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24 outubro, 2026

Defender funções essenciais, não o mapa: o dilema antiaéreo de um país continental

A experiência da guerra na Ucrânia mostra que o Brasil não poderá proteger cada ponto do território e que a concentração de estruturas vitais junto ao litoral amplia a exposição a mísseis e sistemas não tripulados 


*LRCA Defense Consulting - 24/10/2026 - 07h56

A destruição de instalações militares e industriais em Taganrog, no sul da Rússia, no mês passado, voltou a expor um dos dilemas centrais da guerra contemporânea: nenhum país, por maior que seja sua capacidade militar, consegue manter uma defesa antiaérea densa sobre todo o seu território. Quanto mais extensa for a área a proteger e mais numerosos forem os objetivos estratégicos, maior será a necessidade de escolher prioridades.

Segundo informações divulgadas por fontes ucranianas e reproduzidas por analistas que acompanham a guerra, os ataques realizados em 07, 12 e 15 de setembro de 2026 atingiram instalações de produção e armazenamento da Atlant Aero, fabricante dos drones de ataque e reconhecimento Molniya e de componentes para o Orion, além de um depósito de combustível no aeródromo de Taganrog Severny. Relatos russos também atribuíram à operação a destruição de um Pantsir-S1 e afirmaram que a cidade teria ficado sem sistemas operacionais Pantsir e S-300/S-400.

Essa última afirmação ainda não foi confirmada de forma independente e deve ser tratada com cautela. O ponto estratégico, entretanto, permanece válido. A Atlant Aero tornou-se um alvo recorrente: a fábrica já havia sido atacada em janeiro pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e pela Marinha ucraniana e, em 19 de abril, por mísseis de cruzeiro Neptune, que destruíram dois prédios de produção e danificaram outros quatro, segundo o Estado-Maior ucraniano. Em junho, o grupo guerrilheiro Atesh alegou ter sabotado a subestação que abastecia a planta. A Ucrânia vem combinando ataques contra radares, lançadores e posições antiaéreas com operações posteriores contra refinarias, aeródromos, depósitos, centros logísticos e fábricas. Em vez de tentar atravessar indefinidamente uma defesa intacta, procura degradá-la, obrigá-la a se deslocar e criar corredores temporários para novos ataques.

A extensão territorial também pode ser uma vulnerabilidade 
A Rússia possui o maior território do mundo e uma das mais numerosas estruturas de defesa antiaérea. Mesmo assim, não consegue proteger simultaneamente a frente de combate, bases aéreas, instalações navais, refinarias, fábricas de armamentos, depósitos, centros logísticos e cidades localizadas a centenas ou milhares de quilômetros da Ucrânia.

A abundância de possíveis alvos favorece o atacante. Cada bateria deslocada para proteger uma refinaria deixa de cobrir outro objetivo. Cada radar que liga seus emissores melhora a vigilância, mas também pode revelar sua posição. Cada míssil de alto desempenho empregado contra um veículo aéreo não tripulado barato reduz um estoque difícil e demorado de repor.

Para o Brasil, a questão assume proporções semelhantes. O País possui cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, extensa fronteira terrestre, amplo litoral e infraestruturas críticas distribuídas por áreas muito afastadas. Usinas, refinarias, terminais de combustíveis, portos, aeroportos, bases militares, centros de comunicações e empresas da Base Industrial de Defesa formam uma rede impossível de cobrir continuamente com baterias de mísseis.

Um país continental com o poder concentrado junto ao litoral 

A extensão do território brasileiro pode transmitir uma percepção enganosa de profundidade estratégica. O País é continental, mas parcela expressiva de sua população, de sua economia e de suas infraestruturas está concentrada em corredores próximos ao Atlântico. Estudo publicado pelo Ipea, ao considerar uma faixa de 150 quilômetros a partir da linha de costa, apontou que os municípios nela situados reuniam aproximadamente 62,4% da população e do Produto Interno Bruto nacional em 2016.

A concentração é particularmente relevante no Sudeste. O eixo formado pelo Rio de Janeiro, por São Paulo e pela retaguarda industrial de Campinas e São José dos Campos reúne portos, refinarias, terminais petrolíferos, aeroportos, bases militares, centros de pesquisa, instalações nucleares, redes de comunicações e empresas da Base Industrial de Defesa. Outros agrupamentos importantes aparecem ao longo do litoral das regiões Sul, Nordeste e Norte.

A dependência marítima amplia a vulnerabilidade. Segundo a Marinha do Brasil, aproximadamente 95% do petróleo e 80% do gás natural produzidos no País são retirados do mar, enquanto mais de 95% do comércio exterior brasileiro utiliza rotas marítimas. Plataformas, terminais, navios, cabos submarinos e acessos portuários integram, portanto, o mesmo sistema que sustenta a infraestrutura instalada em terra.

O alcance começa muito além do horizonte 

A proximidade do litoral não deve ser entendida apenas como distância visual da costa. Armas lançadas por navios e submarinos podem atingir objetivos situados centenas de quilômetros no interior. O Tomahawk Block IV e V, empregado pela Marinha dos Estados Unidos, possui alcance divulgado de aproximadamente 1.600 quilômetros. O número não descreve uma ameaça específica ao Brasil, mas demonstra o alcance já disponível entre diferentes potências.

Uma força naval não precisaria aproximar seus meios mais valiosos da costa para ameaçar grande parte das concentrações brasileiras. Mísseis de cruzeiro podem voar em baixa altura, explorar o relevo e aproximar-se por rotas menos esperadas. A defesa passaria a exigir vigilância marítima e aeroespacial muito além do litoral, acompanhada da capacidade de localizar as plataformas lançadoras e de interceptar os vetores antes que alcancem as áreas densamente ocupadas.

O problema também existe na escala oposta. Pequenos sistemas não tripulados poderiam ser lançados de embarcações civis, contêineres, áreas urbanas ou propriedades próximas ao objetivo. Nesse caso, surgiriam abaixo do horizonte dos grandes radares ou já dentro do alcance mínimo de determinados sistemas de defesa. A ameaça de longo alcance e o ataque iniciado nas proximidades podem coexistir, obrigando o defensor a observar simultaneamente o mar distante e o entorno imediato de cada instalação.

