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16 outubro, 2026

Fim da escala 6x1: a conta das quatro horas chega à indústria de defesa

Emenda Constitucional 141, promulgada nesta sexta-feira, reduz a jornada para 40 horas semanais sem corte salarial e obriga a Base Industrial de Defesa a rever custos, turnos e contratos até o fim de 2027



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LRCA Defense Consulting - 16/10/2026 - 17h05

O Congresso Nacional promulgou nesta sexta-feira (16), em Brasília, a Emenda Constitucional nº 141/2026, que extingue a escala de seis dias de trabalho para um de descanso e reduz gradualmente a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução de salários. A cerimônia, conduzida pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Câmara, Hugo Motta. Dois dias antes, o Senado havia aprovado o texto por 75 votos a 1; o único voto contrário foi do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), general da reserva do Exército.


Para a Base Industrial de Defesa (BID), o efeito mais relevante da mudança não está propriamente no fim do 6x1. Boa parte das empresas do setor, sobretudo as de engenharia, eletrônica embarcada e integração de sistemas, já opera de segunda a sexta-feira, porém com cargas próximas de 44 horas semanais. O que pesa no caixa e nos cronogramas é a supressão de quatro horas por semana, que reduz em cerca de 9% o tempo disponível de cada empregado e, mantidos os salários, eleva em aproximadamente 10% o custo da hora trabalhada.

O calendário da transição 
A emenda estabelece duas etapas. Sessenta dias após a promulgação, ou seja, a partir de meados de dezembro de 2026, passa a valer a escala 5x2, com dois dias de repouso remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, e a jornada máxima cai para 42 horas. Doze meses depois, perto de dezembro de 2027, o teto chega a 40 horas semanais, com limite de oito horas diárias. Na primeira etapa, o encarecimento da hora fica em torno de 4,8%; na segunda, alcança os 10%.

Durante os 12 meses de transição, convenções coletivas poderão ampliar a jornada diária para além de oito horas, desde que respeitado o teto semanal de 42 horas. O texto também admite, de forma excepcional e mediante acordo ou convenção coletiva, regimes compensatórios diferentes do 5x2, desde que assegurem, na média mensal, dois dias de repouso semanal remunerado.

Quem fica fora da regra 
Um dispositivo pouco comentado tem peso direto sobre o setor de defesa: a nova jornada não se aplica a empregados com diploma de nível superior que recebam pelo menos 2,5 vezes o teto do Regime Geral de Previdência Social, valor hoje equivalente a R$ 21.188,87. A exceção deixa de valer se o empregador assim decidir ou se houver previsão em acordo coletivo.

Na prática, engenheiros seniores, gerentes de programa e especialistas mais bem remunerados poderão continuar sob as regras atuais de controle de jornada. Já engenheiros em início e meio de carreira, técnicos, inspetores de qualidade, operadores certificados e montadores, que formam a maior parte do efetivo das empresas de defesa, estarão integralmente cobertos pela redução.

Turnos contínuos e a corrida das negociações 
O impacto tende a ser maior nas operações que não param: fabricação de munições e explosivos, linhas de produção em turnos, serviços de manutenção, reparo e revisão de aeronaves e viaturas (MRO) e segurança de instalações sensíveis. É nesse segmento que escalas como 6x1 e 12x36 de fato existem. A saída prevista no texto é a negociação coletiva, mas o prazo é curto: 60 dias após a promulgação, convenções e acordos incompatíveis com as novas regras perdem automaticamente a validade. Sindicatos patronais e de trabalhadores terão, portanto, até meados de dezembro para redesenhar escalas em fábricas e oficinas.

A cadeia de fornecedores também deverá ser observada. Grande parte dos fornecedores de segundo e terceiro níveis da BID é formada por pequenas e médias empresas, e a emenda prevê que lei complementar poderá estabelecer medidas de transição específicas para microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. Até que essa lei seja aprovada, essas empresas seguem sujeitas ao cronograma geral.

Contratos com o Estado e o orçamento da Defesa 
As empresas que prestam serviços ao poder público terão prazo de 12 meses, e não de 60 dias, para eliminar a escala 6x1 de seus empregados. Contratos aditados após os primeiros 60 dias, porém, já deverão observar a nova jornada. A regra foi desenhada principalmente para contratos de mão de obra terceirizada, e ainda deverá ser interpretada quanto à sua aplicação a contratos de fornecimento de produtos e sistemas de defesa.

Esse ponto é sensível porque os grandes programas estratégicos, como o caça F-39 Gripen, o cargueiro KC-390 Millennium, as viaturas da família Guarani, as fragatas classe Tamandaré e o blindado Centauro II BR, foram orçados em homens-hora calculados sobre a jornada de 44 horas. A Lei 14.133/2021, que rege as contratações públicas, admite o reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos diante de fatos imprevisíveis ou de atos do poder público que alterem seus custos. A mudança constitucional poderá, assim, fundamentar pedidos de revisão de preços, o que transferiria parte da conta para um orçamento de Defesa já pressionado.

O efeito fiscal deverá ser sentido também nas estatais do setor, como IMBEL, EMGEPRON, AMAZUL e NUCLEP, cujos empregados são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e, portanto, alcançados pela nova jornada. 


