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23 setembro, 2026

Taurus desenvolve linha TTX nos EUA após suspender plano de importar supressores brasileiros

Projeto norte-americano teve acompanhamento do CITE no Brasil e adota titânio impresso em 3D, arquitetura monocore e classificação para fogo automático



*LRCA Defense Consulting - 23/09/2026

A Taurus desenvolveu nos Estados Unidos a nova família TTX de supressores depois de suspender o plano de comercializar naquele mercado os modelos produzidos no Brasil. Segundo Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus, a mudança ocorreu em razão das tarifas impostas aos produtos brasileiros no mercado norte-americano.

Em resposta ao LRCA Defense Consulting, Salesio esclareceu que os TTX constituem um desenvolvimento realizado pela Engenharia da Taurus USA em colaboração com especialistas no produto. A identidade desses parceiros não é divulgada por razões estratégicas. O CITE, Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia da Taurus no Brasil, acompanhou todas as fases do projeto.

A informação delimita a relação entre as duas famílias. Os TTX não foram apresentados pela empresa como simples evolução dos ST 22, ST M177, ST M183 e ST M210, lançados no Brasil em 2023. A experiência tecnológica da companhia no País integra o contexto do projeto, mas o desenvolvimento e a fabricação da nova linha ocorrem nos Estados Unidos. 


A estreia efetiva no mercado norte-americano 
A família ST havia sido concebida no Brasil e chegou a ser exibida na LAAD Defence & Security 2023. A linha abrangia modelos em alumínio, aço inoxidável e titânio, destinados a diferentes armas e calibres. Entretanto, não foi comercializada nos Estados Unidos.

“Havia um plano de comercialização dos supressores produzidos no Brasil, mas foi suspenso em razão das tarifas impostas aos produtos brasileiros no mercado americano, e a Taurus optou por desenvolver e produzir nos EUA uma nova linha de supressores”, afirmou Salesio ao LRCA Defense Consulting.

A declaração também esclarece por que a imprensa norte-americana descreveu os TTX como os primeiros supressores da Taurus. A designação é correta quando aplicada à estreia comercial da marca nos Estados Unidos, mas não à trajetória global do grupo, que já havia apresentado sua família brasileira três anos antes.

Titânio e manufatura aditiva 
Os três TTX são construídos em titânio por manufatura aditiva, também descrita pela Taurus como sinterização ou impressão 3D. A tecnologia permite produzir geometrias internas para o fluxo dos gases que seriam difíceis ou impossíveis de obter por usinagem convencional. Todos adotam arquitetura monocore, acabamento Cerakote C-Series e montagem direct-thread.

De acordo com Salesio, o projeto não se limita à redução sonora. A engenharia também trabalhou o fluxo dos gases, a contrapressão, ou back pressure, o impulso de recuo, a consistência, o peso e a resistência estrutural. A Taurus informa redução de até 30 decibéis e classificação para fogo automático. Esses dados são declarações do fabricante e ainda não representam resultados de ensaios independentes divulgados.

A fabricação integral em titânio diferencia os TTX da antiga família brasileira. Nos ST, o titânio era empregado nos modelos M177 e M210, enquanto o ST 22 utilizava alumínio e o ST M183 combinava alumínio e aço inoxidável. A redução sonora anunciada para os modelos brasileiros chegava a 25 decibéis.
 


Três modelos cobrem diferentes plataformas 
Apresentada em 18 de setembro de 2026, a primeira família TTX reúne três modelos:

• TTX22: destinado aos calibres .22 LR, .22 WMR, .17 HMR e 5,7×28 mm. Mede 5,5 polegadas, pesa 3,71 onças (aproximadamente 105 gramas) e tem preço sugerido de US$ 299,99.

• TTX9C: voltado a armas de cano fixo, como PDWs e carabinas em calibre de pistola. É compatível com 9 mm, .380 ACP, .32 ACP e .22 LR, mede 7 polegadas, pesa 11,5 onças (cerca de 326 gramas) e custa US$ 599,99.

• TTX30: projetado para fuzis e rifles nos calibres .300 Blackout, 7,62×39 mm, .308 Winchester, 6,5 Creedmoor e .300 Winchester Magnum. Mede 7,5 polegadas, pesa 14,31 onças (aproximadamente 406 gramas) e tem preço sugerido de US$ 599,99.

