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29 maio, 2026

ALADA abre a era comercial dos centros de lançamento brasileiros

Em menos de seis meses de operação efetiva, a empresa pública firmou três acordos que transformam Alcântara e Barreira do Inferno em ativos do mercado aeroespacial global e reduzem a pressão sobre o orçamento da União
 


*LRCA Defense Consulting - 29/05/2026

A Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil (ALADA) consolidou, em três atos sucessivos, o arcabouço contratual que permitirá ao Brasil explorar comercialmente sua infraestrutura de lançamento espacial. O mais recente, assinado em Brasília em 28 de maio de 2026 pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e pela própria empresa, autoriza a ALADA a comercializar os dois centros de lançamento do Comando da Aeronáutica (COMAER), o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, e o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Natal (RN), junto a operadores espaciais privados nacionais e internacionais.
A cerimônia contou com a presença do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, e do Alto-Comando, e foi formalizada pelo Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, e pelo Diretor-Presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida.
De acordo fundacional a contrato operacional
A trajetória institucional que culminou no acordo de 28 de maio teve início em novembro de 2025. No dia 26 daquele mês, na sede do COMAER em Brasília, a ALADA assinou um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o próprio COMAER e com a Agência Espacial Brasileira (AEB), válido por cinco anos e prorrogável por igual período. O instrumento definiu as atribuições das três entidades tanto na fase de implantação quanto na de operação de lançamentos realizados por agentes privados nos centros brasileiros. Para o então Diretor do DCTA, Tenente-Brigadeiro Ricardo Augusto Fonseca Neubert, o acordo marcou uma virada na abordagem do setor: ao invés de operar sozinha, a Força Aérea passaria a contar com um parceiro dotado de agilidade empresarial e personalidade jurídica de direito privado.
O Presidente da AEB, Marco Antonio Chamon, saudou o ACT como um passo para a transição a uma exploração econômica das atividades espaciais. Chamon destacou que a parceria ampliaria o uso das infraestruturas públicas por agentes econômicos privados e promoveria, em especial, o uso comercial dos centros de lançamento. O Presidente da ALADA, por sua vez, definiu o documento como a "certidão de nascimento formal" da empresa enquanto nova catalisadora do Programa Espacial Brasileiro (PEB), ressaltando que ela foi concebida para unir o poder do Estado com a eficiência do setor privado.
Primeiro contrato operacional: o CLBI e a parceria com a França
Menos de três meses após o ACT, em 4 de fevereiro de 2026, o DCTA e a ALADA assinaram o primeiro contrato administrativo concreto da empresa: a participação da ALADA na exploração econômica da infraestrutura espacial do CLBI. O acordo, com vigência inicial de cinco anos e possibilidade de prorrogação por até dez, insere-se no âmbito do Protocolo de Cooperação Internacional nº 01/CNES/2062, firmado entre o DCTA e o Centre National d'Études Spatiales (CNES) da França. O escopo envolve atividades de rastreio de veículos espaciais lançados a partir do Centro Espacial Guianês, em Kourou, por meio da Antena STELLA43 instalada no CLBI.
Pelo contrato, a ALADA ficou responsável pelo suporte administrativo, técnico-operacional e logístico ao CLBI, permanecendo com o DCTA a condução das atividades técnicas e de soberania. A empresa também assumiu a incumbência de adquirir bens e contratar serviços voltados à manutenção, modernização e ampliação da infraestrutura do Centro, com base em modelo econômico-financeiro que garante sustentabilidade e reinvestimento institucional. Todos os investimentos serão incorporados ao patrimônio da União ao término do contrato.
