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27 junho, 2026

Míssil de cruzeiro AATD de longo alcance: o que se sabe sobre o programa da PlasmaHub

Missil AATD da PlasmaHub, em imagem renderizada por IA

*LRCA Defense Consulting - 27/06/2026

A empresa brasileira PlasmaHub, com sede em São José dos Campos (SP), esteve presente na Eurosatory 2026, realizada de 15 a 19 de junho em Paris. A participação ocorreu dentro do Espaço Brasil, pavilhão coletivo coordenado pela ABIMDE no Hall 5B, estande C100, junto com outras 18 empresas nacionais. A PlasmaHub vinha sendo associada, em publicações de terceiros nas redes sociais, a um sistema de mísseis de longo alcance para aplicações estratégicas, que estaria entre os destaques de sua participação no evento.

Até o fechamento desta matéria, porém, não foi localizada cobertura da imprensa especializada que confirme o míssil de longo alcance como destaque efetivo da presença da empresa na feira. Diferentemente de companhias brasileiras como Embraer, CBC, Taurus, Mac Jee e Condor, que tiveram estandes próprios na Eurosatory 2026, a PlasmaHub esteve no espaço coletivo do pavilhão nacional, o que pode ter limitado a visibilidade individual de seus produtos.
 
O sistema de lançamento e a propulsão híbrida
Segundo publicação do portal Brazil Defense Brief (BDB) feita antes da abertura da feira, o sistema contaria com um lançador móvel rodoviário configurável para dois a quatro mísseis em canisters. A solução integrada incluiria recarga de mísseis, fornecimento de combustível, controle móvel de missão, comunicações via satélite e integração C2 (comando e controle). Essas características, no entanto, não foram confirmadas por cobertura da feira em si nem por declaração oficial da PlasmaHub.

A propulsão, segundo a mesma publicação, combinaria dois estágios: um foguete de propelente sólido, usado como acelerador inicial (booster), e um motor turbojato, empregado na fase de cruzeiro. Essa arquitetura em dois estágios conferiria ao sistema capacidade de ataque de longo alcance, com ogiva de fragmentação por explosão.

Vídeo do perfil Global Militar postado no YouTube há seis meses, onde é dito que o míssil foi revelado pelo Jorn. Roberto Caiafa em seu blog Caiafa Master

O motor TJ-1000, da Turbomachine, e a confirmação pelo Exército Brasileiro
As imagens do míssil em montagem permitem identificar, no banco de testes, um motor turbojato de eixo único que corresponde, em proporções e posicionamento, ao modelo TJ-1000, fabricado pela brasileira Turbomachine. O motor tem peso seco de 70 quilos, 1.180 milímetros de comprimento e 350 milímetros de diâmetro, sendo capaz de gerar entre 1.000 e 1.200 libras-força de empuxo, conforme a configuração. Utiliza um compressor axial de quatro estágios, fabricado em peça única de alumínio, e turbina de um estágio. O mesmo motor já é empregado pela Avibras Aeroco, sob acordo de licença de fabricação, no míssil AV-TM 300 (também chamado MTC-300), que equipa o sistema ASTROS.

Fontes do setor apontam que versões mais potentes da propulsão, como um motor identificado como TF-1200, poderiam elevar o alcance de sistemas baseados no TJ-1000 a algo entre 1.500 e 2.000 quilômetros. Essa estimativa encontra respaldo em fonte primária: um trabalho acadêmico de 2025, produzido por sete oficiais do Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt) do Exército Brasileiro como requisito para a especialização em Planejamento e Emprego do Sistema de Mísseis e Foguetes, confirma que a PlasmaHub está desenvolvendo míssil de longo alcance denominado AATD, o qual pode chegar até 2000 km. O mesmo documento confirma que a plataforma lançadora teria capacidade de lançar até duas munições, no mesmo sentido do que circulava em publicações de terceiros nas redes sociais.

O estudo, voltado à base industrial de defesa que sustenta o sistema ASTROS, traz a confirmação institucional mais robusta sobre o programa até o momento. Descreve a PlasmaHub como empresa com expertise na integração de sistemas componentes de mísseis, foguetes, além de munições pesadas com sistemas de guiamento acoplados, fundada em 2018 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Detalha ainda a rede de parceiros da empresa na manufatura horizontalizada de seus produtos: Edge Of Space (EOS), responsável por dispositivos pirotécnicos; Índios Pirotecnia; Castro Leite Consultoria (CLC), que contribui com navegação inercial; Airtech Defense; e a própria Turbomachine, fornecedora dos motores. A PlasmaHub aparece como responsável pelo desenvolvimento do computador de missão (descrito no documento como Mission First Computer).

O estudo também registra que a empresa alega que seus produtos estão fora da jurisdição das ITAR (International Traffic in Arms Regulations, o regime norte-americano de controle de exportação de tecnologias de defesa), embora dependa de insumos e matérias-primas importadas para executar seus projetos. Buscar a condição de ITAR Free é relevante para a competitividade comercial do míssil, já que produtos sujeitos às ITAR enfrentam restrições severas de exportação impostas pelos Estados Unidos.

Míssil em fase de montagem, com a seção do motor exposta no banco de testes, em imagem da PlasmaHub

A ficha técnica completa do portfólio de mísseis
Materiais divulgados pela própria PlasmaHub detalham um portfólio mais amplo do que o míssil de longo alcance isoladamente. Ele inclui um míssil de cruzeiro de curto e médio alcance, o míssil de cruzeiro de longo alcance, uma estação de controle terrestre e uma estação de lançamento móvel baseada em veículo terrestre. A empresa também desenvolve um kit de guiamento e planeio para bombas da família MK (MK-81, MK-82 e MK-89), além de um foguete supersônico de artilharia e do já mencionado veículo lançador de satélites, em parceria com o consórcio liderado pela Cenic.

