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20 outubro, 2026

Cerimônia cancelada deixa contrato do ATMOS sem data e reabre impasse na Artilharia

Exército desmarca assinatura prevista para 27 de outubro sem explicar o motivo; lote inicial seria fabricado em Israel, e a eventual participação da Avibras ficaria restrita à fase seriada



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LRCA Defense Consulting - 20/10/2026 - 18h50

O Exército Brasileiro cancelou a cerimônia de assinatura do contrato do lote experimental do obuseiro autopropulsado Atmos 2000, de 155 mm, marcada para as 14h de 27 de outubro no Comando Logístico (Colog), em Brasília. O Comando do Exército confirmou a decisão nesta terça-feira (20) ao jornalista Marcelo Godoy, colunista do Estadão, sem informar o motivo nem indicar nova data. A suspensão da solenidade não equivale, por ora, à revogação da escolha do sistema nem ao encerramento do programa.

O recuo ocorre um dia depois de vir a público que a contratação voltaria a andar, destravada por um memorando de entendimento entre a Avibras Aeroco e a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, fabricante do Atmos. Escolhido pelo Exército em abril de 2024, o sistema integra um planejamento de 36 viaturas, com valor estimado em quase R$ 1 bilhão. O processo está parado há cerca de dois anos, período marcado pelo desacordo entre os governos brasileiro e israelense a respeito das operações militares de Israel em Gaza e da ação de colonos na Cisjordânia.

O que mudou entre 19 e 20 de outubro 
Na segunda-feira (19), a expectativa era de que o Colog formalizasse o contrato do lote inicial; o LRCA Defense Consulting registrou a previsão e examinou as possibilidades de integração industrial na fábrica da Avibras em Jacareí (SP). A confirmação do cancelamento, no dia seguinte, desfaz esse cronograma. Até o fechamento desta edição, não havia indicação pública de quando a assinatura poderá ocorrer.

A hipótese político-eleitoral 
Segundo a coluna de Godoy, havia receio de que a assinatura, marcada para dois dias após o segundo turno das eleições, fosse interpretada como um favorecimento aos empresários Joesley e Wesley Batista, que assumiram o controle da Avibras Aeroco por meio da Globe Investimentos. Como o contrato havia sido congelado por razões geopolíticas, sua retomada logo após a mudança de controle da fabricante tornou-se politicamente sensível. O Exército não apresentou essa explicação de forma oficial; trata-se de apuração jornalística, e não de causa confirmada.

A compra da Avibras pela Globe foi anunciada em 15 de outubro. Conforme o LRCA já informou, a operação preserva o controle acionário nacional da fabricante, que retomou a produção neste ano, após cerca de quatro anos de paralisação, e voltou a entregar material ao Exército em outubro. A Globe é uma holding de investimentos pessoais dos irmãos Batista e, segundo a comunicação da companhia, não integra a J&F S.A.

Participação da Avibras ainda é hipótese 
Antes do memorando, previa-se que o Atmos brasileiro utilizasse o chassi Tatra, o mesmo dos lançadores de foguetes e mísseis do sistema Astros, produzido pela Avibras, e que a montagem fosse feita no País. A nova apuração do Estadão indica um arranjo mais restrito: as duas viaturas do lote experimental seriam fabricadas em Israel. Somente após a avaliação desse lote poderia ser contratada a série de 34 unidades, fase em que a Avibras eventualmente entraria. Ainda segundo o jornal, a própria indústria brasileira estimava que sua fatia não passaria de 10% do valor do contrato.

O presidente da Avibras, Sami Hassuani, disse à coluna que a empresa analisa propostas de parceria de oito grupos, quatro brasileiros e quatro estrangeiros, e que o memorando com a AEL não significa que a fabricante participará desde o lote experimental.

Depois da assinatura do memorando, o Colog examinou aspectos jurídicos e técnicos e concluiu não haver impedimento para que a Avibras figure como subcontratada, desde que o contrato inicial não seja alterado. Trata-se de uma possibilidade contratual, não de uma encomenda industrial formalizada.

Uma aquisição em duas etapas 
O lote experimental serviria para avaliar as compensações comerciais e tecnológicas (offset), a cadeia logística e a integração do Atmos aos demais sistemas de artilharia do Exército, além de permitir nova comprovação de preços. A compra das 34 viaturas restantes dependeria desses resultados e de decisões contratuais posteriores. Para o primeiro contrato, a Força contava com recursos obtidos com base na Lei Complementar nº 235.

