Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Imbel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imbel. Mostrar todas as postagens

19 outubro, 2026

ATMOS avança com Avibras e abre nova etapa para a artilharia brasileira

Exército prevê contratar dois obuseiros em 27 de outubro; montagem em Jacareí e participação da IMBEL podem ampliar o conteúdo nacional de um programa de 36 viaturas



*LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 15h10

O Exército Brasileiro deverá assinar em 27 de outubro, no Comando Logístico (COLOG), em Brasília, o primeiro contrato relativo à aquisição do obuseiro autopropulsado ATMOS 2000, de 155 mm, desenvolvido pela israelense Elbit Systems. A etapa inicial abrange duas viaturas destinadas à avaliação e precede uma eventual contratação de outras 34 unidades. A data foi informada nesta segunda-feira (19) pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, e repercutida pelo portal Forças Terrestres. Até a publicação desta reportagem, portanto, a assinatura ainda era uma previsão.

A novidade não se limita à retomada de uma aquisição interrompida por divergências diplomáticas entre Brasil e Israel. A entrada da Avibras Aeroco no arranjo industrial, mediante memorando de entendimento com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit, cria a perspectiva de montagem das 36 viaturas em Jacareí (SP). A produção de munições de 155 mm também aparece nas informações divulgadas como uma frente de participação da IMBEL. O detalhamento das obrigações, contudo, dependerá dos instrumentos contratuais.

Da seleção técnica ao novo arranjo industrial 
O ATMOS foi selecionado em abril de 2024 no processo para obtenção de Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado Sobre Rodas (VBCOAP-SR). A contratação não avançou no ritmo inicialmente esperado, em meio à deterioração das relações políticas entre os governos brasileiro e israelense por causa da guerra na Faixa de Gaza.

A solução industrial que agora ganha contornos mais definidos não surgiu de improviso. O LRCA Defense Consulting registrou, em julho de 2026, tratativas entre Avibras, AEL e Elbit. Em 7 de setembro, detalhou a proposta de montagem nacional dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, submetida ao COLOG no fim de agosto. Segundo a apuração publicada por Godoy, a oferta vencedora já contemplava uma parceira nacional sem identificá-la nominalmente, circunstância que teria permitido incluir a Avibras sem alterar as condições essenciais da seleção.

A Avibras e o aproveitamento da experiência com o ASTROS 
A escolha de Jacareí apresenta coerência industrial. A Avibras possui experiência na integração de sistemas de artilharia, veículos especiais e plataformas da família Tatra empregadas no ASTROS. A configuração brasileira do ATMOS é associada, nas informações divulgadas, a um chassi Tatra, embora seus detalhes finais ainda dependam de confirmação contratual e técnica.

Em 15 de outubro, a Avibras anunciou a conclusão de sua aquisição pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista. A reorganização societária e a retomada das atividades industriais formam o contexto da nova oportunidade. A eventual montagem do ATMOS pode diversificar encomendas e preservar competências industriais, mas não equivale, por si só, à transferência integral de tecnologia ou à fabricação nacional de todos os componentes. 

ATMOS 2000

O papel estratégico da IMBEL 
A participação indicada para a IMBEL na produção de munições de 155 mm merece atenção própria. Para uma força terrestre, a disponibilidade de munições, sua qualificação, a capacidade de reposição e o domínio de processos produtivos são elementos essenciais da autonomia logística. Ainda não estão esclarecidos publicamente o escopo exato da produção, os tipos de munição abrangidos e o grau de nacionalização previsto.

Dois obuseiros agora, 34 em etapa posterior 
A assinatura prevista para 27 de outubro diz respeito somente ao lote inicial de duas viaturas. Segundo a apuração de Godoy, o passo seguinte dependerá da avaliação do equipamento, da análise das compensações industriais e tecnológicas (offset), da cadeia logística, da integração aos sistemas de artilharia do Exército e de nova comprovação de preços. A contratação das outras 34 unidades é apontada como possibilidade para 2027, não como obrigação já firmada.

As estimativas financeiras publicadas também exigem cautela: a reportagem atribuída a Godoy menciona aproximadamente R$ 800 milhões, enquanto o Forças Terrestres se refere a investimento total próximo de R$ 1 bilhão. Sem a documentação contratual definitiva, não é adequado tratar qualquer desses valores como preço final fechado.

Mobilidade e sobrevivência no combate moderno 
O ATMOS combina canhão de 155 mm com tubo de 52 calibres e plataforma sobre rodas, além de recursos automatizados de navegação, pontaria e operação. A mobilidade e a redução do tempo de permanência em posição de tiro são atributos particularmente relevantes diante da ameaça de drones de reconhecimento, munições vagantes e fogos de contrabateria. Isso não elimina a necessidade de camuflagem, dispersão, defesa antidrone, comunicações seguras e integração com sensores e sistemas de comando e controle.

Para o Exército, o ganho operacional dependerá menos da simples incorporação de uma peça moderna do que de sua inserção em uma arquitetura de fogos capaz de detectar alvos, transmitir dados, engajar e mudar rapidamente de posição. A nacionalização do suporte e das munições pode ser decisiva para sustentar essa capacidade ao longo do tempo.

O que ainda precisa ser confirmado 
A assinatura anunciada deverá esclarecer o cronograma de entregas, a divisão de trabalho entre Elbit, AEL e Avibras, a configuração das viaturas, as obrigações de suporte e os mecanismos de transferência de conhecimento. Também será importante verificar a extensão da participação da IMBEL e os critérios para a passagem do lote inicial à produção em série.

Se confirmada, a contratação encerrará uma fase de incerteza e abrirá outra, de execução industrial e validação operacional. Para a Base Industrial de Defesa, o resultado estratégico não estará apenas nas 36 viaturas previstas, mas nas competências que efetivamente permanecerem no País.

10 outubro, 2026

Tecnologia brasileira de navegação será testada em foguete orbital indiano

Contrato entre Concert Technologies e Skyroot Aerospace prevê novo ensaio do SNI-GNSS no Vikram I, ampliando a validação de um sistema desenvolvido para o Microlançador Brasileiro



*LRCA Defense Consulting - 10/10/2026 - 07h54

A Concert Technologies anunciou nesta sexta-feira (9) a assinatura de um contrato com a indiana Skyroot Aerospace para testar o Sistema de Navegação Inercial integrado à navegação por satélite (SNI-GNSS) no próximo voo do foguete Vikram I. O instrumento foi firmado durante o 77º Congresso Internacional de Astronáutica (IAC 2026), realizado em Antalya, na Turquia, por Rafael Mordente, CEO da Concert Space. A data do lançamento e as condições contratuais não foram divulgadas.