O míssil de curto e médio alcance tem alcance estimado entre 200 e 300 quilômetros, velocidade de Mach 0,80 e altitude de voo em torno de 20 mil pés. É propulsionado pelo motor turbojato TJ-200, da Turbomachine, e incorpora asas retráteis, aletas de controle em configuração cruciforme e entrada de ar inferior. O armamento emprega guiamento bidirecional com datalink, cabeça de guerra de fragmentação e erro circular provável (CEP) de 30 metros. O projeto tem como base o míssil de cruzeiro Caburé 300, desenvolvido pela própria Turbomachine e apresentado na LAAD 2015, o que indica linhagem de mais de uma década para o conceito.

Já o míssil de longo alcance, alvo principal desta matéria, mantém velocidade de Mach 0,75, carga útil de 200 quilos e o motor TJ-1000. Incorpora asas e superfícies de controle retráteis, lançamento a partir de canister e ogiva de fragmentação. O sistema conta ainda com sensor infravermelho para a fase terminal, CEP estimado em 2 metros, dispositivo de autodestruição e possibilidade de emprego de booster de aceleração, além da opção de lançamento a partir de uma unidade física dedicada.

A turbina TJ-200, por sua vez, é uma microturbina a gás de apenas 180 milímetros de diâmetro, com 12 quilos de peso e capacidade de gerar 220 libras-força de empuxo, suficiente para os 300 quilômetros declarados de alcance do míssil de menor porte.

Um papel potencial no ecossistema do ASTROS, mesmo com a Avibras reativada
O trabalho acadêmico do Exército situa a PlasmaHub dentro de um contexto institucional mais amplo: a crise da Avibras, fabricante histórica do sistema ASTROS, que entrou em recuperação judicial em 2022 por uma dívida de aproximadamente R$ 600 milhões. Essa crise comprometeu por anos o suprimento de munição e a manutenção do sistema, levando o Exército a mapear empresas alternativas da base industrial de defesa capazes de assumir funções antes exclusivas da Avibras.

Desde a conclusão do estudo, porém, o quadro mudou: em maio de 2026, a empresa, agora sob nova governança e rebatizada Avibras Aeroco, retomou suas operações após receber um aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F e encerrar uma greve de 1.280 dias. A retomada inclui a continuidade do MTC-300 (AV-TM 300) e do próprio sistema ASTROS, que segue propulsionado pelo motor TJ-1000 da Turbomachine sob licença de fabricação, sem indicação de substituição por um motor próprio da empresa.

Mesmo com a reativação da Avibras Aeroco, o mapeamento institucional que apontava a PlasmaHub como possível solução para a manutenção dos sistemas lançadores do ASTROS, dada sua expertise em plataformas e em sistemas lançadores, segue relevante: a base industrial de defesa brasileira tende a se manter diversificada, com a PlasmaHub, a SIATT, a Mac Jee e a Modirum Gespi mapeadas como possíveis fornecedoras complementares de munição, e com a PlasmaHub citada também na integração de sistemas de comunicações, meteorologia e cálculo de tiro, ao lado de RF Com e SIATT. Isso sugere que a empresa não atua apenas como desenvolvedora independente de um míssil próprio, mas também como possível ator de apoio dentro do ecossistema industrial que sustenta um dos principais sistemas de artilharia do Exército Brasileiro.

Uma visão mais ampla da PlasmaHub
O míssil de longo alcance é apenas uma frente da PlasmaHub. A empresa, formada por engenheiros com passagens pela Embraer, pela Avibras e pela Mectron, atua também no setor espacial: integra o consórcio liderado pela Cenic Engenharia responsável pelo desenvolvimento do MLBR (Microlançador Brasileiro), o veículo lançador de pequeno porte (VLPP) financiado pela Finep, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com participação da Agência Espacial Brasileira (AEB).

No consórcio, a PlasmaHub contribui com o banco de controle de lançamento, projetos aeroespaciais e montagem de módulos. O programa já passou pela Preliminary Design Review (PDR), em junho de 2024, e pela Critical Design Review (CDR), concluída com sucesso em 29 e 30 de maio de 2025, marco que autorizou o início da fase de construção e testes. Em janeiro de 2026, o MLBR concluiu também um teste de resistência do motor. A próxima etapa é a Systems Qualification Review (SQR), que avaliará a qualificação dos principais subsistemas do veículo.

Vale notar que o projeto concorrente ao MLBR, o VLN-AKR, liderado pela Akaer, foi cancelado por irregularidades na prestação de contas, o que deixou o MLBR como o único projeto privado em andamento no Brasil para o desenvolvimento de um microlançador.

 
Renderização do futuro Complexo Industrial e Tecnológico da PlasmaHub e Turbomachine em Paracuru (CE) em vídeo do perfil @beimoficial no Instagram, postado em setembro de 2024 

O polo industrial de Paracuru
Outra frente relevante é a expansão territorial do projeto. A PlasmaHub e a Turbomachine pretendem construir um complexo industrial de engenharia espacial em Paracuru, no Ceará, em terreno doado pela prefeitura, com a previsão de cerca de 60 empregos diretos e mais de 200 indiretos. O município fica a aproximadamente 80 quilômetros de Fortaleza e relativamente próximo do Centro de Lançamento de Alcântara (MA), o principal ativo espacial estratégico do país.

A presença da Turbomachine no complexo sugere integração vertical entre as duas empresas, unindo produção de propulsão e integração de sistemas no mesmo polo. Reportagens anteriores já haviam destacado que a PlasmaHub descreve seu míssil de cruzeiro como um projeto “100% nacional”, reforçando a lógica de soberania tecnológica que também orienta o programa MLBR.

