Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador BRVANT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BRVANT. Mostrar todas as postagens

15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


*
LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

07 setembro, 2026

BRVANT desenvolve o Carvalho, novo drone de ataque e vigilância com lançamento em enxame

Projeto brasileiro, ainda sem protótipo funcional, deriva da experiência com a munição inteligente Hunter e prevê emprego a partir de um veículo terrestre inspirado no conceito do ASTROS 

 Drone Carvalho em imagem renderizada por IA baseada na original exposta

*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A BRVANT Soluções Tecnológicas está desenvolvendo o Carvalho, uma nova plataforma aérea não tripulada concebida para missões de vigilância e ataque. O projeto, apresentado publicamente em 2026, ainda está em fase de desenvolvimento e não possui protótipo funcional, mas já incorpora uma concepção operacional que combina lançamento terrestre, emprego em enxame e diferentes alternativas de propulsão.

As informações mais recentes sobre o sistema foram apresentadas pelo gestor de projetos da BRVANT, Nilton Calete, em entrevista realizada na Base Aérea de Brasília a Roberto Caiafa, jornalista especializado em Defesa (vídeo abaixo). Segundo ele, o Carvalho surgiu de um projeto embrionário relacionado à família Hunter e entrou agora em uma segunda fase de desenvolvimento. O nome é uma homenagem a um coronel Carvalho, apontado pela empresa como um dos idealizadores do programa ASTROS.

Propulsão por hélice ou por turbina e com características multimissão, mas ainda não operacional 
De acordo com Calete, o Carvalho foi concebido para desempenhar tanto funções de vigilância quanto de ataque a estruturas. A plataforma poderá ser configurada com propulsão por hélice ou por turbina, conforme os requisitos do emprego. A empresa também prevê um sistema auxiliar para o lançamento, independentemente da configuração de propulsão adotada.

Um dos aspectos mais relevantes do projeto é sua integração com um sistema terrestre de lançamento. A BRVANT pretende utilizar um caminhão de concepção semelhante à dos sistemas do programa ASTROS, com pelo menos quatro Carvalhos por veículo, permitindo o lançamento em enxame. A mesma arquitetura poderá ser empregada em missões de vigilância, ataque ou, conforme a entrevista, em outras funções definidas pelo usuário.

A concepção aproxima o Carvalho de uma nova tendência observada nos conflitos contemporâneos: a combinação de veículos aéreos não tripulados de baixo custo relativo, lançamento múltiplo e emprego coordenado para produzir efeitos sobre alvos a distância. A comparação visual com os drones de ataque Shahed-136 e Geran-2, feita por fontes especializadas e também associada ao projeto nas redes sociais, ajuda a situar sua proposta, mas não significa que o sistema brasileiro seja uma cópia daqueles modelos.

A BRVANT ainda não divulgou uma ficha técnica definitiva do Carvalho. Não há, portanto, dados oficiais consolidados sobre alcance, velocidade, autonomia, massa máxima de decolagem ou precisão. Também não se deve tratar como especificação fechada a possibilidade de uma cabeça de guerra de 30 kg. Na entrevista, Calete explicou que uma carga dessa ordem poderá ser instalada caso seja definida como requisito pelo cliente. 

A mesma entrevista esclareceu que o Carvalho ainda está longe da fase operacional. Questionado sobre a previsão para o primeiro protótipo, Calete afirmou que ele ainda não é funcional e informou que a empresa apresentou uma proposta para captação de recursos junto à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Assim, as características hoje apresentadas devem ser entendidas como parte de um projeto em evolução, sujeito a mudanças durante o desenvolvimento.


Experiência ligada à família Hunter
A experiência que sustenta o Carvalho está ligada à família Hunter, desenvolvida pela BRVANT como munição inteligente. O Hunter V1 utiliza motorização elétrica e possui uma asa que se abre após o lançamento por gravidade. Na entrevista, a empresa informou que a versão V1 utiliza uma cabeça de guerra de 580 gramas, enquanto a V2 pode empregar uma cabeça de guerra de 2 kg. A plataforma pode ser empregada contra alvos terrestres e também como interceptador.