A notícia representa um avanço distinto do Memorando de Entendimento (MoU) assinado pelas mesmas empresas em 7 de outubro, destinado a estudar o codesenvolvimento de um lançador orbital com capacidade de carga útil a partir de 100 kg. Enquanto aquele documento estabelece uma perspectiva de cooperação futura, o novo contrato prevê uma atividade específica de ensaio em voo. Não foram informados valores, cronograma de integração nem eventual compromisso de fornecimento posterior.

Uma tecnologia desenvolvida no Brasil 

O SNI-GNSS foi desenvolvido pela Concert em parceria com a HORUSEYE TECH e a CRON Sistemas e Tecnologias, mediante encomenda tecnológica da Agência Espacial Brasileira (AEB). Concebido para integrar os sistemas de navegação e controle do Microlançador Brasileiro (MLBR), combina sensores inerciais, como acelerômetros e giroscópios, com sinais de sistemas globais de navegação por satélite (GNSS). O conjunto estima posição, velocidade e orientação do veículo, inclusive durante períodos em que os sinais externos não estejam disponíveis.

A Concert é responsável por outros componentes do MLBR, entre eles o computador de missão e módulos eletrônicos associados ao controle do veículo. O programa reúne diferentes empresas nacionais e busca desenvolver capacidade brasileira de lançamento de pequenos satélites. A nova cooperação oferece a possibilidade de ampliar a experiência operacional de uma tecnologia originalmente concebida para esse projeto. 


Do HANBIT-Nano ao Vikram I 

O SNI-GNSS já passou por ensaios em aeronave e participou, em dezembro de 2025, do voo do foguete HANBIT-Nano, da sul-coreana INNOSPACE, lançado de Alcântara, no Maranhão. Segundo informações divulgadas sobre a análise posterior, o equipamento funcionou conforme o esperado desde a energização, aproximadamente meia hora antes da decolagem, até a perda de sinal cerca de 33 segundos após o lançamento.

O voo do HANBIT-Nano foi interrompido prematuramente por um problema de propulsão. Assim, os dados coletados permitiram avaliar o comportamento de sensores, algoritmos e resistência às condições experimentadas, mas não equivalem à demonstração do desempenho durante uma missão orbital completa. O novo ensaio no Vikram I deverá ampliar essa base de dados, caso o voo e a aquisição de informações ocorram conforme planejado.

A Skyroot apresenta o Vikram I como lançador para pequenos satélites, com capacidade anunciada de até 350 kg para órbita baixa da Terra e até 260 kg para órbita heliossíncrona. A empresa informa ter realizado um lançamento orbital em 2026 e prepara voos posteriores. A postagem da Concert não esclarece se o sistema brasileiro será instalado como experimento independente ou integrado à cadeia operacional de navegação do foguete. Portanto, não é possível afirmar que ele comandará o Vikram I.

Da qualificação à oportunidade industrial 
A realização de ensaios em diferentes plataformas pode fortalecer a chamada herança de voo, isto é, o histórico documentado de funcionamento de um equipamento em condições reais de lançamento. Esse histórico é relevante para futuras decisões de adoção por operadores espaciais, mas não dispensa processos adicionais de qualificação, integração e certificação aplicáveis a cada missão.

O contrato também aproxima, de forma prática, a indústria espacial brasileira da indiana. No dia 7, Concert e Skyroot anunciaram um MoU com vigência prevista de dois anos para estudar um lançador intermediário entre o MLBR e os veículos maiores da família Vikram. O documento contempla avaliações técnicas e comerciais, mas a definição do projeto, os investimentos e eventuais contratos de desenvolvimento ainda dependem de decisões posteriores.

Os dois anúncios são complementares, porém independentes em seus compromissos divulgados: o ensaio do SNI-GNSS tem objeto técnico definido, enquanto o novo lançador permanece em fase de estudos. Também não há confirmação de que o equipamento brasileiro será selecionado para a futura plataforma conjunta, nem de que essa plataforma utilizará Alcântara. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.

Para o Brasil, a relevância imediata está na oportunidade de submeter uma tecnologia nacional de navegação a outro ambiente de voo orbital e de demonstrar competências desenvolvidas com participação da AEB. A dimensão comercial dessa conquista dependerá dos resultados efetivamente obtidos e de novos acordos que venham a ser anunciados.

09 outubro, 2026

Muito além das armas: IMBEL apresenta avanços em propelente para mísseis, comunicações e tecnologias de defesa

Em entrevista ao ABIMDE Cast, representante da empresa detalha produtos em homologação, capacidade de fornecimento de insumos estratégicos e planos de expansão comercial



*LRCA Defense Consulting - 09/10/2026 - 20h27

A Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) pretende utilizar a 9ª Mostra BID Brasil, programada para 24 a 26 de novembro de 2026, em Brasília, para apresentar uma combinação de armamentos, sistemas de comunicações e insumos estratégicos. Em entrevista ao ABIMDE Cast, a tenente-coronel Marília Vilas Boas, assessora de Relações Institucionais da empresa, destacou projetos em desenvolvimento, a produção nacional de propelentes e o interesse de clientes estrangeiros por produtos da indústria brasileira.


A entrevista oferece detalhes sobre iniciativas que já vinham sendo divulgadas. Em julho, o LRCA noticiou a apresentação de uma nova geração de produtos da IMBEL durante a troca de sua presidência. Agora, as declarações permitem examinar o estágio de alguns projetos e a importância de sua inserção na cadeia de suprimentos de defesa.  

Propelente para o míssil MAX e substituição de fornecedores 

Um dos pontos mais relevantes foi a confirmação, por Marília, de que a IMBEL desenvolveu um grão propelente destinado ao míssil MAX, associado ao programa MSS 1.2 MAX, e já o comercializa. Segundo a representante, a aproximação com a empresa responsável pelo projeto ocorreu após atrasos de um fornecedor estrangeiro. A entrevista não identifica contratos, quantidades entregues nem o estágio de incorporação do insumo aos lotes de mísseis produzidos.