17 abril, 2026

O arsenal de mísseis que o Brasil está desenvolvendo

Da crise da Avibras ao surgimento de novos players, o país acumula projetos de mísseis de longo alcance que podem redefinir sua postura estratégica 


*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026

Numa base aérea brasileira cujo nome não foi divulgado, um motor a jato de fabricação nacional quebrou o recorde de distância em voo. O feito, anunciado discretamente pela Turbomachine, empresa de São José dos Campos, passou longe dos noticiários gerais. Mas para quem acompanha a indústria de defesa brasileira, o significado era claro: o coração propulsor dos mísseis de cruzeiro do Brasil havia acabado de provar que funcionava.

Era apenas mais um capítulo de uma história que avança em silêncio há décadas e que, em 2026, entrou em fase de aceleração sem precedentes. 

O Brasil está construindo, simultaneamente e em diferentes estágios de maturidade, um arsenal de mísseis de longo alcance que abrange desde um míssil de cruzeiro a 90% de conclusão até projetos hipersônicos capazes de voar a Mach 6. No centro dessa transformação estão três empresas que o público em geral mal conhece: Avibras, SIATT e Mac Jee. E surgindo na periferia desse ecossistema, duas outras: Plasma Hub e, como fornecedora transversal de propulsão, a própria Turbomachine.

A Avibras e o "Matador": vinte e cinco anos esperando o último disparo
A história começa em 1999, com uma Avibras em plena atividade e a primeira concepção de um míssil de cruzeiro nacional. O desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001, mas os anos seguintes foram de reformulações profundas: as asas retráteis foram removidas, materiais compostos incorporados, o projeto inteiramente refeito. Em 2012, o Exército Brasileiro assinou o contrato de encomenda e investiu US$ 100 milhões na fase de desenvolvimento. O míssil ganhou o apelido de "Matador".

Hoje, em 2026, o Matador ainda não entrou em serviço. Mas está mais perto do que nunca: 90% do desenvolvimento está concluído, aguardando apenas a campanha de tiros de certificação, etapa que requer a Avibras em plena operação.

Tecnicamente, o AV-TM 300 é um projétil de engenharia aeronáutica sofisticada. Voa a cerca de mil km/h em perfil rasante, mantendo altitude de aproximadamente 800 metros e acompanhando o relevo do terreno para dificultar a detecção por sistemas antiaéreos. Seu alcance declarado é de 300 km, com precisão de até 30 metros. O motor de cruzeiro é uma variante do turbojato TJ-1000, desenvolvido pela Turbomachine e produzido pela Avibras sob acordo de licença de fabricação. Há duas versões de ogiva: uma auto-explosiva de até 200 kg e uma múltipla com 66 submunições.

O alcance declarado de 300 km, porém, não é o limite técnico... é o limite político. O Brasil é signatário do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que restringe a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, o gerente do Programa Astros 2020 declarou a jornalistas que o AV-TM 300 tem "muito mais que 300 km de alcance; quantos forem necessários à defesa do Brasil".

O segredo que escapou num vídeo
O desdobramento mais revelador da história do Matador foi a versão aerolançável, o MICLA-BR - Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance. Em março de 2019, o jornalista Roberto Caiafa recebeu uma dica: um caça F-5EM Tiger II da Base Aérea de Canoas havia sido fotografado carregando, no cabide central, um artefato alaranjado de grandes proporções. A Força Aérea silenciou. Meses depois, foi o próprio Ministério da Defesa que entregou o segredo: no vídeo comemorativo dos 100 dias do governo Bolsonaro, aos cinco minutos e cinco segundos, lá estava a imagem do teste.

A confirmação oficial veio em 24 de setembro de 2019, quando o Major-Brigadeiro Sérgio Roberto de Almeida, chefe da Sexta Subchefia do EMAER, apresentou ao Congresso Nacional os 18 projetos estratégicos da FAB. O MICLA-BR foi descrito como "o sexto projeto estratégico da Força Aérea, um projeto de grande porte que equaliza o Brasil militarmente com outros países que possuam esta capacidade". Segundo o slide exibido, trata-se de um míssil de cruzeiro com 300 km de alcance, com propulsão por motor a reação, para lançamento por plataformas aéreas e de superfície, equipado com navegação inercial/GPS e redundância por correlação de imagem. Dependendo da missão, o MICLA-BR pode carregar sensor infravermelho, radar de acompanhamento do terreno ou radar de abertura sintética (SAR).

Em novembro de 2020, FAB e Avibras formalizaram a parceria com um Memorando de Entendimento, no qual o então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, definiu o projeto como "um dos mais importantes" dos programas estratégicos da Força. A destinação era clara: armar os caças F-39 Gripen que a FAB começava a receber.

A versão aerolançável tem diferenças técnicas importantes em relação ao AV-TM 300 terrestre. Como o lançamento ocorre a partir de uma aeronave já em velocidade e altitude, o booster de propulsão sólida, necessário para ejetar o míssil do lançador terrestre, torna-se dispensável. Isso simplifica o projeto e potencialmente amplia o alcance efetivo. Com o F-39 Gripen armado com o MICLA-BR e apoiado pelo reabastecimento em voo do KC-390, a FAB teria condições de atingir qualquer alvo estratégico no continente sul-americano ou na costa atlântica africana, uma capacidade de dissuasão sem precedentes na história das Forças Armadas brasileiras.

O programa, porém, também foi vítima da crise da Avibras. Com a empresa em recuperação judicial e a produção paralisada por três anos, o desenvolvimento perdeu tração. 

