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20 dezembro, 2025

A guerra invisível: como milhões de drones reescrevem as regras do combate moderno na Ucrânia

Ao longo de 1.250 quilômetros terrestres de front, a tecnologia de US$ 500 destroça blindados de US$ 5 milhões e transforma conceitos militares consolidados há 150 anos 


*LRCA Defense Consulting - 20/12/2025

Quando o sol nasce sobre a linha de frente terrestre ucraniana, o céu já está povoado. Não por aviões ou helicópteros, mas por centenas de pequenos pontos negros que zumbem incessantemente: drones de reconhecimento, drones de ataque, drones interceptadores. Em dezembro de 2025, após quase quatro anos de guerra, a Ucrânia e a Rússia travam o que especialistas militares já classificam como o primeiro conflito entre potências militares próximas dominado completamente por veículos não tripulados. E os números são assombrosos.

A Ucrânia produziu 800 mil drones em 2023, saltou para 2 milhões em 2024 e planeja fabricar até 5 milhões em 2025. A Rússia, segundo estimativas de inteligência ocidental, também investe pesadamente na produção em massa dessas máquinas. O resultado é uma corrida armamentista tecnológica sem precedentes, onde a inovação se mede em semanas, não em anos, e onde um dispositivo que custa algumas centenas de dólares pode destruir um tanque de última geração avaliado em milhões. 

O paradoxo: tudo é visto, nada é visível
Esta é uma guerra invisível travada sob vigilância total. Um paradoxo que define o conflito mais transformador desde a Segunda Guerra Mundial.

Invisível porque os soldados desapareceram. Não há mais colunas de tanques reluzentes avançando em formação, nem batalhões marchando em ordem cerrada. Os exércitos se dispersaram em grupos minúsculos de quatro a seis homens, escondidos em posições camufladas que levam horas para serem detectadas. Movem-se à noite, escondem-se durante o dia, tentam desesperadamente permanecer não-detectados por mais alguns minutos, mais algumas horas. A sobrevivência depende de ser invisível.

Invisível porque as batalhas desapareceram. Não há Stalingrados ou Kursk neste conflito. As ações decisivas acontecem em escalas microscópicas: um drone destruindo um veículo de suprimento a três quilômetros da linha de frente, um pequeno grupo infiltrando posições inimigas e eliminando uma equipe de operadores de drones, um ataque de artilharia guiado por satélite contra um depósito de munição. São mil cortes invisíveis que, coletivamente, determinam o destino de nações.

Invisível porque o mundo parou de assistir. Diferentemente dos primeiros meses de 2022, quando cada avanço russo ou contra-ataque ucraniano dominava manchetes globais, a guerra de 2025 ocorre nas sombras da consciência pública internacional. Mas continua tão brutal quanto sempre foi.

E, paradoxalmente, tudo isso acontece sob o olhar constante de milhões de olhos eletrônicos. Drones de reconhecimento pairam incessantemente a altitudes de algumas centenas de metros, câmeras de alta resolução vasculham cada metro quadrado do front, satélites fotografam movimentos de tropas, sensores térmicos detectam o calor de motores e corpos humanos. Nada escapa à vigilância. Tudo é visto. E tudo que é visto tende a ser destruído.

É neste ambiente impossível - onde ser detectado significa morte certa, mas permanecer invisível é quase impossível - que se trava a primeira guerra entre potências militares próximas dominada completamente por veículos não tripulados. E as regras mudaram para sempre. 

A zona de morte: onde tudo que se move é destruído
"Qualquer coisa que se mova na zona de cinco a dez quilômetros ao longo da linha de contato será detectada e provavelmente atacada", explica um oficial de inteligência ucraniano. Esta faixa, popularmente chamada de "zona de morte", transformou-se num inferno tecnológico onde os conceitos tradicionais de guerra foram virados de cabeça para baixo.

Durante a batalha de Avdiivka, no início de 2024, o mundo assistiu a demonstração brutal dessa nova realidade. Posições fortificadas ucranianas, que resistiriam por semanas a ataques convencionais, caíram após dias de bombardeios sistemáticos coordenados por drones. Os veículos não tripulados localizavam alvos, direcionavam artilharia com precisão cirúrgica e atacavam diretamente com explosivos quando necessário. As perdas foram catastróficas para ambos os lados.