O dado reforça a relevância da produção nacional de materiais energéticos em um mercado internacional marcado por restrições de fornecimento e prazos prolongados. A IMBEL mantém capacidade industrial em explosivos e propelentes, incluindo a Fábrica Presidente Vargas, em Piquete (SP). A nacionalização de um insumo específico, entretanto, não equivale à nacionalização integral do sistema de armas. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.

Comunicações: Rondon e recursos além da linha do horizonte 
Na área de comunicações, Marília citou a família Rondon, de rádios definidos por software, nas configurações veicular, portátil e manpack. Também mencionou recursos de comunicação satelital, criptografia e interoperabilidade entre equipamentos de diferentes fabricantes. Não ficou esclarecido, na entrevista, se todas essas capacidades pertencem aos mesmos modelos Rondon ou a outros sistemas do portfólio da IMBEL.

A representante salientou que os rádios apresentados como futuros lançamentos ainda aguardam testes e homologação. Portanto, a previsão de exibição na Mostra BID não deve ser confundida com disponibilidade operacional imediata. A família Rondon já havia sido apresentada em eventos anteriores, de modo que a novidade está principalmente na atualização sobre versões, funcionalidades e maturidade do desenvolvimento.

Armamentos voltados à redução de peso 
A IMBEL também pretende destacar uma pistola 9 mm de percussor lançado, conhecida como striker, e um fuzil de precisão, além de um simulador de tiro associado ao IA2 em calibre 5,56 mm. Marília relacionou o desenvolvimento de armamentos mais leves às necessidades de militares e agentes de segurança pública, que transportam equipamentos durante longos períodos de serviço.

A empresa já divulga em seus canais oficiais projetos como a Pistola IMBEL 9 Striker e o fuzil de alta precisão IMBEL 308 WIN. A entrevista não apresenta resultados de ensaios, cronogramas definitivos de homologação ou encomendas para os novos modelos. Entre os produtos mencionados como já comercializados figuram o fuzil .308 e a pistola 9 TC MD6.

Munições, exportações e capacidade industrial 
Outro tema abordado foi a planta de carregamento de munições na Fábrica de Juiz de Fora (MG). A instalação integra a estratégia de ampliar a capacidade interna de suprimento, especialmente diante da dificuldade de aquisição de determinados materiais no exterior. A planta já havia sido anunciada pela IMBEL, mas a entrevista reforça sua importância no atual cenário internacional.

Marília afirmou que países estrangeiros vêm procurando a IMBEL especialmente para fornecimento de explosivos e propelentes, não apenas de munições completas. A declaração indica oportunidades comerciais, embora não traga informações que permitam medir crescimento de exportações, identificar novos compradores ou confirmar contratos recentes.

Tradição industrial e inovação 
Criada formalmente em 1975, a IMBEL reúne fábricas com origens históricas muito anteriores, algumas vinculadas ao desenvolvimento da indústria militar brasileira desde o início do século XIX. A empresa busca conciliar esse legado com sua atuação como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT), desenvolvendo soluções a partir de demandas das Forças Armadas, órgãos de segurança e parceiros industriais.

Na entrevista, Marília também recordou a trajetória do coronel Paranhos, ligado ao desenvolvimento do sistema Gênesis, como exemplo da continuidade de projetos tecnológicos conduzidos por profissionais civis e militares. Segundo ela, a IMBEL responde por cerca de 2 mil empregos diretos e mais de 20 mil indiretos, números apresentados pela representante, sem detalhamento metodológico.

O que observar na Mostra BID 
A exposição em novembro deverá oferecer oportunidade para esclarecer quais produtos já concluíram homologação, quais funcionalidades dos rádios estão efetivamente demonstradas e em que estágio se encontra o fornecimento do propelente destinado ao MAX. Essas respostas serão decisivas para distinguir demonstrações tecnológicas, capacidades industriais existentes e entregas comerciais consolidadas.

Exército, IMBEL e EDGE formalizam cooperação estratégica com os Emirados Árabes Unidos

Comunicado oficial confirma as quatro organizações na Carta de Intenções, vincula o entendimento à Força Terrestre 40 e prevê discussões sobre modernização militar, desenvolvimento industrial e transferência de tecnologia



*LRCA Defense Consulting - 09/10/2026 - 13h36 (atualizado em 13/10, às 10h04)

O EDGE Group confirmou oficialmente que assinou, em Abu Dhabi, uma Carta de Intenções com o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Exército Brasileiro, representado pelo Estado-Maior do Exército (EME), e a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL). O instrumento orienta futuras iniciativas conjuntas nos campos militar, operacional, industrial, tecnológico, comercial e governamental. A cerimônia havia sido noticiada em setembro pela revista militar emiradense Al Jundi, que enfatizou a cooperação técnica, operacional e logística.

A confirmação, divulgada pelo EDGE em 13 de outubro, esclarece o papel formal das quatro organizações, anteriormente indicado pelo coronel da reserva Jetson Turquiello Machado da Silva, executivo de desenvolvimento de negócios do grupo para o Brasil e a América Latina. A fotografia oficial da assinatura também exibe os símbolos do Ministério da Defesa emiradense, do Exército, da IMBEL e do EDGE. A Carta de Intenções, contudo, não constitui, por si só, contrato de aquisição ou garantia de transferência de tecnologia. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.

Segundo o comunicado, o acordo se apoia no Acordo de Cooperação em Defesa Brasil–Emirados Árabes Unidos de 2014 e no acordo de 2019 sobre intercâmbio e proteção mútua de informações e materiais classificados. O propósito é orientar discussões para identificar soluções às necessidades do Exército Brasileiro, em alinhamento ao processo de transformação da Força Terrestre 40 e ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID).

Uma cooperação que já produziu iniciativas concretas 
A aproximação entre o EDGE e instituições brasileiras antecede a nova Carta de Intenções. Em abril de 2026, o grupo anunciou uma iniciativa com o Exército para avaliação operacional dos armamentos CARACAL CAR 816, de 5,56 mm, e CSR50, de 12,7 mm, por unidades especializadas. A avaliação não representa, por si só, uma decisão de aquisição.

Em agosto, o EDGE e o Comando de Defesa Cibernética do Exército anunciaram a criação de um Centro de Excelência em Defesa Cibernética, com investimentos diretos das duas instituições e atividades previstas de capacitação, resposta a incidentes, pesquisa e desenvolvimento. Trata-se de iniciativa distinta, cuja vinculação à nova Carta de Intenções não foi anunciada.

