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18 setembro, 2026

CTEx e Omnisys levam morteiro nacional de 120 mm à era do combate digital

Acordo prevê acelerar a entrada em posição e digitalizar o apontamento do M2 Raiado, aumentando a precisão e reduzindo a exposição da guarnição no campo de batalha

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a Omnisys Engenharia Ltda formalizaram, em 17 de setembro, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação destinado à automatização do Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado.

A iniciativa pretende acelerar a transição do armamento entre as posições de transporte e de tiro, além de digitalizar seu apontamento. Os resultados esperados são maior rapidez na entrada em ação, redução de erros humanos e aumento da precisão na aplicação dos elementos de tiro.

Mais do que facilitar o trabalho da guarnição, a automatização procura encurtar o ciclo completo de emprego do morteiro: ocupar a posição, preparar a arma, receber os dados, apontar, disparar, corrigir e abandonar o local.

Essa rapidez tornou-se especialmente importante em um campo de batalha marcado pela presença de drones, radares de contrabateria, sensores acústicos e outros meios capazes de localizar a origem dos disparos e orientar uma resposta adversária.

Um armamento concebido e produzido no País
O Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado foi desenvolvido no início dos anos 2000 pelo então Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento, posteriormente incorporado ao CTEx, em 2005.

O armamento é fabricado pelo Arsenal de Guerra do Rio (AGR), organização militar responsável pela produção, manutenção e revitalização de diferentes sistemas empregados pelo Exército Brasileiro.

Com aproximadamente 717 quilos, o M2 Raiado é transportado sobre um reparo com rodas. Sua configuração permite o tiro em 360 graus, sem a necessidade de reposicionar completamente a base para engajar alvos em diferentes direções.

O sistema foi concebido para proporcionar apoio de fogo às unidades de Infantaria e Cavalaria, podendo ser transportado por terra ou por meios aéreos. Seu tubo raiado imprime rotação ao projétil, contribuindo para sua estabilidade durante o voo.

Em dezembro de 2022, o Comando de Operações Terrestres aprovou a primeira edição do Manual Técnico Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado, EB70-MT-11.424. O Exército também vem realizando a recuperação e a revitalização de unidades existentes, demonstrando a intenção de preservar o sistema em serviço.

Da preparação manual à assistência automatizada
Na configuração convencional, a entrada em posição exige uma sequência de operações realizadas pela guarnição. O conjunto precisa ser preparado e estabilizado, a arma deve ser nivelada e orientada e os elementos de tiro precisam ser aplicados aos mecanismos de direção e elevação.

A informação divulgada pelo CTEx não apresenta a arquitetura da solução que será desenvolvida. Entretanto, a referência à automatização da passagem entre transporte e tiro indica que o projeto poderá atuar também sobre os mecanismos do reparo, e não apenas sobre o aparelho de pontaria.

Atuadores elétricos, eletromecânicos ou eletro-hidráulicos poderão, em princípio, auxiliar na movimentação, estabilização e preparação do conjunto, reduzindo o esforço físico exigido da guarnição e o tempo necessário para colocar o morteiro em condições de disparar.

A solução efetivamente adotada, sua fonte de energia e seu grau de automação ainda dependerão do trabalho de desenvolvimento realizado pelo CTEx e pela Omnisys.

Apontamento digital reduz erros
No apontamento tradicional, a central de tiro calcula o azimute, a elevação e a carga necessária para atingir o alvo. Esses elementos são transmitidos à guarnição, que realiza manualmente os ajustes na arma, conferindo escalas, níveis e referências.

Em um sistema digital, sensores podem determinar a orientação, a inclinação e a posição geográfica da peça. Um computador recebe os valores calculados pela central de tiro e informa ao operador, ou aplica por meio de atuadores, os movimentos necessários.

O sistema também pode confirmar quando o morteiro alcançou a orientação correta e facilitar o reapontamento para outro alvo ou a introdução de correções após os primeiros disparos.

Essa digitalização reduz erros associados à transmissão dos dados, à leitura das escalas, ao nivelamento e à aplicação do azimute e da elevação.

A automatização não elimina a dispersão própria da munição nem a influência do vento, da temperatura, do desgaste do tubo e da qualidade das coordenadas do alvo. O ganho está principalmente na precisão com que a solução de tiro calculada é aplicada ao armamento.

Exército já testou sistema inercial de pontaria
A modernização do M2 Raiado possui um antecedente relevante. Entre 9 e 12 de maio de 2023, o Arsenal de Guerra do Rio realizou, nas instalações do Centro de Avaliações do Exército, testes para a certificação de um Sistema Inercial de Pontaria produzido pela Safran Electronics & Defense Brasil.

Segundo a divulgação feita na ocasião pelo Exército, o equipamento empregava sensores giroscópicos correspondentes aos três eixos do Morteiro Pesado 120 mm M2A1 R.

O sistema coletava e processava automaticamente diferentes dados. Em seguida, comunicava-se com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro, permitindo o correto nivelamento dos mecanismos de direção e a introdução das correções necessárias para atingir o alvo. A atividade foi divulgada pelo Exército e reproduzida pela DefesaNet.

O acordo agora firmado não esclarece se aquela solução será incorporada, modificada ou substituída. Também não informa se a Safran participará da nova etapa.

