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19 outubro, 2026

Exército indiano mostra submetralhadora T9 de tecnologia brasileira em vídeo oficial

Identificação da arma confirmada pela Taurus destaca presença do armamento da JD Taurus nas forças indianas; fornecimento militar documentado é de 550 unidades



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LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 10h21

Um vídeo divulgado em 18 de outubro pelo perfil no X da Additional Directorate General of Public Information (ADGPI), órgão de comunicação do Exército indiano, trouxe à atenção uma submetralhadora T9, produzida na Índia pela JD Taurus a partir de tecnologia brasileira. A identificação do modelo foi confirmada pela LRCA Defense Consulting junto à Taurus. A publicação oficial oferece uma nova imagem da presença do armamento entre militares indianos, embora não permita concluir, isoladamente, que tenha sido empregado em combate ou que existam encomendas adicionais.

Do contrato militar às imagens oficiais 
A JD Taurus, associação entre a Taurus Armas e a Jindal Defence, conquistou em 2024 um fornecimento de 550 submetralhadoras T9 para o Comando do Norte do Exército indiano. Segundo documentação de resultados da Taurus referente àquele ano, as armas produzidas localmente já haviam sido entregues. Esse é o fornecimento de T9 ao Exército identificado nas informações públicas consultadas; não há confirmação, até o fechamento deste piloto, de um segundo lote militar.

A publicação da ADGPI, portanto, não marca a primeira notícia da presença da T9 no Exército. Sua novidade está na exibição da arma em material audiovisual institucional divulgado pela própria Força. O vídeo integra a comunicação militar indiana, mas não estabelece, por si só, qual unidade aparece nas imagens, a origem específica dos exemplares filmados ou as circunstâncias de eventual emprego operacional.


Uma fábrica indiana com participação brasileira 
A JD Taurus reúne a Jindal Defence, com 51% do capital, e a Taurus Armas, com 49%. Sua unidade industrial fica em Hisar, no estado de Haryana, e iniciou operações em março de 2024 com apoio técnico brasileiro. O empreendimento se insere na política Make in India, voltada ao fortalecimento da produção local. Nesse modelo, a presença da Taurus vai além da exportação de armas acabadas, pois envolve uma estrutura de fabricação estabelecida no mercado de destino.

Em setembro de 2026, a JD Taurus divulgou as certificações AS9100D e ISO 9001 de seu sistema de gestão da qualidade. Esses reconhecimentos reforçam os processos industriais e de controle, mas não devem ser confundidos com homologação operacional específica da T9 pelo Exército. 


Contratos policiais ampliam a operação 

A expansão institucional da JD Taurus não se restringe ao Exército. Conforme levantamento publicado pelo LRCA em 30 de setembro, a empresa obteve contratos de pistolas TS9 para a segurança ferroviária e para forças policiais indianas. Em 2026, foram registrados pedidos de 5.368 unidades para forças policiais centrais e de 6.136 unidades para a Polícia de Uttar Pradesh, além de mais de 1.300 pistolas e submetralhadoras em contratos com polícias estaduais e de fronteira: Meghalaya Police, 
Kerala Police e Border Security Force (BSF). 

A Taurus também informou, nos resultados do segundo trimestre de 2026, que a JD Taurus acompanhava oportunidades institucionais envolvendo mais de 130 mil armas e valor bruto potencial de aproximadamente US$ 54 milhões. Trata-se de oportunidades em diferentes estágios, não de contratos firmados ou receitas asseguradas.

O significado para a indústria brasileira 
A presença da T9 em um vídeo oficial do Exército indiano oferece visibilidade a uma iniciativa de internacionalização industrial que combina participação societária brasileira, tecnologia e fabricação local. Para a Taurus, o episódio constitui uma referência institucional relevante em um mercado de defesa de grandes dimensões. Seu alcance comercial futuro, entretanto, dependerá de decisões de aquisição que não podem ser deduzidas das imagens.

A confirmação direta do modelo pela Taurus dá consistência à identificação da arma. Permanece em aberto se os exemplares exibidos integram o lote de 550 unidades entregue ao Comando do Norte ou se existem fornecimentos posteriores ainda não divulgados. Até que surja documentação adicional, o contrato de 2024 é a referência militar comprovada.

05 outubro, 2026

Programa e interlocutores indicam os prováveis rumos de Flávio Bolsonaro para a defesa e a BID

Drones e inteligência artificial no programa oficial somam-se à experiência de Marcos Degaut no apoio à indústria e ao acesso de Eduardo Bolsonaro ao governo Trump, enquanto orçamento, prioridades e compromissos formais permanecem em aberto 



*LRCA Defense Consulting - 05/10/2026

A cerca de três semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) ficou acirrada: 47% a 45% dos votos válidos no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Para o setor de defesa, a dúvida é o que mudaria com a vitória da oposição. Como o programa de Flávio dedica poucas informações ao tema, esta matéria cruza o documento oficial com as propostas de seus interlocutores e com a campanha da Embraer nos Estados Unidos, buscando separar compromissos formais de indícios.

Novas tecnologias e poder militar
O incentivo a novas tecnologias e a defesa de um poder militar capaz de sustentar a atuação internacional do Brasil permitem identificar uma provável orientação de Flávio Bolsonaro para as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa (BID). O direcionamento emerge da leitura conjunta do programa da candidatura e das propostas apresentadas por Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato radicado nos EUA, e pelo ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut, hoje o articulador internacional da campanha. Há convergência em torno do fortalecimento das capacidades nacionais, embora os instrumentos para executá-lo ainda não estejam detalhados publicamente.