IMBEL e EDGE: contribuições previstas à cooperação 
O EDGE descreve papéis complementares para os participantes: o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos oferece a dimensão governamental e bilateral; o Exército Brasileiro apresenta necessidades operacionais e prioridades de modernização; a IMBEL contribui com capacidades industriais nacionais de defesa; e o EDGE disponibiliza seu portfólio integrado, experiência em sistemas e presença industrial crescente no Brasil. Essa divisão de contribuições explicita a dimensão industrial do entendimento, sem definir ainda projetos ou contratos.

Há antecedentes de integração tecnológica entre essas organizações. Em dezembro de 2024, o EDGE anunciou uma solução de comunicações seguras para o CENSIPAM, combinando dispositivo da KATIM, tecnologias da SIATT e rádios da IMBEL. O novo comunicado menciona transferência de tecnologia e programas conjuntos futuros como áreas de cooperação, mas não identifica sistemas selecionados, montantes de investimento, cronogramas, direitos de propriedade intelectual ou obrigações específicas de fabricação no Brasil.

Compromisso anunciado pela direção do EDGE 

Hamad Al Marar, diretor-geral e CEO do EDGE Group, afirmou que o Brasil está construindo capacidades soberanas de defesa e que o grupo pretende contribuir para esse processo. Segundo o executivo, o EDGE colocará seu portfólio, seus engenheiros e sua presença industrial no Brasil a serviço da modernização do Exército e do fortalecimento duradouro da BID. Trata-se de um compromisso estratégico anunciado pela direção do conglomerado, cujo desdobramento em programas e contratos ainda dependerá de definições posteriores.

A iniciativa se insere em uma aproximação mais ampla. Em declaração conjunta durante o G20 de 2024, Brasil e Emirados Árabes Unidos destacaram a expansão dos vínculos em defesa e segurança. O EDGE vem ampliando sua atuação industrial no País, inclusive por meio da SIATT, da Akaer, da Condor e de outras iniciativas. Esses antecedentes ajudam a compreender o contexto do acordo, mas não significam que cada projeto anterior tenha sido incorporado à nova Carta de Intenções.

Próximas etapas e resultados esperados 
O comunicado de 13 de outubro resolve a dúvida sobre os signatários, mas não detalha quais capacidades militares terão prioridade, quais sistemas serão avaliados, como ocorrerá eventual transferência de tecnologia ou se haverá financiamento e metas industriais. A Carta de Intenções estabelece uma direção de trabalho e diálogo; a execução dependerá de instrumentos e decisões subsequentes.

Para o Exército Brasileiro, a relevância do entendimento será medida pela transformação das intenções em capacidades operacionais verificáveis. Para a IMBEL e a BID, o resultado dependerá de oportunidades efetivas de engenharia, produção e absorção tecnológica. A declaração do CEO do EDGE sinaliza disposição de mobilizar recursos técnicos e industriais, mas os resultados concretos ainda precisarão ser demonstrados.

07 outubro, 2026

MODIRUM | GESPI transforma experiência em munições em solução industrial modular

Nova estação turn-key pode ser configurada para munições de 105, 120 e 155 mm e insere a empresa em um mercado global pressionado pela necessidade de ampliar e descentralizar capacidades produtivas 



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Da munição à capacidade de produzir 
A MODIRUM | GESPI ampliou seu portfólio com uma solução turn-key para implantação de estações de carregamento de munições, movimento que leva a empresa além do fornecimento de produtos de defesa e passa a oferecer também a engenharia necessária para estabelecer ou ampliar capacidades industriais.

A proposta ganha relevância por combinar três características particularmente valorizadas no atual mercado de defesa: modularidade, flexibilidade para diferentes calibres e possibilidade de expansão conforme a demanda. Segundo o material técnico divulgado pela empresa, a plataforma pode ser configurada para munições de 105 mm, 120 mm e 155 mm, incluindo diferentes variantes, e permite fabricar distintas famílias de projéteis dentro da mesma infraestrutura.

Mais do que um novo equipamento, a solução representa a transformação da experiência acumulada pela companhia na produção de munições em um produto industrial potencialmente exportável. Em vez de vender apenas o resultado final da fábrica, a MODIRUM | GESPI passa a oferecer parte do conhecimento necessário para que outros clientes desenvolvam capacidade própria de produção.

Um conceito diferente da linha contínua 
O elemento central da solução é a substituição do fluxo tradicional de produção contínua por estações modulares independentes. Em uma linha convencional, o produto se desloca sucessivamente entre diferentes etapas e uma interrupção em determinado ponto pode repercutir sobre todo o processo.

No conceito apresentado pela MODIRUM | GESPI, cada módulo funciona de maneira independente e o corpo do projétil permanece em sua estação durante o processo. A empresa afirma que essa arquitetura reduz a movimentação interna de materiais, diminui a dependência de um fluxo serial e limita os efeitos provocados por paradas de máquinas ou interrupções em outros pontos da produção.

A modularidade também permite adequar a configuração às necessidades do cliente e acrescentar ou reorganizar estações conforme a demanda. Dessa forma, investimentos adicionais podem acompanhar o crescimento da produção, em vez de exigir, desde o início, uma estrutura dimensionada para a capacidade máxima.

Uma plataforma para três calibres 
Outro diferencial destacado é a produção multicalibre. A mesma plataforma pode ser configurada para 105 mm, 120 mm e 155 mm, sem que cada família de munição exija necessariamente uma linha completamente independente.

De acordo com a documentação da empresa, a mudança entre modelos é realizada principalmente por ajustes de configuração e pequenas alterações de ferramental. Essa característica pode ser especialmente relevante para países ou fabricantes que necessitam produzir volumes diferentes de várias famílias de munições e não dispõem de escala suficiente para justificar instalações exclusivas para cada uma delas.

O calibre 155 mm confere dimensão estratégica adicional à iniciativa. A guerra na Ucrânia evidenciou o consumo elevado de munição de artilharia em conflitos de alta intensidade e desencadeou uma corrida internacional pela recomposição de estoques e ampliação da capacidade industrial.

A corrida mundial pela capacidade industrial 
A tendência não se limita à compra de munições prontas. Países da OTAN vêm procurando ampliar, distribuir e tornar mais resiliente sua própria capacidade de produção. Em julho de 2026, nove aliados anunciaram o projeto multinacional Generic NATO Indirect Fire Round (GENIFR), destinado a estabelecer parâmetros para uma futura munição genérica de 155 mm plenamente intercambiável e interoperável. Segundo a Aliança, a iniciativa pretende simplificar e acelerar a produção.

