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24 dezembro, 2025

UFSM e Exército: dez anos construindo soberania tecnológica em Defesa

Parceria estratégica consolida Santa Maria como polo de tecnologia militar e forma nova geração de especialistas em simulação

Imagem meramente ilustrativa
 

 *LRCA Defense Consulting - 24/12/2025

Universidade Federal de Santa Maria se consolidou como principal parceira acadêmica do Exército Brasileiro no desenvolvimento de tecnologias de defesa nacional. Com investimentos que já ultrapassam R$ 20 milhões ao longo de uma década, a cooperação entre as instituições tem gerado inovações críticas para a soberania tecnológica do país, especialmente na área de simulação militar.

O mais recente capítulo dessa parceria foi anunciado neste mês de dezembro: o projeto "Evolução do Sistema Integrado de Simulação ASTROS", com aporte superior a R$ 10 milhões e duração de cinco anos. O acordo, assinado pelo reitor Luciano Schuch e pelo General de Brigada Marcelo Corrêa Horewicz, marca o reinício das atividades de cooperação após uma série de reuniões técnicas realizadas no campus da UFSM entre os dias 16 e 18 de dezembro.

Uma trajetória de sucesso
A aliança entre a UFSM e o Exército não é recente. Há mais de uma década, pesquisadores do Centro de Tecnologia da universidade vêm desenvolvendo soluções inovadoras que transformaram a capacidade de treinamento das Forças Armadas brasileiras.

Um dos marcos dessa cooperação foi a criação do Sistema Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), destinado ao treinamento de operadores do Sistema de Foguetes de Artilharia para Saturação de Área — o ASTROS, produto 100% nacional fabricado pela Avibras. A equipe da UFSM desenvolveu um Simulador Virtual Tático completo, com mesa tática sensível ao toque e vídeo wall, além de softwares para treinamento em computadores pessoais.

Os resultados são impressionantes: dezenas de publicações científicas, uma patente concedida, dois depósitos de patentes em andamento, oito registros de software e diversos prêmios de reconhecimento científico. Além disso, aproximadamente 190 pessoas já trabalharam nos projetos, entre professores, alunos de graduação e pós-graduação, pesquisadores e funcionários.

Simuladores a laser: modernizando o treinamento de blindados
Outro projeto de destaque da parceria é a modernização do Dispositivo de Simulação e Engajamento Tático (DSET), que simula por meio de feixes laser a trajetória balística de munições e o impacto em alvos. Instalado nos canhões dos blindados Leopard 1A5, o equipamento permite treinamentos realistas sem a necessidade de munição real.

O projeto de modernização, orçado em R$ 2 milhões, foi conduzido por professores do Centro de Tecnologia da UFSM e eliminou limitações do sistema original, desenvolvido pela empresa Saab na década de 1980. A principal inovação foi a substituição da impressora térmica por um sistema de transmissão de dados via rádio, permitindo que instrutores acompanhem os exercícios em tempo real e em português, eliminando a barreira do idioma alemão original.

O sistema modernizado também inclui georreferenciamento das viaturas, possibilitando o acompanhamento visual dos movimentos e engajamentos em mapas digitais. Essa tecnologia é amplamente utilizada pelo Exército no Centro de Instrução de Blindados e no Centro de Adestramento-Sul, ambos localizados em Santa Maria.

O novo projeto: ampliando horizontes
O projeto recém-iniciado em novembro de 2025 tem metas ambiciosas. Coordenado pelo professor Raul Ceretta Nunes, do Departamento de Computação Aplicada, o trabalho envolve uma equipe multidisciplinar que reúne seis professores permanentes do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação, além de um professor da UFRGS.

As atividades concentram-se em dois eixos principais: a melhoria do Simulador Virtual Tático de Reconhecimento, Escolha e Ocupação de Posição (SVTat); e o desenvolvimento de novos softwares de Treinamento Baseado em Computador para diversos sistemas, incluindo procedimentos de manutenção de viaturas ASTROS, treinamento para munições e granadas, e simulação de operação de blindados M109 A5+BR.