Impactos militares e industriais 
O Atmos combina um obuseiro de 155 mm/52 calibres com plataforma sobre rodas e recursos automatizados de navegação e pontaria. A mobilidade reduz o tempo de permanência em posição de tiro, atributo valioso diante da vigilância por drones e da ameaça de contrabateria, embora não dispense camuflagem, dispersão, defesa antidrone e integração a sensores e sistemas de comando e controle.

Para a Base Industrial de Defesa, o valor de uma eventual participação brasileira dependerá menos da montagem final e mais das competências efetivamente absorvidas: engenharia, componentes, manutenção, munições e suporte logístico. Com um teto estimado em 10% do valor contratual, essa absorção tende a ser limitada. A IMBEL foi apontada, em propostas examinadas anteriormente pelo LRCA, como possível participante da cadeia de munições de 155 mm, mas não há contrato público que defina suas obrigações.

O que está em jogo 

O cancelamento deixa sem data o início de uma aquisição relevante para modernizar os fogos de longo alcance do Exército e obriga a separar três questões: a escolha técnica do Atmos, a decisão político-administrativa de contratar e o alcance real da participação da indústria nacional. São dimensões ligadas, mas distintas.

O próximo passo decisivo será um posicionamento formal do Exército sobre o cronograma e a manutenção das condições contratuais. Havendo assinatura, caberá verificar quais contrapartidas e qual participação brasileira estarão, de fato, no papel.

09 agosto, 2026

Nova tecnologia do IME pode reforçar a capacidade de contrabateria da artilharia brasileira

Tecnologia desenvolvida inicialmente para localizar atiradores de elite é agora aplicada a um desafio mais complexo: identificar e localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes
 