Um setor que já disputa talentos 
A redução chega num momento em que a indústria brasileira, de modo geral, enfrenta escassez de mão de obra qualificada. O País tem déficit estimado em 75 mil engenheiros, e as matrículas em cursos de engenharia caíram cerca de 30% entre 2015 e 2024, de mais de 1,2 milhão para aproximadamente 887 mil estudantes, segundo dados citados pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon). A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 22,4% das indústrias têm problemas para contratar.

Na defesa, o gargalo é agravado pela exigência de certificações específicas, habilitações de segurança e longos períodos de formação interna. Repor quatro horas semanais por meio de novas contratações, portanto, não é trivial. A alternativa imediata, as horas extras, custa no mínimo 50% a mais. Por outro lado, empresas que já ofereciam jornadas menores ou regimes flexíveis poderão ganhar vantagem na retenção de profissionais.

O tamanho do que está em jogo 
Segundo o Ministério da Defesa, a BID responde por 3,49% do Produto Interno Bruto (PIB) e gera quase 3 milhões de empregos diretos e indiretos, com cerca de 80 empresas exportadoras atuando em 140 países. Em 2025, as autorizações de exportação de produtos de defesa somaram recorde de US$ 3,1 bilhões. A Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) estima 1,6 milhão de postos diretos e 1,3 milhão de indiretos.

Esses números, contudo, refletem uma metodologia ampliada, que incorpora segurança, setores de uso dual e cadeias associadas. Em 2019, a própria ABIMDE apresentava à Câmara dos Deputados uma estimativa de 60 mil empregos diretos e 240 mil indiretos. A diferença indica que o núcleo industrial de defesa, onde se concentram os efeitos mais sensíveis da nova jornada, é bem menor do que os totais divulgados sugerem, ainda que estrategicamente decisivo.

Competitividade além das horas 

A indústria em geral recebeu mal o texto. A CNI classificou a proposta como inadequada e inoportuna, e estudo da entidade citado pela ABIMAQ estima impacto de R$ 178,8 bilhões nos custos com empregados formais da indústria. O alerta recorrente das entidades empresariais é o risco de perda de competitividade e de pressão inflacionária se a redução não vier acompanhada de ganhos de produtividade ou de corte no chamado custo Brasil.

No mercado internacional de defesa, porém, a jornada em si não deverá ser o fator decisivo. Nos principais países fornecedores do Ocidente, como Estados Unidos, França, Alemanha e Suécia, a jornada padrão já se situa em 40 horas semanais ou menos. A desvantagem brasileira está mais associada à produtividade por hora, ao custo de capital, à carga tributária e, sobretudo, à irregularidade dos orçamentos de Defesa, que dificulta a manutenção de linhas de produção e equipes especializadas. Concorrentes com jornadas mais longas, como Turquia, Índia e Coreia do Sul, são justamente os que mais avançam sobre mercados disputados pela indústria nacional.

O que vem pela frente 
Com o tema praticamente pacificado no plano político, inclusive com a liberação da bancada de oposição na votação, o debate se desloca para a execução. Restam a regulamentação das jornadas diferenciadas, a lei complementar para pequenas empresas, a interpretação da regra aplicável a fornecedores do Estado e as negociações coletivas que precisam ser concluídas em dois meses. Até o fechamento desta reportagem, não haviam sido localizados posicionamentos públicos da ABIMDE e do Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa (SIMDE) sobre o texto promulgado.

Para a BID, a adaptação deverá passar por automação, digitalização de processos, revisão de escalas e, possivelmente, renegociação de contratos com as Forças Armadas. O desafio é preservar prazos e capacidades tecnológicas em programas que levam décadas para amadurecer e que, uma vez interrompidos, dificilmente se recompõem.

07 outubro, 2026

Marcos Degaut: Defesa, indústria e diplomacia sob uma mesma estratégia nacional

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A trajetória do ex-secretário revela uma arquitetura estratégica baseada em autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, fortalecimento da BID e integração entre Defesa, diplomacia, indústria e comércio exterior



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliado próximo de Eduardo Bolsonaro, o ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa participa do debate político atual, mas suas formulações sobre poder nacional são muito anteriores à campanha de 2026.

A análise de artigos, entrevistas, discursos e iniciativas de Degaut ao longo de quase uma década revela mais do que uma sucessão de posições conjunturais. Há uma consistência estrutural entre sua atuação na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), sua experiência posterior no setor privado de Defesa e seus textos recentes.

No centro dessa arquitetura aparecem conceitos recorrentes: autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, Base Industrial de Defesa (BID) sustentável e exportadora, capacidade de dissuasão e uma política externa orientada pelo interesse nacional.

Defesa como instrumento de poder nacional 
Para Degaut, Defesa não pode ser tratada apenas como despesa pública nem como política isolada das demais dimensões do Estado. Ainda em 2020, quando comandava a SEPROD, defendia que Defesa, Segurança e BID deveriam integrar uma grande estratégia nacional e eram indissociáveis da política externa de um país que pretendesse possuir peso internacional.

