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30 outubro, 2026

LINK-BR2 cumpre primeiro voo de certificação e recebe alvos do E-99M em Canoas

Campanha IRIS 2026, encerrada nesta sexta-feira (30), leva o enlace de dados da FAB à etapa decisiva; segundo o DCTA, a integração a outras aeronaves será planejada após a certificação



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LRCA Defense Consulting - 30/10/2026 - 10h00

O LINK-BR2, sistema de enlace de dados táticos da Força Aérea Brasileira (FAB), realizou em 20 de outubro seu primeiro voo de certificação. A missão ocorreu na Base Aérea de Canoas (BACO), no Rio Grande do Sul, durante a Campanha IRIS 2026, realizada de 19 a 30 de outubro. Segundo a FAB, que divulgou os resultados na quinta-feira (29), o sistema foi submetido a uma extensa lista de verificações e alcançou resultados expressivos, num voo classificado pela Força como marco decisivo para o projeto. O objetivo da campanha é certificar o 
LINK-BR2 para uso operacional.

Alvos do avião-radar na cabine dos caças 
Em 27 de outubro, um segundo voo verificou a integração do 
LINK-BR2 com o avião de alerta aéreo antecipado E-99M. Na ocasião, os caças F-5M receberam com sucesso os alvos detectados pelo radar da aeronave. A campanha empregou três F-5M e um E-99M. A ligação entre os caças e o avião-radar já havia sido utilizada no Exercício Conjunto Escudo-Tínia 2026, em maio, em Anápolis (GO); agora, passou por verificação formal, etapa exigida para a certificação.

Quem conduz os ensaios 
A campanha é conduzida pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e reúne a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), pilotos de prova do Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV), engenheiros do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI), militares do Primeiro Esquadrão do Décimo Quarto Grupo de Aviação (1º/14º GAV), o Esquadrão Pampa, da BACO e do Comando de Preparo (Comprep), além de engenheiros e técnicos da AEL Sistemas, desenvolvedora do sistema. 


Certificação antes das novas plataformas 
O Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, acompanhou parte dos ensaios na sala de controle da BACO. "Os resultados evidenciam o nível de maturidade do Sistema LINK-BR2, que avança mais um passo para certificação e, a partir daí, permitir o planejamento para integração em outras plataformas e sistemas da Força Aérea Brasileira", afirmou.

A declaração estabelece uma sequência: primeiro a certificação, depois o planejamento da expansão. Como a LRCA mostrou em 26 de outubro, a integração ao caça F-39 Gripen e ao cargueiro KC-390 Millennium está, até aqui, na fase de workshops técnicos, realizados com a Saab em julho e dezembro de 2025 e com a Embraer em março de 2026. A meta do DCTA é concluir o desenvolvimento do 
LINK-BR2 até dezembro de 2026. A certificação formal ainda não foi anunciada.

Um programa de 14 anos 

O contrato do 
LINK-BR2 foi assinado em dezembro de 2012 com a Mectron, no valor de R$ 193 milhões, e previa o sistema instalado até 2016 em quatro F-5M, quatro A-29 e dois E-99. Após o encerramento da Mectron, em 2017, o programa passou à AEL Sistemas, de Porto Alegre, responsável pelo núcleo do sistema. O voo de 20 de outubro é o primeiro passo oficial para que o enlace deixe a fase de desenvolvimento e entre em serviço na FAB.

26 outubro, 2026

Link-BR2: o enlace de dados prometido para 2016 busca a certificação no fim de 2026

Campanha IRIS 2026 tenta encerrar os ensaios no F-5M, enquanto FAB, AEL Sistemas, Saab e Embraer preparam a chegada do sistema ao Gripen e ao KC-390 



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LRCA Defense Consulting - 26/10/2026 - 20h10 (atualizado em 27/10 às 15h36)

O Link-BR2, sistema brasileiro de enlace de dados táticos que permite a aeronaves, sensores e centros de comando e controle compartilhar informações com segurança, chega ao fim de 2026 diante de uma prova decisiva. Na Base Aérea de Canoas (RS), a Operação IRIS 2026 busca concluir, no caça F-5M, os requisitos de certificação que ficaram pendentes na campanha anterior. Ao mesmo tempo, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a indústria preparam a integração do sistema ao F-39 Gripen e ao KC-390 Millennium, plataformas que permanecerão em serviço por décadas.