Sensores acústicos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME

 
*LRCA Defense Consulting - 09/08/2026

O Instituto Militar de Engenharia (IME) está desenvolvendo um sistema destinado a localizar alvos de artilharia a partir do som produzido pelos disparos. A iniciativa ganhou uma dimensão prática durante o exercício Coxilha, realizado pela 3ª Artilharia Divisionária (AD/3), no Centro de Instrução Barão de São Borja (CIBSB), em Saicã, no Rio Grande do Sul. Integrantes do Instituto participaram da atividade para registrar o som de disparos reais de obuseiros de diferentes calibres e características, construindo uma base de dados que será utilizada no desenvolvimento e na validação dos algoritmos do sistema.
A escolha do exercício para essa etapa do projeto é particularmente significativa. O Coxilha reúne organizações de artilharia de campanha subordinadas diretamente à AD/3 e à 3ª Divisão de Exército (3ª DE) e representa uma etapa de adestramento da tropa. Para os pesquisadores, o ambiente ofereceu aquilo que um laboratório dificilmente consegue reproduzir integralmente: a assinatura acústica de sistemas de armas reais, empregados em condições reais de campo.
De uma pesquisa sobre atiradores de elite para a artilharia
Segundo o próprio IME, o projeto surgiu da capacidade científica e tecnológica acumulada pelo Instituto no Projeto Caçador, voltado à localização de atiradores de elite por meio da detecção e do processamento de ondas sonoras. A experiência adquirida nesse trabalho está sendo agora aplicada a um problema muito mais complexo: localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes.
A diferença de complexidade é relevante. No Projeto Caçador, o sistema precisava reconhecer e localizar a assinatura acústica de um disparo de arma de fogo. Na aplicação de artilharia, será necessário lidar com diferentes calibres, tipos de armamento, características de munição, distâncias, condições meteorológicas, relevo, ruídos ambientais e, potencialmente, múltiplos disparos em sequência ou simultâneos. O próprio IME destaca que a complexidade do novo sistema é significativamente maior.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
O campo de tiro como laboratório
A primeira etapa anunciada pelo Instituto é a obtenção de uma base de dados de sons de artilharia. Durante o Coxilha, uma equipe formada pelo Coronel Veterano PTTC Caetano, pelo SC Bomfim e pelos alunos do Curso de Formação Tenentes Chinelatto e Judá, da Seção de Ensino em Engenharia Elétrica, realizou a gravação dos disparos.
Os dados coletados terão três funções principais: permitir a detecção dos disparos, possibilitar sua classificação e fornecer informações para estimar a direção da origem do fogo. A etapa é fundamental porque um sistema baseado em processamento de sinais precisa ser treinado e validado com assinaturas acústicas representativas do ambiente em que será empregado.
A participação do IME também demonstra que o desenvolvimento já ultrapassou a esfera exclusivamente laboratorial. O sistema foi levado a um exercício de artilharia e apresentado às autoridades militares presentes, entre elas o comandante da 3ª DE, General de Divisão Marcus Alexandre Fernandes de Araujo, o comandante da AD/3, General de Brigada Alexsander Aquiles da Conceição, e outros oficiais-generais.
Uma demanda associada ao ASTROS-FOGOS
O IME informa que o projeto também surgiu dos desafios apresentados pelo Programa Estratégico ASTROS-FOGOS. A relação é importante porque o Exército reorganizou em 2026 sua arquitetura de programas estratégicos ligados aos fogos, reunindo sob o ASTROS-FOGOS diferentes capacidades de artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.
Em maio de 2026, esta Consultoria registrou a nova configuração do programa e destacou a integração entre iniciativas de fogos de longo alcance e a modernização da artilharia de campanha. A própria estrutura do ASTROS-FOGOS passa a funcionar como um guarda-chuva para capacidades distintas, mas complementares, relacionadas à produção e ao emprego de efeitos de fogo.
Nesse contexto, localizar rapidamente a origem de um disparo é parte essencial da capacidade de busca de alvos. Quanto menor o intervalo entre a detecção de um fogo inimigo e a determinação de sua posição, maior a possibilidade de responder antes que a unidade adversária se desloque ou execute novos disparos.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
A artilharia brasileira entra em uma nova fase digital
O desenvolvimento do sistema acústico ocorre paralelamente à digitalização da Artilharia de Campanha. Em junho de 2026, o Exército informou o início da implantação do Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha (SISDAC) no 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, Regimento Mallet. Segundo a Força, o sistema busca integrar sensores, comunicações, navegação e direção de tiro, reduzindo o tempo entre a identificação de um alvo e a execução do fogo.
O sistema acústico pode ser entendido como mais uma fonte de informação dentro dessa arquitetura. Em vez de produzir uma solução isolada, seu maior potencial está na possibilidade de fornecer dados para uma rede de busca de alvos que também utilize radares, SARP, observadores e outros sensores.
Uma capacidade passiva de localização
A localização acústica apresenta uma característica particularmente atraente no campo de batalha: é passiva. O sensor não precisa emitir energia eletromagnética para detectar o disparo, ficando assim "invisível" para os sensores inimigos. Ele simplesmente capta e processa o som produzido pela arma.
Essa característica pode complementar os radares de contrabateria. Enquanto o radar utiliza ondas eletromagnéticas para detectar e acompanhar projéteis, o sistema acústico trabalha com a assinatura sonora. Em uma arquitetura multissensor, os dois meios podem produzir informações diferentes sobre o mesmo evento e aumentar a robustez da busca de alvos.
Como o sistema pode localizar a origem do disparo
O princípio básico é a diferença de tempo com que o som chega aos diversos sensores de um arranjo. Como uma frente de onda sonora atinge primeiro os sensores mais próximos da direção de onde veio o disparo, a comparação entre os sinais permite estimar a direção de chegada, conhecida como DoA, Direction of Arrival.
A comparação das diferenças de tempo de chegada, ou TDoA, Time Difference of Arrival, pode então ser utilizada para calcular uma direção. Com informações de mais de um ponto de recepção, as direções podem ser cruzadas para estimar a posição da fonte. Outra possibilidade é combinar azimute e elevação com informações topográficas para obter uma provável coordenada de origem.
O IME possui experiência anterior com esse tipo de processamento. Pesquisas acadêmicas do Instituto trataram da localização acústica de disparos, da determinação da direção de tiro e da utilização de arranjos de microfones para processar sinais de armas de fogo. O projeto atual representa uma evolução dessa competência para um cenário de artilharia.
Uma capacidade já prevista pela doutrina
A localização pelo som não é uma capacidade estranha à doutrina do Exército Brasileiro. O Manual de Campanha EB70-MC-10.378, Bateria de Busca de Alvos, prevê o emprego de equipamentos acústicos para localizar armas inimigas de tiro indireto. O documento ressalta justamente o caráter passivo desse tipo de sensor.
O manual estabelece, como referência doutrinária, a detecção de morteiros de 120 mm ou maiores a até 12 quilômetros e de obuses de 105 mm ou maiores a até 16 quilômetros. Também prevê requisitos relativos à autonomia, ao posicionamento e ao tempo de entrada em operação. Esses números, entretanto, não devem ser confundidos com o desempenho do protótipo do IME, que ainda não teve seus resultados de alcance e precisão divulgados publicamente.