A equipe já conta com 15 alunos de iniciação científica dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Engenharia de Computação, além de dois bolsistas de mestrado e quatro pesquisadores mestres. Um processo seletivo está em andamento para a contratação de um desenvolvedor de jogos sênior, com expectativa de que a equipe esteja completa em janeiro de 2026.

"Jogos sérios" para defesa nacional
A metodologia empregada nos projetos envolve o desenvolvimento de "serious games" — jogos de computador que vão além do entretenimento para cumprir propósitos de treinamento e educação. O processo inicia-se com o estudo aprofundado de doutrinas e práticas militares, seguido pela elaboração de especificações técnicas e roteiros operacionais.

A etapa de desenvolvimento busca soluções inovadoras em áreas como engenharia de software, computação gráfica, realidade virtual, inteligência artificial, interoperabilidade de jogos em rede e modelagem 3D. O objetivo é criar ferramentas de treinamento que repliquem com fidelidade situações reais de combate, permitindo que militares desenvolvam habilidades em ambiente seguro e controlado.

Os protótipos desenvolvidos estão sendo amplamente utilizados pelo Exército no Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes, no Forte Santa Bárbara, em Formosa, Goiás.

Equipe da UFSM e do Exército reunidos no Gabinete do Reitor (dezembro de 2025)

Impacto além da defesa
A parceria entre UFSM e Exército não beneficia apenas as Forças Armadas. Os projetos têm impacto direto na formação de recursos humanos altamente qualificados, que posteriormente são absorvidos por empresas do setor tecnológico brasileiro e internacional.

Segundo o professor Raul Ceretta Nunes, coordenador do projeto SIS-ASTROS, "com um trabalho focado na geração de conhecimento e tecnologia nacional na área de simulação, e com participação ativa de parceiros, em especial do Exército Brasileiro, a equipe efetivamente estabelece uma conexão profícua entre academia, governo e indústria".

Diversas empresas já se beneficiaram da mão de obra especializada gerada pelos projetos. A capacitação proporcionada tem sido um diferencial no mercado de trabalho, inserindo profissionais qualificados no setor de tecnologia com experiência em desenvolvimento de simuladores e sistemas complexos.

Tríplice hélice da inovação
A cooperação entre UFSM e Exército exemplifica o conceito da tríplice hélice: a integração entre universidade, governo e indústria para promover inovação e desenvolvimento tecnológico. O reitor Luciano Schuch destacou que "nós aprendemos durante os anos, através de parcerias, não só com o exército, mas com a iniciativa privada, que temos que desenvolver projetos em conjunto".

O General de Brigada Moisés da Paixão Júnior, Gerente do Programa Estratégico ASTROS, ressaltou durante as reuniões de dezembro que os projetos em cooperação com a UFSM são diferenciados, pois os resultados obtidos frequentemente superam as expectativas iniciais.

Santa Maria: polo de defesa e inovação
Com a consolidação dessas parcerias, Santa Maria se estabeleceu como um polo nacional de tecnologia de defesa e simulação militar. A cidade abriga não apenas os laboratórios da UFSM onde os sistemas são desenvolvidos, mas também importantes instalações militares onde as tecnologias são testadas e implementadas, como o Centro de Instrução de Blindados e o Centro de Adestramento-Sul.

O futuro promete expansão ainda maior dessa cooperação. Além dos projetos de simulação, há acordos de cooperação técnica firmados em 2022 que abrangem outras áreas de pesquisa e desenvolvimento, incluindo caracterização de materiais, engenharia mecânica e tecnologias de comunicação.