Em textos recentes, o diagnóstico tornou-se mais abrangente. A competição estratégica contemporânea, em sua leitura, deslocou parte da vulnerabilidade nacional para áreas como semicondutores, comunicações, satélites, componentes eletrônicos, sistemas antiaéreos, armas inteligentes, cibernética, inteligência artificial, drones e sensores. A soberania, portanto, dependeria não apenas de território e efetivos militares, mas do domínio ou acesso seguro a tecnologias, cadeias produtivas e infraestrutura crítica.

No artigo “A Sétima República”, publicado em 6 de outubro, Degaut defende explicitamente Forças Armadas capazes de proteger o território e uma Defesa orientada pela dissuasão por negação, com Amazônia e Atlântico Sul como teatros prioritários.

O conceito procura tornar inviável ou excessivamente custoso ao adversário alcançar seus objetivos, o que remete a vigilância, consciência situacional, capacidade de reação e meios capazes de negar liberdade de ação em áreas vitais.

Uma linha que antecede a SEPROD 
A preocupação com programas estratégicos e autonomia já aparecia quando Degaut atuava na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, durante visita à Corveta Jaceguai, foi registrado publicamente que ele vinha trabalhando ativamente para apoiar a construção das então Corvetas Classe Tamandaré, programa que posteriormente evoluiu para as Fragatas Classe Tamandaré.

Esse antecedente é relevante porque mostra que a preocupação com o fortalecimento material das Forças e com programas nacionais não nasceu de sua passagem pela SEPROD. Ela atravessa diferentes funções exercidas por Degaut e ajuda a explicar a continuidade entre sua atuação administrativa e suas formulações atuais.

Autonomia tecnológica como eixo central 
Poucos conceitos aparecem com tanta frequência em suas manifestações quanto autonomia tecnológica.

Em 2021, ao tratar de protocolos de inovação e tecnologia, Degaut afirmou que a criação de redes entre governo, academia e empresas deveria gerar produtos e serviços capazes de aumentar progressivamente a autonomia tecnológica brasileira e reduzir a dependência de produtos estrangeiros.

Em 2023, já no EDGE Group, sintetizou a ideia de maneira direta: não existe autonomia estratégica sem autonomia tecnológica.

A formulação ajuda a organizar todo o restante de seu pensamento. Um país que dependa integralmente de terceiros para sensores, componentes, munições, sistemas de comando, satélites, comunicações ou armamentos sofisticados pode conservar soberania jurídica, mas terá sua liberdade de decisão limitada em uma crise.

Transferência de tecnologia: comprar não basta 
A consequência prática desse raciocínio é a importância atribuída à transferência de tecnologia.

Para Degaut, a aquisição de equipamentos no exterior não deveria ser analisada apenas pelo desempenho do produto ou pelo preço da compra. O valor estratégico aumenta quando a operação permite absorver conhecimento, formar pessoal, internalizar competências, produzir componentes, realizar manutenção e evoluir sistemas no Brasil.

Isso não significa que toda tecnologia sensível esteja disponível para transferência, nem que acordos de offset produzam automaticamente autonomia. A questão central é negociar compras e parcerias de modo que parte relevante do conhecimento permaneça no País.

Sob essa lógica, transferência de tecnologia deixa de ser contrapartida acessória e passa a integrar o cálculo estratégico da aquisição.

Essa orientação também ajuda a interpretar sua atuação posterior no EDGE Group e a aproximação com empresas brasileiras. Parcerias internacionais são vistas como instrumentos úteis quando agregam tecnologia, capacidade produtiva, acesso a mercados e desenvolvimento conjunto, e não apenas capital.

Previsibilidade orçamentária: condição para planejar 
Outro pilar é a previsibilidade orçamentária.

Degaut tem sustentado que a indústria de Defesa não consegue executar planejamento estratégico consistente se não souber se haverá continuidade de recursos para programas que atravessam muitos anos. Em entrevista de 2023, afirmou que a imprevisibilidade afeta desenvolvimento de projetos e produtos, contratação de pessoal e participação em licitações internacionais.

O problema é particularmente sensível porque grandes projetos militares possuem longos ciclos de maturação, contratos complexos, pagamentos distribuídos por vários exercícios e, frequentemente, compromissos em moeda estrangeira, compensações industriais e transferência de tecnologia.

Cortes abruptos podem elevar custos, retardar cronogramas, provocar perda de equipes especializadas e enfraquecer a confiança de fornecedores e parceiros.

A ênfase, portanto, não está apenas em gastar mais. Está em permitir que Forças Armadas e indústria saibam, dentro de horizontes plurianuais razoáveis, quais recursos estarão disponíveis.

A discussão sobre mecanismos capazes de oferecer essa estabilidade financeira é estratégica, mas eventuais modelos ainda em formulação não podem ser tratados como política definida enquanto não forem apresentados publicamente.

A BID como instrumento militar, econômico e tecnológico 
Na visão de Degaut, a BID ultrapassa a função de abastecer as Forças Armadas. Ela produz empregos qualificados, inovação, renda, exportações, divisas e tecnologias de uso dual.

Durante sua gestão na SEPROD, procurou aproximar Ministério da Defesa, BNDES, indústria, academia e instrumentos de promoção comercial.