O dado confirmado é que o projeto com a Omnisys aparenta possuir escopo mais amplo, pois inclui expressamente a automatização da transição entre transporte e tiro, além da digitalização do apontamento.

Rapidez aumenta a capacidade de sobrevivência
O primeiro ganho da automação será a redução do tempo de reação. A transmissão eletrônica dos elementos de tiro pode diminuir comunicações por voz, anotações, conferências e ajustes sucessivos.

A peça poderá entrar em ação mais rapidamente, executar correções em menos tempo e transferir o fogo para outro alvo com maior agilidade.

O segundo ganho será a maior precisão do apontamento. Sensores inerciais e codificadores angulares permitem conhecer continuamente a orientação real do armamento. Se os dados calculados pela central de tiro forem enviados diretamente à peça, reduz-se a possibilidade de erro humano.

O terceiro, e talvez mais importante, será a sobrevivência da guarnição e do armamento.

O disparo de um morteiro produz diferentes assinaturas. A trajetória das granadas pode ser detectada por radares de contrabateria, enquanto drones, sensores acústicos e observadores inimigos podem identificar a posição por meio do som, da fumaça, do clarão ou da movimentação da tropa.

Quanto mais tempo a peça permanecer na mesma posição depois de abrir fogo, maior será a possibilidade de sofrer um ataque de drones, munições vagantes, artilharia ou outros meios adversários.

A automação reduz essa janela de vulnerabilidade ao permitir que o morteiro chegue, seja preparado, cumpra a missão e abandone a posição em menos tempo.

Essa lógica é conhecida como shoot and scoot, expressão utilizada para descrever a capacidade de disparar e deslocar-se antes da chegada dos fogos de resposta.

Sistemas automatizados mais sofisticados demonstram a importância operacional desse conceito. O Patria NEMO, por exemplo, é apresentado pelo fabricante como capaz de abrir fogo em menos de 25 segundos e abandonar imediatamente a posição. O NEMO é um sistema em torre, muito diferente do morteiro rebocado brasileiro, mas a comparação evidencia por que os tempos de entrada e saída de posição se tornaram requisitos fundamentais.

Menos esforço para a guarnição
A automatização também poderá reduzir o desgaste físico dos militares responsáveis por preparar uma arma com mais de 700 quilos.

A assistência mecânica tende a diminuir a fadiga, reduzir o risco de acidentes e ajudar a manter o desempenho durante missões prolongadas. Também poderá liberar parte da guarnição para tarefas como segurança da posição, comunicações, observação e preparação das munições.

Uma eventual redução no número de militares necessários para operar a peça, entretanto, não foi anunciada.

Mesmo com apontamento automatizado, permanecem atividades que exigem intervenção humana, entre elas o transporte das munições, a preparação das granadas, o carregamento do tubo, a segurança aproximada e a manutenção do sistema.

Também não há indicação de que o projeto incluirá um carregador automático. Assim, a cadência de tiro continuará dependendo, ao menos inicialmente, do trabalho da guarnição.

Munição nacional alcança até 12 quilômetros
O M2 Raiado emprega munições nacionais fabricadas pela IMBEL. O catálogo da empresa apresenta diferentes opções para morteiros pesados de 120 mm.

A granada alto explosiva convencional possui alcance de 6.600 metros e carga de arrebentamento de 2,1 quilos de TNT. A munição alto explosiva pré-raiada alcança 8.150 metros e carrega 4,4 quilos de explosivo.

A versão pré-raiada com propulsão adicional pode atingir 12.000 metros, ampliando consideravelmente a área de atuação da unidade apoiada.

A automação do apontamento não aumentará diretamente esses alcances, que dependem da munição e das características balísticas do armamento. O ganho estará na velocidade e na precisão com que os fogos poderão ser desencadeados dentro da área já coberta pelo sistema.

Integração com o Sistema Gênesis
Uma futura integração com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro poderá conectar digitalmente o morteiro à cadeia de comando e controle.

Nesse modelo, as informações obtidas por observadores avançados, drones, radares ou outros sensores são processadas pela central de tiro e convertidas em elementos para cada peça.

Quando esses elementos chegam diretamente ao sistema de apontamento, elimina-se parte das transmissões intermediárias e reduz-se o tempo entre a identificação do alvo e a abertura do fogo.

A digitalização também facilita a concentração dos disparos de vários morteiros sobre um mesmo objetivo. Cada peça pode receber os dados correspondentes à sua posição e orientação, permitindo que os fogos cheguem de maneira coordenada.

Apesar do antecedente dos testes realizados em 2023, a integração do novo sistema com o Gênesis ainda não foi mencionada no anúncio do CTEx e deverá ser tratada como uma possibilidade técnica até que seja oficialmente confirmada.

Omnisys reúne competências de integração
Fundada em 1997 e controlada pelo Grupo Thales, a Omnisys atua em vigilância e controle do espaço aéreo, defesa aérea, guerra eletrônica, sistemas de rastreio, aviônicos, eletrônica de mísseis e aplicações espaciais.

A empresa possui experiência em sensores, processamento de sinais, eletrônica embarcada, integração de subsistemas e controle eletromecânico, competências compatíveis com um projeto de automatização do morteiro.

Em trabalho anterior para o Exército, a Omnisys desenvolveu o Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo, destinado ao acompanhamento de mísseis, foguetes, granadas de artilharia, munições de grande calibre e aeronaves remotamente pilotadas.

