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08 setembro, 2026

Do orçamento às fronteiras: drones ganham novo peso na Defesa brasileira

Fala de José Múcio encontra respaldo em uma das maiores dotações de investimento da Força Terrestre, com R$ 520 milhões para a ação Aviação do Exército e Drones; SISFRON recebe outros R$ 467 milhões



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LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que o Brasil deverá investir fortemente em drones para reforçar a proteção das fronteiras encontra respaldo direto na programação orçamentária proposta para 2027. O PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação “Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones” e outros R$ 467 milhões ao SISFRON, sistema destinado ao monitoramento das fronteiras terrestres.

Os valores não significam que R$ 520 milhões serão destinados exclusivamente à compra de drones. A ação 3138 reúne capacidades da Aviação do Exército e sistemas não tripulados. Ainda assim, a presença explícita de “Drones” no título da ação e sua posição entre os maiores projetos de investimento do Exército revelam uma prioridade que ganha especial significado após a manifestação do ministro. 

Múcio aponta os drones como multiplicadores de força 
Em entrevista à coluna de Matheus Leitão, publicada pelo Metrópoles em 8 de setembro, Múcio afirmou que as Forças Armadas investirão “muito” na aquisição de drones para reforçar a proteção das fronteiras. O ministro disse que o Brasil mantém atualmente cerca de 20 mil militares nessa faixa do território e considerou o contingente insuficiente diante da extensão territorial do País.

Segundo Múcio, os drones terão a função de ampliar a capacidade de vigilância sem depender exclusivamente da expansão do efetivo. Ele citou a experiência da Ucrânia e apontou China e Turquia como referências tecnológicas. O ministro também afirmou que pretende visitar fábricas de drones nesses dois países e relatou que fabricantes brasileiros já haviam apresentado equipamentos ao Ministério da Defesa. 

O orçamento já coloca os drones entre os grandes projetos do Exército 

O PLOA 2027 prevê, no âmbito do Exército, R$ 1,02 bilhão para a Implantação do Projeto Forças Blindadas, R$ 671,4 milhões para o sistema ASTROS-FOGOS, R$ 520 milhões para a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões para o SISFRON. A ação de Aviação do Exército e Drones, portanto, figura entre as quatro maiores iniciativas de investimento da Força Terrestre.

A proposta orçamentária não identifica fabricantes, modelos ou quantidade de drones que poderão ser adquiridos. Também não é possível atribuir toda a dotação de R$ 520 milhões a aeronaves remotamente pilotadas, pois a ação abrange outras capacidades da Aviação do Exército. O dado seguro é que o planejamento orçamentário de 2027 passa a explicitar os drones como componente próprio da ação.
 
Drones e SISFRON formam uma combinação estratégica 
A proximidade entre as duas dotações é relevante. O SISFRON foi concebido como uma arquitetura de vigilância, monitoramento, comunicações, inteligência e comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo da faixa de fronteira. A incorporação de SARP e outros vetores aéreos não tripulados permite levar sensores a áreas onde a presença permanente de tropas ou de infraestrutura fixa é limitada.

O PLOA 2027, nesse sentido, combina dois instrumentos complementares: uma ação de R$ 520 milhões que agora explicita os drones e uma ação de R$ 467 milhões destinada ao SISFRON. Somadas, as duas dotações alcançam R$ 987 milhões, embora constituam ações orçamentárias distintas e não possam ser tratadas como uma única verba para aquisição de drones.
 
A experiência com o Nauru 1000C coloca a XMobots em posição privilegiada 
Entre as empresas brasileiras, a XMobots apresenta o caso público mais consistente de aderência às necessidades do Exército. O Nauru 1000C foi selecionado para a Aviação do Exército como SARP Categoria 2 e passou por avaliação técnica e operacional e experimentação doutrinária. Em 2024, o sistema foi empregado em experimentação com tropa no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Sant’Ana do Livramento, justamente em ambiente associado à missão de vigilância de fronteira.

O sistema reúne três aeronaves, estações de controle, sensores eletro-ópticos, radares e outros equipamentos de apoio. A XMobots informou recentemente ao LRCA que já acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações em sua família de plataformas e que sua capacidade instalada supera duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas Nauru e o sensor XSIS 222A.

A empresa também vem ampliando a família Nauru. O Nauru 100D, de menor porte, emprega arquitetura eVTOL e foi apresentado em versões de inteligência, vigilância e reconhecimento e, posteriormente, como plataforma armada. Essa amplitude de portfólio pode permitir ao Exército trabalhar com diferentes categorias de SARP em uma arquitetura escalonada. 

Stella Tecnologia amplia a oferta nacional para sistemas de maior porte 
Outra empresa a ser acompanhada é a Stella Tecnologia, responsável pelo desenvolvimento do SARP Atobá. A plataforma foi concebida para missões de vigilância e monitoramento de grandes áreas e possui autonomia muito superior à de pequenos sistemas táticos. O LRCA registrou ainda a existência do projeto Condor, de maior porte e voltado ao monitoramento persistente de fronteiras.