Nem todos os objetivos estão na faixa costeira 

A litoralização não elimina a importância do interior. Brasília, Itaipu, grandes hidrelétricas, corredores de transmissão, aeródromos, instalações militares, centros logísticos e estruturas do SISFRON continuariam entre os objetivos prioritários. Alguns estariam fora do alcance de armas mais curtas, mas não necessariamente de drones e mísseis de cruzeiro modernos. A seleção das áreas a proteger teria de considerar alcance, rota, consequências da perda e possibilidade de recuperação, e não apenas a distância até o oceano.

Defesa antiaérea, defesa marítima e infraestrutura formam um único problema 
A concentração costeira torna insuficiente uma resposta limitada às baterias posicionadas ao redor dos alvos. A defesa deveria começar mar adentro, com inteligência, satélites, submarinos, navios, aeronaves de patrulha e sensores capazes de acompanhar atividades anormais na Amazônia Azul. Prosseguiria com alerta aéreo, caças e sistemas antiaéreos e terminaria junto às instalações, onde sensores locais, guerra eletrônica, canhões, metralhadoras, mísseis leves e interceptadores enfrentariam ameaças de baixa assinatura.

Essa integração também permitiria agir sobre a cadeia do ataque. Interceptar o míssil ou o sistema não tripulado é a última oportunidade. Antes dela, o País pode identificar a preparação, acompanhar a plataforma lançadora, desorganizar seus enlaces, alterar o posicionamento dos meios e dispersar os recursos que constituiriam os alvos. Quanto mais cedo ocorrer a detecção, maior será o número de respostas disponíveis.

O Brasil possui vigilância, mas ainda não tem todas as camadas 

A defesa aeroespacial brasileira não começa do zero. O Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro, coordenado pelo Comando de Operações Aeroespaciais, integra meios de detecção, comando, controle e emprego das Forças Armadas. A FAB dispõe de radares, aeronaves de alerta aéreo antecipado e caças, enquanto o Exército e a Marinha mantêm unidades e sistemas destinados à defesa antiaérea de forças e instalações.

O problema está na densidade, na distribuição e no alcance dos meios. O Exército possui sistemas de baixa altura, como o RBS 70 e o Gepard 1A2. Esses equipamentos conservam utilidade contra determinados alvos, sobretudo quando conectados a sensores externos e a uma estrutura eficiente de comando e controle. Entretanto, não constituem uma defesa nacional completa contra aeronaves, mísseis de cruzeiro, drones, munições vagantes e diferentes categorias de sistemas aéreos não tripulados.

A seleção do EMADS, com o míssil CAMM-ER, para o projeto brasileiro de defesa antiaérea de média altura e médio alcance representa um passo importante para preencher essa lacuna. Mesmo quando incorporado, porém, o novo sistema não formará uma cobertura contínua sobre o País. O número inicial de unidades deverá obrigar o planejamento a concentrá-las nos objetivos de maior importância militar e estratégica.

Na detecção, o radar nacional SABER M200 Vigilante, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e ainda em avaliação no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), identificou sistemas aéreos não tripulados de Categoria 0 a distâncias de até oito quilômetros durante o exercício Sagitta Primus 2026, resultado já destacado pelo portal LRCA Defense Consulting. É uma evolução relevante, mas também evidencia a complexidade do problema: o mesmo radar alcança cerca de 200 quilômetros contra aeronaves e mísseis. Pequenos aparelhos, com baixa assinatura e voando junto ao relevo ou em áreas urbanas, exigem uma malha de sensores muito mais próxima dos objetivos do que a necessária para acompanhar aeronaves convencionais.

Não se defende o mapa, defendem-se funções essenciais 

A resposta brasileira não deveria buscar uma cobertura homogênea do território. O primeiro passo seria elaborar uma lista dinâmica de objetivos cuja perda pudesse comprometer a continuidade da defesa, do governo, da economia ou dos serviços essenciais. O critério principal não seria apenas o valor físico da instalação, mas o efeito sistêmico provocado por sua interrupção.

Nesse nível estariam os centros de comando e controle, radares, bases aéreas e navais, depósitos de munição, instalações nucleares, refinarias, terminais de combustíveis, grandes subestações, centros de operação do sistema elétrico, portos e aeroportos essenciais, estações de comunicações, centros de dados e instalações da indústria de defesa. A localização e a proteção de rotas, pontes e entroncamentos logísticos também dependeriam do cenário de ameaça.

A campanha dos Houthis contra a Arábia Saudita, travada sobretudo entre 2015 e 2022, acrescenta uma distinção importante: um adversário não precisa conquistar superioridade aérea para produzir efeitos estratégicos. Ataques episódicos contra aeroportos, refinarias, portos e corredores logísticos podem obrigar o defensor a suspender operações, mobilizar recursos e modificar rotinas econômicas, mesmo quando grande parte dos vetores é interceptada. Por isso, penetração tática, interrupção operacional e sucesso estratégico não devem ser confundidos. Poucos impactos podem ser suficientes para paralisar uma função essencial.

A lista não poderia ser fixa. Em uma crise na Amazônia, determinados aeródromos, rios, centros logísticos e instalações do SISFRON ganhariam prioridade. Diante de uma ameaça pelo Atlântico, portos, bases navais, refinarias costeiras e instalações de vigilância marítima assumiriam maior importância. A defesa precisaria deslocar-se conforme a situação, preservando incerteza para o adversário.

Uma arquitetura brasileira contra sistemas não tripulados 

A defesa deveria começar por uma rede nacional de alerta, reunindo os radares das Forças Armadas, os sensores do SISFRON, a vigilância de aeroportos, a inteligência eletrônica, imagens de satélite e informações de órgãos civis. Essa visão comum teria de alimentar centros de comando capazes de identificar a ameaça, determinar o objetivo provável e escolher o meio de resposta adequado.

Ao redor dos pontos vitais seriam estabelecidas defesas locais em camadas. Os sistemas de médio alcance enfrentariam aeronaves, mísseis de cruzeiro e ameaças de maior desempenho. Armas de curto alcance, canhões, mísseis portáteis, sensores eletro-ópticos, bloqueadores, drones interceptadores e, futuramente, sistemas de energia dirigida formariam a camada contra alvos menores e mais numerosos.