No mesmo contexto, a OTAN lançou o NATO Engine, iniciativa voltada a conectar empresas a fábricas e instalações avançadas com capacidade disponível, estimulando produção transfronteiriça e expansão industrial. O princípio é relevante para compreender o mercado potencial de soluções modulares: a questão estratégica deixou de ser apenas onde comprar munição e passou a incluir onde e com que rapidez é possível criar nova capacidade de produzi-la.

A dimensão dessa demanda pode ser observada nos investimentos dos grandes fabricantes. A Rheinmetall, por exemplo, informou em setembro que continua ampliando instalações existentes e construindo novas unidades, com objetivo de atingir aproximadamente 1,5 milhão de projéteis de 155 mm por ano em 2030. A empresa vem recebendo sucessivos contratos internacionais para fornecimento desse tipo de munição.

Gargalos permanecem na cadeia 
A estação da MODIRUM | GESPI, entretanto, não deve ser confundida, com as informações disponíveis, com uma fábrica integral e verticalizada de munições. O material divulgado trata especificamente de uma solução de estação de carregamento e não detalha a inclusão de todas as etapas anteriores da cadeia, como fabricação do corpo do projétil, produção de explosivos, propelentes e espoletas.

A distinção é importante porque alguns dos maiores gargalos internacionais estão justamente nos materiais energéticos. A Comissão Europeia já identificou limitações na disponibilidade de nitrocelulose energética, nitroglicerina e altos explosivos, além da capacidade instalada para mistura, extrusão e acondicionamento de propelentes, como obstáculos à expansão da produção de munição de artilharia.

Portanto, a solução apresentada deve ser entendida pelo que está comprovado: uma arquitetura modular para estações de carregamento, concebida para aumentar flexibilidade, escalabilidade e continuidade operacional. Não há, até o momento, dados públicos sobre capacidade anual de cada configuração, prazo de implantação, nível de automação, preço ou clientes já contratados.

Uma evolução da estratégia da MODIRUM | GESPI 
O lançamento não surge isoladamente. Após adquirir participação majoritária na GESPI, a Modirum Defence anunciou investimento nas instalações industriais brasileiras para desenvolver produção regular de munição de 155 mm padrão OTAN. O plano divulgado previa o início de volumes mensais regulares a partir de abril de 2025 e posterior ampliação de acordo com a demanda.

Em setembro de 2025, MODIRUM | GESPI e IMBEL anunciaram o fortalecimento de sua parceria estratégica, destacando compartilhamento de conhecimento técnico, desenvolvimento de soluções, certificação, padronização e controles de qualidade para atender às Forças Armadas brasileiras e ao mercado internacional.

A internacionalização ganhou outro instrumento em junho de 2026, com a criação da Modirum International, estrutura do grupo dedicada a vendas, comercialização e logística de defesa em escala global. Sua atuação inclui munições, foguetes, sistemas aéreos não tripulados, componentes de munição e matérias-primas destinadas à fabricação de produtos de defesa.

A nova estação turn-key se encaixa nessa trajetória. A companhia passa a ter condições de oferecer não apenas munições e componentes, mas uma solução de engenharia destinada a clientes que pretendam instalar ou ampliar capacidade local de carregamento.

Produção local como ativo estratégico 
A busca por soberania industrial tornou-se um dos efeitos duradouros das crises recentes. Estoques nacionais, capacidade de reposição e segurança das cadeias de suprimento voltaram a ocupar posição central no planejamento de defesa. Nesse cenário, países que não pretendem construir grandes complexos industriais desde o início podem encontrar valor em instalações escaláveis e configuráveis para diferentes necessidades.

É justamente nesse espaço que a proposta da MODIRUM | GESPI pode encontrar oportunidades. Uma solução modular reduz a necessidade de estruturas dedicadas a um único modelo e permite ampliar a capacidade de forma progressiva. Para mercados que desejam nacionalizar parte da produção, estabelecer uma segunda fonte ou criar reservas industriais mobilizáveis, essa flexibilidade pode representar vantagem.

Ainda não é possível medir a dimensão comercial da iniciativa. A empresa não divulgou contratos, clientes, capacidade produtiva por estação ou mercados específicos em negociação. Também não há elementos públicos suficientes para afirmar que o sistema constitua uma fábrica completa de munições.

Mesmo com essas ressalvas, o lançamento representa uma evolução relevante. Ao transformar conhecimento adquirido na fabricação de munições em uma solução industrial oferecida ao mercado, a MODIRUM | GESPI procura ocupar um segmento que ganhou importância estratégica: não apenas fornecer munição, mas ajudar a criar a capacidade para produzi-la.

19 agosto, 2026

IMBEL avança no licenciamento para fabricar o rádio RDS Defesa V4

CTEx conduz tratativas industriais com a FMCE enquanto o rádio veicular segue em fase final de testes pelo CAEx. Programa poderá colocar o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares




*LRCA Defense Consulting - 19/08/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) avança nas tratativas de licenciamento para que a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), por meio da Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica (FMCE), fabrique o RDS Defesa V4, o rádio veicular do Projeto RDS-Rondon Defesa, antes chamado de RDS-Defesa. O anúncio marca um passo relevante na nacionalização e na futura produção seriada de um rádio definido por software (RDS) brasileiro voltado às comunicações táticas das Forças Armadas.

A informação, contudo, precisa de um melhor enquadramento. O que existe até o momento são tratativas de licenciamento industrial, não um contrato público de produção seriada. O V4 permanece em fase de teste e avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), com conclusão prevista para o segundo semestre de 2026. O próprio CTEx, em nota divulgada em 17 de agosto, confirmou que o processo de licenciamento da tecnologia para a IMBEL/FMCE está em andamento e que a empresa ficará responsável pela produção do rádio.

O que é o RDS Defesa V4 
O RDS Defesa é a vertente veicular do programa nacional de rádio definido por software, aprovado no âmbito do Ministério da Defesa em 2012 e conduzido tecnicamente pelo CTEx, com participação da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Classificado como Projeto Estratégico do Ministério da Defesa, com coordenação atribuída ao Exército Brasileiro, o RDS Defesa tem como objetivo prover comunicações táticas nacionais, seguras e interoperáveis entre as três Forças. O V4 indica, segundo fontes abertas, o quarto protótipo da versão veicular, e não uma variante já certificada para produção em escala.