A parceria da Stella com a Thales e a Omnisys acrescenta uma dimensão importante: sensores, sistemas de bordo, comunicações e integração de capacidades. Isso reforça a possibilidade de que futuros programas sejam estruturados não apenas em torno da aeronave, mas de todo o sistema de missão. 

Harpia amplia as opções da BID para vigilância de longo alcance 
Outro sistema que merece atenção nesse cenário é o Harpia, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD). O SARP de asa fixa foi concebido para missões de vigilância e reconhecimento em grandes áreas e apresenta características particularmente adequadas às dimensões e às condições geográficas brasileiras.

O Harpia possui autonomia de até 12 horas, pode ser lançado por catapulta e recuperado por paraquedas e airbag, dispensando pista convencional. Seu sistema de comunicação foi certificado para operações BVLOS a até 180 quilômetros da estação de pilotagem, enquanto a aeronave pode percorrer distâncias muito superiores em sua autonomia de voo. A plataforma também pode receber diferentes cargas úteis, incluindo sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética e equipamentos de guerra eletrônica.

A maturidade do sistema é outro fator relevante. Em abril de 2026, o Harpia recebeu a Autorização de Projeto da ANAC, permitindo sua produção em série, e posteriormente obteve o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA. A AdTech SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa, enquanto o Harpia integra a relação de Produtos Estratégicos de Defesa.

A plataforma também já apresenta experiência operacional. O Governo do Acre adquiriu o sistema para emprego integrado pelos órgãos estaduais de segurança, e o Harpia vem sendo considerado para aplicações em outras regiões de difícil acesso. Em julho de 2026, o sistema participou da Operação Furnas, da Marinha do Brasil, onde foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento em ambiente ribeirinho. A participação ocorreu em meio à avaliação do equipamento para o futuro Programa SARP-E da Marinha.

Para o Exército, o interesse potencial é evidente. As mesmas características que tornam o Harpia adequado ao monitoramento de áreas ribeirinhas, florestais e de difícil acesso também podem ser aplicadas à vigilância de extensos trechos de fronteira. Seu emprego poderia ocupar uma camada intermediária entre pequenos drones táticos e sistemas de maior porte, oferecendo autonomia elevada, mobilidade e capacidade de operar sem infraestrutura aeroportuária convencional.

Akaer, AEL Sistemas e Santos Lab também permanecem relevantes nesse ecossistema. A Akaer possui competências em engenharia aeronáutica e sistemas não tripulados; a AEL Sistemas reúne experiência em SARP, sensores, comunicações e integração de sistemas; e a Santos Lab mantém uma posição consolidada no segmento de plataformas menores, como a família Carcará. O ponto central é que a BID brasileira não depende de uma única solução: há um conjunto crescente de empresas capazes de atender diferentes camadas de uma futura arquitetura nacional de sistemas não tripulados.

Uma arquitetura em camadas pode ser mais provável do que um único drone 
A extensão das fronteiras brasileiras e a variedade de missões sugerem que uma eventual expansão não deverá depender de um único modelo. Pequenos sistemas podem apoiar unidades em missões de reconhecimento local; SARP de Categoria 2 podem proporcionar vigilância tática e operacional; plataformas de maior porte podem realizar missões persistentes sobre grandes áreas.

Nessa arquitetura, a aeronave é apenas um dos elementos. Sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radares, enlaces de dados, estações de controle, processamento de imagens, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras e integração com o SISFRON são componentes igualmente importantes.

O impacto potencial para a Base Industrial de Defesa
A dimensão dos recursos previstos pode produzir efeitos que vão muito além da eventual compra de aeronaves. Um programa de expansão de SARP tende a movimentar fornecedores de sensores, aviônicos, comunicações, software, inteligência artificial, propulsão, estruturas, baterias, estações de controle, logística e manutenção.

Esse aspecto é especialmente relevante porque o Brasil já possui uma cadeia tecnológica capaz de fornecer parte considerável desses elementos. O desafio será transformar competências dispersas em uma arquitetura integrada, com produção em escala, disponibilidade operacional, atualização tecnológica e capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

A XMobots é um exemplo dessa verticalização. Segundo informações divulgadas pela própria empresa e repercutidas pelo LRCA, mais de R$ 220 milhões foram destinados desde 2022 ao desenvolvimento de soluções de Defesa e Segurança. A empresa também afirma possuir uma estrutura que integra engenharia aeronáutica, software embarcado, aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
 
O que ainda não está definido 
É importante evitar interpretações que o PLOA não permite sustentar. A proposta não informa quantos drones serão comprados, quais modelos serão selecionados, quais empresas participarão de futuras concorrências ou qual parcela dos R$ 520 milhões será efetivamente aplicada em sistemas não tripulados.

Além disso, o PLOA é uma proposta. O texto ainda passa pelo Congresso Nacional, pode sofrer alterações e, depois de aprovado e sancionado, sua execução dependerá da programação financeira e da disponibilidade efetiva de recursos.
 
