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11 outubro, 2026

Retaguarda sob fogo: o alerta de um logístico do Exército

Em artigo na Revista Doutrina Militar Terrestre, o coronel Jonathas da Costa Jardim sustenta que drones e mísseis de longo alcance acabaram com a ideia de uma retaguarda segura e propõe rever a forma como a Força Terrestre posiciona e protege suas bases logísticas



*LRCA Defense Consulting - 11/10/2026 -12h15

Durante décadas, bastou afastar os depósitos de munição, combustível e peças algumas dezenas de quilômetros da linha de frente para mantê-los fora de perigo, porque a artilharia inimiga simplesmente não chegava lá. Essa premissa, que ainda orienta os manuais do Exército Brasileiro (EB), vem sendo desmontada diariamente na Ucrânia, na Rússia e no Oriente Médio. É o que demonstra o coronel Jonathas da Costa Jardim no artigo "A vulnerabilidade de estruturas logísticas face aos sistemas de ataque de longo alcance", publicado na edição de maio a agosto de 2026 da Revista Doutrina Militar Terrestre.

O texto parte de uma constatação incômoda: pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, instalações logísticas situadas a centenas de quilômetros da linha de contato estão sendo atacadas e destruídas de forma sistemática por mísseis de cruzeiro, drones kamikaze e munições guiadas. Para o autor, não se trata de um fenômeno restrito ao teatro russo-ucraniano, mas de uma tendência que redefine o próprio conceito de vulnerabilidade logística, e o Exército precisa se preparar para ela ainda em tempo de paz.

Quem é o coronel Jonathas 
Para o leitor fora dos quartéis, o nome pode não dizer muito, mas o currículo explica por que suas análises merecem atenção. Oficial do Quadro de Material Bélico, declarado aspirante pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 2002, ele fez carreira justamente na engrenagem que mantém o Exército em condições de combater: manutenção, suprimento e transporte.

Comandou a 111ª Companhia de Apoio de Material Bélico, no biênio 2017-2018, e o Batalhão Central de Manutenção e Suprimento (BCMS), em 2024-2025. O BCMS é subordinado à Base de Apoio Logístico (Ba Ap Log), do Comando Logístico (COLOG), organização que faz a ponte entre o material produzido pela indústria e as unidades operacionais. Ou seja, o autor escreve sobre a vulnerabilidade dos nós logísticos depois de ter comandado um deles.

A formação acadêmica acompanha a experiência de tropa. Jonathas é mestre em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), concluiu o curso de Comando e Estado-Maior na ECEME (2019-2020) e obteve mestrado acadêmico em Segurança e Defesa pela Universidade de Madras, na Índia (2023). Também é bacharel em Direito, pela Universidade São José, e pós-graduado em Direito Militar, pela Fundação Trompowsky. Foi instrutor da EsAO (2012-2013) e, a partir de 2021, da ECEME, ou seja, ajudou a formar as gerações de capitães e oficiais de estado-maior que hoje planejam a logística da Força.

O currículo internacional é extenso. Fez o curso de Operações de Inteligência na Escuela de Inteligencia Militar del Ejército, na Bolívia (2014), o aperfeiçoamento de oficiais em logística na Escuela de Armas, na Argentina, e o curso de Estado-Maior de Defesa no Defense Services Staff College, na Índia (2022-2023). Atualmente, é aluno do Curso de Estado-Maior Conjunto da Academia de Defensa Militar Conjunta (ADEMIC), das Forças Armadas do Equador. Essa trajetória lhe dá uma visão comparada de como diferentes exércitos pensam o apoio ao combate.

Uma produção dedicada à logística 
O artigo mais recente é o capítulo atual de uma linha de pesquisa coerente. Em 2023, na revista PADECEME, da ECEME, Jonathas analisou a logística da guerra russo-ucraniana à luz dos fatores da decisão. Na edição de janeiro a março de 2025 da própria Doutrina Militar Terrestre, ainda como tenente-coronel e comandante do BCMS, tratou dos desafios logísticos do EB no contexto das Operações Multidomínio. Ali defendeu a criação de um Comando de Transportes Logísticos (COMTL), vinculado ao Ministério da Defesa, e apresentou o projeto do BCMS de impressão 3D de peças de reposição para rádios Harris e Motorola, itens de difícil aquisição.