As estatísticas confirmam a transformação. Estudos militares estimam que aproximadamente setenta por cento das baixas neste conflito são causadas por drones ou por artilharia guiada por drones. É uma proporção sem paralelo na história militar moderna. Durante a Segunda Guerra Mundial, a artilharia respondia por cerca de sessenta por cento das baixas, mas não havia a onipresença da vigilância aérea constante que caracteriza este conflito.

 

A muralha invisível e as contra-muralhas
Em resposta ao avanço russo no leste, a Ucrânia desenvolveu um conceito revolucionário: a "Drone Line". Trata-se de corredores defensivos com até quinze quilômetros de profundidade, onde drones de várias gerações e funções operam em camadas sobrepostas. Drones de reconhecimento detectam movimentos, drones de ataque tipo FPV (First Person View) interceptam veículos, e drones anti-drones caçam os aparelhos inimigos.

O sistema provou-se eficaz em retardar avanços russos em várias regiões. Interceptadores melhorados ucranianos derrubam drones de ataque russos em mais de setenta por cento das tentativas, segundo dados militares. Mas a Rússia não ficou parada.

A resposta russa veio na forma de inovação tecnológica: drones com fibra óptica. Controlados por um cabo conectado diretamente ao operador, esses aparelhos são completamente imunes a interferências eletrônicas, o calcanhar de Aquiles dos drones convencionais. Eles têm alcance limitado pelo comprimento do cabo, geralmente alguns quilômetros, mas são praticamente imparáveis uma vez lançados. A Ucrânia, que também passou a utilizá-los, relatou que esses drones russos agora emboscam veículos de suprimento bem atrás das linhas de frente, forçando uma dependência crescente de robótica terrestre para logística.

Mais perturbador ainda, formações russas de drones passaram a priorizar ataques contra equipes de drones ucranianas, forçando operadores a recuar das posições avançadas. É uma guerra dentro da guerra: drones caçando operadores de drones.

O fim dos "batalhões": a era dos grupos de infiltração
Se há uma transformação tática que define 2025, é o abandono das formações convencionais. Desde o verão, a Rússia mudou para táticas de infiltração usando pequenos grupos de quatro a seis soldados, estratégia apelidada pelos ucranianos de "tática dos mil cortes". Em vez de ataques massivos com dezenas de blindados e centenas de soldados, grupos diminutos se infiltram através da zona cinzenta entre as linhas.

O coronel Andriy Kovalenko, comandante de batalhão ucraniano no setor de Donetsk, descreve a nova realidade: "Eles não atacam as primeiras posições que encontram. Infiltram-se mais profundamente, procuram nossas equipes de drones, atacam postos de comando avançados. De repente, você tem grupos inimigos operando três quilômetros atrás de suas linhas oficiais". 

Táticas de infiltração com pequenos grupos já haviam sido empregadas na Primeira Guerra Mundial, inclusive pelo então tenente Erwin Rommel, que posteriormente as descreveu em seu livro 'Infanterie greift an' (1937). Na Segunda Guerra Mundial, essas táticas foram adaptadas por unidades especializadas de ambos os lados. Na África do Norte, enquanto Rommel comandava o Afrika Korps alemão, os britânicos da 7ª Divisão Blindada (conhecidos como 'Desert Rats') e unidades especiais como o Long Range Desert Group e o SAS também empregavam táticas de infiltração profunda em território inimigo, atacando instalações na retaguarda. Porém, em ambos os conflitos, tais táticas permaneceram restritas a situações pontuais e, geralmente, a unidades especializadas ou de elite. 

Na atualidade da guerra Rússia x Ucrânia, a linha de frente terrestre tornou-se borrada, fragmentada. Há setores onde a infantaria de ambos os lados mantém posições simultaneamente atrás das linhas inimigas nominais. A "zona cinzenta" expandiu-se dramaticamente. E a situação agravou-se pela crise crônica de pessoal que aflige particularmente a Ucrânia.

