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19 agosto, 2026

IMBEL avança no licenciamento para fabricar o rádio RDS Defesa V4

CTEx conduz tratativas industriais com a FMCE enquanto o rádio veicular segue em fase final de testes pelo CAEx. Programa poderá colocar o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares




*LRCA Defense Consulting - 19/08/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) avança nas tratativas de licenciamento para que a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), por meio da Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica (FMCE), fabrique o RDS Defesa V4, o rádio veicular do Projeto RDS-Rondon Defesa, antes chamado de RDS-Defesa. O anúncio marca um passo relevante na nacionalização e na futura produção seriada de um rádio definido por software (RDS) brasileiro voltado às comunicações táticas das Forças Armadas.

A informação, contudo, precisa de um melhor enquadramento. O que existe até o momento são tratativas de licenciamento industrial, não um contrato público de produção seriada. O V4 permanece em fase de teste e avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), com conclusão prevista para o segundo semestre de 2026. O próprio CTEx, em nota divulgada em 17 de agosto, confirmou que o processo de licenciamento da tecnologia para a IMBEL/FMCE está em andamento e que a empresa ficará responsável pela produção do rádio.

O que é o RDS Defesa V4 
O RDS Defesa é a vertente veicular do programa nacional de rádio definido por software, aprovado no âmbito do Ministério da Defesa em 2012 e conduzido tecnicamente pelo CTEx, com participação da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Classificado como Projeto Estratégico do Ministério da Defesa, com coordenação atribuída ao Exército Brasileiro, o RDS Defesa tem como objetivo prover comunicações táticas nacionais, seguras e interoperáveis entre as três Forças. O V4 indica, segundo fontes abertas, o quarto protótipo da versão veicular, e não uma variante já certificada para produção em escala.

Trata-se de um rádio multibanda, com cobertura de 2 a 512 MHz (HF, VHF e UHF), equipado com dois módulos de radiofrequência independentes e intercambiáveis, além de um módulo de processamento central. Essa configuração permite operar até dois canais simultâneos, voz e dados, algo que soluções anteriores, como o Harris Falcon III empregado em veículos Guarani, exigiam com dois rádios separados.

Entre as características reportadas publicamente estão a arquitetura SCA 4.1, com compatibilidade também com a versão 2.2.2; formas de onda e criptografia de desenvolvimento nacional, com o módulo criptográfico associado à Kryptus; transmissão de voz digitalizada segura, dados e vídeo em tempo real; e salto de frequência (TRANSEC). O equipamento já foi relacionado, em testes de integração, ao Gerenciador do Campo de Batalha (GCB) do Exército, ao STERNA da Marinha e ao Link-BR2 da FAB, com processamento mediado pelo MDLP (Multi Data Link Processor) do CASNAV. 


O papel da IMBEL na fabricação 

O desenvolvimento do RDS Defesa foi conduzido, até aqui, principalmente pela AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit Systems, em parceria com o CPqD, responsável pelas formas de onda, e com a Kryptus, responsável pela criptografia, além de outros subcontratantes. O Ministério da Defesa registra, atualmente, o RDS Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED) da AEL Sistemas. O CTEx descreve o arranjo produtivo nacional e sustentável do projeto como formado pelas Organizações Militares do DCT (CTEx, CComGEx e IMBEL) e por empresas brasileiras como CPqD, AEL, Kryptus, Stefanini, Ocellott (adquirida pela Modirum | GESPI), Sigma Delta e Pinetree.

A entrada da IMBEL representa, portanto, uma mudança de etapa, não a substituição dos demais participantes do projeto. O caminho declarado é: desenvolvimento sob coordenação do CTEx, com apoio de Marinha e FAB; teste e avaliação em curso pelo CAEx; licenciamento industrial em andamento com a IMBEL e a FMCE; e, por fim, uma eventual produção seriada, ainda não confirmada por anúncio público de contrato, lote ou cronograma.

A formulação mais recente do próprio CTEx é mais direta que as anteriores: a nota de 17 de agosto atribui à IMBEL/FMCE, de forma explícita, a responsabilidade futura pela produção do rádio, ainda que o licenciamento em si esteja em curso. Isso indica que a etapa industrial já é tratada como certa pelo órgão coordenador do projeto, restando formalizar o processo e concluir a avaliação técnica.

Documentação do próprio Exército indica que a FMCE já desenvolve algoritmos adaptativos de codificação de voz e dados para rádios definidos por software e para rádios cognitivos, com aplicação no TRC-1222 Rondon. Isso sugere que a fábrica não se limitaria a montar equipamentos, mas também participaria do desenvolvimento tecnológico associado ao programa. 