O TTX9C foi concebido para plataformas de cano fixo e não utiliza impulsionador para pistolas com cano basculante. Assim, a primeira fase da linha não oferece uma solução específica para a maioria das pistolas semiautomáticas de serviço em 9 mm. 


A taxa zerada amplia a oportunidade comercial

A estreia ocorre em um momento especialmente favorável ao mercado norte-americano. A Lei Pública 119-21 reduziu para zero, a partir de 1º de janeiro de 2026, o imposto federal de US$ 200 cobrado pela fabricação ou transferência de supressores e da maior parte das armas abrangidas pela National Firearms Act, a NFA.

A mudança eliminou o custo tributário, mas não retirou os supressores do regime da NFA. A transferência continua sujeita ao registro e à aprovação prévia do Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives, o ATF, por meio do Formulário 4. O procedimento pode ser realizado pelo sistema eForms e mantém as verificações federais aplicáveis.

O efeito econômico é particularmente expressivo para o TTX22, cujo preço sugerido é de US$ 299,99. A antiga taxa de US$ 200 equivalia a aproximadamente 66,7% do valor do próprio supressor e elevaria o desembolso básico para US$ 499,99, sem considerar eventuais custos cobrados por revendedores. Com o imposto zerado, a barreira inicial cai de forma relevante justamente no segmento de entrada escolhido pela Taurus.

Não há elementos para afirmar que a mudança tributária determinou o cronograma do lançamento. Objetivamente, porém, a Taurus ingressa no setor poucos meses depois da entrada em vigor de uma medida que torna a aquisição mais acessível e pode favorecer a expansão da demanda. Nesse cenário, a combinação entre o TTX22 de preço mais baixo e os modelos TTX9C e TTX30 permite à empresa disputar diferentes faixas do mercado norte-americano.


Novos modelos estão em desenvolvimento 

A Taurus pretende oferecer os TTX no Brasil e em outros mercados, mas ainda avalia onde e quando fará a expansão. Salesio também confirmou que há outros modelos no pipeline de desenvolvimento.

A empresa, contudo, não confirmou se os próximos lançamentos incluirão um supressor dedicado ao 5,56×45 mm ou um modelo compatível com pistolas 9 mm de cano basculante. Por enquanto, essas possibilidades devem ser tratadas apenas como lacunas identificadas na primeira família, e não como produtos já anunciados.

Com produção doméstica, três faixas de aplicação e preços sugeridos entre US$ 299,99 e US$ 599,99, a TTX dá à Taurus uma entrada ampla no competitivo mercado norte-americano de supressores. Ao mesmo tempo, o acompanhamento do CITE mantém uma ligação técnica entre a nova iniciativa nos Estados Unidos e a estrutura de engenharia do grupo no Brasil.

28 agosto, 2026

Taurus confirma virada estratégica e amplia core: de armas leves para veículos não tripulados

Em entrevista exclusiva ao LRCA, o CEO Global Salesio Nuhs detalha portfólio de doze sistemas, nova governança e estratégia de financiamento, mas mantém sob sigilo contratual o nome do parceiro tecnológico do projeto e uma negociação internacional em curso



*LRCA Defense Consulting - 28/08/2026

A Taurus Armas está promovendo a mudança mais significativa de seu posicionamento estratégico desde a migração de armas curtas para armas coletivas: a incorporação de sistemas aéreos e terrestres não tripulados ao núcleo do negócio, ao lado das armas leves que sustentam a companhia há 87 anos. O movimento foi anunciado publicamente durante o COP International 2026, realizado em São Paulo entre 11 e 13 de agosto, e detalhado em entrevista exclusiva concedida pelo CEO Global da empresa, Salesio Nuhs, ao LRCA.

“Não estamos apresentando novos produtos. Estamos apresentando uma nova Taurus”, resumiu Nuhs durante sua participação no evento, ao lado de Gelson Cardoso, gerente de inovação da companhia. A frase sintetiza um processo que começou de forma discreta no fim de 2024 e ganhou corpo ao longo de 2026, com demonstrações ao comando do Exército Brasileiro, articulação com o Corpo de Fuzileiros Navais e negociações de financiamento com órgãos federais de fomento. 