Alguns comandantes ucranianos relatam grandes extensões da frente sem presença de infantaria, mantidas apenas por equipes de drones e artilharia distante. Quando grupos russos se infiltram nessas áreas, podem criar um caos desproporcional antes de serem neutralizados. O front ucraniano agora se estende por quase 1.250 quilômetros, e as forças defendem enfrentando entre 160 e 190 combates distintos diariamente.

 

Tanques: obsoletos ou incompreendidos?
"O tanque está morto" tornou-se um refrão comum entre analistas militares nos últimos dois anos. Os números parecem dar razão a essa tese. Estimativas indicam que a Rússia perdeu aproximadamente 1.400 tanques e mais de 3.700 veículos blindados apenas em 2024. A Ucrânia alega ter destruído 1.159 tanques russos desde janeiro de 2025.

Imagens de tanques T-72 e T-80 russos sendo destruídos por drones FPV que custam menos de mil dólares circulam diariamente nas redes sociais. Javelins, NLAWs e drones de ataque descendente provaram-se devastadores contra blindagem convencional. A assimetria é gritante: máquinas de 45 toneladas e milhões de dólares destruídas por dispositivos que cabem numa mochila.

Mas declarar o tanque obsoleto seria prematuro. Durante a ofensiva ucraniana em Kursk, em agosto de 2024, tanques e veículos blindados pesados foram fundamentais para o sucesso inicial. A chave estava no emprego: o reconhecimento avançado identificava pontos fracos nas defesas russas, permitindo penetrações rápidas antes que os drones inimigos pudessem reagir efetivamente. Usados em condições climáticas adversas, quando a eficácia dos drones é reduzida por chuva e ventos fortes, os tanques ainda demonstram valor tático.

Tanto Rússia quanto Ucrânia continuam vendo valor no emprego de blindados. A Ucrânia segue solicitando tanques e veículos blindados dos países ocidentais. O que mudou não é a relevância do tanque em si, mas a doutrina de emprego. Concentrações massivas de blindados, marca registrada das doutrinas soviéticas e da OTAN durante a Guerra Fria, tornaram-se convites ao desastre.

Fortificações líquidas: repensando a defesa estática
A guerra de drones também destruiu pressupostos sobre fortificações. Em 2025, a Ucrânia descartou doutrinas de defesa da Guerra Fria para abraçar o que especialistas chamam de "fortalezas líquidas": dispersas, de baixa observabilidade e altamente móveis.

Em vez de grandes complexos fortificados com centenas de soldados, as novas posições ucranianas consistem em módulos pequenos, camuflados intensivamente, conectados por túneis e trincheiras cobertas. A lógica é simples: se drones podem detectar qualquer coisa, a resposta não é construir fortalezas maiores, mas tornar-se invisível e disperso.

Cada módulo abriga no máximo uma dezena de soldados. As posições são projetadas para serem abandonadas e reocupadas rapidamente. A defesa não é mais sobre segurar território específico a todo custo, mas sobre infligir perdas insustentáveis ao atacante através de uma rede fluida de pontos de resistência.

Paradoxalmente, quanto mais a tecnologia avança, mais a guerra lembra conflitos do século XIX e do início do século XX, mas só em certos aspectos. Trincheiras extensas, campos minados densos, guerra de posição. Mas com uma diferença crucial: o que acontece acima dessas trincheiras é radicalmente diferente de qualquer coisa vista na Primeira Guerra Mundial.

A corrida tecnológica interminável e a criação das Forças de Sistemas Não Tripulados
A cada semana surgem novas inovações. Drones kamikaze com inteligência artificial que identificam e atacam alvos autonomamente. Sistemas de guerra eletrônica portáteis que criam bolhas de proteção contra drones inimigos. Munições vagantes que circulam sobre uma área por horas esperando pelo alvo ideal. Enxames de drones coordenados que sobrecarregam defesas atacando simultaneamente de múltiplas direções.