Informações publicadas pela Janes acrescentam que a família Hunter recebeu financiamento da FINEP e possui recursos como sensores eletro-ópticos, piloto automático, telemetria criptografada, unidade de medição inercial e receptor GPS. A publicação também registra capacidades de navegação autônoma e voo em enxame. Esses dados ajudam a compreender a base tecnológica a partir da qual a BRVANT pretende avançar para uma plataforma de maior porte, embora não permitam concluir que todas essas capacidades já estejam incorporadas ao Carvalho.

Uma IA que pretende ser 100% brasileira
Outro ponto de interesse é o desenvolvimento de inteligência artificial. Na entrevista, Calete afirmou que a BRVANT está desenvolvendo no Brasil a inteligência artificial empregada em suas munições inteligentes. Segundo ele, o treinamento utiliza ativos militares e busca atender a requisitos de assertividade superiores a 90%. A empresa também prevê a possibilidade de manter o ser humano no circuito, permitindo controle manual quando necessário.

Essa informação, contudo, precisa ser tratada com precisão. A entrevista confirma o desenvolvimento nacional da inteligência artificial, mas não estabelece, de forma inequívoca, que toda a tecnologia descrita já esteja embarcada no Carvalho. A expressão “IA 100% brasileira”, utilizada pelo jornalista Roberto Caiafa ao apresentar o sistema nas redes sociais, é mais abrangente do que a formulação feita pelo representante da empresa na entrevista.

Passo que amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia Hunter
O Carvalho representa, portanto, um passo de maior escala dentro da trajetória de sistemas não tripulados da BRVANT. A empresa já atua no desenvolvimento de VANTs e outros sistemas não tripulados e é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa. A evolução da família Hunter para um sistema maior, com possibilidade de propulsão a hélice ou turbina e lançamento múltiplo a partir de veículo terrestre, amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia.

Mais do que a semelhança externa com o Shahed-136, o aspecto que merece atenção no Carvalho é a arquitetura do sistema. Se o projeto evoluir conforme a concepção apresentada pela BRVANT, o Brasil poderá dispor de uma plataforma capaz de ser lançada em grupos, receber diferentes configurações de missão e combinar autonomia, inteligência artificial e controle humano. Trata-se, entretanto, de uma capacidade ainda em desenvolvimento, cuja viabilidade dependerá das próximas etapas de financiamento, engenharia, construção e testes.

Por enquanto, o Carvalho deve ser visto como um projeto promissor da Base Industrial de Defesa brasileira, e não como um sistema de armas já pronto. O primeiro marco decisivo será a construção e o voo do protótipo funcional. A partir daí será possível avaliar, com dados concretos, se a proposta conseguirá transformar a experiência acumulada pela BRVANT com a família Hunter em uma plataforma de maior alcance, carga e relevância operacional.

19 junho, 2026

O drone de ataque virou míssil de cruzeiro barato: o que isso significa para a defesa antiaérea brasileira

Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato
 


*
LRCA Defense Consulting - 19/06/2026

A chegada de variantes a turbina a jato do Shahed-136/Geran-2 irano-russo, somada aos ataques de drones e mísseis contra radares americanos, sauditas e jordanianos durante a guerra de 2026 entre Israel, Estados Unidos e Irã, expõe uma mudança silenciosa na natureza da ameaça que as defesas antiaéreas precisam enfrentar. O que começou como um drone lento e barato, abatível por uma metralhadora ou um canhão antiaéreo, hoje tem uma variante que se comporta, na prática, como um míssil de cruzeiro subsônico de baixo custo. Para o Brasil, a discussão não é apenas sobre como se defender: é também sobre se a indústria nacional, que já demonstrou domínio de propulsão a jato em plataformas não tripuladas, tem ou não uma oportunidade real nesse mercado emergente.