Em maio de 2026, em coautoria com o tenente-coronel Átila Alves de Souza, publicou na Revista Brasileira Militar de Ciências um estudo sobre logística preditiva como multiplicador de força. O texto usa a Operação Epic Fury como exemplo de emprego de inteligência artificial na coordenação entre logística e operações e propõe indicadores de confiabilidade e disponibilidade para o EB. O fio condutor de toda essa produção é o mesmo: acompanhar as guerras em curso quase em tempo real e convertê-las em propostas concretas para a doutrina brasileira.

Uma doutrina pensada para a artilharia de tubo 
O núcleo do novo artigo é a análise dos manuais de campanha que regem a logística terrestre, em especial Logística Militar Terrestre (EB70-MC-10.238, hoje em revisão pelo Centro de Doutrina do Exército), Batalhão Logístico (EB70-MC-10.317) e Grupamento Logístico (EB70-MC-10.357). Segundo o autor, esses documentos estabelecem que as bases logísticas devem ficar "fora do alcance da artilharia do inimigo" e organizam sua defesa contra forças especiais infiltradas, mas não tratam de forma sistemática da proteção contra mísseis de cruzeiro, drones de longo alcance ou munições lançadas de aeronaves.

Na prática, o parâmetro implícito de segurança acaba sendo dado pelos próprios sistemas do EB: o obuseiro autopropulsado M109 A5+ BR, com alcance máximo de 30 km, e os foguetes do sistema ASTROS II, que vão de 30 a 90 km. Pelo critério tradicional, uma base logística de brigada posicionada a 80 km da linha de contato seria considerada segura. Contra drones com autonomia de 300 a 800 km ou mísseis de cruzeiro que passam de 1.000 km, ela está exposta. O coronel chama essa situação de "segurança ilusória".

Jonathas tem o cuidado de não acusar a doutrina de erro. Para ele, o descompasso decorre da mudança radical do cenário tecnológico nos últimos 15 anos. Ele lembra que a ideia de paralisar o inimigo atacando os nós de sua estrutura industrial e logística já existia nos anos 1930, com a Industrial Web Theory da Air Corps Tactical School norte-americana. A novidade, escreve, está na tecnologia, que tornou esses ataques mais baratos, numerosos e precisos.

A conta econômica explica a escolha dos alvos. Um drone do tipo Shahed-136 custa entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto um míssil Patriot PAC-3 usado para interceptá-lo passa de US$ 3 milhões. Do outro lado, a destruição de uma única base logística de brigada pode tirar de combate uma grande unidade inteira por dias ou semanas, com prejuízo de dezenas de milhões de dólares em material. Para quem ataca, a troca é amplamente vantajosa.

A guerra confirma o diagnóstico 
O artigo apoia o diagnóstico em casos recentes. Cita a Operação Epic Fury, com quase mil ataques nas primeiras doze horas, empregando bombardeiros B-2, caças F-22 e F-16 e mais de 160 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos a mais de 1.500 km das plataformas de lançamento. Registra também que, em maio de 2026, mais de 500 drones ucranianos de longo alcance atingiram a região de Moscou e refinarias russas, comprometendo cerca de 25% da capacidade de refino e paralisando temporariamente as unidades de Kirishi, Norsi e Ryazan. Um gráfico elaborado pelo autor mostra ataques ucranianos documentados entre 2023 e 2026 a até 1.300 km da fronteira.

Dados de outras fontes, do mesmo período, reforçam a tese. Na Ucrânia, o Ministério da Defesa lançou em maio o programa Logistics Lockdown, voltado a escalar ataques com drones de médio alcance contra a logística russa entre 20 e 150 km atrás da linha de frente. O Institute for the Study of War (ISW) contabilizou ao menos 303 ataques desse tipo em junho, quase 50% a mais que os 210 registrados em maio. Segundo a Guarda Nacional ucraniana, os russos passaram a desmontar comboios e a deslocar suprimentos em viaturas isoladas mesmo a 20 ou 70 km da frente, exatamente o tipo de dispersão forçada que o coronel descreve.

