mísseis lançados de navios ou submarinos, por aeronaves operando em standoff com armamento de mais de 300 km de alcance ou por forças que atuem por meio de proxies.

O autor reconhece que as ameaças potenciais ao País não dispõem hoje desses sistemas. O argumento é que estruturas permanentes, adestramento conjunto e subordinações claras não surgem no momento do conflito e precisam ser construídos antes. Por isso, conclui que integrar a defesa antiaérea à logística, criar redundância geográfica de capacidades produtivas e desenvolver sistemas nacionais de ataque de longo alcance são investimentos estratégicos para preservar a autonomia operacional brasileira.

O Exército já se movimenta 
As propostas chegam em um momento em que a Força começa a reagir ao problema. Entre o fim de julho e o início de agosto de 2026, o Comando de Defesa Antiaérea do Exército conduziu em Formosa (GO) o exercício Sagitta Primus 2026, com mais de 500 militares de 23 organizações militares e participação da Força Aérea Brasileira. Pela primeira vez, o exercício incluiu uma experimentação doutrinária com uma seção anti-SARP, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército, e demonstrações de empresas da BID. O próprio coronel cita o exercício entre suas referências.

Em março, o Exército entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano de R$ 456 bilhões em investimentos até 2040, no qual a ausência de defesa antiaérea de média altura aparece como uma das lacunas mais graves. Também está prevista para 2026 a contratação de um sistema de defesa antiaérea de até R$ 3,4 bilhões, apresentado como capaz de interceptar drones e mísseis de cruzeiro. O artigo de Jonathas acrescenta a esse debate uma pergunta que costuma ficar em segundo plano: quem vai proteger quem abastece a tropa.

O texto abre com uma frase atribuída ao general Dwight D. Eisenhower, segundo a qual batalhas, campanhas e guerras são ganhas ou perdidas principalmente pela logística. O que o coronel acrescenta é que, na guerra de 2026, a logística deixou de estar a salvo apenas por estar longe.

08 outubro, 2026

CTEx e SIATT avançam na industrialização de pilhas térmicas para mísseis brasileiros

Acordo firmado em 7 de outubro busca levar à fabricação industrial tecnologia desenvolvida pelo Exército, com aplicação inicial no MAX 1.2 AC e potencial para outros sistemas de defesa



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a SIATT formalizaram, em 7 de outubro de 2026, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (APPDI) voltado à fabricação de pilhas térmicas. Desenvolvida pelo Laboratório de Química Militar (LQM) do CTEx, a tecnologia é destinada a fornecer energia elétrica a sistemas eletrônicos embarcados em armamentos, com aplicação imediata prevista no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX, também identificado como MAX 1.2 AC.

A iniciativa representa uma nova etapa de um esforço tecnológico de longa duração. O avanço agora anunciado não deve ser confundido com o início das pesquisas nem com a comprovação de que já exista produção seriada. O acordo estabelece uma parceria para a fabricação, mas o comunicado não detalha cronograma, capacidade produtiva, investimentos ou conclusão dos procedimentos de qualificação industrial.

Uma tecnologia desenvolvida ao longo de décadas 
As pilhas térmicas são fontes eletroquímicas de energia projetadas para permanecer inativas durante períodos prolongados de armazenamento. Quando acionadas, o aquecimento interno permite que o eletrólito passe a conduzir íons, viabilizando o fornecimento de energia aos circuitos do equipamento durante sua operação. Essa combinação de longa vida em armazenamento e rápida disponibilidade energética explica seu emprego em determinados mísseis, foguetes e outros produtos de defesa.

A pesquisa brasileira não é recente. Um trabalho acadêmico de 2025, disponibilizado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), descreve a evolução dos estudos realizados pelo CTEx, incluindo o desenvolvimento de sistemas de terceira geração voltados ao míssil anticarro. O documento ressalta a complexidade tecnológica dessas fontes energéticas, a necessidade de infraestrutura especializada e as dificuldades internacionais para aquisição de componentes e insumos.

A importância estratégica decorre justamente dessa combinação de requisitos técnicos e restrições de fornecimento. Em sistemas militares armazenados por longos períodos, a disponibilidade da fonte de energia no momento do emprego é parte essencial da confiabilidade do armamento. Produzir nacionalmente esse componente pode reduzir vulnerabilidades logísticas, desde que a fabricação alcance escala, qualidade e regularidade compatíveis com as necessidades operacionais.

Da pesquisa do Exército à capacidade industrial 
O APPDI aproxima o conhecimento acumulado pelo CTEx da experiência da SIATT no desenvolvimento, integração e produção de sistemas de armas. A empresa participa do programa do míssil anticarro MAX 1.2 AC e atua em projetos de mísseis da Marinha, entre eles o MANSUP. A articulação entre laboratório público e indústria pode facilitar a transição de protótipos e processos especializados para uma cadeia de fornecimento nacional.

A SIATT também ampliou recentemente sua estrutura industrial em Caçapava, no interior paulista. Embora essa expansão ofereça contexto relevante para o acordo, não há informação confirmada de que a fabricação das pilhas térmicas ocorrerá nessa unidade. A localização da futura produção e a eventual necessidade de instalações específicas permanecem em aberto.

A prioridade imediata é o míssil MAX 1.2 AC 
O comunicado do CTEx indica expressamente a possibilidade de emprego imediato no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX. A referência aproxima o desenvolvimento da demanda concreta de um armamento brasileiro já associado à capacidade industrial da SIATT. Entretanto, a expressão não permite afirmar, por si só, que as pilhas nacionais já equipam todos os exemplares produzidos ou que tenham substituído integralmente fontes importadas.

A incorporação efetiva de um novo componente a um sistema de armas exige compatibilidade com os requisitos elétricos, mecânicos, térmicos e de segurança, além dos ensaios e processos de qualificação aplicáveis. Por isso, o estágio de certificação das pilhas para os lotes de série constitui uma das informações mais relevantes ainda não divulgadas.