O tenente-brigadeiro Neubert classificou o instrumento como um passo estratégico que permite atrair recursos externos para a infraestrutura do CLBI e reduzir a pressão sobre o orçamento fiscal, consolidando o Brasil como agente relevante no mercado espacial global. Com mais de três mil lançamentos suborbitais realizados ao longo de sua história, o CLBI opera com inclinação orbital de 6º a 49º, alcançando cerca de 60% das órbitas comerciais.
O contrato de maio e a abertura de Alcântara ao mercado
O acordo assinado em 28 de maio de 2026 vai além do CLBI: ele habilita a ALADA a comercializar também o CLA, situado próximo à linha do Equador, no Maranhão. A localização equatorial permite uma inclinação orbital de 2º a 110º, cobrindo 99% dos planos orbitais comerciais, e proporciona economia de até 30% no consumo de combustível em lançamentos geoestacionários, vantagem competitiva reconhecida internacionalmente.
O contrato preserva as atribuições da AEB e a soberania do COMAER sobre as instalações. Segundo o Tenente-Brigadeiro Bellintani, o instrumento representa um marco histórico, pois viabiliza que empresas privadas realizem lançamentos nos dois centros brasileiros com respaldo jurídico e operacional da ALADA. "O Brasil tem que aproveitar essa janela de oportunidade, mostrando todo o seu potencial logístico e as facilidades de localização dos nossos centros de lançamento. Muitas iniciativas ocorrem mundo afora e o Brasil tem que aproveitar essa oportunidade", declarou o general.
Para o Diretor-Presidente da ALADA, o contrato é a materialização do propósito que motivou a criação da empresa. "O objetivo básico é poder, efetivamente, explorar economicamente nosso centro de lançamento, viabilizando que ele possa se tornar cada vez mais operacional, com menos gastos de recursos do orçamento da União e da Força Aérea", afirmou Almeida. O dirigente ressaltou ainda que a ALADA passa a atuar como facilitador, permitindo que contratos sejam realizados diretamente com empresas interessadas em lançar do Brasil.
Base legal e modelo de negócio
A estrutura contratual da ALADA assenta-se em dois pilares legislativos. A Lei nº 14.946/2024, conhecida como Lei Geral das Atividades Espaciais, autoriza a União a realizar a exploração econômica da infraestrutura e das atividades espaciais. A Lei nº 15.083/2025 criou a ALADA como subsidiária da NAV Brasil, empresa pública vinculada ao Ministério da Defesa responsável pelos serviços de navegação aérea no espaço aéreo brasileiro, conferindo-lhe personalidade jurídica de direito privado e objeto social voltado à exploração econômica das infraestruturas aeroespaciais do país.
O modelo prevê que os recursos obtidos pela exploração comercial sejam reinvestidos no próprio programa espacial, rompendo com o regime anterior em que toda receita era recolhida ao Tesouro Nacional. A empresa foi criada no dia 2 de janeiro de 2025 e tem como eixos estratégicos o serviço de lançamento espacial, o gerenciamento de projetos aeroespaciais e a comercialização de produtos e serviços aeroespaciais.
Mercado e perspectivas
O setor espacial global movimenta hoje cerca de meio trilhão de dólares por ano, com projeções de alcançar dois trilhões de dólares na próxima década. O interesse de operadores privados internacionais já se manifesta concretamente no CLA: a empresa alemã Innospace injetou R$ 50 milhões na região de Alcântara em apenas três meses de operações iniciais, segundo dados divulgados pelo próprio Comandante da Aeronáutica em março de 2025.
A estabilidade geopolítica, climática e geológica do Brasil, aliada à ausência de furacões, tornados, terremotos e vulcões, é apontada pela ALADA como fator adicional de atratividade para operadores internacionais. A perspectiva é que os contratos comerciais a serem firmados sob o novo marco ajudem a financiar a modernização das instalações, reduzindo a dependência orçamentária do Comando da Aeronáutica e impulsionando a Base Industrial de Defesa no segmento espacial.
 