Em artigo de 2021 republicado pelo LRCA Defense Consulting, destacou novas formas de financiamento e garantias, aperfeiçoamento da Tríplice Hélice, envolvendo Estado, academia e iniciativa privada, e busca de maior isonomia normativa e tributária para a indústria nacional. Também sustentou que exportar é crucial para preservar a capacidade de fornecer produtos, serviços e tecnologia de ponta.

A lógica econômica é objetiva: a demanda interna brasileira, sujeita a restrições fiscais e oscilações, não oferece escala contínua para todos os segmentos industriais de Defesa.

Exportações permitem diluir custos, sustentar linhas produtivas, conservar equipes especializadas e financiar novos ciclos de inovação.

Financiamento e garantias completam a equação 
A previsibilidade das encomendas domésticas, contudo, não resolve sozinha o problema.

Degaut também tem chamado atenção para financiamento e garantias às exportações. Produtos de Defesa disputam mercados nos quais Estados estrangeiros frequentemente apoiam suas empresas com crédito, seguro, garantias soberanas e instrumentos diplomáticos.

Sem mecanismos competitivos, uma empresa brasileira pode possuir um bom produto e ainda assim perder uma concorrência porque o comprador recebeu condições financeiras melhores de outro país.

Daí a tentativa, durante a SEPROD, de aproximar a BID de instituições como o BNDES e fortalecer instrumentos de promoção comercial. 


Capital estrangeiro e autonomia não são necessariamente opostos 
A experiência posterior de Degaut no EDGE Group acrescenta uma nuance importante.

Sua concepção de autonomia não implica fechamento ao capital estrangeiro. Investimentos e parcerias internacionais podem fortalecer a soberania quando aumentam domínio tecnológico, produção local, qualificação de pessoal e capacidade exportadora.

O critério relevante, nessa perspectiva, não seria simplesmente a nacionalidade do investidor, mas o resultado estratégico da parceria: quanto conhecimento é absorvido, quais competências permanecem no Brasil e se a operação reduz ou amplia dependências críticas.

Política externa: diplomacia como instrumento de poder
A mesma arquitetura aparece em suas formulações sobre política externa.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1º de outubro, Degaut defendeu um Itamaraty mais forte, estratégico e valorizado, capaz de converter diplomacia em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

No texto, contestou a caracterização de suas ideias como uma suposta “Reforma Rubio”. Afirmou que nunca discutiu projeto com esse nome nem defendeu transplantar ao Brasil a reforma do Departamento de Estado norte-americano.

Também registrou que suas reflexões não constituíam programa fechado nem proposta oficial de governo. A distinção é importante para qualquer tentativa de antecipar políticas futuras: existem ideias em debate, mas nem todas podem ser apresentadas como decisões da campanha.

O conteúdo defendido publicamente por Degaut inclui fortalecimento da capacidade de formulação e antecipação do Itamaraty, maior centralidade para diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e Defesa, simplificação administrativa e critérios mais objetivos de mérito e desempenho na carreira.

Estados Unidos, China e interesse nacional 

Suas manifestações recentes apontam para maior aproximação estratégica com os Estados Unidos, mas não necessariamente para ruptura econômica com a China.

O fio condutor é o interesse nacional: relações internacionais deveriam ser avaliadas pela capacidade de gerar segurança, tecnologia, mercados, investimentos e liberdade de ação.

Esse pragmatismo também aparece na discussão sobre minerais críticos, energia, inteligência artificial e infraestrutura. Recursos naturais, isoladamente, não produzem poder. Eles precisam ser transformados em capacidade industrial, conhecimento, tecnologia e instrumentos de negociação internacional.

A nova guerra tecnológica 
A atenção dada a drones, inteligência artificial, sensores, espaço, defesa cibernética, comunicações e sistemas antiaéreos mostra que a visão de Degaut não está limitada aos grandes programas tradicionais.

As guerras recentes demonstraram que plataformas sofisticadas convivem com sistemas baratos, produção em massa, software, guerra eletrônica e ciclos tecnológicos extremamente rápidos.

Para o Brasil, o desafio seria combinar programas de longo prazo com capacidade de inovação acelerada, aproximando Forças Armadas, empresas, universidades e centros de pesquisa.

Nesse ambiente, autonomia não significa produzir absolutamente tudo, mas identificar tecnologias cuja dependência externa pode comprometer a liberdade de ação e desenvolver capacidade nacional ou parcerias confiáveis para dominá-las. 

Uma arquitetura de poder nacional 
Quando reunidas, as posições de Degaut formam uma cadeia coerente: previsibilidade orçamentária permite planejamento; planejamento sustenta programas e indústria; transferência de tecnologia e pesquisa ampliam autonomia tecnológica; autonomia tecnológica fortalece a BID; uma BID robusta aumenta a capacidade militar e exportadora; capacidade militar gera dissuasão; e dissuasão oferece maior liberdade de ação à política externa.

É essa conexão que diferencia sua abordagem de uma discussão restrita ao orçamento das Forças Armadas.

Defesa, indústria, tecnologia, comércio exterior, diplomacia, energia e recursos estratégicos aparecem como componentes de um mesmo sistema de poder nacional.

O que pode ser inferido 
Caso essas ideias tenham influência efetiva sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro, é razoável inferir uma pressão por maior previsibilidade dos recursos destinados aos programas estratégicos, fortalecimento da BID, mecanismos de financiamento e garantias às exportações, maior exigência de transferência de tecnologia em parcerias internacionais e prioridade para áreas tecnológicas consideradas críticas.