A convergência com a família Rondon 
Em 2023, a família de rádios Rondon, desenvolvida pela própria IMBEL desde 2013 no âmbito do macroprojeto Sistema de Comunicações Rondon, foi formalmente incorporada ao programa, que passou a ser tratado como RDS-Rondon Defesa. A versão portátil, o TRC-1222HH Rondon, já está em produção seriada. As versões manpack e veicular do TRC-1222 seguem em desenvolvimento conjunto entre IMBEL e CTEx, com previsão de conclusão da versão manpack em 2027.

O RDS Defesa V4 não deve ser entendido como apenas mais um TRC-1222. Ele é o nó veicular de maior capacidade e canal duplo do programa, enquanto a família Rondon cobre o escalonamento entre pelotão, companhia, batalhão e brigada nas versões portátil, manpack e veicular. A convergência de formas de onda e de criptografia entre as duas frentes é o que permite maior coerência de rede entre os escalões táticos.

A IMBEL já possui portfólio consolidado no setor, com os rádios VHF TRC-1193V e TRC-1193V-B Mallet, o transceptor TPP-1410 e o rádio UHF MRU-1400, derivado dele. O Plano de Trabalho nº 15/2024-DRMER/IMBEL, vinculado ao Termo de Execução Descentralizada nº 23-EME-017-00, confirma que os rádios Mallet poderão ser atualizados, após a entrega, com um novo codificador de voz em software e com capacidade de redes Manet/Mesh, funcionalidades já em desenvolvimento pela IMBEL/FMCE. O mesmo documento indica a possibilidade de integração das formas de onda do Mallet com as do próprio projeto RDS Defesa, o que reforça a convergência tecnológica entre as duas famílias de rádio.

Testes operacionais e validação 

A maturidade do programa foi demonstrada na Operação Atlas, exercício conjunto realizado em 2025 em localidades como Belém e Boa Vista, no qual a família RDS-Rondon Defesa foi empregada em testes de interoperabilidade de comando e controle entre as três Forças. Os equipamentos também passaram por avaliação técnica e operacional conduzida pelo CAEx, etapa que antecede qualquer decisão sobre produção em escala. Imagens divulgadas pelo próprio CTEx mostram o RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani, o que evidencia a etapa de integração com plataformas blindadas em operação no Exército. 

RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani

Segurança e evolução tecnológica 
Em abril de 2025, o Centro de Análise de Sistemas Navais (CASNAV) visitou o CTEx especificamente para tratar do programa. A Marinha informou, à época, que trabalhava com o Exército na evolução do módulo de segurança do equipamento e que entregaria ao CTEx um algoritmo criptográfico pós-quântico, destinado a proteger as comunicações contra futuras ameaças associadas à computação quântica.

Relevância estratégica 
Se o RDS Defesa V4 concluir a avaliação com desempenho adequado e avançar para a fabricação regular pela IMBEL, o programa colocará o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares. O avanço interessa diretamente a programas como o SISFRON, o SisGAAz, o Guarani e o VBC 8x8, além de reduzir a dependência de equipamentos estrangeiros sujeitos a restrições de exportação, caso dos rádios Harris.

A autonomia tecnológica, porém, não se completa apenas com o anúncio do licenciamento. Ela dependerá de fatores ainda não públicos, como a origem dos componentes de radiofrequência e processamento, a cadeia de suprimentos, o domínio efetivo das formas de onda, a custódia das chaves criptográficas, a interface com sistemas legados e a escala que vier a ser efetivamente contratada pelas Forças Armadas. Ainda assim, a produção pela IMBEL, estatal vinculada ao Exército, tende a garantir continuidade industrial, sustentação de longo prazo e potencial de exportação futura para o setor no País.

16 fevereiro, 2026

VSNT: o drone naval que coloca o Brasil na vanguarda da defesa marítima autônoma

Desenvolvido pela Marinha do Brasil e pela empresa brasileira DGS Defense com tecnologia 100% nacional, o Veículo de Superfície Não Tripulado representa um salto tecnológico nas operações de guerra de minas e vigilância marítima



*LRCA Defense Consulting - 16/02/2026 

Nas águas da Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, uma pequena embarcação navega em alta velocidade, realizando manobras precisas sem qualquer tripulante a bordo. Equipada com sonares de última geração, câmeras infravermelhas e sistemas de navegação autônoma, ela representa o futuro da defesa naval brasileira: o Veículo de Superfície Não Tripulado, conhecido pela sigla VSNT.