Em junho de 2024, a Ucrânia tomou uma decisão histórica: estabeleceu as Forças de Sistemas Não Tripulados, o primeiro ramo militar independente dedicado exclusivamente a drones no mundo. É o equivalente à criação da Força Aérea como ramo separado no século XX. O sinal não poderia ser mais claro: drones não são um complemento às forças tradicionais, são uma dimensão de combate inteiramente nova.

A Rússia, por sua vez, expandiu dramaticamente produção doméstica e importações de drones, particularmente drones iranianos Shahed-136 usados para ataques em profundidade contra infraestrutura ucraniana. A Rússia recebeu milhares desses drones e estabeleceu linhas de produção licenciadas em território russo.

 

O preço humano da guerra industrial
Em meio à fascinação tecnológica, os números humanos são brutais. Estimativas ocidentais sugerem que a Rússia atingirá a marca de 1 milhão de baixas até meados de 2025. A Ucrânia não divulga números oficiais de perdas, mas observadores independentes estimam dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de feridos.

A natureza dos ferimentos também mudou. Médicos militares relatam um aumento dramático em amputações traumáticas causadas por drones explosivos. Diferentemente de projéteis de artilharia tradicionais, que frequentemente matam instantaneamente, drones FPV carregam cargas menores que causam ferimentos devastadores mas não necessariamente letais. Hospitais militares ucranianos e russos estão repletos de soldados jovens enfrentando amputações múltiplas.

O trauma psicológico é outro aspecto pouco discutido. A onipresença de drones cria uma sensação de vigilância constante que corrói a moral. Soldados relatam que o som característico dos drones quadricópteros causa reações de pânico mesmo em veteranos experimentados. Diferentemente da artilharia, que ataca em salvas e depois cessa, os drones estão sempre lá, sempre observando, sempre prontos para atacar.

 

Lições para o Brasil e para o mundo
O conflito na Ucrânia é observado intensamente por militares do mundo inteiro. Taiwan estuda as táticas ucranianas de drones contra blindados pensando numa possível invasão chinesa. A OTAN revisou completamente suas doutrinas de combate mecanizado. A China acelerou desenvolvimento de contra-drones e sistemas de guerra eletrônica.

O general Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, declarou em entrevista recente: "O que estamos vendo na Ucrânia é o futuro da guerra. Qualquer exército que não esteja se preparando para combate dominado por drones estará obsoleto em uma década."

Mas há uma ressalva importante: este é um conflito entre adversários com capacidades tecnológicas relativamente próximas. Contra um inimigo com superioridade aérea total e capacidades avançadas de guerra eletrônica, muitas dessas táticas podem não funcionar. Os drones ucranianos e russos operam num ambiente onde nenhum lado controla completamente o espectro eletromagnético ou o espaço aéreo acima de dez mil pés. Contra os Estados Unidos ou China, o cenário seria radicalmente diferente.

Ainda assim, as lições são claras: concentração massiva de forças tornou-se suicida; detectabilidade é sinônimo de vulnerabilidade; adaptação rápida vale mais que equipamento sofisticado; e a produção industrial em massa de tecnologia relativamente simples pode superar sistemas de armas complexos e caros.

Um conflito sem fim à vista
Apesar das perdas catastróficas, nenhum avanço estratégico significativo ocorreu em 2025. Objetivos russos como a cidade de Pokrovsk permanecem em mãos ucranianas. Ambos os lados agora operam ao longo de linhas de frente extensamente fortificadas com densos campos minados, sistemas de trincheiras, obstáculos anti-blindagem e posições de artilharia fortificadas. É uma guerra de atrito tecnológico onde a vantagem pertence a quem consegue sustentar produção e perdas por mais tempo.

O tenente-coronel Viktor Shevchenko, analista militar ucraniano, resume sombriamente: "Antes, guerras eram decididas por grandes batalhas. Agora, são decididas por linhas de produção. Quem conseguir fabricar mais drones, mais munição, mais equipamento simples mas eficaz, vencerá. E isso pode levar anos."

Enquanto isso, nos céus sobre a linha de frente, milhões de pequenos pontos negros continuam zumbindo. Observando. Esperando. Atacando. Redefinindo o que significa fazer guerra no século XXI.