Uma mudança de patamar 
Mesmo com essas ressalvas, há uma mudança qualitativa. O Exército já emprega SARP nacionais e vem experimentando sua utilização em diferentes ambientes. O PLOA 2027 agora explicita “Drones” no nome de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre, ao mesmo tempo em que mantém uma dotação robusta para o SISFRON.

A declaração de José Múcio, portanto, deve ser lida menos como uma ideia isolada e mais como uma manifestação política que converge com uma linha de planejamento já refletida na proposta orçamentária. Se os recursos forem preservados e transformados em contratos, o País poderá assistir a uma expansão significativa do emprego de sistemas não tripulados na vigilância das fronteiras.

Para a Base Industrial de Defesa, a oportunidade é ainda maior: o programa poderá representar não apenas a aquisição de aeronaves, mas a consolidação de uma cadeia nacional de sistemas autônomos, sensores e comando e controle. Nesse cenário, o desafio será fazer com que o investimento em drones se traduza em capacidade operacional permanente, autonomia tecnológica e maior presença brasileira em um dos segmentos que mais rapidamente transformam a guerra e a vigilância territorial.

03 setembro, 2026

Do laboratório da USP às Forças Armadas: como a XMobots construiu uma indústria brasileira de drones de combate

Com mais de R$ 220 milhões investidos em soluções de Defesa desde 2022, empresa de São Carlos verticaliza tecnologia, avança em drones armados e mira operações navais e enxames autônomos 

Nauru 1000C armado com míssil MBDA Enforcer Air


*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A XMobots, fabricante brasileira de veículos aéreos não tripulados sediada em São Carlos, interior de São Paulo, informou ter destinado mais de R$ 220 milhões, desde 2022, ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança. O valor, revelado pela própria empresa, soma-se a outros R$ 11 milhões aplicados entre 2010 e 2022 em projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 


Reinaldo Junior - Diretor de Defesa da XMobots

Fundada em 2007 por Giovani Amianti, então estudante de mestrado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a empresa nasceu incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da própria universidade (Cietec-USP). Quase duas décadas depois, tornou-se a única fabricante brasileira de drones próprios fornecidos simultaneamente ao Exército Brasileiro, à Marinha do Brasil, à Receita Federal e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), além de ocupar, segundo o ranking da consultoria alemã Drone Industry Insights, a sexta posição entre as maiores empresas de drones do mundo. 

Uma cadeia produtiva verticalizada dentro de casa 
Com sede em São Carlos, polo aeronáutico e universitário do interior paulista, a XMobots conta atualmente com quadro de funcionários que já superou 500 colaboradores, mais da metade deles engenheiros de diferentes especialidades. Essa estrutura sustenta o principal diferencial da empresa: a verticalização de toda a cadeia tecnológica e produtiva, da engenharia aeronáutica ao software embarcado, passando por aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.

Segundo a empresa, essa integração reduz peso, potência e custo dos sistemas, em abordagem que a companhia compara à lógica adotada pela Apple na integração entre software e hardware. A capacidade instalada de produção já ultrapassa duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas da linha Nauru e o sensor XSIS 222A. 

Linha de produção do Nauru 1000C

Nauru 1000C do Exército Brasileiro

Família Nauru: da vigilância tática ao ataque com munição 
O portfólio militar da XMobots está reunido na Família Nauru, conjunto de plataformas de diferentes portes e capacidades voltadas a missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos, a chamada ISTAR.

O menor da linha, o Nauru 100D, pesa 9 kg, emprega tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) e alcança até seis horas de autonomia em campanha, com alcance de 30 quilômetros. Sua evolução armada, o Nauru 100D UCAV, foi apresentada ao Alto Comando do Exército em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, e voltou a ser exibida em abril, na LAAD Security Milipol Brazil, com direito a demonstração conjunta das versões ISR e UCAV que atingiu o alvo com precisão de 1,4 metro.

O Nauru 500C ISR, de 25 kg e autonomia de quatro horas, foi o primeiro VTOL autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a operar além da linha de visada visual (BVLOS) no país, incluindo autorização inédita para voos noturnos obtida em 2024. Está hoje em uso pelo Censipam, pela Marinha do Brasil e pela Polícia Militar de Santa Catarina, além de empresas do setor de celulose.

Já o Nauru 1000C ISTAR, com 181 kg e autonomia de dez horas, é o modelo mais robusto em operação, entregue ao 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté, no interior paulista, em dezembro de 2022. Passou por avaliação técnica e operacional do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), concluída em julho de 2024, e por experimentação doutrinária encerrada em dezembro do mesmo ano, tendo ainda participado das operações Perseu (novembro de 2024) e IVR (março de 2025), esta última conjunta entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Ao longo de sua trajetória, a Família Nauru acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações, distribuídas entre mais de 1.500 voos do Nauru 100D, aproximadamente 2.600 do Nauru 500C e cerca de 800 do Nauru 1000C. 


