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08 maio, 2026

Exército avança em mísseis táticos e sistema de rastreio

Campo de Provas da Marambaia sediou reunião de trabalho sobre o Míssil Tático Balístico, o Míssil Tático de Cruzeiro e o sistema de rastreio de engenhos em voo, no âmbito do Programa ASTROS-FOGOS 


*LRCA Defense Consulting - 08/05/2026

Em um sinal concreto do avanço do Brasil no desenvolvimento soberano de armamentos de precisão, o Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado no histórico Campo de Provas da Marambaia desde 1948, sediou no último dia 6 de maio uma importante reunião de trabalho voltada aos projetos de mísseis táticos nacionais.

O encontro reuniu o Gerente do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS, General de Brigada Veterano Marcelo Gurgel do Amaral Silva, o Gerente do Subprograma de Artilharia de Campanha (SAC), General de Brigada Veterano Moises da Paixão Junior, e representantes de empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Os visitantes foram recebidos pelo Subchefe do CAEx, Coronel Letivan Gonçalves de Mendonça Filho, e os trabalhos foram conduzidos pelo Chefe da Subseção de Rastreio, Eletrônica e Comunicações, Tenente Coronel Carlos Cypriano Vallim Junior.

Projetos em pauta: balístico, cruzeiro e rastreio
A reunião tratou dos Projetos Míssil Tático Balístico (MTB) e Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), além do Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo (STREV). Entre as empresas presentes, destacaram-se a Avibras Aeroco e a Omnisys Engenharia Ltda, nomes centrais da cadeia produtiva de defesa brasileira.

O objetivo principal do STREV é apoiar a pesquisa, o desenvolvimento e a avaliação do míssil tático de cruzeiro MTC-300, dotando o Exército Brasileiro com uma capacidade inédita de acompanhamento em voo de engenhos militares. O sistema possibilita a coleta e a análise de informações em tempo real de engenhos em voo, com o objetivo de contribuir com a avaliação, a pesquisa e o desenvolvimento de materiais de emprego militar ou civil lançados no espaço aéreo até o nível suborbital, trazendo benefícios ao Exército, às demais Forças Armadas e à Base Industrial de Defesa.

O STREV é composto por um radar de banda C, um sistema de rastreio ótico, um radar Doppler e meios de comando e controle disponíveis em infraestrutura própria e com possibilidade de desdobramento em todo o País. O sistema é uma solução móvel para campos de ensaios, desenvolvido pela empresa brasileira Omnisys.

O "Matador" e o novo balístico nacional
O Míssil Tático de Cruzeiro em desenvolvimento, apelidado informalmente de "Matador", é considerado um dos projetos mais ambiciosos da defesa brasileira. O AV-TM 300 voa a velocidades subsônicas de cerca de 1.000 km/h, mantendo um perfil de voo baixo e furtivo, na faixa de 800 metros de altitude, acompanhando o relevo do terreno, o que reduz significativamente a chance de ser detectado por sistemas antiaéreos. Com alcance de até 300 quilômetros (para exportação, pois o real pode superar 1.000 quilômetros) e uma precisão de até 30 metros, o armamento poderá ultrapassar os limites do território nacional e atingir alvos estratégicos muito além da capacidade dos foguetes hoje em uso no Brasil.

Paralelamente, o Míssil Tático Balístico S+100 representa a próxima fronteira da capacidade ofensiva terrestre brasileira. A diferença entre os dois armamentos é estratégica: enquanto o míssil de cruzeiro voa em trajetória rasante, guiado por GPS e navegação inercial para atingir alvos fixos com alta precisão, um míssil balístico segue uma trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta sua interceptação.

O programa ASTROS-FOGOS: um guarda-chuva estratégico
A reunião no CAEx insere-se num momento de intensa reorganização do programa de artilharia de longo alcance do Exército. O programa ASTROS será ampliado e rebatizado de "Fogos", passando a ter três verticais debaixo de um único guarda-chuva: o antigo sistema de foguetes ASTROS, sistemas de artilharia de campanha e uma nova defesa antiaérea. Uma encomenda no valor de até R$ 3,4 bilhões deve ser fechada ainda em 2026 para um novo sistema de defesa antiaérea que permitirá à Força Terrestre incorporar tecnologia inédita na América Latina para a interceptação de drones e mísseis de cruzeiro.