 


Nota do Editor: esta reportagem foi elaborada com base em fontes abertas de inteligência militar, relatórios de organizações de pesquisa em defesa e análises de especialistas independentes. Informações sobre táticas específicas foram deliberadamente mantidas em nível geral para não comprometer a segurança operacional.

28 outubro, 2023

Mudança de planos: Exército dos EUA adota lições aprendidas com a guerra na Ucrânia

Tanques enormes e caros destruídos por pequenas e baratas munições ociosas. Drones ajudando a artilharia a localizar alvos. Um campo de batalha tão inundado de sensores que é impossível ficar escondido por muito tempo.


*Defense News, por Jen Judson - 09/10/2023

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022, o Exército tem observado cuidadosamente estas tendências. Agora, essas mudanças estão remodelando os planos do serviço, desde a aquisição até a forma de abordar as formações e repensar a logística. O Exército já repensou os seus planos para modernizar os tanques e alterar as suas estratégias com drones.

“O caráter da guerra está mudando”, disse o Chefe do Estado-Maior do Exército, General Randy George, ao Defense News em uma entrevista antes da conferência anual da Associação do Exército dos EUA. “Mudou mais nos últimos anos por causa da guerra na Ucrânia. E acho que continuará a mudar a um ritmo muito rápido e temos que ter a mentalidade para mudar com isso.”

O general James Rainey, que lidera o Army Futures Command, a organização da Força responsável pela sua modernização, disse que esta precisa adaptar sua estratégia de artilharia com base tanto no “que está acontecendo na Ucrânia”, quanto no que o Exército dos EUA no Pacífico exige dos fogos convencionais.

“Tudo o que vemos na Ucrânia [é] sobre a relevância dos tiros de precisão, de toda a tecnologia emergente, mas o grande assassino no campo de batalha é a artilharia convencional, a artilharia de alto explosivo”, disse ele.

O Exército dos EUA planeja emitir uma nova estratégia de fogos convencionais até o final do ano, acrescentou.

A Ucrânia e a Rússia travam batalhas diárias de artilharia pesada. Os EUA e os seus parceiros e aliados enviaram uma grande variedade de armas de artilharia, incluindo o Sistema de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade , ou HIMARS, e milhões de munições para combater o poder de fogo da Rússia.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, atribuiu ao HIMARS o fato de ter feito uma “enorme diferença” na libertação de áreas críticas do país sob ocupação russa.

A guerra na Ucrânia também deixou claro que a artilharia ainda é crítica, disse o tenente-general reformado Ben Hodges, que anteriormente liderou o Exército dos EUA na Europa. É necessária uma abordagem em camadas para a artilharia em formações – ou seja, o uso de sistemas rebocados ou móveis com diferentes tipos de munições que atingem diferentes alcances –, disse ele.

Um homem caminha em cima de um tanque russo danificado em Dmytrivka, Ucrânia. (Karl Ritter/AP)

A nova estratégia de artilharia determinará a capacidade existente, ao mesmo tempo que detalhará as necessidades futuras, disse Rainey. A estratégia também considerará novas tecnologias para melhorar os disparos convencionais no campo de batalha, tais como avanços nos propulsores que permitem que canhões de médio alcance disparem até sistemas de longo alcance.

O documento também abordará o papel da robótica, como os carregadores automáticos de munições. O Exército fez experiências com tecnologias como carregadores automáticos, que aliviam o fardo dos operadores de artilharia e melhoram as taxas de disparo.

O chefe de aquisições do Exército, Doug Bush, disse ao Defense News em setembro que a estratégia de fogos orientará decisões importantes dentro de seu portfólio, incluindo como cumprir o requisito de Artilharia de Canhão de Alcance Estendido.

“A estratégia analisa uma combinação de fatores”, disse Bush. “Onde você precisa de artilharia rebocada versus talvez rastreada versus talvez sobre rodas? O que você pode fazer com munições para obter alcance em vez de construir novos obuses?”

O Exército está desenvolvendo um sistema de artilharia de obus de alcance estendido que usa um tubo de calibre 58 construído em serviço, montado no chassi de um obus Paladin Integrated Management fabricado pela BAE Systems.

