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| Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato |
*LRCA Defense Consulting - 20/06/2026
Antes de entrar no diagnóstico técnico, vale deixar explícito o fio que conecta as duas partes desta reportagem, porque ele não é só uma analogia industrial. Não existe forma barata de qualificar um sensor ou um interceptador contra um drone a jato sem ter, à disposição, um alvo de teste que reproduza fielmente o comportamento daquele drone, da mesma forma que qualquer força aérea usa drones-alvo modelados sobre ameaças reais para validar seus próprios sistemas de defesa. Por isso, ao longo deste texto, as medidas de defesa antiaérea (sensores e armas) aparecem sempre ao lado da possibilidade de o Brasil desenvolver seus próprios vetores de ataque equivalentes ao Shahed-136 e ao Shahed-238/Geran-3: não como digressão, mas como insumo necessário ao próprio programa de defesa, além de, eventualmente, abrir uma frente de exportação e uma opção doutrinária própria.
Da hélice ao turbojato: o que muda
O Shahed-136, conhecido na nomenclatura russa como Geran-2, cruza a aproximadamente 180 km/h, velocidade compatível com a de um avião agrícola. É essa lentidão que historicamente permitiu respostas de baixo custo contra ele: canhões antiaéreos, metralhadoras pesadas e até helicópteros e aronaves agrícolas ou de treinamento com atiradores a bordo, solução amplamente empregada pela Rússia e pela Ucrânia.
A variante a jato, batizada de Shahed-238 pelo Irã e de Geran-3 pela Rússia, é outra categoria de problema. Equipada com um motor turbojato do tipo Tolou-10/13 (derivado não licenciado do tcheco PBS TJ100/TJ150), ela atinge entre 550 e 600 km/h em cruzeiro, com picos de até 700 ou 800 km/h em mergulho final. Há divergência entre as fontes: o Irã declara um teto mais conservador, de 500 km/h, enquanto fontes russas chegam a citar 800 km/h, número ainda não confirmado de forma independente. Mesmo no piso dessas estimativas, a velocidade já está na faixa baixa de mísseis de cruzeiro subsônicos clássicos, como o Kh-101 russo ou o Tomahawk americano.
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| Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato |
Por que a defesa atual não
foi desenhada para isso
Para entender o tamanho do problema, vale simular três cenários de alcance
de detecção, 50, 100 e 200 quilômetros, contra os dois perfis de ameaça: o
Shahed-136 clássico, a hélice, com cruzeiro de aproximadamente 180 km/h, e o
Geran-3 a jato, com cruzeiro estimado entre 550 e 600 km/h. Em todos os casos,
assume-se que o tempo disponível é o trajeto entre o ponto de detecção e o alvo
protegido, dividido pela velocidade de cruzeiro do drone, simplificação que
ignora manobras evasivas e mudanças de rota, mas que serve para comparar ordens
de grandeza.
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Alcance de detecção |
Tempo até o impacto (Shahed-136, ~180 km/h) |
Tempo até o impacto (Geran-3, ~575 km/h) |
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50 km |
≈ 17 minutos |
≈ 5 minutos |
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100 km |
≈ 33 minutos |
≈ 10 minutos |
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200 km |
≈ 1 hora e 7 minutos |
≈ 21 minutos |
Os números deixam claro onde está o ponto de inflexão. Contra o Shahed-136, mesmo o alcance mais modesto, de 50 quilômetros, já entrega uma janela generosa, suficiente para qualquer aeronave em alerta rápido, como o A-29, decolar e interceptar com folga. Contra o Geran-3, a equação só começa a fazer sentido operacional a partir de 100 quilômetros, quando a janela passa a cobrir o tempo mínimo de decolagem de alerta (entre 5 e 8 minutos) somado a uma margem de manobra; com 200 quilômetros de alcance, a janela de cerca de 21 minutos já se aproxima do conforto observado contra o drone a hélice. No entanto, como será visto abaixo, a velocidade do drone a jato já será um novo problema, pois supera a dos interceptadores aéreos improvisados (helicópteros e aeronaves turboélice).
O problema é que alcançar 100 ou 200 quilômetros de detecção contra um alvo de baixo RCS voando rasante é, por si só, um desafio de engenharia muito maior do que cobrir 50 quilômetros. O horizonte de radar de um sensor terrestre é limitado pela curvatura da Terra e pela altura da antena, de modo que detectar um alvo rasante a 200 quilômetros exigiria altitude de voo incompatível com o próprio perfil baixo do drone, ou então um sensor elevado (aerotransportado, em balão ou em mastro alto), e não um radar fixo ao nível do solo. Dobrar ou quadruplicar o alcance nominal de um sistema, portanto, não resolve o problema se a antena continuar à mesma altura.
