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15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


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LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

12 julho, 2026

SARP HARPIA participa da Operação Furnas 2026 e demonstra potencial expedicionário para a Marinha do Brasil

Drone da ADTECH-SD foi empregado em missões de vigilância e reconhecimento em cenário ribeirinho no Lago de Furnas, em treinamento que reúne 2 mil militares dos Fuzileiros Navais e reforça requisitos para o futuro Programa SARP-E


*LRCA Defense Consulting - 12/07/2026

A Operação Furnas 2026, exercício da Marinha do Brasil realizado no Lago de Furnas, em Minas Gerais, serviu de cenário para uma demonstração operacional do Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP - drone) HARPIA, desenvolvido pela empresa brasileira ADTECH-SD. Segundo release distribuído pela assessoria de imprensa da companhia, a atividade teve como objetivo avaliar o potencial do equipamento como um futuro multiplicador de força para as unidades do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN).

A região do Lago de Furnas, conhecida como “Mar de Minas”, reproduz condições de operações expedicionárias, ribeirinhas e de reação rápida. De acordo com o material da ADTECH-SD, o ambiente lacustre reúne meios navais, terrestres e aéreos em cenários que exigem elevada mobilidade e ampla consciência situacional, contexto em que sistemas não tripulados vêm ganhando relevância crescente ao oferecer informações em tempo real aos comandantes e reduzir a exposição de tropas em missões de reconhecimento.

Segundo a Marinha, por meio da Agência Marinha de Notícias, a Operação Furnas 2026 teve início em 22 de junho e se estendeu até 3 de julho, mobilizando cerca de 2 mil militares em São José da Barra (MG). O exercício, coordenado pela Força de Fuzileiros da Esquadra, empregou carros lagarta anfíbios, viaturas blindadas, embarcações de desembarque litorâneo, robôs e drones em atividades de operações ribeirinhas, apoio à Defesa Civil e treinamento para missões de paz. O Capitão de Mar e Guerra Adilson Cappucci, chefe do Estado-Maior do Comando da Divisão Ribeirinha, associou a atividade ao centenário da presença da Marinha em Minas Gerais e à oportunidade de projetar o País no exterior e desenvolver capacidades para cenários de gerenciamento de crises.

Emprego em vigilância e reconhecimento ribeirinho
Conforme descrito no release, durante a demonstração o HARPIA foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento, permitindo a obtenção de informações sobre áreas de interesse antes do deslocamento das forças terrestres. A capacidade de monitorar extensas áreas, identificar movimentações e transmitir imagens em tempo real foi apresentada como uma oportunidade de incremento para as operações conduzidas pelos Fuzileiros Navais e pela Esquadra brasileira.

O cenário ribeirinho de Furnas, caracterizado por grandes espelhos d'água, áreas de difícil acesso, margens extensas e múltiplos eixos de aproximação, teria permitido avaliar a plataforma em condições que exigem meios capazes de ampliar o alcance da observação. Segundo o release, o HARPIA contribuiu para a vigilância de rotas fluviais, o reconhecimento de pontos de desembarque, o monitoramento de embarcações e o apoio a operações de controle de áreas ribeirinhas.

Candidato ao Programa SARP-E da Marinha
A participação do HARPIA na Operação Furnas 2026 ocorre em meio a um processo mais amplo de avaliação do sistema pela Marinha do Brasil. O equipamento já havia sido submetido a uma demonstração conduzida pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), com apoio do Comando da Força Aeronaval, nos dias 25 e 26 de setembro, na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ), com o propósito de verificar as capacidades do sistema para operações em terra e sobre o mar. Naquela ocasião, a própria Marinha informou que a demonstração contribuiria para o estabelecimento de requisitos para o Programa de Obtenção de SARP-E, previsto no Portfólio Estratégico da Força, e para o desenvolvimento de produtos estratégicos pela Base Industrial de Defesa (BID).