Em profundidade estratégica, a campanha contra a indústria de energia russa também se intensificou. Levantamento do Financial Times com dados da consultoria polonesa Rochan Consulting apontou pelo menos 194 ataques bem-sucedidos de drones ucranianos contra refinarias russas desde o início de 2026, com recorde de 16 em maio. Em julho, Kiev atingiu uma refinaria em Ufa, a mais de 1.300 km da linha de frente.

No Oriente Médio, segundo o Comando Central norte-americano, a Operação Epic Fury, iniciada pelos Estados Unidos com Israel em 28 de fevereiro de 2026, mirou desde o primeiro momento centros de comando e controle da Guarda Revolucionária, defesas antiaéreas, locais de lançamento de mísseis e drones e bases aéreas iranianas. O Comando Central norte-americano informou que a força-tarefa Scorpion Strike empregou, pela primeira vez em combate, drones de ataque de mão única de baixo custo. A retaliação iraniana, por sua vez, atingiu infraestrutura de energia no Golfo, com incêndio em um polo petrolífero saudita e interrupção temporária da produção de gás natural liquefeito no Catar. Nos dois teatros, as cadeias de suprimento viraram alvo prioritário.

A retaguarda como zona de combate 
Um dos pontos mais fortes do artigo é a análise do Warfighter Exercise 26-03, conduzido pelo V Corps do Exército dos Estados Unidos em março de 2026, na Polônia (Camp Kościuszko) e em Fort Knox, com divisões alemã, lituana e polonesa da OTAN. A principal lição registrada foi que a área de retaguarda deixou de ser um espaço logístico passivo e passou a ser uma zona de combate ativa, que exige comando e controle próprio, defesa antiaérea integrada e poder de combate dedicado.

No exercício, as Maneuver Enhancement Brigades norte-americanas, especializadas em segurança da retaguarda, só protegeram a área de forma eficaz quando reforçadas por uma força-tarefa de infantaria mecanizada com artilharia de 155 mm, morteiros e viaturas blindadas armadas com canhões de 30 mm. Para o autor, se até um exército tecnologicamente superior enfrenta lacunas em defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e mobilidade na retaguarda, o EB, que não dispõe de estruturas equivalentes, precisa olhar para o problema com urgência.

Antiaérea para quem abastece a tropa 
O coronel aponta uma fragilidade estrutural: os grupamentos e batalhões logísticos não possuem artilharia antiaérea orgânica, e o menor escalão que a possui é a brigada. Como as prioridades de defesa antiaérea são definidas pelo comandante a partir da análise de vulnerabilidade, importância, recuperabilidade e possibilidades do inimigo aéreo (fatores VIRP), as instalações logísticas raramente aparecem no topo da lista. Em combate de alta intensidade, os meios disponíveis tendem a ir para os elementos de manobra, deixando janelas de vulnerabilidade exploráveis pelo adversário. Na síntese do autor, a necessidade é maior que a disponibilidade.

O que o autor propõe 
A primeira proposta é a dispersão. Em vez de grandes bases concentradas, Jonathas defende fragmentar a base logística de brigada em destacamentos logísticos geograficamente dispersos, capazes de operar de 48 a 72 horas sem apoio externo, e apoiados por hubs logísticos distribuídos em profundidade. Para reduzir a cauda logística, sugere investir em manufatura aditiva em combate, telemanutenção, plataformas elétricas de transporte com baixa assinatura térmica e acústica e fontes de energia renovável.

A segunda é elevar a prioridade antiaérea das estruturas logísticas no exame de situação, com defesa em camadas composta por mísseis portáteis (Manpads), sistemas anti-SARP com guerra eletrônica, detecção acústica e por radiofrequência, canhões de 20 a 30 mm com munição programável e radares de vigilância para alvos lentos e de baixa altitude. Ele vincula a proposta ao Programa Estratégico Sentinela, dedicado à defesa antiaérea da Força Terrestre e um dos sete programas prioritários do Portfólio Estratégico do Exército, aprovado pelo Estado-Maior em 4 de março de 2026, e sugere considerar capacidades inspiradas no Iron Dome israelense para proteger estruturas críticas e a Base Industrial de Defesa (BID).