Desde 2021, a Marinha do Brasil desenvolve um dos projetos mais inovadores da defesa nacional. Sob a coordenação do Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), o VSNT nasceu de forma modesta, a partir da conversão experimental de uma embarcação de casco semirrígido de sete metros, mas rapidamente se transformou em uma plataforma tecnológica capaz de competir com sistemas desenvolvidos por marinhas de nações de primeiro mundo.

"O desenvolvimento do VSNT é mais do que um marco tecnológico. É um reflexo do compromisso da Marinha com a inovação e a Defesa Nacional", destaca o Capitão de Mar e Guerra Fabio Kenji Arakaki, ex-Diretor do CASNAV.


Do laboratório ao campo de batalha
O programa VSNT atualmente conta com duas embarcações operacionais distintas, cada uma com sua missão específica. O VSNT-Lab funciona como uma "bancada flutuante", uma plataforma laboratorial financiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) que serve de base para dezenas de trabalhos acadêmicos desenvolvidos em parceria com universidades como a UFRJ. É nesta plataforma que algoritmos são testados, sensores são integrados e novos conceitos operacionais são validados antes de serem implementados nas versões operacionais.

Já o VSNT-CMM (Contramedidas de Minagem) representa o estado da arte da tecnologia autônoma aplicada ao ambiente marítimo brasileiro. Com velocidade máxima estimada entre 30 e 35 nós (aproximadamente 55 a 65 km/h), esta embarcação opera tipicamente entre 6 e 8 nós durante missões de varredura, garantindo a qualidade dos dados coletados pelos sonares.

A arquitetura modular do VSNT permite três modos distintos de operação: no modo remoto, o operador comanda diretamente o leme e a aceleração; no modo semiautônomo, o sistema digital embarcado mantém automaticamente o rumo definido; e no modo autônomo, a embarcação navega entre pontos pré-programados, exigindo apenas supervisão humana para evitar colisões e garantir a segurança da navegação.


Tecnologia nacional em destaque
Um dos aspectos mais notáveis do projeto VSNT é o desenvolvimento do casco pela empresa brasileira DGS Defense. Apresentado durante a feira LAAD 2023, o casco é 100% não-magnético, construído com materiais compostos que oferecem alta capacidade de absorção de energia, características essenciais para operações de contramedidas de minagem, onde o risco de detonação acidental é uma preocupação constante.

"O casco oferece maior resistência e durabilidade que os tipos em alumínio, fibra de vidro ou infláveis, proporcionando maior probabilidade de sobrevida em relação aos cascos convencionais", explica a DGS Defense, empresa que detém as patentes das tecnologias ETRH® e X-HULL®, utilizadas na fabricação das embarcações.

O ecossistema de desenvolvimento do VSNT envolve uma articulação única entre instituições militares, acadêmicas e industriais. A Marinha do Brasil define os requisitos operacionais e desenvolve o sistema digital de comando e controle. O Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) atua na integração com veículos submarinos autônomos. O Laboratório de Tecnologia Oceânica (LabOceano) da UFRJ oferece suporte em hidrodinâmica, controle e navegação. E a DGS Defense cuida do projeto e fabricação dos cascos.

Com um investimento inicial modesto de apenas R$ 23 mil em 2021, o programa expandiu-se rapidamente. Até o final de 2026, o CASNAV planeja receber uma terceira embarcação convertida em VSNT. Em 2025, estão previstos investimentos na aquisição de novos sensores e atuadores para iniciar os testes de operação em "enxame", a operação coordenada e cooperativa de dois ou mais veículos autônomos.
 
Batismo de fogo na guerra de minas
As operações MINEX (Mine Exercise) realizadas em Salvador em 2023 e 2024 marcaram o batismo operacional do VSNT. Durante a MINEX-24, realizada entre 7 e 11 de outubro, o sistema demonstrou uma capacidade operacional que impressionou até observadores estrangeiros.

A missão funcionou em três fases integradas: primeiro, o VSNT-CMM realizou a varredura inicial da área com sonar sidescan, identificando posições suspeitas de minas navais. Em seguida, as coordenadas foram transmitidas para o LAUV (Veículo Submarino Autônomo Leve), operado pelo IPqM, que confirmou a presença das minas utilizando seu próprio sonar e câmera. Por fim, as coordenadas confirmadas foram repassadas ao Destacamento de Mergulhadores de Combate, que conduziu a etapa de neutralização simulada.