A distinção entre as fontes é essencial. Drones e inteligência artificial aparecem no programa oficial. Já a transformação mais abrangente das Forças Armadas e o fortalecimento da BID foram defendidos pelos dois interlocutores em uma entrevista de setembro, na qual anunciaram a elaboração de um projeto para um eventual governo de Flávio.

A experiência de Degaut em financiamento e promoção comercial, somada ao acesso do irmão do candidato à Casa Branca, sugere a possibilidade de uma política que combine modernização militar, sustentação industrial e diplomacia voltada a negócios. O KC-390 Millennium permite avaliar como essa combinação poderia funcionar. A Embraer já desenvolve, com a Northrop Grumman, capacidades destinadas ao mercado americano, e uma eventual articulação política brasileira poderia dar visibilidade e apoio institucional a essa campanha. 

Tecnologia e fronteiras no programa
O texto publicado no site da candidatura prevê concentrar esforços contra o crime organizado e outras ameaças à segurança e à defesa nacional. Nesse contexto, propõe estimular tecnologias, com menção explícita a drones e inteligência artificial, e afirma que os investimentos nas Forças Armadas devem corresponder à inserção internacional do Brasil.

Outra proposta é criar o Sistema Nacional de Fronteira, reunindo integrantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira, equipados com inteligência, tecnologia e armamentos para interceptar drogas e armas. O documento também contempla a proteção cibernética dos serviços públicos, das infraestruturas críticas e dos cidadãos.

Essas referências estabelecem prioridades gerais, mas não especificam orçamento, modelos de drones, aplicações militares de IA, quantidades, fornecedores ou prioridades de reequipamento. Tampouco permitem concluir que haverá preferência por equipamentos nacionais ou importados. Essa definição será determinante para avaliar quanto da demanda poderá se converter em desenvolvimento e produção no País.

A proposta de transformação militar
Em 7 de setembro de 2026, Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut participaram do programa ALive, de Claudio Dantas. Segundo a publicação do próprio programa, ambos trabalhavam em um projeto de reforma e reestruturação das Forças Armadas destinado ao senador.

Degaut defendeu atualização de missões, métodos e doutrina, recuperação da capacidade de interpretar o cenário internacional e equipamentos adequados às atribuições militares. Relacionou a transformação ao fortalecimento da liderança, da unidade de propósito e da legitimidade institucional das Forças.

A ligação com a política externa foi explícita. Para Degaut, "uma boa diplomacia, uma boa política externa, não prescinde de um poder militar forte". Eduardo associou respeito internacional e liderança regional a Forças Armadas modernas e a uma indústria de defesa desenvolvida no Brasil.

Na cobertura da entrevista, a DefesaNet registrou que Degaut situou as propostas em um planejamento estratégico de longo prazo, envolvendo defesa, comércio e investimentos. Ele afirmou que o projeto estava pronto e seguia em aperfeiçoamento, mas informou que seus detalhes não seriam integralmente divulgados naquele momento.

O conjunto dessas manifestações sugere uma ambição que ultrapassa o emprego militar nas fronteiras. A capacidade de dissuasão e a sustentação industrial aparecem como componentes da posição internacional pretendida para o País. Trata-se de uma interpretação das declarações, não de um programa de reequipamento já aprovado pelo candidato.

Degaut e a ampliação do acesso ao crédito
A defesa de uma indústria nacional fortalecida tem antecedentes na trajetória administrativa de Degaut. Um dos resultados mais concretos associados à sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) foi a articulação com o BNDES. Em fevereiro de 2020, o Ministério da Defesa e o banco firmaram um protocolo para estudar instrumentos de financiamento, apoio às exportações e nacionalização progressiva de produtos e tecnologias. Na ocasião, conforme registro do LRCA, Degaut vinculou a iniciativa ao planejamento estratégico da secretaria.

O desdobramento verificável veio em 2021. Segundo o Ministério da Defesa, empresas encontravam dificuldades para cadastrar seus produtos no BNDES e, por isso, não conseguiam financiá-los. A parceria levou a um regulamento específico de credenciamento de produtos de defesa, com vigência a partir de 1º de novembro daquele ano, ampliando o conjunto de bens elegíveis ao crédito, inclusive pelas linhas BNDES Exim Pré-Embarque e Pós-Embarque.

A importância dessa mudança está na remoção de um obstáculo operacional. Um produto que não consegue ingressar no sistema de financiamento perde competitividade mesmo quando atende às necessidades do comprador. O regulamento ampliou a possibilidade de acesso ao crédito; não significou aprovação automática de operações ou desembolso garantido às empresas.

Promoção comercial e resultados institucionais
O balanço oficial da SEPROD de 2019 registrou atendimento a 361 empresas, realização de 14 missões internacionais e diálogos da indústria de defesa com seis países. A secretaria também produziu estudos comerciais sobre 69 países. Os dados mostram uma atuação organizada de prospecção e apoio às empresas, além da presença em feiras.

No mesmo balanço, o Ministério informou crescimento de 21,8% no número de empresas habilitadas ao Regime Especial de Tributação para a Indústria de Defesa (RETID) e de 75% no número das que passaram a usufruir do regime, em relação a 2018. São resultados institucionais do período de sua gestão, produzidos por equipes e outros órgãos envolvidos; não realizações individuais exclusivas do secretário.