Equipe e equipamentos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som
que está sendo desenvolvido pelo IME
O interesse cresce com a experiência dos conflitos atuais
A guerra contemporânea reforçou a importância da busca de alvos e da sobrevivência das unidades de artilharia. A experiência da guerra russo-ucraniana, analisada em estudos do próprio Exército, mostra o crescente emprego de sensores e a necessidade de modernizar as baterias de busca de alvos para detectar peças de artilharia cada vez mais próximas do limite anterior da área de defesa.
Nesse ambiente, a rapidez para localizar quem atirou pode ser decisiva. Artilharia e lançadores precisam combinar mobilidade, dispersão, camuflagem e rapidez para evitar a resposta inimiga. Um sensor acústico passivo, distribuído e integrado a outros meios pode contribuir justamente para reduzir o tempo entre o disparo inimigo e a produção de uma informação útil para o comando.
Um projeto que ainda precisa vencer etapas
A apresentação do sistema pelo IME não significa que já exista uma solução operacional pronta. A fase de coleta de dados realizada no Coxilha é uma etapa fundamental do desenvolvimento, mas ainda será necessário validar os algoritmos, medir a precisão, avaliar o comportamento em diferentes condições ambientais e determinar o alcance efetivo do sistema.
Também não estão disponíveis publicamente informações suficientes para afirmar a arquitetura definitiva do protótipo mostrado nas imagens, o número e o tipo exato dos sensores, a forma como a posição será calculada ou se o sistema já está integrado a uma rede de comando e controle.
Essas informações serão decisivas para determinar se o projeto permanecerá como demonstrador tecnológico ou avançará para uma capacidade operacional passível de ser incorporada às unidades de busca de alvos do Exército e, eventualmente, industrializada pela Base Industrial de Defesa.
Da assinatura do tiro à resposta de fogo
O que o IME apresentou no exercício Coxilha é, portanto, mais do que um equipamento experimental. É uma tentativa de transformar uma assinatura física simples, o som produzido por um disparo, em informação militar útil: qual arma disparou, que tipo de disparo foi realizado e, principalmente, de onde veio o fogo.
A tecnologia parte de uma competência científica construída ao longo de anos, encontra uma demanda diretamente relacionada ao ASTROS-FOGOS e passa agora por uma etapa decisiva, a construção de uma base de dados obtida no próprio campo de tiro. Se os próximos testes demonstrarem precisão e alcance compatíveis com as necessidades operacionais, o Brasil poderá acrescentar uma nova camada nacional à sua arquitetura de busca de alvos: um sensor acústico passivo, potencialmente de menor custo e capaz de complementar radares e outros meios.
O que falta saber
O próximo passo para avaliar a maturidade do projeto será conhecer os resultados colhidos no exercício Coxilha. Entre as informações mais relevantes estão o alcance efetivamente obtido, a precisão da localização, o tempo necessário para gerar uma posição, a capacidade de distinguir diferentes tipos de armas e a possibilidade de operação em ambientes com vento e condições meteorológicas adversas, relevo irregular e múltiplos disparos.
Também será importante saber se o Exército já definiu requisitos específicos para a transformação do protótipo em sistema operacional e se existe previsão de participação da Base Industrial de Defesa na etapa seguinte.