Também seria coerente com esse pensamento uma maior integração entre Defesa e política externa, atenção especial à Amazônia e ao Atlântico Sul e aproximação estratégica com parceiros capazes de oferecer tecnologia, investimentos e acesso a mercados.

Essas são, entretanto, inferências construídas a partir de posições públicas e de uma trajetória administrativa. Não equivalem a compromissos formalmente assumidos pela candidatura.

Permanecem abertas questões decisivas: qual será o nível de recursos destinado à Defesa, quais programas terão prioridade, como serão financiados, quais tecnologias serão consideradas críticas e quais mecanismos serão usados para assegurar continuidade orçamentária.

Consistência estrutural
A principal conclusão da pesquisa é que o pensamento de Marcos Degaut apresenta forte consistência estrutural.

O apoio a programas navais quando estava na SAE, a defesa de autonomia tecnológica e fortalecimento da BID na SEPROD, a ênfase posterior em parcerias industriais e transferência de conhecimento e suas formulações atuais sobre Defesa e política externa pertencem a uma mesma arquitetura intelectual.

Mais do que saber qual cargo Degaut poderia ocupar em um eventual governo, o interesse público está em compreender essa arquitetura.

Se suas ideias efetivamente influenciarem políticas a partir de 2027, a mudança mais relevante poderá não estar em um programa isolado ou em uma aquisição específica, mas na tentativa de integrar instrumentos que o Brasil historicamente administra de maneira fragmentada: orçamento, tecnologia, indústria, Defesa, comércio exterior e diplomacia.

05 outubro, 2026

Programa e interlocutores indicam os prováveis rumos de Flávio Bolsonaro para a defesa e a BID

Drones e inteligência artificial no programa oficial somam-se à experiência de Marcos Degaut no apoio à indústria e ao acesso de Eduardo Bolsonaro ao governo Trump, enquanto orçamento, prioridades e compromissos formais permanecem em aberto 



*LRCA Defense Consulting - 05/10/2026

A cerca de três semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) ficou acirrada: 47% a 45% dos votos válidos no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Para o setor de defesa, a dúvida é o que mudaria com a vitória da oposição. Como o programa de Flávio dedica poucas informações ao tema, esta matéria cruza o documento oficial com as propostas de seus interlocutores e com a campanha da Embraer nos Estados Unidos, buscando separar compromissos formais de indícios.

Novas tecnologias e poder militar
O incentivo a novas tecnologias e a defesa de um poder militar capaz de sustentar a atuação internacional do Brasil permitem identificar uma provável orientação de Flávio Bolsonaro para as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa (BID). O direcionamento emerge da leitura conjunta do programa da candidatura e das propostas apresentadas por Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato radicado nos EUA, e pelo ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut, hoje o articulador internacional da campanha. Há convergência em torno do fortalecimento das capacidades nacionais, embora os instrumentos para executá-lo ainda não estejam detalhados publicamente.

A distinção entre as fontes é essencial. Drones e inteligência artificial aparecem no programa oficial. Já a transformação mais abrangente das Forças Armadas e o fortalecimento da BID foram defendidos pelos dois interlocutores em uma entrevista de setembro, na qual anunciaram a elaboração de um projeto para um eventual governo de Flávio.

A experiência de Degaut em financiamento e promoção comercial, somada ao acesso do irmão do candidato à Casa Branca, sugere a possibilidade de uma política que combine modernização militar, sustentação industrial e diplomacia voltada a negócios. O KC-390 Millennium permite avaliar como essa combinação poderia funcionar. A Embraer já desenvolve, com a Northrop Grumman, capacidades destinadas ao mercado americano, e uma eventual articulação política brasileira poderia dar visibilidade e apoio institucional a essa campanha. 

Tecnologia e fronteiras no programa
O texto publicado no site da candidatura prevê concentrar esforços contra o crime organizado e outras ameaças à segurança e à defesa nacional. Nesse contexto, propõe estimular tecnologias, com menção explícita a drones e inteligência artificial, e afirma que os investimentos nas Forças Armadas devem corresponder à inserção internacional do Brasil.

Outra proposta é criar o Sistema Nacional de Fronteira, reunindo integrantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira, equipados com inteligência, tecnologia e armamentos para interceptar drogas e armas. O documento também contempla a proteção cibernética dos serviços públicos, das infraestruturas críticas e dos cidadãos.

Essas referências estabelecem prioridades gerais, mas não especificam orçamento, modelos de drones, aplicações militares de IA, quantidades, fornecedores ou prioridades de reequipamento. Tampouco permitem concluir que haverá preferência por equipamentos nacionais ou importados. Essa definição será determinante para avaliar quanto da demanda poderá se converter em desenvolvimento e produção no País.

A proposta de transformação militar
Em 7 de setembro de 2026, Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut participaram do programa ALive, de Claudio Dantas. Segundo a publicação do próprio programa, ambos trabalhavam em um projeto de reforma e reestruturação das Forças Armadas destinado ao senador.