A virada veio neste mês de abril de 2026. Joesley Batista, controlador da J&F, a holding que comanda a gigante JBS, assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a reestruturação. Com o acordo trabalhista homologado, a previsão é de que a fábrica retome as operações em maio, chegando a 200 funcionários, 500 em junho e mais de mil à medida que novos contratos forem fechados. A prioridade imediata é concluir a campanha de tiros do Matador, desbloqueando também o caminho para a versão aérea.

Além do MTC-300 e do MICLA-BR, o Exército quer ainda o S+100, um míssil balístico tático que aproveitará o conhecimento acumulado no foguete SS-80 do sistema ASTROS, com compatibilidade garantida com os lançadores existentes. Enquanto o míssil de cruzeiro voa rasante e subsônico, o balístico segue trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação dos dois sistemas dentro da plataforma ASTROS, rebatizada de "Fogos", daria ao Brasil uma capacidade de dissuasão em múltiplas camadas sem paralelo na América do Sul.

O "Matador" e o MICLA-BR aguardam seu último disparo. Ambos dependem de que as luzes da fábrica em São José dos Campos finalmente voltem a se acender e, desta vez, para não mais se apagarem.

A SIATT e o "easter egg": o segredo que escapou numa foto
Se a Avibras é a veterana em crise, a SIATT é a ascendente em expansão acelerada. Fundada há dez anos, a empresa de São José dos Campos foi adquirida em 50% pelo Grupo EDGE, conglomerado de defesa de Abu Dhabi que já investiu cerca de R$ 3 bilhões no Brasil. Em setembro de 2025 inaugurou nova sede com 6.000 m², consolidando laboratórios, engenharia e produção num único campus.

Em março de 2026, uma publicação aparentemente rotineira no LinkedIn da SIATT (foto abaixo) gerou ondas no setor. O jornalista e analista Angelo Nicolaci, ao examinar a imagem compartilhada pela empresa, identificou um míssil que não constava em nenhum catálogo oficial (na foto a seguir, à esquerda, em cima). Fontes próximas ao desenvolvimento confirmaram ao jornalista: trata-se de um novo sistema em versões com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km, categoria equivalente ao Tomahawk americano. A empresa já teria realizado uma prova de conceito com voo de teste de aproximadamente 120 km.

Imagem divulgada pela SIATT

A revelação tem dimensão estratégica que vai além do Brasil. O Grupo EDGE, que no Dubai Airshow 2025 lançou 42 novos produtos em um único dia, não possui em seu portfólio nenhum míssil com alcance próximo ao do Tomahawk. Seu sistema mais avançado, o WSM-1, alcança apenas 290 km. Um míssil com DNA brasileiro e alcance entre 500 e 1.000 km preencheria uma lacuna crítica para um conglomerado que hoje vende para mais de 50 países.

No portfólio confirmado, a SIATT já opera sistemas relevantes: o MANSUP, míssil antinavio desenvolvido com a Marinha do Brasil, com alcance de 70 km; o MANSUP-ER, versão estendida com alcance de 200 km; e o sistema anticarro MAX 1.2, contratado pelo Exército e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Em fevereiro de 2026, a Marinha assinou protocolo de intenções para o desenvolvimento do MARSUP, versão aérea do MANSUP, para lançamento por helicópteros e aviões. Na FIDAE 2026, em abril, a SIATT exibiu em tamanho real o MANSUP e o MAX 1.2 para audiência internacional.

Concepções artísticas dos mísseis

Mac Jee: a empresa que quer fazer tudo
Menos conhecida do que Avibras e SIATT, a Mac Jee se posicionou nos últimos anos como o player mais ambicioso da nova geração. Reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa e sediada no mesmo polo tecnológico de São José dos Campos, a empresa opera com a menor exposição pública e o portfólio mais diversificado.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, sistemas desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, projetado para neutralizar radares e sistemas de defesa aérea inimigos em operações SEAD (do inglês Suppression of Enemy Air Defenses - Supressão de Defesas Aéreas Inimigas). O MAA-1B é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento infravermelho avançado (IIF) e capacidade off-boresight (capacidade de mísseis rastrearem e engajarem alvos localizados fora do eixo central da aeronave).

 Os folhetos técnicos revelam dados precisos: o ARM (evolução do MAR-1) tem alcance de 70 km, peso de 272 kg e ogiva de 90 kg; o SRAAM (evolução do MAA-1B) tem alcance de 25 km e guiamento IIR dual-band de 5ª geração.

Mas são os projetos não catalogados que mais chamam a atenção. A Mac Jee também está desenvolvendo um míssil de cruzeiro com motor microjato, asas retráteis e lançamento terrestre, concorrendo diretamente com o MTC-300 num segmento em que a Avibras tem décadas de vantagem. E um SRBM (Short-Range Tactical Ballistic Missile): alcance de 300 km, peso de 2.200 kg, comprimento de 6 metros, ogiva de 250 kg, navegação GNSS/INS e precisão de até 10 metros. Lançado de silos ou plataformas móveis, com tempo de voo de apenas 5 minutos ao alvo máximo. O artigo da Infodefensa foi categórico: o SRBM coloca o Brasil como o primeiro país da América Latina a desenvolver um míssil balístico com capacidades comparáveis ao MGM-140 ATACMS norte-americano.

No front hipersônico, a Mac Jee é parceira estratégica do IEAv (Instituto de Estudos Avançados da FAB) no Projeto 14-X, o mais ambicioso da defesa brasileira. Em dezembro de 2025, os dois firmaram acordo de 36 meses envolvendo cerca de 40 engenheiros para desenvolver o sistema de propulsão hipersônica. Em 2021, o protótipo já havia atingido Mach 6 e 160 km de altitude durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Alcântara. O investimento total já passou de R$ 117 milhões. O primeiro voo efetivo está previsto para 2027; a aplicação operacional, para 2030.