"O emprego desse veículo representa um marco no desenvolvimento de capacidades autônomas de defesa submarina para a Marinha. Além de ser a primeira vez que o veículo foi utilizado no País nesse tipo de missão. O sucesso do exercício MINEX-24 demonstra o potencial de operações futuras com sistemas marítimos não tripulados em missões de alta complexidade", afirmou o Capitão de Corveta Engenheiro Naval Emerson Coelho Mendonça, do IPqM.

Durante a MINEX-24, o CASNAV também apresentou o Console de Imagens Táticas em Realidade Aumentada (CITRA), instalando câmeras de alta resolução em pontos estratégicos da área marítima e no próprio VSNT. "Com a integração do CITRA-VSNT, demonstramos uma capacidade de monitorar espaços marítimos de interesse, trazendo os dados de AIS nas imagens das câmeras do CITRA, aumentando a consciência situacional marítima e agilizando a tomada de decisão", destacou o Diretor do CASNAV na ocasião.


Integração com a Esquadra

A versatilidade do VSNT foi demonstrada durante a comissão ADEREX, quando pela primeira vez o sistema foi operado de forma plena e integrada a partir do Centro de Operações de Combate (COC) do Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico, uma das principais plataformas da Marinha.

Utilizando a infraestrutura de rede em fibra ótica embarcada, o VSNT operou com controle remoto e tráfego bidirecional de vídeo, comandos, telemetria e dados de sensores. Foram realizados exercícios de navegação noturna com câmera infravermelha, testes de alcance de comunicações por rádio, avaliação da assinatura térmica noturna do VSNT e, de forma surpreendente, corridas de interceptação simulando uma ameaça assimétrica de superfície.

O sistema também foi operado com sucesso a partir de corvetas da classe Barroso, demonstrando capacidade de integração com diferentes plataformas navais. Esta flexibilidade operacional é fundamental para o conceito de emprego do VSNT, que pode ser lançado e recuperado por navios de escolta, corvetas e até mesmo pelo NAM Atlântico.

ARAMUSS 2025: o Brasil na rota mundial da inovação naval
Em novembro de 2025, Salvador sediou a primeira edição do ARAMUSS (Aratu Maritime Unmanned Systems Simulation), um evento pioneiro que posicionou o Brasil na rota mundial de inovação em defesa. Inspirado no exercício REPMUS conduzido em Portugal, o ARAMUSS reuniu 24 expositores, incluindo instituições acadêmicas e empresas do Brasil e do exterior, com mais de 2 mil participantes.

O VSNT do CASNAV foi um dos protagonistas do evento, participando de demonstrações práticas ao lado de outros sistemas como o Suppressor (TideWise/EMGEPRON), o LAUV Triton (Ocean Scan/IPqM), o FlatFish (SENAI Cimatec) e o NAURU (XMobots). Todos os veículos foram operados de forma autônoma ou a partir de centros de comando instalados a bordo da Corveta Caboclo, do Navio-Balizador Tenente Boanerges e de outras embarcações da Marinha.

"Hoje é a parte mais importante da ARAMUSS, porque estamos fazendo os nossos testes e simulações embarcados nos navios da Marinha do Brasil. Temos aqui, na Baía de Todos os Santos, os nossos navios e também vários sistemas não tripulados de superfície, submarinos e aéreos. Isso tudo em prol de observarmos a operacionalidade e a conjunção de esforços, no nosso caso em benefício da guerra de minas", declarou o Vice-Almirante Gustavo Calero Garriga Pires, Comandante do 2º Distrito Naval.

O evento contou ainda com a participação da Marinha Portuguesa, representada pelo Capitão-de-fragata Marco Guimarães, Diretor da Célula de Inovação e Experimentação Operacional de Veículos não Tripulados (CEOV), demonstrando o interesse internacional nas capacidades desenvolvidas pelo Brasil.


A ameaça real das minas marítimas

O desenvolvimento de capacidades autônomas para contramedidas de minagem não é um luxo tecnológico, mas uma necessidade estratégica. As minas marítimas são armas conhecidas por seu baixo custo e alta capacidade destrutiva, capazes de não apenas causar danos físicos, mas também gerar um impacto psicológico significativo, restringindo o uso de áreas marítimas estratégicas por navios militares e comerciais.

Marinhas de diversos países têm intensificado investimentos em operações autônomas de contramedidas de minagem para mitigar os riscos representados por esses dispositivos explosivos. O emprego de veículos não tripulados reduz drasticamente a exposição de vidas humanas aos perigos inerentes às operações de varredura, além de diminuir custos operacionais e complexidade logística.