Possibilidades para outros programas 
O domínio das pilhas térmicas pode criar oportunidades em outros armamentos nacionais, especialmente aqueles que necessitem de fontes compactas de energia acionadas apenas no momento do emprego. Isso não significa, contudo, que a tecnologia anunciada já esteja selecionada para o MANSUP, o MANSUP-ER ou foguetes guiados. Cada sistema possui arquitetura e requisitos próprios, e qualquer integração dependeria de desenvolvimento e validação específicos.

A SIATT já divulgou anteriormente que o sistema de guiagem, navegação e controle do MANSUP utiliza um conjunto de baterias para alimentar seus circuitos durante o voo. Essa informação demonstra a relevância das fontes energéticas no projeto, mas não identifica essas baterias como pilhas térmicas nem estabelece vínculo técnico com o acordo recém-assinado.

Autonomia tecnológica e questões ainda abertas 
Além do potencial de redução da dependência externa, a parceria levanta questões sobre propriedade intelectual, direitos de fabricação e eventual comercialização internacional. A SIATT tem participação acionária do grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, mas esse vínculo societário não autoriza concluir que a tecnologia do CTEx será transferida ao grupo estrangeiro. O alcance dos direitos concedidos à parceira industrial dependerá das cláusulas do acordo e das normas aplicáveis.

Também não foram divulgados o percentual de nacionalização dos insumos, a capacidade anual projetada, o investimento previsto e a data estimada para entrega das primeiras unidades industriais. Sem esses dados, seria prematuro dimensionar o impacto econômico da parceria ou afirmar que a dependência externa foi superada.

O significado do acordo está, portanto, na tentativa de fechar um elo crítico entre pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Se a industrialização e a qualificação forem concluídas, o Exército poderá contar com uma fonte energética estratégica produzida no País, fortalecendo a sustentação logística do MAX 1.2 AC e criando uma base tecnológica potencialmente aproveitável em futuros produtos de defesa.

06 outubro, 2026

Avibras Aeroco faz primeira entrega ao Exército e transforma retomada industrial em resultado concreto

Cinco meses após reiniciar as operações, empresa entrega lote de munições em Formosa; marco ocorre dias depois da transferência de contrato de R$ 60,8 milhões que prevê 3.072 foguetes ASTROS



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LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Avibras Aeroco alcançou nesta terça-feira, 6 de outubro, um dos marcos mais relevantes desde a retomada de suas operações: a entrega do primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro (EB). O material foi recebido no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt), em Formosa (GO), principal estrutura logística de apoio ao Sistema ASTROS da Força Terrestre.


A entrega ocorre apenas cinco meses depois do início oficial das atividades da nova empresa, em maio, após um longo período de crise financeira, recuperação judicial e paralisação industrial da antiga Avibras. Mais do que cumprir uma etapa contratual, o evento representa a primeira demonstração concreta de que a reorganização empresarial conseguiu reativar a cadeia produtiva, recompor equipes especializadas e voltar a colocar material de emprego militar nas mãos do principal cliente nacional da companhia.

Que munições foram entregues? 

A Avibras Aeroco não informou, em seu comunicado, o tipo nem a quantidade das munições que compõem o primeiro lote. Esse ponto impede afirmar, neste momento, que a entrega corresponda a um contrato específico.

Há, entretanto, uma coincidência relevante. Em 25 de setembro, poucos dias antes da entrega, foi publicada a sub-rogação total do Contrato nº 130/2023, pelo qual a Avibras Aeroco assumiu da Avibras Divisão Aérea e Naval S.A. todos os direitos e obrigações de uma encomenda do Exército no valor de R$ 60.800.818,56, com vigência até 31 de dezembro de 2026.

Como o LRCA Defense Consulting revelou em 28 de setembro, a documentação original desse contrato prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, destinados ao treinamento das guarnições, e 56 contêineres completos AV-CL/SS-30, cada um contendo oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições.

Os AV-SS-09 TS representam a maior parcela quantitativa da encomenda e somam R$ 37,96 milhões. Os contêineres com os 448 SS-30 correspondem a outros R$ 22,85 milhões. Embora a proximidade entre a transferência contratual e a entrega desta terça-feira torne plausível uma relação entre os dois fatos, não há, até o momento, confirmação pública da empresa ou do Exército que permita estabelecer essa vinculação como fato. 



De uma fábrica paralisada à primeira entrega em cinco meses 
A velocidade da retomada é um dos aspectos mais relevantes do anúncio. A Avibras Aeroco iniciou oficialmente suas operações em maio de 2026, reunindo ativos estratégicos, instalações e o portfólio tecnológico transferidos no processo de reorganização da antiga Avibras Indústria Aeroespacial.

A reativação foi apoiada por uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O processo permitiu reintegrar trabalhadores, contratar profissionais especializados, recompor fornecedores e colocar novamente em funcionamento áreas ligadas à fabricação de mísseis, foguetes, veículos especiais e sistemas aeroespaciais.

Em maio, a nova companhia também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Em julho, durante visita às instalações de Jacareí (SP), o Ministério da Defesa registrou que a fábrica já operava na produção de componentes metálicos para mísseis e foguetes, na montagem de sistemas de defesa e na fabricação de veículos especiais.

Segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a empresa precisou, nesses cinco meses, ativar áreas produtivas, incorporar mão de obra especializada e restabelecer elos de sua cadeia de suprimentos. A primeira entrega mostra que essa recomposição ultrapassou a fase de preparação fabril e chegou efetivamente à etapa de produção, aceitação logística e fornecimento ao cliente.

O Exército como elemento central da recuperação 
O Exército Brasileiro tem exercido papel central na retomada da Avibras Aeroco. Já em 6 de maio, representantes da empresa reuniram-se no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, com autoridades responsáveis por fabricação, tecnologia, avaliação e artilharia para alinhar demandas em andamento e discutir futuros contratos.