Naquele programa, a empresa demonstrou a integração de subsistemas ópticos e de radar, além do controle eletromecânico dos movimentos angulares de uma antena.

A parceria com o CTEx reúne, portanto, o conhecimento militar e tecnológico acumulado no desenvolvimento do M2 Raiado com a capacidade industrial da Omnisys nas áreas de sensores, eletrônica, atuação mecânica e integração de sistemas.

Modernização não cria imediatamente um morteiro autopropulsado
A automatização anunciada não deve ser confundida com o desenvolvimento imediato de um morteiro autopropulsado ou inteiramente automático.

O comunicado não menciona a instalação do M2 em uma viatura blindada, a adoção de carregador automático, a proteção da guarnição ou a capacidade de disparar a partir do interior de um veículo.

O avanço previsto concentra-se na transição entre as configurações de transporte e tiro e na digitalização do apontamento.

Ainda assim, se o projeto entregar preparação mecanizada, localização automática da peça, aplicação digital dos elementos de tiro e integração eficiente com o Sistema Gênesis, o salto operacional será expressivo.

O Exército poderá preservar um armamento desenvolvido no País, suas munições e a infraestrutura de fabricação existente, acrescentando recursos mais compatíveis com o combate contemporâneo.

Questões ainda precisam ser esclarecidas
O anúncio não informa o valor do acordo, o prazo de desenvolvimento, a quantidade de protótipos nem o cronograma previsto para os testes.

Também não esclarece o grau de automação, a fonte de energia dos mecanismos, a participação de outras empresas, a possibilidade de modernizar todas as peças existentes ou a futura escala de produção.

Outro ponto a ser confirmado é a relação entre o novo projeto e o Sistema Inercial de Pontaria testado em 2023 com a Safran.

Essas definições serão importantes para medir o alcance industrial e operacional do programa. Mesmo em sua fase inicial, entretanto, o acordo sinaliza que o Exército pretende atualizar um de seus principais armamentos coletivos de apoio de fogo sem abandonar uma solução desenvolvida e produzida no País.

Para o M2 Raiado, a automação poderá representar menos tempo parado, maior precisão na aplicação dos dados e, principalmente, melhores condições para cumprir a missão de fogo e deixar a posição antes da resposta adversária.

21 agosto, 2026

Radar SENTIR M20 é testado contra drones e amplia potencial antidrone do Exército Brasileiro

Ensaio do CTEx no CAEx usou um DJI Matrice 400 como alvo e obteve detecção a até 4 km; resultado é promissor, mas ainda não comprova uma capacidade antidrone plenamente operacional 



*LRCA Defense Consulting - 21/08/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) realizou, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), um ensaio específico para verificar a capacidade do radar de vigilância terrestre SENTIR M20 de detectar e acompanhar veículos aéreos não tripulados (VANTs). O alvo empregado foi um DJI Matrice 400, drone profissional de porte relativamente grande, fabricado pela chinesa DJI. Durante o teste, o radar conseguiu detectar e acompanhar o alvo a uma distância de até 4 km, resultado que o próprio CTEx classificou, em publicação institucional, como evidência de "excelente desempenho de sensoriamento".

O SENTIR M20 foi desenvolvido pelo CTEx e é produzido pela Embraer, por meio das empresas Savis e Bradar, ambas integrantes do grupo Embraer Defesa & Segurança, com apoio financeiro da FINEP e do próprio Exército. Trata-se de um radar de vigilância terrestre e de baixa altitude, portátil, de banda X, que utiliza tecnologia SAR (synthetic aperture radar), e que já integra o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) desde a primeira fase do programa. Sua versão portátil teve o protótipo homologado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército em abril de 2025, conforme o Relatório de Teste e Avaliação nº 58/24 do CAEx, e atualmente está licenciado à Embraer para produção.

Por que o teste era necessário 
As especificações originais do SENTIR M20 já previam a detecção de alvos aéreos de baixa altitude, como helicópteros e aeronaves de pequeno porte, com alcance declarado de até 20 km. No entanto, um VANT apresenta características de detecção distintas das de uma aeronave tripulada convencional: menor seção reta radar, menor velocidade, menor altitude de voo e maior manobrabilidade. Por isso, ainda que o radar já contasse com essa capacidade em suas especificações técnicas, era necessário verificar seu desempenho diante de um alvo real desse tipo. Foi exatamente esse o objetivo do ensaio conduzido pelo CTEx no CAEx. 



O que os 4 km efetivamente significam 
É importante não interpretar os 4 km obtidos no ensaio como o alcance máximo do SENTIR M20 contra drones. Trata-se da distância máxima de detecção alcançada naquele teste específico, com aquele tipo de alvo, o DJI Matrice 400, e nas condições em que o experimento foi conduzido. O desempenho do radar diante de drones menores, como os modelos FPV (first person view) e micro-VANTs, tende a ser significativamente diferente, já que esses alvos apresentam seção reta radar ainda mais reduzida. Para uma avaliação mais completa do real potencial do sistema, seriam relevantes dados adicionais sobre altitude, velocidade e trajetória do Matrice 400 durante o ensaio, a capacidade de manutenção da track ao longo do tempo, a capacidade de classificação do alvo, o desempenho na detecção simultânea de múltiplos VANTs e, sobretudo, o comportamento do radar contra drones de menor assinatura.