A defesa em camadas também teria de acompanhar as forças em campanha. A experiência da 147ª Brigada de Artilharia ucraniana mostra a combinação de guerra eletrônica, drones interceptadores e torres de combate remotamente operadas para proteger posições de tiro, munições, logística e centros de comando. A presença desses diferentes meios não comprova, por si só, que estejam integrados a uma única cadeia de sensores e comando e controle, mas indica que brigadas de artilharia e outras grandes unidades precisarão dispor de proteção orgânica, móvel e compatível com seu ritmo de operação contra sistemas não tripulados.

A saturação como método 
A ofensiva ucraniana de 20 de setembro de 2026 acrescentou outra advertência. O ataque contra Moscou e diferentes regiões russas combinou mais de mil sistemas não tripulados com armas de outros perfis, entre elas o míssil de cruzeiro FP-5 Flamingo e o novo FP-7 Pelican, apresentado como míssil balístico. A refinaria de petróleo de Moscou foi atingida durante a operação. Embora o emprego dos novos armamentos tenha sido anunciado pelo governo ucraniano, a atribuição de cada impacto a um vetor específico ainda não pôde ser confirmada de maneira independente.

A operação demonstrou que uma defesa territorial pode ter de enfrentar simultaneamente aparelhos lentos e baratos, mísseis voando a baixa altura e vetores de trajetória balística, lançados em grande quantidade e por diferentes direções. Para o Brasil, essa combinação reforça a necessidade de integrar sensores e interceptadores de várias categorias. Nenhum sistema isolado possui capacidade ou munição suficiente para responder economicamente a todos esses alvos.

Ataques compostos por vetores de diferentes velocidades, assinaturas e perfis de voo não saturam apenas os lançadores. Eles pressionam toda a cadeia defensiva: detecção, acompanhamento, classificação, distribuição de alvos, escolha do armamento e autorização de fogo. Cada engajamento consome tempo, atenção, canais de controle e munição, enquanto uma classificação equivocada pode deixar o sistema mal posicionado diante do vetor seguinte. Por isso, a eficácia de uma defesa aérea não deve ser avaliada pela quantidade de disparos realizados, mas pela parcela do ataque que ela impede de alcançar funções essenciais.

A economia de combate seria decisiva, mas não poderia ser reduzida à comparação entre o preço do vetor atacante e o do interceptador. O cálculo precisaria considerar a probabilidade de neutralização, a disponibilidade dos sistemas, o pessoal necessário, a manutenção, o consumo de munição, os riscos para terceiros e o valor da função protegida.

Empregar um míssil caro pode ser racional para impedir a paralisação de uma refinaria, de um aeroporto ou de uma instalação nuclear. Contra ameaças menos complexas, entretanto, a interferência eletrônica, canhões com munição programável, drones interceptadores ou mísseis leves ofereceriam respostas mais sustentáveis. A defesa deveria empregar o recurso de menor custo que proporcionasse a confiabilidade exigida em cada situação, preservando os interceptadores mais sofisticados para os alvos que realmente os demandassem.



A defesa terminal como infraestrutura 

A experiência ucraniana aponta para a transformação da defesa terminal em infraestrutura permanente. Em outubro de 2026, o presidente Volodymyr Zelensky informou que mais de 12 módulos automatizados já haviam sido posicionados em Kiev e que outros oito, equipados com metralhadoras calibre .50, estavam sendo instalados na região da capital. Diferentemente dos grupos de fogo móveis, essas posições podem permanecer junto a pontes, subestações e outros objetivos previsíveis, prontas para reagir quando o ataque começa.

Essa característica ganha importância diante dos drones a jato, cuja velocidade reduz drasticamente o tempo disponível para detectar, classificar, acompanhar e engajar o alvo. Segundo o porta-voz da Força Aérea ucraniana, Yurii Ihnat, os módulos instalados em Kiev são do sistema Sky Sentinel, desenvolvido pela Carmine Sky, que utiliza visão computacional e inteligência artificial para detectar e acompanhar ameaças. A torre reconhece e segue o alvo sozinha, mas a autorização para abrir fogo permanece humana: o operador, que pode estar a centenas de quilômetros, confirma o disparo, subordinado ao comando da defesa aérea. Cada unidade custa cerca de US$ 150 mil, valor muito inferior ao de grande parte dos mísseis interceptadores, e estima-se que de 10 a 30 sistemas seriam necessários para proteger uma cidade.

Para o Brasil, determinados pontos críticos poderiam receber posições automatizadas permanentes, integradas a sensores locais e ao sistema de comando e controle. Elas não substituiriam unidades móveis, mísseis ou aeronaves, mas constituiriam uma camada terminal relativamente econômica para proteger instalações conhecidas e cuja perda produziria efeitos sistêmicos.

Essa arquitetura também necessitaria de unidades móveis de reserva. Em vez de distribuir permanentemente poucos meios por dezenas de pontos, o País poderia manter grupos capazes de reforçar rapidamente as áreas ameaçadas. Exercícios periódicos seriam essenciais para testar o deslocamento, a integração com autoridades civis e a defesa de instalações que normalmente não possuem presença militar.

Proteção passiva e capacidade de recuperação 

A experiência ucraniana mostra que a interceptação é apenas uma parte da defesa. Aeronaves expostas, grandes depósitos, tanques de combustível concentrados e centros de comando instalados em um único local transformam um impacto bem-sucedido em perda desproporcional.

O Brasil precisaria investir em dispersão, abrigos reforçados, compartimentação de estoques, redundância de comunicações, geradores, instalações alternativas e equipes treinadas para reparar rapidamente pistas, redes elétricas e sistemas de combustível. Camuflagem, controle das emissões eletromagnéticas, posições falsas e simulacros ajudariam a consumir munições inimigas e dificultar a seleção de alvos.