O Relatório de Gestão do Ministério da Defesa de 2021 registrou, à época, cerca de US$ 1,7 bilhão em exportações autorizadas de produtos de defesa, apresentado como recorde histórico. A expressão é importante: autorizações não devem ser confundidas com embarques efetivados ou receitas recebidas no mesmo ano. O indicador documenta a expansão das autorizações durante aquela gestão, sem permitir atribuir toda a evolução comercial a uma única autoridade.

Há ainda reconhecimentos posteriores. Em janeiro de 2023, já na nova administração federal, o então secretário Rui Chagas Mesquita enalteceu o trabalho de seus antecessores, destacando Degaut e o general Luis Antônio Duizit Brito. 

No mês seguinte, em entrevista reproduzida pelo portal LRCA em 25 de fevereiro de 2023, o próprio Degaut cobrou maior atuação do Itamaraty na promoção das exportações de defesa e defendeu recursos para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir a dependência externa.

Esse histórico confere consistência à orientação apresentada em setembro, pois a articulação entre diplomacia, indústria e capacidade militar não surgiu apenas na discussão eleitoral. Uma eventual participação de Degaut teria potencial para aproximar a discussão estratégica dos instrumentos de execução: credenciamento, crédito e promoção externa. Sua tradução em política de governo, porém, dependerá de medidas que transformem essa visão em financiamento, apoio comercial e continuidade de projetos.

Eduardo e o acesso à Casa Branca
A capacidade de interlocução de Eduardo com o governo Trump tem evidência recente. A Reuters informou que ele acompanhou Flávio em uma reunião com o presidente americano no Salão Oval, em 26 de maio de 2026. Um representante da Casa Branca confirmou o encontro. Segundo Flávio, foram discutidos crime organizado, tarifas e minerais críticos.

Embora o relato não mencione o KC-390, há um antecedente específico de promoção do avião por Eduardo. Em entrevista à Agência de Notícias Brasil-Árabe, publicada em agosto de 2019, ele relatou que discutira a possibilidade de venda do KC-390 durante reuniões nos Emirados Árabes Unidos, quando presidia a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. O registro documenta familiaridade com a promoção internacional do produto, sem comprovar resultado comercial ou atuação equivalente nos EUA. Sete anos depois, em maio de 2026, a Embraer fechou com os Emirados um contrato para até 20 aeronaves, a maior encomenda internacional do cargueiro por um único país e a primeira venda no Oriente Médio.

A influência possível seria, sobretudo, de acesso e articulação: facilitar a apresentação da proposta a autoridades, incentivar seu exame no diálogo bilateral e dar visibilidade aos benefícios industriais para os americanos. 

Uma campanha industrial que já está em andamento
A iniciativa da Embraer tem trajetória própria. Em comunicado de 19 de fevereiro de 2026, a empresa e a Northrop Grumman anunciaram investimentos conjuntos para desenvolver o KC-390 Multi-Mission Tanker, voltado aos Estados Unidos e a países aliados. O trabalho inclui uma lança rígida autônoma de reabastecimento, comunicações aprimoradas, opções de consciência situacional e sobrevivência e sistemas de missão adaptáveis.

Em setembro, a FlightGlobal voltou a destacar a campanha sob o conceito Multi-Mission Airlift and Tanker, apresentando o KC-390 como complemento ao KC-46. A lógica comercial é oferecer uma plataforma que reúna transporte tático e reabastecimento, ampliando as alternativas de emprego da frota.

O desenvolvimento da lança rígida é uma distinção técnica essencial. O KC-390 já dispõe de reabastecimento por mangueira e cesto, documentado pela Embraer, mas o sistema anunciado com a Northrop pretende ampliar o universo de aeronaves atendidas, embora essa nova configuração ainda não esteja pronta e qualificada.

Também há contato operacional anterior à campanha eleitoral. A própria USAF registrou a participação de um C-390 brasileiro no exercício Storm Flag, na Louisiana, em março de 2024, junto a aeronaves americanas e suecas. O exercício demonstra interação militar e familiaridade com o modelo.

O argumento americano que poderia interessar a Trump
A perspectiva de produção local oferece um argumento concreto para uma eventual articulação política. Em declaração publicada pela Defense One em fevereiro de 2026, Bosco da Costa Junior, presidente da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a empresa estaria disposta a investir mais de US$ 500 milhões em uma instalação dedicada ao KC-390 nos EUA, caso houvesse viabilidade de negócio. 

Em 24 de setembro, o vice-presidente de Estratégia de Mercado e Produto da Embraer, Alvadi Serpa Junior, indicou Melbourne, na Flórida, onde a empresa já monta jatos executivos, como possível sede da fábrica, condicionada a uma encomenda expressiva do governo americano.

Uma proposta desse tipo permitiria apresentar o avião também como fonte de investimento, atividade industrial e empregos nos Estados Unidos. A associação com a Northrop Grumman reforça essa dimensão. Como análise, esse seria um argumento mais consistente para mobilizar interesse em Washington do que a afinidade pessoal entre dirigentes brasileiros e americanos.

A orientação pública de Trump oferece um ponto de convergência: a ordem executiva de 9 de abril de 2025 sobre aquisições de defesa enfatiza rapidez, inovação e revitalização da base industrial americana. A proposta da Embraer poderia ser defendida à luz desses objetivos.

Para o Brasil, o valor de uma eventual montagem nos EUA dependeria da divisão industrial negociada. Seria necessário avaliar quais atividades de engenharia, componentes, propriedade intelectual e receitas permaneceriam no País. Uma venda internacional relevante pode beneficiar a BID, mas seus efeitos não são iguais em qualquer arranjo de produção.