A Plasma Hub e o motor do futuro
Entre as novatas do setor, a Plasma Hub se destaca por um projeto que nenhuma outra empresa brasileira assumiu explicitamente: um míssil de cruzeiro com alcance superior a 1.000 km, arma estratégica, não tática.

A empresa, também sediada em São José dos Campos e reconhecida como EED, foi formada por engenheiros com passagens pela Embraer e pela Avibras. A solução que a distingue é a parceria com a Turbomachine para uso do motor TJ-1000, o mesmo que a própria Avibras utiliza sob licença no MTC-300. Com esse propulsor, a Plasma Hub projeta velocidade de cruzeiro de aproximadamente 900 km/h e carga útil de 200 kg. O sistema de guiamento terminal infravermelho promete precisão de 2 metros. O lançamento está previsto para ocorrer de caminhões ou silos fixos.

O analista Roberto Caiafa foi direto ao ponto: se o fabricante declara "longo alcance" com o TJ-1000, o sistema necessariamente ultrapassa os 1.000 km. E se ultrapassa os 300 km do MTCR, fica evidente que o projeto foi concebido tendo o Estado Brasileiro como cliente exclusivo, pois não pode ser exportado dentro das regras internacionais às quais o Brasil aderiu.

A Plasma Hub integra ainda o consórcio do ML-BR (Micro Lançador de Satélites Brasileiro), responsável pela montagem e integração dos sistemas de bordo, demonstrando a sobreposição intrínseca entre tecnologia espacial e missilística.

Turbomachine: o motor silencioso de tudo
Por trás de vários desses programas, há uma empresa que raramente aparece nas manchetes: a Turbomachine. Fundada em 2007 a partir do CTA/ITA pelo engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, ela nasceu de um desafio da Petrobras para criar a primeira turbina a gás brasileira. Em 2009, a Avibras bateu à sua porta para pedir o motor do Matador.

Hoje o TJ-1000 - turbojato de 5.000 N de empuxo, com mais de 600 partidas bem-sucedidas e mais de 100 horas de operação acumulada - é classificado como Produto Estratégico de Defesa (PED) e integra ou está em negociação com quase todos os programas de mísseis do país. Em novembro de 2024, a Turbomachine anunciou outro marco: seu turbofan de baixa razão de bypass, o primeiro desenvolvido no hemisfério sul, alcançou 25 mil RPM com estabilidade operacional.

A confirmação do interesse governamental no trabalho da empresa veio no final de março de 2026, quando representantes do Ministério da Defesa, do MCTI e da ABIN visitaram suas instalações durante a semana de apresentação do PRONABENS (Programa Nacional de Integração Estado-Empresa na Área de Bens Sensíveis). A presença simultânea dos três órgãos, incluindo o órgão de inteligência nacional, não passou despercebida: indica que o TJ-1000 e seus derivados são acompanhados ao nível de tecnologia sensível classificada.

Quadro estratégico: o que está em jogo
Somados, os projetos em curso desenham um Brasil missilístico que não existia há uma década. Na camada de alcance médio (até 300 km), o MTC-300 da Avibras e o míssil de cruzeiro da Mac Jee competem pelo mesmo espaço, com o primeiro em fase de conclusão e o segundo em desenvolvimento. Na camada longa (300–1.000 km), o míssil ainda não confirmado da SIATT (se chegar ao mercado) colocaria o Brasil numa categoria de pouquíssimos países. Na camada estratégica (mais de 1.000 km), o projeto da Plasma Hub aponta para um sistema sem precedentes na América do Sul. E na fronteira hipersônica (Mach 5+), o 14-X da Mac Jee com a FAB aguarda seu primeiro voo real em 2027.

O contexto não poderia ser mais favorável. A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal. O orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. A indústria que quase perdeu sua principal empresa agora dispõe (em princípio) de capital, legislação e demanda que não tinha.

A pergunta que fica é a do jornalista especializado Roberto Caiafa ao contemplar a Plasma Hub, e que serve para todo o setor: as Forças Armadas demonstrarão interesse pelos projetos? Investirão os recursos necessários para transformar protótipos e conceitos em armas operacionais? 

A Avibras esperou 25 anos pelo último disparo do Matador. O Brasil pode não ter esse tempo no mundo que está se formando.

18 março, 2026

"Easter Egg" pode ter revelado o novo míssil de longo alcance da SIATT

Em uma publicação aparentemente rotineira no LinkedIn, a empresa colocou o que pode ser a silhueta de uma arma inédita. O especialista Angelo Nicolaci foi o primeiro a perceber, e o que ele encontrou pode mudar o perfil de defesa do país 


*LRCA Defense Consulting - 18/03/2026

O que parecia ser mais uma publicação institucional no LinkedIn pode ter se tornado um dos maiores furos da defesa brasileira dos últimos tempos. A SIATT, empresa estratégica de defesa com sede em São José dos Campos e subsidiária do Grupo EDGE dos Emirados Árabes Unidos, divulgou uma imagem de conteúdo aparentemente genérico sobre soberania tecnológica (imagem acima), mas pode ter colocado nela, de forma deliberada, o que especialistas já chamam de um easter egg de alto impacto: a silhueta de um míssil completamente desconhecido do público.

Quem revelou a descoberta foi o jornalista e especialista em defesa Angelo Nicolaci, editor do GBN Defense e correspondente do Zona Militar no Brasil. Ao analisar a imagem publicada pela SIATT nas redes sociais, Nicolaci identificou um míssil que ainda não consta no catálogo oficial da empresa, uma descoberta que rapidamente repercutiu nos principais portais especializados do setor. 