Soberania tecnológica
Para os envolvidos nos projetos, o significado vai além dos aspectos técnicos e financeiros. Trata-se de uma questão de soberania nacional. O domínio de tecnologias de simulação permite que o Brasil desenvolva seus próprios sistemas de treinamento, reduzindo dependência externa e mantendo o controle sobre informações estratégicas.

Como enfatizou o professor Raul Ceretta Nunes, o projeto "vai ampliar significativamente as capacidades de simulação do SIS-ASTROS e de outros treinamentos do exército, além de fomentar a pesquisa e inovação na academia, possibilitando o desenvolvimento de soluções inovadoras de simulação 100% nacional".

A parceria UFSM-Exército representa, assim, um modelo bem-sucedido de como a cooperação entre academia e Forças Armadas pode gerar benefícios mútuos: para a universidade, recursos para pesquisa e formação de profissionais; para o Exército, tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil; e para o país, soberania tecnológica em área estratégica da defesa nacional.

20 dezembro, 2025

A guerra invisível: como milhões de drones reescrevem as regras do combate moderno na Ucrânia

Ao longo de 1.250 quilômetros terrestres de front, a tecnologia de US$ 500 destroça blindados de US$ 5 milhões e transforma conceitos militares consolidados há 150 anos 


*LRCA Defense Consulting - 20/12/2025

Quando o sol nasce sobre a linha de frente terrestre ucraniana, o céu já está povoado. Não por aviões ou helicópteros, mas por centenas de pequenos pontos negros que zumbem incessantemente: drones de reconhecimento, drones de ataque, drones interceptadores. Em dezembro de 2025, após quase quatro anos de guerra, a Ucrânia e a Rússia travam o que especialistas militares já classificam como o primeiro conflito entre potências militares próximas dominado completamente por veículos não tripulados. E os números são assombrosos.

A Ucrânia produziu 800 mil drones em 2023, saltou para 2 milhões em 2024 e planeja fabricar até 5 milhões em 2025. A Rússia, segundo estimativas de inteligência ocidental, também investe pesadamente na produção em massa dessas máquinas. O resultado é uma corrida armamentista tecnológica sem precedentes, onde a inovação se mede em semanas, não em anos, e onde um dispositivo que custa algumas centenas de dólares pode destruir um tanque de última geração avaliado em milhões. 

O paradoxo: tudo é visto, nada é visível
Esta é uma guerra invisível travada sob vigilância total. Um paradoxo que define o conflito mais transformador desde a Segunda Guerra Mundial.

Invisível porque os soldados desapareceram. Não há mais colunas de tanques reluzentes avançando em formação, nem batalhões marchando em ordem cerrada. Os exércitos se dispersaram em grupos minúsculos de quatro a seis homens, escondidos em posições camufladas que levam horas para serem detectadas. Movem-se à noite, escondem-se durante o dia, tentam desesperadamente permanecer não-detectados por mais alguns minutos, mais algumas horas. A sobrevivência depende de ser invisível.

Invisível porque as batalhas desapareceram. Não há Stalingrados ou Kursk neste conflito. As ações decisivas acontecem em escalas microscópicas: um drone destruindo um veículo de suprimento a três quilômetros da linha de frente, um pequeno grupo infiltrando posições inimigas e eliminando uma equipe de operadores de drones, um ataque de artilharia guiado por satélite contra um depósito de munição. São mil cortes invisíveis que, coletivamente, determinam o destino de nações.

Invisível porque o mundo parou de assistir. Diferentemente dos primeiros meses de 2022, quando cada avanço russo ou contra-ataque ucraniano dominava manchetes globais, a guerra de 2025 ocorre nas sombras da consciência pública internacional. Mas continua tão brutal quanto sempre foi.

E, paradoxalmente, tudo isso acontece sob o olhar constante de milhões de olhos eletrônicos. Drones de reconhecimento pairam incessantemente a altitudes de algumas centenas de metros, câmeras de alta resolução vasculham cada metro quadrado do front, satélites fotografam movimentos de tropas, sensores térmicos detectam o calor de motores e corpos humanos. Nada escapa à vigilância. Tudo é visto. E tudo que é visto tende a ser destruído.