O objetivo realista não seria impedir todos os impactos, mas evitar que poucos deles paralisassem uma função essencial. Uma refinaria protegida, mas sem capacidade de combater incêndios e recuperar seus sistemas, continuaria vulnerável. Uma base aérea com mísseis antiaéreos, mas com aeronaves estacionadas sem abrigo e combustível concentrado, ainda ofereceria ao adversário uma oportunidade de alto valor. Os exercícios, portanto, não deveriam terminar com a interceptação simulada. Precisariam testar combate a incêndios, atendimento médico, avaliação de danos, reparos emergenciais, comunicações alternativas e a autoridade responsável por decidir quando uma instalação poderia retomar suas operações.

Uma nova indústria de proteção física 
Assim como a ameaça de mísseis estimulou a construção de abrigos reforçados, a disseminação dos drones poderá criar um mercado de estruturas leves, modulares e relativamente baratas, destinadas a cobrir áreas extensas e preservar os componentes mais vulneráveis de instalações militares e industriais. Redes, malhas, cabos, pórticos, ancoragens e módulos substituíveis após impactos precisariam combinar resistência, baixo peso, durabilidade e custo compatível com a área protegida.

Essas barreiras não substituiriam a defesa ativa. Poderiam deter ou desestabilizar determinados aparelhos, provocar a detonação antecipada da carga ou aumentar a distância entre a explosão e o equipamento protegido. Seu emprego exigiria critérios técnicos e ensaios contra diferentes massas, velocidades e ogivas, além de cuidados para não comprometer ventilação, manutenção, rotas de emergência e combate a incêndios. A defesa contra sistemas não tripulados poderá, dessa forma, modificar não apenas os arsenais, mas também a engenharia das infraestruturas críticas.

A Base Industrial de Defesa como parte da proteção 
Uma campanha prolongada consumiria radares, munições, componentes eletrônicos e interceptadores em grande escala. Por isso, a proteção do território dependeria tanto das unidades operacionais quanto da capacidade de fabricar e repor os meios utilizados.

O Brasil reúne competências importantes em radares, comunicações, aeronaves, mísseis, foguetes, veículos, munições, sistemas não tripulados, materiais e estruturas metálicas. O desafio é transformar projetos isolados em uma arquitetura integrada e em linhas de produção com escala. A aquisição externa pode preencher lacunas urgentes, mas deveria incorporar manutenção no País, estoques adequados, transferência de conhecimento e participação efetiva da indústria nacional.

A experiência ucraniana demonstra ainda a possibilidade de mobilizar empresas e recursos privados para ampliar a proteção local. A UNITED24 arrecadou US$ 3,3 milhões para adquirir 22 sistemas Sky Sentinel. Além disso, a Resolução nº 699, anunciada pelo governo ucraniano em 2 de março de 2026, permitiu que empresas de infraestrutura crítica formassem grupos próprios de defesa aérea, recebessem armas cedidas temporariamente pelas Forças Armadas e operassem sob o comando unificado da Força Aérea, desde que treinadas e certificadas pelo Ministério da Defesa. O modelo não pode ser automaticamente transplantado para o Brasil, mas evidencia que os proprietários de infraestruturas estratégicas poderão participar do financiamento e da manutenção de sua proteção, sob coordenação estatal.

Também será necessário reconhecer que a própria indústria se tornará alvo. Empresas responsáveis pela produção de radares, mísseis, munições e aeronaves precisarão de planos de continuidade, dispersão de componentes críticos, fornecedores alternativos, redundância no fornecimento de energia e algum grau de proteção antiaérea. Taganrog demonstra a lógica dessa escolha: atingir repetidamente a fábrica, ou a subestação que a alimenta, pode reduzir a ameaça futura sem enfrentar diretamente cada aparelho no campo de batalha.

A principal lição para o Brasil 

A guerra na Ucrânia não oferece um modelo pronto para ser copiado, mas apresenta um aviso claro. Um território continental pode proporcionar profundidade estratégica, dispersão e numerosas rotas de apoio. Ao mesmo tempo, multiplica os objetivos, alonga as distâncias e obriga o defensor a escolher o que proteger.

Para o Brasil, a resposta não estará em tentar cobrir cada quilômetro quadrado. Estará em identificar as funções vitais do País, conectar sensores e centros de decisão, criar camadas específicas contra sistemas não tripulados, combinar posições permanentes com reservas móveis, proteger passivamente as instalações e garantir capacidade industrial de reposição. Concebida dessa forma, a defesa antiaérea passa a ser uma rede de sobrevivência e continuidade, medida não pela quantidade de vetores abatidos, mas pela capacidade de preservar ou restabelecer rapidamente as funções essenciais do País.

Se o adversário não puder prever onde estarão os meios, não conseguir paralisar funções essenciais com poucos ataques e souber que cada perda poderá ser rapidamente reposta, a própria dificuldade de obter resultados estratégicos passará a constituir uma forma de dissuasão.

19 outubro, 2026

ATMOS avança com Avibras e abre nova etapa para a artilharia brasileira

Exército prevê contratar dois obuseiros em 27 de outubro; montagem em Jacareí e participação da IMBEL podem ampliar o conteúdo nacional de um programa de 36 viaturas



*LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 15h10

O Exército Brasileiro deverá assinar em 27 de outubro, no Comando Logístico (COLOG), em Brasília, o primeiro contrato relativo à aquisição do obuseiro autopropulsado ATMOS 2000, de 155 mm, desenvolvido pela israelense Elbit Systems. A etapa inicial abrange duas viaturas destinadas à avaliação e precede uma eventual contratação de outras 34 unidades. A data foi informada nesta segunda-feira (19) pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, e repercutida pelo portal Forças Terrestres. Até a publicação desta reportagem, portanto, a assinatura ainda era uma previsão.

A novidade não se limita à retomada de uma aquisição interrompida por divergências diplomáticas entre Brasil e Israel. A entrada da Avibras Aeroco no arranjo industrial, mediante memorando de entendimento com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit, cria a perspectiva de montagem das 36 viaturas em Jacareí (SP). A produção de munições de 155 mm também aparece nas informações divulgadas como uma frente de participação da IMBEL. O detalhamento das obrigações, contudo, dependerá dos instrumentos contratuais.

Da seleção técnica ao novo arranjo industrial 
O ATMOS foi selecionado em abril de 2024 no processo para obtenção de Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado Sobre Rodas (VBCOAP-SR). A contratação não avançou no ritmo inicialmente esperado, em meio à deterioração das relações políticas entre os governos brasileiro e israelense por causa da guerra na Faixa de Gaza.