O release da ADTECH-SD reforça essa leitura ao afirmar que o HARPIA vem sendo observado como uma potencial solução para atender tanto à Aviação Naval embarcada quanto ao Corpo de Fuzileiros Navais, especialmente em missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). A empresa também destaca que a mobilidade elevada, a rápida entrada em operação e a reduzida demanda logística do sistema seriam compatíveis com o perfil expedicionário da Força, permitindo emprego tanto em operações anfíbias a partir de meios de superfície da Esquadra quanto em missões ribeirinhas.

Características técnicas do sistema
O HARPIA é um SARP de asa fixa, movido a motor de combustão, com decolagem por catapulta e pouso por paraquedas, configuração que dispensa infraestrutura de lançamento e recolhimento mais complexa. De acordo com dados já divulgados pela própria Marinha, o sistema possui envergadura de 4 metros, comprimento de 2 metros e autonomia nominal de 12 horas, com alcance de até 218 km em operações além da linha de visada (Beyond Visual Line of Sight, BVLOS).

O sistema obteve, em 6 de abril de 2026, o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA (CAER) junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), tornando-se, segundo reportagem publicada pelo portal LRCA Defense Consulting, o único drone de sua categoria autorizado a operar a até 180 km de distância e 10.000 pés de altitude, podendo também atuar sobre áreas urbanas quando empregado por órgãos governamentais. A ADTECH-SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e o HARPIA figura entre os produtos classificados como estratégicos de defesa. A companhia destaca ainda que o sistema foi desenvolvido integralmente no Brasil e sem restrições da International Traffic in Arms Regulations (ITAR), legislação norte-americana que costuma limitar o uso e a personalização de equipamentos importados.

Outros empregos do sistema
Além da avaliação pela Marinha, o HARPIA já vem operando em contextos de segurança pública e defesa civil. O sistema foi adquirido pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre, primeiro estado brasileiro a incorporar a plataforma, e também está em processo de implantação no Amazonas, onde é utilizado no monitoramento de áreas de difícil acesso na região amazônica. O drone também foi empregado em missões reais de busca e resgate no litoral norte paulista, conforme relatado pelo portal Zona Militar, e em ação de mapeamento de áreas atingidas por enchentes no Rio Grande do Sul, quando um SARP foi lançado a partir do Navio Aeródromo Multipropósito “Atlântico”.

A Operação Furnas 2026, por sua vez, tem reunido outras empresas da Base Industrial de Defesa em ambiente operacional. Segundo o portal Defesa em Foco, além do HARPIA foram avaliados armamentos portáteis da Taurus, coletes balísticos flutuantes da Protecta, meios não letais da Condor e simuladores do míssil MAX, da SIATT/ADTech, além de veículos aéreos não tripulados da Atech e da Vultis empregados em reconhecimento tático e vigilância de baixa altura.

A ADTECH-SD não informou prazo ou condições para uma eventual contratação do HARPIA pela Marinha do Brasil no âmbito do Programa SARP-E.

09 maio, 2026

Harpia: quando um drone brasileiro desenha um novo mapa da segurança nacional

Da fábrica em São José dos Campos às fronteiras amazônicas: como o drone de maior alcance já certificado no Brasil redefine o panorama da vigilância, defesa e segurança pública nacional.


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LRCA Defense Consulting - 09/05/2026

Em 6 de abril de 2026, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) publicou a Autorização de Projeto do Harpia, um feito que mais de quatro anos de desenvolvimento, três protótipos experimentais e centenas de horas de voo tornaram possível. Naquele dia, o drone fabricado pela Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), empresa sediada em São José dos Campos (SP), cruzou uma fronteira regulatória até então inédita para aeronaves não tripuladas civis no país.

Com a homologação, um número ilimitado de unidades do Harpia passou a poder ser vendido e operado em voos BVLOS (Beyond Visual Line of Sight — além da linha de visada visual) até 180 km de distância da estação de pilotagem, em altitudes acima de 400 pés e até o teto operacional de 10.000 pés. Trata-se do maior alcance e da maior altitude já autorizados para qualquer aeronave não tripulada de iniciativa privada no Brasil.