Mas o serviço em 2020 também avaliou os obuseiros móveis de 155 mm disponíveis, procurando melhorias no alcance, cadência de tiro e mobilidade em relação aos sistemas de artilharia utilizados nas equiprs de combate da brigada Stryker. O Exército avaliou as ofertas de pelo menos quatro empresas estrangeiras, mas acabou não avançando com uma nova capacidade.

Uma nova estratégia de artilharia poderia renovar o impulso para a aquisição rápida de um obus móvel de 155 mm, comprovado em campo.

“Alguns dos nossos aliados da OTAN têm equipamentos realmente bons e capacidades que nos interessam”, observou Rainey.

Bush visitou recentemente o 18º Corpo Aerotransportado, que consiste em unidades muito leves e que “ainda valorizam a artilharia rebocada, porque podem movê-la com helicópteros. ... Mas outras partes do Exército podem querer algo diferente”, disse ele.

Dar uma nova olhada em um obus móvel pronto para uso faz parte do alcance da estratégia, observou ele. “Do ponto de vista da aquisição, se eu receber uma exigência, temos algumas opções para avançar muito rapidamente, se for aceitável, por exemplo, adotar um sistema estrangeiro em vez de construir um novo a partir do zero”, disse Bush.

“A lição geral é que ainda precisamos de artilharia. É o assassino número 1 no campo de batalha, ainda neste conflito [na Ucrânia]”, disse ele.

Uma nova visão sobre tanques
O Exército em Setembro, depois de observar munições vagantes (drones kamikazes) destruindo tanques na Ucrânia e observar ambos os lados lutando para manobrar tanques no campo de batalha, optou por descartar seu plano de atualização para o tanque M1 Abrams e, em vez disso, buscar uma nova variante: o M1E3.

O tanque Abrams “não pode mais aumentar suas capacidades sem adicionar peso, e precisamos reduzir sua pegada logística”, disse o major-general Glenn Dean, oficial executivo do programa do Exército para sistemas de combate terrestre, em comunicado na época. “A guerra na Ucrânia destacou uma necessidade crítica de proteção integrada para os soldados, construída a partir de dentro, em vez de complementar.”

O tanque Abrams “com todos os seus enfeites de capô já é muito pesado”, disse Hodges ao Defense News. “Ficar mais pesado não é a resposta.”

Parte do novo esforço irá aliviar o peso do tanque, aumentando a sua mobilidade e sustentabilidade. Hoje, se um tanque quebra ou é atingido em combate, são necessários dois veículos de recuperação para retirá-lo do combate. Reduzir o peso do tanque ajudaria, disse Dean.

O novo design também pretende integrar capacidade de proteção ativa, incluindo proteção contra ataques ao telhado por munições e drones vagantes.

Um soldado ucraniano equipa um drone com granadas na região de Donetsk em 15 de março de 2023. (Roman Chop/AP)

Dean disse ao Defense News em uma entrevista recente que o novo design considerará como reduzir a cadeia de suprimentos e facilitar a manutenção do veículo no campo de batalha. Também melhorará a confiabilidade.

A Ucrânia começou a receber os seus 31 tanques M1 Abrams dos militares dos EUA, e o Exército dos EUA provavelmente aprenderá em breve mais sobre como o tanque se comporta contra os russos, disse Dean.

O tanque “continua muito, muito relevante”, disse a secretária do Exército, Christine Wormuth, num recente evento de reflexão. “As alegações de que estamos vendo o fim do valor dos tanques foram um pouco prematuras.”

Segundo relatos, nos primeiros dois meses da guerra, a Rússia perdeu bem mais de 400 tanques, estimulando um debate sobre se os tanques eram demasiado pesados ​​para o campo de batalha moderno.

Wormuth reconheceu que as munições que podem atingir o topo de veículos blindados e tanques continuam a ser um desafio e disse que “estamos a trabalhar para desenvolver capacidades de defesa contra isso”.

Dean, observando que não poderia discutir detalhes, disse que o Exército está trabalhando extensivamente em como proteger tanques e veículos de combate contra munições vagantes. As munições vagantes destroem regularmente tanques e veículos de combate tanto do lado ucraniano como do lado russo.