Linha do tempo: ALADA e os centros de lançamento
Jan/2025: ALADA criada como subsidiária da NAV Brasil (Lei nº 15.083/2025).
26/nov/2025: Acordo de Cooperação Técnica (ACT) assinado entre ALADA, COMAER e AEB — marco fundacional da empresa.
4/fev/2026: primeiro contrato administrativo: DCTA + ALADA para exploração do CLBI (Natal/RN), vinculado à parceria com o CNES francês. Vigência: 5 anos, prorrogável por mais 5.
28/mai/2026: contrato de parceria estratégica: DCTA + ALADA para exploração comercial dos dois centros de lançamento — CLA (Alcântara/MA) e CLBI.
 

09 maio, 2026

Brasil consolida nova camada de governança espacial: empresas alcançam nível Ouro e Selo PEB no Catálogo da AEB

Iniciativa da Agência Espacial Brasileira reconhece formalmente as empresas mais engajadas com o Programa Espacial Brasileiro e sinaliza maturidade crescente do setor



*LRCA Defense Consulting - 09/05/2026

A indústria espacial brasileira vive um momento de estruturação sem precedentes. A Agência Espacial Brasileira (AEB) consolidou, por meio de seu Catálogo da Indústria Espacial Brasileira, plataforma online disponível em spaceindustry.aeb.gov.br, um sistema de reconhecimento em três níveis que hierarquiza, de forma transparente e exigente, as empresas que integram o ecossistema espacial nacional. No topo dessa hierarquia está a Categoria Ouro, distinção reservada às companhias que demonstram o mais alto grau de envolvimento, documentação e comprometimento com o setor.

O que é o nível de governança Ouro
Para alcançar a Categoria Ouro, as empresas precisam cumprir um conjunto rigoroso de requisitos: completar todos os campos do perfil da empresa na plataforma, realizar uma apresentação, presencial ou online, à equipe da CEN (Coordenação de Engenharia e Negócios da AEB) detalhando seus projetos e atividades, e fornecer documentos comprobatórios dos produtos e serviços informados. Em contrapartida, as empresas Ouro passam a ter acesso a benefícios exclusivos, como participação como convidadas na delegação da AEB em eventos nacionais e internacionais, acesso gratuito a eventos da Agência, convites para reuniões e discussões temáticas, e possibilidade de apoio institucional para participação em feiras e conferências.

Trata-se, portanto, de muito mais do que um cadastro: é um vínculo ativo e verificado entre a empresa e o Programa Espacial Brasileiro (PEB). Enquanto o nível Bronze exige apenas a inclusão na lista de e-mails da AEB e o envio de banner e logotipo, e o nível Prata demanda o preenchimento de campos obrigatórios do perfil, o Ouro representa uma auditoria informal, com apresentação de evidências concretas de atuação no setor.

O Selo PEB: compromisso com a missão nacional
Além dos três níveis de categoria, o catálogo prevê uma distinção adicional e ainda mais seletiva: o Selo do Programa Espacial Brasileiro (Selo PEB). Esse reconhecimento é concedido às empresas que tenham prestado serviços ou produtos de relevância para o Programa Espacial Brasileiro ou que possuam acordos e parcerias com instituições públicas do governo federal. Para solicitá-lo, a empresa deve enviar documentação ao presidente da AEB, que analisa o pedido pessoalmente.

O Selo PEB é, portanto, um atestado de participação efetiva na construção do programa espacial do País, não apenas de presença no mercado.

As empresas confirmadas com Categoria Ouro
Com base na consulta direta ao catálogo oficial da AEB em maio de 2026, as seguintes empresas têm a Categoria Ouro confirmada:

Com Categoria Ouro e Selo PEB - mais alto nível de reconhecimento combinado:

  • AMS Kepler Espaço, Defesa e Sistemas (Rio de Janeiro/RJ): atua em observação da Terra e consciência situacional espacial;
  • CLC – Castro Leite Consultoria (São José dos Campos/SP): telecomunicações e aplicações integradas de segurança;
  • Concert Technologies S.A. (São Paulo/SP): observação da Terra e aplicações integradas;
  • CRON Sistemas e Tecnologias Ltda (São José dos Campos/SP): observação da Terra e navegação por satélite;
  • HorusEye Tech (São José dos Campos/SP): navegação, guiamento e controle no segmento NewSpace;
  • Legado Usinagem Ltda (São José dos Campos/SP): materiais, estruturas e mecanismos;
  • Mac Jee (São José dos Campos/SP): OEM de defesa e aeroespacial;
  • Visiona Tecnologia Espacial (São José dos Campos/SP): integradora de sistemas espaciais, atuando em observação da Terra e telecomunicações.