Antes de entrar no diagnóstico técnico, vale deixar explícito o fio que conecta as duas partes desta reportagem, porque ele não é só uma analogia industrial. Não existe forma barata de qualificar um sensor ou um interceptador contra um drone a jato sem ter, à disposição, um alvo de teste que reproduza fielmente o comportamento daquele drone, da mesma forma que qualquer força aérea usa drones-alvo modelados sobre ameaças reais para validar seus próprios sistemas de defesa. Por isso, ao longo deste texto, as medidas de defesa antiaérea (sensores e armas) aparecem sempre ao lado da possibilidade de o Brasil desenvolver seus próprios vetores de ataque equivalentes ao Shahed-136 e ao Shahed-238/Geran-3: não como digressão, mas como insumo necessário ao próprio programa de defesa, além de, eventualmente, abrir uma frente de exportação e uma opção doutrinária própria.

Da hélice ao turbojato: o que muda

O Shahed-136, conhecido na nomenclatura russa como Geran-2, cruza a aproximadamente 180 km/h, velocidade compatível com a de um avião agrícola. É essa lentidão que historicamente permitiu respostas de baixo custo contra ele: canhões antiaéreos, metralhadoras pesadas e até helicópteros e aronaves agrícolas ou de treinamento com atiradores a bordo, solução amplamente empregada pela Rússia e pela Ucrânia.

A variante a jato, batizada de Shahed-238 pelo Irã e de Geran-3 pela Rússia, é outra categoria de problema. Equipada com um motor turbojato do tipo Tolou-10/13 (derivado não licenciado do tcheco PBS TJ100/TJ150), ela atinge entre 550 e 600 km/h em cruzeiro, com picos de até 700 ou 800 km/h em mergulho final. Há divergência entre as fontes: o Irã declara um teto mais conservador, de 500 km/h, enquanto fontes russas chegam a citar 800 km/h, número ainda não confirmado de forma independente. Mesmo no piso dessas estimativas, a velocidade já está na faixa baixa de mísseis de cruzeiro subsônicos clássicos, como o Kh-101 russo ou o Tomahawk americano.
Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato

Por que a defesa atual não foi desenhada para isso
Para entender o tamanho do problema, vale simular três cenários de alcance de detecção, 50, 100 e 200 quilômetros, contra os dois perfis de ameaça: o Shahed-136 clássico, a hélice, com cruzeiro de aproximadamente 180 km/h, e o Geran-3 a jato, com cruzeiro estimado entre 550 e 600 km/h. Em todos os casos, assume-se que o tempo disponível é o trajeto entre o ponto de detecção e o alvo protegido, dividido pela velocidade de cruzeiro do drone, simplificação que ignora manobras evasivas e mudanças de rota, mas que serve para comparar ordens de grandeza.

Alcance de detecção

Tempo até o impacto (Shahed-136, ~180 km/h)

Tempo até o impacto (Geran-3, ~575 km/h)

50 km

≈ 17 minutos

≈ 5 minutos

100 km

≈ 33 minutos

≈ 10 minutos

200 km

≈ 1 hora e 7 minutos

≈ 21 minutos

Os números deixam claro onde está o ponto de inflexão. Contra o Shahed-136, mesmo o alcance mais modesto, de 50 quilômetros, já entrega uma janela generosa, suficiente para qualquer aeronave em alerta rápido, como o A-29, decolar e interceptar com folga. Contra o Geran-3, a equação só começa a fazer sentido operacional a partir de 100 quilômetros, quando a janela passa a cobrir o tempo mínimo de decolagem de alerta (entre 5 e 8 minutos) somado a uma margem de manobra; com 200 quilômetros de alcance, a janela de cerca de 21 minutos já se aproxima do conforto observado contra o drone a hélice. No entanto, como será visto abaixo, a velocidade do drone a jato já será um novo problema, pois supera a dos interceptadores aéreos improvisados (helicópteros e aeronaves turboélice).