Um míssil fora do catálogo
Segundo Nicolaci, fontes próximas ao desenvolvimento revelam que o armamento pertence à família de mísseis SIATT e está sendo desenvolvido em versões com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km. A empresa já teria realizado uma prova de conceito com um voo de teste de aproximadamente 120 km.

Esses números colocam o novo sistema em uma categoria radicalmente diferente dos mísseis já conhecidos da SIATT e em pé de igualdade com alguns dos armamentos mais estratégicos do planeta. A descoberta sugere que a SIATT avança no segmento de mísseis de longo alcance, na mesma categoria de armamentos como o Tomahawk, reconhecido mundialmente por sua precisão e alcance estratégico.

Por ora, embora ainda não haja confirmação ou divulgação oficial de características técnicas, a imagem e as informações obtidas indicam que o novo míssil poderá integrar futuras plataformas de ataque de longo alcance, reforçando a posição da SIATT como um dos principais desenvolvedores de armamentos na América Latina e no mundo. 

A base industrial que tornará tudo possível
Essa revelação não surgiu no vazio. Ela é o coroamento de uma expansão industrial sem precedentes na história recente da defesa brasileira.

Em 1º de setembro de 2025, a SIATT inaugurou sua nova sede em São José dos Campos em grande estilo; o evento marcou também os 10 anos de atividades da empresa. A nova sede, com 6.000 metros quadrados, reúne setores administrativos e de engenharia, laboratórios e instalações de produção, ampliando a capacidade de desenvolvimento e fabricação de sistemas e produtos de alta tecnologia.

A cerimônia reuniu altas autoridades das áreas civil, militar e empresarial dos dois países parceiros. Estiveram presentes o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth; o Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, comandante da Marinha do Brasil; o Almirante de Esquadra Carlos Chagas, comandante do Corpo de Fuzileiros Navais; Hamad Al Marrar, CEO do Grupo EDGE; e o prefeito de São José dos Campos, Anderson Farias. Prestaram honras também figuras históricas do setor aeroespacial nacional, como o General Sérgio Etchegoyen e o Brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, de 98 anos, ícone vivo da indústria aeroespacial brasileira.

O presidente da SIATT, Rogério Salvador, resumiu o momento em uma frase que sintetiza a ambição da empresa: "Esta inauguração não é sobre prédios, mas sobre gente. Mais do que cortar uma fita, estamos abrindo um caminho, um caminho feito de mãos dadas, de corações unidos, de sonhos possíveis e de novas conquistas. O futuro chegou! A SIATT faz!"

E São José dos Campos não será o único polo dessa expansão. A SIATT também está construindo uma fábrica em Caçapava, que ampliará sua capacidade produtiva e permitirá atender à crescente demanda por sistemas de defesa no Brasil e no exterior. 

A família de mísseis que cresce a cada mês
O novo míssil revelado pelo easter egg, caso seja confirmado, insere-se em um ecossistema de armamentos nacionais que se expande em velocidade impressionante. A SIATT hoje opera com uma família diversificada de sistemas, cada um representando um acordo estratégico distinto com as Forças Armadas brasileiras. Entre os principais programas em andamento estão o míssil antinavio MANSUP e sua versão estendida MANSUP-ER, em parceria com o Grupo EDGE, o míssil antitanque MAX 1.2 AC e o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz).

 

MANSUP e MANSUP-ER: a espinha dorsal naval
O ponto de partida de toda essa trajetória é o MANSUP. Em 2025, a Marinha do Brasil e a SIATT formalizaram sua parceria com um acordo de compartilhamento de propriedade intelectual que vai muito além de uma simples encomenda militar. O contrato define regras de uso, modificações, produção e exploração comercial dos mísseis no Brasil e no exterior, com pagamento de royalties à Marinha, o que significa que os sistemas poderão ser utilizados pelas Forças Armadas brasileiras e também exportados.

MARSUP: o míssil que vai voar com a Marinha
O passo seguinte já está formalmente anunciado e representa um salto qualitativo notável: a versão aérea do MANSUP. A SIATT e a Marinha do Brasil assinaram um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento conjunto de dois grupos de mísseis ar-superfície antinavio, denominados coletivamente MARSUP. A formalização ocorreu na sede da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha, no Rio de Janeiro, assinada pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri e pelo presidente da SIATT, Rogério Salvador.

O foco do programa é avaliar a adaptação da tecnologia já consolidada no MANSUP para equipar aeronaves da Força Aeronaval da Marinha. A lógica operacional é clara: enquanto o MANSUP de propelente sólido é indicado para integração com helicópteros embarcados como o AH-11B WildLynx e o SH-16 Seahawk, o MARSUP de longo alcance, baseado na tecnologia do MANSUP-ER, será vocacionado para plataformas como o AH-15B ASuW (versão mais sofisticada do helicóptero H225M, desenvolvida para a Marinha do Brasil e focada em guerra anti-superfície - ASuW), entregando letalidade a grande distância e ampliando a sobrevivência da aeronave no combate naval moderno. 

Imagem meramente ilustrativa

MAX 1.2 AC: a arma que já foi a campo
Enquanto os programas navais avançam, o vetor terrestre da SIATT já atingiu maturidade operacional plena, e tem uma história marcante para contar.

- Da assinatura ao campo de batalha
A SIATT e o Exército Brasileiro celebraram, durante a LAAD Defence & Security 2025, a assinatura do contrato para a produção do lote série do míssil MAX 1.2 AC. O momento contou com a presença de autoridades militares, representantes do governo e executivos da SIATT e do EDGE, evidenciando a importância da iniciativa para o fortalecimento das capacidades nacionais.