Onde termina o acesso político e começa a decisão de compra
Uma eventual atuação de Eduardo poderia ajudar a colocar o projeto na agenda. A conversão desse acesso em aquisição dependeria de necessidade operacional reconhecida, desenvolvimento e demonstração da configuração proposta, custos de implantação e sustentação e disponibilidade de recursos. A discussão orçamentária também passa pelo Congresso americano, como mostram as audiências públicas da USAF sobre suas prioridades de modernização.

A apresentação como complemento ao KC-46 pode reduzir a percepção de confronto direto com um programa existente, mas não elimina a disputa por orçamento. Mesmo um avião com funções adicionais precisa demonstrar por que sua incorporação oferece vantagem diante de outras formas de atender à missão. 

Tarifaço e mercado interno: o teste do acesso político
O raciocínio aplicado ao KC-390 vale também para um problema mais imediato da BID: as tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Desde 22 de julho, vigora uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA, justificada pelo USTR com o Pix, a taxação do etanol americano e falhas no combate à corrupção e ao desmatamento. Somada ao adicional de 12,5% ligado à investigação sobre trabalho forçado, a carga chega a 37,5%, segundo a Taurus. Partes de aviões ficaram entre as exceções, o que preserva uma parcela das exportações da Embraer, mas as armas leves e aeronaves militares não.

Uma vitória de Flávio no dia 25 poderia mudar o quadro. Como as tarifas de 2025 nasceram vinculadas à situação de Jair Bolsonaro, um governo alinhado a Washington teria mais condições de negociar um acordo comercial amplo, e o acesso de Eduardo ajudaria a abrir portas. A redução, nesse caso, decorreria de um entendimento soberano entre Estados, não de afinidades pessoais com empresas, e poderia exigir concessões brasileiras concretas nos temas que fundamentam a Seção 301.

Por outro lado, para a Taurus e para as demais empresas que produzem armamento leve, um eventual governo Flávio poderia oferecer ainda uma compensação doméstica. Em agosto, o deputado Marcos Pollon (PL-MS), integrante da equipe do candidato, defendeu como "primeiro passo" a revogação dos decretos de armas editados por Lula. Em seguida viria uma nova lei para substituir o Estatuto do Desarmamento, com critérios objetivos para aquisição e porte e a recomposição das prerrogativas de caçadores, atiradores desportivos e colecionadores (CACs). A proposta não consta do programa registrado no TSE, mas indica a disposição do grupo político do candidato.

O histórico recente mostra como o mercado reage a essas regras. Segundo o Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, os registros chegaram a 185.497 em 2021 e a 135.334 em 2022. Com as restrições adotadas a partir de 2023, caíram 80%, para 28.328, o menor número desde 2004. A receita da Taurus no Brasil recuou 70,5% no quarto trimestre de 2023, e o presidente da empresa, Salesio Nuhs, afirmou que o mercado interno "simplesmente não existiu" naquele ano. Com as exportações para os Estados Unidos encarecidas pela tarifa, a reativação da demanda interna funcionaria como alternativa parcial.

O efeito, porém, teria limites. Em 2021, o Brasil respondia por apenas 8% a 10% da produção da Taurus, de modo que o mercado interno complementaria as vendas americanas, mas não as substituiria. Regras fixadas por decreto também podem ser revertidas rapidamente, como ocorreu em 2023, e uma nova lei dependeria do Congresso e de eventuais questionamentos no Supremo.

Indícios relevantes e compromissos ainda abertos
A participação do irmão do candidato e de um ex-secretário com larga experiência no setor constitui um indício relevante para compreender a direção em discussão. Isso não equivale, entretanto, à confirmação de que todas as propostas foram incorporadas pela candidatura.

Em reportagem de 29 de setembro sobre uma possível reforma do Itamaraty, a Folha de S.Paulo registrou que a campanha declarou que nem Eduardo Bolsonaro nem Degaut falavam pelo candidato. A manifestação ocorreu no contexto da política externa e não elimina o valor analítico das declarações, mas exige atribuir aos próprios autores as ideias apresentadas e distingui-las dos compromissos oficiais de Flávio.

Também permanecem lacunas materiais. A análise dos programas publicada pelo Forças Terrestres em 11 de setembro apontou a ausência, no documento de Flávio, de meta orçamentária específica para defesa, prioridades de plataformas e uma política detalhada para a BID. A promessa de duplicar investimentos, observou o portal, refere-se à segurança pública, não ao orçamento militar.

Para a indústria, a questão decisiva será como a orientação anunciada se converterá em demanda previsível. Um compromisso com modernização ganha alcance industrial quando define recursos, prazos e condições para desenvolver, produzir e sustentar equipamentos. Sem essas escolhas, ainda não é possível projetar encomendas ou identificar empresas beneficiadas.

Direção provável: tecnologia, capacidade militar e fortalecimento da BID
Os dados conhecidos permitem, portanto, reconhecer uma direção provável: tecnologia aplicada à segurança, valorização da capacidade militar e interesse, expresso por interlocutores próximos, em fortalecer a base industrial de defesa. 

Degaut reúne experiência documentada em instrumentos de apoio à BID. Eduardo dispõe de acesso político e já participou da promoção do KC-390 no exterior; a Embraer possui uma iniciativa industrial concreta nos Estados Unidos e a Taurus, além de já estar estabelecida neste país, poderia se beneficiar tanto de uma negociação tarifária quanto da reabertura do mercado interno. 

Esses elementos sustentam a hipótese de uma diplomacia de defesa mais ativa em favor das empresas brasileiras. A confirmação dependerá da apresentação, pela própria candidatura, das prioridades e dos meios para executar essa orientação.