A solução industrial que agora ganha contornos mais definidos não surgiu de improviso. O LRCA Defense Consulting registrou, em julho de 2026, tratativas entre Avibras, AEL e Elbit. Em 7 de setembro, detalhou a proposta de montagem nacional dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, submetida ao COLOG no fim de agosto. Segundo a apuração publicada por Godoy, a oferta vencedora já contemplava uma parceira nacional sem identificá-la nominalmente, circunstância que teria permitido incluir a Avibras sem alterar as condições essenciais da seleção.

A Avibras e o aproveitamento da experiência com o ASTROS 
A escolha de Jacareí apresenta coerência industrial. A Avibras possui experiência na integração de sistemas de artilharia, veículos especiais e plataformas da família Tatra empregadas no ASTROS. A configuração brasileira do ATMOS é associada, nas informações divulgadas, a um chassi Tatra, embora seus detalhes finais ainda dependam de confirmação contratual e técnica.

Em 15 de outubro, a Avibras anunciou a conclusão de sua aquisição pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista. A reorganização societária e a retomada das atividades industriais formam o contexto da nova oportunidade. A eventual montagem do ATMOS pode diversificar encomendas e preservar competências industriais, mas não equivale, por si só, à transferência integral de tecnologia ou à fabricação nacional de todos os componentes. 

ATMOS 2000

O papel estratégico da IMBEL 
A participação indicada para a IMBEL na produção de munições de 155 mm merece atenção própria. Para uma força terrestre, a disponibilidade de munições, sua qualificação, a capacidade de reposição e o domínio de processos produtivos são elementos essenciais da autonomia logística. Ainda não estão esclarecidos publicamente o escopo exato da produção, os tipos de munição abrangidos e o grau de nacionalização previsto.

Dois obuseiros agora, 34 em etapa posterior 
A assinatura prevista para 27 de outubro diz respeito somente ao lote inicial de duas viaturas. Segundo a apuração de Godoy, o passo seguinte dependerá da avaliação do equipamento, da análise das compensações industriais e tecnológicas (offset), da cadeia logística, da integração aos sistemas de artilharia do Exército e de nova comprovação de preços. A contratação das outras 34 unidades é apontada como possibilidade para 2027, não como obrigação já firmada.

As estimativas financeiras publicadas também exigem cautela: a reportagem atribuída a Godoy menciona aproximadamente R$ 800 milhões, enquanto o Forças Terrestres se refere a investimento total próximo de R$ 1 bilhão. Sem a documentação contratual definitiva, não é adequado tratar qualquer desses valores como preço final fechado.

Mobilidade e sobrevivência no combate moderno 
O ATMOS combina canhão de 155 mm com tubo de 52 calibres e plataforma sobre rodas, além de recursos automatizados de navegação, pontaria e operação. A mobilidade e a redução do tempo de permanência em posição de tiro são atributos particularmente relevantes diante da ameaça de drones de reconhecimento, munições vagantes e fogos de contrabateria. Isso não elimina a necessidade de camuflagem, dispersão, defesa antidrone, comunicações seguras e integração com sensores e sistemas de comando e controle.

Para o Exército, o ganho operacional dependerá menos da simples incorporação de uma peça moderna do que de sua inserção em uma arquitetura de fogos capaz de detectar alvos, transmitir dados, engajar e mudar rapidamente de posição. A nacionalização do suporte e das munições pode ser decisiva para sustentar essa capacidade ao longo do tempo.

O que ainda precisa ser confirmado 
A assinatura anunciada deverá esclarecer o cronograma de entregas, a divisão de trabalho entre Elbit, AEL e Avibras, a configuração das viaturas, as obrigações de suporte e os mecanismos de transferência de conhecimento. Também será importante verificar a extensão da participação da IMBEL e os critérios para a passagem do lote inicial à produção em série.

Se confirmada, a contratação encerrará uma fase de incerteza e abrirá outra, de execução industrial e validação operacional. Para a Base Industrial de Defesa, o resultado estratégico não estará apenas nas 36 viaturas previstas, mas nas competências que efetivamente permanecerem no País.

15 outubro, 2026

Avibras passa ao controle dos irmãos Batista e prepara expansão internacional

Aquisição pela Globe Investimentos encerra etapa da reorganização societária; Bruno Dantas assume o conselho e exportações ganham prioridade no plano de recuperação 



 *LRCA Defense Consulting - 15/10/2026 - 15h16

A Avibras Aeroco anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro, a conclusão da venda da totalidade de seu capital à Globe Investimentos, empresa de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista. A operação, realizada por meio da aquisição integral da Nova AVB, controladora da fabricante, preserva o controle acionário brasileiro de uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa (BID). Ao mesmo tempo, Bruno Dantas assume a presidência executiva do Conselho de Administração, com a missão de apoiar a reconstrução industrial e ampliar a presença internacional da companhia.

O comunicado da Avibras estabelece como prioridades a retomada da produção em escala, o cumprimento dos compromissos assumidos e o crescimento, especialmente por meio das exportações. A empresa não divulgou o valor da aquisição, novos aportes financeiros ou metas de faturamento e vendas externas.

Da recuperação judicial à mudança de controle 
Fundada em 1961, a Avibras enfrentou uma crise prolongada, entrou em recuperação judicial em 2022 e passou por paralisação de atividades e conflitos trabalhistas. A reestruturação separou ativos industriais e tecnológicos na Avibras Aeroco, cuja produção foi retomada em maio de 2026. Em agosto, a proposta de aquisição pela Globe foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade); em setembro, a Superintendência-Geral do órgão aprovou a operação sem restrições, por não identificar sobreposição relevante de atividades entre os grupos.

A estrutura societária anunciada é precisa: a Globe torna-se acionista única da Nova AVB, que detém integralmente a Avibras Aeroco. A própria empresa esclarece que a Globe é um family office dos irmãos Batista e não integra a J&F S.A. Essa distinção é relevante para identificar corretamente a adquirente e evitar atribuir a compra diretamente ao conglomerado.