UAV de ataque (drone lançador de munição)

UAV kamikase (drone suicida)

UAV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

Um portfólio de doze sistemas, ainda sem nome oficial 
Material institucional obtido pela reportagem, usado pela companhia em apresentação ao Exército Brasileiro, detalha um ecossistema de doze plataformas: sete sistemas aéreos (UAV ISR, UAV Kamikaze, UAV de Ataque, UAV TAS, UAV Cargo e VTOL, além do Cyber Swarm, tecnologia de enxame) e cinco terrestres (UGV EOD, UGV ISR, UGV TAGS, UGV Cargo e UGV Cleaner), somados a sistemas complementares como o Cyber Launcher, hub móvel de lançamento de drones, o Cyber DiB, drone em caixa autônoma, e o Tars K9, quadrúpede modular.

O material trazia o nome “Taurus Cyber Robotics” associado ao conjunto, mas Nuhs esclareceu ao LRCA que essa denominação não é oficial. “A divisão de sistemas não tripulados ainda está em processo de estruturação e, portanto, ainda não possui uma denominação definitiva. O nome Taurus Cyber Robotics, utilizado anteriormente, foi apenas um título empregado em uma apresentação interna realizada para o Exército Brasileiro e não corresponde à denominação formal da nova divisão”, afirmou o CEO. 

VTOL (drone de asa fixa multipropósito)

UAV Cargo (drone de logística)


Cyber Swarm (enxame de drones de reconhecimento e ataque)

Do ‘soldado voador’ ao TAS disparando munição real 

A origem do projeto remonta a dezembro de 2024, quando Nuhs revelou, durante o Taurus Investor Day, em São Paulo, que a companhia estudava, com uma fabricante italiana de drones, o conceito de um “soldado voador” armado com uma submetralhadora ultraleve em desenvolvimento. Ao longo de 2025, o conceito evoluiu para o TAS (Tactical Air Soldier), quadricóptero configurável com o fuzil Taurus T4 5,56mm, a pistola-metralhadora Taurus RPC de 9mm ou lançador de granadas de 40mm, apresentado na LAAD Defence & Security 2025 e reapresentado no World Defense Show 2026, em Riade.

Em maio de 2026, no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, o TAS disparou munições reais contra alvos. O comando do Exército também assistiu, segundo o release do COP International, à demonstração de uma configuração para lançamento de munição de morteiro de 120mm. Segundo Nuhs, o TAS não foi um desvio de rota, mas uma antecipação deliberada. “O que fizemos foi antecipar especificamente esse desenvolvimento para demonstrar, na prática, nossa capacidade tecnológica e assumir o protagonismo de sermos o primeiro fabricante de armas a integrar uma arma a um drone, controlar seu voo e realizar com sucesso o disparo e o acerto do alvo”, disse. 

TAS dispara munições reais contra alvos no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre

O que a Taurus mantém internamente, e o que terceiriza 

Questionado sobre a origem da tecnologia, já que drones aéreos e terrestres são áreas historicamente alheias ao core da companhia, Nuhs afirmou que a estratégia não é desenvolver cada componente do zero. “O mercado já possui componentes amplamente consolidados e validados em áreas como baterias, sensores, sistemas de comunicação e parte da eletrônica embarcada. O foco da Taurus está nas tecnologias que realmente agregam diferencial competitivo, capacidade operacional e soberania tecnológica”, disse, citando como prioridades internas as camadas de integração, software de missão, autonomia, inteligência artificial aplicada, comando e controle e integração de armamentos.

Sobre a capacidade de levar os doze sistemas à produção seriada, o CEO foi categórico: “Não dependemos de parceiros para viabilizar a produção seriada dos sistemas. Os parceiros complementam nossa capacidade, fornecendo tecnologias e hardware especializados, enquanto a Taurus mantém o domínio da engenharia do produto, da integração dos sistemas, da industrialização, dos testes, da certificação e do suporte ao ciclo de vida”. 