Sensor, não sistema completo 
O aspecto mais relevante da divulgação do CTEx está na conclusão de que o resultado "reforça o potencial do Radar SENTIR M20 como uma solução para sistemas anti-drone". Essa formulação não significa, contudo, que o M20 seja, isoladamente, um sistema C-UAS (counter-unmanned aircraft systems) completo. Seu papel numa arquitetura desse tipo é o de sensor, responsável pela detecção e pelo acompanhamento do alvo, e não pela neutralização dele. Numa arquitetura antidrone típica, o radar forneceria a pista, isto é, a posição e a trajetória do alvo, para outros componentes do sistema, como sensores eletro-ópticos de identificação visual, meios de comando e controle e, por fim, os efetores responsáveis pela neutralização, que podem ser sistemas de guerra eletrônica, armamento cinético ou outras soluções de interdição. 


A dimensão estratégica 

Há uma dimensão estratégica relevante embutida nesse resultado. O ensaio demonstra a possível expansão da utilidade de um sistema desenvolvido inteiramente no País, originalmente concebido para vigilância terrestre no âmbito do SISFRON, para a proteção do espaço aéreo de baixa altitude. Essa expansão permitiria ao Exército aproveitar uma tecnologia já madura, homologada e integrada ao seu ecossistema de vigilância e de comando e controle, para enfrentar uma ameaça, a dos drones, que ganhou importância crescente nos conflitos recentes e que vem sendo tratada como prioridade pela própria Força Terrestre.

O momento do teste também chama atenção por coincidir com outro movimento paralelo do Exército na mesma direção: o radar SABER M200 Vigilante, de médio alcance e também fruto de parceria entre o CTEx e a Bradar/Embraer, vem sendo submetido a testes semelhantes. No exercício Sagitta Primus 2026, o M200 detectou drones de baixa seção reta radar, categoria 0, a distâncias de até 8 km, com um novo modo de operação desenvolvido especificamente para alvos de assinatura reduzida. Os dois radares nacionais de vigilância terrestre e de médio alcance parecem, assim, caminhar simultaneamente rumo a uma capacidade de detecção antidrone orgânica à Força Terrestre.

Esse movimento ganha ainda mais relevância à luz do gap de detecção identificado durante a Operação Punhos de Aço 2025, quando os radares orgânicos das viaturas blindadas Gepard, o de vigilância MPDR-12 e o de controle de tiro em banda Juliet, falharam em adquirir drones de baixa seção reta, obrigando as guarnições a recorrer ao método manual de periscópio para acompanhar os alvos. Um sensor terrestre nacional com capacidade de detecção de VANT validada, como o SENTIR M20, seria um candidato plausível para prover a designação externa que o computador digital do Gepard 1A2 já possui capacidade latente de receber via datalink. 


Uma demonstração promissora, não uma capacidade comprovada 
Em síntese, o ensaio do CAEx demonstrou que o SENTIR M20 consegue detectar e acompanhar um DJI Matrice 400 a uma distância de até 4 km, e abriu uma possibilidade operacional relevante, a de transformar um radar nacional de vigilância terrestre em um dos sensores de uma futura arquitetura brasileira de defesa contra drones. O teste, no entanto, deve ser lido como uma demonstração inicial e promissora de capacidade, e não como a comprovação de uma solução antidrone plenamente operacional. A confirmação desse potencial dependerá de novos ensaios, com maior variedade de alvos, sobretudo os de menor porte e menor assinatura radar, e da eventual integração do radar a uma arquitetura completa de comando, controle e neutralização.

19 agosto, 2026

IMBEL avança no licenciamento para fabricar o rádio RDS Defesa V4

CTEx conduz tratativas industriais com a FMCE enquanto o rádio veicular segue em fase final de testes pelo CAEx. Programa poderá colocar o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares




*LRCA Defense Consulting - 19/08/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) avança nas tratativas de licenciamento para que a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), por meio da Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica (FMCE), fabrique o RDS Defesa V4, o rádio veicular do Projeto RDS-Rondon Defesa, antes chamado de RDS-Defesa. O anúncio marca um passo relevante na nacionalização e na futura produção seriada de um rádio definido por software (RDS) brasileiro voltado às comunicações táticas das Forças Armadas.

A informação, contudo, precisa de um melhor enquadramento. O que existe até o momento são tratativas de licenciamento industrial, não um contrato público de produção seriada. O V4 permanece em fase de teste e avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), com conclusão prevista para o segundo semestre de 2026. O próprio CTEx, em nota divulgada em 17 de agosto, confirmou que o processo de licenciamento da tecnologia para a IMBEL/FMCE está em andamento e que a empresa ficará responsável pela produção do rádio.

O que é o RDS Defesa V4 
O RDS Defesa é a vertente veicular do programa nacional de rádio definido por software, aprovado no âmbito do Ministério da Defesa em 2012 e conduzido tecnicamente pelo CTEx, com participação da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Classificado como Projeto Estratégico do Ministério da Defesa, com coordenação atribuída ao Exército Brasileiro, o RDS Defesa tem como objetivo prover comunicações táticas nacionais, seguras e interoperáveis entre as três Forças. O V4 indica, segundo fontes abertas, o quarto protótipo da versão veicular, e não uma variante já certificada para produção em escala.