A modernização é apoiada por uma lei complementar aprovada em 2025, que permite investimentos de até R$ 30 bilhões fora do marco fiscal. O orçamento anual do Exército praticamente dobrou, chegando a cerca de R$ 3 bilhões por ano entre 2026 e 2031.

A Avibras Aeroco: recuperada e estratégica
A presença da Avibras Aeroco na reunião do CAEx ganha peso adicional diante de sua recente reestruturação. A empresa é o maior fabricante e exportador de armamento e sistemas de defesa do Brasil, e a única integradora dos sistemas de propulsão de foguetes e mísseis fabricados no país. O Exército Brasileiro acompanha de perto o processo de retomada, ciente de que a Avibras concentra competências sensíveis que reduzem a dependência externa do país em áreas críticas de soberania.

Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), cerca de 90% do desenvolvimento do míssil de cruzeiro AV-MTC já estava concluído, faltando apenas a fase final de testes e disparos experimentais, trabalhos que a crise financeira da empresa havia interrompido. A retomada das atividades da Avibras abre caminho para que essa fase conclusiva finalmente avance.

 

Integração institucional como diferencial
Os trabalhos realizados no CAEx neste 6 de maio evidenciam a crescente sinergia entre os atores do ecossistema de defesa nacional. A parceria com a Avibras Aeroco reforça a manutenção e o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa brasileira, gerando conhecimento tecnológico, empregos qualificados e autonomia em áreas sensíveis.

Especialistas em defesa avaliam que iniciativas como essa consolidam o Brasil como um dos poucos países da América Latina com capacidade autônoma de desenvolvimento de mísseis táticos, fortalecendo sua posição regional e internacional no setor.

O resultado dos trabalhos conduzidos no histórico Campo de Provas da Marambaia deverá contribuir diretamente para o aumento do poder de combate da Força Terrestre e, em perspectiva mais ampla, para o projeto de soberania tecnológica e industrial do Brasil na área de defesa.

17 abril, 2026

O arsenal de mísseis que o Brasil está desenvolvendo

Da crise da Avibras ao surgimento de novos players, o país acumula projetos de mísseis de longo alcance que podem redefinir sua postura estratégica 


*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026

Numa base aérea brasileira cujo nome não foi divulgado, um motor a jato de fabricação nacional quebrou o recorde de distância em voo. O feito, anunciado discretamente pela Turbomachine, empresa de São José dos Campos, passou longe dos noticiários gerais. Mas para quem acompanha a indústria de defesa brasileira, o significado era claro: o coração propulsor dos mísseis de cruzeiro do Brasil havia acabado de provar que funcionava.

Era apenas mais um capítulo de uma história que avança em silêncio há décadas e que, em 2026, entrou em fase de aceleração sem precedentes. 

O Brasil está construindo, simultaneamente e em diferentes estágios de maturidade, um arsenal de mísseis de longo alcance que abrange desde um míssil de cruzeiro a 90% de conclusão até projetos hipersônicos capazes de voar a Mach 6. No centro dessa transformação estão três empresas que o público em geral mal conhece: Avibras, SIATT e Mac Jee. E surgindo na periferia desse ecossistema, duas outras: Plasma Hub e, como fornecedora transversal de propulsão, a própria Turbomachine.

A Avibras e o "Matador": vinte e cinco anos esperando o último disparo
A história começa em 1999, com uma Avibras em plena atividade e a primeira concepção de um míssil de cruzeiro nacional. O desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001, mas os anos seguintes foram de reformulações profundas: as asas retráteis foram removidas, materiais compostos incorporados, o projeto inteiramente refeito. Em 2012, o Exército Brasileiro assinou o contrato de encomenda e investiu US$ 100 milhões na fase de desenvolvimento. O míssil ganhou o apelido de "Matador".

Hoje, em 2026, o Matador ainda não entrou em serviço. Mas está mais perto do que nunca: 90% do desenvolvimento está concluído, aguardando apenas a campanha de tiros de certificação, etapa que requer a Avibras em plena operação.

Tecnicamente, o AV-TM 300 é um projétil de engenharia aeronáutica sofisticada. Voa a cerca de mil km/h em perfil rasante, mantendo altitude de aproximadamente 800 metros e acompanhando o relevo do terreno para dificultar a detecção por sistemas antiaéreos. Seu alcance declarado é de 300 km, com precisão de até 30 metros. O motor de cruzeiro é uma variante do turbojato TJ-1000, desenvolvido pela Turbomachine e produzido pela Avibras sob acordo de licença de fabricação. Há duas versões de ogiva: uma auto-explosiva de até 200 kg e uma múltipla com 66 submunições.

