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Pedido de SEK 24,6 bilhões,
equivalente a cerca de US$ 2,5 bilhões, será contabilizado no terceiro
trimestre de 2026; entregas à Força Aérea sueca estão previstas para 2029 e
2030, antes da transferência dos caças a Kiev
*LRCA Defense Consulting - 30/06/2026
A fabricante sueca Saab assinou
nesta terça-feira (30/06) um contrato com a FMV (Försvarets
materielverk, a Administração de Material de Defesa da Suécia) para o
fornecimento de 16 caças Gripen E destinados à Ucrânia. O valor do
pedido corresponde a aproximadamente SEK 24,6 bilhões, cerca de US$ 2,5
bilhões, e será contabilizado no terceiro trimestre de 2026. As entregas da
Saab à FMV estão programadas para o período de 2029 a 2030; depois de recebidas
pela administração sueca, as aeronaves serão repassadas à Força Aérea da
Ucrânia.
Além dos 16 caças, o contrato
inclui peças de reposição e equipamentos e itens associados, segundo comunicado
da Saab. A empresa não detalhou publicamente o cronograma de treinamento de
pilotos, adaptação de bases ou pacote de armamentos que acompanhará as
aeronaves.
Declarações O presidente e CEO da Saab,
Micael Johansson, declarou estar profundamente orgulhoso de que a Suécia e a
empresa possam agora viabilizar o fornecimento do Gripen E à Ucrânia,
afirmando que o caça vai transformar a capacidade da Força Aérea ucraniana e
fortalecer significativamente a defesa aérea do país. O ministro da Defesa da
Suécia, Pål Jonson, classificou em rede social a assinatura como o primeiro
passo da ambição ucraniana de adquirir até 150 caças Gripen E/F ao longo
do tempo. O vice-primeiro-ministro ucraniano, Mykhailo Fedorov, descreveu o
acordo como histórico e afirmou que os caças vão reforçar a capacidade de Kiev
contra drones, mísseis de cruzeiro e aviação inimiga.
Características do Gripen E
destacadas pela Saab Segundo a fabricante, o Gripen
foi projetado para operar em ambientes de ameaça avançada, com flexibilidade
operacional que permite o uso a partir de pistas curtas, pistas temporárias ou
rodovias, viabilizando operações dispersas e alta disponibilidade. A
arquitetura baseada em software facilita atualizações contínuas e adaptação a
requisitos operacionais em evolução. A Saab também ressalta o baixo custo de
manutenção e o tempo reduzido de preparação entre missões como diferenciais do
caça.
Como o acordo evoluiu O contrato assinado nesta
terça-feira representa um recuo em relação ao desenho anunciado em 28 de maio
de 2026, quando o premiê sueco, Ulf Kristersson, e o presidente ucraniano,
Volodymyr Zelensky, divulgaram a intenção de Kiev de adquirir até 20 caças Gripen
E/F, somados à doação de até 16 unidades usadas do modelo Gripen C/D
pela Suécia. O acordo final ficou restrito a 16 unidades do Gripen E,
sem confirmação pública, até o momento, da doação dos C/D. Segundo a Reuters, a
entrega dos modelos C/D mais antigos, se confirmada, está prevista para o
início de 2027, enquanto os primeiros Gripen E só devem chegar a partir
de 2029.
A aproximação entre Suécia e
Ucrânia no tema remonta a outubro de 2025, quando Zelensky visitou as
instalações da Saab em Linköping e assinou, com o governo sueco, uma carta de
intenções para aprofundar a cooperação em defesa aérea, citando um potencial de
exportação de 100 a 150 caças Gripen E. O financiamento da compra
ucraniana tem como referência recursos do Ukraine Support Loan,
mecanismo europeu de apoio a Kiev lastreado, entre outras fontes, em ativos
russos congelados.
Onde e quando A assinatura ocorreu na Suécia
e foi divulgada oficialmente pela Saab e pela FMV em 30 de junho de 2026.
Segundo a Saab, o treinamento de pilotos e técnicos ucranianos no Gripen
C/D já está em andamento e deve ser ampliado a partir do outono europeu, ou
seja, entre setembro e novembro de 2026.