Em julho, nova reunião na unidade industrial de Jacareí reuniu a Diretoria de Fabricação, o Comando de Artilharia do Exército, as gerências do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e do Subprograma Artilharia de Campanha, além da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia. O encontro tratou tanto dos contratos existentes quanto de novas possibilidades de cooperação.

A escolha de Formosa para a primeira entrega é igualmente significativa. O Forte Santa Bárbara concentra o Comando de Artilharia do Exército e organizações diretamente ligadas ao emprego, treinamento, manutenção e logística de mísseis e foguetes. É ali que se encontra o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, responsável por sustentar a capacidade operacional do ASTROS.

ASTROS volta ao centro da atividade industrial 

O Sistema ASTROS continua sendo o principal ativo tecnológico e comercial da Avibras Aeroco. Desenvolvido no Brasil e exportado para diferentes países, o sistema permite empregar munições de diferentes calibres e alcances a partir de uma arquitetura móvel de lançadores, viaturas de comando, remuniciamento, apoio e controle de tiro.

Para o Exército, a disponibilidade regular de foguetes não se limita à formação de estoques. As munições de treinamento são necessárias para manter guarnições qualificadas, realizar exercícios de tiro e preservar a prontidão de unidades especializadas. Já os foguetes operacionais recompõem e ampliam a capacidade de fogo da Força Terrestre.

A retomada industrial ocorre paralelamente à evolução tecnológica do próprio ASTROS. Em agosto, Avibras Aeroco e Exército realizaram com sucesso mais uma etapa da certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), no Centro de Avaliações do Exército, na Restinga da Marambaia (RJ). O armamento, integrado ao sistema, foi desenvolvido para alcançar alvos a até 300 quilômetros.

O Programa Estratégico ASTROS-FOGOS também contempla a evolução da artilharia brasileira para capacidades de maior alcance e precisão, incluindo o foguete guiado SS-40G e o MTC, além da modernização mais ampla da Artilharia de Campanha. 


Mudança de controle avança em paralelo 
A recuperação operacional ocorre ao mesmo tempo em que a estrutura de controle da empresa passa por nova transformação. Em agosto, a Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, acertou a aquisição da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco.

Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições, ao concluir que a transação representava essencialmente uma substituição de agente econômico, sem potencial de produzir problemas concorrenciais. O valor da aquisição não foi divulgado.

A combinação de novo capital, continuidade dos contratos militares e retomada das linhas industriais cria uma situação bastante diferente daquela enfrentada pela companhia nos últimos anos. A sustentabilidade dessa recuperação, porém, continuará dependendo de encomendas domésticas, exportações, investimentos em desenvolvimento tecnológico e capacidade de manter uma cadeia de fornecedores compatível com produtos de defesa de alta complexidade.

Um marco que pode ser mais importante que o tamanho do lote 

Mesmo sem a divulgação da quantidade entregue nesta terça-feira, o significado industrial do evento é claro. Para uma fabricante de sistemas complexos, voltar a produzir não significa apenas religar máquinas. É necessário requalificar processos, restabelecer fornecedores, assegurar matérias-primas e componentes, recompor equipes de engenharia e produção, executar controles de qualidade e atender aos requisitos de aceitação do cliente militar.

A primeira entrega ao Exército indica que a Avibras Aeroco conseguiu percorrer esse ciclo em aproximadamente cinco meses. Trata-se de um indicador concreto de recuperação de capacidade produtiva, ainda que não seja suficiente, isoladamente, para assegurar a sustentabilidade financeira de longo prazo da companhia.

O próximo ponto a observar será a cadência das entregas. Caso o lote esteja relacionado ao Contrato nº 130/2023, a empresa terá diante de si uma encomenda que, em sua configuração original, envolve milhares de foguetes e prazo contratual até o fim de dezembro. Se pertencer a outro instrumento, a entrega continuará tendo relevância própria e reforçará a existência de uma carteira em execução.

De qualquer forma, cinco meses depois de iniciar uma nova etapa empresarial, a fabricante do ASTROS voltou a fazer aquilo que constitui a razão central de sua existência: transformar tecnologia nacional em sistemas e munições entregues às Forças Armadas brasileiras.

08 setembro, 2026

SIATT e Safran avançam para cooperação estratégica em defesa no Brasil

Acordo entre a SIATT, empresa do EDGE Group, e a Safran Electronics & Defense prevê explorar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e tecnologias críticas, com destaque para a criação de capacidade brasileira de desenvolvimento e produção de motores-foguete de propelente sólido 
 


*LRCA Defense Consulting - 08/09/2026

A SIATT, empresa brasileira do EDGE Group especializada em sistemas de armas inteligentes e integração de sistemas, assinou nesta terça-feira, 8 de setembro, um Memorando de Entendimento (MoU) com a Safran Electronics & Defense para explorar uma nova frente de cooperação tecnológica e industrial no Brasil. O acordo envolve sistemas de mísseis, munições vagantes (loitering munitions), defesa costeira e tecnologias associadas, mas seu ponto de maior alcance estratégico está na intenção de estabelecer, em território brasileiro, capacidade para desenvolver e produzir motores-foguete de propelente sólido. 

Motores-foguete passam ao centro da nova parceria 
Segundo o anúncio do EDGE, a cooperação deverá avaliar a implantação dessa capacidade nas instalações da SIATT no Brasil. O entendimento também abrange tecnologias consideradas críticas para sistemas de armas modernos, entre elas unidades de medição e navegação inercial, receptores GNSS, atuadores, miras eletro-ópticas e sistemas de busca e aquisição de alvos (seekers).

A iniciativa ainda está em fase exploratória. O MoU não representa, por si só, um contrato de produção, uma joint venture já constituída ou a definição de um sistema de armas específico. O que está formalmente estabelecido é um marco para estudar projetos e formas de cooperação. Essa distinção é importante porque o comunicado não informa cronograma, investimento, modelo societário ou quais produtos serão desenvolvidos inicialmente.

