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08 setembro, 2026

Do orçamento às fronteiras: drones ganham novo peso na Defesa brasileira

Fala de José Múcio encontra respaldo em uma das maiores dotações de investimento da Força Terrestre, com R$ 520 milhões para a ação Aviação do Exército e Drones; SISFRON recebe outros R$ 467 milhões



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LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que o Brasil deverá investir fortemente em drones para reforçar a proteção das fronteiras encontra respaldo direto na programação orçamentária proposta para 2027. O PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação “Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones” e outros R$ 467 milhões ao SISFRON, sistema destinado ao monitoramento das fronteiras terrestres.

Os valores não significam que R$ 520 milhões serão destinados exclusivamente à compra de drones. A ação 3138 reúne capacidades da Aviação do Exército e sistemas não tripulados. Ainda assim, a presença explícita de “Drones” no título da ação e sua posição entre os maiores projetos de investimento do Exército revelam uma prioridade que ganha especial significado após a manifestação do ministro. 

Múcio aponta os drones como multiplicadores de força 
Em entrevista à coluna de Matheus Leitão, publicada pelo Metrópoles em 8 de setembro, Múcio afirmou que as Forças Armadas investirão “muito” na aquisição de drones para reforçar a proteção das fronteiras. O ministro disse que o Brasil mantém atualmente cerca de 20 mil militares nessa faixa do território e considerou o contingente insuficiente diante da extensão territorial do País.

Segundo Múcio, os drones terão a função de ampliar a capacidade de vigilância sem depender exclusivamente da expansão do efetivo. Ele citou a experiência da Ucrânia e apontou China e Turquia como referências tecnológicas. O ministro também afirmou que pretende visitar fábricas de drones nesses dois países e relatou que fabricantes brasileiros já haviam apresentado equipamentos ao Ministério da Defesa. 

O orçamento já coloca os drones entre os grandes projetos do Exército 

O PLOA 2027 prevê, no âmbito do Exército, R$ 1,02 bilhão para a Implantação do Projeto Forças Blindadas, R$ 671,4 milhões para o sistema ASTROS-FOGOS, R$ 520 milhões para a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões para o SISFRON. A ação de Aviação do Exército e Drones, portanto, figura entre as quatro maiores iniciativas de investimento da Força Terrestre.

A proposta orçamentária não identifica fabricantes, modelos ou quantidade de drones que poderão ser adquiridos. Também não é possível atribuir toda a dotação de R$ 520 milhões a aeronaves remotamente pilotadas, pois a ação abrange outras capacidades da Aviação do Exército. O dado seguro é que o planejamento orçamentário de 2027 passa a explicitar os drones como componente próprio da ação.
 
Drones e SISFRON formam uma combinação estratégica 
A proximidade entre as duas dotações é relevante. O SISFRON foi concebido como uma arquitetura de vigilância, monitoramento, comunicações, inteligência e comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo da faixa de fronteira. A incorporação de SARP e outros vetores aéreos não tripulados permite levar sensores a áreas onde a presença permanente de tropas ou de infraestrutura fixa é limitada.

O PLOA 2027, nesse sentido, combina dois instrumentos complementares: uma ação de R$ 520 milhões que agora explicita os drones e uma ação de R$ 467 milhões destinada ao SISFRON. Somadas, as duas dotações alcançam R$ 987 milhões, embora constituam ações orçamentárias distintas e não possam ser tratadas como uma única verba para aquisição de drones.
 
A experiência com o Nauru 1000C coloca a XMobots em posição privilegiada 
Entre as empresas brasileiras, a XMobots apresenta o caso público mais consistente de aderência às necessidades do Exército. O Nauru 1000C foi selecionado para a Aviação do Exército como SARP Categoria 2 e passou por avaliação técnica e operacional e experimentação doutrinária. Em 2024, o sistema foi empregado em experimentação com tropa no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Sant’Ana do Livramento, justamente em ambiente associado à missão de vigilância de fronteira.

O sistema reúne três aeronaves, estações de controle, sensores eletro-ópticos, radares e outros equipamentos de apoio. A XMobots informou recentemente ao LRCA que já acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações em sua família de plataformas e que sua capacidade instalada supera duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas Nauru e o sensor XSIS 222A.