Por que agora O acordo se insere no esforço
ucraniano de reconstruir sua força aérea diante do desgaste da frota soviética
remanescente e da necessidade de contrapor ataques russos com drones, mísseis
de cruzeiro e bombas planadoras. A capacidade do Gripen de operar a
partir de bases dispersas e pistas improvisadas é apontada por analistas como
especialmente adequada ao cenário de bases aéreas ucranianas sob ameaça
constante de ataques russos de longo alcance. Em paralelo, Kiev também negocia
a compra de até 100 caças Rafale F4 da França, em carta de intenções que
prevê aquisições ao longo de dez anos.
Para que: o Gripen como
ativo estratégico para a Saab Para a Saab, o eventual avanço
do contrato ucraniano para o patamar de 100 a 150 unidades representaria um dos
maiores negócios de exportação de caças da história da empresa, conferindo ao Gripen
visibilidade inédita em um cenário de combate real. O programa já vive expansão
comercial relevante: o Brasil encomendou 36 unidades do Gripen E/F, das
quais cerca de dez já estão operacionais na Força Aérea Brasileira; a Colômbia
assinou, em 2025, contrato para 17 unidades, no valor de 3,1 bilhões de euros,
com entregas entre 2026 e 2032; e a Tailândia contratou inicialmente quatro
aeronaves, com opção de ampliar a frota.
Diante da demanda crescente, a
Saab avalia ampliar sua capacidade produtiva, hoje em torno de 20 a 30
aeronaves por ano, e já discute com a Bombardier, do Canadá, a
possibilidade de localizar parte da produção do Gripen em solo
canadense, parceria que também poderia se tornar fonte adicional de entregas
para a Ucrânia, assim como as aeronaves colombianas poderão ser fabricadas nas instalações brasileiras da Embraer. O backlog de pedidos da divisão de aeronáutica da Saab soma
cerca de SEK 82,2 bilhões, dentro de uma carteira total de pedidos de
aproximadamente SEK 274 bilhões.
A artilharia não morreu. Morreu a artilharia que acreditava poder ficar onde atirou e não seguiu as camadas de sobrevivência...
Lançamento do futuro Míssil Tático Balístico AV-SS 100 pelo ASTROS (renderização)
*LRCA Defense Consulting - 10/06/2026
Drones
percorreram mais de mil quilômetros e atacaram São Petersburgo entre os dias 3
e 6 de junho de 2026, no meio do principal fórum econômico da Rússia.
Incendiaram um terminal de petróleo, avariaram seriamente uma corveta da Marinha russa no
dique seco de Kronstadt, explodiram paióis navais e paralisaram o aeroporto da cidade. Nenhum avião de
combate, nenhum míssil balístico, nenhuma operação de grande escala: apenas
drones relativamente baratos produzindo efeitos que, no século passado,
exigiriam uma frota inteira de bombardeiros estratégicos.
A cena de São
Petersburgo é a versão em tamanho máximo de algo que acontece todos os dias, em
escala menor, nas trincheiras do leste da Ucrânia e que está redesenhando a
doutrina de artilharia de todos os exércitos do mundo, incluindo o Exército
Brasileiro. A lição é simples e brutal: a posição visível é uma sentença de
morte. A bateria que atira e fica, é um alvo. A bateria que atira e se move, pode sobreviver.
O
ciclo de três minutos O número que mudou tudo é três. Três minutos. É o tempo que o
sistema russo de aquisição de alvos pode levar, em sua versão mais eficiente,
para completar o ciclo que vai da observação ao impacto: um observador localiza
uma bateria de artilharia, transmite as coordenadas, a central de tiro calcula
a solução e os projéteis chegam ao alvo. A informação foi citada pelo capitão
Vincent Verdile em artigo publicado no Field Artillery Professional Bulletin
de 2026, o boletim oficial de artilharia do Exército americano, com base em
análise do Royal United Services Institute (RUSI) sobre a guerra na Ucrânia.