Degaut defendeu atualização de missões, métodos e doutrina, recuperação da capacidade de interpretar o cenário internacional e equipamentos adequados às atribuições militares. Relacionou a transformação ao fortalecimento da liderança, da unidade de propósito e da legitimidade institucional das Forças.

A ligação com a política externa foi explícita. Para Degaut, "uma boa diplomacia, uma boa política externa, não prescinde de um poder militar forte". Eduardo associou respeito internacional e liderança regional a Forças Armadas modernas e a uma indústria de defesa desenvolvida no Brasil.

Na cobertura da entrevista, a DefesaNet registrou que Degaut situou as propostas em um planejamento estratégico de longo prazo, envolvendo defesa, comércio e investimentos. Ele afirmou que o projeto estava pronto e seguia em aperfeiçoamento, mas informou que seus detalhes não seriam integralmente divulgados naquele momento.

O conjunto dessas manifestações sugere uma ambição que ultrapassa o emprego militar nas fronteiras. A capacidade de dissuasão e a sustentação industrial aparecem como componentes da posição internacional pretendida para o País. Trata-se de uma interpretação das declarações, não de um programa de reequipamento já aprovado pelo candidato.

Degaut e a ampliação do acesso ao crédito
A defesa de uma indústria nacional fortalecida tem antecedentes na trajetória administrativa de Degaut. Um dos resultados mais concretos associados à sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) foi a articulação com o BNDES. Em fevereiro de 2020, o Ministério da Defesa e o banco firmaram um protocolo para estudar instrumentos de financiamento, apoio às exportações e nacionalização progressiva de produtos e tecnologias. Na ocasião, conforme registro do LRCA, Degaut vinculou a iniciativa ao planejamento estratégico da secretaria.

O desdobramento verificável veio em 2021. Segundo o Ministério da Defesa, empresas encontravam dificuldades para cadastrar seus produtos no BNDES e, por isso, não conseguiam financiá-los. A parceria levou a um regulamento específico de credenciamento de produtos de defesa, com vigência a partir de 1º de novembro daquele ano, ampliando o conjunto de bens elegíveis ao crédito, inclusive pelas linhas BNDES Exim Pré-Embarque e Pós-Embarque.

A importância dessa mudança está na remoção de um obstáculo operacional. Um produto que não consegue ingressar no sistema de financiamento perde competitividade mesmo quando atende às necessidades do comprador. O regulamento ampliou a possibilidade de acesso ao crédito; não significou aprovação automática de operações ou desembolso garantido às empresas.

Promoção comercial e resultados institucionais
O balanço oficial da SEPROD de 2019 registrou atendimento a 361 empresas, realização de 14 missões internacionais e diálogos da indústria de defesa com seis países. A secretaria também produziu estudos comerciais sobre 69 países. Os dados mostram uma atuação organizada de prospecção e apoio às empresas, além da presença em feiras.

No mesmo balanço, o Ministério informou crescimento de 21,8% no número de empresas habilitadas ao Regime Especial de Tributação para a Indústria de Defesa (RETID) e de 75% no número das que passaram a usufruir do regime, em relação a 2018. São resultados institucionais do período de sua gestão, produzidos por equipes e outros órgãos envolvidos; não realizações individuais exclusivas do secretário.

O Relatório de Gestão do Ministério da Defesa de 2021 registrou, à época, cerca de US$ 1,7 bilhão em exportações autorizadas de produtos de defesa, apresentado como recorde histórico. A expressão é importante: autorizações não devem ser confundidas com embarques efetivados ou receitas recebidas no mesmo ano. O indicador documenta a expansão das autorizações durante aquela gestão, sem permitir atribuir toda a evolução comercial a uma única autoridade.

Há ainda reconhecimentos posteriores. Em janeiro de 2023, já na nova administração federal, o então secretário Rui Chagas Mesquita enalteceu o trabalho de seus antecessores, destacando Degaut e o general Luis Antônio Duizit Brito. 

No mês seguinte, em entrevista reproduzida pelo portal LRCA em 25 de fevereiro de 2023, o próprio Degaut cobrou maior atuação do Itamaraty na promoção das exportações de defesa e defendeu recursos para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir a dependência externa.

Esse histórico confere consistência à orientação apresentada em setembro, pois a articulação entre diplomacia, indústria e capacidade militar não surgiu apenas na discussão eleitoral. Uma eventual participação de Degaut teria potencial para aproximar a discussão estratégica dos instrumentos de execução: credenciamento, crédito e promoção externa. Sua tradução em política de governo, porém, dependerá de medidas que transformem essa visão em financiamento, apoio comercial e continuidade de projetos.

Eduardo e o acesso à Casa Branca
A capacidade de interlocução de Eduardo com o governo Trump tem evidência recente. A Reuters informou que ele acompanhou Flávio em uma reunião com o presidente americano no Salão Oval, em 26 de maio de 2026. Um representante da Casa Branca confirmou o encontro. Segundo Flávio, foram discutidos crime organizado, tarifas e minerais críticos.

Embora o relato não mencione o KC-390, há um antecedente específico de promoção do avião por Eduardo. Em entrevista à Agência de Notícias Brasil-Árabe, publicada em agosto de 2019, ele relatou que discutira a possibilidade de venda do KC-390 durante reuniões nos Emirados Árabes Unidos, quando presidia a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. O registro documenta familiaridade com a promoção internacional do produto, sem comprovar resultado comercial ou atuação equivalente nos EUA. Sete anos depois, em maio de 2026, a Embraer fechou com os Emirados um contrato para até 20 aeronaves, a maior encomenda internacional do cargueiro por um único país e a primeira venda no Oriente Médio.