03 outubro, 2026

Taurus amplia linha em .38 TPC e diversifica opções para usuários no Brasil

Expansão reúne pistolas compactas, plataforma modular TX38 e a clássica família 1911, com potencial para fortalecer a presença da fabricante no mercado civil



*LRCA Defense Consulting - 03/10/2026

A Taurus está ampliando a presença do calibre .38 TPC em seu portfólio brasileiro, com lançamentos que abrangem diferentes tamanhos e concepções de pistolas. A divulgação da 1911 Commander no Instagram oficial da empresa, nesta quinta-feira, 1º de outubro, acrescenta visibilidade a um movimento iniciado em 2024 e aprofundado com as famílias G, GX e TX38. Para os usuários, a expansão significa mais alternativas de plataforma; para a fabricante, abre espaço para atender perfis distintos de consumidores com o mesmo calibre.

Desenvolvido pelo Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia Brasil–Estados Unidos da Taurus em conjunto com o Centro de Inovação da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), o .38 TPC surgiu orientado às necessidades do mercado brasileiro. A sigla corresponde a Taurus Pistol Caliber. A empresa o apresenta como uma opção de uso permitido posicionada entre o .380 Auto e o 9 mm.

Uma expansão construída em etapas 
As pistolas G2c T.O.R.O. e GX4 Carry Graphene T.O.R.O. estiveram entre as primeiras aplicações do calibre. Na SHOT Fair Brasil de 2025, a Taurus apresentou novos produtos em .38 TPC nas famílias G3, GX2 e GX4, movimento também acompanhado pelo portal LRCA. A sequência mostra que o projeto ganhou continuidade em diferentes plataformas, em vez de permanecer associado a apenas um modelo.

Em fevereiro de 2026, a fabricante lançou a TX38 TPC, baseada na plataforma TX9. Em julho, durante a SHOT Fair Brasil, realizada no Distrito Anhembi, em São Paulo, acrescentou as versões compacta e subcompacta à configuração de tamanho integral já apresentada. A linha TX38 TPC Competition também figurou entre os destaques da feira.

A família 1911 em .38 TPC foi outro destaque de julho, nas versões Government, Commander e Officer. Por isso, o anúncio atual da Commander deve ser situado nessa sequência. A peça divulgada no Instagram a identifica como lançamento, mas não informa uma data de início das entregas. A pistola tem cano de 4,25 polegadas, capacidade de 9+1 cartuchos, ação simples e peso de 1.077 gramas, com estrutura em aço carbono e acabamento nitretado a gás.



Mais escolha sem mudar de calibre 
O benefício mais direto para o consumidor é poder comparar propostas distintas dentro do .38 TPC. A ampliação alcança desde famílias de pistolas compactas até a construção metálica e o mecanismo de ação simples da 1911, além dos recursos da TX38. Isso aumenta as possibilidades de escolha conforme ergonomia, dimensões e preferências de plataforma, sem pressupor que um único modelo seja o melhor para todos.

Na TX38, a Taurus informa a presença do sistema modular TMS, de quatro mecanismos de segurança reunidos no TETRA-LOCK e de preparação T.O.R.O. para miras ópticas. O modelo acompanha quatro peças intercambiáveis para ajuste da parte posterior da empunhadura e tem garantia vitalícia anunciada pela fabricante. São características específicas dessa plataforma, que não devem ser estendidas automaticamente às demais armas em .38 TPC.

A existência de diferentes pistolas no mesmo calibre também pode simplificar o abastecimento de quem já possui mais de uma arma compatível. Essa vantagem não significa intercambialidade de carregadores ou componentes entre famílias, nem dispensa a observância das especificações de cada fabricante. 


Desempenho com comparações bem delimitadas 
Segundo a Taurus, o .38 TPC oferece até 40% mais energia que o .380 Auto e 28% menos recuo que o 9 mm. A proposta combina desempenho balístico e maior facilidade de controle, mas esses percentuais são declarações da fabricante e dependem das condições de comparação. Não constituem uma medida universal aplicável a todas as pistolas e munições. 

Para o usuário, a possibilidade de menor recuo pode representar mais conforto no treinamento. Já a energia superior ao .380 Auto é um atributo balístico, sem demonstrar, isoladamente, superioridade em qualquer situação. O comportamento do conjunto depende da arma, da munição e do usuário. Da mesma forma, os recursos de ergonomia e de mira pertencem ao projeto de cada pistola, e não ao calibre em si.

A CBC complementa a oferta com munições de treinamento e operacionais, incluindo versões Polymatch, ogival encamisada, Bonded e Gold Hex, citadas em comunicação institucional da Taurus. A variedade permite estruturar uma linha de produtos além da arma, embora preço e disponibilidade local continuem relevantes para a experiência do consumidor.


Oportunidades para a Taurus e para a cadeia nacional 

Na perspectiva empresarial, a diversificação amplia os públicos que a Taurus pode disputar. A 1911 alcança interessados em uma plataforma tradicional, enquanto a TX38 agrega modularidade e recursos contemporâneos. As famílias G e GX completam esse conjunto com outras configurações. O potencial comercial está em oferecer alternativas dentro da própria marca à medida que mudam as preferências dos consumidores.

Há também uma possibilidade industrial. A extensão de plataformas existentes para um calibre desenvolvido com a CBC pode aproveitar conhecimentos de engenharia, estruturas de produção e canais comerciais já estabelecidos. A diluição dos investimentos de desenvolvimento dependerá, porém, dos volumes efetivamente vendidos e dos custos de adaptação. Não há base, nas informações consultadas, para quantificar uma redução de custos ou atribuir margens maiores aos novos modelos.