A terceira é substituir o critério único de distância por "Zonas de Risco Logístico Escalonadas": uma faixa vermelha, de 0 a 200 km da linha de contato, com dispersão máxima, defesa antiaérea integral e camuflagem; uma amarela, de 200 a 500 km, com dispersão recomendada e antiaérea seletiva; e uma verde, acima de 500 km, com vigilância e planos de contingência. O autor recomenda incorporar o modelo aos exercícios da EsAO e da ECEME, para que os jovens líderes aprendam desde cedo a tratar a proteção da logística como prioridade.

A Zona de Interior também está no alcance 
O artigo vai além do campo de batalha. Jonathas lembra que a BID e as instalações logísticas centrais, como a Base de Apoio Logístico do Exército, formam o elo entre a capacidade produtiva e o emprego operacional. Mesmo com as fábricas intactas, a destruição desse nó interromperia o fluxo para a zona de combate por meses. Em território nacional, tais instalações podem ser alcançadas por mísseis lançados de navios ou submarinos, por aeronaves operando em standoff com armamento de mais de 300 km de alcance ou por forças que atuem por meio de proxies.

O autor reconhece que as ameaças potenciais ao País não dispõem hoje desses sistemas. O argumento é que estruturas permanentes, adestramento conjunto e subordinações claras não surgem no momento do conflito e precisam ser construídos antes. Por isso, conclui que integrar a defesa antiaérea à logística, criar redundância geográfica de capacidades produtivas e desenvolver sistemas nacionais de ataque de longo alcance são investimentos estratégicos para preservar a autonomia operacional brasileira.

O Exército já se movimenta 
As propostas chegam em um momento em que a Força começa a reagir ao problema. Entre o fim de julho e o início de agosto de 2026, o Comando de Defesa Antiaérea do Exército conduziu em Formosa (GO) o exercício Sagitta Primus 2026, com mais de 500 militares de 23 organizações militares e participação da Força Aérea Brasileira. Pela primeira vez, o exercício incluiu uma experimentação doutrinária com uma seção anti-SARP, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército, e demonstrações de empresas da BID. O próprio coronel cita o exercício entre suas referências.

Em março, o Exército entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano de R$ 456 bilhões em investimentos até 2040, no qual a ausência de defesa antiaérea de média altura aparece como uma das lacunas mais graves. Também está prevista para 2026 a contratação de um sistema de defesa antiaérea de até R$ 3,4 bilhões, apresentado como capaz de interceptar drones e mísseis de cruzeiro. O artigo de Jonathas acrescenta a esse debate uma pergunta que costuma ficar em segundo plano: quem vai proteger quem abastece a tropa.

O texto abre com uma frase atribuída ao general Dwight D. Eisenhower, segundo a qual batalhas, campanhas e guerras são ganhas ou perdidas principalmente pela logística. O que o coronel acrescenta é que, na guerra de 2026, a logística deixou de estar a salvo apenas por estar longe.

07 junho, 2026

O fim da retaguarda segura: guerra de drones no coração do poder russo

Ucrânia ataca São Petersburgo durante o Fórum Econômico Internacional (SPIEF 2026) que ocorreu na cidade russa e redefine os limites da guerra moderna 


*LRCA Defense Consulting - 07/06/2026

Este texto tem como ponto de partida a análise publicada por Marco K. (Cobalt Academy Inc.) no LinkedIn em 3 de junho de 2026, complementada com informações da NPR, CNN, Reuters, NBC News e The War Zone também sobre o ataque de 6 de junho.