O problema é que alcançar 100 ou 200 quilômetros de detecção contra um alvo de baixo RCS voando rasante é, por si só, um desafio de engenharia muito maior do que cobrir 50 quilômetros. O horizonte de radar de um sensor terrestre é limitado pela curvatura da Terra e pela altura da antena, de modo que detectar um alvo rasante a 200 quilômetros exigiria altitude de voo incompatível com o próprio perfil baixo do drone, ou então um sensor elevado (aerotransportado, em balão ou em mastro alto), e não um radar fixo ao nível do solo. Dobrar ou quadruplicar o alcance nominal de um sistema, portanto, não resolve o problema se a antena continuar à mesma altura.

Esse é o mesmo tipo de falha que já apareceu na avaliação brasileira do Gepard durante a Operação Punhos de Aço: os radares orgânicos do sistema (banda MPDR-12/Echo) não conseguiram adquirir drones de baixo RCS voando baixo, forçando as guarnições a voltar ao rastreio manual por periscópio. O problema não é exclusivo de um efetuador específico: é estrutural, e afeta canhão, aeronave leve ou sistema de mísseis de curto alcance igualmente, se o sensor de cueing (sensor de indicação ou de alerta) não entregar alcance e antecedência suficientes. 

O padrão se repete: do Oriente Médio à Ucrânia
A guerra de 2026 entre Israel, Estados Unidos e Irã deixou um retrato claro desse problema em escala real. Bases americanas no Catar, na Jordânia e na Arábia Saudita tiveram radares de alerta precoce e sistemas de defesa de mísseis THAAD danificados por enxames combinados de drones e mísseis; o Catar relatou ondas de drones lançadas do Irã, parte delas interceptada, parte não; e o Kuwait sofreu um ataque direto contra um centro 
tático de operações americano, com baixas. Em praticamente todos os episódios, o fator comum foi a saturação de defesas dimensionadas para ameaças mais rápidas e em menor número, não para enxames de baixo custo voando baixo.

Na Ucrânia, a evolução é ainda mais didática. A defesa improvisada que funcionava contra o Shahed-136 a hélice, com helicópteros, aeronaves agrícolas ou de treinamento e armas de pequeno calibre, perde efetividade contra o Geran-3 justamente pela diferença de velocidade: a mesma plataforma aérea que servia de interceptador barato contra o alvo lento simplesmente não alcança o alvo rápido.

 
Soldado russo tentando engajar um drone de ataque unidirecional ucraniano sobre Moscou usando um MANPADS enquanto outros disparam armas automáticas, mas o drone continua o voo 

O Brasil já tem uma peça do quebra-cabeça: o Albatroz Vórtex
É aqui que a história ganha um ângulo particular para o Brasil. Em dezembro de 2025, na Base Aérea de Santa Cruz, a Stella Tecnologia e a paulista AERO Concepts realizaram o primeiro voo do Albatroz Vórtex, um drone de inteligência, vigilância e reconhecimento com peso máximo de decolagem de cerca de 150 quilos, autonomia de até 24 horas e alcance entre 150 e 250 quilômetros, equipado com uma turbina a jato 100% nacional, a ATJR 15-5. O voo foi resultado de um acordo de cooperação assinado em novembro de 2025 entre o Ministério da Defesa, a Força Aérea Brasileira e as duas empresas, dentro da estratégia institucional batizada de Força Aérea 100 e do ecossistema do Parque Industrial e Tecnológico Aeroespacial da Bahia.

A AERO Concepts mantém uma linha de turbinas que cobre uma faixa de empuxo entre 500 e 5.000 newtons, ou seja, justamente a categoria de motor usada em drones de ataque do tipo Shahed-238/Geran-3. O Albatroz Vórtex, vale repetir, é hoje uma plataforma de ISR, sem missão de ataque declarada. Mas a competência tecnológica que ele comprova (integração de turbina, aviônica e célula em escala miniaturizada) é exatamente a mesma base que sustentaria, em tese, o desenvolvimento de um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238, e é também a peça que, lá na frente, fecharia o ciclo descrito na abertura deste texto: a mesma plataforma que poderia atacar é a que serviria de alvo de teste para qualificar os sensores e interceptadores discutidos nas seções seguintes.