A produção nacional de armas e munições cria ainda oportunidades de coordenação entre os fabricantes e a rede de atendimento. Uma base maior de usuários pode estimular a oferta de munições e serviços, reforçando a continuidade do calibre. Esse efeito permanece condicionado à demanda e à capacidade de abastecimento; não permite concluir que os preços necessariamente cairão.

Ao ampliar o .38 TPC para diferentes famílias, a Taurus passa a trabalhar sua consolidação por meio da variedade de produtos. O resultado comercial dessa estratégia dependerá da combinação entre aceitação dos modelos, confiabilidade, assistência e custo de uso. Para o consumidor, o avanço já observável é a ampliação das opções; para a empresa, a oportunidade é transformar essa diversidade em vendas e relacionamento duradouro com seus clientes.

01 outubro, 2026

Novo Hamburgo amplia arsenal de pistolas Taurus para a Guarda Municipal

Compra de 120 pistolas de 9 mm envolve cerca de R$ 800 mil e integra modernização com reforço de efetivo, viaturas e novos equipamentos previstos


*LRCA Defense Consulting - 01/10/2026

A Guarda Municipal de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, recebeu 120 novas pistolas Taurus calibre 9 mm em 29 de setembro de 2026. A aquisição, financiada com recursos próprios do Município, amplia o armamento disponível e acompanha a decisão de retirar de uso os revólveres calibre .38. A entrega ocorreu no auditório do Centro Administrativo Leopoldo Petry.

Segundo a Prefeitura, o investimento foi de aproximadamente R$ 800 mil, classificado pela administração como o maior já realizado em armamento para a corporação. O lote se soma às 100 pistolas de 9 mm modelo TS9 que já integravam o acervo da Guarda.

Padronização para simplificar a logística
A mudança tem como um de seus objetivos reduzir a diversidade de calibres em serviço. O diretor da Guarda Municipal, Emerson Edinei Lopes, destacou a aproximação com o padrão empregado por outras instituições de segurança, entre elas a Brigada Militar e a Polícia Penal do Rio Grande do Sul, que também utilizam o calibre 9 mm.

A concentração em um calibre facilita o planejamento de compras e a gestão dos estoques de munição. Já a padronização dos modelos de arma pode simplificar a manutenção, a reposição de componentes e a capacitação dos agentes. São benefícios distintos: adotar o mesmo calibre de outra força não significa, automaticamente, compartilhar peças, carregadores ou todos os procedimentos de manutenção.

O comunicado da Taurus informa que a corporação possui 226 agentes e apresenta a aquisição como suficiente para equipar todo o efetivo. Entretanto, os quantitativos divulgados, 120 armas novas e 100 existentes, somam 220 pistolas. Sem esclarecimento sobre a distribuição e o restante do acervo, esses números não permitem afirmar que cada integrante receberá uma arma individual. 

A TS9 já integra o acervo municipal 
A presença de 100 TS9 na Guarda mostra que a corporação já utiliza a plataforma da Taurus. No catálogo internacional da fabricante, o modelo é apresentado em calibre 9 × 19 mm, com mecanismo de percussor lançado, cano de quatro polegadas e opções de capacidade de 17 ou 15 cartuchos no carregador, além de um na câmara.

A ficha também relaciona bloqueio do percussor, trava de gatilho e indicador de cartucho na câmara. Essas são características do modelo catalogado; as informações públicas consultadas não detalham a configuração específica do novo lote entregue a Novo Hamburgo.

Mais agentes e mobilidade 
A entrega integra um programa mais amplo de investimentos. Conforme o prefeito Gustavo Finck, a administração busca melhorar as condições de atuação da Guarda com tecnologia, estrutura, equipamentos e pessoal. Em 2026, 30 novos agentes passaram a atuar na corporação, que também recebeu três motocicletas e sete viaturas para reforçar o patrulhamento.

A modernização inclui o SmartNH, programa de videomonitoramento citado pelo prefeito durante a solenidade. Em agosto, a Câmara Municipal informou que o Executivo planejava alcançar duas mil câmeras ativas até 2028. Trata-se de uma meta de expansão, e não do número de equipamentos já em operação.

Novas aquisições previstas 
A Prefeitura anunciou ainda a previsão de receber, nos próximos meses, dispositivos Taser e espargidores, classificados como equipamentos de menor potencial ofensivo. A Guarda também trabalha na aquisição de armas longas. A nota municipal não informa quantidades, modelos ou fornecedores dessas futuras compras.

Para a Taurus, a entrega amplia sua presença em uma corporação que já utiliza seus produtos. O fornecimento se insere em um mercado institucional acompanhado pelo portal LRCA há anos.

30 setembro, 2026

JD Taurus ganha espaço na Índia e reforça expansão tecnológica da fabricante brasileira

Certificações, contratos e novos produtos da operação indiana acompanham os lançamentos nos EUA e o avanço da Taurus em sistemas de armas e plataformas não tripuladas no Brasil



*LRCA Defense Consulting - 30/09/2026

A JD Taurus está ampliando sua presença na Índia com contratos institucionais, crescimento das vendas civis e novos produtos. A divulgação das certificações AS9100D e ISO 9001 acrescenta um marco de qualidade a uma operação que já fornece armamento ao Exército indiano e conquistou pedidos de forças policiais federais e estaduais. A trajetória acompanha um movimento mais amplo da Taurus, que lança novas plataformas nos Estados Unidos e desenvolve, no Brasil, sua atuação como fornecedora e integradora de sistemas de armas, incluindo drones e veículos terrestres não tripulados.