É neste ambiente impossível - onde ser detectado significa morte certa, mas permanecer invisível é quase impossível - que se trava a primeira guerra entre potências militares próximas dominada completamente por veículos não tripulados. E as regras mudaram para sempre. 

A zona de morte: onde tudo que se move é destruído
"Qualquer coisa que se mova na zona de cinco a dez quilômetros ao longo da linha de contato será detectada e provavelmente atacada", explica um oficial de inteligência ucraniano. Esta faixa, popularmente chamada de "zona de morte", transformou-se num inferno tecnológico onde os conceitos tradicionais de guerra foram virados de cabeça para baixo.

Durante a batalha de Avdiivka, no início de 2024, o mundo assistiu a demonstração brutal dessa nova realidade. Posições fortificadas ucranianas, que resistiriam por semanas a ataques convencionais, caíram após dias de bombardeios sistemáticos coordenados por drones. Os veículos não tripulados localizavam alvos, direcionavam artilharia com precisão cirúrgica e atacavam diretamente com explosivos quando necessário. As perdas foram catastróficas para ambos os lados.

As estatísticas confirmam a transformação. Estudos militares estimam que aproximadamente setenta por cento das baixas neste conflito são causadas por drones ou por artilharia guiada por drones. É uma proporção sem paralelo na história militar moderna. Durante a Segunda Guerra Mundial, a artilharia respondia por cerca de sessenta por cento das baixas, mas não havia a onipresença da vigilância aérea constante que caracteriza este conflito.

 

A muralha invisível e as contra-muralhas
Em resposta ao avanço russo no leste, a Ucrânia desenvolveu um conceito revolucionário: a "Drone Line". Trata-se de corredores defensivos com até quinze quilômetros de profundidade, onde drones de várias gerações e funções operam em camadas sobrepostas. Drones de reconhecimento detectam movimentos, drones de ataque tipo FPV (First Person View) interceptam veículos, e drones anti-drones caçam os aparelhos inimigos.

O sistema provou-se eficaz em retardar avanços russos em várias regiões. Interceptadores melhorados ucranianos derrubam drones de ataque russos em mais de setenta por cento das tentativas, segundo dados militares. Mas a Rússia não ficou parada.

A resposta russa veio na forma de inovação tecnológica: drones com fibra óptica. Controlados por um cabo conectado diretamente ao operador, esses aparelhos são completamente imunes a interferências eletrônicas, o calcanhar de Aquiles dos drones convencionais. Eles têm alcance limitado pelo comprimento do cabo, geralmente alguns quilômetros, mas são praticamente imparáveis uma vez lançados. A Ucrânia, que também passou a utilizá-los, relatou que esses drones russos agora emboscam veículos de suprimento bem atrás das linhas de frente, forçando uma dependência crescente de robótica terrestre para logística.

Mais perturbador ainda, formações russas de drones passaram a priorizar ataques contra equipes de drones ucranianas, forçando operadores a recuar das posições avançadas. É uma guerra dentro da guerra: drones caçando operadores de drones.

O fim dos "batalhões": a era dos grupos de infiltração
Se há uma transformação tática que define 2025, é o abandono das formações convencionais. Desde o verão, a Rússia mudou para táticas de infiltração usando pequenos grupos de quatro a seis soldados, estratégia apelidada pelos ucranianos de "tática dos mil cortes". Em vez de ataques massivos com dezenas de blindados e centenas de soldados, grupos diminutos se infiltram através da zona cinzenta entre as linhas.

O coronel Andriy Kovalenko, comandante de batalhão ucraniano no setor de Donetsk, descreve a nova realidade: "Eles não atacam as primeiras posições que encontram. Infiltram-se mais profundamente, procuram nossas equipes de drones, atacam postos de comando avançados. De repente, você tem grupos inimigos operando três quilômetros atrás de suas linhas oficiais". 