Bruno Dantas e a busca por mercados externos 
Ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas possui trajetória no controle externo e na auditoria internacional. Presidiu a Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI) e integrou o Conselho de Auditores das Nações Unidas, por eleição da Assembleia Geral. Segundo o comunicado, sua experiência deverá contribuir para o relacionamento institucional com governos estrangeiros, compradores centrais dos grandes sistemas militares.

A atribuição de Dantas é estratégica, mas não equivale à confirmação de contratos internacionais. A conquista de encomendas dependerá de negociações governamentais, requisitos operacionais, autorizações de exportação, capacidade de entrega e condições de financiamento. Sami Hassuani permanece identificado no comunicado como presidente da Avibras Aeroco.

A retomada industrial já apresenta resultados 
A aquisição ocorre poucos dias depois de um marco operacional: em 6 de outubro, a Avibras Aeroco entregou ao Exército Brasileiro o primeiro lote de munições desde a retomada das atividades. O recebimento ocorreu no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa (GO). A LRCA Defense Consulting noticiou a entrega e destacou que a fabricante não informou a quantidade nem os modelos das munições, o que impede vinculá-la, com segurança, a um contrato específico.

Outro elemento da recuperação é o Contrato nº 130/2023, no valor de R$ 60,8 milhões, cujos direitos e obrigações foram transferidos à Avibras Aeroco. Conforme documentação examinada pela LRCA, o fornecimento prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, de treinamento, e 448 SS-30, acondicionados em 56 contêineres com oito unidades cada. A existência do contrato demonstra demanda doméstica, mas não comprova, por si só, a execução integral das entregas.

Tecnologia estratégica e desafios da nova fase 
A Avibras reúne competências em propulsão, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos. Seu produto mais conhecido é o Sistema de Artilharia ASTROS, que contribuiu para projetar a indústria brasileira de defesa no exterior. A preservação de instalações, conhecimento acumulado e equipes especializadas é particularmente importante porque capacidades dessa natureza exigem tempo, investimentos e continuidade para serem recompostas.

Para transformar a aquisição em recuperação sustentável, a nova controladora precisará conciliar capital de giro, fornecedores, pessoal qualificado, cumprimento de obrigações e uma carteira consistente de encomendas. No mercado externo, a expansão também depende de apoio institucional e da capacidade de oferecer suporte logístico de longo prazo. Esses são desafios decorrentes da natureza do setor, não resultados já alcançados pela transação.

A conclusão da compra representa, portanto, uma mudança relevante na estrutura de controle e nas perspectivas comerciais da Avibras. A retomada das entregas ao Exército fornece um primeiro indicador concreto de reativação industrial. A dimensão da recuperação, entretanto, será medida pela regularidade da produção, pela execução dos contratos e pela efetiva conquista de novos mercados.

26 agosto, 2026

Marambaia sedia novo ensaio de tiro do míssil de cruzeiro brasileiro

Exercício na Restinga da Marambaia cumpre integralmente os objetivos previstos e mantém o cronograma de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro, da Avibras Aeroco, sistema que deve integrar o portfólio do ASTROS



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Nesta quarta-feira (26/08), o Exército Brasileiro (EB) e a Avibras Aeroco realizaram, com sucesso, um novo ensaio de tiro do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O exercício, que reuniu equipes das duas instituições, cumpriu integralmente os objetivos estabelecidos para esta etapa e representa mais um avanço no processo de certificação da arma.

O resultado reforça a capacidade tecnológica e operacional do País no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade e aproxima o MTC da fase final de qualificação, etapa considerada estratégica para dotar o Exército de uma capacidade de ataque de precisão a longas distâncias, hoje concentrada em poucos países no mundo.

Também conhecido como AV-TM 300 e apelidado internamente de “Matador”, o MTC integra o portfólio de munições inteligentes do Sistema de Artilharia ASTROS e tem alcance declarado de até 300 quilômetros (para exportação, pois o interno pode ser significativamente maior). O projeto, cujo desenvolvimento remonta ao início dos anos 2000, avançou nos últimos meses dentro do programa estratégico ASTROS-FOGOS, criado pelo Exército em março deste ano para reunir artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e defesa antiaérea contra drones em uma única plataforma multidomínio, com investimento previsto de R$ 3,4 bilhões entre 2026 e 2031. 


Participaram do ensaio o general de brigada João Paulo Zago, chefe do CAEx; o general de brigada R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico FOGOS; e o general de brigada R1 Moisés da Paixão Junior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha. A atividade também contou com a participação do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação (DF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em conjunto com equipes técnicas da Avibras Aeroco.

A Avibras Aeroco assumiu o portfólio tecnológico da antiga Avibras Indústria Aeroespacial após a reestruturação da empresa, concluída no início deste ano sob nova gestão privada. O MTC é apontado pela companhia como o programa mais estratégico em desenvolvimento, ao lado do futuro Míssil Tático Balístico, e é tratado pelo Exército como prioritário dentro do plano de modernização da defesa nacional.

24 maio, 2026

Avibras Aeroco marca presença no maior fórum mundial de artilharia e sinaliza retorno ao mercado internacional

Em Londres, empresa foi uma das patrocinadoras da Future Artillery Conference 2026 e teve produtos estratégicos apresentados por general do Exército Brasileiro para auditório de mais de 600 participantes de 55 nações 


*LRCA Defense Consulting - 24/05/2026

A Avibras Aeroco marcou presença na Future Artillery Conference 2026, realizada de 19 a 21 de maio no Novotel London West, em Londres, como patrocinadora do principal fórum mundial dedicado ao tema dos fogos indiretos e da artilharia. Organizado pela Defence IQ, em sua 25ª edição, o evento reuniu mais de 600 participantes de 55 nações, entre comandantes militares seniores, representantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e de forças aliadas, além de líderes do setor industrial de defesa.

A participação ocorre num momento de virada para a empresa. Após quatro anos de paralisia produtiva e um processo de recuperação judicial iniciado em março de 2022 com dívidas de R$ 394 milhões, a Avibras Aeroco retomou operações sob nova estrutura societária e em maio de 2026 reiniciou efetivamente a produção. A presença em Londres funciona como um anúncio simbólico e estratégico ao mercado global: a empresa está de volta.