26 junho, 2026

Imbel e KNDS assinam memorando para produzir munições de artilharia e de blindados no Brasil

Acordo foi firmado durante a Eurosatory 2026 e está ligado ao offset do Centauro II; Imbel também renovou parceria com a Safran, enquanto a KNDS vive reestruturação acionária que aproxima Alemanha e França

Registro da assinatura do memorando de entendimento entre Imbel e KNDS, durante a Eurosatory 2026
 
*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e o grupo franco-alemão KNDS assinaram, em 18 de junho, durante a Eurosatory 2026, um memorando de entendimento (MoU) para cooperação no setor de munições de artilharia e de blindados. O documento prevê o estudo das condições para a transferência ao Brasil de capacidades de produção de munições de 105mm, 155mm e 120mm, com apoio da Direction Générale de l’Armement (DGA), agência francesa de aquisições de defesa. No mesmo evento, a Imbel também renovou parceria com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil para sistemas de controle e direção de tiro de artilharia. As duas assinaturas ocorrem em paralelo a uma reestruturação acionária da própria KNDS, que prepara a entrada do governo alemão em seu capital e uma futura oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris.

Dois memorandos em uma mesma feira
Os dois memorandos foram assinados em dias consecutivos da feira. Segundo nota publicada pela própria Imbel, a renovação do acordo com a Safran ocorreu na quarta-feira, 17 de junho. Já a assinatura do MoU com a KNDS, na quinta-feira, 18 de junho, foi confirmada pela Adidância de Defesa da França no Brasil, que descreveu a iniciativa como parte da relação estratégica de defesa entre os dois países. Essa mesma formulação foi posteriormente replicada em publicações institucionais da própria KNDS e da conta diplomática francesa no Brasil, o que indica um texto padronizado, acordado entre as partes, para a divulgação pública do acordo.

O documento com a KNDS foi assinado pelo diretor-presidente da Imbel, general de divisão R1 Ricardo Rodrigues Canhaci. Segundo a Imbel, a parceria busca fortalecer a cooperação industrial entre as empresas e os dois países, e estudar as condições para a transferência de capacidades de produção de munições para o Brasil.

Já a renovação com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil, voltada à integração de sistemas de controle e direção de tiro para a Arma de Artilharia, com foco em apoio à promoção comercial e em ampliação de oportunidades no mercado internacional, foi firmada pelo CEO da Safran Eletrônica & Defesa Brasil, David Montmasson, e pelo mesmo general Canhaci. Segundo a Imbel, a cerimônia contou ainda com a presença dos diretores Comercial, de Inovação e Industrial da empresa brasileira, e do Sr. Benjamin Faget, vice-presidente de Sistemas Optrônicos da Safran Electronics & Defense.

Munições de 105mm, 155mm e 120mm
Para a Imbel, a parceria garantiria a transferência de tecnologia para a produção de munições de artilharia de 105mm e 155mm, em padrão Otan e com alcance estendido, além de munição de 120mm para carros de combate. Uma das capacidades pretendidas é a produção local, em padrão Nato/Otan, de munições dotadas da tecnologia base bleed, recurso que amplia em pelo menos um terço o alcance total do tiro.

Já para a KNDS, o acordo facilita a importação de componentes e matérias-primas do Brasil, com potencial, no longo prazo, para que munições com a marca da própria KNDS sejam fabricadas e exportadas a partir do território brasileiro. Entre os produtos do portfólio da empresa citados como referência estão a munição de 155mm de alcance estendido LU 211 BB e a nova munição cinética de 120mm SHARD.

O acordo visa tanto o mercado interno (Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais) quanto os mercados de exportação, que atualmente registram forte demanda por munições de artilharia modernas. Um dos antecedentes que pavimentaram a assinatura foi a inauguração, em 10 de julho de 2025, na unidade de Juiz de Fora (MG), de uma nova planta de carregamento de munições pesadas com maquinário atualizado, uma das cinco fábricas que compõem a estrutura da Imbel. A data precisa da inauguração é confirmada pelo próprio site institucional da Imbel; reportagens de terceiros chegaram a situar o episódio em setembro de 2025.

O nexo com o offset do Centauro II
A munição de 120mm para uso no blindado Centauro II é resultado do offset (compensação industrial) acordado após a aquisição da viatura blindada de combate de cavalaria média sobre rodas (VBC Cav) 8x8. Em um primeiro momento, devem ser incluídas munições de treinamento dos tipos HEAT-T e HESH-T, respectivamente, alto explosivo de carga oca e alto explosivo de carga moldada, ambas traçantes.