Esse é o mesmo tipo de falha que já apareceu na avaliação brasileira do Gepard durante a Operação Punhos de Aço: os radares orgânicos do sistema (banda MPDR-12/Echo) não conseguiram adquirir drones de baixo RCS voando baixo, forçando as guarnições a voltar ao rastreio manual por periscópio. O problema não é exclusivo de um efetuador específico: é estrutural, e afeta canhão, aeronave leve ou sistema de mísseis de curto alcance igualmente, se o sensor de cueing (sensor de indicação ou de alerta) não entregar alcance e antecedência suficientes.
O padrão se repete: do
Oriente Médio à Ucrânia
A guerra de 2026 entre Israel, Estados Unidos e Irã deixou um retrato claro
desse problema em escala real. Bases americanas no Catar, na Jordânia e na Arábia Saudita
tiveram radares de alerta precoce e sistemas de defesa de mísseis THAAD
danificados por enxames combinados de drones e mísseis; o Catar relatou ondas
de drones lançadas do Irã, parte delas interceptada, parte não; e o Kuwait
sofreu um ataque direto contra um centro tático de operações americano, com
baixas. Em praticamente todos os episódios, o fator comum foi a saturação de
defesas dimensionadas para ameaças mais rápidas e em menor número, não para
enxames de baixo custo voando baixo.
Na Ucrânia, a evolução é ainda mais didática. A defesa improvisada que funcionava contra o Shahed-136 a hélice, com helicópteros, aeronaves agrícolas ou de treinamento e armas de pequeno calibre, perde efetividade contra o Geran-3 justamente pela diferença de velocidade: a mesma plataforma aérea que servia de interceptador barato contra o alvo lento simplesmente não alcança o alvo rápido.
Soldado russo tentando engajar um drone
de ataque unidirecional ucraniano sobre Moscou usando um MANPADS enquanto outros disparam armas automáticas, mas o
drone continua o voo
O Brasil já tem uma peça do
quebra-cabeça: o Albatroz Vórtex
É aqui que a história ganha um ângulo particular para o Brasil. Em dezembro de 2025, na Base Aérea de Santa Cruz, a Stella Tecnologia e a paulista AERO Concepts realizaram o primeiro voo do Albatroz Vórtex, um drone de inteligência, vigilância e reconhecimento com peso máximo de decolagem de cerca de 150 quilos, autonomia de até 24 horas e alcance entre 150 e 250 quilômetros, equipado com uma turbina a jato 100% nacional, a ATJR 15-5. O voo foi resultado de um acordo de cooperação assinado em novembro de 2025 entre o Ministério da Defesa, a Força Aérea Brasileira e as duas empresas, dentro da estratégia institucional batizada de Força Aérea 100 e do ecossistema do Parque Industrial e Tecnológico Aeroespacial da Bahia.
A AERO Concepts mantém uma linha de turbinas que cobre uma faixa de empuxo entre 500 e 5.000 newtons, ou seja, justamente a categoria de motor usada em drones de ataque do tipo Shahed-238/Geran-3. O Albatroz Vórtex, vale repetir, é hoje uma plataforma de ISR, sem missão de ataque declarada. Mas a competência tecnológica que ele comprova (integração de turbina, aviônica e célula em escala miniaturizada) é exatamente a mesma base que sustentaria, em tese, o desenvolvimento de um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238, e é também a peça que, lá na frente, fecharia o ciclo descrito na abertura deste texto: a mesma plataforma que poderia atacar é a que serviria de alvo de teste para qualificar os sensores e interceptadores discutidos nas seções seguintes.
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| Drone Albatroz Vórtex, da Stella Tecnologia |
Medidas de curto, médio e longo prazo para o Brasil
A prioridade imediata não é necessariamente comprar um radar novo, mas elevar a altura do sensor já disponível, já que o horizonte de radar contra alvo rasante depende mais disso do que da potência de transmissão. Aerostatos de vigilância, torres em pontos críticos da fronteira e de áreas de infraestrutura sensível, ou o uso de plataformas já na frota da FAB, como o E-99/R-99, como sensor avançado de baixa altitude, são opções que aproveitam capacidade já instalada.
Em paralelo, a indústria nacional de radar (Bradar, subsidiária da Embraer Defesa, além de Orbisat e Omnisys) tem histórico em vigilância terrestre e contrabateria que poderia ser direcionado para um modo específico de baixa altitude e baixo RCS, em vez de depender de importação pontual de sistema completo.
Curto prazo: armas
Contra o perfil de ameaça mais provável no curto prazo, o drone a hélice clássico, a medida mais rápida é adotar postura de alerta pronto para aeronaves leves já em uso, como o A-29 Super Tucano, com piloto e armamento prontos para decolagem em poucos minutos. É uma medida de implementação quase imediata, porque não depende de desenvolvimento de novo equipamento, apenas de doutrina, escala e rotina operacional.