Três minutos é, na prática, menos do que muitas unidades de artilharia do mundo
levam para desmontar, reorganizar e partir de uma posição de tiro. Verdile sabe
disso por experiência própria: como comandante de pelotão de Paladins, o
obuseiro autopropulsado de 155 mm do Exército americano, por dois anos,
assistiu à sua bateria levar mais de dez minutos para se deslocar durante o
dia. À noite, em uma ocasião, levou mais de uma hora apenas para formar o
comboio e sair de uma posição.
A Ucrânia tornou esse problema fatal. O Major-General Andrii Malinovskiy, das
Forças Armadas ucranianas, apresentou na Future Artillery Conference 2026,
realizada em Londres em maio de 2026, dados que não deixam margem para dúvida:
o campo de batalha ucraniano foi transformado em uma zona de engajamento
contínuo com profundidade de até 25 quilômetros, criada pelo emprego maciço de
drones. Baterias de artilharia são atacadas sistematicamente por drones Lancet
russos. A meta ucraniana para o futuro é reduzir a duração de cada missão de
tiro para menos de 5 minutos, tempo máximo que uma peça pode permanecer
exposta antes de ser localizada e atacada.
Os números operacionais são
impressionantes. A Ucrânia registrou 95.300 missões de tiro de artilharia, com
35% de eficácia e 33.360 acertos confirmados. Os drones armados realizaram
326.231 missões, com 34% de eficácia e 110.204 acertos confirmados. Para se
proteger, as guarnições ucranianas adotaram grupos móveis de tiro com 2 a 3
militares, abrigos para as peças, nichos de munição separados dos obuseiros e
até réplicas de MLRS e radares feitas de madeira e lona, iscas para enganar os
drones inimigos.
Diagnóstico americano: o problema começa no adestramento Verdile não se limitou a descrever o problema. Ele o viveu. Em seu
artigo, descreve três vulnerabilidades que encontrou durante uma rotação de
adestramento no National Training Center (NTC), em Fort Irwin, Califórnia. o
principal campo de treinamento de combate do Exército americano.
A primeira vulnerabilidade é a
navegação. O principal meio de orientação das baterias era o JBC-P, um sistema
digital de comando e controle embarcado, e aplicativos de celular. Enquanto o
sistema funcionava adequadamente para os oficiais, era instável para as
guarnições dos obuseiros e para as Centrais de Direção de Fogo, que são os
postos onde se calculam as soluções de tiro. O resultado: os pelotões conduziam
90% dos deslocamentos entre posições de tiro, porque os chefes de seção
simplesmente não conseguiam navegar sozinhos. Mais de 50% das guarnições não
sabiam ler um mapa nem usar um transferidor.
A segunda vulnerabilidade é a
consciência situacional, ou seja, saber onde se está no campo de batalha. Sem isso, o
padrão regulamentar americano de 75 segundos para executar uma missão de fogo
de emergência fora de uma posição designada torna-se impossível. Esse tempo
exige que o chefe de seção tome a iniciativa: posicionar o obuseiro e aguardar
os dados de tiro, em vez de depender que alguém aponte a direção. Sem
consciência situacional, o chefe de seção fica paralisado, o ciclo se dilata e
o tempo de sobrevivência se esgota.
A terceira vulnerabilidade é
estrutural: o adestramento não replicava a mobilidade necessária para
sobreviver. Os exercícios de tiro combinado priorizavam cadência e precisão,
sem ênfase em sobrevivência. Os pelotões reusavam as mesmas posições de tiro, repetiam
os mesmos percursos, e o modelo mental dominante era o de posições estáticas, herança das operações de contrainsurgência no Iraque e no Afeganistão, onde a
maior ameaça era um combatente a pé, não um drone de reconhecimento conectado a
um radar de contrabateria.
A solução proposta por Verdile é
direta: adestramento em quatro níveis, do soldado até a bateria, que incorpora
navegação com e sem apoio tecnológico, planos de comunicação alternativos,
reação a todos os tipos de contato, incluindo drones, e exercícios de tiro
real com deslocamento de sobrevivência entre posições. Sua frase central resume
a intenção: "The intent of prioritizing situational awareness and land
navigation in training is to create independent platoons that can displace and
move quickly and effectively"; em tradução livre: o objetivo é criar
pelotões independentes, capazes de se deslocar com rapidez e eficácia.