A empresa também vem ampliando a família Nauru. O Nauru 100D, de menor porte, emprega arquitetura eVTOL e foi apresentado em versões de inteligência, vigilância e reconhecimento e, posteriormente, como plataforma armada. Essa amplitude de portfólio pode permitir ao Exército trabalhar com diferentes categorias de SARP em uma arquitetura escalonada. 

Stella Tecnologia amplia a oferta nacional para sistemas de maior porte 
Outra empresa a ser acompanhada é a Stella Tecnologia, responsável pelo desenvolvimento do SARP Atobá. A plataforma foi concebida para missões de vigilância e monitoramento de grandes áreas e possui autonomia muito superior à de pequenos sistemas táticos. O LRCA registrou ainda a existência do projeto Condor, de maior porte e voltado ao monitoramento persistente de fronteiras.

A parceria da Stella com a Thales e a Omnisys acrescenta uma dimensão importante: sensores, sistemas de bordo, comunicações e integração de capacidades. Isso reforça a possibilidade de que futuros programas sejam estruturados não apenas em torno da aeronave, mas de todo o sistema de missão. 

Harpia amplia as opções da BID para vigilância de longo alcance 
Outro sistema que merece atenção nesse cenário é o Harpia, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD). O SARP de asa fixa foi concebido para missões de vigilância e reconhecimento em grandes áreas e apresenta características particularmente adequadas às dimensões e às condições geográficas brasileiras.

O Harpia possui autonomia de até 12 horas, pode ser lançado por catapulta e recuperado por paraquedas e airbag, dispensando pista convencional. Seu sistema de comunicação foi certificado para operações BVLOS a até 180 quilômetros da estação de pilotagem, enquanto a aeronave pode percorrer distâncias muito superiores em sua autonomia de voo. A plataforma também pode receber diferentes cargas úteis, incluindo sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética e equipamentos de guerra eletrônica.

A maturidade do sistema é outro fator relevante. Em abril de 2026, o Harpia recebeu a Autorização de Projeto da ANAC, permitindo sua produção em série, e posteriormente obteve o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA. A AdTech SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa, enquanto o Harpia integra a relação de Produtos Estratégicos de Defesa.

A plataforma também já apresenta experiência operacional. O Governo do Acre adquiriu o sistema para emprego integrado pelos órgãos estaduais de segurança, e o Harpia vem sendo considerado para aplicações em outras regiões de difícil acesso. Em julho de 2026, o sistema participou da Operação Furnas, da Marinha do Brasil, onde foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento em ambiente ribeirinho. A participação ocorreu em meio à avaliação do equipamento para o futuro Programa SARP-E da Marinha.

Para o Exército, o interesse potencial é evidente. As mesmas características que tornam o Harpia adequado ao monitoramento de áreas ribeirinhas, florestais e de difícil acesso também podem ser aplicadas à vigilância de extensos trechos de fronteira. Seu emprego poderia ocupar uma camada intermediária entre pequenos drones táticos e sistemas de maior porte, oferecendo autonomia elevada, mobilidade e capacidade de operar sem infraestrutura aeroportuária convencional.

Akaer, AEL Sistemas e Santos Lab também permanecem relevantes nesse ecossistema. A Akaer possui competências em engenharia aeronáutica e sistemas não tripulados; a AEL Sistemas reúne experiência em SARP, sensores, comunicações e integração de sistemas; e a Santos Lab mantém uma posição consolidada no segmento de plataformas menores, como a família Carcará. O ponto central é que a BID brasileira não depende de uma única solução: há um conjunto crescente de empresas capazes de atender diferentes camadas de uma futura arquitetura nacional de sistemas não tripulados.

Uma arquitetura em camadas pode ser mais provável do que um único drone 
A extensão das fronteiras brasileiras e a variedade de missões sugerem que uma eventual expansão não deverá depender de um único modelo. Pequenos sistemas podem apoiar unidades em missões de reconhecimento local; SARP de Categoria 2 podem proporcionar vigilância tática e operacional; plataformas de maior porte podem realizar missões persistentes sobre grandes áreas.

Nessa arquitetura, a aeronave é apenas um dos elementos. Sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radares, enlaces de dados, estações de controle, processamento de imagens, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras e integração com o SISFRON são componentes igualmente importantes.

O impacto potencial para a Base Industrial de Defesa
A dimensão dos recursos previstos pode produzir efeitos que vão muito além da eventual compra de aeronaves. Um programa de expansão de SARP tende a movimentar fornecedores de sensores, aviônicos, comunicações, software, inteligência artificial, propulsão, estruturas, baterias, estações de controle, logística e manutenção.