Trata-se de um rádio multibanda, com cobertura de 2 a 512 MHz (HF, VHF e UHF), equipado com dois módulos de radiofrequência independentes e intercambiáveis, além de um módulo de processamento central. Essa configuração permite operar até dois canais simultâneos, voz e dados, algo que soluções anteriores, como o Harris Falcon III empregado em veículos Guarani, exigiam com dois rádios separados.

Entre as características reportadas publicamente estão a arquitetura SCA 4.1, com compatibilidade também com a versão 2.2.2; formas de onda e criptografia de desenvolvimento nacional, com o módulo criptográfico associado à Kryptus; transmissão de voz digitalizada segura, dados e vídeo em tempo real; e salto de frequência (TRANSEC). O equipamento já foi relacionado, em testes de integração, ao Gerenciador do Campo de Batalha (GCB) do Exército, ao STERNA da Marinha e ao Link-BR2 da FAB, com processamento mediado pelo MDLP (Multi Data Link Processor) do CASNAV. 


O papel da IMBEL na fabricação 

O desenvolvimento do RDS Defesa foi conduzido, até aqui, principalmente pela AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit Systems, em parceria com o CPqD, responsável pelas formas de onda, e com a Kryptus, responsável pela criptografia, além de outros subcontratantes. O Ministério da Defesa registra, atualmente, o RDS Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED) da AEL Sistemas. O CTEx descreve o arranjo produtivo nacional e sustentável do projeto como formado pelas Organizações Militares do DCT (CTEx, CComGEx e IMBEL) e por empresas brasileiras como CPqD, AEL, Kryptus, Stefanini, Ocellott (adquirida pela Modirum | GESPI), Sigma Delta e Pinetree.

A entrada da IMBEL representa, portanto, uma mudança de etapa, não a substituição dos demais participantes do projeto. O caminho declarado é: desenvolvimento sob coordenação do CTEx, com apoio de Marinha e FAB; teste e avaliação em curso pelo CAEx; licenciamento industrial em andamento com a IMBEL e a FMCE; e, por fim, uma eventual produção seriada, ainda não confirmada por anúncio público de contrato, lote ou cronograma.

A formulação mais recente do próprio CTEx é mais direta que as anteriores: a nota de 17 de agosto atribui à IMBEL/FMCE, de forma explícita, a responsabilidade futura pela produção do rádio, ainda que o licenciamento em si esteja em curso. Isso indica que a etapa industrial já é tratada como certa pelo órgão coordenador do projeto, restando formalizar o processo e concluir a avaliação técnica.

Documentação do próprio Exército indica que a FMCE já desenvolve algoritmos adaptativos de codificação de voz e dados para rádios definidos por software e para rádios cognitivos, com aplicação no TRC-1222 Rondon. Isso sugere que a fábrica não se limitaria a montar equipamentos, mas também participaria do desenvolvimento tecnológico associado ao programa. 


A convergência com a família Rondon 
Em 2023, a família de rádios Rondon, desenvolvida pela própria IMBEL desde 2013 no âmbito do macroprojeto Sistema de Comunicações Rondon, foi formalmente incorporada ao programa, que passou a ser tratado como RDS-Rondon Defesa. A versão portátil, o TRC-1222HH Rondon, já está em produção seriada. As versões manpack e veicular do TRC-1222 seguem em desenvolvimento conjunto entre IMBEL e CTEx, com previsão de conclusão da versão manpack em 2027.

O RDS Defesa V4 não deve ser entendido como apenas mais um TRC-1222. Ele é o nó veicular de maior capacidade e canal duplo do programa, enquanto a família Rondon cobre o escalonamento entre pelotão, companhia, batalhão e brigada nas versões portátil, manpack e veicular. A convergência de formas de onda e de criptografia entre as duas frentes é o que permite maior coerência de rede entre os escalões táticos.

A IMBEL já possui portfólio consolidado no setor, com os rádios VHF TRC-1193V e TRC-1193V-B Mallet, o transceptor TPP-1410 e o rádio UHF MRU-1400, derivado dele. O Plano de Trabalho nº 15/2024-DRMER/IMBEL, vinculado ao Termo de Execução Descentralizada nº 23-EME-017-00, confirma que os rádios Mallet poderão ser atualizados, após a entrega, com um novo codificador de voz em software e com capacidade de redes Manet/Mesh, funcionalidades já em desenvolvimento pela IMBEL/FMCE. O mesmo documento indica a possibilidade de integração das formas de onda do Mallet com as do próprio projeto RDS Defesa, o que reforça a convergência tecnológica entre as duas famílias de rádio.

Testes operacionais e validação 

A maturidade do programa foi demonstrada na Operação Atlas, exercício conjunto realizado em 2025 em localidades como Belém e Boa Vista, no qual a família RDS-Rondon Defesa foi empregada em testes de interoperabilidade de comando e controle entre as três Forças. Os equipamentos também passaram por avaliação técnica e operacional conduzida pelo CAEx, etapa que antecede qualquer decisão sobre produção em escala. Imagens divulgadas pelo próprio CTEx mostram o RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani, o que evidencia a etapa de integração com plataformas blindadas em operação no Exército. 

RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani

Segurança e evolução tecnológica 
Em abril de 2025, o Centro de Análise de Sistemas Navais (CASNAV) visitou o CTEx especificamente para tratar do programa. A Marinha informou, à época, que trabalhava com o Exército na evolução do módulo de segurança do equipamento e que entregaria ao CTEx um algoritmo criptográfico pós-quântico, destinado a proteger as comunicações contra futuras ameaças associadas à computação quântica.

Relevância estratégica 
Se o RDS Defesa V4 concluir a avaliação com desempenho adequado e avançar para a fabricação regular pela IMBEL, o programa colocará o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares. O avanço interessa diretamente a programas como o SISFRON, o SisGAAz, o Guarani e o VBC 8x8, além de reduzir a dependência de equipamentos estrangeiros sujeitos a restrições de exportação, caso dos rádios Harris.

A autonomia tecnológica, porém, não se completa apenas com o anúncio do licenciamento. Ela dependerá de fatores ainda não públicos, como a origem dos componentes de radiofrequência e processamento, a cadeia de suprimentos, o domínio efetivo das formas de onda, a custódia das chaves criptográficas, a interface com sistemas legados e a escala que vier a ser efetivamente contratada pelas Forças Armadas. Ainda assim, a produção pela IMBEL, estatal vinculada ao Exército, tende a garantir continuidade industrial, sustentação de longo prazo e potencial de exportação futura para o setor no País.

12 maio, 2026

Exército desenvolve pilha térmica nacional para alimentar míssil anticarro

CTEx conclui desenvolvimento de fonte eletroquímica 100% brasileira para o sistema de guiamento do MAX 1.2 AC, primeiro míssil antitanque de médio alcance projetado e fabricado integralmente no país 


*LRCA Defense Consulting - 12/05/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) anunciou na terça-feira (12) o desenvolvimento de pilhas térmicas de alta densidade de energia com tecnologia 100% nacional, voltadas ao uso em sistemas de mísseis das Forças Armadas. A conquista, divulgada pelo próprio CTEx em suas redes sociais, representa um marco na política de nacionalização de componentes críticos e reduz uma dependência estratégica que o Brasil mantinha de fornecedores estrangeiros para esse tipo de tecnologia.

A aplicação imediata é o Míssil MAX 1.2 AC, oficialmente denominado Míssil Superfície-Superfície 1.2 Anticarro (MSS 1.2 AC), propriedade intelectual do Exército Brasileiro. A pilha é responsável por alimentar o sistema de controle e guiamento do artefato, componente sem o qual a precisão do míssil fica comprometida.

O que são pilhas térmicas e por que são estratégicas
Ao contrário das baterias convencionais, as pilhas térmicas são fontes eletroquímicas do tipo reserva: permanecem eletricamente inertes durante o armazenamento e são ativadas por um elemento pirotécnico no momento do disparo, que funde o eletrólito de sal metálico e inicia a reação química. Esse mecanismo garante vida útil de armazenamento praticamente ilimitada sem degradação de desempenho.

As principais características que tornam essa tecnologia indispensável para uso militar são a elevada densidade energética em curtíssimo período de operação, a alta confiabilidade e a capacidade de funcionar em condições mecânicas e climáticas severas como vibrações intensas, acelerações bruscas e variações extremas de temperatura. Essas propriedades fazem das pilhas térmicas a alternativa preferencial para sistemas de guiamento, propulsão e acionamento de mísseis, torpedos e outros armamentos inteligentes em todo o mundo.

A tecnologia é hoje dominada por poucos países, predominantemente as grandes potências ocidentais. Fabricantes especializados, como a norte-americana EaglePicher, atendem a praticamente todos os principais programas de defesa dos Estados Unidos há décadas. O acesso a esses componentes por países em desenvolvimento frequentemente envolve restrições políticas e comerciais, tornando a dependência de importação uma vulnerabilidade real em cenários de conflito ou sanção.

O CTEx e o pioneirismo brasileiro na pesquisa eletroquímica
O Laboratório de Química Militar (LQM) do CTEx é o único núcleo de pesquisa no Brasil a desenvolver pilhas térmicas. A trajetória do grupo começou há anos, com projetos que foram sendo aprimorados geração a geração. Em 2016, o Grupo de Fontes Eletroquímicas concluiu o desenvolvimento da Pilha Superfície-Superfície Térmica para Circuitos Eletrônicos (PSSTCE), produto gerado inteiramente dentro do CTEx.

O anúncio desta semana indica que o laboratório avançou para o que é descrito como pilhas térmicas de terceira geração, o estado da arte na tecnologia. O salto qualitativo, segundo o CTEx, permitiu atender aos requisitos operacionais do Míssil MAX 1.2 AC, um sistema de maior complexidade e exigência energética do que os projetos anteriores.

O Laboratório de Química Militar também conduz pesquisas em propelentes, explosivos e pirotécnicos, incluindo o desenvolvimento de composições para vetores balísticos e propelentes de baixa toxicidade, o que demonstra a amplitude das competências científicas acumuladas dentro do CTEx ao longo de décadas.

 

O MAX 1.2 AC: o míssil que deu urgência ao projeto
Desenvolvido em parceria com a empresa brasileira SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), sediada em São José dos Campos (SP), o MAX 1.2 AC é descrito como o primeiro míssil antitanque brasileiro de médio alcance projetado e fabricado integralmente no país. Com alcance superior a dois quilômetros, o sistema utiliza guiamento a laser, tecnologia que reduz a vulnerabilidade a contramedidas eletrônicas e aumenta a precisão no engajamento de alvos blindados.