Tim De Zitter, gerente de ciclo
de vida de sistemas de defesa antiaérea e munições vagantes da Defesa Belga,
resumiu a conclusão no LinkedIn no mesmo dia em que o Gen Paixão apresentava em
Londres: "A arma que atira e permanece, agora é um alvo. A arma que
atira e se move, permanece na luta."
Mover
não basta: as seis camadas de sobrevivência O Laboratório de Ciência e Tecnologia da Defesa britânico, o Dstl,
foi além e apresentou em Londres uma tese incômoda para quem acredita que
mover-se é suficiente: o simples shoot and scoot, atirar e correr, não
basta diante de drones FPV (que voam na perspectiva do piloto e atacam em alta
velocidade), munições guiadas e ciclos de reação cada vez mais curtos.
Os pesquisadores britânicos
descreveram a ameaça pelo acrônimo EOF: Exposto, Observado e Frágil.
As plataformas de artilharia estão sob vigilância constante, com risco de
detecção por sensores sofisticados e de ataque por meios baratos, inclusive
drones comerciais adaptados com explosivos que custam menos de 500 dólares e
podem destruir um obuseiro que vale milhões.
A resposta proposta é um sistema
de proteção em camadas: evitar ser visto, depois evitar ser identificado,
depois evitar ser adquirido como alvo, depois evitar ser engajado,
depois evitar ser atingido e, por fim, minimizar os danos se for
atingido. São seis camadas de sobrevivência. A mobilidade resolve apenas uma
delas.
A
resposta brasileira em Londres No mesmo dia em que De Zitter publicava sua análise, o General de
Brigada R/1 Moises da Paixão Junior apresentava na Future Artillery
Conference 2026 a palestra "Modernising Brazilian Army Artillery
for a Multi-Domain Future" (Modernizando a Artilharia do Exército Brasileiro para um Futuro Multidomínio). A conferência, em sua 25ª edição, é
considerada o maior fórum mundial de fogos indiretos. O Brasil não enviou
apenas um representante: a delegação incluía o Comandante de Artilharia do
Exército, o Adido Militar para o Reino Unido, o Subcomandante do Centro de
Instrução de Mísseis e Foguetes e dois representantes da Avibras Aeroco. O
evento foi tratado institucionalmente como prioridade estratégica.
A posição do Gen Paixão como gerente do Subprograma de Artilharia de
Campanha no Escritório de Projetos do Exército (EPEx) coloca-o no centro de todos
os programas de modernização da Força Terrestre nessa área.
A palestra organizou a
modernização brasileira em três eixos: maior mobilidade e alcance estendido;
controle digital do tiro e integração em rede; e fortalecimento da capacidade
industrial nacional. Os três respondem diretamente ao diagnóstico de Verdile e
De Zitter, e ao ambiente descrito por Malinovskiy nas trincheiras ucranianas.
O
obuseiro que sabe onde está: M109 A5+BR e o sistema Gênesis O eixo da digitalização tem um produto já operacional que merece
atenção especial, porque é exatamente a resposta ao problema de navegação e
consciência situacional que Verdile diagnosticou nos Estados Unidos: o obuseiro
M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis,
desenvolvido pela empresa estatal IMBEL.
São 32 obuseiros autopropulsados
de 155 mm que agora sabem exatamente onde estão no campo de batalha a
qualquer momento, com ou sem apoio de liderança superior. O Gênesis permite
posicionamento preciso da peça, o que reduz o tempo entre chegar em uma posição
e estar pronto para atirar. O sistema inclui ainda o rádio digital Falcon III e
o sistema de intercomunicação SOTAS, da Thales. O resultado é que o chefe de
seção do M109 A5+BR pode tomar a iniciativa, posicionar-se e aguardar os dados
de tiro sem depender de ninguém para apontar a direção, exatamente o que
Verdile recomenda como padrão de adestramento.