Trata-se de um rádio multibanda, com cobertura de 2 a 512 MHz (HF, VHF e UHF), equipado com dois módulos de radiofrequência independentes e intercambiáveis, além de um módulo de processamento central. Essa configuração permite operar até dois canais simultâneos, voz e dados, algo que soluções anteriores, como o Harris Falcon III empregado em veículos Guarani, exigiam com dois rádios separados.

Entre as características reportadas publicamente estão a arquitetura SCA 4.1, com compatibilidade também com a versão 2.2.2; formas de onda e criptografia de desenvolvimento nacional, com o módulo criptográfico associado à Kryptus; transmissão de voz digitalizada segura, dados e vídeo em tempo real; e salto de frequência (TRANSEC). O equipamento já foi relacionado, em testes de integração, ao Gerenciador do Campo de Batalha (GCB) do Exército, ao STERNA da Marinha e ao Link-BR2 da FAB, com processamento mediado pelo MDLP (Multi Data Link Processor) do CASNAV. 


O papel da IMBEL na fabricação 

O desenvolvimento do RDS Defesa foi conduzido, até aqui, principalmente pela AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit Systems, em parceria com o CPqD, responsável pelas formas de onda, e com a Kryptus, responsável pela criptografia, além de outros subcontratantes. O Ministério da Defesa registra, atualmente, o RDS Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED) da AEL Sistemas. O CTEx descreve o arranjo produtivo nacional e sustentável do projeto como formado pelas Organizações Militares do DCT (CTEx, CComGEx e IMBEL) e por empresas brasileiras como CPqD, AEL, Kryptus, Stefanini, Ocellott (adquirida pela Modirum | GESPI), Sigma Delta e Pinetree.

A entrada da IMBEL representa, portanto, uma mudança de etapa, não a substituição dos demais participantes do projeto. O caminho declarado é: desenvolvimento sob coordenação do CTEx, com apoio de Marinha e FAB; teste e avaliação em curso pelo CAEx; licenciamento industrial em andamento com a IMBEL e a FMCE; e, por fim, uma eventual produção seriada, ainda não confirmada por anúncio público de contrato, lote ou cronograma.

A formulação mais recente do próprio CTEx é mais direta que as anteriores: a nota de 17 de agosto atribui à IMBEL/FMCE, de forma explícita, a responsabilidade futura pela produção do rádio, ainda que o licenciamento em si esteja em curso. Isso indica que a etapa industrial já é tratada como certa pelo órgão coordenador do projeto, restando formalizar o processo e concluir a avaliação técnica.

Documentação do próprio Exército indica que a FMCE já desenvolve algoritmos adaptativos de codificação de voz e dados para rádios definidos por software e para rádios cognitivos, com aplicação no TRC-1222 Rondon. Isso sugere que a fábrica não se limitaria a montar equipamentos, mas também participaria do desenvolvimento tecnológico associado ao programa. 


A convergência com a família Rondon 
Em 2023, a família de rádios Rondon, desenvolvida pela própria IMBEL desde 2013 no âmbito do macroprojeto Sistema de Comunicações Rondon, foi formalmente incorporada ao programa, que passou a ser tratado como RDS-Rondon Defesa. A versão portátil, o TRC-1222HH Rondon, já está em produção seriada. As versões manpack e veicular do TRC-1222 seguem em desenvolvimento conjunto entre IMBEL e CTEx, com previsão de conclusão da versão manpack em 2027.

O RDS Defesa V4 não deve ser entendido como apenas mais um TRC-1222. Ele é o nó veicular de maior capacidade e canal duplo do programa, enquanto a família Rondon cobre o escalonamento entre pelotão, companhia, batalhão e brigada nas versões portátil, manpack e veicular. A convergência de formas de onda e de criptografia entre as duas frentes é o que permite maior coerência de rede entre os escalões táticos.

A IMBEL já possui portfólio consolidado no setor, com os rádios VHF TRC-1193V e TRC-1193V-B Mallet, o transceptor TPP-1410 e o rádio UHF MRU-1400, derivado dele. O Plano de Trabalho nº 15/2024-DRMER/IMBEL, vinculado ao Termo de Execução Descentralizada nº 23-EME-017-00, confirma que os rádios Mallet poderão ser atualizados, após a entrega, com um novo codificador de voz em software e com capacidade de redes Manet/Mesh, funcionalidades já em desenvolvimento pela IMBEL/FMCE. O mesmo documento indica a possibilidade de integração das formas de onda do Mallet com as do próprio projeto RDS Defesa, o que reforça a convergência tecnológica entre as duas famílias de rádio.

Testes operacionais e validação 

A maturidade do programa foi demonstrada na Operação Atlas, exercício conjunto realizado em 2025 em localidades como Belém e Boa Vista, no qual a família RDS-Rondon Defesa foi empregada em testes de interoperabilidade de comando e controle entre as três Forças. Os equipamentos também passaram por avaliação técnica e operacional conduzida pelo CAEx, etapa que antecede qualquer decisão sobre produção em escala. Imagens divulgadas pelo próprio CTEx mostram o RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani, o que evidencia a etapa de integração com plataformas blindadas em operação no Exército. 

RDS Defesa Veicular V4 instalado e testado em uma viatura Guarani

Segurança e evolução tecnológica 
Em abril de 2025, o Centro de Análise de Sistemas Navais (CASNAV) visitou o CTEx especificamente para tratar do programa. A Marinha informou, à época, que trabalhava com o Exército na evolução do módulo de segurança do equipamento e que entregaria ao CTEx um algoritmo criptográfico pós-quântico, destinado a proteger as comunicações contra futuras ameaças associadas à computação quântica.

Relevância estratégica 
Se o RDS Defesa V4 concluir a avaliação com desempenho adequado e avançar para a fabricação regular pela IMBEL, o programa colocará o Brasil no grupo restrito de países com domínio simultâneo de hardware, formas de onda e criptografia em rádios definidos por software militares. O avanço interessa diretamente a programas como o SISFRON, o SisGAAz, o Guarani e o VBC 8x8, além de reduzir a dependência de equipamentos estrangeiros sujeitos a restrições de exportação, caso dos rádios Harris.