O alcance declarado de 300 km, porém, não é o limite técnico... é o limite político. O Brasil é signatário do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que restringe a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, o gerente do Programa Astros 2020 declarou a jornalistas que o AV-TM 300 tem "muito mais que 300 km de alcance; quantos forem necessários à defesa do Brasil".

O segredo que escapou num vídeo
O desdobramento mais revelador da história do Matador foi a versão aerolançável, o MICLA-BR - Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance. Em março de 2019, o jornalista Roberto Caiafa recebeu uma dica: um caça F-5EM Tiger II da Base Aérea de Canoas havia sido fotografado carregando, no cabide central, um artefato alaranjado de grandes proporções. A Força Aérea silenciou. Meses depois, foi o próprio Ministério da Defesa que entregou o segredo: no vídeo comemorativo dos 100 dias do governo Bolsonaro, aos cinco minutos e cinco segundos, lá estava a imagem do teste.

A confirmação oficial veio em 24 de setembro de 2019, quando o Major-Brigadeiro Sérgio Roberto de Almeida, chefe da Sexta Subchefia do EMAER, apresentou ao Congresso Nacional os 18 projetos estratégicos da FAB. O MICLA-BR foi descrito como "o sexto projeto estratégico da Força Aérea, um projeto de grande porte que equaliza o Brasil militarmente com outros países que possuam esta capacidade". Segundo o slide exibido, trata-se de um míssil de cruzeiro com 300 km de alcance, com propulsão por motor a reação, para lançamento por plataformas aéreas e de superfície, equipado com navegação inercial/GPS e redundância por correlação de imagem. Dependendo da missão, o MICLA-BR pode carregar sensor infravermelho, radar de acompanhamento do terreno ou radar de abertura sintética (SAR).

Em novembro de 2020, FAB e Avibras formalizaram a parceria com um Memorando de Entendimento, no qual o então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, definiu o projeto como "um dos mais importantes" dos programas estratégicos da Força. A destinação era clara: armar os caças F-39 Gripen que a FAB começava a receber.

A versão aerolançável tem diferenças técnicas importantes em relação ao AV-TM 300 terrestre. Como o lançamento ocorre a partir de uma aeronave já em velocidade e altitude, o booster de propulsão sólida, necessário para ejetar o míssil do lançador terrestre, torna-se dispensável. Isso simplifica o projeto e potencialmente amplia o alcance efetivo. Com o F-39 Gripen armado com o MICLA-BR e apoiado pelo reabastecimento em voo do KC-390, a FAB teria condições de atingir qualquer alvo estratégico no continente sul-americano ou na costa atlântica africana, uma capacidade de dissuasão sem precedentes na história das Forças Armadas brasileiras.

O programa, porém, também foi vítima da crise da Avibras. Com a empresa em recuperação judicial e a produção paralisada por três anos, o desenvolvimento perdeu tração. 

A virada veio neste mês de abril de 2026. Joesley Batista, controlador da J&F, a holding que comanda a gigante JBS, assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a reestruturação. Com o acordo trabalhista homologado, a previsão é de que a fábrica retome as operações em maio, chegando a 200 funcionários, 500 em junho e mais de mil à medida que novos contratos forem fechados. A prioridade imediata é concluir a campanha de tiros do Matador, desbloqueando também o caminho para a versão aérea.

Além do MTC-300 e do MICLA-BR, o Exército quer ainda o S+100, um míssil balístico tático que aproveitará o conhecimento acumulado no foguete SS-80 do sistema ASTROS, com compatibilidade garantida com os lançadores existentes. Enquanto o míssil de cruzeiro voa rasante e subsônico, o balístico segue trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação dos dois sistemas dentro da plataforma ASTROS, rebatizada de "Fogos", daria ao Brasil uma capacidade de dissuasão em múltiplas camadas sem paralelo na América do Sul.

O "Matador" e o MICLA-BR aguardam seu último disparo. Ambos dependem de que as luzes da fábrica em São José dos Campos finalmente voltem a se acender e, desta vez, para não mais se apagarem.

