Comunicado oficial confirma as quatro organizações na Carta de Intenções, vincula o entendimento à Força Terrestre 40 e prevê discussões sobre modernização militar, desenvolvimento industrial e transferência de tecnologia
O EDGE Group confirmou oficialmente que assinou, em Abu Dhabi, uma Carta de Intenções com o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Exército Brasileiro, representado pelo Estado-Maior do Exército (EME), e a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL). O instrumento orienta futuras iniciativas conjuntas nos campos militar, operacional, industrial, tecnológico, comercial e governamental. A cerimônia havia sido noticiada em setembro pela revista militar emiradense Al Jundi, que enfatizou a cooperação técnica, operacional e logística.
A confirmação, divulgada pelo EDGE em 13 de outubro, esclarece o papel formal das quatro organizações, anteriormente indicado pelo coronel da reserva Jetson Turquiello Machado da Silva, executivo de desenvolvimento de negócios do grupo para o Brasil e a América Latina. A fotografia oficial da assinatura também exibe os símbolos do Ministério da Defesa emiradense, do Exército, da IMBEL e do EDGE. A Carta de Intenções, contudo, não constitui, por si só, contrato de aquisição ou garantia de transferência de tecnologia. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.
Segundo o comunicado, o acordo se apoia no Acordo de Cooperação em Defesa Brasil–Emirados Árabes Unidos de 2014 e no acordo de 2019 sobre intercâmbio e proteção mútua de informações e materiais classificados. O propósito é orientar discussões para identificar soluções às necessidades do Exército Brasileiro, em alinhamento ao processo de transformação da Força Terrestre 40 e ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID).
Uma cooperação que já produziu iniciativas concretas
A aproximação entre o EDGE e instituições brasileiras antecede a nova Carta de Intenções. Em abril de 2026, o grupo anunciou uma iniciativa com o Exército para avaliação operacional dos armamentos CARACAL CAR 816, de 5,56 mm, e CSR50, de 12,7 mm, por unidades especializadas. A avaliação não representa, por si só, uma decisão de aquisição.
Em agosto, o EDGE e o Comando de Defesa Cibernética do Exército anunciaram a criação de um Centro de Excelência em Defesa Cibernética, com investimentos diretos das duas instituições e atividades previstas de capacitação, resposta a incidentes, pesquisa e desenvolvimento. Trata-se de iniciativa distinta, cuja vinculação à nova Carta de Intenções não foi anunciada.
IMBEL e EDGE: contribuições previstas à cooperação
O EDGE descreve papéis complementares para os participantes: o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos oferece a dimensão governamental e bilateral; o Exército Brasileiro apresenta necessidades operacionais e prioridades de modernização; a IMBEL contribui com capacidades industriais nacionais de defesa; e o EDGE disponibiliza seu portfólio integrado, experiência em sistemas e presença industrial crescente no Brasil. Essa divisão de contribuições explicita a dimensão industrial do entendimento, sem definir ainda projetos ou contratos.
Há antecedentes de integração tecnológica entre essas organizações. Em dezembro de 2024, o EDGE anunciou uma solução de comunicações seguras para o CENSIPAM, combinando dispositivo da KATIM, tecnologias da SIATT e rádios da IMBEL. O novo comunicado menciona transferência de tecnologia e programas conjuntos futuros como áreas de cooperação, mas não identifica sistemas selecionados, montantes de investimento, cronogramas, direitos de propriedade intelectual ou obrigações específicas de fabricação no Brasil.
Compromisso anunciado pela direção do EDGE
Hamad Al Marar, diretor-geral e CEO do EDGE Group, afirmou que o Brasil está construindo capacidades soberanas de defesa e que o grupo pretende contribuir para esse processo. Segundo o executivo, o EDGE colocará seu portfólio, seus engenheiros e sua presença industrial no Brasil a serviço da modernização do Exército e do fortalecimento duradouro da BID. Trata-se de um compromisso estratégico anunciado pela direção do conglomerado, cujo desdobramento em programas e contratos ainda dependerá de definições posteriores.
A iniciativa se insere em uma aproximação mais ampla. Em declaração conjunta durante o G20 de 2024, Brasil e Emirados Árabes Unidos destacaram a expansão dos vínculos em defesa e segurança. O EDGE vem ampliando sua atuação industrial no País, inclusive por meio da SIATT, da Akaer, da Condor e de outras iniciativas. Esses antecedentes ajudam a compreender o contexto do acordo, mas não significam que cada projeto anterior tenha sido incorporado à nova Carta de Intenções.
Próximas etapas e resultados esperados
O comunicado de 13 de outubro resolve a dúvida sobre os signatários, mas não detalha quais capacidades militares terão prioridade, quais sistemas serão avaliados, como ocorrerá eventual transferência de tecnologia ou se haverá financiamento e metas industriais. A Carta de Intenções estabelece uma direção de trabalho e diálogo; a execução dependerá de instrumentos e decisões subsequentes.
Para o Exército Brasileiro, a relevância do entendimento será medida pela transformação das intenções em capacidades operacionais verificáveis. Para a IMBEL e a BID, o resultado dependerá de oportunidades efetivas de engenharia, produção e absorção tecnológica. A declaração do CEO do EDGE sinaliza disposição de mobilizar recursos técnicos e industriais, mas os resultados concretos ainda precisarão ser demonstrados.