Táticas de infiltração com pequenos grupos já haviam sido empregadas na Primeira Guerra Mundial, inclusive pelo então tenente Erwin Rommel, que posteriormente as descreveu em seu livro 'Infanterie greift an' (1937). Na Segunda Guerra Mundial, essas táticas foram adaptadas por unidades especializadas de ambos os lados. Na África do Norte, enquanto Rommel comandava o Afrika Korps alemão, os britânicos da 7ª Divisão Blindada (conhecidos como 'Desert Rats') e unidades especiais como o Long Range Desert Group e o SAS também empregavam táticas de infiltração profunda em território inimigo, atacando instalações na retaguarda. Porém, em ambos os conflitos, tais táticas permaneceram restritas a situações pontuais e, geralmente, a unidades especializadas ou de elite. 

Na atualidade da guerra Rússia x Ucrânia, a linha de frente terrestre tornou-se borrada, fragmentada. Há setores onde a infantaria de ambos os lados mantém posições simultaneamente atrás das linhas inimigas nominais. A "zona cinzenta" expandiu-se dramaticamente. E a situação agravou-se pela crise crônica de pessoal que aflige particularmente a Ucrânia.

Alguns comandantes ucranianos relatam grandes extensões da frente sem presença de infantaria, mantidas apenas por equipes de drones e artilharia distante. Quando grupos russos se infiltram nessas áreas, podem criar um caos desproporcional antes de serem neutralizados. O front ucraniano agora se estende por quase 1.250 quilômetros, e as forças defendem enfrentando entre 160 e 190 combates distintos diariamente.

 

Tanques: obsoletos ou incompreendidos?
"O tanque está morto" tornou-se um refrão comum entre analistas militares nos últimos dois anos. Os números parecem dar razão a essa tese. Estimativas indicam que a Rússia perdeu aproximadamente 1.400 tanques e mais de 3.700 veículos blindados apenas em 2024. A Ucrânia alega ter destruído 1.159 tanques russos desde janeiro de 2025.

Imagens de tanques T-72 e T-80 russos sendo destruídos por drones FPV que custam menos de mil dólares circulam diariamente nas redes sociais. Javelins, NLAWs e drones de ataque descendente provaram-se devastadores contra blindagem convencional. A assimetria é gritante: máquinas de 45 toneladas e milhões de dólares destruídas por dispositivos que cabem numa mochila.

Mas declarar o tanque obsoleto seria prematuro. Durante a ofensiva ucraniana em Kursk, em agosto de 2024, tanques e veículos blindados pesados foram fundamentais para o sucesso inicial. A chave estava no emprego: o reconhecimento avançado identificava pontos fracos nas defesas russas, permitindo penetrações rápidas antes que os drones inimigos pudessem reagir efetivamente. Usados em condições climáticas adversas, quando a eficácia dos drones é reduzida por chuva e ventos fortes, os tanques ainda demonstram valor tático.

Tanto Rússia quanto Ucrânia continuam vendo valor no emprego de blindados. A Ucrânia segue solicitando tanques e veículos blindados dos países ocidentais. O que mudou não é a relevância do tanque em si, mas a doutrina de emprego. Concentrações massivas de blindados, marca registrada das doutrinas soviéticas e da OTAN durante a Guerra Fria, tornaram-se convites ao desastre.

Fortificações líquidas: repensando a defesa estática
A guerra de drones também destruiu pressupostos sobre fortificações. Em 2025, a Ucrânia descartou doutrinas de defesa da Guerra Fria para abraçar o que especialistas chamam de "fortalezas líquidas": dispersas, de baixa observabilidade e altamente móveis.