O presidente da SIATT foi contundente ao comentar o feito: segundo Rogério Salvador, o contrato representa um passo fundamental para a consolidação da capacidade da indústria brasileira de defesa em desenvolver e produzir sistemas estratégicos de alta complexidade, resultado de anos de pesquisa e inovação.

O MAX 1.2 AC foi empregado em público pela primeira vez em 16 de setembro de 2025, durante a Operação Atlas, no Campo de Instrução de Formosa (GO). O evento reuniu 2.500 militares e cerca de 180 meios terrestres e aéreos, dentro da fase central da operação, que busca testar a interoperabilidade estratégica das Forças Armadas, e contou com a presença do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.

Projetado a partir de um requisito operacional do Exército, mas já incorporado também pelos Fuzileiros Navais, o MAX 1.2 AC responde a uma lacuna histórica das Forças Armadas brasileiras: a ausência de sistemas anti-carro de emprego tático desenvolvidos localmente. O míssil agrega capacidade de penetração contra blindados modernos, resistência a contramedidas eletrônicas e flexibilidade de emprego em diversas plataformas.

- O lançamento histórico e a primeira mulher
Em outubro de 2025 veio o momento definitivo de validação técnica. O Exército Brasileiro realizou entre os dias 21 e 24 de outubro uma série de testes essenciais para a qualificação e aprovação do míssil MAX 1.2 AC no Centro de Avaliações do Exército (CAEX), com participação do Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e da SIATT.

O desfecho dos testes entrou para a história não apenas pela tecnologia, mas também pelo símbolo humano. No dia 24 de outubro, a oficial 1º Tenente Beatriz Luberiaga Bezerra, engenheira militar da Seção de Mísseis e Foguetes do CTEx, realizou o lançamento real do míssil MAX 1.2 AC, tornando-se a primeira mulher no Exército Brasileiro a conduzir essa operação com o sistema nacional.

Desde sua adoção formal em julho de 2025, o MAX 1.2 AC tornou-se o principal armamento antitanque do Exército Brasileiro. O diretor da SIATT, Robson Duarte, confirmou que o míssil já entrou em produção seriada, com novos lotes destinados ao Exército, acrescentando que o sistema fortalece a soberania e amplia a autonomia tecnológica do país.

- Potencial de exportação
O avanço do míssil chega em um contexto internacional marcado pela alta demanda por sistemas anti-carro, impulsionada pelo prolongamento da guerra na Ucrânia e pela modernização de arsenais na Ásia e no Oriente Médio. Caso obtenha certificação operacional plena e exportação autorizada, o MAX 1.2 AC pode abrir caminho para que a indústria brasileira conquiste espaço em um mercado hoje dominado por modelos norte-americanos, europeus e israelenses. 

MAX 1.2 AC

O papel do Grupo EDGE
Por trás de toda essa aceleração está o Grupo EDGE dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu 50% da SIATT em 2023. A parceria fortalece a capacidade de expansão da SIATT e posiciona a companhia no mercado internacional, ampliando sua inserção em projetos conjuntos de defesa e segurança. A aliança não é apenas financeira, é tecnológica e estratégica, transformando São José dos Campos em um dos epicentros mundiais de desenvolvimento de mísseis guiados de precisão. 

A lacuna estratégica do Grupo EDGE e por que o novo míssil da SIATT pode preenchê-la
Há um dado que confere ao easter egg descoberto por Angelo Nicolaci uma dimensão ainda mais explosiva: o Grupo EDGE, um dos maiores conglomerados de defesa do mundo, não possui em seu portfólio um míssil equivalente ao Tomahawk.

Uma análise dos sistemas disponíveis no catálogo do EDGE revela um padrão claro de alcances médios. O WSM-1, apresentado no Dubai Airshow 2025, é um míssil de cruzeiro de precisão capaz de atingir alvos a até 290 quilômetros, equipado com ogiva de 220 kg e sistema de redirecionamento terminal assistido por inteligência artificial. Já a família Nasef opera entre 150 e 200 km, e o topo da linha de mísseis de cruzeiro do grupo, o Fast Responder 200, apresentado no mesmo evento com design de baixa observabilidade e capacidade de voo persistente, foi projetado para um alcance de 270 km, otimizado para missões de ataque profundo e dissuasão estratégica.

Para efeito de comparação, o Tomahawk americano opera entre 1.250 e 2.500 km. Nenhum dos mísseis de cruzeiro do EDGE ultrapassa os 300 km. A lacuna é enorme e o novo sistema da SIATT, com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km, potencialmente a preencheria com sobra.

O próprio EDGE demonstra consciência dessa lacuna ao buscar ativamente aquisições no exterior que lhe proporcionem capacidade de longo alcance. O grupo preparou-se para adquirir uma participação de cerca de 30% na empresa ucraniana Fire Point, desenvolvedora do míssil de cruzeiro FP-5 Flamingo, em um acordo avaliado em aproximadamente 760 milhões de dólares e que implicaria um valuation total da companhia em torno de 2,5 bilhões de dólares. E o interesse não é casual: o Flamingo possui alcance superior a 1.000 km, velocidade máxima de aproximadamente 900 km/h e capacidade de voo a baixa altitude para reduzir a detecção por radar. No entanto, o processo de aprovação regulatória na Ucrânia encontrou obstáculos e a aplicação foi devolvida aos requerentes pelo Comitê Antimonopólio em janeiro de 2026, sem reapresentação registrada até o início de março.

Em outras palavras: o EDGE está tentando comprar, no exterior e por quase 800 milhões de dólares, uma capacidade que sua própria subsidiária brasileira pode estar desenvolvendo internamente, por uma fração do custo e com propriedade intelectual compartilhada.