UGV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

UGV TAGS (drone para apoio de fogo armado)

UGV Cleaner (drone de crearance & desminagem)

UGV EOD (drone de intervenção e manipulação)

Nova governança para dois negócios distintos 
A companhia já promoveu uma reorganização de sua Diretoria para acomodar a nova frente de negócio. Jean Castilhos foi promovido a Diretor de Engenharia, Armas, Munições e Acessórios, com a missão de preservar foco e continuidade no core tradicional da companhia. Leonardo Sesti, que já dirigia o Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia (CITE), permanece no cargo, mas passa a atuar de forma mais voltada aos veículos não tripulados. Segundo a empresa, a mudança não exigiu aprovação do Conselho de Administração, por se tratar de decisão de alçada executiva.

“Cada negócio passa a contar com liderança e responsabilidades claramente definidas, evitando dispersão de foco”, justificou Nuhs, que também rebateu, de forma direta, a leitura de que a expansão para sistemas não tripulados representaria um salto maior do que a capacidade da companhia. “Evoluímos das armas individuais, como revólveres e pistolas, para as armas coletivas, incluindo fuzis e metralhadoras, e agora avançamos para sistemas não tripulados. É uma ampliação progressiva das nossas competências dentro do mesmo ambiente de defesa e segurança, e não uma diversificação para um setor sem relação com aquilo que já fazemos”, afirmou.

Financiamento sob demanda, sem valores fechados 
A Taurus evita, por ora, divulgar o investimento total previsto para a nova área. Segundo a empresa, o planejamento estratégico prevê que o desenvolvimento da nova área seja realizado de forma gradual e financeiramente disciplinada, com utilização prioritária de instrumentos públicos de fomento à inovação, incluindo editais de subvenção econômica da Finep, nos quais parte dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação pode ser suportada por recursos não reembolsáveis. A companhia também mantém tratativas com o BNDES e poderá realizar aportes próprios dentro do orçamento vigente, preservando sua geração de caixa e sem comprometer os investimentos e a operação do negócio tradicional.

A empresa evitou, também, comentar como a aquisição em curso da fabricante turca de armas coletivas Mertsav Savunma se concilia, no fluxo de caixa, com os investimentos em sistemas não tripulados, informando apenas que ambos os projetos seguem o mesmo princípio de disciplina financeira e que valores não serão antecipados antes da conclusão da due diligence. 

Cyber Laucher (drone lançador de múltiplos UAVs)

UGV Cargo (resgate e logística)


Cyber Dib (drone em caixa autônoma)

Parceiro do TAS e negociação internacional seguem em sigilo

Nem todas as perguntas enviadas pelo LRCA foram respondidas em detalhe. A Taurus confirmou que existe cláusula contratual que impede a divulgação do nome do fabricante brasileiro de drones do agronegócio, parceiro no desenvolvimento do TAS. A empresa também confirmou que negocia uma primeira aquisição internacional de um sistema de menor escala, mencionada no release do COP International, mas não revelou país, cliente ou sistema envolvido, alegando compromissos de confidencialidade.

Questionada diretamente se avalia comprar, licenciar tecnologia ou formar uma joint venture com alguma empresa de drones para viabilizar o portfólio de doze sistemas, a Taurus respondeu que a possibilidade não está descartada, embora não haja negociação em curso nesse sentido no momento.

Protocolo com o CFN segue em vigor, em paralelo ao Exército 
Um ponto que parecia contraditório entre a cobertura anterior do LRCA e a fala do CEO foi esclarecido ao longo das perguntas enviadas pela reportagem. Em maio de 2026, o LRCA havia noticiado que o Corpo de Fuzileiros Navais assinara protocolo de intenções com a Taurus para o desenvolvimento de um drone armado destinado a tropas anfíbias. Nuhs, por sua vez, havia dito que o desdobramento do projeto para a Marinha viria “em uma etapa seguinte” à validação com o Exército. Questionada sobre a aparente contradição, a empresa esclareceu que o protocolo com o CFN segue vigente e está sendo tratado de forma concomitante ao trabalho já em curso com o Exército, e não apenas em etapa posterior.
TARS K9 (Taurus Robotic Soldier K9)


O contexto: uma Base Industrial de Defesa em ebulição 
A movimentação da Taurus ocorre em meio a um adensamento acelerado do segmento de sistemas não tripulados na Base Industrial de Defesa brasileira. Em maio de 2026, o Exército recebeu o primeiro robô EOD inteiramente produzido no País, fabricado pela Ambipar Robotics, de Jacareí (SP). No campo aéreo, a XMobots avança com a versão armada do Nauru 1000C, equipado com mísseis Enforcer Air desenvolvidos com a MBDA, além do conceito de enxame do Nauru 100D. O Estado-Maior do Exército mantém, ainda, consulta pública aberta para a aquisição de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas de categoria 3 (SARP 3), sinalizando que o emprego de aeronaves armadas deve deixar de ser exceção nas Forças Armadas brasileiras nos próximos anos.

