*LRCA Defense Consulting - 31/10/2026 - 17h21
Quatro meses depois de assumir a presidência da Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), o general de divisão da reserva Flavio Mayon Ferreira Neiva conduz uma estatal que tenta ampliar sua presença para além dos armamentos tradicionais. Desde julho, a empresa avançou no licenciamento para fabricar o rádio RDS Defesa V4, reorganizou seu portfólio de pistolas, divulgou sua estratégia de longo prazo e firmou, em Abu Dhabi, uma carta de intenções com o EDGE Group, o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos e o Estado-Maior do Exército. Nenhuma dessas frentes, porém, resultou até agora em contrato de produção anunciado publicamente. A primeira grande vitrine da nova gestão será a 9ª Mostra BID Brasil, de 24 a 26 de novembro, em Brasília.
Neiva tomou posse em 1º de julho, no Quartel-General do Exército, em cerimônia presidida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general de exército Marcos Antonio Amaro dos Santos, e sucedeu o general de divisão Ricardo Rodrigues Canhaci. Na mesma ocasião, o general de divisão da reserva Alexandre de Almeida Porto assumiu a vice-presidência executiva, e a empresa expôs produtos e projetos em desenvolvimento, uma amostra da carteira tecnológica recebida pela nova administração.
O que mudou desde julho
O avanço mais concreto ocorreu nas comunicações táticas. Em agosto, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) confirmou que está em andamento o licenciamento para que a Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica (FMCE), da IMBEL, fabrique o RDS Defesa V4, rádio veicular definido por software do projeto RDS-Rondon Defesa. O equipamento ainda estava em avaliação no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), com conclusão prevista para o segundo semestre, e não há, até o momento, contrato público de produção, lote ou cronograma de entregas.
O V4 não se confunde com a família de transceptores multibanda TRC-1222, conhecida como rádio Rondon e desenvolvida pela própria IMBEL desde 2013. A versão portátil do Rondon já é produzida em série; as versões manpack e veicular seguem em desenvolvimento conjunto com o CTEx, com previsão de conclusão da primeira em 2027. Desde 2023, as duas frentes estão reunidas no mesmo programa, o que permite convergência de formas de onda e de criptografia entre os escalões táticos.
No armamento leve, a IMBEL levou à COP International, em agosto, a pistola de 9 mm com sistema de percussor lançado (striker-fired). Segundo o diretor de Inovação, Thiers Lobo Ribeiro, a arma permanecia em testes, com expectativa de conclusão das avaliações pelo Exército ainda em 2026. Em setembro, a empresa anunciou a descontinuação da produção e venda de determinados modelos de pistolas, com comercialização dos estoques remanescentes e manutenção das garantias e do fornecimento de peças, medida apresentada como reorganização do portfólio e adequação da capacidade produtiva. No mesmo período, disponibilizou sua estratégia de longo prazo 2023-2027, cujo propósito declarado é conciliar viabilidade econômica, capacidade produtiva e atendimento das demandas estratégicas.
A iniciativa de maior alcance potencial veio em 13 de outubro, quando o EDGE Group anunciou a assinatura, em Abu Dhabi, de carta de intenções com o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Exército Brasileiro, representado pelo Estado-Maior do Exército, e a IMBEL. Pelo desenho do instrumento, o ministério emiradense responde pela dimensão governamental e bilateral; o Exército, pelos requisitos operacionais e pelas prioridades de modernização; a IMBEL, pela capacidade industrial brasileira; e o EDGE, por seu portfólio e sua presença industrial no País. A comunicação oficial não menciona contratos, valores, linhas de produção ou transferência de tecnologia.
A aproximação tem antecedentes. Rádios da IMBEL já haviam sido integrados a um sistema de comunicações seguras oferecido pelo EDGE e pela SIATT ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). O acordo também se soma à crescente presença do grupo emiradense no Brasil, que inclui participação de 50% na SIATT, de 51% na Condor e de 100% na Akaer, esta última concluída em setembro.
A carteira herdada
Parte relevante do portfólio atual foi construída na gestão anterior. Na cerimônia de julho, a IMBEL apresentou espoletas para o canhão de 90 mm, munições de artilharia de 105 e 155 mm e de morteiro de 120 mm, munição de exercício de 105 mm para os carros de combate Leopard e M-60 e grãos propelentes para míssil anticarro. Na linha leve, mostrou o fuzil de assalto IA2 de 7,62 mm, um fuzil de precisão calibre .308, versões de treinamento da plataforma IA2 e um conversor para calibre .22.
Nas comunicações, a empresa iniciou em abril a instalação de sistemas de comando e controle em viaturas da 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, depois de entregar, no fim de 2025, rádios TRC-1193V MALLET; o trabalho incluiu integração dos equipamentos e capacitação de militares. A meta anunciada é equipar outras 420 viaturas Guaicurus, em articulação com a Diretoria de Fabricação do Exército. Em junho, ainda sob Canhaci, a IMBEL renovou com a Safran, durante a Eurosatory, memorando de entendimento para cooperação em sistemas de controle e direção de tiro para a artilharia de campanha e em iniciativas comerciais.
A base fabril recebida por Neiva reúne cinco unidades, entre elas a nova planta de carregamento de munições da Fábrica de Juiz de Fora, apresentada em 2025 como entrega estratégica da administração anterior.
Um gestor do ciclo de aquisição
Neiva chega à IMBEL com trajetória concentrada em logística e financiamento de defesa. Foi subcomandante logístico do Exército de agosto de 2023 a abril de 2026, depois de chefiar o Centro de Operações Logísticas. Entre 2019 e 2021, dirigiu o Departamento de Financiamentos e Economia de Defesa do Ministério da Defesa e, entre 2013 e 2015, chefiou o escritório brasileiro de ligação para aquisições pelo programa norte-americano Foreign Military Sales (FMS). Também dirigiu a Diretoria de Abastecimento, chefiou a Assessoria Parlamentar do Gabinete do Comandante do Exército e foi instrutor da AMAN, do Instituto Militar de Engenharia, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e da Escola de Material Bélico.
É um perfil que conhece por dentro as duas pontas do negócio da IMBEL: o Exército como cliente, com seus ciclos de aquisição e sustentação, e o orçamento de defesa como fonte de recursos. Para uma estatal que precisa conciliar demanda militar, investimento industrial e sustentabilidade econômica, a combinação é pertinente, embora as prioridades específicas da nova gestão ainda não tenham sido detalhadas publicamente.
O teste de novembro
Em entrevista ao ABIMDE Cast, repercutida pela LRCA em outubro, a tenente-coronel Marília Vilas Boas, assessora de Relações Institucionais da IMBEL, relatou interesse estrangeiro por explosivos e propelentes da empresa, sinal de oportunidade de mercado que ainda precisa se converter em contratos.
A Mostra BID Brasil será a primeira ocasião em que a nova direção poderá exibir, de forma organizada, o que avançou desde julho. Os indicadores a observar são objetivos: a homologação da pistola striker-fired, a assinatura do contrato de fabricação do RDS Defesa V4, os primeiros desdobramentos práticos da carta com o EDGE e eventuais encomendas externas de explosivos e propelentes. Serão esses marcos, mais do que a carteira de projetos, que permitirão medir o início da gestão de Flavio Neiva.








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