Esse aspecto é especialmente relevante porque o Brasil já possui uma cadeia tecnológica capaz de fornecer parte considerável desses elementos. O desafio será transformar competências dispersas em uma arquitetura integrada, com produção em escala, disponibilidade operacional, atualização tecnológica e capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

A XMobots é um exemplo dessa verticalização. Segundo informações divulgadas pela própria empresa e repercutidas pelo LRCA, mais de R$ 220 milhões foram destinados desde 2022 ao desenvolvimento de soluções de Defesa e Segurança. A empresa também afirma possuir uma estrutura que integra engenharia aeronáutica, software embarcado, aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
 
O que ainda não está definido 
É importante evitar interpretações que o PLOA não permite sustentar. A proposta não informa quantos drones serão comprados, quais modelos serão selecionados, quais empresas participarão de futuras concorrências ou qual parcela dos R$ 520 milhões será efetivamente aplicada em sistemas não tripulados.

Além disso, o PLOA é uma proposta. O texto ainda passa pelo Congresso Nacional, pode sofrer alterações e, depois de aprovado e sancionado, sua execução dependerá da programação financeira e da disponibilidade efetiva de recursos.
 
Uma mudança de patamar 
Mesmo com essas ressalvas, há uma mudança qualitativa. O Exército já emprega SARP nacionais e vem experimentando sua utilização em diferentes ambientes. O PLOA 2027 agora explicita “Drones” no nome de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre, ao mesmo tempo em que mantém uma dotação robusta para o SISFRON.

A declaração de José Múcio, portanto, deve ser lida menos como uma ideia isolada e mais como uma manifestação política que converge com uma linha de planejamento já refletida na proposta orçamentária. Se os recursos forem preservados e transformados em contratos, o País poderá assistir a uma expansão significativa do emprego de sistemas não tripulados na vigilância das fronteiras.

Para a Base Industrial de Defesa, a oportunidade é ainda maior: o programa poderá representar não apenas a aquisição de aeronaves, mas a consolidação de uma cadeia nacional de sistemas autônomos, sensores e comando e controle. Nesse cenário, o desafio será fazer com que o investimento em drones se traduza em capacidade operacional permanente, autonomia tecnológica e maior presença brasileira em um dos segmentos que mais rapidamente transformam a guerra e a vigilância territorial.

12 julho, 2026

SARP HARPIA participa da Operação Furnas 2026 e demonstra potencial expedicionário para a Marinha do Brasil

Drone da ADTECH-SD foi empregado em missões de vigilância e reconhecimento em cenário ribeirinho no Lago de Furnas, em treinamento que reúne 2 mil militares dos Fuzileiros Navais e reforça requisitos para o futuro Programa SARP-E


*LRCA Defense Consulting - 12/07/2026

A Operação Furnas 2026, exercício da Marinha do Brasil realizado no Lago de Furnas, em Minas Gerais, serviu de cenário para uma demonstração operacional do Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP - drone) HARPIA, desenvolvido pela empresa brasileira ADTECH-SD. Segundo release distribuído pela assessoria de imprensa da companhia, a atividade teve como objetivo avaliar o potencial do equipamento como um futuro multiplicador de força para as unidades do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN).

A região do Lago de Furnas, conhecida como “Mar de Minas”, reproduz condições de operações expedicionárias, ribeirinhas e de reação rápida. De acordo com o material da ADTECH-SD, o ambiente lacustre reúne meios navais, terrestres e aéreos em cenários que exigem elevada mobilidade e ampla consciência situacional, contexto em que sistemas não tripulados vêm ganhando relevância crescente ao oferecer informações em tempo real aos comandantes e reduzir a exposição de tropas em missões de reconhecimento.

Segundo a Marinha, por meio da Agência Marinha de Notícias, a Operação Furnas 2026 teve início em 22 de junho e se estendeu até 3 de julho, mobilizando cerca de 2 mil militares em São José da Barra (MG). O exercício, coordenado pela Força de Fuzileiros da Esquadra, empregou carros lagarta anfíbios, viaturas blindadas, embarcações de desembarque litorâneo, robôs e drones em atividades de operações ribeirinhas, apoio à Defesa Civil e treinamento para missões de paz. O Capitão de Mar e Guerra Adilson Cappucci, chefe do Estado-Maior do Comando da Divisão Ribeirinha, associou a atividade ao centenário da presença da Marinha em Minas Gerais e à oportunidade de projetar o País no exterior e desenvolver capacidades para cenários de gerenciamento de crises.