ASTROS na vitrine de Londres
No primeiro dia da conferência, em 19 de maio, os sistemas de mísseis e foguetes ASTROS, o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) e o Míssil Tático Balístico (MTB), todos desenvolvidos pela Avibras Aeroco, foram apresentados ao auditório internacional numa palestra do General de Brigada R/1 Moisés da Paixão Junior, Gerente do Subprograma Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro.

A palestra, intitulada "Modernização da artilharia do Exército Brasileiro para um futuro multidomínio", descreveu a nova estrutura do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS e seus três subprogramas: artilharia de campanha de mísseis e foguetes, artilharia de campanha (canhão de tubo) e defesa antiaérea.

O general enumerou como prioridades da artilharia brasileira o aumento da mobilidade e do alcance dos sistemas, a digitalização do controle de tiro, a integração em rede dos elementos de combate e o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) nacional. Na avaliação do oficial, esses avanços contribuem para uma artilharia "mais moderna, confiável e interoperável, sustentada por elevada capacidade tecnológica, conhecimento do material empregado e sistemas eficientes de suporte e manutenção".

Engenharia e estratégia comercial lado a lado
A Avibras Aeroco levou ao evento dois executivos com perfis complementares: Marcos Stephany, gerente de Engenharia de Vendas & Estratégia de Produto, e Almir Lemos, gerente de Engenharia de Sistemas. A composição da delegação reflete a dupla agenda da empresa no fórum: técnica e comercial. Além de acompanhar as apresentações e os painéis estratégicos, os representantes ocuparam o espaço de networking do evento para reforçar contatos com potenciais clientes internacionais, especialmente no Oriente Médio, região que historicamente integra a carteira de compradores do sistema ASTROS.

 

O contexto do retorno
A Future Artillery 2026 reuniu, ao lado da Avibras Aeroco, empresas como Lockheed Martin (patrocinadora principal), Hanwha, KNDS, Thales, Northrop Grumman, Leonardo, Kongsberg, Saab e Diehl Defence, entre outros pesos pesados da indústria bélica global. Num ambiente dominado por players estabelecidos da OTAN e da Coreia do Sul, a presença brasileira chama atenção pelo contexto: a empresa integrou o evento como patrocinadora imediatamente após superar sua crise de liquidez e retomar a produção.

O timing dialoga com o cenário internacional. A guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio recolocaram os sistemas de artilharia de longo alcance no centro do debate estratégico global, criando uma janela de oportunidade para fabricantes que oferecem capacidades competitivas fora do eixo tradicional OTAN-Rússia. O ASTROS, com alcance variável entre 30 e 300 quilômetros, dependendo do módulo utilizado, e com histórico de emprego em conflitos reais, enquadra-se nesse perfil.

Em paralelo à presença em Londres, a empresa também avançou no relacionamento doméstico. Em 6 de maio de 2026, dias antes da conferência, a Avibras Aeroco realizou reunião com oficiais do Exército Brasileiro no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, para alinhamento técnico e discussão de futuros contratos. O encontro contou com a participação dos generais Tales Vilella e Carlos Alexandre Bastos de Vasconcellos, atual e futuro Diretores de Fabricação do EB, além do General Maurício Ramos de Rezende Neves, Chefe do CTEx.

Uma nova fase
A Avibras Aeroco chega a Londres com marca reformulada, site institucional relançado e uma narrativa de recomeço sustentada por aportes privados. A empresa opera a partir de sua sede em Jacareí (SP) e busca reposicionar o ASTROS como referência global de sistemas de foguetes multicalibre para exércitos que buscam soberania tecnológica em fogos de longo alcance.

A Future Artillery Conference 2026 encerrou-se em 21 de maio. Os desdobramentos comerciais da participação brasileira, incluindo eventuais negociações ou cartas de intenção, ainda não foram divulgados publicamente.

24 dezembro, 2025

UFSM e Exército: dez anos construindo soberania tecnológica em Defesa

Parceria estratégica consolida Santa Maria como polo de tecnologia militar e forma nova geração de especialistas em simulação

Imagem meramente ilustrativa
 

 *LRCA Defense Consulting - 24/12/2025

A Universidade Federal de Santa Maria se consolidou como principal parceira acadêmica do Exército Brasileiro no desenvolvimento de tecnologias de defesa nacional. Com investimentos que já ultrapassam R$ 20 milhões ao longo de uma década, a cooperação entre as instituições tem gerado inovações críticas para a soberania tecnológica do país, especialmente na área de simulação militar.

O mais recente capítulo dessa parceria foi anunciado neste mês de dezembro: o projeto "Evolução do Sistema Integrado de Simulação ASTROS", com aporte superior a R$ 10 milhões e duração de cinco anos. O acordo, assinado pelo reitor Luciano Schuch e pelo General de Brigada Marcelo Corrêa Horewicz, marca o reinício das atividades de cooperação após uma série de reuniões técnicas realizadas no campus da UFSM entre os dias 16 e 18 de dezembro.

Uma trajetória de sucesso
A aliança entre a UFSM e o Exército não é recente. Há mais de uma década, pesquisadores do Centro de Tecnologia da universidade vêm desenvolvendo soluções inovadoras que transformaram a capacidade de treinamento das Forças Armadas brasileiras.

Um dos marcos dessa cooperação foi a criação do Sistema Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), destinado ao treinamento de operadores do Sistema de Foguetes de Artilharia para Saturação de Área — o ASTROS, produto 100% nacional fabricado pela Avibras. A equipe da UFSM desenvolveu um Simulador Virtual Tático completo, com mesa tática sensível ao toque e vídeo wall, além de softwares para treinamento em computadores pessoais.

Os resultados são impressionantes: dezenas de publicações científicas, uma patente concedida, dois depósitos de patentes em andamento, oito registros de software e diversos prêmios de reconhecimento científico. Além disso, aproximadamente 190 pessoas já trabalharam nos projetos, entre professores, alunos de graduação e pós-graduação, pesquisadores e funcionários.