A influência possível seria, sobretudo, de acesso e articulação: facilitar a apresentação da proposta a autoridades, incentivar seu exame no diálogo bilateral e dar visibilidade aos benefícios industriais para os americanos. 

Uma campanha industrial que já está em andamento
A iniciativa da Embraer tem trajetória própria. Em comunicado de 19 de fevereiro de 2026, a empresa e a Northrop Grumman anunciaram investimentos conjuntos para desenvolver o KC-390 Multi-Mission Tanker, voltado aos Estados Unidos e a países aliados. O trabalho inclui uma lança rígida autônoma de reabastecimento, comunicações aprimoradas, opções de consciência situacional e sobrevivência e sistemas de missão adaptáveis.

Em setembro, a FlightGlobal voltou a destacar a campanha sob o conceito Multi-Mission Airlift and Tanker, apresentando o KC-390 como complemento ao KC-46. A lógica comercial é oferecer uma plataforma que reúna transporte tático e reabastecimento, ampliando as alternativas de emprego da frota.

O desenvolvimento da lança rígida é uma distinção técnica essencial. O KC-390 já dispõe de reabastecimento por mangueira e cesto, documentado pela Embraer, mas o sistema anunciado com a Northrop pretende ampliar o universo de aeronaves atendidas, embora essa nova configuração ainda não esteja pronta e qualificada.

Também há contato operacional anterior à campanha eleitoral. A própria USAF registrou a participação de um C-390 brasileiro no exercício Storm Flag, na Louisiana, em março de 2024, junto a aeronaves americanas e suecas. O exercício demonstra interação militar e familiaridade com o modelo.

O argumento americano que poderia interessar a Trump
A perspectiva de produção local oferece um argumento concreto para uma eventual articulação política. Em declaração publicada pela Defense One em fevereiro de 2026, Bosco da Costa Junior, presidente da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a empresa estaria disposta a investir mais de US$ 500 milhões em uma instalação dedicada ao KC-390 nos EUA, caso houvesse viabilidade de negócio. 

Em 24 de setembro, o vice-presidente de Estratégia de Mercado e Produto da Embraer, Alvadi Serpa Junior, indicou Melbourne, na Flórida, onde a empresa já monta jatos executivos, como possível sede da fábrica, condicionada a uma encomenda expressiva do governo americano.

Uma proposta desse tipo permitiria apresentar o avião também como fonte de investimento, atividade industrial e empregos nos Estados Unidos. A associação com a Northrop Grumman reforça essa dimensão. Como análise, esse seria um argumento mais consistente para mobilizar interesse em Washington do que a afinidade pessoal entre dirigentes brasileiros e americanos.

A orientação pública de Trump oferece um ponto de convergência: a ordem executiva de 9 de abril de 2025 sobre aquisições de defesa enfatiza rapidez, inovação e revitalização da base industrial americana. A proposta da Embraer poderia ser defendida à luz desses objetivos.

Para o Brasil, o valor de uma eventual montagem nos EUA dependeria da divisão industrial negociada. Seria necessário avaliar quais atividades de engenharia, componentes, propriedade intelectual e receitas permaneceriam no País. Uma venda internacional relevante pode beneficiar a BID, mas seus efeitos não são iguais em qualquer arranjo de produção.

Onde termina o acesso político e começa a decisão de compra
Uma eventual atuação de Eduardo poderia ajudar a colocar o projeto na agenda. A conversão desse acesso em aquisição dependeria de necessidade operacional reconhecida, desenvolvimento e demonstração da configuração proposta, custos de implantação e sustentação e disponibilidade de recursos. A discussão orçamentária também passa pelo Congresso americano, como mostram as audiências públicas da USAF sobre suas prioridades de modernização.

A apresentação como complemento ao KC-46 pode reduzir a percepção de confronto direto com um programa existente, mas não elimina a disputa por orçamento. Mesmo um avião com funções adicionais precisa demonstrar por que sua incorporação oferece vantagem diante de outras formas de atender à missão. 

Tarifaço e mercado interno: o teste do acesso político
O raciocínio aplicado ao KC-390 vale também para um problema mais imediato da BID: as tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Desde 22 de julho, vigora uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA, justificada pelo USTR com o Pix, a taxação do etanol americano e falhas no combate à corrupção e ao desmatamento. Somada ao adicional de 12,5% ligado à investigação sobre trabalho forçado, a carga chega a 37,5%, segundo a Taurus. Partes de aviões ficaram entre as exceções, o que preserva uma parcela das exportações da Embraer, mas as armas leves e aeronaves militares não.

Uma vitória de Flávio no dia 25 poderia mudar o quadro. Como as tarifas de 2025 nasceram vinculadas à situação de Jair Bolsonaro, um governo alinhado a Washington teria mais condições de negociar um acordo comercial amplo, e o acesso de Eduardo ajudaria a abrir portas. A redução, nesse caso, decorreria de um entendimento soberano entre Estados, não de afinidades pessoais com empresas, e poderia exigir concessões brasileiras concretas nos temas que fundamentam a Seção 301.