Emprego em vigilância e reconhecimento ribeirinho
Conforme descrito no release, durante a demonstração o HARPIA foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento, permitindo a obtenção de informações sobre áreas de interesse antes do deslocamento das forças terrestres. A capacidade de monitorar extensas áreas, identificar movimentações e transmitir imagens em tempo real foi apresentada como uma oportunidade de incremento para as operações conduzidas pelos Fuzileiros Navais e pela Esquadra brasileira.

O cenário ribeirinho de Furnas, caracterizado por grandes espelhos d'água, áreas de difícil acesso, margens extensas e múltiplos eixos de aproximação, teria permitido avaliar a plataforma em condições que exigem meios capazes de ampliar o alcance da observação. Segundo o release, o HARPIA contribuiu para a vigilância de rotas fluviais, o reconhecimento de pontos de desembarque, o monitoramento de embarcações e o apoio a operações de controle de áreas ribeirinhas.

Candidato ao Programa SARP-E da Marinha
A participação do HARPIA na Operação Furnas 2026 ocorre em meio a um processo mais amplo de avaliação do sistema pela Marinha do Brasil. O equipamento já havia sido submetido a uma demonstração conduzida pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), com apoio do Comando da Força Aeronaval, nos dias 25 e 26 de setembro, na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ), com o propósito de verificar as capacidades do sistema para operações em terra e sobre o mar. Naquela ocasião, a própria Marinha informou que a demonstração contribuiria para o estabelecimento de requisitos para o Programa de Obtenção de SARP-E, previsto no Portfólio Estratégico da Força, e para o desenvolvimento de produtos estratégicos pela Base Industrial de Defesa (BID).

O release da ADTECH-SD reforça essa leitura ao afirmar que o HARPIA vem sendo observado como uma potencial solução para atender tanto à Aviação Naval embarcada quanto ao Corpo de Fuzileiros Navais, especialmente em missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). A empresa também destaca que a mobilidade elevada, a rápida entrada em operação e a reduzida demanda logística do sistema seriam compatíveis com o perfil expedicionário da Força, permitindo emprego tanto em operações anfíbias a partir de meios de superfície da Esquadra quanto em missões ribeirinhas.

Características técnicas do sistema
O HARPIA é um SARP de asa fixa, movido a motor de combustão, com decolagem por catapulta e pouso por paraquedas, configuração que dispensa infraestrutura de lançamento e recolhimento mais complexa. De acordo com dados já divulgados pela própria Marinha, o sistema possui envergadura de 4 metros, comprimento de 2 metros e autonomia nominal de 12 horas, com alcance de até 218 km em operações além da linha de visada (Beyond Visual Line of Sight, BVLOS).

O sistema obteve, em 6 de abril de 2026, o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA (CAER) junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), tornando-se, segundo reportagem publicada pelo portal LRCA Defense Consulting, o único drone de sua categoria autorizado a operar a até 180 km de distância e 10.000 pés de altitude, podendo também atuar sobre áreas urbanas quando empregado por órgãos governamentais. A ADTECH-SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e o HARPIA figura entre os produtos classificados como estratégicos de defesa. A companhia destaca ainda que o sistema foi desenvolvido integralmente no Brasil e sem restrições da International Traffic in Arms Regulations (ITAR), legislação norte-americana que costuma limitar o uso e a personalização de equipamentos importados.

Outros empregos do sistema
Além da avaliação pela Marinha, o HARPIA já vem operando em contextos de segurança pública e defesa civil. O sistema foi adquirido pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre, primeiro estado brasileiro a incorporar a plataforma, e também está em processo de implantação no Amazonas, onde é utilizado no monitoramento de áreas de difícil acesso na região amazônica. O drone também foi empregado em missões reais de busca e resgate no litoral norte paulista, conforme relatado pelo portal Zona Militar, e em ação de mapeamento de áreas atingidas por enchentes no Rio Grande do Sul, quando um SARP foi lançado a partir do Navio Aeródromo Multipropósito “Atlântico”.

A Operação Furnas 2026, por sua vez, tem reunido outras empresas da Base Industrial de Defesa em ambiente operacional. Segundo o portal Defesa em Foco, além do HARPIA foram avaliados armamentos portáteis da Taurus, coletes balísticos flutuantes da Protecta, meios não letais da Condor e simuladores do míssil MAX, da SIATT/ADTech, além de veículos aéreos não tripulados da Atech e da Vultis empregados em reconhecimento tático e vigilância de baixa altura.