O que ainda falta esclarecer 
A Taurus chega ao fim desta apuração com um discurso consistente sobre governança, disciplina financeira e divisão de competências entre o que desenvolve internamente e o que terceiriza. Ao mesmo tempo, mantém sob sigilo contratual informações que normalmente pesam na avaliação de risco de um projeto dessa envergadura: o nome do parceiro tecnológico central do TAS, os termos da negociação internacional em andamento e o valor total a ser investido na nova frente de negócio ao longo dos próximos anos. A empresa também não estabeleceu, até o momento, um teto de investimento ou um percentual de receita que sirva de limite para o projeto, condicionando o ritmo de expansão à disponibilidade de recursos de fomento e à evolução dos requisitos operacionais definidos junto às Forças Armadas. 


Uma aposta alinhada à guerra do futuro 

O momento escolhido pela Taurus para essa virada não é aleatório. Conflitos recentes, da Ucrânia ao Oriente Médio, consolidaram os sistemas não tripulados como elemento decisivo do campo de batalha contemporâneo, capazes de neutralizar blindados, artilharia e ativos de alto valor a um custo muito inferior ao das plataformas que substituem. Diante dessa mudança de paradigma, fabricantes tradicionais de armamento em todo o mundo enfrentam a mesma escolha: adaptar-se à lógica dos sistemas autônomos e integrados, ou correr o risco de ver seu portfólio tradicional perder relevância estratégica diante de forças mais bem equipadas para o combate não tripulado.

Ao decidir alterar seu próprio core de negócio, incorporando robótica e inteligência artificial à sua base histórica em armas leves e coletivas, a Taurus se posiciona no lado ofensivo dessa transformação, e não no reativo. É uma postura de inovação pouco comum entre fabricantes tradicionais, que tendem a proteger o negócio consolidado até que a disrupção se torne inevitável. Se a companhia conseguir sustentar essa transição com a mesma disciplina de governança e capital que hoje descreve em discurso, o resultado pode ser uma Taurus estrategicamente mais relevante do que jamais foi como fabricante apenas de armas leves: uma das poucas empresas de defesa mundiais capazes de entregar, sob uma mesma marca, todo o espectro que vai do revólver ao sistema autônomo integrado.

Essa aposta também carrega um fator que não pode ser desprezado na avaliação de risco: o histórico do próprio executivo à frente da decisão. Salesio Nuhs assumiu o comando global da Taurus em 2018, quando a companhia enfrentava dificuldades financeiras severas e chegou a ser cotada como candidata a uma recuperação judicial. Em pouco mais de meia década, sob sua gestão, a empresa se reergueu a ponto de se tornar a maior vendedora de armas leves do mundo em volume, em um turnaround considerado "de livro" no setor. Se as mesmas características de liderança, iniciativa e capacidade de execução que sustentaram essa recuperação se repetirem na nova frente de sistemas não tripulados, as chances de que o movimento atual também dê certo são, no mínimo, consideráveis.

O tamanho dessa aposta, porém, é proporcional ao risco de execução. O sucesso deste novo turnaround dependerá menos do portfólio já demonstrado, e mais da capacidade da empresa de transformar protótipos e demonstrações em contratos recorrentes, sem comprometer o caixa nem a rentabilidade do negócio tradicional que ainda sustenta a companhia. É essa equação, entre ousadia estratégica e disciplina de execução, que definirá se a Taurus estará indo além do que suas capacidades permitem ou se, realmente, liderará a próxima geração da indústria de defesa brasileira.