O programa tem raízes no MSS 1.2 da antiga Orbital Engenharia, que foi absorvido e modernizado pela SIATT. Em fevereiro de 2025, SIATT e Exército Brasileiro formalizaram contrato para a produção em série do primeiro lote do sistema. Em março do mesmo ano, uma portaria do Comando do Exército oficializou a adoção do míssil como material de dotação da Força Terrestre.

Entre os dias 21 e 24 de outubro de 2025, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), no Rio de Janeiro, foram realizados tiros com o MAX 1.2 AC com o objetivo de qualificar fornecedores de componentes e subsistemas, incluindo a nova pilha térmica nacional. Os resultados confirmaram desempenho consistente e confiabilidade em condições operacionais reais. No último dia dos testes, a 1ª Tenente Beatriz Luberiaga Bezerra, engenheira militar da Seção de Mísseis e Foguetes do CTEx, realizou um lançamento real do míssil, tornando-se a primeira mulher do Exército Brasileiro a fazê-lo.

 

Soberania tecnológica e o contexto geopolítico
A nacionalização da pilha térmica vai além da economia em importações. Em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas, restrições de exportação e uso de tecnologia como instrumento de pressão entre nações, o domínio interno de componentes críticos é considerado condição essencial para a soberania operacional das Forças Armadas. Um país que depende de fornecedores externos para peças fundamentais de seus sistemas de armas fica sujeito a interrupções de abastecimento em momentos exatamente críticos.

O avanço do CTEx integra o esforço mais amplo de fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Analistas do setor apontam que o domínio de tecnologias eletroquímicas estratégicas representa um dos pilares da moderna indústria de defesa, e que investimentos nessa área frequentemente produzem efeitos indiretos sobre a economia civil, impulsionando pesquisa aplicada em química avançada, engenharia de materiais, eletrônica e sistemas embarcados.

O CTEx foi criado em 16 de outubro de 1979 pelo Decreto nº 84.095, com a missão de suprir as necessidades do Exército em pesquisa e desenvolvimento de materiais militares. Hoje, o centro opera 16 laboratórios com certificação internacional e trabalha de forma integrada com universidades, empresas da BID e agências de fomento como a FINEP. O resultado desta semana é, em certa medida, o produto de décadas de investimento científico silencioso, agora convertido em capacidade operacional concreta.

10 outubro, 2024

Empresa brasileira desenvolve monóculo capaz de captar o calor emitido pelo corpo


*Revista Fapesp, por Yuri Vasconcelos - 05/10/2024

Um dispositivo óptico que permite que forças militares, policiais e de segurança identifiquem a presença de pessoas, animais, instalações e veículos em condições adversas de luminosidade, apenas pelo calor que emitem, foi desenvolvido pela empresa brasileira especializada em sistemas optrônicos Opto Space & Defense, pertencente ao Grupo Akaer. Sediada em São José dos Campos, a Akaer tem como foco a fabricação de estruturas, equipamentos e sistemas para os setores aeroespacial e de defesa. O monóculo de imagem térmica Olhar, primeiro do gênero criado por uma companhia nacional, foi projetado a partir de requisitos definidos pelo Exército brasileiro. Um primeiro lote com 21 aparelhos foi homologado em agosto, após mais de um ano em testes pela força militar.

“O Olhar foi projetado para ser um equipamento robusto, leve e com dimensões reduzidas. Esse desenvolvimento demonstra que o país detém o conhecimento de visão termal e pode fabricar seus próprios equipamentos. Com ele, ficamos independentes de questões geopolíticas que dificultam a aquisição desses aparelhos pelas Forças Armadas brasileiras”, afirma o engenheiro eletrônico Cláudio Carvas, diretor-presidente da Opto Space & Defense. O projeto, iniciado há mais de 15 anos, foi feito em parceria com o Centro de Tecnologia do Exército (CTEx) e recebeu apoio, em seu estágio inicial, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Menos de 10 países do mundo, entre eles China, Estados Unidos, França, Israel e Reino Unido, dominam a tecnologia de fabricação de monóculos de visão termal para uso militar – e quem tem essa capacidade restringe a comercialização dos dispositivos.

“A visão termal é fundamental para quem entra em guerra. Especialistas em defesa costumam dizer que o soldado brasileiro é cego, porque guerra de dia a gente só vê no cinema. O conflito real acontece à noite, quando as dificuldades são grandes e equipamentos como o monóculo criado pela Akaer são essenciais”, sustenta o físico Jarbas Caiado de Castro Neto, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), que não participou diretamente do desenvolvimento.

Dispositivos como o Olhar detectam a radiação infravermelha, associada ao calor, emitida pelo corpo humano ou por objetos, e a convertem em uma imagem visível. Para isso, são dotados de sensores, normalmente feitos de silício amorfo ou óxido de vanádio, capazes de captar a emissão de radiação térmica dos corpos. A radiação infravermelha detectada é convertida em sinais elétricos que, por sua vez, são processados dando origem a uma imagem térmica em que diferentes cores ou tons representam diferentes temperaturas. Essa imagem é exibida em um display.