A ADTECH-SD não informou prazo ou condições para uma eventual contratação do HARPIA pela Marinha do Brasil no âmbito do Programa SARP-E.

09 maio, 2026

Harpia: quando um drone brasileiro desenha um novo mapa da segurança nacional

Da fábrica em São José dos Campos às fronteiras amazônicas: como o drone de maior alcance já certificado no Brasil redefine o panorama da vigilância, defesa e segurança pública nacional.


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LRCA Defense Consulting - 09/05/2026

Em 6 de abril de 2026, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) publicou a Autorização de Projeto do Harpia, um feito que mais de quatro anos de desenvolvimento, três protótipos experimentais e centenas de horas de voo tornaram possível. Naquele dia, o drone fabricado pela Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), empresa sediada em São José dos Campos (SP), cruzou uma fronteira regulatória até então inédita para aeronaves não tripuladas civis no país.

Com a homologação, um número ilimitado de unidades do Harpia passou a poder ser vendido e operado em voos BVLOS (Beyond Visual Line of Sight — além da linha de visada visual) até 180 km de distância da estação de pilotagem, em altitudes acima de 400 pés e até o teto operacional de 10.000 pés. Trata-se do maior alcance e da maior altitude já autorizados para qualquer aeronave não tripulada de iniciativa privada no Brasil.

"O Harpia é uma solução tecnológica desenhada para as demandas do Brasil. A entrada no mercado nacional com todas as credenciais necessárias é o que os órgãos públicos e os clientes privados precisavam para aderir em definitivo aos benefícios que o uso das aeronaves não tripuladas pode trazer." - Bruno Santos Cunha · CEO, Advanced Technologies Security & Defense

Mais do que um avanço regulatório isolado, a conquista consolida a posição do Harpia como o principal Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) de uso dual (civil e militar) produzido integralmente em solo brasileiro, num contexto em que a soberania tecnológica em sistemas de vigilância e defesa ganhou urgência estratégica.

Anatomia de um veículo aéreo não tripulado de alto desempenho
O Harpia é classificado como um VANT de asa fixa movido a motor a combustão, uma configuração que lhe confere vantagens decisivas em autonomia e alcance em relação a quadrotores elétricos. Com 4 metros de envergadura, 2 metros de comprimento e peso máximo de 23 kg equipado, a aeronave transporta uma plataforma modular capaz de receber diferentes cargas úteis conforme a missão.

O sistema de lançamento por catapulta dispensa infraestrutura aeroportuária e funciona em qualquer tipo de terreno, incluindo ambientes alagados, essencial para operações na Amazônia e no Pantanal. O pouso, por sua vez, é realizado por acionamento de paraquedas combinado a um airbag integrado à fuselagem, garantindo recuperação segura da aeronave mesmo em áreas sem pista.

O payload principal é a câmera giro-estabilizada Epsilon 140Z G2, que combina sensor eletro-óptico Full HD 1080p com câmera térmica LWIR 640×512 e zoom óptico de até 30x, além de telêmetro a laser. Toda a captação é transmitida em tempo real para a estação de pilotagem por meio de um sistema de comunicação de quatro canais criptografados homologado pela ANATEL, certificação de número 08223-23-14691. O link de dados pode também ser acessado por uma estação móvel adaptável a viaturas, barcos ou operadores a pé, ampliando a flexibilidade tática do sistema.

Dados técnicos
Envergadura: 4,0 metros
Comprimento: 2,0 metros
Peso máximo equipado: 23 kg
Propulsão: motor a combustão / gasolina
Velocidade de cruzeiro: 65 – 135 km/h
Velocidade máxima: 150 km/h
Autonomia de voo: até 12 horas
Alcance operacional: até 1.200 km percorridos
Alcance de comunicação (certificado): 180 km (BVLOS)
Teto operacional: 10.000 pés (≈ 3.050 m ASL)
Altitude operacional máxima: 5.000 m ASL
Pouso: Paraquedas + airbag
Lançamento: Catapulta (qualquer terreno)

 

Uma jornada de cinco anos até a plena certificação
A trajetória regulatória do Harpia é, por si só, um estudo de caso sobre a maturação do ecossistema de drones profissionais no Brasil. A parceria entre a AdTech SD e a consultoria aeronáutica AL Drones iniciou-se em novembro de 2021, ainda nas fases iniciais de concepção do projeto. Desde o princípio, os requisitos de certificação da ANAC foram incorporados ao próprio processo de design da aeronave.