"O Harpia é uma solução tecnológica desenhada para as demandas do Brasil. A entrada no mercado nacional com todas as credenciais necessárias é o que os órgãos públicos e os clientes privados precisavam para aderir em definitivo aos benefícios que o uso das aeronaves não tripuladas pode trazer." - Bruno Santos Cunha · CEO, Advanced Technologies Security & Defense

Mais do que um avanço regulatório isolado, a conquista consolida a posição do Harpia como o principal Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) de uso dual (civil e militar) produzido integralmente em solo brasileiro, num contexto em que a soberania tecnológica em sistemas de vigilância e defesa ganhou urgência estratégica.

Anatomia de um veículo aéreo não tripulado de alto desempenho
O Harpia é classificado como um VANT de asa fixa movido a motor a combustão, uma configuração que lhe confere vantagens decisivas em autonomia e alcance em relação a quadrotores elétricos. Com 4 metros de envergadura, 2 metros de comprimento e peso máximo de 23 kg equipado, a aeronave transporta uma plataforma modular capaz de receber diferentes cargas úteis conforme a missão.

O sistema de lançamento por catapulta dispensa infraestrutura aeroportuária e funciona em qualquer tipo de terreno, incluindo ambientes alagados, essencial para operações na Amazônia e no Pantanal. O pouso, por sua vez, é realizado por acionamento de paraquedas combinado a um airbag integrado à fuselagem, garantindo recuperação segura da aeronave mesmo em áreas sem pista.

O payload principal é a câmera giro-estabilizada Epsilon 140Z G2, que combina sensor eletro-óptico Full HD 1080p com câmera térmica LWIR 640×512 e zoom óptico de até 30x, além de telêmetro a laser. Toda a captação é transmitida em tempo real para a estação de pilotagem por meio de um sistema de comunicação de quatro canais criptografados homologado pela ANATEL, certificação de número 08223-23-14691. O link de dados pode também ser acessado por uma estação móvel adaptável a viaturas, barcos ou operadores a pé, ampliando a flexibilidade tática do sistema.

Dados técnicos
Envergadura: 4,0 metros
Comprimento: 2,0 metros
Peso máximo equipado: 23 kg
Propulsão: motor a combustão / gasolina
Velocidade de cruzeiro: 65 – 135 km/h
Velocidade máxima: 150 km/h
Autonomia de voo: até 12 horas
Alcance operacional: até 1.200 km percorridos
Alcance de comunicação (certificado): 180 km (BVLOS)
Teto operacional: 10.000 pés (≈ 3.050 m ASL)
Altitude operacional máxima: 5.000 m ASL
Pouso: Paraquedas + airbag
Lançamento: Catapulta (qualquer terreno)

 

Uma jornada de cinco anos até a plena certificação
A trajetória regulatória do Harpia é, por si só, um estudo de caso sobre a maturação do ecossistema de drones profissionais no Brasil. A parceria entre a AdTech SD e a consultoria aeronáutica AL Drones iniciou-se em novembro de 2021, ainda nas fases iniciais de concepção do projeto. Desde o princípio, os requisitos de certificação da ANAC foram incorporados ao próprio processo de design da aeronave.

- Novembro 2021 - Início da parceria AdTech SD + AL Drones
A consultoria especializada em certificação aeronáutica passa a integrar o desenvolvimento do Harpia desde a prancheta, incorporando requisitos de segurança ao projeto de engenharia.

- Maio 2023 - CAVE — Primeiro Certificado de Autorização de Voo Experimental
A ANAC emite o CAVE para o primeiro protótipo, autorizando voos de desenvolvimento BVLOS até 218 km e a 8.200 pés (2.500 m), maiores limites já autorizados para uma aeronave não tripulada civil no Brasil até então.