O monóculo criado pela Opto Space & Defense poderá ser usado não apenas em operações militares, mas também em missões de resgate para localizar pessoas, animais e objetos quentes em condições de pouca ou nenhuma visibilidade, como em ambientes com fumaça, poeira e nevoeiro. “O dispositivo detecta partes quentes em uma imagem, seja numa operação noturna ou diurna. Essa é sua grande função”, diz Carvas. “Na maioria das aplicações, o Olhar pode ser utilizado para aumentar a capacidade de observação do usuário.”

Com cerca de 800 gramas e 155 milímetros (mm) de comprimento por 72 mm de largura e 67 mm de altura, o Olhar pode ser operado manualmente ou acoplado a capacetes, fuzis e metralhadoras. Diferentemente da maioria dos concorrentes internacionais, o dispositivo brasileiro tem duas opções de lentes intercambiáveis, com distâncias focais de 14 mm (modelo básico) e 54 mm (modelo Caçador), que aproxima mais a imagem.

Modelo avançado
Carvas explica que o Olhar difere dos óculos de visão noturna. Os militares norte-americanos usaram esses últimos na missão de captura e morte do terrorista Osama Bin Laden, no Paquistão, em 2011. “Não é a mesma tecnologia. Óculos de visão noturna são intensificadores de luz, ou seja, captam uma luz mínima existente no ambiente e a amplificam para formar uma imagem. O monóculo termal independe da luz ambiente.”

De acordo com a Akaer, que este ano se tornou a primeira empresa brasileira do setor aeroespacial a obter o status de fornecedora global de nível 1, ou Tier 1 (ver box), o monóculo se vale do que há de mais avançado em termos de microeletrônica, mecânica de precisão e óptica. “O projeto óptico das objetivas termais e ocular garante elevado desempenho que se traduz em imagens com alto contraste e baixa distorção”, afirma o executivo da Opto Space & Defense.

Na área de eletrônica, foram desenvolvidas placas de circuito impresso com dimensões reduzidas contendo componentes com encapsulamentos muito pequenos. Também foram utilizados módulos de processamento e um microdisplay com tecnologia Oled, que usa diodos orgânicos emissores de luz, além de um sensor termal de alta resolução, comprado no exterior.

“Para a estrutura mecânica, foi necessário projetar e fabricar o corpo do monóculo em dimensões reduzidas, de forma que ele pudesse abrigar e garantir a segurança dos componentes internos”, informa Carvas. “O conjunto mecânico teve que assegurar o alinhamento óptico do sensor termal e da objetiva, sem o qual a imagem não teria boa resolução e nitidez.” A robustez do sistema foi outro pré-requisito estabelecido pelo Exército. O monóculo resiste por 30 minutos dentro d’água e saiu-se bem nos testes de resistência ao choque, conforme a Akaer.

“Trata-se de uma tecnologia desafiadora”, reconhece Castro Neto, do IFSC-USP, que acompanhou o projeto de uma primeira versão do monóculo. Batizado de VDN X-1, ele começou a ser projetado em 2007 nos laboratórios da startup Opto Eletrônica, de São Carlos, da qual o físico foi um dos criadores. Em 2016, a divisão Espaço e Defesa (E&D) da empresa foi comprada pela Akaer e rebatizada de Opto Space & Defense. Três anos depois, o projeto do monóculo foi retomado.

Desenhar e fabricar lentes de visão termal, assim como planejar sua eletrônica, é uma tarefa considerada das mais complexas por quem conheceu o projeto. “Diferentemente das lentes para câmeras no espectro visível, as termais precisam ser feitas de materiais muito específicos, como sulfeto de zinco, silício e germânio, cuja disponibilidade é limitada. O design do sistema óptico é intrincado e precisa ser projetado para anular aberrações cromáticas, distorções e outros problemas, a fim de que se tenha uma imagem precisa”, diz o pesquisador da USP.

Procurado por Pesquisa FAPESP, o Exército limitou-se a informar, por meio de nota, que “a avaliação do projeto foi encerrada recentemente e o equipamento ainda está em estudos para adoção”. Durante os processos de avaliação técnica e operacional e homologação, foram analisados múltiplos requisitos de desempenho em laboratório e em campo, segundo normas compatíveis com as definidas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. O lote com 21 aparelhos entregue ao Exército no ano passado foi submetido a testes de suscetibilidade eletromagnética, emissão sonora, resistência a altas e baixas temperaturas, areia, umidade, entre outros.

Ainda não há uma definição sobre quando o monóculo será incorporado ao braço terrestre das Forças Armadas. “Não sabemos quantos aparelhos serão adquiridos nem quando. Mas já recebemos consultas de outros países interessados no equipamento. A venda para o exterior, contudo, depende da autorização do Exército, já que o projeto foi encomendado por ele”, afirma o diretor da Opto Space & Defense.

A Akaer não revela o preço do monóculo. O valor, segundo a empresa, depende de algumas variáveis, como o número de unidades previstas na negociação. Monóculos de imagem térmica já em operação – como os das norte-americanas Teledyne Flir Systems e L3Harris Technologies, uma das fornecedoras do Exército dos Estados Unidos, da britânica BAE Systems e da israelense Elbit Systems – custam a partir de US$ 3 mil e podem superar US$ 20 mil. O valor varia conforme as características do dispositivo, o nível de sofisticação tecnológica, os acessórios, entre outros fatores. “O Olhar será competitivo. Não seremos o mais caro nem o mais barato do mercado”, destaca Carvas.

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