Simuladores a laser: modernizando o treinamento de blindados
Outro projeto de destaque da parceria é a modernização do Dispositivo de Simulação e Engajamento Tático (DSET), que simula por meio de feixes laser a trajetória balística de munições e o impacto em alvos. Instalado nos canhões dos blindados Leopard 1A5, o equipamento permite treinamentos realistas sem a necessidade de munição real.

O projeto de modernização, orçado em R$ 2 milhões, foi conduzido por professores do Centro de Tecnologia da UFSM e eliminou limitações do sistema original, desenvolvido pela empresa Saab na década de 1980. A principal inovação foi a substituição da impressora térmica por um sistema de transmissão de dados via rádio, permitindo que instrutores acompanhem os exercícios em tempo real e em português, eliminando a barreira do idioma alemão original.

O sistema modernizado também inclui georreferenciamento das viaturas, possibilitando o acompanhamento visual dos movimentos e engajamentos em mapas digitais. Essa tecnologia é amplamente utilizada pelo Exército no Centro de Instrução de Blindados e no Centro de Adestramento-Sul, ambos localizados em Santa Maria.

O novo projeto: ampliando horizontes
O projeto recém-iniciado em novembro de 2025 tem metas ambiciosas. Coordenado pelo professor Raul Ceretta Nunes, do Departamento de Computação Aplicada, o trabalho envolve uma equipe multidisciplinar que reúne seis professores permanentes do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação, além de um professor da UFRGS.

As atividades concentram-se em dois eixos principais: a melhoria do Simulador Virtual Tático de Reconhecimento, Escolha e Ocupação de Posição (SVTat); e o desenvolvimento de novos softwares de Treinamento Baseado em Computador para diversos sistemas, incluindo procedimentos de manutenção de viaturas ASTROS, treinamento para munições e granadas, e simulação de operação de blindados M109 A5+BR.

A equipe já conta com 15 alunos de iniciação científica dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Engenharia de Computação, além de dois bolsistas de mestrado e quatro pesquisadores mestres. Um processo seletivo está em andamento para a contratação de um desenvolvedor de jogos sênior, com expectativa de que a equipe esteja completa em janeiro de 2026.

"Jogos sérios" para defesa nacional
A metodologia empregada nos projetos envolve o desenvolvimento de "serious games" — jogos de computador que vão além do entretenimento para cumprir propósitos de treinamento e educação. O processo inicia-se com o estudo aprofundado de doutrinas e práticas militares, seguido pela elaboração de especificações técnicas e roteiros operacionais.

A etapa de desenvolvimento busca soluções inovadoras em áreas como engenharia de software, computação gráfica, realidade virtual, inteligência artificial, interoperabilidade de jogos em rede e modelagem 3D. O objetivo é criar ferramentas de treinamento que repliquem com fidelidade situações reais de combate, permitindo que militares desenvolvam habilidades em ambiente seguro e controlado.

Os protótipos desenvolvidos estão sendo amplamente utilizados pelo Exército no Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes, no Forte Santa Bárbara, em Formosa, Goiás.

Equipe da UFSM e do Exército reunidos no Gabinete do Reitor (dezembro de 2025)

Impacto além da defesa
A parceria entre UFSM e Exército não beneficia apenas as Forças Armadas. Os projetos têm impacto direto na formação de recursos humanos altamente qualificados, que posteriormente são absorvidos por empresas do setor tecnológico brasileiro e internacional.

Segundo o professor Raul Ceretta Nunes, coordenador do projeto SIS-ASTROS, "com um trabalho focado na geração de conhecimento e tecnologia nacional na área de simulação, e com participação ativa de parceiros, em especial do Exército Brasileiro, a equipe efetivamente estabelece uma conexão profícua entre academia, governo e indústria".

Diversas empresas já se beneficiaram da mão de obra especializada gerada pelos projetos. A capacitação proporcionada tem sido um diferencial no mercado de trabalho, inserindo profissionais qualificados no setor de tecnologia com experiência em desenvolvimento de simuladores e sistemas complexos.

Tríplice hélice da inovação
A cooperação entre UFSM e Exército exemplifica o conceito da tríplice hélice: a integração entre universidade, governo e indústria para promover inovação e desenvolvimento tecnológico. O reitor Luciano Schuch destacou que "nós aprendemos durante os anos, através de parcerias, não só com o exército, mas com a iniciativa privada, que temos que desenvolver projetos em conjunto".

O General de Brigada Moisés da Paixão Júnior, Gerente do Programa Estratégico ASTROS, ressaltou durante as reuniões de dezembro que os projetos em cooperação com a UFSM são diferenciados, pois os resultados obtidos frequentemente superam as expectativas iniciais.

Santa Maria: polo de defesa e inovação
Com a consolidação dessas parcerias, Santa Maria se estabeleceu como um polo nacional de tecnologia de defesa e simulação militar. A cidade abriga não apenas os laboratórios da UFSM onde os sistemas são desenvolvidos, mas também importantes instalações militares onde as tecnologias são testadas e implementadas, como o Centro de Instrução de Blindados e o Centro de Adestramento-Sul.

O futuro promete expansão ainda maior dessa cooperação. Além dos projetos de simulação, há acordos de cooperação técnica firmados em 2022 que abrangem outras áreas de pesquisa e desenvolvimento, incluindo caracterização de materiais, engenharia mecânica e tecnologias de comunicação.

Soberania tecnológica
Para os envolvidos nos projetos, o significado vai além dos aspectos técnicos e financeiros. Trata-se de uma questão de soberania nacional. O domínio de tecnologias de simulação permite que o Brasil desenvolva seus próprios sistemas de treinamento, reduzindo dependência externa e mantendo o controle sobre informações estratégicas.

Como enfatizou o professor Raul Ceretta Nunes, o projeto "vai ampliar significativamente as capacidades de simulação do SIS-ASTROS e de outros treinamentos do exército, além de fomentar a pesquisa e inovação na academia, possibilitando o desenvolvimento de soluções inovadoras de simulação 100% nacional".

A parceria UFSM-Exército representa, assim, um modelo bem-sucedido de como a cooperação entre academia e Forças Armadas pode gerar benefícios mútuos: para a universidade, recursos para pesquisa e formação de profissionais; para o Exército, tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil; e para o país, soberania tecnológica em área estratégica da defesa nacional.

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