- 2023 – 2025 - Desenvolvimento com três protótipos e CAVEs sucessivos
Inúmeras iterações de engenharia, incluindo desenvolvimento de software de comando de voo proprietário, sistemas FPV, paraquedas e airbag embarcado. Cada protótipo recebe seu próprio CAVE e acumula horas de voo em perfil BVLOS.

- 6 de Abril 2026 - Autorização de Projeto pela ANAC — Primeira sob a IS E94-004A
A ANAC publica a Autorização de Projeto do Harpia, tornando-o o primeiro modelo autorizado pelos moldes da Instrução Suplementar IS E94-004A. A aeronave pode agora ser produzida em série para venda comercial.

- Maio 2026 - CAER — Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA
Com o CAER, o Harpia torna-se o único drone de sua categoria autorizado a operar sobre áreas urbanas quando empregado por forças de segurança e defesa pública.

"O Harpia é um marco para a Aviação Não Tripulada do Brasil, expandindo vários limites que antes eram paradigmas para aeronaves dessa categoria, como é o caso do seu alcance e seu teto operacional." - Lucas Florêncio · Sócio Cofundador, AL Drones

Defesa e segurança pública: o coração da missão
Com dimensões continentais de mais de 8,5 milhões de km² e 23 mil km de fronteiras terrestres e fluviais, o Brasil enfrenta desafios imensos de vigilância e controle territorial. O Harpia foi concebido precisamente para endereçar essa lacuna, oferecendo capacidade de monitoramento persistente em áreas onde aeronaves tripuladas ou drones de menor porte são ineficientes ou economicamente inviáveis.

- Patrulhamento de Fronteiras: o Harpia opera de forma autônoma ou automatizada por longas horas, cobrindo extensas faixas de fronteira terrestre e fluvial para detectar contrabando, tráfico de drogas e passagem ilegal de pessoas.

- Vigilância e Segurança Pública: câmeras de alta definição e câmera térmica LWIR permitem vigilância diurna e noturna de áreas dominadas por facções criminosas, com transmissão em tempo real para centros de comando.

- Apoio a Operações Militares: emprego tático e operacional para reconhecimento, inteligência, vigilância e apoio de fogo de artilharia. Integra-se a redes C4ISR e pode controlar até cinco aeronaves por estação de comando.

- Busca e Salvamento: equipado com módulo de rastreamento de sinais celulares 2G/3G/4G e emissões UHF/VHF, o Harpia localiza vítimas em desastres naturais, naufráfios e acidentes em áreas remotas.

- Defesa Ambiental: monitoramento de focos de incêndio, grilagem e desmatamento ilegal em biomas como Amazônia e Cerrado, com cobertura territorial que seria inviável para equipes terrestres.

- Escolta e Proteção Patrimonial: monitoramento aéreo de comboios terrestres por centenas de quilômetros, substituindo funções de risco para agentes e garantindo segurança em deslocamentos críticos.

Capacidade inédita: operação sobre áreas urbanas
Com a emissão do CAER em abril de 2026, o Harpia tornou-se o único drone de sua categoria no Brasil autorizado a voar sobre áreas urbanas quando empregado por órgãos públicos de segurança e defesa. A ANAC concede essa prerrogativa exclusivamente a órgãos públicos (forças policiais, corpo de bombeiros, defesa civil, fiscalização aduaneira e tributária), tornando o sistema uma ferramenta extraordinariamente poderosa para o combate ao crime e a proteção da vida nas cidades.

Do laboratório às fronteiras: o Acre como laboratório vivo
A teoria encontrou a prática de maneira concreta quando o Governo do Estado do Acre tornou-se o primeiro a adquirir o Harpia para uso na segurança pública estadual. Com investimento de R$ 6,6 milhões, provenientes de recursos próprios e emenda parlamentar, a Secretaria de Segurança Pública acreana implantou o sistema para uso integrado pela Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e órgãos de fiscalização ambiental.