Com mais de 53% de sua receita já proveniente de exportações, o EDGE se posiciona crescentemente como um competidor global no mercado de armamentos. Um míssil de cruzeiro estratégico de 500 a 1.000 km, produzido em parceria com a SIATT e com tecnologia genuinamente brasileira, abriria ao grupo um segmento de mercado que hoje está vedado a ele e ao Brasil, além de uma capacidade de exportação sem precedentes.

Os potenciais compradores são numerosos: países do Oriente Médio que buscam independência dos fornecedores ocidentais, nações do sudeste asiático em processo de modernização de suas forças armadas, parceiros africanos e mesmo vizinhos sul-americanos que compartilham com o Brasil a busca por soberania tecnológica na defesa.

O detalhe mais revelador de tudo isso: no Dubai Airshow 2025, o EDGE lançou 42 novos produtos em um único dia, um recorde, expandindo seu portfólio de drones autônomos, sistemas de propulsão e munições inteligentes. Mas entre todos esses lançamentos, nenhum chegou perto dos 500 km de alcance. A vitrine mais ambiciosa do grupo deixou exposto, justamente, o espaço que o novo míssil da SIATT pode ocupar.

Se o easter egg revelado por Angelo Nicolaci se confirmar, a parceria SIATT–EDGE não apenas preencherá uma lacuna crítica do portfólio emiratense, mas ela colocará uma arma estratégica com DNA brasileiro nas mãos de um grupo que hoje vende para mais de 50 países.

O "easter egg" em detalhe na imagem da SIATT

Análise de imagem sugere perfil de míssil de cruzeiro de longo alcance
Com base na renderização publicada pela SIATT, a LRCA Defense Consulting, ao analisar a imagem, acredita que ela possa mostrar um novo projétil da empresa, com fuselagem cilíndrica, nariz arredondado e pequenas asas na seção central. Um dos elementos mais reveladores é a aparente entrada de ar ventral, localizada na parte inferior do corpo do míssil. Esse detalhe é típico de sistemas movidos por motores turbojato ou turbofan, tecnologia empregada em mísseis de cruzeiro subsônicos capazes de voar por centenas ou até milhares de quilômetros.

Configurações semelhantes são encontradas em mísseis de cruzeiro como o Tomahawk, amplamente utilizado pelos Estados Unidos, o russo Kh-55 e o chinês CJ-10. Esses sistemas compartilham uma arquitetura aerodinâmica semelhante: asas relativamente pequenas, muitas vezes retráteis para lançamento em tubos, fuselagem alongada e sensores de navegação instalados na seção frontal.

Pelas proporções aparentes da renderização, estima-se que um sistema desse tipo teria cerca de 4,5 a 6 metros de comprimento, diâmetro próximo de 50 centímetros e massa total na faixa de 900 a 1.400 kg. Mísseis com essas dimensões normalmente operam em velocidades subsônicas, entre Mach 0,7 e Mach 0,9, e podem alcançar distâncias superiores a 500 km, dependendo do motor e da quantidade de combustível embarcada.

Outro elemento que chama a atenção é o nariz volumoso e arredondado, típico de mísseis que utilizam múltiplos sistemas de navegação e correção de trajetória. Em armamentos modernos, essa seção pode abrigar sensores de navegação inercial (INS), receptores de GPS, altímetros radar e, em alguns casos, sistemas de correlação de terreno ou sensores eletro-ópticos para a fase final do ataque.

O formato é, assim, compatível com um míssil de cruzeiro de ataque terrestre, conhecido na terminologia militar como Land Attack Cruise Missile (LACM). A arquitetura observada na imagem indica que, caso se trate de um projeto real, o sistema poderia ser compatível com diferentes plataformas de lançamento, incluindo lançadores terrestres baseados no sistema ASTROS II ou até aeronaves de transporte militar como o Embraer C-390 Millennium.

Por enquanto, a imagem permanece sem confirmação oficial e pode representar apenas um conceito preliminar ou material gráfico de estudo. Mesmo assim, a possibilidade de um míssil brasileiro com alcance na faixa de 500 a 1.000 km, semelhante em conceito ao Tomahawk, tem gerado interesse crescente entre analistas de defesa, por representar uma eventual e significativa ampliação da capacidade de projeção estratégica do país. 

O significado da descoberta
Para Angelo Nicolaci, a publicação da SIATT não foi acidental. Trata-se de uma mensagem cifrada ao mercado, uma forma de sinalizar capacidades sem fazer anúncios formais, prática cada vez mais comum entre empresas de defesa que operam em ambientes de alta competitividade e sigilo.

Especialistas apontam que a entrada da SIATT no segmento de mísseis de longo alcance estratégico representaria um passo significativo para a indústria de defesa brasileira, ampliando as capacidades da empresa em um mercado cada vez mais estratégico.

Com alcances projetados entre 500 km e 1.000 km, o novo sistema ultrapassaria em muito o MANSUP-ER e adentraria o território dos grandes mísseis de cruzeiro estratégicos, armamentos que hoje são prerrogativa de apenas um punhado de nações no planeta.

O easter egg da SIATT, decifrado pelo olhar aguçado de Angelo Nicolaci, pode ter sido o primeiro sinal público de uma virada histórica. Com uma nova sede inaugurada, uma segunda fábrica em construção em Caçapava, contratos firmados com Marinha e Exército, um míssil anticarro já em produção seriada, uma versão aérea do MANSUP em desenvolvimento e agora um sistema estratégico de alcance inédito emergindo das sombras, o Brasil está montando, peça por peça, uma Base Industrial de Defesa digna de uma potência regional, com ambições que vão muito além de suas próprias fronteiras.

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