Obuseiro
M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis,
desenvolvido pela IMBEL
O controle digital de fogos para
toda a bateria (chamado SISDAC, Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha) é desenvolvido pela própria IMBEL, com foco em precisão, agilidade e apoio de
fogo contínuo. Na Future Artillery Conference, esse sistema foi
apresentado ao lado de soluções de exércitos como os da Espanha (TALOS), da
Alemanha (TARANIS/ADLER III) e da França (ATLAS III), todos buscando o mesmo
objetivo: transformar o processo de solicitar, calcular e executar um tiro, que hoje ainda tem muitas etapas manuais, em um fluxo digital rápido, em que
sensores, calculadoras e obuseiros falam a mesma língua em tempo real.
A Embraer, em parceria com o
Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) desde 2021, desenvolve
um radar de contrabateria nacional, um sistema capaz de localizar de onde o
inimigo atirou, em tempo real, rastreando o projétil inimigo de volta à sua
origem. Esse radar fecha o ciclo: a bateria que se move para não ser localizada
também precisa localizar o inimigo antes que ele se mova. A Omnisys, empresa do
grupo Thales com sede no Brasil, contribui com radares de vigilância de espaço
aéreo e sistemas antidrone.
O
ATMOS, Gaza e a necessidade que não desapareceu O eixo da mobilidade tem seu ponto mais aguardado e mais
politicamente delicado. O obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm foi
objeto de um processo licitatório concluído com a seleção do ATMOS 2000, da
israelense Elbit Systems, vencedor sobre o CAESAR francês, o Zuzana 2
tcheco-eslovaco e o SH-15 chinês. O plano era adquirir 36 sistemas.
O ATMOS é um canhão de 155 mm
montado sobre um caminhão 6x6, capaz de alcançar mais de 40 quilômetros com
munição padrão, chegar a uma posição, disparar múltiplos projéteis e partir em
questão de minutos, a encarnação perfeita da doutrina do shoot and scoot.
Velocidade máxima de 100 km/h na estrada. Exatamente o tipo de sistema que
Verdile pede e que o campo de batalha ucraniano exige.
O contrato foi cancelado no
início de 2025. A razão não foi técnica: foi política. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva suspendeu a aquisição em razão de sua posição crítica em relação
à conduta de Israel na guerra em Gaza. O ministro da Defesa, José Múcio, havia
alertado que a decisão estabeleceria um precedente perigoso para a integridade
dos processos de aquisição do Exército e que prejudicaria empresas nacionais
que já haviam firmado acordos com a Elbit para participar da produção de
componentes e da montagem final no Brasil. A necessidade operacional, contudo,
permanece intacta.
Em paralelo, o Exército avança
na substituição dos obuseiros rebocados M114 de 155 mm, uma peça desenvolvida
na Segunda Guerra Mundial e que ainda serve em algumas unidades brasileiras, e
no desenvolvimento de uma nova solução de 105 mm para tropas paraquedistas e
aeromóveis, mais leves e com necessidades específicas de mobilidade aérea.
ATMOS - obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm (vídeo)
Foguetes,
mísseis e munições vagantes: o alcance que muda tudo No campo dos foguetes e mísseis, o Brasil tem uma das capacidades
mais singulares da América do Sul: o ASTROS II, sistema de artilharia de
saturação da Avibras Aeroco que pode disparar foguetes de diferentes calibres e
alcances a partir do mesmo lançador. O programa de modernização, agora chamado
ASTROS-FOGOS após reestruturação formalizada em março de 2026 pela Portaria nº
1.703 do Estado-Maior do Exército, está desenvolvendo dois novos vetores.
O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro TCM 300: alcance de 300 quilômetros (para exportação; interno pode chegar a mais de 1.000 quilômetros),
precisão de 30 metros e capacidade de alterar a rota durante o voo para evitar
defesas inimigas. Para ter uma referência: São Paulo fica a 430 quilômetros do
Rio de Janeiro. O segundo é o Míssil Tático Balístico AV-SS 100, com alcance
superior a 100 quilômetros, novo projeto da Avibras Aeroco. Juntos, esses
sistemas colocariam o Exército Brasileiro em uma categoria de capacidade de
fogos de profundidade que poucos países da região possuem.