Em vez de grandes complexos fortificados com centenas de soldados, as novas posições ucranianas consistem em módulos pequenos, camuflados intensivamente, conectados por túneis e trincheiras cobertas. A lógica é simples: se drones podem detectar qualquer coisa, a resposta não é construir fortalezas maiores, mas tornar-se invisível e disperso.

Cada módulo abriga no máximo uma dezena de soldados. As posições são projetadas para serem abandonadas e reocupadas rapidamente. A defesa não é mais sobre segurar território específico a todo custo, mas sobre infligir perdas insustentáveis ao atacante através de uma rede fluida de pontos de resistência.

Paradoxalmente, quanto mais a tecnologia avança, mais a guerra lembra conflitos do século XIX e do início do século XX, mas só em certos aspectos. Trincheiras extensas, campos minados densos, guerra de posição. Mas com uma diferença crucial: o que acontece acima dessas trincheiras é radicalmente diferente de qualquer coisa vista na Primeira Guerra Mundial.

A corrida tecnológica interminável e a criação das Forças de Sistemas Não Tripulados
A cada semana surgem novas inovações. Drones kamikaze com inteligência artificial que identificam e atacam alvos autonomamente. Sistemas de guerra eletrônica portáteis que criam bolhas de proteção contra drones inimigos. Munições vagantes que circulam sobre uma área por horas esperando pelo alvo ideal. Enxames de drones coordenados que sobrecarregam defesas atacando simultaneamente de múltiplas direções.

Em junho de 2024, a Ucrânia tomou uma decisão histórica: estabeleceu as Forças de Sistemas Não Tripulados, o primeiro ramo militar independente dedicado exclusivamente a drones no mundo. É o equivalente à criação da Força Aérea como ramo separado no século XX. O sinal não poderia ser mais claro: drones não são um complemento às forças tradicionais, são uma dimensão de combate inteiramente nova.

A Rússia, por sua vez, expandiu dramaticamente produção doméstica e importações de drones, particularmente drones iranianos Shahed-136 usados para ataques em profundidade contra infraestrutura ucraniana. A Rússia recebeu milhares desses drones e estabeleceu linhas de produção licenciadas em território russo.

 

O preço humano da guerra industrial
Em meio à fascinação tecnológica, os números humanos são brutais. Estimativas ocidentais sugerem que a Rússia atingirá a marca de 1 milhão de baixas até meados de 2025. A Ucrânia não divulga números oficiais de perdas, mas observadores independentes estimam dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de feridos.

A natureza dos ferimentos também mudou. Médicos militares relatam um aumento dramático em amputações traumáticas causadas por drones explosivos. Diferentemente de projéteis de artilharia tradicionais, que frequentemente matam instantaneamente, drones FPV carregam cargas menores que causam ferimentos devastadores mas não necessariamente letais. Hospitais militares ucranianos e russos estão repletos de soldados jovens enfrentando amputações múltiplas.

O trauma psicológico é outro aspecto pouco discutido. A onipresença de drones cria uma sensação de vigilância constante que corrói a moral. Soldados relatam que o som característico dos drones quadricópteros causa reações de pânico mesmo em veteranos experimentados. Diferentemente da artilharia, que ataca em salvas e depois cessa, os drones estão sempre lá, sempre observando, sempre prontos para atacar.

 

Lições para o Brasil e para o mundo
O conflito na Ucrânia é observado intensamente por militares do mundo inteiro. Taiwan estuda as táticas ucranianas de drones contra blindados pensando numa possível invasão chinesa. A OTAN revisou completamente suas doutrinas de combate mecanizado. A China acelerou desenvolvimento de contra-drones e sistemas de guerra eletrônica.

O general Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, declarou em entrevista recente: "O que estamos vendo na Ucrânia é o futuro da guerra. Qualquer exército que não esteja se preparando para combate dominado por drones estará obsoleto em uma década."