A SIATT e o "easter egg": o segredo que escapou numa foto
Se a Avibras é a veterana em crise, a SIATT é a ascendente em expansão acelerada. Fundada há dez anos, a empresa de São José dos Campos foi adquirida em 50% pelo Grupo EDGE, conglomerado de defesa de Abu Dhabi que já investiu cerca de R$ 3 bilhões no Brasil. Em setembro de 2025 inaugurou nova sede com 6.000 m², consolidando laboratórios, engenharia e produção num único campus.

Em março de 2026, uma publicação aparentemente rotineira no LinkedIn da SIATT (foto abaixo) gerou ondas no setor. O jornalista e analista Angelo Nicolaci, ao examinar a imagem compartilhada pela empresa, identificou um míssil que não constava em nenhum catálogo oficial (na foto a seguir, à esquerda, em cima). Fontes próximas ao desenvolvimento confirmaram ao jornalista: trata-se de um novo sistema em versões com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km, categoria equivalente ao Tomahawk americano. A empresa já teria realizado uma prova de conceito com voo de teste de aproximadamente 120 km.

Imagem divulgada pela SIATT

A revelação tem dimensão estratégica que vai além do Brasil. O Grupo EDGE, que no Dubai Airshow 2025 lançou 42 novos produtos em um único dia, não possui em seu portfólio nenhum míssil com alcance próximo ao do Tomahawk. Seu sistema mais avançado, o WSM-1, alcança apenas 290 km. Um míssil com DNA brasileiro e alcance entre 500 e 1.000 km preencheria uma lacuna crítica para um conglomerado que hoje vende para mais de 50 países.

No portfólio confirmado, a SIATT já opera sistemas relevantes: o MANSUP, míssil antinavio desenvolvido com a Marinha do Brasil, com alcance de 70 km; o MANSUP-ER, versão estendida com alcance de 200 km; e o sistema anticarro MAX 1.2, contratado pelo Exército e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Em fevereiro de 2026, a Marinha assinou protocolo de intenções para o desenvolvimento do MARSUP, versão aérea do MANSUP, para lançamento por helicópteros e aviões. Na FIDAE 2026, em abril, a SIATT exibiu em tamanho real o MANSUP e o MAX 1.2 para audiência internacional.

Concepções artísticas dos mísseis

Mac Jee: a empresa que quer fazer tudo
Menos conhecida do que Avibras e SIATT, a Mac Jee se posicionou nos últimos anos como o player mais ambicioso da nova geração. Reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa e sediada no mesmo polo tecnológico de São José dos Campos, a empresa opera com a menor exposição pública e o portfólio mais diversificado.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, sistemas desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, projetado para neutralizar radares e sistemas de defesa aérea inimigos em operações SEAD (do inglês Suppression of Enemy Air Defenses - Supressão de Defesas Aéreas Inimigas). O MAA-1B é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento infravermelho avançado (IIF) e capacidade off-boresight (capacidade de mísseis rastrearem e engajarem alvos localizados fora do eixo central da aeronave).

 Os folhetos técnicos revelam dados precisos: o ARM (evolução do MAR-1) tem alcance de 70 km, peso de 272 kg e ogiva de 90 kg; o SRAAM (evolução do MAA-1B) tem alcance de 25 km e guiamento IIR dual-band de 5ª geração.

Mas são os projetos não catalogados que mais chamam a atenção. A Mac Jee também está desenvolvendo um míssil de cruzeiro com motor microjato, asas retráteis e lançamento terrestre, concorrendo diretamente com o MTC-300 num segmento em que a Avibras tem décadas de vantagem. E um SRBM (Short-Range Tactical Ballistic Missile): alcance de 300 km, peso de 2.200 kg, comprimento de 6 metros, ogiva de 250 kg, navegação GNSS/INS e precisão de até 10 metros. Lançado de silos ou plataformas móveis, com tempo de voo de apenas 5 minutos ao alvo máximo. O artigo da Infodefensa foi categórico: o SRBM coloca o Brasil como o primeiro país da América Latina a desenvolver um míssil balístico com capacidades comparáveis ao MGM-140 ATACMS norte-americano.

No front hipersônico, a Mac Jee é parceira estratégica do IEAv (Instituto de Estudos Avançados da FAB) no Projeto 14-X, o mais ambicioso da defesa brasileira. Em dezembro de 2025, os dois firmaram acordo de 36 meses envolvendo cerca de 40 engenheiros para desenvolver o sistema de propulsão hipersônica. Em 2021, o protótipo já havia atingido Mach 6 e 160 km de altitude durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Alcântara. O investimento total já passou de R$ 117 milhões. O primeiro voo efetivo está previsto para 2027; a aplicação operacional, para 2030.