Em publicação no LinkedIn, o Tenente-Coronel Mattos Brito, gerente técnico do projeto na FAB e coordenador-geral da operação, classificou como positivos os resultados preliminares e informou que os dados subsidiarão decisões do Alto Comando da Aeronáutica. A certificação definitiva, porém, ainda não foi anunciada. O planejamento do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) fixa dezembro de 2026 como meta para encerrar os ensaios de certificação e a integração final dos sistemas de solo e voo.

Um prazo que avançou uma década 
O contrato foi assinado em 6 de dezembro de 2012 entre a FAB e a Mectron, de São José dos Campos (SP), com valor divulgado de R$ 193 milhões. O cronograma original previa que, até 2016, o sistema estivesse instalado em quatro F-5M, quatro A-29 e dois E-99, além de estações em solo, inclusive para uso do Exército e da Marinha. A meta atual registrada pela FAB, de dez Rádios Terminais Data Link (RTDL), corresponde numericamente ao total de aeronaves previsto naquele cronograma.

A busca por uma rede única é anterior ao contrato. A FAB já operava o Link-BR1, que ligava os aviões E/R-99 às estações do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), e o A-1 modernizado recebeu uma primeira versão do Link-BR2. O contrato de 2012 visava a uma versão com capacidades adicionais, capaz de unificar enlaces até então restritos a aeronaves específicas e de trocar dados com a versão instalada no A-1.

Da Mectron à AEL Sistemas 
O atraso tem origem conhecida. A partir de 2015, a Operação Lava Jato atingiu o grupo Odebrecht, controlador da Mectron, que encerrou suas atividades em 2017, deixando inconclusos também programas de mísseis da FAB. Segundo relato publicado pela DefesaNet, o contrato foi então dividido, e a parcela da Mectron foi transferida à AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, durante a gestão do Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Rossato no Comando da Aeronáutica (2015-2019).

Sob a AEL, sediada em Porto Alegre (RS), os ensaios avançaram. Os primeiros voos com o sistema embarcado no F-5M ocorreram em 2020; em outubro de 2021, dois caças trocaram dados entre si. Em janeiro de 2022, a empresa concluiu, a bordo de dois F-5M, ensaios de integração do rádio definido por software E-LynX, da Elbit, que serve de transmissor ao sistema. Em outubro de 2024, os voos passaram a contar, pela primeira vez, com soluções embarcadas de criptografia e cibersegurança da Kryptus, de Campinas (SP). Na mesma ocasião, a AEL anunciou que o sistema estava em fase final de integração com o Gripen, em parceria com a Saab. Dois anos depois, essa integração ainda está na etapa de workshops técnicos.


As campanhas IRIS 
A campanha IRIS 2025 durou 20 dias, com atividades em solo e em voo. Segundo Mattos Brito, os resultados indicavam atendimento à maior parte dos requisitos da FAB, mas ainda exigiam redução e análise detalhada dos dados. A IRIS 2026 retoma parte dessas verificações e demonstra funcionalidades adicionais. A página de projetos estratégicos da FAB registra seis dos dez rádios previstos já recebidos, com previsão de atualização dos dois primeiros, além de 67,74% das etapas contratuais executadas. 

Visita do Diretor-Geral do DCTA e o Presidente da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), organizações da Força Aérea Brasileira - FAB, na Operação IRIS 2026

Rumo ao Gripen e ao KC-390 
O F-5M foi a principal plataforma de ensaios do Link-BR2, mas está na fase final de sua carreira na FAB. Preservar o investimento depende de levar o enlace às aeronaves que o substituem. A preparação para o Gripen ocorreu em duas etapas. De 22 a 24 de julho de 2025, o Laboratório de Guerra Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, sediou um workshop com militares da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), do Comando de Preparo (Comprep), do 1º Grupo de Defesa Aérea e do DCTA. Entre 2 e 4 de dezembro de 2025, representantes da Saab, da AEL Sistemas e da FAB voltaram a se reunir, desta vez no 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis (GO), conforme relatou Mattos Brito, que participou do encontro.