O momento industrial da SIATT 
A assinatura ocorre apenas 13 dias depois de a SIATT colocar em operação a Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no Vale do Paraíba. A planta, com 6.200 m² de área construída nessa primeira etapa, foi concebida para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados aos setores de Defesa e Espaço. 

A coincidência temporal não prova que o MoU com a Safran tenha sido motivado diretamente pela nova fábrica, mas cria uma conexão industrial evidente: a SIATT passa a contar justamente com uma infraestrutura projetada para ampliar sua atuação em propulsão e, agora, anuncia uma parceria com uma das maiores empresas europeias do setor aeroespacial e de defesa para estudar a criação de uma capacidade específica de motores-foguete sólidos.

Segundo o LRCA Defense Consulting, a nova unidade de Caçapava faz parte de um processo de expansão industrial do EDGE no Brasil e foi planejada em três fases. Ao final da implantação, a previsão divulgada é de 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos. 

Nova unidade em Caçapava (SP)

Uma lacuna histórica da indústria brasileira 
A propulsão de mísseis é uma das áreas mais sensíveis de uma cadeia de defesa. O motor-foguete não é apenas um componente de um míssil, mas um elo determinante para desempenho, alcance, aceleração, armazenamento e disponibilidade operacional do sistema. A capacidade de projetar e fabricar esse componente em escala industrial reduz dependências externas e pode facilitar a evolução de diferentes famílias de armas.

No caso brasileiro, o MANSUP é um exemplo particularmente relevante. O programa contou historicamente com a participação da AVIBRAS no desenvolvimento do motor-foguete e da integração dos protótipos, enquanto a SIATT ficou responsável pelo sistema de guiagem, navegação, controle e telemetria.

Isso significa que a nova iniciativa não deve ser interpretada como simples repetição do que a SIATT já fazia no MANSUP. O movimento anunciado agora aponta para a possibilidade de a empresa ampliar sua competência industrial em propulsão, potencialmente transformando uma capacidade vinculada a programas específicos em uma competência transversal aplicável a diferentes sistemas.

A parceria EDGE e Safran ganhou velocidade em 2026 
O acordo anunciado no Brasil é mais um capítulo de uma aproximação que ganhou força ao longo de 2026. Em fevereiro, EDGE e Safran Electronics & Defense assinaram um Memorando de Entendimento para explorar o desenvolvimento, a produção e a comercialização de sistemas avançados de armas ar-superfície, com possibilidade de evolução para sistemas superfície-ar e uma nova geração de armas inteligentes.

Em junho, durante a Eurosatory 2026, em Paris, os grupos assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica mais amplo. No dia seguinte, anunciaram os termos para duas possíveis joint ventures, uma nos Emirados Árabes Unidos e outra na França, além de uma linha de desenvolvimento conjunto de uma arma guiada de maior alcance baseada na família Hammer. 

A extensão dessa parceria ao Brasil, por meio da SIATT, amplia geograficamente a cooperação e acrescenta uma dimensão industrial que interessa diretamente à Base Industrial de Defesa brasileira. O próprio EDGE afirmou que o acordo brasileiro leva sua rede global de parcerias para o País e associa a Safran à SIATT na construção de capacidade de motores-foguete em território nacional.

Tecnologias críticas além da propulsão 
Outro aspecto relevante do MoU é a amplitude das tecnologias mencionadas. Sistemas de medição inercial e navegação são fundamentais para determinar a posição, atitude e trajetória de um míssil ou veículo, enquanto receptores GNSS podem complementar a navegação em determinados perfis de missão. Atuadores transformam os comandos do sistema de controle em movimentos físicos, e sensores eletro-ópticos e buscadores podem fornecer informações para aquisição, acompanhamento ou guiagem do alvo.

A Safran já possui presença industrial consolidada no Brasil. A empresa informa ter mais de 750 empregados no País, distribuídos por quatro unidades, e atua em equipamentos aeronáuticos, aviônicos, optrônicos, sistemas de navegação e motores de helicópteros. O Ministério da Defesa também incluiu, em maio de 2026, diversos produtos da Safran Electronics & Defense Brazil na relação de Produtos Estratégicos de Defesa, incluindo sistemas de navegação inercial, miras panorâmicas, telêmetros e equipamentos de observação. 

Portanto, o novo entendimento reúne duas bases industriais complementares: de um lado, a Safran, com décadas de presença e conhecimento tecnológico no País; de outro, a SIATT e o EDGE, com crescente capacidade de desenvolvimento, integração, produção e internacionalização de sistemas de armas.

O que pode surgir dessa cooperação 
O comunicado não identifica quais mísseis ou munições serão desenvolvidos, nem informa se algum projeto existente será adaptado. Ainda assim, a combinação das áreas citadas permite visualizar algumas possibilidades industriais: novos mísseis de alcance ampliado, sistemas de defesa costeira, munições de permanência e armas guiadas que utilizem diferentes combinações de navegação, sensores e propulsão.

Há também uma dimensão potencialmente importante para o setor espacial. A nova unidade de Caçapava foi planejada para atuar simultaneamente em Defesa e Espaço, inclusive com motores-foguete e outros sistemas propulsivos. O compartilhamento de competências entre esses dois domínios pode ampliar a escala econômica de tecnologias de alto valor e contribuir para a retenção, no País, de conhecimento relacionado à propulsão.

Brasil ganha capacidade, mas a autonomia dependerá da execução 
Sob a ótica da Base Industrial de Defesa, o aspecto mais significativo do anúncio é menos o nome da parceria e mais a possibilidade de transformar cooperação tecnológica em capacidade industrial permanente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece a defesa como setor estratégico para soberania, inovação, geração de empregos qualificados e reindustrialização, além de destacar a inserção competitiva do Brasil em cadeias globais de valor.