Mas há uma ressalva importante: este é um conflito entre adversários com capacidades tecnológicas relativamente próximas. Contra um inimigo com superioridade aérea total e capacidades avançadas de guerra eletrônica, muitas dessas táticas podem não funcionar. Os drones ucranianos e russos operam num ambiente onde nenhum lado controla completamente o espectro eletromagnético ou o espaço aéreo acima de dez mil pés. Contra os Estados Unidos ou China, o cenário seria radicalmente diferente.

Ainda assim, as lições são claras: concentração massiva de forças tornou-se suicida; detectabilidade é sinônimo de vulnerabilidade; adaptação rápida vale mais que equipamento sofisticado; e a produção industrial em massa de tecnologia relativamente simples pode superar sistemas de armas complexos e caros.

Um conflito sem fim à vista
Apesar das perdas catastróficas, nenhum avanço estratégico significativo ocorreu em 2025. Objetivos russos como a cidade de Pokrovsk permanecem em mãos ucranianas. Ambos os lados agora operam ao longo de linhas de frente extensamente fortificadas com densos campos minados, sistemas de trincheiras, obstáculos anti-blindagem e posições de artilharia fortificadas. É uma guerra de atrito tecnológico onde a vantagem pertence a quem consegue sustentar produção e perdas por mais tempo.

O tenente-coronel Viktor Shevchenko, analista militar ucraniano, resume sombriamente: "Antes, guerras eram decididas por grandes batalhas. Agora, são decididas por linhas de produção. Quem conseguir fabricar mais drones, mais munição, mais equipamento simples mas eficaz, vencerá. E isso pode levar anos."

Enquanto isso, nos céus sobre a linha de frente, milhões de pequenos pontos negros continuam zumbindo. Observando. Esperando. Atacando. Redefinindo o que significa fazer guerra no século XXI.

 


Nota do Editor: esta reportagem foi elaborada com base em fontes abertas de inteligência militar, relatórios de organizações de pesquisa em defesa e análises de especialistas independentes. Informações sobre táticas específicas foram deliberadamente mantidas em nível geral para não comprometer a segurança operacional.

13 julho, 2022

Exército avalia a primeira estação de armas manual desenvolvida e fabricada no Brasil pela Ares


*LRCA Defense Consulting - 13/07/2022

Está em avaliação no Centro de Avaliação do Exército (CAEx) a primeira estação de armas manual desenvolvida e fabricada no Brasil para o Exército Brasileiro pela Ares.

Trata-se da REMAN, projetada para atender o Programa Estratégico do Exército (Prg EE) Guarani, mas que também poderá ser utilizada por outros blindados.

O investimento no projeto contribui para “desenvolver a Base Industrial de Defesa nacional, orientada para o desenvolvimento e consequente autonomia em tecnologias indispensáveis”, objetivos do Ministério da Defesa, PND, 2020.

07 julho, 2022

Exército Brasileiro assina contrato para modernização dos blindados Cascavel


*LRCA Defense Consulting - 07/07/2022

O Exército Brasileiro assinou hoje o contrato para a primeira fase do projeto de modernização de 98 Viaturas Blindadas de Reconhecimento Cascavel com o Consórcio de Empresas Força Terrestre, composto pelas empresas Akaer Engenharia (líder), Opto Space & Defense e Universal.

Esse primeiro contrato celebra a entrega de duas viaturas protótipo e um lote de sete viaturas que receberão inserção de ar-condicionado, revitalização do canhão 90 mm, e instalação de diversos outros equipamentos.

A Akaer Engenharia S.A., líder do Consórcio de Empresas Força Terrestre, venceu a licitação aberta pelo Exército Brasileiro para a modernização de um lote inicial de nove unidades da viatura blindada de reconhecimento média sobre rodas EE-9 Cascavel. O resultado da concorrência foi publicado no Diário Oficial da União de 4 de maio.