O palco e o alvo
Entre 3 e 6 de junho de 2026, São Petersburgo sediou a 29ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), principal vitrine de investimentos da Rússia, batizado pela imprensa ocidental de "o Davos de Putin". Sob o lema "Diálogo pragmático: o caminho para um futuro estável", o evento reuniu mais de 20.000 participantes de 130 países, com representantes governamentais de 76 nações. O presidente russo Vladimir Putin discursou na sessão plenária do dia 5. Pela primeira vez em sete anos, uma delegação oficial dos Estados Unidos marcou presença, liderada por Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes americanas.

Na madrugada de 3 de junho, horas antes da abertura do fórum, drones ucranianos de longo alcance percorreram mais de 1.000 quilômetros e atacaram São Petersburgo e sua região. O terminal de exportação de petróleo da cidade foi incendiado. Na base naval de Kronstadt, ilha a oeste da cidade e berço histórico da Frota do Báltico da Rússia, a corveta de mísseis guiados Boikiy foi atingida enquanto estava em dique seco. Uma fábrica de armamentos na região de Tambov, a 600 quilômetros da Ucrânia, também foi atacada na mesma operação. Nos dias seguintes, novos ataques se repetiram. Na madrugada de 6 de junho, último dia do fórum, mais de 140 drones foram abatidos sobre a região de Leningrado, segundo o governador Aleksandr Drozdenko. O aeroporto Pulkovo foi paralisado, com dezenas de voos cancelados ou desviados.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia telegrafado a intenção dos ataques dois dias antes, em carta aberta na qual afirmou que muitos ucranianos apoiariam que drones fizessem "uma visita" ao SPIEF. A Rússia respondeu com ameaças de retaliação "sistêmica". Putin, interrogado sobre a carta, a classificou de "rude" e "insolente" e descartou a proposta de encontro com Zelensky.

Efeito estratégico sem bombardeiro estratégico
A análise de Marco K. identifica nessa operação uma das lições mais importantes que emergem do conflito: efeitos estratégicos já não exigem plataformas estratégicas. Durante a maior parte do século XX, atacar alvos em profundidade no território inimigo exigia frotas de bombardeiros, aviões de caça avançados e amplo apoio logístico, capacidades restritas às grandes potências militares. O surgimento de sistemas não tripulados de longo alcance alterou essa equação de forma fundamental.

Drones relativamente baratos são agora capazes de produzir consequências antes associadas a grandes campanhas aéreas: interromper redes de transporte, forçar respostas de defesa aérea, afetar sistemas de comunicação, gerar incerteza entre investidores e dominar os noticiários internacionais. O impacto econômico dessas interrupções frequentemente supera o valor dos próprios alvos físicos.

A corveta Boikiy é um exemplo concreto. Segundo a CNN, o navio era utilizado para escoltar embarcações da frota fantasma de petróleo russa, mecanismo pelo qual Moscou tenta driblar sanções ocidentais ao exportar combustível por rotas alternativas. Ao atacar esse ativo no dia de abertura do SPIEF, a Ucrânia comprometeu, em um único golpe, um vetor logístico do comércio clandestino e o cenário de normalidade econômica que a Rússia buscava projetar aos investidores presentes.

 

Drones ucranianos do SBU, em colaboração com as Forças de Operações Especiais executaram a destruição da corveta Boikiy da Marinha Russa em seu dique seco em Kronstadt e do 15º Arsenal Naval da Marinha Russa em Bolshaya Izhorade (Região de Leningrado / São Petersburgo); também do depósito de petróleo em Ust-Labinsk, no sul da Rússia, a mais de 2.000 quilômetros de distância de São Petersburgo

 

A confiança como ativo estratégico
A escolha do momento não foi acidental. O SPIEF serve como plataforma pela qual a Rússia busca fortalecer relações econômicas, atrair investimentos estrangeiros e demonstrar resiliência apesar das sanções em curso. A presença de delegações de 130 países, a primeira participação americana desde 2019 e a delegação empresarial alemã sinalizam que Moscou vinha construindo uma narrativa de retorno à normalidade diplomática e econômica.