Chama atenção a cronologia do processo: o Exército Brasileiro ainda não assinou o contrato de aquisição do primeiro lote de blindados 8x8, estimado em sete exemplares, mas já trabalha para receber o offset da munição de 120mm. Atualmente, a Força opera apenas as duas unidades do lote de avaliação, entregues entre agosto e setembro de 2024. A previsão é de uma aquisição total de até 98 exemplares, com entregas planejadas entre 2028 e 2033.

Uma parceria renovada, outra inédita
Diferentemente do memorando com a KNDS, descrito pelas partes como uma nova etapa de cooperação, o MoU entre Imbel e Safran é a renovação de uma parceria de longa data. Há registro de memorandos anteriores entre as duas empresas firmados em 2017 e em dezembro de 2020, este último também assinado por David Montmasson, então diretor-geral da Safran Eletrônica & Defesa Brasil.

A relação foi novamente renovada em dezembro de 2024, durante a 8ª Mostra BID Brasil, com a assinatura dos mesmos representantes que voltaram a firmar o acordo na Eurosatory 2026: Montmasson e o general Canhaci. Entre os resultados já colhidos dessa cooperação está a integração do sistema Gênesis de artilharia, da Imbel, a sensores e equipamentos óticos e inerciais da Safran, usada inclusive em viaturas blindadas Guarani e Cascavel.

IMBEL e Safran

Confirmações institucionais convergentes
A assinatura do MoU com a KNDS foi confirmada, com o mesmo texto padronizado, em pelo menos três canais distintos: a conta institucional da Adidância de Defesa da França no Brasil no Instagram, a página da KNDS France no LinkedIn e a cobertura jornalística especializada. Em sua publicação, a KNDS descreveu o acordo como mais uma ilustração de seu compromisso em construir parcerias de longo prazo com aliados e parceiros estratégicos, enquadrando a cooperação brasileira dentro de uma estratégia global da companhia.

Até a conclusão desta reportagem, o site institucional da Imbel havia publicado nota própria e detalhada sobre a renovação com a Safran, mas nenhuma nota equivalente sobre o conteúdo técnico do MoU com a KNDS. A própria KNDS também não havia detalhado o acordo em seus canais corporativos além da publicação padronizada no LinkedIn, o que reforça o caráter ainda preliminar do memorando, que tem natureza de intenção, não de contrato vinculante.

O pano de fundo: a reestruturação acionária da KNDS
O MoU com a Imbel foi assinado num momento de transformação societária da própria KNDS. Em 22 de junho, os governos da Alemanha e da França anunciaram acordo para que Berlim adquira uma participação de 40% na empresa, hoje detida em 50% pelo Estado francês e em 50% pela família alemã controladora da antiga Krauss-Maffei Wegmann (KMW), cuja saída planejada abriu espaço para a entrada do governo alemão.

Segundo apurou a agência Reuters, a operação avalia a KNDS entre 15 bilhões e 18 bilhões de euros, e a Alemanha também busca obter uma “ação de ouro” na unidade alemã da empresa, o que lhe daria influência ampliada sobre decisões de pessoal e estratégicas, garantindo equilíbrio de poder entre Paris e Berlim. O acordo abre caminho para uma oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris, na qual, segundo o CEO da KNDS, Jean-Paul Alary, os acionistas privados venderão 20% do capital, enquanto os Estados francês e alemão deterão 40% cada um.

A movimentação ocorre poucos dias depois de Berlim e Paris cancelarem oficialmente o programa conjunto do caça de nova geração FCAS, por divergências sobre divisão de trabalho e propriedade intelectual entre as empresas dos dois países. O contraste é relevante: enquanto um programa bilateral de defesa colapsa, a cooperação industrial entre os dois países se reorganiza por outra via, a da própria estrutura acionária da KNDS, que se posiciona como uma das principais referências globais do setor de defesa terrestre.

Notas da editoria
O memorando de entendimento entre Imbel e KNDS é, por definição, um instrumento não vinculante. As próprias partes descrevem o objetivo como “estudar as condições” para a transferência de capacidades de produção, não como o início efetivo dessa transferência. Esta editoria tratará eventuais avanços contratuais, prazos e valores como fatos novos, a serem apurados separadamente.

A reestruturação acionária da KNDS é um processo institucional em andamento, sem relação contratual direta com o MoU brasileiro; sua menção tem caráter de contexto, para situar o momento em que a cooperação com o Brasil foi firmada.

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