A escolha não é casual: o Acre concentra mais de 2.300 km de fronteiras com Peru e Bolívia, em território majoritariamente coberto pela floresta amazônica. A combinação de alcance operacional, câmera térmica e capacidade de rastreamento de sinais celulares faz do Harpia um multiplicador de força em um estado onde a logística tradicional de segurança é extremamente desafiadora.

"O HARPIA é uma ferramenta que permite otimizar os recursos, tanto logísticos quanto humanos. O maior benefício é a proteção do servidor e também da população, porque permite um olhar avançado sem que o servidor seja colocado em risco." - Cel. Américo Gaia · Secretário de Segurança Pública do Acre

O Amazonas também confirmou interesse no sistema, e a tendência é de expansão para outros estados que enfrentam desafios semelhantes de vigilância territorial, especialmente aqueles com fronteiras internacionais ou grandes extensões de bioma preservado.

Autonomia nacional em tecnologia estratégica sensível
Um aspecto frequentemente subestimado na análise do Harpia é sua relevância geopolítica. O sistema foi desenvolvido integralmente no Brasil e, crucialmente, sem restrições ITAR (International Traffic in Arms Regulations), a legislação norte-americana que controla a exportação de tecnologias de defesa e que frequentemente limita o uso e a personalização de equipamentos importados por países como o Brasil.

Essa independência regulatória confere ao país plena liberdade para desenvolver variantes, integrar novos sensores, exportar o sistema e compartilhá-lo com aliados sem a necessidade de autorização de terceiros. Trata-se de um ativo estratégico em um cenário geopolítico no qual a autonomia em tecnologias de duplo uso, civil e militar, é crescentemente valorizada.

O reconhecimento formal do Ministério da Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED) e da AdTech SD como Empresa Estratégica de Defesa (EED) consagra essa dimensão. O Harpia integra um portfólio que inclui ainda o sistema anti-drone SIMAD, o radar ATALAIA e o transponder MXS, sinalizando uma aposta consistente na construção de uma base industrial de defesa nacional em tecnologias de vigilância e guerra eletrônica.

Integração C4ISR e Guerra Eletrônica
Na dimensão militar avançada, o Harpia pode ser configurado com sistemas de designação a laser, comunicações criptografadas de quatro canais, radar de abertura sintética (SAR) e equipamentos de guerra eletrônica para interceptação de comunicações. A estação de controle tem capacidade de gerenciar simultaneamente até cinco aeronaves em operações coordenadas, tornando o sistema escalável para coberturas de área estratégica. Sua assinatura acústica reduzida e perfil visual discreto o tornam adequado para missões em ambientes contestados.

 

 

Um novo patamar para a aviação não tripulada nacional
A trajetória do Harpia ilustra com precisão o que é possível quando engenharia nacional, regulação responsável e visão estratégica caminham juntas. Da primeira reunião entre AdTech SD e AL Drones em 2021 à publicação da Autorização de Projeto pela ANAC em 2026, cada etapa foi marcada pelo rigor técnico que a aviação exige, e que os operadores de segurança e defesa demandam.

A certificação para voo sobre áreas urbanas, um feito inédito para a categoria no Brasil, abre possibilidades operacionais que estavam até agora vedadas a qualquer outro sistema de drone do país. Combinada ao alcance de 180 km em modo BVLOS e à autonomia de 12 horas, essa prerrogativa posiciona o Harpia como um ativo sem equivalente doméstico no atual inventário de segurança pública e defesa.

Para um país com as dimensões e os desafios territoriais do Brasil, o Harpia não é apenas mais um produto da indústria de defesa. É, potencialmente, um divisor de águas na forma como o Estado monitora suas fronteiras, protege seus biomas e responde a ameaças: com tecnologia própria, sem dependências externas e com plena soberania operacional.

"A Autorização de Projeto do Harpia é uma etapa muito importante da aviação não tripulada do país. Agora um número ilimitado de unidades pode ser vendido para voo BVLOS acima de 400ft." - André Arruda · Sócio Cofundador, AL Drones

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