O Exército também abriu
licitação internacional para munições vagantes, as chamadas loitering
munitions ou drones-bomba. Esses sistemas decolam como drones, ficam
circulando sobre uma área à espera de um alvo adequado e depois mergulham sobre
ele. São capazes de atacar alvos que não estão na linha de visada (atrás de um
morro, dentro de uma floresta, escondidos num celeiro) e podem ser lançados
por sistemas de foguetes já existentes. A licitação exige capacidade de
lançamento assistido e engajamento além da linha de visada. É a resposta
brasileira ao que ucranianos e russos já empregam em massa.
Sistema ASTROS realiza tiro noturno durante a Operação Amazônia
Lançamento do Míssil Tático de Cruzeiro AV-TM 300 pelo ASTROS
A
defesa antiaérea que faltava: o EMADS A apresentação do Gen Paixão em Londres explicitou também a maior
vulnerabilidade estrutural da artilharia brasileira: a ausência de defesa
antiaérea de média altitude. Um sistema de artilharia que consegue se mover
rapidamente, mas não tem proteção contra drones de reconhecimento que voam a
altitudes médias, acima do alcance dos mísseis portáteis como o RBS-70 e o
Igla-S, continua sendo uma bateria que pode ser observada, rastreada e
atacada.
O Exército brasileiro reconheceu essa lacuna como emergencial. Por meio da
Portaria EME nº 1.086, de 22 de dezembro de 2025, formalizou a seleção do
sistema EMADS da empresa europeia MBDA, para aquisição por acordo direto
governo a governo com a Itália. O sistema integra o radar Kronos da Leonardo,
os mísseis CAMM-ER da MBDA, capazes de interceptar alvos a até 40 quilômetros
de distância e 15 quilômetros de altitude, e plataforma sobre caminhão. Um dia
após a conferência de Londres, em 20 de maio de 2026, o Comando Logístico do
Exército realizou reunião bilateral com autoridades italianas em Brasília para
avançar nas negociações.
Sistema EMADS da empresa europeia MBDA
O
que a conferência de Londres disse ao Brasil O relatório que o Gen Paixão assinou ao retornar de Londres é um
documento que merece ser lido com atenção por qualquer artilheiro brasileiro.
Em 27 páginas, ele resume as principais palestras de 55 países e extrai quatro
conclusões que são, ao mesmo tempo, um diagnóstico global e um roteiro para o
Brasil.
- Primeira conclusão: alcance
com sobrevivência em campo transparente. Todos os exércitos presentes, do
Reino Unido à Hungria, dos Estados Unidos à França, discutiram como reduzir o
tempo que uma bateria passa em uma posição de tiro e como se defender de drones
enquanto isso. A Artilharia britânica introduziu o conceito de disciplina de
assinatura: não apenas mover-se, mas também reduzir as emissões de rádio, o
calor gerado pelos motores e qualquer outra característica que permita a um
sensor inimigo identificar uma posição de tiro.
- Segunda conclusão:
digitalização do ciclo sensor-atirador. O tempo entre detectar um alvo e
disparar sobre ele precisa cair de minutos para segundos. Isso exige que
sensores, sistemas de C2 e obuseiros falem a mesma língua digital, sem precisar
de um operador humano para digitar coordenadas em cada etapa. A IA apareceu na
conferência não como substituta do comandante, pois as decisões letais permanecem
humanas, mas como assistente que filtra dados, prioriza alvos e recomenda qual
arma é a mais adequada para cada situação.
- Terceira conclusão: efeitos
em camadas. Artilharia de tubo, foguetes, mísseis, morteiros, drones e
munições vagantes não são substitutos uns dos outros, mas sim são complementares. A 3ª
Divisão Britânica apresentou um conceito de composição de forças que é uma
régua útil para medir onde o Brasil está: 20% de capacidades de alto valor e
difíceis de destruir (como o ASTROS), 40% de sistemas de médio custo que podem
ser perdidos em combate (drones e munições vagantes) e 40% de munições
convencionais de consumo. A artilharia brasileira, ainda fortemente concentrada
em tubo rebocado de 105 mm, tem um caminho a percorrer nessa direção.