A empresa indiana resulta da associação entre a Jindal Defence e a Taurus Armas, com participações de 51% e 49%, respectivamente. Instalada em Hisar, no estado de Haryana, iniciou a operação em março de 2024 com apoio técnico brasileiro. A fabricação local, alinhada ao programa Make in India, permite disputar o mercado com uma estrutura industrial estabelecida no próprio país. 


Certificações reforçam a estrutura de qualidade 
Em publicação institucional recente, a JD Taurus informou possuir as certificações AS9100D e ISO 9001, destacando o compromisso com precisão, rastreabilidade e melhoria contínua na fabricação. O anúncio é relevante para uma empresa que procura ampliar o fornecimento a clientes militares e policiais, cujos processos de aquisição exigem consistência industrial e controle documental.

A família de normas 9100, conforme o International Aerospace Quality Group (IAQG), estabelece requisitos de gestão da qualidade para organizações de aviação, espaço e defesa, acrescentando exigências à base da ISO 9001. As certificações dizem respeito ao sistema de gestão da organização; a qualificação operacional de cada armamento continua dependendo dos ensaios e requisitos aplicáveis ao produto e ao cliente.

Contratos ampliam a presença nas forças indianas 
O primeiro fornecimento militar de destaque foi o de 550 submetralhadoras T9 ao Comando do Norte do Exército indiano. A documentação de resultados da Taurus referente a 2024 registrou que as armas, produzidas localmente, já haviam sido entregues. Em maio de 2025, o LRCA noticiou outra vitória institucional, para o fornecimento de pistolas TS9 à Railway Protection Force, responsável pela segurança ferroviária.

Em 2026, as encomendas ganharam escala. A cobertura do LRCA registrou um pedido de 5.368 pistolas TS9 para as forças policiais centrais indianas. Em comunicado oficial, a Taurus confirmou ainda um contrato formalizado em 16 de março para fornecer 6.136 unidades da mesma pistola à Polícia de Uttar Pradesh, identificada pela fabricante como Special Task Force. Somados, esses dois pedidos representam 11.504 pistolas.

Na sequência, quatro novos contratos com as polícias de Meghalaya, Chhattisgarh, Punjab e Kerala acrescentaram mais de 1.300 pistolas e submetralhadoras de 9 mm, segundo divulgação reproduzida pelo LRCA em 27 de março. O conjunto desses pedidos de 2026 supera, portanto, 12,8 mil armas. O número corresponde a encomendas conquistadas, sem pressupor que todas as entregas estejam concluídas.

A diversidade dos compradores dá relevância comercial à expansão. A JD Taurus passa a acumular referências de fornecimento em diferentes estruturas de segurança, reduzindo a concentração em um único cliente e ampliando sua exposição a requisitos operacionais variados. 


Vendas civis crescem e a 1911 chega ao catálogo 
No mercado civil, o Relatório da Administração de 2025 da Taurus informa crescimento superior a 60% nas vendas indianas em relação ao ano anterior. O documento também registra que a operação já contribuía positivamente para o resultado da companhia por equivalência patrimonial. Essa forma de reconhecimento significa que o faturamento da JD Taurus não é somado integralmente à receita consolidada da empresa brasileira.

A ampliação da oferta acompanha o avanço comercial. O catálogo oficial indiano reúne a PT57 SC, incluindo versões Black Matte e Dual Tone, a PT58 HC Plus, o revólver RT073 e a pistola 1911 .45 ACP. Esta última possui página com indicação de disponibilidade e foi apresentada pela JD Taurus na Police Expo 2026, além de receber uma campanha institucional própria.

O RT073, cujo lançamento foi anunciado pelo LRCA em abril de 2025, também permanece na oferta atual. No segmento de segurança, o site apresenta os modelos fuzil T4, submetralhadora T9, pistolas TS9 e TS9C. A variedade mostra a expansão do portfólio, embora a presença no catálogo não signifique, por si só, contratos conquistados para todas as armas. 


Oportunidades de 130 mil armas no horizonte 

Na divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, a Taurus informou que a JD Taurus acompanhava licitações e oportunidades institucionais em diferentes estágios, envolvendo mais de 130 mil armas e valor bruto potencial de aproximadamente US$ 54 milhões. O documento também menciona contratos em execução e demonstrações e avaliações junto às Forças Armadas e às forças de segurança federais e estaduais.

Trata-se de uma carteira de oportunidades, cuja conversão depende do andamento das concorrências e negociações. Sua dimensão indica espaço para crescimento, mas não corresponde a receita contratada. A expansão efetivamente comprovada está nos pedidos já anunciados e no aumento das vendas civis.

RPC e supressores ampliam a oferta nos Estados Unidos 
O avanço indiano ocorre paralelamente à renovação do portfólio norte-americano. Em janeiro de 2026, a Taurus apresentou nos EUA a TX9, plataforma modular de pistolas de 9 mm, oferecida em três dimensões e preparada para receber miras ópticas. Seu chassi de aço serializado permite diferentes configurações de empunhadura, ampliando a flexibilidade da família para aplicações profissionais e civis.

Em 14 de abril, a Taurus USA anunciou o lançamento do RPC, marcando sua entrada em uma categoria dedicada de armas compactas de defesa pessoal de 9 mm, conhecida pela sigla PDW. A plataforma incorpora comandos ambidestros, construção em alumínio e interfaces para acessórios. O lançamento amplia a atuação da marca em um segmento distinto de suas pistolas e revólveres tradicionais.