Nauru 100D na versão bombardeiro (acima) e em voo noturno (abaixo)

Sensores, aviônicos e navegação: a arquitetura por trás dos drones 
Por trás das plataformas está uma arquitetura tecnológica própria, desenvolvida progressivamente pela empresa. Ela inclui os softwares de comando e controle XCockpit e XSIS Manager; o sistema de gerenciamento automático de bordo AMS XG, de sétima geração, que aplica redundâncias e aciona paraquedas em caso de falha; a navegação por filtro de Kalman estendido (EKF); o controle robusto TECS (Total Energy Control System); e o enlace de rádio definido por software com salto de frequência (FHSS), que blinda as comunicações contra tentativas de bloqueio deliberado, o jamming.

A empresa aposta ainda em baterias de lítio-íon em estado semi-sólido com troca rápida em campo (quick-connect), estruturas em polímeros avançados, espumas de impacto e tubos de carbono, e em manufatura aditiva combinada à injeção plástica para produção em escala.

No campo dos sensores, o XSIS 222A, de aproximadamente 6 kg e arquitetura compacta de baixo peso, consumo e tamanho (SWaP), integra imageamento diurno e noturno, câmera térmica, telêmetro a laser, rastreamento automático de alvos e leitura de placas veiculares por inteligência artificial. Desenvolvido originalmente para o Nauru 1000C ISTAR, o sensor já é adaptado também a helicópteros tripulados, como o Airbus AS350.

A empresa destaca ainda um algoritmo próprio de lançamento de alta precisão, testado no Nauru 100D UCAV com erro circular provável inferior a 2 metros, que corrige em tempo real os efeitos do vento e da velocidade sobre a munição, dispensando ajustes manuais do operador e permitindo que a aeronave seja recuperada, rearmada e reempregada em novas missões. 

Nauru 1000C ISTAR com sensor XSIS 222A

Marinha, Petrobras e a corrida pela Amazônia Azul 
A aproximação com a Marinha do Brasil se intensificou ao longo de 2026. Em fevereiro, o comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva, oficial superior do Corpo de Fuzileiros Navais, visitou a sede da empresa em São Carlos para avaliar o emprego do Nauru 100D em missões de reconhecimento e vigilância em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários. Em abril, o drone foi testado pelos Fuzileiros Navais na Ilha da Marambaia, no litoral fluminense, em voos diurnos e noturnos. Em maio, autoridades de alto escalão da Marinha, incluindo o diretor geral do Material da Marinha, retornaram à empresa para tratar da integração de plataformas eVTOL a operações embarcadas em navios de superfície.

Em janeiro de 2026, a XMobots iniciou, em parceria com a Marinha e com a Petrobras, um programa orçado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, contemplando resistência à salinidade e à umidade, comunicação por satélite (SATCOM) e pouso e decolagem a partir de plataformas móveis. O interesse da Marinha se relaciona à vigilância da chamada Amazônia Azul, o território marítimo de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos, hoje monitorado com apoio limitado de meios não tripulados nacionais. 


Nauru 500C na Marinha do Brasil

Capital, sócios e credenciamento como empresa de Defesa 
A expansão da XMobots no setor de Defesa acompanhou mudanças relevantes em sua estrutura societária. Em setembro de 2022, a Embraer anunciou acordo para participação minoritária na companhia, por meio de fundo cujo único cotista era a própria fabricante aeroespacial, com opção de aportes adicionais no futuro. O negócio sucedeu uma rodada Série A de R$ 30 milhões captada em 2019, liderada pelo fundo Aerotec, com participação da Confrapar. Em janeiro de 2024, a gestora Spectra adquiriu fatia de 20% na XMobots, movimento que coincidiu com ampliação da participação da Embraer, sem que os valores das transações fossem divulgados.

No plano regulatório, a razão social XMobots Aeroespacial e Defesa Ltda. figura entre as empresas avaliadas pelo Ministério da Defesa para credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED), categoria prevista na Lei 12.598/2012 que reconhece companhias consideradas essenciais à soberania tecnológica nacional. A companhia consolidou uma estrutura dedicada ao setor, a XMobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security de 2025 e hoje comandada por Reinaldo de Campos Gonçalves Junior, executivo com mais de dez anos de experiência no setor e passagens por empresas como Akaer, Becker Avionics e IACIT.

“Nossa estratégia é construir uma capacidade de Defesa que não termine na entrega de uma aeronave. Dominamos a engenharia, a produção, a integração, o treinamento, a manutenção e a evolução tecnológica do sistema. Essa verticalização nos permite responder com mais agilidade às necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter dentro do País o conhecimento necessário para sustentar capacidades estratégicas”, afirma Reinaldo. 

Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones 
(Créditos: @Defence360)

Cooperação internacional e o caminho até o UCAV nacional 
A evolução das plataformas armadas contou também com cooperação tecnológica externa. Em 2022, a XMobots firmou acordo com a MBDA, uma das principais empresas globais do setor de mísseis, para integrar os mísseis Enforcer Air ao Nauru 1000C. A parceria permitiu à empresa brasileira acumular conhecimento posteriormente aproveitado no desenvolvimento das capacidades armadas do Nauru 100D.

Para a XMobots, projetar, integrar, testar e operar uma aeronave de combate reutilizável exige domínio de múltiplas áreas de engenharia e sistemas críticos, competência que a empresa associa ao objetivo de reduzir a dependência de sistemas armados importados e fortalecer a cadeia produtiva nacional.

Próximas fronteiras: enxames, plataformas armadas e o Nauru 3000D 
Entre os projetos em desenvolvimento está o Nauru 1000C Armado, evolução da plataforma ISTAR para missões de ataque, avaliando arquitetura de ataque em mergulho (dive bomber) semelhante à do Nauru 100D, na qual o Nauru 1000C ISTAR identifica e acompanha o alvo enquanto uma segunda aeronave armada recebe os dados de posição, deslocamento e vento necessários ao cálculo da trajetória.

Outra frente é o Nauru 100D Swarm, arquitetura para coordenação de múltiplas aeronaves em uma mesma operação. Na configuração em desenvolvimento, três aeronaves cuidam do reconhecimento do ambiente e da aquisição de alvos, enquanto outras 27 atuam de forma coordenada a partir das informações obtidas durante a missão, combinando navegação, enlace de dados, processamento de informações e comando e controle compartilhados.

A empresa desenvolve ainda o Nauru 3000D, plataforma de maior porte, configuração VTOL, propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, projetada para módulos intercambiáveis de missões ISTAR, transporte de carga e transporte de tropas. Em cenário de referência estudado pela própria companhia, considerando o transporte equivalente a 28 soldados ao longo de 20 anos de operação, a solução distribuída com o Nauru 3000D apresentaria custo total cerca de 54% inferior ao de uma solução equivalente baseada em helicópteros, mantendo capacidade de transporte semelhante.

A companhia organiza essa evolução em um roteiro próprio, o programa FW1000, que classifica as plataformas em quatro categorias crescentes de porte e complexidade, da CAT0 (Nauru 100D) à CAT3 (Nauru 3000X), com certificação prevista para 2028. 


Uma indústria em ascensão dentro da Base Industrial de Defesa 
O avanço da XMobots ocorre em meio à expansão mais ampla da Base Industrial de Defesa brasileira em sistemas não tripulados, movimento que também inclui empresas como Taurus e Ambipar Robotics. Para analistas do setor, o desafio remanescente é a articulação dessas iniciativas dispersas em torno de uma estratégia nacional integrada para drones e robôs de combate, capaz de orientar prioridades de investimento e doutrina entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Enquanto essa arquitetura institucional amadurece, a XMobots segue como a referência mais visível do setor: fornecedora estabelecida de duas três Forças Armadas brasileiras que hoje operam drones nacionais, parceira de programas industriais internacionais e protagonista dos primeiros testes brasileiros de drones armados reutilizáveis.

19 julho, 2026

EDGE Group monta cadeia vertical de mísseis, drones e optrônica no Brasil com terceira aquisição estratégica

Com Akaer, Condor e SIATT sob seu guarda-chuva, conglomerado estatal dos Emirados Árabes Unidos consolida presença industrial no País; especialistas veem ganhos em empregos e divisas, mas alertam para riscos à autonomia tecnológica da base industrial de defesa


*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026

O EDGE Group, conglomerado de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou em 16 de julho de 2026 um acordo para adquirir 100% da Akaer Engenharia, empresa aeroespacial e de defesa sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A operação, que ainda depende de aprovação regulatória, é a terceira compra do grupo emiradense na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023, depois das participações na SIATT e na Condor Tecnologias Não Letais. 

Em entrevista à CNN Brasil, o diretor financeiro (CFO) do EDGE Group, Rodrigo Torres, revelou que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o conglomerado durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da Akaer, pedindo que se avaliasse não necessariamente uma aquisição, mas uma parceria capaz de impedir a falência de outra grande empresa da defesa brasileira.

As três aquisições
A primeira aproximação do EDGE Group ao Brasil ocorreu em setembro de 2023, quando o conglomerado adquiriu 50% da SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), empresa de São José dos Campos especializada em mísseis inteligentes e cliente histórica da Marinha do Brasil. A companhia desenvolve a família de mísseis antinavio MANSUP, com alcance de até 70 quilômetros, e a versão estendida 
MANSUP-ER, de maior alcance, que deverá equipar as novas fragatas Classe Tamandaré.

Em 2024, o grupo ampliou a presença no País com a compra de 51% da Condor Tecnologias Não Letais, sediada em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e considerada uma das líderes mundiais em tecnologias não letais como gás lacrimogêneo, munição de impacto e granadas de fumaça, com presença comercial em mais de 85 países.