- Quarta conclusão: resiliência
industrial. Prontidão não se mede apenas pelo número de obuseiros em
serviço. Mede-se também pela capacidade de produzir munição em escala, de
manter estoque suficiente para semanas de combate intenso e de certificar
sistemas para que possam operar com aliados. A Ucrânia consumiu munição mais
rápido do que qualquer país conseguia produzir. O Brasil, com a IMBEL e a
Avibras Aeroco como pilares industriais, está avançando nessa direção, mas a
reestruturação financeira da Avibras, que passou por recuperação judicial, é
uma vulnerabilidade que o setor ainda carrega.
O
problema que o equipamento não resolve O Gen Paixão encerrou seu relatório com uma frase que é ao mesmo
tempo uma conquista e um aviso: "O desafio para os próximos anos será
transformar projetos, normas e indústrias em capacidade disponível nas unidades
de tiro".
Essa frase merece ser lida com muita atenção. O Brasil tem os programas certos.
Tem parte dos equipamentos certos. Tem, no ASTROS-FOGOS, uma arquitetura
institucional capaz de integrar diferentes vetores de fogo. Tem, no M109 A5+BR
com o sistema Gênesis, um obuseiro que sabe onde está e pode se mover com
precisão. Tem, no desenvolvimento do radar de contrabateria com a Embraer e do
SISDAC com a IMBEL, as peças de um sistema digital de fogos que começa a tomar
forma.
O que ainda falta, e é o ponto
mais difícil de resolver com dinheiro ou contratos, é o elemento que Verdile
identificou na sua própria bateria americana: a cultura de adestramento que
transforma mobilidade em reflexo, desde que seja treinada exaustivamente inúmeras vezes e sob diversas condições táticas. Uma peça que nunca
treinou para sair de uma posição em menos de três minutos, à noite, sem JBC-P
funcionando, sob a ameaça de um drone que pode aparecer a qualquer momento, não
vai fazer isso automaticamente no momento em que precisar. A doutrina do shoot
and scoot não nasce com o equipamento. Ela precisa ser treinada, repetida e
internalizada até virar instinto.
A conferência de Londres mostrou
que essa é uma preocupação universal. O painel operacional final, com
representantes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Suécia, foi explícito: as
soluções tecnológicas precisam sobreviver ao terreno, à guerra eletrônica, ao
atrito logístico e ao ritmo de decisões de uma frente em movimento. Tecnologia
sem doutrina é sucata cara.
A artilharia brasileira, neste
10 de junho de 2026, comemora o Dia da Arma com um programa de modernização
consistente, uma presença ativa nos principais fóruns internacionais e uma
indústria de defesa que, apesar dos percalços, ainda é uma das mais completas
da América do Sul.
O ciclo de três minutos que Verdile descreve não é uma
ameaça imaginária ou distante: é o padrão que qualquer conflito de alta
intensidade vai impor, em qualquer teatro de operações, a qualquer bateria que
não tenha aprendido a se mover.
A bateria que atira e fica, e que não segue as camadas de sobrevivência, torna-se um
alvo. O Exército Brasileiro parece ter entendido a sentença. O próximo passo é
garantir que cada artilheiro, em cada bateria do país, também
a tenha internalizado antes que precise aprender da pior maneira possível.
Fontes e referências
CPT Vincent Verdile. "Moving to Survive:
Transforming Artillery Training for Modern Warfare". Field Artillery
Professional Bulletin: E-Edition 2026, US Army.
Gen Bda R/1
Moises da Paixão Junior. Relatório
Future Artillery 2026. EPEx/EME, Brasília, 9 jun. 2026.
Gen Bda R/1 Moises da Paixão Junior. "Modernising
Brazilian Army Artillery for a Multi-Domain Future". Future Artillery
Conference 2026, Londres, 19 mai. 2026.
Maj Gen Andrii
Malinovskiy. "Ukrainian Perspectives: Artillery as Central, Decisive
Component of Modern High Intensity Warfare". Future Artillery Conference
2026, Londres, 19 mai. 2026.
Tom Newbery
(Dstl). "Active Survivability Suites for Artillery Systems". Future Artillery Conference 2026,
Londres, 20 mai. 2026.
Tim De Zitter. Post analítico no LinkedIn sobre o artigo de
Verdile. Belgian Defence, 19 mai. 2026.