A segunda frente envolve o cargueiro da Embraer. Um workshop de dois dias, encerrado em 24 de março de 2026 no DCTA (foto abaixo), reuniu Embraer e AEL Sistemas para alinhar os requisitos de integração do Link-BR2 ao KC-390, segundo publicação de Mattos Brito. A inclusão da aeronave amplia o alcance do enlace para além da aviação de caça. Cronograma de integração, quantidade de equipamentos e resultados de ensaios no KC-390, contudo, ainda não foram divulgados. 


Interoperabilidade em exercício 

O emprego mais visível ocorreu no Exercício Conjunto Escudo-Tínia 2026, realizado de 11 a 29 de maio na Base Aérea de Anápolis, pela primeira vez fora do Rio Grande do Sul. O Link-BR2 conectou caças F-5M a dados do avião de alerta aéreo antecipado E-99M, de radares de solo e de estruturas de comando e controle, num cenário com meios da Marinha e do Exército. Em ensaios anteriores, a partir do rebocador de alto-mar Tritão, em Rio Grande (RS), militares da Marinha trocaram mensagens táticas com a estação do Link-BR2 em Canoas, por meio do enlace naval Sterna (Sistema Tático de Enlace de Radiofrequência Naval), do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), e do processador de dados MDLP, do Centro de Análises de Sistemas Navais (Casnav).

O valor militar de uma rede tática está em distribuir posições e dados de sensores entre participantes autorizados, reduzindo a dependência de relatos por voz e acelerando decisões coordenadas. A extensão dessa vantagem dependerá da cobertura, da segurança e da integração certificada em cada meio. 

Engenharia nacional no núcleo da rede. Radar de exportação (item atualizado)
O Link-BR2 costuma ser apresentado como símbolo de autonomia tecnológica, e a arquitetura do sistema ajuda a medir até onde essa leitura procede. O transmissor de radiofrequência pertence à família E-LynX, de rádios definidos por software da Elbit Systems, controladora da AEL. Segundo apurou a LRCA, porém, o núcleo do sistema, a unidade acoplada ao rádio que funciona como o "cérebro" do enlace, foi desenvolvido integralmente pela AEL Sistemas, em Porto Alegre, tanto em hardware quanto em software. Sem esse componente, o Link-BR2 não existe. A única exceção no desenvolvimento é a criptografia, a cargo da Kryptus, de Campinas (SP).

A divisão importa. O elemento que dá identidade ao Link-BR2 é de engenharia brasileira, enquanto o transmissor é de projeto estrangeiro. Permanece no horizonte, como risco hipotético, um eventual veto político brasileiro a fornecedores israelenses, discutido no setor de defesa; nesse cenário, a exposição recairia sobre o rádio, e não sobre o núcleo do sistema. O grau efetivo de autonomia depende ainda da titularidade da propriedade intelectual, tema que não foi tornado público.

O sistema também entrou no radar da exportação. Durante a feira FIDAE 2026, no Chile, a Alada (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil) firmou memorando de entendimento com a AEL Sistemas para ofertas de governo a governo (G2G) que incluem o Link-BR2.

Da certificação à capacidade permanente 
O desafio não se limita a encerrar os ensaios do F-5M. Trata-se de transformar o Link-BR2 em capacidade sustentável, com integração progressiva às plataformas atuais e futuras, formação de operadores, suporte logístico, atualização tecnológica e governança de uma rede compartilhada pelas três Forças. Catorze anos após o contrato e dez anos após o prazo original, a medida do sucesso será a passagem das demonstrações para uma rede certificada, sustentada e efetivamente disseminada nas Forças Armadas.