A terceira peça é a Akaer, fundada em 1992 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), que acumula mais de 32 anos de atuação nos setores aeroespacial, de defesa e de indústria 4.0, com mais de dez milhões de horas de engenharia dedicadas a sistemas e estruturas aeronáuticas. 

Segundo comunicado oficial do próprio EDGE Group, a empresa já prestou apoio de engenharia ao Gripen NG, da Saab, ao Hürjet, da Turkish Aerospace, e a diferentes programas da Embraer, entre eles Super Tucano, ERJ-E1, ERJ-E2, Legacy 450/500 e KC-390, além de contribuir com o 747-8, da Boeing, o B-250, da Calidus, e a frota de patrulha marítima P-3 Orion, da Força Aérea Brasileira. No Exército, participa da modernização dos blindados EE-9 Cascavel.

Segundo o EDGE Group, a aquisição da Akaer daria ao grupo uma base de engenharia permanente dentro do ecossistema aeroespacial brasileiro, fortalecendo sua capacidade de cumprir cronogramas de industrialização em programas de VANTs e ampliando suas capacidades em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, além de tecnologias espaciais. O diretor-geral e CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, afirmou que a Akaer agrega profunda capacidade de engenharia ao grupo, com uma equipe altamente especializada e três décadas de experiência em programas aeroespaciais complexos, e que a prioridade é a continuidade das pessoas, dos programas e dos clientes da Akaer.

O investimento acumulado do EDGE Group no Brasil já soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões), segundo executivo do próprio grupo, em declaração feita durante o IV Simpósio de Defesa e Segurança Internacional dos Fuzileiros Navais, em julho de 2026.

A ligação confirmada com o Jeniah
Diferentemente do que se sabia até a divulgação oficial da compra, o vínculo entre Akaer e EDGE Group não se limitava a um memorando de intenções. Segundo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo árabe, sobretudo no desenvolvimento do Jeniah, veículo de combate não tripulado a jato do EDGE, para o qual a fabricante brasileira produz a estrutura, o interior da plataforma e a integração de motores, cabos e sistemas.

Para onde aponta a sinergia
A leitura conjunta das operações sugere que o EDGE Group não está simplesmente colecionando ativos brasileiros, mas montando uma cadeia industrial complementar. A SIATT contribui com os mísseis antinavio e anticarro; a Akaer, por meio de sua subsidiária Opto Tecnologia Optrônica, agrega lentes, câmeras, sensores infravermelhos e baterias, além da estrutura (frame), do interior da plataforma e da integração de motores, cabos e sistemas do próprio Jeniah. O vínculo entre as duas empresas remonta a abril de 2023, quando, durante a LAAD, Akaer e EDGE Group assinaram memorando de entendimento, firmado por Cesar Silva, então CEO da Akaer, e Ahmed Hasan Alkhoori, vice-presidente de Programas Estratégicos do EDGE, prevendo cooperação em sistemas seeker duplos para mísseis, fusores a laser e kits de guiagem para foguetes de 70 milímetros, além de aeronaves de missão especial, segundo comunicado da própria Akaer à época.

Segundo o dossiê Uninhabited Middle East, do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 2026, a Akaer teria contribuído ainda com o design e a análise de desempenho do motor do REACH-S, VANT de média altitude e longa autonomia (MALE) da ADASI, subsidiária do EDGE Group, e também apareceria como parceira de design do Samoom, UAV da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines. O próprio relatório do IISS ressalva que essa informação foi apurada por meio de perfis profissionais de engenheiros da Akaer, e não por comunicado oficial das partes envolvidas, ao contrário do vínculo com o Jeniah, este confirmado pelo próprio CFO do EDGE Group.

Já a Condor cumpre um papel diferente na engrenagem: o de plataforma de distribuição comercial. O EDGE Group identificou no potencial de exportação da empresa carioca, com canais já estabelecidos em mais de 85 países, um caminho para ampliar o alcance global do próprio conglomerado. O resultado apareceu rápido: três semanas após a aquisição, em 2024, a Condor fechou um contrato de mais de US$ 10 milhões com um país africano.

O efeito mais concreto dessa engrenagem já apareceu nas exportações da SIATT: por conta da associação com o EDGE Group, a empresa fechou um acordo para exportar mísseis MANSUP aos Emirados Árabes Unidos, em contrato avaliado em US$ 299 milhões, o primeiro cliente da SIATT fora do Brasil. Segundo executivos do EDGE Group, os problemas orçamentários das Forças Armadas brasileiras não inviabilizam os projetos, desde que os produtos nacionais também sejam destinados à exportação, usando encomendas internacionais para dar escala às fábricas no País e reduzir o custo dos equipamentos para as próprias Forças Armadas.