Perspectivas futuras e múltiplas aplicações
O roadmap oficial do VSNT prevê a expansão do programa para além dos dois cascos já em serviço. Além da terceira embarcação prevista para 2026, há planos para ao menos mais dois cascos adicionais. A meta é alcançar 95% de êxito nas missões realizadas com VSNT até 2026, reduzir em 20% o tempo necessário para conversão de novas embarcações até 2027, e aumentar em 15% a participação de empresas nacionais no fornecimento de componentes até 2028.

"Estamos investindo em tecnologias que elevam o Brasil a um novo patamar no domínio de veículos de superfície não tripulados, com benefícios para o Poder Naval e para toda a sociedade", afirma o Capitão de Fragata Rodrigo da Silva Vieira, gerente do projeto VSNT.

A Marinha já explora usos além das contramedidas de minagem. O VSNT tem potencial para operações de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), proteção de portos e terminais, escolta de áreas sensíveis, monitoramento de áreas offshore e aplicações dual-use, ou seja, tanto militares quanto civis.

Entre as aplicações civis discutidas estão o monitoramento ambiental e a proteção de infraestruturas críticas, como plataformas de petróleo. A versatilidade da plataforma, combinada com sua arquitetura modular, permite reconfigurar rapidamente os sensores e equipamentos embarcados conforme a missão específica.

Em análises independentes, especialistas já discutem a possibilidade de derivar, a partir da base tecnológica do VSNT, versões otimizadas para diferentes perfis de emprego, incluindo sistemas de ataque assimétrico para negação de área e defesa costeira de baixo custo, uma capacidade que tem ganhado destaque em conflitos recentes ao redor do mundo.


Soberania tecnológica e Base Industrial de Defesa
O projeto VSNT representa muito mais do que o desenvolvimento de uma plataforma autônoma. Trata-se de um esforço consciente de construção de soberania tecnológica na área de sistemas não tripulados, um dos campos mais estratégicos da defesa moderna.

Ao desenvolver internamente desde o sistema digital de comando e controle até a integração de sensores, passando pelo projeto e fabricação dos cascos, a Marinha do Brasil consolida o domínio do ciclo completo da tecnologia de veículos de superfície não tripulados. Este conhecimento não apenas garante independência tecnológica, mas também cria oportunidades para a Base Industrial de Defesa brasileira.

O Encarregado da Divisão de Controle de Projetos de Ciência, Tecnologia e Inovação, Capitão de Fragata (T) Márcio Aurélio de Lima Rocha, explica que essas iniciativas refletem as diretrizes da Estratégia de Defesa Marítima e a busca por soluções tecnológicas que garantam a soberania e a defesa do Brasil em cenários cada vez mais desafiadores.

A parceria com universidades como a UFRJ também garante que o conhecimento gerado não fique restrito ao ambiente militar, mas transborde para a formação de recursos humanos especializados e para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas que poderão ter aplicações civis no futuro.
 
Rumo à Marinha do futuro
Com seu desempenho comprovado em exercícios sucessivos, integração bem-sucedida com plataformas navais de diferentes portes e reconhecimento internacional expresso pela participação em eventos como o ARAMUSS, o VSNT consolida-se como um dos projetos mais bem-sucedidos da defesa brasileira recente.

"Com autonomia, precisão e inteligência, o LAUV Triton simboliza a evolução da guerra de minas e o compromisso da Marinha com a inovação tecnológica. A Marinha do futuro começa aqui", declarou o Capitão de Corveta Emerson Coelho Mendonça durante o ARAMUSS 2025. A mesma afirmação poderia ser feita sobre o VSNT.

De um investimento inicial modesto de R$ 23 mil a uma plataforma operacional capaz de realizar missões complexas de forma autônoma, o VSNT demonstra que inovação não depende necessariamente de orçamentos astronômicos, mas de visão estratégica, competência técnica e perseverança.

Enquanto o programa avança rumo à operação em enxame e à expansão de sua família de plataformas, o VSNT já cumpriu uma missão fundamental: provar que o Brasil tem capacidade técnica e científica para desenvolver sistemas autônomos de defesa no mais alto nível internacional, protegendo a Amazônia Azul, os 4,5 milhões de quilômetros quadrados de área marítima sob jurisdição brasileira, com tecnologia genuinamente nacional.