A entrada de uma empresa como a Safran pode acelerar a maturação de competências da SIATT e abrir acesso a mercados e tecnologias que seriam mais difíceis de desenvolver isoladamente. Ao mesmo tempo, o resultado para a autonomia tecnológica brasileira dependerá do grau de transferência efetiva de conhecimento, da participação de profissionais e fornecedores nacionais, da propriedade intelectual estabelecida em cada projeto e da capacidade de manter no País etapas críticas de desenvolvimento, produção, testes e qualificação.

Por enquanto, portanto, o anúncio deve ser lido como o início de uma nova frente de cooperação, e não como uma capacidade já operacional. Mas o momento em que ele ocorre é significativo: a SIATT acaba de colocar em funcionamento uma planta preparada para mísseis e motores-foguete, o EDGE está ampliando sua presença industrial brasileira e a Safran procura aprofundar sua cooperação com o grupo. Se os estudos previstos no MoU forem convertidos em projetos concretos, o Brasil poderá ganhar um novo polo de competência em propulsão e tecnologias críticas para armas guiadas.

Um movimento que reforça a posição do Vale do Paraíba 
O acordo também reforça a concentração, em São José dos Campos e no entorno, de competências brasileiras e internacionais relacionadas a defesa, aeroespacial e espaço. A região já reúne empresas, universidades, institutos de pesquisa e organizações ligadas a sistemas complexos. A expansão da SIATT, somada à crescente presença do EDGE e à histórica atuação da Safran no País, acrescenta mais um elemento a esse ecossistema.

O principal indicador a acompanhar daqui para frente será a passagem do entendimento para contratos, programas e investimentos. Se isso ocorrer, o MoU de 8 de setembro poderá ser lembrado não apenas como mais uma parceria empresarial, mas como o ponto de partida para uma capacidade industrial brasileira de motores-foguete sólidos associada a uma cadeia mais ampla de sensores, navegação, controle e sistemas de armas.

05 setembro, 2026

PLOA 2027 coloca programas de mísseis 14-X e MICLA em duas frentes estratégicas da FAB

Proposta orçamentária reserva R$ 23,7 milhões para o desenvolvimento da propulsão hipersônica e para a aquisição de mísseis de longo alcance; documentos não indicam que os dois projetos sejam integrados 



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 revela um dado que passou relativamente despercebido no detalhamento dos recursos destinados à Defesa: a Força Aérea Brasileira (FAB) terá, caso a proposta seja aprovada, duas dotações específicas para projetos de elevada complexidade tecnológica. Uma delas reserva R$ 12.694.107 ao Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X, identificado no orçamento como PropHiper. A outra destina R$ 11 milhões à aquisição de mísseis de longo alcance no âmbito do Projeto MICLA.

Somadas, as duas dotações chegam a R$ 23.694.107. Os valores não são expressivos quando comparados aos grandes programas de reaparelhamento das Forças Armadas, mas chamam atenção pela especificidade das ações e pelo que representam em termos de soberania tecnológica. De um lado, o País mantém uma linha de desenvolvimento de propulsão hipersônica. De outro, preserva no orçamento uma iniciativa voltada à obtenção de mísseis de longo alcance.

O dado ganha ainda mais relevância porque aparece poucos dias depois da publicação, pelo LRCA Defense Consulting, de uma análise ampla do PLOA 2027, na qual foram identificados os principais projetos de Defesa contemplados na proposta. Naquela reportagem, o foco estava nos grandes volumes destinados a aeronaves, submarinos, fragatas, blindados, drones e sistemas de mísseis. A análise específica das ações da Aeronáutica permite agora identificar duas rubricas que merecem atenção especial. 

14-X recebe dotação específica para o PropHiper 
A ação 16CN do PLOA 2027 tem uma denominação inequívoca: “Desenvolvimento do Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper)”. A dotação proposta é de R$ 12.694.107, com R$ 11.694.107 classificados como despesas correntes e R$ 1 milhão como investimento. O produto orçamentário é descrito como pesquisa ou projeto desenvolvida(o), com meta física de uma unidade.

A natureza da rubrica é importante. O PLOA não está propondo a compra de um sistema de armas denominado 14-X, nem sua incorporação operacional. O recurso está associado ao desenvolvimento tecnológico da propulsão hipersônica. Portanto, o valor não pode ser interpretado como o custo de uma futura arma hipersônica, mas como uma dotação para a continuidade de uma linha de pesquisa e desenvolvimento.

O 14-X é desenvolvido no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica da FAB e utiliza tecnologia de propulsão do tipo scramjet. Como esse tipo de motor necessita de velocidades muito elevadas para operar, o programa envolve um desafio adicional: levar o veículo às condições adequadas antes que sua própria propulsão hipersônica entre em funcionamento.

RATO-14X é o elo com a campanha de ensaios 
É nesse ponto que entra o RATO-14X, sistema de decolagem assistida por foguete desenvolvido para impulsionar o veículo hipersônico. Segundo informações divulgadas pela Agência Espacial Brasileira e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o projeto é desenvolvido pela FAB, por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em parceria com empresas e instituições de pesquisa.

A Mac Jee participa do desenvolvimento do RATO-14X e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) também firmou parceria com a empresa para atividades relacionadas a aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória. O sistema deverá levar o 14-X a mais de 30 quilômetros de altitude e a velocidades superiores a Mach 8, criando as condições necessárias para os ensaios do veículo hipersônico.

Em julho de 2026, o LRCA Defense Consulting informou que a Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X havia sido concluída e que o lançamento do 14-X estava previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. Na mesma ocasião, foi destacado que o DCTA havia inaugurado o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5 e relacionada ao esforço tecnológico do PropHiper.

MICLA aparece nominalmente no orçamento 
A segunda descoberta é igualmente relevante. A ação 16CQ do PLOA 2027 é denominada “Aquisição de Mísseis de Longo Alcance, Projeto MICLA” e recebe R$ 11 milhões. Aqui, a linguagem orçamentária é diferente da empregada no 14-X: não se trata de desenvolvimento de um projeto, mas de aquisição de armamento.