 

Um resgate solicitado pelo próprio governo
A compra da Akaer ocorre em meio a dificuldades financeiras da empresa. Desde março de 2025, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região denuncia atrasos recorrentes no pagamento de salários, FGTS e benefícios, quadro que se agravou em dezembro de 2025 e voltou a se repetir em fevereiro de 2026, quando cerca de 700 trabalhadores ainda não tinham recebido os vencimentos de janeiro. Segundo Torres, a empresa deixou de pagar a folha de pagamento por um período e o plano de saúde dos funcionários por quase um ano. A Akaer também viu fracassar, em fevereiro de 2026, o programa do veículo lançador de pequeno porte (VLPP), cancelado após a Finep identificar que a empresa não conseguiu comprovar a aplicação de parte dos recursos repassados ao projeto.

Foi nesse cenário que, segundo o CFO do EDGE Group, o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o conglomerado durante a LAAD para buscar uma solução que evitasse o fechamento da companhia, tratando o caso, ao menos inicialmente, como uma possível parceria, e não como uma venda integral. Governo federal, Ministério da Defesa e Forças Armadas foram informados sobre a negociação ao longo dos meses seguintes, segundo o executivo. O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deverá permanecer como consultor do EDGE Group por um período de um a dois anos.

Um fator que teria facilitado a negociação foi a atual estrutura acionária da Akaer: a Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente recomprada pela controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sem restrições, o que dispensaria a negociação com um sócio estrangeiro na operação com o EDGE Group.

Manutenção do status de Empresa Estratégica de Defesa
Apesar da compra de 100% do capital por um grupo estrangeiro, o EDGE Group afirma que a Akaer continuará credenciada como Empresa Estratégica de Defesa, enquadramento concedido pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias essenciais para a defesa nacional, e que envolve requisitos societários e de governança. Segundo Torres, será mantida estrutura local de governança e participação brasileira suficiente para atender às regras do credenciamento, ainda que o desenho definitivo dependa das aprovações regulatórias.

Impactos para a base industrial de defesa
Em termos de empregos, o efeito tende a ser positivo no curto prazo: a entrada de capital estrangeiro resolveria rapidamente a crise que hoje compromete salários e benefícios de cerca de 600 a 700 trabalhadores, preservando postos de trabalho qualificados que, sem aporte externo, estariam sob risco real de extinção, quadro agravado pelo fato de a busca por uma solução ter partido do próprio Ministério da Defesa. O histórico do grupo no País, com a construção de nova unidade industrial da SIATT em Caçapava (SP) e a expansão da fábrica da Condor em São Paulo, sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia já desenvolvida.

Em exportações e divisas, o efeito já é mensurável: os contratos da SIATT com os Emirados Árabes Unidos (US$ 299 milhões) e da Condor com país africano (mais de US$ 10 milhões) representam entrada de moeda estrangeira viabilizada por ativos brasileiros que, operando isoladamente, dificilmente teriam acesso à mesma rede comercial internacional do EDGE Group, hoje presente em mais de 30 países. A lógica declarada pelo próprio grupo, de usar encomendas internacionais para dar escala às fábricas brasileiras e reduzir custos para as Forças Armadas nacionais, reforça esse potencial.

O ponto que segue exigindo atenção é a autonomia tecnológica. Diferentemente das participações minoritária e majoritária mantidas na SIATT e na Condor, a aquisição integral da Akaer configura um padrão distinto, o de controle acionário total. Há precedente relevante nesse sentido, o da aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram a migrar, no médio prazo, para fora do raio de influência nacional. O fato de a operação ter sido solicitada pelo próprio Ministério da Defesa, e de o EDGE Group ter se comprometido a manter estrutura local de governança e participação brasileira suficiente para preservar o status de EED, reduz parte desse risco em relação ao que se poderia esperar de uma aquisição puramente oportunista, mas não o elimina, já que o desenho definitivo dessas salvaguardas ainda depende das aprovações regulatórias.

O que observar daqui para frente
A confirmação regulatória da compra da Akaer e o desenho final das condições de governança e participação brasileira exigidas para manter o status de Empresa Estratégica de Defesa devem ser os próximos marcos a acompanhar. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pelo EDGE Group para 2026, incluindo áreas de cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão observado no caso Akaer, de conversão de uma parceria técnica em controle acionário, se repetirá em outras empresas da BID brasileira.

10 julho, 2026

Polo de Defesa de Itajaí: articulação institucional busca ampliar participação catarinense na Base Industrial de Defesa

Primeira reunião do Polo Itajaiense da Base Industrial de Defesa e Segurança reúne poder público, entidades e universidade em torno de um estado que já ocupa a terceira posição no ranking nacional de empresas credenciadas 

Primeira reunião de articulação do Polo Itajaiense da Base Industrial de Defesa e Segurança (Foto: Michela França, no LinkedIn)