A revolução silenciosa da guerra naval já começou. E, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, ela fala português.

29 junho, 2022

Marinha apresenta projeto de veículo não tripulado


*Agência Marinha de Notícias, via ABIMDE - 28/06/2022

O Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), da Marinha do Brasil (MB), desenvolve diversas atividades na área científico-tecnológica. Entre elas está o Projeto VSNT-E (Veículo de Superfície Não Tripulado – Experimental), que consiste no incremento e no monitoramento das fiscalizações na Amazônia Azul, além de contribuir com pesquisas desenvolvidas nas principais universidades do Brasil.

A tecnologia de veículos não tripulados, sejam aéreos, de superfície ou submarinos está cada vez mais presente nas atividades que envolvem risco, repetição ou ambientes adversos de operação. Isso não se resume apenas a atividades voltadas para a área de defesa, mas também a setores civis como a indústria offshore, transporte e logística de bens, localização de objetos no fundo do mar e levantamentos batimétricos.

Nesse contexto, a MB realizou, em 2021, a conversão da lancha URCA-III em um VSNT-E (foto). A iniciativa levou em consideração dois fatores principais: o crescimento exponencial e a nível mundial do surgimento de novos Sistemas Marítimos Não-Tripulados (SMNT) e a disponibilidade de uma moderna embarcação de pesquisas, a URCA-III.

Com o veículo de superfície experimental, a Marinha estimula o desenvolvimento tecnológico no segmento de sistemas não tripulados com elevada relação custo-benefício, conforme explica o Encarregado na Divisão de Modelagem e Simulação do CASNAV, Capitão de Mar e Guerra Cláudio Coreixas de Moraes. “Suas principais vantagens são, primeiramente, a não exposição da vida de operadores a riscos inerentes a determinadas regiões de operação, como por exemplo, em operações de varredura de minas. Outra vantagem é reduzir custo da operação e a complexidade da logística atrelada. Por último, expandir a capacidade de sensores para aplicação no SisGAAZ (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul)”.

Após a instalação de uma série de sistemas eletrônicos, a embarcação encontra-se apta à operação remota. A tecnologia foi apresentada para universidades e diversas outras Organizações Militares que já demonstraram interesses operacionais no projeto, conforme destaca o Capitão de Mar e Guerra Coreixas. “Como exemplos, a Diretoria de Hidrografia e Navegação poderá viabilizar levantamentos hidrográficos empregando veículos não tripulados e a Esquadra poderá empregar a tecnologia para realizar exercícios operativos. Esses são só alguns exemplos das potencialidades desse novo sistema”.

Além do emprego militar, há o interesse de universidades parceiras como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade de São Paulo (USP). Para o professor da UFF Esteban Walter Gonzalez Clua, a participação da Marinha, em projetos de veículos autômatos e marítimos, é de extrema importância. “Em primeiro lugar, a Marinha conhece, mais do que ninguém, todos os procedimentos de navegabilidade, principalmente na região muito movimentada como a Baía de Guanabara. Em segundo, a Marinha tem acesso a uma quantidade enorme de informações estratégicas que para a navegação se tornam fundamentais. E por fim, a Marinha traz consigo uma série de demandas importantes, nas quais esses veículos podem ser usados e aplicados, principalmente aqui na universidade”, destacou.

Já para o Coordenador Executivo do LabOceano da UFRJ, Paulo de Tarso Themistocles Esperança, a cooperação entre Universidades e Centros de Pesquisa da Marinha também é fator fundamental para o desenvolvimento de tecnologia autônoma, em especial na área de Veículos Não Tripulados, usualmente cercada por rígidos protocolos de confidencialidade. “Existem diversas pesquisas em nível de mestrado e doutorado nos cursos da COPPE/UFRJ sendo desenvolvidas por oficiais da Marinha do Brasil. Dentre estas, posso citar especificamente a pesquisa de Doutorado que se encontra em sua fase final, que busca avaliar a influência dos efeitos de superfície livre na manobrabilidade de embarcações submersas”, ressaltou o professor.

Nesse contexto, o Centro Tecnológico da Marinha, no Rio de Janeiro, abriu a possibilidade de que pesquisas aplicadas de pós-graduação, geridas por centros de excelência, possam ser realizadas no VSNT-E. Com tantas demandas, o VSNT-E já foi empregado este ano em operações da Esquadra, como  “Aspirantex” e “Poseidon”, e prossegue em estudo pelo CASNAV e pelo Instituto de Pesquisas da Marinha, podendo em breve ser expandido.


 

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