23 maio, 2026

Vinte anos depois, o famoso revólver Taurus Judge evolui, nos EUA e no Brasil

Taurus lança o New Judge no Brasil e nos EUA com design renovado, novo liberador do tambor e, pela primeira vez no mercado interno, com versão multicalibre em edição limitada


*LRCA Defense Consulting - 23/05/2026

Há exatamente duas décadas, a Taurus apresentou ao mundo um revólver capaz de disparar tanto cartuchos metálicos de pistola quanto projéteis do tipo shotshell, a munição de espingarda. O resultado foi o Judge, uma plataforma que não apenas criou uma nova categoria de arma de fogo, mas se tornou um dos produtos mais reconhecíveis da fabricante gaúcha em nível global. Agora, em 2026, a Taurus relança o modelo com um nome atualizado e uma série de melhorias: o New Judge.

O lançamento ocorre simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos, com linhas de produto distintas para cada mercado. A principal novidade para o consumidor brasileiro é a chegada, pela primeira vez, de uma versão multicalibre, com câmara para 36 GA e .45 Colt, em edição limitada de lançamento. Até então, o RT 410 Judge vendido no mercado interno operava exclusivamente em calibre 36 GA, com cano de alma lisa, dada a restrição legal ao .45 Colt para civis no Brasil.

A origem: Miami, 2006
O Judge nasceu de uma demanda real. Em 2006, Bob Morrison, então vice-presidente executivo da Taurus International, soube que juízes federais em áreas de alta criminalidade de Miami estavam adquirindo o revólver RT 410 para proteção pessoal dentro das próprias salas de audiência. A história inspirou tanto o nome quanto o reposicionamento comercial do produto. O modelo, que até então era designado 4410, passou a ser chamado de 4510, e logo de Judge.

A lógica do produto era simples e eficaz: um revólver de cinco tiros capaz de disparar cartuchos de espingarda calibre .410 (equivalente ao 36 GA brasileiro) e, nos mercados onde a legislação permite, munição .45 Colt. Para acomodar a munição de espingarda, a câmara do tambor foi alongada. O cano raiado nos modelos exportados para os EUA permitia o uso de ambos os tipos de projétil. A proposta era versatilidade máxima em uma arma de porte.

Em 2009, a Taurus International informou que o Judge havia se tornado o modelo mais vendido de toda a sua linha. O sucesso foi tamanho que a plataforma se desdobrou em dezenas de variantes ao longo dos anos: Public Defender (frame compacto), Raging Judge (câmara para .454 Casull), Circuit Judge (versão carabina), modelos com trilho Picatinny, com sistema óptico T.O.R.O. e, mais recentemente, uma edição comemorativa de 20 anos com armação e tambor gravados e cabo em madeira com relevos de martelo lançada no SHOT Show de janeiro de 2026 ao preço sugerido de US$ 681,99.



O que mudou no New Judge
O New Judge não é uma reinvenção. É, segundo a própria Taurus, um refinamento de uma plataforma que já provou seu valor. A ação, o tambor de cinco tiros e o frame permanecem. O que mudou é tudo que o atirador vê e toca.

O liberador do tambor, detalhe destacado pela Taurus no material de lançamento, foi ampliado e reprojetado com face plana, tornando o acionamento mais intuitivo e favorecendo recargas rápidas. A mira dianteira passou a ser removível, com fibra óptica. O vértice de mira traseiro é igualmente removível e conta com ajuste lateral, substituindo a mira de canal fixo das versões anteriores. O cão foi reperfilado e compactado; o gatilho recebeu angulação levemente diferente, aumentando a alavancagem e suavizando o acionamento em ação dupla.

A empunhadura foi redesenhada em borracha com inserto macio para absorção de recuo, proporcionando grip mais firme. O cano é em aço inoxidável com revestimento externo em alumínio, recurso que impacta tanto na estética quanto no balanço da arma. A vareta do extrator foi alongada, facilitando a expulsão completa dos cartuchos disparados.

O mercado americano: quatro SKUs
Nos Estados Unidos, o New Judge chega em quatro configurações. Todas em .45 Colt e .410 bore (cartuchos de até 2,5 polegadas), com tambor de cinco tiros e ação SA/DA. As variações são de comprimento de cano e acabamento.