Drone Albatroz Vórtex, da Stella Tecnologia

Medidas de curto, médio e longo prazo para o Brasil

Curto prazo: sensores
A prioridade imediata não é necessariamente comprar um radar novo, mas elevar a altura do sensor já disponível, já que o horizonte de radar contra alvo rasante depende mais disso do que da potência de transmissão. Aerostatos de vigilância, torres em pontos críticos da fronteira e de áreas de infraestrutura sensível, ou o uso de plataformas já na frota da FAB, como o E-99/R-99, como sensor avançado de baixa altitude, são opções que aproveitam capacidade já instalada. 

Em paralelo, a indústria nacional de radar (Bradar, subsidiária da Embraer Defesa, além de Orbisat e Omnisys) tem histórico em vigilância terrestre e contrabateria que poderia ser direcionado para um modo específico de baixa altitude e baixo RCS, em vez de depender de importação pontual de sistema completo.

Curto prazo: armas
Contra o perfil de ameaça mais provável no curto prazo, o drone a hélice clássico, a medida mais rápida é adotar postura de alerta pronto para aeronaves leves já em uso, como o A-29 Super Tucano, com piloto e armamento prontos para decolagem em poucos minutos. É uma medida de implementação quase imediata, porque não depende de desenvolvimento de novo equipamento, apenas de doutrina, escala e rotina operacional.

Voo do Albatroz Vórtex em junho de 2026, no 1º INOVAER 

Médio prazo: sensores

No médio prazo, vale investir em linhas de pesquisa de radar passivo ou multiestático, que detectam o drone pela perturbação que ele causa em sinais de rádio e televisão já existentes, sem precisar emitir sinal próprio, reduzindo a vulnerabilidade do próprio sensor e ajudando especificamente contra alvos de baixa observabilidade. Outra possibilidade é equipar plataformas como o Albatroz Vórtex e o Atobá, da própria Stella Tecnologia, com payload de vigilância de baixa altitude, dando a elas uma função dupla de sensor avançado, além do papel original de inteligência, vigilância e reconhecimento.

Médio prazo: armas
É também no médio prazo que caberia um programa de upgrade do Gepard, tratando sensor e munição como um pacote único, e não como medidas isoladas. A Punhos de Aço expôs uma falha de cadeia completa: o radar orgânico (banda MPDR-12/Echo) não adquiriu drones de baixo RCS, a guarnição recorreu ao rastreio manual por periscópio, e o canhão de 35 mm carece de munição com fusão de proximidade adequada contra alvo pequeno. Resolver isso exigiria substituir ou complementar o radar orgânico por um sensor com melhor desempenho contra baixo RCS, qualificado e integrado à plataforma, e licenciar ou nacionalizar uma munição programável do tipo AHEAD, etapas que dificilmente se completam no curto prazo, mas que são viáveis dentro de um horizonte de poucos anos.

O mesmo horizonte de médio prazo é onde a indústria nacional de mísseis e foguetes tem o espaço mais claro para entrar. A Avibras Aeroco, em processo de reativação de portfólio (FOG-MPM, linha ASTROS), e a SIATT, com sua competência em mísseis guiados (MANSUP/SDCL, extensão de vida do Penguin Mk2), são vetores naturais para o desenvolvimento de um míssil de defesa antiaérea de curto alcance lançado do solo, no estilo do conceito britânico Gravehawk, que adapta um míssil ar-ar (no caso brasileiro, o equivalente seria o MAA-1) para lançamento terrestre contra alvos lentos e rápidos. 
 
Como camada complementar de baixo custo, a guerra eletrônica contra GNSS (jamming ou spoofing na área de proteção) reduz a precisão terminal do drone mesmo sem abatê-lo, aproveitando competência já existente na BID, como a da Mectron.