A proposta, entretanto, não informa quantos mísseis serão adquiridos, qual configuração será contemplada, quem será o fornecedor, qual será o cronograma de entrega ou qual parcela da dotação corresponde a eventual produção nacional. Também não é possível concluir, apenas a partir do PLOA, que os R$ 11 milhões resultarão em um lote operacional de MICLA-BR.

Ainda assim, a identificação nominal do Projeto MICLA é significativa. O projeto não é uma referência genérica a qualquer míssil de longo alcance. O orçamento vincula expressamente a ação 16CQ ao MICLA, mantendo a iniciativa dentro do planejamento da Aeronáutica para 2027.

Um projeto com história ligada à Avibras 
O MICLA-BR possui uma trajetória anterior à atual proposta orçamentária. O projeto foi desenvolvido pela FAB em parceria com a Avibras e está associado à busca brasileira por um míssil de cruzeiro de longo alcance. Em 2019, um F-5EM foi utilizado como plataforma de ensaios do sistema, em uma das evidências públicas mais importantes de que o projeto havia avançado para a fase de testes em voo.

O MICLA-BR foi descrito em fontes técnicas e documentos de planejamento como um míssil de cruzeiro destinado a lançamento a partir de plataformas aéreas, com alcance previsto na faixa de 300 quilômetros. O projeto também foi relacionado ao desenvolvimento de uma capacidade nacional de ataque de precisão de longo alcance e, historicamente, à futura integração com a família de caças Gripen.

A relação histórica com a Avibras torna a nova dotação especialmente interessante, mas exige cautela. O PLOA não identifica a empresa como destinatária dos R$ 11 milhões. Assim, não é possível afirmar que a previsão orçamentária represente uma nova encomenda à Avibras Aeroco ou mesmo que o eventual fornecimento será realizado pela empresa. O que o documento permite afirmar é que o Projeto MICLA continua nominalmente presente no planejamento orçamentário da FAB.

14-X e MICLA não são dois componentes do mesmo sistema 
A presença das duas ações no mesmo orçamento pode induzir a uma interpretação equivocada. Não há, no PLOA 2027, qualquer indicação de que o MICLA seja o sistema de lançamento do 14-X ou que os R$ 11 milhões destinados ao projeto de mísseis tenham relação direta com a campanha de ensaios hipersônicos.

O sistema associado ao lançamento experimental do 14-X é o RATO-14X. Seu objetivo é acelerar o veículo hipersônico até as condições de velocidade e altitude necessárias para o funcionamento do scramjet. O MICLA, por sua vez, é um projeto de míssil de cruzeiro de longo alcance, com finalidade militar distinta.

A relação entre os dois programas é, portanto, estratégica e não física. O 14-X representa a busca por domínio de tecnologias de propulsão e voo hipersônico. O MICLA representa a busca por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. São iniciativas diferentes, mas ambas inseridas no esforço de ampliar o domínio tecnológico e as capacidades estratégicas da FAB. 

A grande pergunta agora é o que será comprado no âmbito do Projeto MICLA 
O aspecto mais intrigante da ação 16CQ é a palavra “aquisição”. Se o PLOA fosse destinado apenas a financiar pesquisa, desenvolvimento ou estudos, seria natural esperar uma formulação semelhante à utilizada na ação do PropHiper. A escolha do termo indica que a Aeronáutica pretende utilizar a dotação de 2027 para obter algum tipo de material relacionado ao Projeto MICLA.

O orçamento, porém, não permite saber se a aquisição será de protótipos, componentes, subsistemas, unidades para ensaios, itens destinados à integração com plataformas ou efetivamente mísseis completos. Essa informação será decisiva para avaliar o estágio real do programa e deverá ser buscada junto ao Comando da Aeronáutica, ao Ministério da Defesa e às empresas envolvidas.

Também será importante acompanhar a tramitação do PLOA no Congresso Nacional. A proposta ainda poderá sofrer alterações durante a discussão orçamentária e, depois de transformada em Lei Orçamentária Anual, a execução dependerá da programação financeira do Governo Federal.

Duas linhas de alta tecnologia no mesmo orçamento 
O dado mais relevante do PLOA 2027 não está apenas nos R$ 23,7 milhões somados. Está na decisão de manter, lado a lado, duas linhas tecnológicas que podem ter impacto significativo no futuro da Força Aérea.

No campo hipersônico, o Brasil procura dominar tecnologias de propulsão, materiais, aerodinâmica, controle e ensaios em velocidades superiores a Mach 5. No campo dos mísseis de longo alcance, busca preservar e transformar em capacidade militar um conhecimento acumulado ao longo de anos, incluindo a experiência do MICLA-BR e sua relação histórica com a indústria nacional.

O orçamento de 2027, portanto, não permite concluir que o Brasil esteja prestes a colocar em serviço uma arma hipersônica ou um novo míssil de cruzeiro. Permite, entretanto, afirmar algo mais preciso: a FAB reservou espaço orçamentário específico para continuar o desenvolvimento do 14-X e, simultaneamente, para adquirir material no âmbito do Projeto MICLA.

É uma combinação que merece acompanhamento. No caso do 14-X, porque 2027 pode ser o ano de uma campanha de ensaio em voo que representará um dos mais ambiciosos testes tecnológicos da história aeroespacial brasileira. No caso do MICLA, porque a palavra “aquisição” pode indicar uma mudança de estágio do programa, cuja natureza somente poderá ser esclarecida quando forem conhecidos os contratos, objetos de compra e fornecedores.

A partir desses dois movimentos, o PLOA 2027 passa a oferecer uma leitura adicional do esforço de modernização da FAB: além dos grandes programas já conhecidos, como Gripen e KC-390, existe uma agenda de tecnologias de alto risco e alto impacto potencial que continua recebendo recursos específicos.