 

Modelo

Cano

Acabamento

Item / MSRP

New Taurus Judge – 3 Black

3"

Preto fosco

2-JUDGE31 / US$ 699,99

New Taurus Judge – 3 Duo Tone

3"

Duo Tone

2-JUDGE35 / US$ 719,99

New Taurus Judge – 6.5 Black

6,5"

Preto fosco

2-JUDGE61 / US$ 699,99

New Taurus Judge – 6.5 Duo Tone

6,5"

Duo Tone

2-JUDGE65 / US$ 719,99

O acabamento Duo Tone combina armação em aço inoxidável com guarda-cano e tambor em preto fosco. Nos modelos de cano longo (6,5"), o guarda-cano é escavado (skeletonized) ao longo da face inferior, reduzindo o peso e conferindo aspecto visual próprio da linha Raging Hunter. Os modelos de 6,5" recebem também mira traseira ajustável, voltados ao uso em trilha e em ambientes rurais.

O mercado brasileiro: três versões, uma inédita
No Brasil, o New Judge é designado internamente como 410H e chega em três configurações, todas com acabamento Dual Tone, tambor de cinco tiros e ação SA/DA. O calibre 36 GA, equivalente nacional ao .410 bore, é de uso permitido para civis registrados.

 

Modelo

Cano

Calibre / Observação

New Judge Taurus 3" Dual Tone

3"

36 GA

New Judge Taurus 6,5" Dual Tone

6,5"

36 GA

New Judge Taurus 6,5" Dual Tone Multi-calibre

6,5"

36 GA / .45 Colt — edição limitada de lançamento

A versão multicalibre, que acrescenta a câmara para .45 Colt ao 36 GA, é a peça central do lançamento no mercado interno. O .45 Colt é calibre de uso restrito no Brasil, o que significa que sua aquisição e porte estão condicionados a registro e habilitação específicos, acessíveis principalmente ao público de CAC (Colecionadores, Atiradores e Caçadores) com as qualificações pertinentes. A versão monocalibre em 36 GA, por sua vez, é de uso permitido e está disponível ao consumidor civil com registro regular de posse.

As dimensões oficiais do modelo de cano 3", divulgadas pela Taurus, são: comprimento máximo de 232,4 mm, altura máxima de 147,3 mm e largura de 38,1 mm.

A diferença técnica central entre o modelo brasileiro e o americano permanece a mesma de versões anteriores: nos EUA, o cano é raiado, o que permite o uso eficiente do .45 Colt com melhor estabilização balística. No Brasil, a versão 36 GA opera com cano de alma lisa, característica adequada para munição do tipo shotshell e exigida pela classificação de uso permitido.



Uma plataforma que o mercado copiou, mas nunca desbancou
O sucesso do Judge gerou imitadores. A Smith & Wesson lançou o Governor, revólver de seis tiros que em .45 Colt, .45 ACP e .410 bore, adicionando versatilidade ao conceito original da Taurus. A Bond Arms explorou o nicho pelo outro lado, com derringers de dois tiros em .45/.410. Mesmo assim, o Judge permanece como a referência de mercado no segmento, a arma que define a categoria que criou.

A Taurus reconhece essa posição no material de lançamento do New Judge, ao adotar o slogan "Uma lenda não se substitui, evolui". O redesenho de 2026 é, nesse sentido, uma resposta às demandas de um público que amadureceu junto com a plataforma: atiradores que pedem miras melhores, recarga mais rápida e ergonomia aprimorada, sem abrir mão da versatilidade de munição que tornou o Judge famoso.

 
Ficha técnica resumida — New Judge (versões brasileiras)

Especificação

Dado

Ação

SA / DA

Capacidade

5 tiros

Calibres disponíveis

36 GA (uso permitido); 36 GA / .45 Colt (edição limitada)

Comprimentos de cano

3" e 6,5"

Acabamento

Dual Tone (armação inox / guarda-cano preto)

Dimensões (cano 3")

Compr.: 232,4 mm | Alt.: 147,3 mm | Larg.: 38,1 mm

Mira dianteira

Fibra óptica, removível

Mira traseira

Vértice removível com ajuste lateral

Empunhadura

Borracha com inserto macio antirrecuo

Cano

Aço inoxidável com revestimento externo em alumínio

Fabricante

Forjas Taurus S.A. — São Leopoldo, RS

 

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