A Plasma Hub e o motor do futuro
Entre as novatas do setor, a Plasma Hub se destaca por um projeto que nenhuma outra empresa brasileira assumiu explicitamente: um míssil de cruzeiro com alcance superior a 1.000 km, arma estratégica, não tática.

A empresa, também sediada em São José dos Campos e reconhecida como EED, foi formada por engenheiros com passagens pela Embraer e pela Avibras. A solução que a distingue é a parceria com a Turbomachine para uso do motor TJ-1000, o mesmo que a própria Avibras utiliza sob licença no MTC-300. Com esse propulsor, a Plasma Hub projeta velocidade de cruzeiro de aproximadamente 900 km/h e carga útil de 200 kg. O sistema de guiamento terminal infravermelho promete precisão de 2 metros. O lançamento está previsto para ocorrer de caminhões ou silos fixos.

O analista Roberto Caiafa foi direto ao ponto: se o fabricante declara "longo alcance" com o TJ-1000, o sistema necessariamente ultrapassa os 1.000 km. E se ultrapassa os 300 km do MTCR, fica evidente que o projeto foi concebido tendo o Estado Brasileiro como cliente exclusivo, pois não pode ser exportado dentro das regras internacionais às quais o Brasil aderiu.

A Plasma Hub integra ainda o consórcio do ML-BR (Micro Lançador de Satélites Brasileiro), responsável pela montagem e integração dos sistemas de bordo, demonstrando a sobreposição intrínseca entre tecnologia espacial e missilística.

Turbomachine: o motor silencioso de tudo
Por trás de vários desses programas, há uma empresa que raramente aparece nas manchetes: a Turbomachine. Fundada em 2007 a partir do CTA/ITA pelo engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, ela nasceu de um desafio da Petrobras para criar a primeira turbina a gás brasileira. Em 2009, a Avibras bateu à sua porta para pedir o motor do Matador.

Hoje o TJ-1000 - turbojato de 5.000 N de empuxo, com mais de 600 partidas bem-sucedidas e mais de 100 horas de operação acumulada - é classificado como Produto Estratégico de Defesa (PED) e integra ou está em negociação com quase todos os programas de mísseis do país. Em novembro de 2024, a Turbomachine anunciou outro marco: seu turbofan de baixa razão de bypass, o primeiro desenvolvido no hemisfério sul, alcançou 25 mil RPM com estabilidade operacional.

A confirmação do interesse governamental no trabalho da empresa veio no final de março de 2026, quando representantes do Ministério da Defesa, do MCTI e da ABIN visitaram suas instalações durante a semana de apresentação do PRONABENS (Programa Nacional de Integração Estado-Empresa na Área de Bens Sensíveis). A presença simultânea dos três órgãos, incluindo o órgão de inteligência nacional, não passou despercebida: indica que o TJ-1000 e seus derivados são acompanhados ao nível de tecnologia sensível classificada.

Quadro estratégico: o que está em jogo
Somados, os projetos em curso desenham um Brasil missilístico que não existia há uma década. Na camada de alcance médio (até 300 km), o MTC-300 da Avibras e o míssil de cruzeiro da Mac Jee competem pelo mesmo espaço, com o primeiro em fase de conclusão e o segundo em desenvolvimento. Na camada longa (300–1.000 km), o míssil ainda não confirmado da SIATT (se chegar ao mercado) colocaria o Brasil numa categoria de pouquíssimos países. Na camada estratégica (mais de 1.000 km), o projeto da Plasma Hub aponta para um sistema sem precedentes na América do Sul. E na fronteira hipersônica (Mach 5+), o 14-X da Mac Jee com a FAB aguarda seu primeiro voo real em 2027.

O contexto não poderia ser mais favorável. A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal. O orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. A indústria que quase perdeu sua principal empresa agora dispõe (em princípio) de capital, legislação e demanda que não tinha.

A pergunta que fica é a do jornalista especializado Roberto Caiafa ao contemplar a Plasma Hub, e que serve para todo o setor: as Forças Armadas demonstrarão interesse pelos projetos? Investirão os recursos necessários para transformar protótipos e conceitos em armas operacionais? 