30 maio, 2026

Mac Jee e MBDA formalizam cooperação em tecnologias avançadas de defesa e propulsão

Acordo de intenções marca novo patamar no relacionamento entre a empresa brasileira de São José dos Campos e o maior grupo europeu de mísseis; visita técnica em 28 de abril consolidou intercâmbios industriais iniciados no Paris Air Show de 2023


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LRCA Defense Consulting - 30/05/2026

A Mac Jee anunciou, em 29 de maio de 2026, a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) com o Grupo MBDA, maior fabricante europeu de mísseis. O instrumento formaliza o diálogo estratégico em curso entre as duas empresas e abre caminho para a exploração de oportunidades de cooperação em atividades avançadas de defesa e propulsão.

A assinatura foi precedida por uma visita técnica realizada em 28 de abril de 2026, quando representantes da MBDA estiveram nas instalações da Mac Jee para intercâmbios sobre processos industriais, capacidades produtivas, engenharia e perspectivas de desenvolvimento. O encontro deu continuidade a um relacionamento que já vinha sendo construído há pelo menos três anos: em junho de 2023, durante o 54º Paris Air Show, a Mac Jee anunciou a intensificação das trocas estratégicas com a MBDA, mencionando reuniões anteriores no Brasil e uma visita às linhas de produção em Paraibuna (SP). Àquela ocasião, a própria empresa descreveu a cooperação como um horizonte capaz de unir sua expertise em munições aéreas à liderança mundial do grupo europeu em mísseis e sistemas de mísseis.

Quem é a Mac Jee
Fundada em 2007, com sede em São José dos Campos e fábricas também em Paraibuna (SP), a Mac Jee iniciou suas atividades na distribuição de componentes militares importados, como conectores especiais, eletrônica embarcada e monitores. Com capital 100% nacional, o grupo se expandiu ao longo dos anos até se constituir em um conglomerado formado pelas empresas Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer, com escritório comercial em Paris.

O portfólio atual é amplo: munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone suicida Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos para foguetes. A empresa também detém a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 (antirradiação) e MAA-1B (ar-ar de curto alcance), adquirida em novembro de 2025 da extinta Mectron em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB). O MAR-1 havia sido exportado ao Paquistão e integrado a caças Mirage ROSE e ao JF-17; o MAA-1B foi lançado por caças F-5M em testes operacionais.

Em paralelo, a Mac Jee é parceira da FAB no programa hipersônico PROPHIPER 14-X, para o qual desenvolve o foguete acelerador RATO-14X, em colaboração com o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). O lançamento está previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. A empresa acumula ainda um contrato internacional de cerca de US$ 60 milhões para fornecimento de munições de tecnologia avançada, firmado em julho de 2025, além da implantação da primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, em parceria com a Saudi Chemical Company, com capacidade inicial de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX.

A CEO da empresa é Alessandra Stefani; o presidente do Conselho de Administração é Simon Jeannot, fundador do grupo, que deixou a gestão executiva para concentrar-se em decisões estratégicas e na expansão global.

Quem é a MBDA
A MBDA é o maior grupo europeu de mísseis e sistemas de mísseis, de propriedade conjunta da Airbus (37,5%), da BAE Systems (37,5%) e da Leonardo (25%). É o único grupo de defesa europeu capaz de projetar e produzir mísseis correspondentes a toda a gama de necessidades operacionais das forças terrestre, naval e aérea. Seu portfólio inclui sistemas como o Meteor (míssil ar-ar de médio alcance com propulsão ramjet e alcance de até 200 km), o SCALP-EG/Storm Shadow (míssil de cruzeiro), o Exocet (antinavio), a família Aster (defesa aérea de alta performance), o Mistral (defesa aérea de curto alcance), o MICA e o CAMM/CAMM-ER (defesa aérea multimissão e lançamento vertical), o Brimstone (ar-superfície) e o ASRAAM, entre outros.

Em 2025, a MBDA reportou receita de € 5,8 bilhões e carteira de pedidos de € 44 bilhões. Para 2026, projeta ampliar a produção total em 40%, com destaque para a duplicação da produção dos mísseis Aster. O plano de investimentos para o período 2026–2030 foi dobrado em relação ao ciclo anterior, chegando a € 5 bilhões em solo europeu, e a empresa prevê contratar 2.800 novos funcionários só em 2026. O crescimento reflete a demanda europeia e internacional por sistemas de defesa aérea diante dos conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio.

No Brasil, o histórico da MBDA é extenso e cobre as três Forças. A Marinha opera mísseis Mistral, três versões do Exocet e os sistemas de defesa aérea Sea Ceptor para as fragatas classe Tamandaré. Em maio de 2022, a empresa firmou MoU com a XMobots para integrar o míssil Enforcer a um drone nacional. Seu vice-presidente para a América Latina, Patrick de La Revelière, sinalizou à época o compromisso com parcerias de longo prazo com a indústria brasileira, citando projetos anteriores de transferência de tecnologia bem-sucedidos no país.

A relação mais densa da MBDA com a indústria nacional, porém, foi construída com a Avibras ao longo de mais de uma década. Na LAAD 2013, a Avibras apresentou um conceito antiaéreo baseado no míssil MICA VL da MBDA, associado ao caça Rafale, então concorrente do programa FX-2 da FAB. Com a não seleção do Rafale, o foco da parceria migrou para o CAMM (Common Anti-Air Modular Missile). Em novembro de 2014, as duas empresas apresentaram ao Exército Brasileiro, em Brasília, um conceito conjunto de defesa antiaérea de média altitude denominado AV-MMA (Míssil Modular Antiaéreo), baseado no CAMM e projetado para aproveitar as plataformas e a logística do Sistema ASTROS 2020, com cerca de 70% de conteúdo nacional.