- Novembro 2021 - Início da parceria AdTech SD + AL Drones
A consultoria especializada em certificação aeronáutica passa a integrar o desenvolvimento do Harpia desde a prancheta, incorporando requisitos de segurança ao projeto de engenharia.

- Maio 2023 - CAVE — Primeiro Certificado de Autorização de Voo Experimental
A ANAC emite o CAVE para o primeiro protótipo, autorizando voos de desenvolvimento BVLOS até 218 km e a 8.200 pés (2.500 m), maiores limites já autorizados para uma aeronave não tripulada civil no Brasil até então.

- 2023 – 2025 - Desenvolvimento com três protótipos e CAVEs sucessivos
Inúmeras iterações de engenharia, incluindo desenvolvimento de software de comando de voo proprietário, sistemas FPV, paraquedas e airbag embarcado. Cada protótipo recebe seu próprio CAVE e acumula horas de voo em perfil BVLOS.

- 6 de Abril 2026 - Autorização de Projeto pela ANAC — Primeira sob a IS E94-004A
A ANAC publica a Autorização de Projeto do Harpia, tornando-o o primeiro modelo autorizado pelos moldes da Instrução Suplementar IS E94-004A. A aeronave pode agora ser produzida em série para venda comercial.

- Maio 2026 - CAER — Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA
Com o CAER, o Harpia torna-se o único drone de sua categoria autorizado a operar sobre áreas urbanas quando empregado por forças de segurança e defesa pública.

"O Harpia é um marco para a Aviação Não Tripulada do Brasil, expandindo vários limites que antes eram paradigmas para aeronaves dessa categoria, como é o caso do seu alcance e seu teto operacional." - Lucas Florêncio · Sócio Cofundador, AL Drones

Defesa e segurança pública: o coração da missão
Com dimensões continentais de mais de 8,5 milhões de km² e 23 mil km de fronteiras terrestres e fluviais, o Brasil enfrenta desafios imensos de vigilância e controle territorial. O Harpia foi concebido precisamente para endereçar essa lacuna, oferecendo capacidade de monitoramento persistente em áreas onde aeronaves tripuladas ou drones de menor porte são ineficientes ou economicamente inviáveis.

- Patrulhamento de Fronteiras: o Harpia opera de forma autônoma ou automatizada por longas horas, cobrindo extensas faixas de fronteira terrestre e fluvial para detectar contrabando, tráfico de drogas e passagem ilegal de pessoas.

- Vigilância e Segurança Pública: câmeras de alta definição e câmera térmica LWIR permitem vigilância diurna e noturna de áreas dominadas por facções criminosas, com transmissão em tempo real para centros de comando.

- Apoio a Operações Militares: emprego tático e operacional para reconhecimento, inteligência, vigilância e apoio de fogo de artilharia. Integra-se a redes C4ISR e pode controlar até cinco aeronaves por estação de comando.

- Busca e Salvamento: equipado com módulo de rastreamento de sinais celulares 2G/3G/4G e emissões UHF/VHF, o Harpia localiza vítimas em desastres naturais, naufráfios e acidentes em áreas remotas.

- Defesa Ambiental: monitoramento de focos de incêndio, grilagem e desmatamento ilegal em biomas como Amazônia e Cerrado, com cobertura territorial que seria inviável para equipes terrestres.

- Escolta e Proteção Patrimonial: monitoramento aéreo de comboios terrestres por centenas de quilômetros, substituindo funções de risco para agentes e garantindo segurança em deslocamentos críticos.

Capacidade inédita: operação sobre áreas urbanas
Com a emissão do CAER em abril de 2026, o Harpia tornou-se o único drone de sua categoria no Brasil autorizado a voar sobre áreas urbanas quando empregado por órgãos públicos de segurança e defesa. A ANAC concede essa prerrogativa exclusivamente a órgãos públicos (forças policiais, corpo de bombeiros, defesa civil, fiscalização aduaneira e tributária), tornando o sistema uma ferramenta extraordinariamente poderosa para o combate ao crime e a proteção da vida nas cidades.