Essa conquista consagra o trabalho da Akaer, que há mais de 30 anos é reconhecida mundialmente pelo seu histórico no desenvolvimento de tecnologias de ponta dedicadas à defesa. “Trata-se de um projeto pioneiro com potencial de aplicação para toda a frota desse veículo em uso pelo nosso país, após a validação desse lote inicial a ser feita pelo Exército Brasileiro”, afirma o diretor comercial da Akaer, Aldo da Silva Junior.

O projeto consiste em um amplo pacote de modernização e adoção de novas tecnologias que envolve uma nova motorização e suspensão, fundamentais para incrementar as capacidades de locomoção do veículo nos mais variados tipos de terreno. Um sistema de ar-condicionado será implantado para melhorar o ambiente operacional da tripulação composta por motorista, atirador e comandante.

Em relação a consciência situacional, característica vital para as rápidas tomadas de decisões no campo de batalha, a Akaer irá substituir a atual torre mecânica do comandante por uma nova torre automatizada.  Essa melhoria irá incrementar a velocidade de resposta aos comandos e precisão de operação.

Visando o aumento da efetividade operacional no emprego de armas, o programa inclui a substituição das miras ópticas, por um moderno sistema optrônico para busca e pontaria dos alvos e identificação de eventuais ameaças. Essa tecnologia permitirá a operação diurna e noturna e em condições atmosféricas degradadas.

Um moderno computador de tiro será responsável pela execução de todos os cálculos balísticos, proporcionando um aumento significativo na probabilidade de acerto de alvos.

O sistema eletrônico contará com um computador de comando e controle que irá analisar, em tempo real, todos os sensores espalhados pelo veículo para a leitura dos parâmetros ambientais que interferem na execução das missões.

O EE-9 Cascavel modernizado contará com a adição de um lançador de mísseis anti-tanque em sua torre principal, introduzindo essa capacidade em veículos blindados de reconhecimento do Exército Brasileiro.

A conquista desse projeto foi ressaltada pelo CEO da Akaer, Cesar Silva: “A Akaer sente-se honrada em ter sido selecionada pelo Exército Brasileiro para o programa de modernização do EE-9 Cascavel. É uma clara demonstração de reconhecimento da capacidade da engenharia e da indústria nacional em apoio às necessidades das forças armadas no Brasil”, declarou o CEO.

 

11 junho, 2022

V Curso de Extensão em Iniciação de Simulação de Combate e Blindados CMS/UFRGS - Inscrições até 23/06


*LRCA Defense Consulting - 11/06/2022

O Comando Militar do Sul (CMS) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) convidam a comunidade interessada para o V Curso de Extensão em Iniciação de Simulação de Combate e Blindados, que será realizado pelo terceiro ano consecutivo em formato eletrônico e a distância na plataforma do ISAPE, com certificação fornecida pela UFRGS. Na edição de 2021, o curso contou com 957 alunos inscritos.

O curso é fruto do Memorando de Entendimento de 2015 e do Acordo de Cooperação de 2020 estabelecido entre o Comando Militar do Sul (CMS) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tendo como bases instituidoras e executoras a Faculdade de Ciências Econômicas (FCE-UFRGS), o Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS) e o Núcleo de Estudos Estratégicos do CMS (NEE-CMS).

Tem como objetivo proporcionar aos participantes conhecimentos técnicos sobre simulação e veículos blindados. Ressalta-se que a digitalização, da qual a simulação é um subproduto, está na base da III Revolução Industrial e nos fundamentos da IV, que ora já assiste sua fase de irrupção. A compreensão sobre a simulação, portanto, é fundamental, quer para o entendimento do preparo ou do emprego de Força. Nesse sentido, traz repositórios imprescindíveis para a análise das relações internacionais.

Os interessados no Curso de Extensão em Iniciação em Simulação de Combate e Blindados, devem seguir os passos elencados no Cronograma

Inscrições: até 23 de junho.
Realização em formato eletrônico e a distância: de 27 de junho a 03 de julho de 2022.


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