“Temos que melhorar na derrota no ataque de topo”, disse Rainey no AUSA Warfighter Summit em julho. “É solucionável.”

Embora a Força tenha se concentrado há muito tempo na proteção lateral dos veículos de combate e tenha integrado o sistema de proteção ativa Rafael's Trophy no tanque M1 Abrams, a proteção diminuiu a mobilidade do tanque. O mesmo problema se aplica aos kits APS, que fornecem proteção contra armas anti-tanque. A Força ainda não colocou em campo APS no veículo de combate Stryker ou no veículo de combate de infantaria Bradley.

Movendo-se em minutos
O Exército há muito que estabelece postos de comando elaborados no campo de batalha, montando tendas climatizadas e equipadas com geradores. A Força disse que esses centros de operações táticas devem ficar menores, tanto em tamanho quanto em assinatura eletromagnética.

Mas a guerra na Ucrânia colocou mais pressão sobre a Força para agir.

“Já se foram os dias em que você montava um [centro de operações táticas] completo. E duas horas é tempo demais”, disse George. “Precisamos ser capazes de nos mover em minutos. Precisamos ser capazes de comandar e controlar em movimento.”

Ele observou que a guerra também provou a necessidade de uma arquitetura aberta que seja móvel e possa ser rapidamente atualizada.

O Exército “tem que consertar o que tem e então mudar para o que será a arquitetura C2 no futuro”, acrescentou George.

Ele disse ao Defense News que ficou impressionado recentemente ao observar uma unidade passando por um grande exercício e contando apenas com cinco veículos de combate Stryker e 35 pessoas para fornecer comando e controle para toda a equipe de combate da brigada. Os Strykers, equipados com laptops, tablets e rádios comerciais prontos para uso, nunca precisaram estar juntos fisicamente, pois estavam conectados por meio de uma rede que funcionava como um nó, disse George.

Wormuth também relembrou uma visita semelhante a um rodízio de treinamento em Fort Johnson, onde uma unidade havia projetado seu TOC para ser “muito mais móvel” e poder ser desmontado e montado em duas horas.

“Isso é definitivamente algo em que investiremos tempo, desenvolvendo as capacidades para fazer isso”, disse ela.

A Ucrânia ensinou ao Exército que terá de aprender a “lutar sob constante observação do espaço comercialmente disponível, do espectro eletromagnético e das redes sociais”, disse Rainey. “Teremos que descobrir como lutar quando o inimigo quiser saber onde estamos ou impedi-lo; portanto, ocultação, engano, camuflagem, táticas constantemente boas.”

Wormuth também observou que o Exército deve ser capaz de operar mesmo se os postos de comando forem cortados devido a falhas de sinais ou interferência inimiga. O Exército faz experiências nesse tipo de ambiente regularmente durante eventos como o Projeto Convergência, um grande exercício focado no desenvolvimento de uma força modernizada.

Logística remota
Os EUA rapidamente enfrentaram um desafio no início da guerra na Ucrânia. Estava enviando equipamentos complexos para a Ucrânia – mas sem mantenedores experientes para consertá-los.

Num parque de estacionamento na Polônia, poucos meses após o início da guerra, o Exército dos EUA começou a responder ao pedido de ajuda, oferecendo apoio de manutenção remota. Os mantenedores do Exército demonstraram virtualmente a manutenção aos seus homólogos ucranianos.

Desde então, o Exército expandiu a sua utilização de apoio de manutenção remota a quase todas as plataformas enviadas para a Ucrânia, incluindo as de aliados e parceiros. O serviço construiu uma instalação e um armazém de peças de reparação na Polônia e começou a oferecer conhecimentos especializados através de mensagens de texto, vídeo pré-gravado ou transmissão ao vivo.

Este esforço está agora a fornecer um roteiro para a logística futura. George disse em um evento recente que a Ucrânia está mudando a forma como o serviço “vê as coisas do lado logístico”, citando manutenção virtual e impressão 3D de peças.