A autonomia tecnológica, porém, não se completa apenas com o anúncio do licenciamento. Ela dependerá de fatores ainda não públicos, como a origem dos componentes de radiofrequência e processamento, a cadeia de suprimentos, o domínio efetivo das formas de onda, a custódia das chaves criptográficas, a interface com sistemas legados e a escala que vier a ser efetivamente contratada pelas Forças Armadas. Ainda assim, a produção pela IMBEL, estatal vinculada ao Exército, tende a garantir continuidade industrial, sustentação de longo prazo e potencial de exportação futura para o setor no País.

07 julho, 2026

IMBEL apresenta nova geração de produtos durante troca da presidência na sede em Brasília

Lançamentos abrangem munições, fuzis e sistema de comando e controle para viatura Guaicurus, enquanto pistola striker fired e rádio Rondon seguem em desenvolvimento 


*LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

No dia 1º de julho, no auditório da Secretaria de Economia e Finanças (SEF), no Quartel General do Exército, em Brasília, a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) uniu a cerimônia de transmissão do cargo de diretor-presidente a uma apresentação de novos produtos e projetos em desenvolvimento. A solenidade foi presidida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general de exército Marcos Antonio Amaro dos Santos, e marcou a passagem do cargo do general de divisão Ricardo Rodrigues Canhaci para o general de divisão Flávio Mayon Ferreira Neiva, que antes ocupava a função de subcomandante logístico do Exército.

Antes da cerimônia de posse, no espaço Gen Ex Leônidas Pires Gonçalves, também nas dependências da SEF, a IMBEL reservou um evento específico para mostrar o resultado de seus projetos de inovação nos eixos de munições, explosivos e propelentes, armamento e comando e controle. Entre os produtos já prontos para comercialização, a empresa lançou duas novas espoletas de ogiva de percussão para o canhão de 90mm e novas munições de artilharia nos calibres 105mm e 155mm, além de munição para morteiro de 120mm. Também foram apresentados o tiro de 105mm de exercício, destinado aos carros de combate Leopard e M-60, e grãos propelentes para míssil anticarro.

A linha de armamento leve recebeu boa parte dos destaques. A IMBEL mostrou o fuzil de precisão calibre .308, voltado a atiradores de elite, ao lado de duas variantes para treinamento: um fuzil simulador de tiro e um fuzil de treinamento no calibre 5,56mm, ambos derivados da plataforma IA2. Somaram-se a esse conjunto o fuzil de assalto 7,62 IA2 e um conversor de calibre .22, peça que permite adaptar fuzis e carabinas da família 5,56mm IA2 para esse calibre, reduzindo o custo de munição em exercícios de tiro.

No eixo de comando e controle, a empresa apresentou o sistema desenvolvido para a viatura blindada leve sobre rodas Guaicurus, item que amplia o histórico da IMBEL no fornecimento desse tipo de solução às Forças Armadas, como o já conhecido sistema Gênesis empregado na coordenação de fogos de artilharia.

Além dos itens já disponíveis, um segundo grupo de produtos segue em fase de desenvolvimento. Fazem parte dessa lista os estojos para munições de canhão de 90mm e de artilharia de 105mm, uma pistola de 9mm com sistema striker fired, a família de rádio transceptor multibanda TRC-1222, batizada de rádio Rondon, e sistemas de comunicações capazes de operar além da linha do horizonte.

 

A cerimônia também formalizou a posse do novo vice-presidente executivo da IMBEL, general de divisão Alexandre de Almeida Porto, em substituição ao general de brigada João Denison Maia Correia. Ao final da solenidade, o chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) e presidente do Conselho de Administração da IMBEL, general de exército Hertz Pires do Nascimento, acompanhado dos generais Flávio Neiva e Porto, assinou os termos de posse, oficializando a assunção dos cargos de diretor-presidente e de vice-presidente executivo da empresa, respectivamente. 

Os produtos e projetos em desenvolvimento permaneceram expostos durante um coquetel no mesmo espaço, o que permitiu a convidados e representantes da base industrial de defesa conhecer detalhes técnicos diretamente com engenheiros e técnicos das fábricas da empresa.

26 junho, 2026

Imbel e KNDS assinam memorando para produzir munições de artilharia e de blindados no Brasil

Acordo foi firmado durante a Eurosatory 2026 e está ligado ao offset do Centauro II; Imbel também renovou parceria com a Safran, enquanto a KNDS vive reestruturação acionária que aproxima Alemanha e França

Registro da assinatura do memorando de entendimento entre Imbel e KNDS, durante a Eurosatory 2026
 
*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e o grupo franco-alemão KNDS assinaram, em 18 de junho, durante a Eurosatory 2026, um memorando de entendimento (MoU) para cooperação no setor de munições de artilharia e de blindados. O documento prevê o estudo das condições para a transferência ao Brasil de capacidades de produção de munições de 105mm, 155mm e 120mm, com apoio da Direction Générale de l’Armement (DGA), agência francesa de aquisições de defesa. No mesmo evento, a Imbel também renovou parceria com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil para sistemas de controle e direção de tiro de artilharia. As duas assinaturas ocorrem em paralelo a uma reestruturação acionária da própria KNDS, que prepara a entrada do governo alemão em seu capital e uma futura oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris.

Dois memorandos em uma mesma feira
Os dois memorandos foram assinados em dias consecutivos da feira. Segundo nota publicada pela própria Imbel, a renovação do acordo com a Safran ocorreu na quarta-feira, 17 de junho. Já a assinatura do MoU com a KNDS, na quinta-feira, 18 de junho, foi confirmada pela Adidância de Defesa da França no Brasil, que descreveu a iniciativa como parte da relação estratégica de defesa entre os dois países. Essa mesma formulação foi posteriormente replicada em publicações institucionais da própria KNDS e da conta diplomática francesa no Brasil, o que indica um texto padronizado, acordado entre as partes, para a divulgação pública do acordo.

O documento com a KNDS foi assinado pelo diretor-presidente da Imbel, general de divisão R1 Ricardo Rodrigues Canhaci. Segundo a Imbel, a parceria busca fortalecer a cooperação industrial entre as empresas e os dois países, e estudar as condições para a transferência de capacidades de produção de munições para o Brasil.

Já a renovação com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil, voltada à integração de sistemas de controle e direção de tiro para a Arma de Artilharia, com foco em apoio à promoção comercial e em ampliação de oportunidades no mercado internacional, foi firmada pelo CEO da Safran Eletrônica & Defesa Brasil, David Montmasson, e pelo mesmo general Canhaci. Segundo a Imbel, a cerimônia contou ainda com a presença dos diretores Comercial, de Inovação e Industrial da empresa brasileira, e do Sr. Benjamin Faget, vice-presidente de Sistemas Optrônicos da Safran Electronics & Defense.