*LRCA Defense Consulting - 10/07/2026

Santa Catarina deu um novo passo institucional para ampliar sua presença na indústria de defesa brasileira. No dia 1º de julho, Itajaí sediou a primeira reunião de articulação do Polo Itajaiense da Base Industrial de Defesa e Segurança, iniciativa que reúne poder público municipal, entidades de classe e instituições de ensino em torno de uma agenda comum para o setor. Participaram do encontro representantes da Procuradoria-Geral do Município, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, da Secretaria da Fazenda, da Invest Itajaí, da Secretaria de Segurança Pública, da Câmara de Vereadores de Itajaí, da Fiesc, do Sebrae e da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Um protocolo que já vinha se desenhando
A reunião de julho não nasce isolada. Em 21 de maio, durante a abertura da 4ª edição da SC Expo Defense, Inovação e Tecnologia, realizada na sede da Fiesc em Florianópolis, Fiesc, Sebrae e a prefeitura de Itajaí já haviam assinado um protocolo de intenções para a criação do polo. Segundo o procurador do município, Jean Carlos Gorges, o protocolo deve resultar, adiante, em um projeto de lei municipal voltado a fomentar a atividade de defesa em Itajaí. A proposta prevê articulação entre poder público, instituições de ensino e setor empresarial para atrair investimentos, estimular a inovação tecnológica e ampliar a participação de empresas locais na cadeia produtiva da defesa.

Assinatura do termo de parceria entre prefeitura, Fiesc e Sebrae, durante a abertura da 4ª edição da SC Expo Defense

Por que Santa Catarina, por que agora
O momento escolhido para a iniciativa não é casual. Segundo dados apresentados pela Fiesc durante a SC Expo Defense, Santa Catarina soma atualmente 33 empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa como Empresa de Defesa (ED) ou Empresa Estratégica de Defesa (EED), o equivalente à terceira posição no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. O crescimento é recente: em 2016, o estado tinha apenas uma empresa credenciada nessa condição. Em valor movimentado, o desempenho também chamou atenção: as vendas da indústria catarinense para o setor de defesa somaram R$ 211,8 milhões em 2025, um salto de 178% em relação aos R$ 76,1 milhões registrados em 2024, com a participação de 219 empresas fornecedoras.

A cadeia produtiva mobilizada vai além dos fabricantes tradicionais de armamento. De acordo com o artigo que relatou a reunião de articulação, publicado pela consultora em inovação Michela França, estão envolvidos segmentos como construção naval, tecnologia da informação, automação, metalmecânica, logística, cibersegurança e sistemas embarcados. Chama atenção também o perfil das empresas: cerca de 40% das empresas estratégicas de defesa instaladas em Santa Catarina são microempresas, pequenas empresas ou startups, o que indica que as oportunidades do setor não se restringem às grandes indústrias.

Itajaí, ponta de lança catarinense
Dentro desse cenário estadual, Itajaí ocupa posição de destaque por razões que antecedem o próprio polo. O município concentra o Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), conduzido pela Marinha do Brasil em parceria com o Consórcio Águas Azuis, formado por Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), Embraer Defesa & Segurança e Atech. O programa, orçado em cerca de R$ 12 bilhões, já entregou a primeira fragata, a Tamandaré (F200), lançou ao mar a Jerônimo de Albuquerque (F201) e a Cunha Moreira (F202), e sustenta hoje mais de 23 mil empregos diretos, indiretos e induzidos na região, segundo dados oficiais. É essa base industrial e portuária, somada à tradição naval do município, que a proposta do Polo Itajaiense pretende usar como alavanca para atrair novas empresas e ampliar as cadeias de fornecimento locais.

O protagonismo do estaleiro TKMS Brasil Sul também já rendeu vitrine internacional a Itajaí. Em 29 de abril, o Ministério da Defesa, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e o BNDES, levou ao estaleiro uma comitiva de 22 embaixadores e representantes diplomáticos, entre eles Argélia, Argentina, Bélgica, Canadá, Coreia do Sul e Turquia, com o objetivo de apresentar a capacidade tecnológica do setor naval brasileiro e prospectar parcerias e possíveis exportações. O episódio, embora anterior e distinto da reunião de articulação do polo, reforça o argumento central da iniciativa: o de que Itajaí já reúne credenciais para se consolidar como referência nacional, e não apenas catarinense, na Base Industrial de Defesa.

O que vem a seguir
Por ora, o Polo Itajaiense da Base Industrial de Defesa e Segurança é uma estrutura de articulação, não uma entidade formalizada nem um distrito industrial com incentivos definidos. O objetivo declarado, segundo os participantes da reunião de julho, é construir uma agenda conjunta entre empresas, universidades, entidades e poder público para ampliar a capacidade das empresas locais, estimular a inovação e fortalecer a presença de Santa Catarina em mercados nacionais e internacionais. O desdobramento institucional mais concreto até aqui é a expectativa de um projeto de lei municipal em Itajaí, ainda sem data definida, que deve formalizar os instrumentos de fomento à atividade de defesa no município.

Para o setor produtivo catarinense, o teste real do polo estará em transformar essa articulação em resultado prático: novos credenciamentos de empresas estratégicas de defesa, contratos efetivos na cadeia de fornecimento do PFCT e de outros programas, e a atração de startups e pequenas empresas de tecnologia para um mercado que, em Santa Catarina, ainda está em franca expansão.

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