Acordo firmado em 7 de outubro busca levar à fabricação industrial tecnologia desenvolvida pelo Exército, com aplicação inicial no MAX 1.2 AC e potencial para outros sistemas de defesa
*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026
O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a SIATT formalizaram, em 7 de outubro de 2026, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (APPDI) voltado à fabricação de pilhas térmicas. Desenvolvida pelo Laboratório de Química Militar (LQM) do CTEx, a tecnologia é destinada a fornecer energia elétrica a sistemas eletrônicos embarcados em armamentos, com aplicação imediata prevista no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX, também identificado como MAX 1.2 AC.
A iniciativa representa uma nova etapa de um esforço tecnológico de longa duração. O avanço agora anunciado não deve ser confundido com o início das pesquisas nem com a comprovação de que já exista produção seriada. O acordo estabelece uma parceria para a fabricação, mas o comunicado não detalha cronograma, capacidade produtiva, investimentos ou conclusão dos procedimentos de qualificação industrial.
Uma tecnologia desenvolvida ao longo de décadas
As pilhas térmicas são fontes eletroquímicas de energia projetadas para permanecer inativas durante períodos prolongados de armazenamento. Quando acionadas, o aquecimento interno permite que o eletrólito passe a conduzir íons, viabilizando o fornecimento de energia aos circuitos do equipamento durante sua operação. Essa combinação de longa vida em armazenamento e rápida disponibilidade energética explica seu emprego em determinados mísseis, foguetes e outros produtos de defesa.
A pesquisa brasileira não é recente. Um trabalho acadêmico de 2025, disponibilizado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), descreve a evolução dos estudos realizados pelo CTEx, incluindo o desenvolvimento de sistemas de terceira geração voltados ao míssil anticarro. O documento ressalta a complexidade tecnológica dessas fontes energéticas, a necessidade de infraestrutura especializada e as dificuldades internacionais para aquisição de componentes e insumos.
A importância estratégica decorre justamente dessa combinação de requisitos técnicos e restrições de fornecimento. Em sistemas militares armazenados por longos períodos, a disponibilidade da fonte de energia no momento do emprego é parte essencial da confiabilidade do armamento. Produzir nacionalmente esse componente pode reduzir vulnerabilidades logísticas, desde que a fabricação alcance escala, qualidade e regularidade compatíveis com as necessidades operacionais.
Da pesquisa do Exército à capacidade industrial
O APPDI aproxima o conhecimento acumulado pelo CTEx da experiência da SIATT no desenvolvimento, integração e produção de sistemas de armas. A empresa participa do programa do míssil anticarro MAX 1.2 AC e atua em projetos de mísseis da Marinha, entre eles o MANSUP. A articulação entre laboratório público e indústria pode facilitar a transição de protótipos e processos especializados para uma cadeia de fornecimento nacional.
A SIATT também ampliou recentemente sua estrutura industrial em Caçapava, no interior paulista. Embora essa expansão ofereça contexto relevante para o acordo, não há informação confirmada de que a fabricação das pilhas térmicas ocorrerá nessa unidade. A localização da futura produção e a eventual necessidade de instalações específicas permanecem em aberto.
A prioridade imediata é o míssil MAX 1.2 AC
O comunicado do CTEx indica expressamente a possibilidade de emprego imediato no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX. A referência aproxima o desenvolvimento da demanda concreta de um armamento brasileiro já associado à capacidade industrial da SIATT. Entretanto, a expressão não permite afirmar, por si só, que as pilhas nacionais já equipam todos os exemplares produzidos ou que tenham substituído integralmente fontes importadas.
A incorporação efetiva de um novo componente a um sistema de armas exige compatibilidade com os requisitos elétricos, mecânicos, térmicos e de segurança, além dos ensaios e processos de qualificação aplicáveis. Por isso, o estágio de certificação das pilhas para os lotes de série constitui uma das informações mais relevantes ainda não divulgadas.
Possibilidades para outros programas
O domínio das pilhas térmicas pode criar oportunidades em outros armamentos nacionais, especialmente aqueles que necessitem de fontes compactas de energia acionadas apenas no momento do emprego. Isso não significa, contudo, que a tecnologia anunciada já esteja selecionada para o MANSUP, o MANSUP-ER ou foguetes guiados. Cada sistema possui arquitetura e requisitos próprios, e qualquer integração dependeria de desenvolvimento e validação específicos.
A SIATT já divulgou anteriormente que o sistema de guiagem, navegação e controle do MANSUP utiliza um conjunto de baterias para alimentar seus circuitos durante o voo. Essa informação demonstra a relevância das fontes energéticas no projeto, mas não identifica essas baterias como pilhas térmicas nem estabelece vínculo técnico com o acordo recém-assinado.
Autonomia tecnológica e questões ainda abertas
Além do potencial de redução da dependência externa, a parceria levanta questões sobre propriedade intelectual, direitos de fabricação e eventual comercialização internacional. A SIATT tem participação acionária do grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, mas esse vínculo societário não autoriza concluir que a tecnologia do CTEx será transferida ao grupo estrangeiro. O alcance dos direitos concedidos à parceira industrial dependerá das cláusulas do acordo e das normas aplicáveis.
Também não foram divulgados o percentual de nacionalização dos insumos, a capacidade anual projetada, o investimento previsto e a data estimada para entrega das primeiras unidades industriais. Sem esses dados, seria prematuro dimensionar o impacto econômico da parceria ou afirmar que a dependência externa foi superada.
O significado do acordo está, portanto, na tentativa de fechar um elo crítico entre pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Se a industrialização e a qualificação forem concluídas, o Exército poderá contar com uma fonte energética estratégica produzida no País, fortalecendo a sustentação logística do MAX 1.2 AC e criando uma base tecnológica potencialmente aproveitável em futuros produtos de defesa.

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