Munições de 105mm, 155mm e 120mm
Para a Imbel, a parceria garantiria a transferência de tecnologia para a produção de munições de artilharia de 105mm e 155mm, em padrão Otan e com alcance estendido, além de munição de 120mm para carros de combate. Uma das capacidades pretendidas é a produção local, em padrão Nato/Otan, de munições dotadas da tecnologia base bleed, recurso que amplia em pelo menos um terço o alcance total do tiro.

Já para a KNDS, o acordo facilita a importação de componentes e matérias-primas do Brasil, com potencial, no longo prazo, para que munições com a marca da própria KNDS sejam fabricadas e exportadas a partir do território brasileiro. Entre os produtos do portfólio da empresa citados como referência estão a munição de 155mm de alcance estendido LU 211 BB e a nova munição cinética de 120mm SHARD.

O acordo visa tanto o mercado interno (Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais) quanto os mercados de exportação, que atualmente registram forte demanda por munições de artilharia modernas. Um dos antecedentes que pavimentaram a assinatura foi a inauguração, em 10 de julho de 2025, na unidade de Juiz de Fora (MG), de uma nova planta de carregamento de munições pesadas com maquinário atualizado, uma das cinco fábricas que compõem a estrutura da Imbel. A data precisa da inauguração é confirmada pelo próprio site institucional da Imbel; reportagens de terceiros chegaram a situar o episódio em setembro de 2025.

O nexo com o offset do Centauro II
A munição de 120mm para uso no blindado Centauro II é resultado do offset (compensação industrial) acordado após a aquisição da viatura blindada de combate de cavalaria média sobre rodas (VBC Cav) 8x8. Em um primeiro momento, devem ser incluídas munições de treinamento dos tipos HEAT-T e HESH-T, respectivamente, alto explosivo de carga oca e alto explosivo de carga moldada, ambas traçantes.

Chama atenção a cronologia do processo: o Exército Brasileiro ainda não assinou o contrato de aquisição do primeiro lote de blindados 8x8, estimado em sete exemplares, mas já trabalha para receber o offset da munição de 120mm. Atualmente, a Força opera apenas as duas unidades do lote de avaliação, entregues entre agosto e setembro de 2024. A previsão é de uma aquisição total de até 98 exemplares, com entregas planejadas entre 2028 e 2033.

Uma parceria renovada, outra inédita
Diferentemente do memorando com a KNDS, descrito pelas partes como uma nova etapa de cooperação, o MoU entre Imbel e Safran é a renovação de uma parceria de longa data. Há registro de memorandos anteriores entre as duas empresas firmados em 2017 e em dezembro de 2020, este último também assinado por David Montmasson, então diretor-geral da Safran Eletrônica & Defesa Brasil.

A relação foi novamente renovada em dezembro de 2024, durante a 8ª Mostra BID Brasil, com a assinatura dos mesmos representantes que voltaram a firmar o acordo na Eurosatory 2026: Montmasson e o general Canhaci. Entre os resultados já colhidos dessa cooperação está a integração do sistema Gênesis de artilharia, da Imbel, a sensores e equipamentos óticos e inerciais da Safran, usada inclusive em viaturas blindadas Guarani e Cascavel.

IMBEL e Safran

Confirmações institucionais convergentes
A assinatura do MoU com a KNDS foi confirmada, com o mesmo texto padronizado, em pelo menos três canais distintos: a conta institucional da Adidância de Defesa da França no Brasil no Instagram, a página da KNDS France no LinkedIn e a cobertura jornalística especializada. Em sua publicação, a KNDS descreveu o acordo como mais uma ilustração de seu compromisso em construir parcerias de longo prazo com aliados e parceiros estratégicos, enquadrando a cooperação brasileira dentro de uma estratégia global da companhia.

Até a conclusão desta reportagem, o site institucional da Imbel havia publicado nota própria e detalhada sobre a renovação com a Safran, mas nenhuma nota equivalente sobre o conteúdo técnico do MoU com a KNDS. A própria KNDS também não havia detalhado o acordo em seus canais corporativos além da publicação padronizada no LinkedIn, o que reforça o caráter ainda preliminar do memorando, que tem natureza de intenção, não de contrato vinculante.

O pano de fundo: a reestruturação acionária da KNDS
O MoU com a Imbel foi assinado num momento de transformação societária da própria KNDS. Em 22 de junho, os governos da Alemanha e da França anunciaram acordo para que Berlim adquira uma participação de 40% na empresa, hoje detida em 50% pelo Estado francês e em 50% pela família alemã controladora da antiga Krauss-Maffei Wegmann (KMW), cuja saída planejada abriu espaço para a entrada do governo alemão.

Segundo apurou a agência Reuters, a operação avalia a KNDS entre 15 bilhões e 18 bilhões de euros, e a Alemanha também busca obter uma “ação de ouro” na unidade alemã da empresa, o que lhe daria influência ampliada sobre decisões de pessoal e estratégicas, garantindo equilíbrio de poder entre Paris e Berlim. O acordo abre caminho para uma oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris, na qual, segundo o CEO da KNDS, Jean-Paul Alary, os acionistas privados venderão 20% do capital, enquanto os Estados francês e alemão deterão 40% cada um.

A movimentação ocorre poucos dias depois de Berlim e Paris cancelarem oficialmente o programa conjunto do caça de nova geração FCAS, por divergências sobre divisão de trabalho e propriedade intelectual entre as empresas dos dois países. O contraste é relevante: enquanto um programa bilateral de defesa colapsa, a cooperação industrial entre os dois países se reorganiza por outra via, a da própria estrutura acionária da KNDS, que se posiciona como uma das principais referências globais do setor de defesa terrestre.

Notas da editoria
O memorando de entendimento entre Imbel e KNDS é, por definição, um instrumento não vinculante. As próprias partes descrevem o objetivo como “estudar as condições” para a transferência de capacidades de produção, não como o início efetivo dessa transferência. Esta editoria tratará eventuais avanços contratuais, prazos e valores como fatos novos, a serem apurados separadamente.

A reestruturação acionária da KNDS é um processo institucional em andamento, sem relação contratual direta com o MoU brasileiro; sua menção tem caráter de contexto, para situar o momento em que a cooperação com o Brasil foi firmada.

Postagem em destaque