Soldados dos EUA descarregam tanques M1A1 Abrams necessários para treinar as forças ucranianas em Grafenwoehr, Alemanha, em 14 de maio de 2023. (Spc. Christian Carrillo/Exército dos EUA)

O Exército está agora avaliando como aplicar a telemanutenção na região Indo-Pacífico, disse George ao Defense News.

Além disso, o Exército, observando a Ucrânia, está a preparar-se para o que chama de logística contestada, o que significa que os seus esforços logísticos estariam sob constante ataque.

“Tem havido um reconhecimento teórico de que a logística seria contestada, mas penso que o conflito na Ucrânia tornou isso realmente real para todos nós”, disse Wormuth num evento recente.

O Exército estabeleceu uma nova equipe multifuncional para logística contestada sob o Army Futures Command, focada neste desafio.

Preparando-se para o futuro
A guerra na Ucrânia, segundo os líderes das Forças Armadas, validou muitas das prioridades de modernização do Exército, definidas há pouco mais de cinco anos.

O Exército já estava concentrado no combate aos sistemas de aeronaves não tripuladas devido às operações no Médio Oriente e tinha criado um escritório conjunto no Pentágono. A utilização de drones no campo de batalha na Ucrânia acelerou os esforços para chegar a uma abordagem em camadas para derrotar os sistemas, tanto grandes como pequenos.

“A escala [dos drones no campo de batalha] tem sido surpreendente e revigorou esse foco no tipo mais baixo de defesas aéreas de curto alcance que seriam necessárias para isso”, Stacie Pettyjohn, analista de defesa do Center for a New American Security, disse ao Defense News.

Militares ucranianos pilotam um drone nos arredores de Bakhmut, leste da Ucrânia, em 30 de dezembro de 2022. (Sameer al-Doumy/AFP via Getty Images)

E nem toda tecnologia usada para derrotar drones precisa ser sofisticada. Enquanto o Exército está trabalhando em recursos de energia dirigida e micro-ondas de alta potência para se defender contra enxames de drones, “você está vendo que os ucranianos precisam de coisas como um atirador inteligente, uma mira que eles possam colocar em um rifle que lhes permita usar [inteligência artificial]. Ainda é bastante avançado, mas é esta tecnologia que melhora as armas existentes e permite que destruam alguns dos menores quadricópteros”, disse Pettyjohn.

As formações também podem precisar mudar, disse Wormuth. O Exército “provavelmente precisa ter defesa aérea orgânica com nossos disparos em nossas unidades de manobra para que possam proteger contra drones”.

A defesa aérea e antimísseis para ameaças que vão além dos drones também está recebendo nova atenção. A Rússia mostrou que usará foguetes e mísseis multimilionários contra prédios de apartamentos, disse Hodges.

Wormuth disse que o Exército está começando a aumentar a força de defesa aérea e antimísseis. A Força está em processo de construção de um batalhão Patriot adicional, mas ainda não está dedicado a um comando combatente específico. O Exército também deseja desenvolver unidades adicionais de capacidade de proteção contra fogo indireto, observou ela.

Estas novas unidades serão capazes de se defender contra mísseis de cruzeiro e drones, juntamente com foguetes, artilharia e morteiros em locais fixos e semifixos. O Exército ainda está desenvolvendo protótipos.

Ter a capacidade de ver ou sentir o máximo possível em todos os momentos é outra forma pela qual o Exército está mudando por causa da Ucrânia. “Há muito interesse em drones para serem capazes de nos fornecer [detecção persistente]”, disse Wormuth ao Defense News. “Mas teremos uma abordagem em camadas para isso... estamos investindo no [Sistema de Detecção e Exploração de Alta Precisão], plataforma de asa fixa. ... Acho que você verá aeróstatos.”

Com base na Ucrânia, “não faltam observações nas quais deveríamos pensar”, disse Rainey. E o Exército está “empenhado em transformar essas observações genuinamente em lições aprendidas”.

*Sobre Jen Judson
Jen Judson é uma jornalista premiada que cobre guerra terrestre para o Defense News. Ela também trabalhou para Politico e Inside Defense. Ela possui mestrado em jornalismo pela Universidade de Boston e bacharelado em artes pelo Kenyon College.

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