Do laboratório às fronteiras: o Acre como laboratório vivo
A teoria encontrou a prática de maneira concreta quando o Governo do Estado do Acre tornou-se o primeiro a adquirir o Harpia para uso na segurança pública estadual. Com investimento de R$ 6,6 milhões, provenientes de recursos próprios e emenda parlamentar, a Secretaria de Segurança Pública acreana implantou o sistema para uso integrado pela Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e órgãos de fiscalização ambiental.

A escolha não é casual: o Acre concentra mais de 2.300 km de fronteiras com Peru e Bolívia, em território majoritariamente coberto pela floresta amazônica. A combinação de alcance operacional, câmera térmica e capacidade de rastreamento de sinais celulares faz do Harpia um multiplicador de força em um estado onde a logística tradicional de segurança é extremamente desafiadora.

"O HARPIA é uma ferramenta que permite otimizar os recursos, tanto logísticos quanto humanos. O maior benefício é a proteção do servidor e também da população, porque permite um olhar avançado sem que o servidor seja colocado em risco." - Cel. Américo Gaia · Secretário de Segurança Pública do Acre

O Amazonas também confirmou interesse no sistema, e a tendência é de expansão para outros estados que enfrentam desafios semelhantes de vigilância territorial, especialmente aqueles com fronteiras internacionais ou grandes extensões de bioma preservado.

Autonomia nacional em tecnologia estratégica sensível
Um aspecto frequentemente subestimado na análise do Harpia é sua relevância geopolítica. O sistema foi desenvolvido integralmente no Brasil e, crucialmente, sem restrições ITAR (International Traffic in Arms Regulations), a legislação norte-americana que controla a exportação de tecnologias de defesa e que frequentemente limita o uso e a personalização de equipamentos importados por países como o Brasil.

Essa independência regulatória confere ao país plena liberdade para desenvolver variantes, integrar novos sensores, exportar o sistema e compartilhá-lo com aliados sem a necessidade de autorização de terceiros. Trata-se de um ativo estratégico em um cenário geopolítico no qual a autonomia em tecnologias de duplo uso, civil e militar, é crescentemente valorizada.

O reconhecimento formal do Ministério da Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED) e da AdTech SD como Empresa Estratégica de Defesa (EED) consagra essa dimensão. O Harpia integra um portfólio que inclui ainda o sistema anti-drone SIMAD, o radar ATALAIA e o transponder MXS, sinalizando uma aposta consistente na construção de uma base industrial de defesa nacional em tecnologias de vigilância e guerra eletrônica.

Integração C4ISR e Guerra Eletrônica
Na dimensão militar avançada, o Harpia pode ser configurado com sistemas de designação a laser, comunicações criptografadas de quatro canais, radar de abertura sintética (SAR) e equipamentos de guerra eletrônica para interceptação de comunicações. A estação de controle tem capacidade de gerenciar simultaneamente até cinco aeronaves em operações coordenadas, tornando o sistema escalável para coberturas de área estratégica. Sua assinatura acústica reduzida e perfil visual discreto o tornam adequado para missões em ambientes contestados.

 

 

Um novo patamar para a aviação não tripulada nacional
A trajetória do Harpia ilustra com precisão o que é possível quando engenharia nacional, regulação responsável e visão estratégica caminham juntas. Da primeira reunião entre AdTech SD e AL Drones em 2021 à publicação da Autorização de Projeto pela ANAC em 2026, cada etapa foi marcada pelo rigor técnico que a aviação exige, e que os operadores de segurança e defesa demandam.

A certificação para voo sobre áreas urbanas, um feito inédito para a categoria no Brasil, abre possibilidades operacionais que estavam até agora vedadas a qualquer outro sistema de drone do país. Combinada ao alcance de 180 km em modo BVLOS e à autonomia de 12 horas, essa prerrogativa posiciona o Harpia como um ativo sem equivalente doméstico no atual inventário de segurança pública e defesa.

Para um país com as dimensões e os desafios territoriais do Brasil, o Harpia não é apenas mais um produto da indústria de defesa. É, potencialmente, um divisor de águas na forma como o Estado monitora suas fronteiras, protege seus biomas e responde a ameaças: com tecnologia própria, sem dependências externas e com plena soberania operacional.

"A Autorização de Projeto do Harpia é uma etapa muito importante da aviação não tripulada do país. Agora um número ilimitado de unidades pode ser vendido para voo BVLOS acima de 400ft." - André Arruda · Sócio Cofundador, AL Drones

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