Médio prazo: sensores
No médio prazo, vale investir em linhas de pesquisa de radar passivo ou multiestático, que detectam o drone pela perturbação que ele causa em sinais de rádio e televisão já existentes, sem precisar emitir sinal próprio, reduzindo a vulnerabilidade do próprio sensor e ajudando especificamente contra alvos de baixa observabilidade. Outra possibilidade é equipar plataformas como o Albatroz Vórtex e o Atobá, da própria Stella Tecnologia, com payload de vigilância de baixa altitude, dando a elas uma função dupla de sensor avançado, além do papel original de inteligência, vigilância e reconhecimento.
Médio prazo: armas
É também no médio prazo que caberia um programa de upgrade do Gepard, tratando sensor e munição como um pacote único, e não como medidas isoladas. A Punhos de Aço expôs uma falha de cadeia completa: o radar orgânico (banda MPDR-12/Echo) não adquiriu drones de baixo RCS, a guarnição recorreu ao rastreio manual por periscópio, e o canhão de 35 mm carece de munição com fusão de proximidade adequada contra alvo pequeno. Resolver isso exigiria substituir ou complementar o radar orgânico por um sensor com melhor desempenho contra baixo RCS, qualificado e integrado à plataforma, e licenciar ou nacionalizar uma munição programável do tipo AHEAD, etapas que dificilmente se completam no curto prazo, mas que são viáveis dentro de um horizonte de poucos anos.
O mesmo horizonte de médio prazo é onde a indústria nacional de mísseis e foguetes tem o espaço mais claro para entrar. A Avibras Aeroco, em processo de reativação de portfólio (FOG-MPM, linha ASTROS), e a SIATT, com sua competência em mísseis guiados (MANSUP/SDCL, extensão de vida do Penguin Mk2), são vetores naturais para o desenvolvimento de um míssil de defesa antiaérea de curto alcance lançado do solo, no estilo do conceito britânico Gravehawk, que adapta um míssil ar-ar (no caso brasileiro, o equivalente seria o MAA-1) para lançamento terrestre contra alvos lentos e rápidos.
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| Em primeiro plano, drones interceptadores (C-UAS) Taurus, seguido de drone VTOL (laranja) para munição vagante e enxame; todos ainda em mockup |
Ainda no médio prazo, e em paralelo ao próprio tema deste artigo, vale registrar que a BRVANT Soluções Tecnológicas já apresentou, no 1º INOVAERO, um drone de concepção semelhante à do Shahed-136, com propulsão a hélice. Se confirmado como vetor de ataque (vale a ressalva de que, até a publicação desta reportagem, não há confirmação oficial de que a BRVANT tenha apresentado a plataforma com essa finalidade declarada, em vez de como demonstrador tecnológico ou conceito de ISR), o desenvolvimento se encaixaria no nível de maturidade e custo equivalente ao do Shahed-136 clássico, complementando, num horizonte mais próximo e mais barato, a hipótese de longo prazo de um vetor a jato equivalente ao Shahed-238/Geran-3.
Longo prazo: sensores
No horizonte mais distante, o objetivo deveria ser consolidar uma arquitetura de sensoriamento em camadas (radar elevado, radar passivo e guerra eletrônica) integrada a um comando e controle automatizado nacional, capaz de cruzar dados de fontes diferentes e reduzir o tempo entre detecção e decisão, em vez de depender de um único sistema de radar como ponto único de falha.
Longo prazo: armas
No longo prazo, a fronteira é a própria possibilidade discutida ao longo deste artigo: usar a competência em propulsão a jato miniaturizada, provada pelo Albatroz Vórtex e pela turbina ATJR 15-5, para desenvolver um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238/Geran-3, complementando, no topo da escala de custo e desempenho, o caminho mais rápido e mais barato que a BRVANT já indica no médio prazo.
O financiamento para essa frente já está disponível via Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682. O programa EMADS (CAMM-ER, modelo de cooperação governo a governo com a Itália), já em andamento, funciona como guarda-chuva institucional que dá viabilidade orçamentária e política para encaixar todas essas iniciativas, de curto, médio e longo prazo, em vez de tratá-las como esforços isolados.
Ameaça e oportunidade na
mesma turbina
O avanço tecnológico que torna um drone de ataque mais difícil de
interceptar é, em essência, o mesmo que o Brasil acabou de provar que sabe
construir. A diferença entre ameaça e oportunidade, nesse caso, não está na
tecnologia em si, mas na decisão política e industrial de para que lado apontar
essa turbina: para detecção e defesa, ou também para um vetor de ataque sob
bandeira nacional.
As duas frentes, aliás, não são mutuamente exclusivas, e a experiência de outros países que cultivam simultaneamente indústrias de defesa antiaérea e de drones de ataque sugere que tratá-las separadamente seria desperdiçar a competência que custou caro para construir.






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