Por outro lado, para a Taurus e para as demais empresas que produzem armamento leve, um eventual governo Flávio poderia oferecer ainda uma compensação doméstica. Em agosto, o deputado Marcos Pollon (PL-MS), integrante da equipe do candidato, defendeu como "primeiro passo" a revogação dos decretos de armas editados por Lula. Em seguida viria uma nova lei para substituir o Estatuto do Desarmamento, com critérios objetivos para aquisição e porte e a recomposição das prerrogativas de caçadores, atiradores desportivos e colecionadores (CACs). A proposta não consta do programa registrado no TSE, mas indica a disposição do grupo político do candidato.

O histórico recente mostra como o mercado reage a essas regras. Segundo o Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, os registros chegaram a 185.497 em 2021 e a 135.334 em 2022. Com as restrições adotadas a partir de 2023, caíram 80%, para 28.328, o menor número desde 2004. A receita da Taurus no Brasil recuou 70,5% no quarto trimestre de 2023, e o presidente da empresa, Salesio Nuhs, afirmou que o mercado interno "simplesmente não existiu" naquele ano. Com as exportações para os Estados Unidos encarecidas pela tarifa, a reativação da demanda interna funcionaria como alternativa parcial.

O efeito, porém, teria limites. Em 2021, o Brasil respondia por apenas 8% a 10% da produção da Taurus, de modo que o mercado interno complementaria as vendas americanas, mas não as substituiria. Regras fixadas por decreto também podem ser revertidas rapidamente, como ocorreu em 2023, e uma nova lei dependeria do Congresso e de eventuais questionamentos no Supremo.

Indícios relevantes e compromissos ainda abertos
A participação do irmão do candidato e de um ex-secretário com larga experiência no setor constitui um indício relevante para compreender a direção em discussão. Isso não equivale, entretanto, à confirmação de que todas as propostas foram incorporadas pela candidatura.

Em reportagem de 29 de setembro sobre uma possível reforma do Itamaraty, a Folha de S.Paulo registrou que a campanha declarou que nem Eduardo Bolsonaro nem Degaut falavam pelo candidato. A manifestação ocorreu no contexto da política externa e não elimina o valor analítico das declarações, mas exige atribuir aos próprios autores as ideias apresentadas e distingui-las dos compromissos oficiais de Flávio.

Também permanecem lacunas materiais. A análise dos programas publicada pelo Forças Terrestres em 11 de setembro apontou a ausência, no documento de Flávio, de meta orçamentária específica para defesa, prioridades de plataformas e uma política detalhada para a BID. A promessa de duplicar investimentos, observou o portal, refere-se à segurança pública, não ao orçamento militar.

Para a indústria, a questão decisiva será como a orientação anunciada se converterá em demanda previsível. Um compromisso com modernização ganha alcance industrial quando define recursos, prazos e condições para desenvolver, produzir e sustentar equipamentos. Sem essas escolhas, ainda não é possível projetar encomendas ou identificar empresas beneficiadas.

Direção provável: tecnologia, capacidade militar e fortalecimento da BID
Os dados conhecidos permitem, portanto, reconhecer uma direção provável: tecnologia aplicada à segurança, valorização da capacidade militar e interesse, expresso por interlocutores próximos, em fortalecer a base industrial de defesa. 

Degaut reúne experiência documentada em instrumentos de apoio à BID. Eduardo dispõe de acesso político e já participou da promoção do KC-390 no exterior; a Embraer possui uma iniciativa industrial concreta nos Estados Unidos e a Taurus, além de já estar estabelecida neste país, poderia se beneficiar tanto de uma negociação tarifária quanto da reabertura do mercado interno. 

Esses elementos sustentam a hipótese de uma diplomacia de defesa mais ativa em favor das empresas brasileiras. A confirmação dependerá da apresentação, pela própria candidatura, das prioridades e dos meios para executar essa orientação.

24 setembro, 2026

A corrida pela autonomia nacional em sistemas não tripulados: o Brasil entre a dependência e a liderança



*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026 

O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América Latina, a Xmobots e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.

O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.

Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa (BID).

A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado atualmente.

A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer . Em 2026, o Grupo EDGE, conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos. No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.

A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação, expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.

Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em ciclos contínuos extremamente curtos.

A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.

Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado, sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos objetivos traçados para a década.

O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos, compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves, motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS); links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.

A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.

Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos, a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos principais agentes industriais do país permite identificar as competências já internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.

No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado, a Xmobots destaca-se como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.

Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até 28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD 2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às plataformas nacionais.

A AERO CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.

No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta confiabilidade, a AEL Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras, notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.

A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi, empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em 2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026, consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia decisória.

Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025, adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.

A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no Brasil.

Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte (OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.

A coordenação institucional desse contingente fabril deu um salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE, congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid, Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella Tecnologia, Taurus Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade, simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de maior sofisticação tecnológica.

Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados, revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas brasileiras.

Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes. O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres, navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software no centro do poder de combate.

Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033 demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de dados especializados em sistemas autônomos.

O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa), a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.

O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo à independência tecnológica de fato.

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

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