A operação ucraniana inseriu na pauta do fórum uma variável que os organizadores não tinham planejado: a vulnerabilidade da própria cidade-sede. Interrupções no aeroporto, alertas de emergência, colunas de fumaça negra visíveis sobre a zona portuária e ampla cobertura internacional competiram, durante todo o evento, com os anúncios de acordos e investimentos. Como observa Marco K., a guerra moderna reconhece que a confiança é em si um ativo estratégico, e operações que desafiam a percepção de estabilidade geram efeitos que vão muito além dos danos físicos de um ataque isolado.

A convergência entre guerra e pressão econômica
O ataque ao SPIEF 2026 ilustra uma tendência estrutural nos conflitos contemporâneos: a convergência entre operações militares e guerra econômica. Tradicionalmente, a pressão econômica era exercida por meio de sanções, restrições comerciais ou bloqueios. Os drones oferecem agora um mecanismo pelo qual um Estado pode impor custos e criar incerteza sem a necessidade de operações militares convencionais em larga escala.

Essa dimensão vai além dos custos imediatos de reparos. Tarifas de seguros, cronogramas de transporte, confiança de investidores, requisitos de proteção de infraestrutura e gastos com segurança são influenciados pela percepção de que instalações críticas permanecem vulneráveis. Em muitos casos, os custos de longo prazo de defesa contra drones excedem o valor dos sistemas que realizam os ataques. O atacante investe relativamente pouco; o defensor precisa destinar recursos substanciais a radares, guerra eletrônica, mísseis interceptores e segurança física.

O fim da retaguarda segura
Talvez a implicação mais profunda do episódio seja a erosão do conceito de retaguarda segura. Por gerações, os planejadores militares distinguiram entre zonas de combate e áreas situadas a centenas de quilômetros das linhas de frente, tidas como praticamente imunes a ataques rotineiros. São Petersburgo fica a mais de 1.000 quilômetros da Ucrânia.

A guerra moderna com drones está eliminando rapidamente essa distinção. Sistemas de longo alcance continuam a expandir o alcance geográfico das operações, colocando um número crescente de alvos ao alcance de ataque. Aeroportos, portos, instalações de energia, centros logísticos, redes de comunicação e instalações industriais enfrentarão riscos crescentes em futuros conflitos, mesmo localizados longe dos campos de batalha convencionais.

O ataque à base naval de Kronstadt é simbólico nesse sentido. Kronstadt é o principal centro de reparo, suprimento e formação naval da Rússia no Báltico oriental, berço histórico da marinha czarista e soviética. Atingi-la com drones lançados do território ucraniano representa não apenas um resultado tático, mas uma demonstração de capacidade com efeito dissuasório e psicológico sobre toda a estrutura de defesa russa.

Imagens do satélite Sentinel-2 confirmaram o que as autoridades russas locais inicialmente negaram: drones de ataque ucranianos de longo alcance atingiram, em 06 de junho, o 15º Arsenal Naval da Marinha Russa em Bolshaya Izhora, na região de Leningrado

O que muda na guerra moderna
A análise de Marco K., fundador da Cobalt Academy Inc. e veterano de combate, sintetiza bem a mudança em curso: a guerra com drones evoluiu de uma capacidade tática para um instrumento estratégico de poder nacional. Sistemas não tripulados não se limitam mais a reconhecimento ou apoio no campo de batalha. Eles são empregados para moldar o comportamento econômico, influenciar decisões políticas, desafiar a confiança pública e gerar atenção internacional.

O episódio do SPIEF 2026 reúne, em um só evento, todas essas dimensões: um alvo militar de alto valor (a corveta Boikiy), um alvo de infraestrutura energética com impacto direto sobre as receitas de exportação (o terminal de petróleo), e um alvo psicológico e simbólico de primeira grandeza (o próprio fórum econômico, transmitido ao vivo para o mundo inteiro).

Para analistas de defesa e formuladores de política de segurança, a lição que se extrai de São Petersburgo não é restrita ao conflito russo-ucraniano. Ela aponta para um novo paradigma de guerra em que a fronteira entre o campo de batalha e a vida econômica e política da nação adversária se torna cada vez mais tênue, e em que o custo de entrada para produzir efeitos estratégicos é, a cada ano, mais acessível.

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