Em primeiro plano, drones interceptadores (C-UAS) Taurus, seguido de drone VTOL (laranja) para munição vagante e enxame; todos ainda em mockup

Cabe também ao médio prazo, e não ao longo prazo, o desenvolvimento de drones interceptadores, o conceito de usar um drone barato e rápido para abater outro drone, em vez de gastar munição de canhão ou míssil. A barreira tecnológica aqui é mais baixa do que a de outros itens deste artigo: a experiência ucraniana mostra que boa parte da solução depende de guiamento por operador via FPV, não de buscador autônomo sofisticado, e o Brasil já tem tanto a base industrial de células (SkyDrones, XMobots, Stella) quanto a experiência institucional recente da licitação de munição vagante do Exército (37 empresas habilitadas, 33 nacionais) para sustentar esse desenvolvimento dentro de poucos anos.

Ainda no médio prazo, e em paralelo ao próprio tema deste artigo, vale registrar que a BRVANT Soluções Tecnológicas já apresentou, no 1º INOVAERO, um drone de concepção semelhante à do Shahed-136, com propulsão a hélice. Se confirmado como vetor de ataque (vale a ressalva de que, até a publicação desta reportagem, não há confirmação oficial de que a BRVANT tenha apresentado a plataforma com essa finalidade declarada, em vez de como demonstrador tecnológico ou conceito de ISR), o desenvolvimento se encaixaria no nível de maturidade e custo equivalente ao do Shahed-136 clássico, complementando, num horizonte mais próximo e mais barato, a hipótese de longo prazo de um vetor a jato equivalente ao Shahed-238/Geran-3. 

E, voltando ao fio condutor desta reportagem, uma plataforma nacional desse tipo seria também o alvo de teste de baixo custo ideal para qualificar tanto os radares de baixa altitude quanto os mísseis terra-ar e a munição programável do Gepard mencionados nas seções anteriores, fechando o ciclo entre detectar, abater e simular a ameaça.

Longo prazo: sensores

No horizonte mais distante, o objetivo deveria ser consolidar uma arquitetura de sensoriamento em camadas (radar elevado, radar passivo e guerra eletrônica) integrada a um comando e controle automatizado nacional, capaz de cruzar dados de fontes diferentes e reduzir o tempo entre detecção e decisão, em vez de depender de um único sistema de radar como ponto único de falha.

Longo prazo: armas
No longo prazo, a fronteira é a própria possibilidade discutida ao longo deste artigo: usar a competência em propulsão a jato miniaturizada, provada pelo Albatroz Vórtex e pela turbina ATJR 15-5, para desenvolver um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238/Geran-3, complementando, no topo da escala de custo e desempenho, o caminho mais rápido e mais barato que a BRVANT já indica no médio prazo. 

O financiamento para essa frente já está disponível via Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682. O programa EMADS (CAMM-ER, modelo de cooperação governo a governo com a Itália), já em andamento, funciona como guarda-chuva institucional que dá viabilidade orçamentária e política para encaixar todas essas iniciativas, de curto, médio e longo prazo, em vez de tratá-las como esforços isolados.

Drone brasileiro tipo "Shahed-136, da BRVANT

Ameaça e oportunidade na mesma turbina
O avanço tecnológico que torna um drone de ataque mais difícil de interceptar é, em essência, o mesmo que o Brasil acabou de provar que sabe construir. A diferença entre ameaça e oportunidade, nesse caso, não está na tecnologia em si, mas na decisão política e industrial de para que lado apontar essa turbina: para detecção e defesa, ou também para um vetor de ataque sob bandeira nacional. 

As duas frentes, aliás, não são mutuamente exclusivas, e a experiência de outros países que cultivam simultaneamente indústrias de defesa antiaérea e de drones de ataque sugere que tratá-las separadamente seria desperdiçar a competência que custou caro para construir.

Postagem em destaque