A Avibras esperou 25 anos pelo último disparo do Matador. O Brasil pode não ter esse tempo no mundo que está se formando.

09 março, 2026

O "Matador" e o Balístico: o plano do Exército para rearmar o Brasil com mísseis nacionais

Dependente da retomada da Avibras, prevista para este mês, o Exército quer concluir o míssil de cruzeiro mais poderoso do país e desenvolver uma nova arma balística com tecnologia inteiramente nacional


*
LRCA Defense Consulting - 09/03/2026

Em um cenário geopolítico redesenhado pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, e pela proliferação dos drones como arma de guerra, o Exército Brasileiro entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um ambicioso plano de modernização que prevê R$ 456 bilhões em investimentos de defesa. Entre as prioridades está uma aposta histórica: completar e industrializar dois mísseis de fabricação inteiramente nacional, o AV-TM 300 e o futuro S+100. Para isso, porém, a Força depende de uma condição essencial: a reativação da Avibras, a maior empresa privada de defesa do Brasil, que tenta reabrir as portas em São José dos Campos (SP) neste mês de março.

O "Matador": um cruzeiro de 300 km e 14 anos de desenvolvimento
O AV-TM 300, também conhecido como MTC-300, é um míssil tático de cruzeiro desenvolvido para fornecer ao Exército Brasileiro capacidade de ataque de precisão a longas distâncias. Apelidado informalmente de "Matador", o projétil é fruto de uma das mais longas jornadas da indústria de defesa nacional. A primeira versão do míssil foi criada em 1999, e o desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001. Ao longo do caminho, o projeto passou por reformulações profundas: as especificações originais sofreram modificações substanciais, com a remoção das asas retráteis e a incorporação de materiais compostos.

O Exército assinou um contrato de encomenda inicial em novembro de 2012, investindo 100 milhões de dólares na fase de desenvolvimento do míssil que integra o Programa Estratégico ASTROS 2020. Projetado para operar em conjunto com o sistema ASTROS II, o AV-TM 300 amplia o poder de ataque da força terrestre, permitindo engajar alvos estratégicos a até 300 km de distância (alcance declarado).

Do ponto de vista técnico, o "Matador" é um projeto de engenharia aeronáutica de alta complexidade. Os mísseis utilizam foguetes de combustível sólido para lançamento e um turbo-jato durante o voo de cruzeiro subsônico. O míssil voa a velocidades subsônicas de cerca de 1.000 km/h, mantendo um perfil de voo baixo e furtivo, na faixa de 800 metros de altitude, acompanhando o relevo do terreno, o que reduz significativamente a chance de ser detectado por sistemas antiaéreos.

Com alcance de até 300 quilômetros e uma precisão de até 30 metros, o armamento poderá ultrapassar os limites do território nacional e atingir alvos estratégicos muito além da capacidade dos foguetes hoje em uso no Brasil. O míssil será empregado em duas versões: uma cabeça de guerra do tipo auto-explosiva, com peso máximo de 200 kg, e uma cabeça de guerra múltipla com cerca de 66 submunições.

O alcance declarado de 300 km não é coincidência: o objetivo inicial era criar um míssil compatível com o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que limita a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, a restrição não se aplica, e analistas militares apontam que as versões operacionais do Exército podem ter alcance consideravelmente maior (acima de 1.000 km).

Apesar dos avanços, o projeto acumulou atrasos significativos. Em 2020, o então ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva afirmou que o míssil estava em fase final e que as primeiras unidades seriam entregues entre 2021 e 2022. Isso não ocorreu. Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx) citados pelo Estadão, 90% do projeto está concluído; a etapa que falta é justamente a campanha de tiros de certificação, que só pode ser realizada com a Avibras em plena operação.

Além da versão terrestre, a Força Aérea Brasileira também desenvolve sua própria variante, batizada de MICLA-BR (Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance), projetada para ser disparada por aeronaves de combate.

O S+100: o balístico que quer herdar a tecnologia do S-80
Se o AV-TM 300 é o projeto mais maduro, o Míssil Tático Balístico S+100 representa a próxima fronteira da capacidade ofensiva terrestre brasileira. Conforme revelado em caráter pioneiro pelo Estadão com base em informações do EPEx, o Exército está desenvolvendo esse novo sistema balístico, de características distintas do míssil de cruzeiro, aproveitando o conhecimento acumulado no projeto S-80 (NR: associado ao foguete SS-80 da família ASTROS?). O S+100, segundo o Exército (na matéria do Estadão), deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibras, o que reforça ainda mais a centralidade da empresa para o projeto de rearme brasileiro.