O projeto AV-MMA não chegou a ser contratado, e o colapso financeiro da Avibras em 2022 interrompeu o ciclo no momento em que o Exército acelerava a obtenção de um sistema antiaéreo de média altitude. Em dezembro de 2025, por meio da Portaria EME/C Ex nº 1.086, o Exército formalizou a escolha do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions) da MBDA, adquirido via acordo Governo a Governo (G2G) com a Itália, com previsão de investimento de até R$ 5 bilhões. A configuração prevista inclui quatro viaturas radar Kronos Land (Leonardo) e seis viaturas lançadoras de oito mísseis cada, compostas pelo CAMM-ER (versão de alcance estendido, superior a 45 km), o mesmo míssil que equipa as fragatas Tamandaré, o que assegura interoperabilidade logística entre o Exército e a Marinha.

A Avibras Aeroco, reestruturada em 2026 com aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F, mantém ativo em seu portfólio um sistema de defesa antiaérea de média altitude com parceiro não identificado nominalmente, mas que a linguagem do site corporativo descreve como projeto em andamento, não concluído. Analistas do setor identificam a MBDA como o interlocutor natural dessa continuidade, dado o histórico documentado da parceria desde 2013. O ministro da Defesa sinalizou que a aquisição do EMADS poderá abrir caminho para a fabricação de mísseis no Brasil mediante transferência de tecnologia, o que tornaria a Avibras Aeroco uma candidata relevante para sediar essa produção, considerando que nenhuma outra empresa nacional acumula experiência equivalente em integração de sistemas de mísseis superfície-ar nessa faixa de altitude. 

Essa perspectiva adiciona uma nova camada de significado ao MoU Mac Jee–MBDA: além das complementaridades em propulsão e materiais energéticos, o grupo europeu aprofunda sua presença na Base Industrial de Defesa brasileira por múltiplos vetores simultâneos.

 

Áreas de interesse comum
O MoU não especifica projetos concretos, mas o histórico de ambas as empresas sugere sobreposições relevantes em pelo menos quatro domínios.

- Materiais energéticos e propulsão sólida
A Mac Jee domina a produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos, tecnologias que sustentam o funcionamento de praticamente qualquer sistema de mísseis. A MBDA, em fase de aceleração de produção, tem demanda crescente por esses insumos. O conhecimento da Mac Jee em propulsão sólida para foguetes, evidenciado pelo RATO-14X, é diretamente aplicável a programas de mísseis táticos e de defesa aérea.

- Munições aéreas e integração de ogivas
A Mac Jee apresentou no AUSA Global Force Symposium 2026, em Huntsville, Alabama, suas competências em materiais energéticos, integração de ogivas e tecnologias de grande calibre. Essas capacidades são complementares ao portfólio de sistemas de mísseis da MBDA, que necessita de fornecedores qualificados para componentes de ogivas e cargas de guerra.

- Propulsão hipersônica
A parceria da Mac Jee com o IEAv no projeto 14-X coloca a empresa no segmento hipersônico, exatamente onde a MBDA também investe por meio do projeto HYDIS (Hypersonic Defence Interceptor System), desenvolvido no âmbito do Fundo Europeu de Defesa. O intercâmbio técnico em propulsão avançada é um ponto natural de convergência.

- Sistemas de defesa aérea e contra-drones
A Mac Jee desenvolve capacidades multicamada envolvendo foguetes de 70 mm guiados, como demonstrado no MoU com a MSI Defense Solutions para integração do Armadillo ao sistema EAGLS, voltado ao combate a drones. A MBDA, por sua vez, opera o sistema Sky Warden de defesa contra UAS e o VL MICA NG para defesa aérea de curto alcance. Essa sobreposição de interesses em defesas multicamada e contramedidas a drones representa um eixo promissor.

 

Contexto estratégico
O MoU Mac Jee–MBDA se insere em um momento de reconfiguração acelerada da indústria de defesa global. A demanda por sistemas de mísseis e munições precisas cresceu de forma expressiva desde 2022, levando os principais fabricantes europeus a buscar parcerias com fornecedores de materiais energéticos e componentes de propulsão em países com bases industriais confiáveis, como o Brasil.

Para a Mac Jee, o acordo consolida a estratégia de posicionamento como parceira industrial de referência para grandes primes internacionais, uma trajetória que já inclui MoUs com a MSI Defense Solutions e projetos com a FAB e o DCTA. Para a MBDA, representa a formalização de um interesse que vem sendo cultivado desde, pelo menos, o Paris Air Show de 2023, quando as duas empresas expuseram publicamente a intensidade do diálogo em curso.

O relacionamento com o Brasil é parte de uma política deliberada da MBDA de aprofundar parcerias com a indústria nacional, conforme declarado pelo vice-presidente da empresa para a América Latina, Patrick de La Revelière, em 2022, quando afirmou que a empresa buscava criar tecnologias de primeira classe para as Forças Armadas Brasileiras por meio da cooperação industrial.

O MoU não estabelece compromissos de fornecimento ou transferência de tecnologia, mas assinala que as duas empresas identificaram suficiente complementaridade de capacidades para formalizar um quadro de exploração conjunta. Nos próximos meses, o conteúdo real da parceria deverá se revelar nos projetos concretos que emergirão desse diálogo.


MAC JEE & MBDA: PARCERIA EM NÚMEROS

Mac Jee — sede

São José dos Campos (SP)

Mac Jee — contrato internacional (2025)

US$ 60 milhões (munições avançadas)

MBDA — receita (2025)

€ 5,8 bilhões

MBDA — carteira de pedidos

€ 44 bilhões

MBDA — plano de investimento 2026–2030

€ 5 bilhões (solo europeu)

MBDA — crescimento de produção previsto (2026)

+40% (mísseis Aster: +100%)

Histórico do relacionamento Mac Jee–MBDA

Trocas estratégicas desde o Paris Air Show 2023; visita técnica a Paraibuna (2023); MoU assinado em 2026

Visita técnica da MBDA à Mac Jee

28 de abril de 2026


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