Pesquisar este portal

14 outubro, 2026

Exército inaugura enlace quântico de 12 km e amplia proteção de suas redes estratégicas

Demonstração de comunicação quântica entre o CITEx e o Ministério da Defesa e ativação de estrutura dedicada à segurança da EBNet reforçam a proteção das redes estratégicas e a autonomia tecnológica do Exército Brasileiro



*LRCA Defense Consulting - 13/10/2026 - 22h05

O Exército Brasileiro apresentou, em 30 de setembro de 2026, em Brasília, dois avanços voltados à proteção de sua infraestrutura digital: a inauguração da Rede Quandanga de Comunicação Quântica, que liga o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx) ao Ministério da Defesa, e a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército. Embora tenham funções distintas, as iniciativas convergem para a ampliação da segurança e da resiliência das comunicações militares.

A Rede Quandanga utiliza 12 quilômetros de fibra óptica entre as duas organizações. Segundo o Exército, trata-se da maior ligação quântica por fibra óptica realizada no Brasil. O enlace foi desenvolvido a partir de pesquisas do Instituto Militar de Engenharia (IME), que integrou um equipamento importado responsável pelo canal quântico e pela distribuição de chaves criptográficas a um dispositivo brasileiro de criptografia. A informação foi apresentada pelo coronel Vítor Andrezo, gerente do projeto.

Um teste de interceptação 
Durante a cerimônia, os responsáveis demonstraram transmissões de dados por uma conexão convencional e por outra protegida pela tecnologia quântica, submetendo ambas a simulações de ataque. De acordo com o relato oficial, a tentativa de violação foi bem-sucedida no canal convencional, enquanto o sistema quântico identificou e impediu a interceptação simulada. O resultado demonstra o funcionamento do arranjo nas condições do ensaio, mas não significa que toda a infraestrutura conectada esteja imune a ataques cibernéticos.

A tecnologia empregada está associada à distribuição quântica de chaves, conhecida pela sigla QKD, de Quantum Key Distribution. Em vez de transportar necessariamente os dados por um canal quântico, o método utiliza propriedades físicas de estados quânticos para estabelecer chaves criptográficas e revelar determinadas interferências no processo de distribuição. A proteção final das informações também depende dos algoritmos, equipamentos e procedimentos de segurança utilizados nos sistemas convencionais. 


Da pesquisa à aplicação institucional 
A inauguração em Brasília representa uma nova etapa de uma trajetória de pesquisas que o LRCA acompanha desde 2025. Naquele ano, o portal noticiou a instalação do primeiro enlace óptico no espaço livre do Exército, entre o IME e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Com aproximadamente 800 metros e capacidade de até 1 Gbit/s, a ligação emprega comunicação óptica por laser e integra a infraestrutura de pesquisa associada às redes Hermes Quântica e Rio Quântica. Esse enlace óptico não deve ser confundido com um sistema QKD plenamente operacional.

Em setembro de 2026, pesquisadores do IME vinculados à Rede Hermes Quântica ativaram um equipamento de QKD baseado no protocolo BB84. Segundo o instituto, os ensaios iniciais utilizaram bobinas de fibra óptica equivalentes a 40 quilômetros de percurso, em ambiente laboratorial. O sistema, fornecido pela suíça ID Quantique, possui alcance nominal de até 120 quilômetros, sujeito às condições da implementação. O IME também anunciou planos de ensaios em enlaces reais no Rio de Janeiro e, posteriormente, na Região Amazônica, utilizando infraestrutura do Programa Amazônia Conectada.

A Rede Hermes Quântica, coordenada pelo IME, concentra-se em aplicações de Defesa. A Rede Rio Quântica envolve, além do instituto militar, a Universidade Federal Fluminense, o CBPF, a PUC-Rio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os projetos recebem apoio de instrumentos de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, incluindo recursos da FINEP e do CNPq.

Supervisão centralizada da EBNet 
O segundo anúncio foi a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército, subordinado ao CITEx. A nova estrutura reúne, pela primeira vez, as atividades de observação, monitoramento e operação da rede corporativa privativa da Força, a EBNet.

Segundo o general de brigada Rodolfo Roque Salguero de La Vega Filho, chefe do CITEx, o centro concentra informações captadas por equipamentos, sensores e sistemas, permitindo acompanhamento mais proativo da rede. A centralização busca antecipar falhas, reduzir interrupções e reforçar a proteção dos serviços digitais utilizados pelo Exército. A medida resulta da padronização de soluções e da adoção de novas ferramentas de monitoramento e segurança.

O novo centro não deve ser confundido com a Rede Quandanga: enquanto o enlace quântico constitui uma aplicação específica de proteção da distribuição de chaves, o centro atua na gestão e na segurança da infraestrutura de telemática. O anúncio conjunto não comprova que a tecnologia quântica já esteja integrada ao conjunto da EBNet. 


Soberania tecnológica e perspectivas para a Defesa 
A aproximação entre instituições de pesquisa e estruturas operacionais é especialmente relevante em um cenário de crescente dependência das Forças Armadas de redes digitais para comando, controle, logística e intercâmbio de informações. A capacidade de desenvolver, integrar e avaliar soluções críticas no País reduz determinadas dependências tecnológicas, embora a presença de equipamento importado no enlace mostre que a autonomia nessa área ainda é um objetivo em construção.

A iniciativa se insere em um esforço mais amplo. O Programa Defesa Cibernética na Defesa Nacional, conduzido sob liderança do Exército, inclui uma Iniciativa Quântica no âmbito de seu subprograma de independência tecnológica. Em setembro de 2026, o Exército e o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer também firmaram entendimento para desenvolver o Projeto AURORA, voltado à pesquisa de redes optoeletrônicas resilientes e tecnologias de comunicação quântica. Não há, contudo, elementos suficientes para afirmar que esses projetos já constituam uma arquitetura operacional integrada.

Na cerimônia em Brasília, o general de Exército Hertz Pires do Nascimento, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia, associou os lançamentos ao esforço de modernização da segurança digital da Força e mencionou o exercício Guardião Cibernético 8.0 como outra expressão dessa prioridade institucional.

A evolução das pesquisas do IME até a demonstração de um enlace de 12 quilômetros entre organizações da Defesa constitui um resultado concreto. O desafio seguinte será ampliar a maturidade dos sistemas, avaliar sua operação continuada e determinar em que medida poderão ser incorporados a redes militares de maior abrangência. Por ora, a importância dos anúncios está na combinação entre experimentação tecnológica, integração nacional de soluções criptográficas e fortalecimento da gestão cotidiana das comunicações do Exército.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).

Postagem em destaque