Em setembro, outra iniciativa reforçou essa diversificação: a primeira linha de supressores da companhia, denominada TTX. Segundo comunicado da Taurus Holdings publicado em 18 de setembro, a família reúne TTX22, TTX9C e TTX30. O TTX9C foi concebido para plataformas de cano fixo, incluindo o RPC, enquanto os demais atendem outras categorias de armamento. A linha foi desenvolvida em colaboração com engenheiros especializados e utiliza construção em titânio.

O movimento permite à Taurus ampliar a oferta de produtos complementares às suas armas. O paralelo com a Índia está na diversificação comercial, embora os lançamentos norte-americanos não impliquem disponibilidade automática desses mesmos produtos no mercado indiano. 

Submetralhadora RPC com supressor TTX9C

No Brasil a expansão alcança sistemas de armas e drones 
No Brasil, a mudança anunciada pela Taurus tem alcance industrial mais amplo. Durante o COP International 2026, a companhia apresentou sua evolução para uma empresa de tecnologia aplicada à defesa e à segurança, com integração de armamentos, sensoriamento, inteligência artificial e plataformas aéreas e terrestres não tripuladas.

A proposta abrange aplicações de reconhecimento, logística, defesa antidrone e apoio de fogo. Entre os sistemas apresentados está o TAS, drone armado que já realizou demonstrações com munição real para o Exército Brasileiro. Segundo a companhia, o projeto integrado tem horizonte de três anos e pode chegar ao mercado por etapas, com sistemas operando individualmente antes da integração completa.

Em entrevista ao LRCA, posteriormente reproduzida no site da Taurus, Salesio Nuhs explicou que a empresa pretende concentrar competências próprias em integração, programas de missão, autonomia, comando e controle e integração de armamentos. Componentes e tecnologias especializados podem vir de parceiros. Essa divisão de trabalho ajuda a definir o novo posicionamento como desenvolvedora e integradora de sistemas de armas. 


Exército e Fuzileiros Navais participam do desenvolvimento 
A aproximação com os usuários militares dá conteúdo prático à estratégia. Em comunicado de agosto, a Taurus anunciou um Memorando de Entendimento com o Exército Brasileiro, firmado por Salesio Nuhs e pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general de exército Francisco Humberto Montenegro Júnior. Como primeira ação, foram fornecidos 55 armamentos para experimentações doutrinárias e avaliações técnicas e operacionais.

O instrumento prevê também avaliações logísticas, intercâmbio de conhecimento e identificação de possibilidades de desenvolvimento conjunto. A finalidade é confrontar os equipamentos com necessidades reais de emprego e subsidiar decisões sobre sua eventual adoção.

Com o Corpo de Fuzileiros Navais, a Marinha assinou em 10 de fevereiro de 2026 um Protocolo de Intenções para estudos técnicos e análises de viabilidade de armas leves, coletivas e drones armados. Conforme a Agência Marinha de Notícias, em texto reproduzido pela Tecnologia & Defesa, cabe ao CFN definir necessidades e avaliar os materiais no ambiente operacional, enquanto a Taurus oferece engenharia e suporte aos testes.

O protocolo tem vigência de dois anos e não prevê transferência de recursos entre os participantes. Eventuais aquisições dependerão de instrumentos posteriores. O BNDES manifestou apoio institucional e disponibilidade para analisar futuros projetos conforme seus procedimentos. Em esclarecimento ao LRCA, a Taurus confirmou que a cooperação com os Fuzileiros Navais segue em paralelo ao trabalho com o Exército. 



A Índia ganha peso na expansão da Taurus 
As iniciativas mostram frentes complementares de expansão. Nos Estados Unidos, a Taurus entra em novas categorias e amplia produtos associados às suas armas. No Brasil, além de lançar uma linha completa de novos produtos em calibre permido e estar obtendo excelentes resultados, procura transformar sua experiência industrial em capacidade de integração de sistemas e desenvolver soluções com participação dos usuários militares. Na Índia, a JD Taurus consolida a fabricação local, amplia o catálogo e conquista encomendas de diferentes instituições.

Nesse conjunto, os resultados indianos oferecem uma base comercial concreta. As certificações anunciadas reforçam a estrutura de qualidade que acompanha essa trajetória, enquanto os novos produtos e contratos mostram que a operação asiática já participa ativamente da expansão internacional da fabricante brasileira.

24 setembro, 2026

A corrida pela autonomia nacional em sistemas não tripulados: o Brasil entre a dependência e a liderança



*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026 

O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América Latina, a Xmobots e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.

O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.

Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa (BID).

A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado atualmente.

A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer . Em 2026, o Grupo EDGE, conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos. No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.

A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação, expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.

Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em ciclos contínuos extremamente curtos.

A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.

Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado, sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos objetivos traçados para a década.

O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos, compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves, motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS); links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.

A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.

Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos, a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos principais agentes industriais do país permite identificar as competências já internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.

No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado, a Xmobots destaca-se como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.

Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até 28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD 2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às plataformas nacionais.

A AERO CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.

No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta confiabilidade, a AEL Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras, notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.

A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi, empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em 2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026, consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia decisória.

Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025, adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.

A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no Brasil.

Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte (OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.

A coordenação institucional desse contingente fabril deu um salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE, congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid, Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella Tecnologia, Taurus Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade, simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de maior sofisticação tecnológica.

Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados, revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas brasileiras.

Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes. O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres, navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software no centro do poder de combate.

Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033 demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de dados especializados em sistemas autônomos.

O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa), a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.

O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo à independência tecnológica de fato.

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

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