A diferença entre os dois armamentos é estratégica: enquanto o míssil de cruzeiro como o AV-TM 300 voa em trajetória rasante, guiado por GPS e navegação inercial para atingir alvos fixos com alta precisão, um míssil balístico segue uma trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação das duas capacidades em um mesmo sistema, o ASTROS/Fogos, daria ao Brasil uma plataforma de dissuasão com múltiplas camadas, capaz de engajar diferentes tipos de alvos em diferentes perfis de ameaça.

É relevante observar que, na reportagem do Estadão, o programa aparece grafado como “S-80”, enquanto em toda a documentação pública sobre o ASTROS aparecem os foguetes SS‑30, SS‑40, SS‑60 e SS‑80, não “S‑80”. Isso sugere duas hipóteses editoriais: ou o jornalista Marcelo Godoy simplificou a designação “SS‑80” para “S‑80” no texto, ou a Força, internamente, se refere ao projeto por “S‑80” em algum nível, embora o material técnico/comercial use “SS‑80”.

 

O elo crítico: a Avibras no limite
O destino dos dois mísseis está diretamente atado à sobrevivência de uma empresa que passou três anos à beira do colapso. Após esse período, marcado pelo desgoverno da antiga administração, pelo processo de recuperação judicial e pela paralisação das atividades, a Avibras elaborou um Plano de Reestruturação com a contribuição dos principais credores, aprovado por 99,2% dos presentes na Assembleia Geral.

As condições precedentes para a retomada das operações vêm sendo atendidas, incluindo compras estratégicas por parte do Exército Brasileiro e o avanço da negociação da transação tributária. A condição central para a consolidação do processo, porém, é a participação do Governo Federal.

Em janeiro deste ano, o Exército Brasileiro realizou uma visita institucional às instalações da Avibras, liderada pelo General de Divisão Tales Villela, Diretor de Fabricação, com o objetivo de acompanhar a retomada industrial e avaliar a continuidade dos projetos estratégicos, com destaque para o sistema ASTROS. O acompanhamento próximo da Diretoria de Fabricação reforça a importância da empresa para a soberania nacional, ao reduzir dependências externas e preservar competências sensíveis, como a integração de foguetes e mísseis.

A situação financeira, contudo, segue delicada. O presidente da Avibras, Fábio Guimarães Leite, afirmou que a empresa retomou negociações com clientes internacionais, especialmente no Oriente Médio, região que historicamente adquiriu sistemas produzidos pela empresa. Paralelamente, parlamentares alertaram para o risco de que a Avibras seja adquirida por potências estrangeiras caso não receba o apoio necessário para retomar suas atividades.

O projeto do AV-TM 300 perdeu tração nos últimos anos diante da situação da empresa, que estava em recuperação judicial e vinha desenvolvendo o míssil. Para prosseguir, o programa depende de uma solução para o caso Avibras.

Um projeto de soberania num mundo mais perigoso
O contexto que motiva o plano de R$ 456 bilhões entregue ao presidente Lula é o da transformação radical dos campos de batalha. As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio demonstraram que mísseis de cruzeiro, drones kamikaze, sistemas de foguetes de longo alcance e guerra eletrônica tornaram-se o centro da guerra moderna. O Brasil, que não enfrenta ameaças imediatas, mas possui a maior extensão territorial da América do Sul, a Amazônia como alvo cobiçado e um pré-sal estratégico, vê no domínio de tecnologia de mísseis não apenas um instrumento militar, mas um símbolo de soberania industrial.

O sistema de artilharia ASTROS II, desenvolvido pela Avibras, é respeitado internacionalmente, podendo lançar foguetes e o míssil de cruzeiro AV-TM 300, ampliando o alcance estratégico do país. A retomada da empresa em março, ainda cercada de incertezas financeiras, será o termômetro para saber se o Brasil conseguirá, finalmente, completar o arsenal que planejou há mais de uma década. 

O "Matador" aguarda seu último disparo para estar pronto. O S+100, seus primeiros passos. E ambos esperam, antes de tudo, que as luzes da fábrica em São José dos Campos voltem a se acender.

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