Com Categoria Ouro:

  • Bioflore (Belo Horizonte/MG): observação da Terra;
  • Bizu Tecnologias Aeroespaciais e Serviços Ltda (São José dos Campos/SP): materiais, transporte espacial e serviços de lançamento;
  • CShark (São Paulo/SP): filial latino-americana de empresa europeia especializada em miniaturização, integração e operação de pequenos satélites, incluindo plataformas para CubeSats e PocketQubes;
  • Hyperlift Aerospace & Defense Ltda (São Paulo/SP): desenvolvimento de soluções em propulsão supersônica e hipersônica, controle de atitude, propulsão híbrida e materiais aeroespaciais avançados;
  • Novaterra Soluções em Geoinformação (Rio de Janeiro/RJ): soluções baseadas em geotecnologias para meio ambiente, infraestrutura, cidades e agronegócio;
  • Outer Space Ltda (Joinville/SC): pesquisa e desenvolvimento em propulsão espacial e integração de sistemas para pequenos veículos lançadores;
  • Quasar Space (São Paulo/SP): serviços de monitoramento, previsão e planejamento estratégico com dados espaciais;
  • Safe on Orbit (Brasília/DF): consciência situacional espacial e prevenção de colisões em órbita;
  • Solved – Soluções em Geoinformação (Belém/PA): criação de software e soluções geoespaciais com sede na Amazônia brasileira;
  • Terraforma – Engenharia e Geotecnologia (Londrina/PR): GIS, sensoriamento remoto, cartografia digital e consultoria geoespacial, sediada no Parque Tecnológico da UTFPR.

 

Por que isso importa para o setor aeroespacial brasileiro
O Catálogo da Indústria Espacial da AEB foi criado para mapear, divulgar e conectar as empresas que atuam no setor espacial brasileiro, permitindo que as companhias do setor ganhem visibilidade nacional e internacional, atraiam novas oportunidades de negócio e façam parte de uma rede integrada que fortalece todo o ecossistema espacial do Brasil.

Nesse contexto, a existência de um grupo de empresas que conquistou a Categoria Ouro e, dentro desse grupo, aquelas que também detêm o Selo PEB, representa um avanço qualitativo importante. Pela primeira vez, o Brasil conta com um mapa verificado, público e continuamente atualizado de quem são seus atores industriais espaciais mais comprometidos.

A 2ª edição impressa do Catálogo da Indústria Espacial Brasileira, publicada em inglês e em português, já catalogou 65 empresas com concentração geográfica na região Centro-Sul do Brasil, mas a versão online, mais abrangente e dinâmica, vai além desse número e permite atualizações em tempo real.

A concentração das empresas Ouro em São José dos Campos, o Vale do Silício aeroespacial brasileiro, e em centros como São Paulo e Rio de Janeiro, revela onde está a espinha dorsal tecnológica do setor. O conjunto que combina Ouro e Selo PEB é ainda mais revelador: são empresas que não apenas operam no mercado espacial, mas que têm contratos, acordos e entregas concretas para o Estado brasileiro, fornecedoras reais do Programa Espacial Brasileiro.

O objetivo declarado da AEB com a plataforma é fortalecer a competitividade do setor espacial brasileiro, promovendo e apoiando a cadeia industrial espacial nacional, com atenção especial às micro, pequenas e médias empresas, tornando o catálogo um instrumento dinâmico para a promoção no exterior da indústria espacial brasileira.

Em um momento em que o Brasil celebra seus primeiros lançamentos comerciais em Alcântara e avança em programas como a Constelação Catarina, o reconhecimento formal das empresas que constroem esse ecossistema por dentro, com documentação, com histórico e com parceria institucional é mais do que simbólico. É a arquitetura de um setor que começa a se ver com clareza.

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