24 outubro, 2026

Defender funções essenciais, não o mapa: o dilema antiaéreo de um país continental

A experiência da guerra na Ucrânia mostra que o Brasil não poderá proteger cada ponto do território e que a concentração de estruturas vitais junto ao litoral amplia a exposição a mísseis e sistemas não tripulados 


*LRCA Defense Consulting - 24/10/2026 - 07h56

A destruição de instalações militares e industriais em Taganrog, no sul da Rússia, no mês passado, voltou a expor um dos dilemas centrais da guerra contemporânea: nenhum país, por maior que seja sua capacidade militar, consegue manter uma defesa antiaérea densa sobre todo o seu território. Quanto mais extensa for a área a proteger e mais numerosos forem os objetivos estratégicos, maior será a necessidade de escolher prioridades.

Segundo informações divulgadas por fontes ucranianas e reproduzidas por analistas que acompanham a guerra, os ataques realizados em 07, 12 e 15 de setembro de 2026 atingiram instalações de produção e armazenamento da Atlant Aero, fabricante dos drones de ataque e reconhecimento Molniya e de componentes para o Orion, além de um depósito de combustível no aeródromo de Taganrog Severny. Relatos russos também atribuíram à operação a destruição de um Pantsir-S1 e afirmaram que a cidade teria ficado sem sistemas operacionais Pantsir e S-300/S-400.

Essa última afirmação ainda não foi confirmada de forma independente e deve ser tratada com cautela. O ponto estratégico, entretanto, permanece válido. A Atlant Aero tornou-se um alvo recorrente: a fábrica já havia sido atacada em janeiro pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e pela Marinha ucraniana e, em 19 de abril, por mísseis de cruzeiro Neptune, que destruíram dois prédios de produção e danificaram outros quatro, segundo o Estado-Maior ucraniano. Em junho, o grupo guerrilheiro Atesh alegou ter sabotado a subestação que abastecia a planta. A Ucrânia vem combinando ataques contra radares, lançadores e posições antiaéreas com operações posteriores contra refinarias, aeródromos, depósitos, centros logísticos e fábricas. Em vez de tentar atravessar indefinidamente uma defesa intacta, procura degradá-la, obrigá-la a se deslocar e criar corredores temporários para novos ataques.

A extensão territorial também pode ser uma vulnerabilidade 
A Rússia possui o maior território do mundo e uma das mais numerosas estruturas de defesa antiaérea. Mesmo assim, não consegue proteger simultaneamente a frente de combate, bases aéreas, instalações navais, refinarias, fábricas de armamentos, depósitos, centros logísticos e cidades localizadas a centenas ou milhares de quilômetros da Ucrânia.

A abundância de possíveis alvos favorece o atacante. Cada bateria deslocada para proteger uma refinaria deixa de cobrir outro objetivo. Cada radar que liga seus emissores melhora a vigilância, mas também pode revelar sua posição. Cada míssil de alto desempenho empregado contra um veículo aéreo não tripulado barato reduz um estoque difícil e demorado de repor.

Para o Brasil, a questão assume proporções semelhantes. O País possui cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, extensa fronteira terrestre, amplo litoral e infraestruturas críticas distribuídas por áreas muito afastadas. Usinas, refinarias, terminais de combustíveis, portos, aeroportos, bases militares, centros de comunicações e empresas da Base Industrial de Defesa formam uma rede impossível de cobrir continuamente com baterias de mísseis.

Um país continental com o poder concentrado junto ao litoral 

A extensão do território brasileiro pode transmitir uma percepção enganosa de profundidade estratégica. O País é continental, mas parcela expressiva de sua população, de sua economia e de suas infraestruturas está concentrada em corredores próximos ao Atlântico. Estudo publicado pelo Ipea, ao considerar uma faixa de 150 quilômetros a partir da linha de costa, apontou que os municípios nela situados reuniam aproximadamente 62,4% da população e do Produto Interno Bruto nacional em 2016.

A concentração é particularmente relevante no Sudeste. O eixo formado pelo Rio de Janeiro, por São Paulo e pela retaguarda industrial de Campinas e São José dos Campos reúne portos, refinarias, terminais petrolíferos, aeroportos, bases militares, centros de pesquisa, instalações nucleares, redes de comunicações e empresas da Base Industrial de Defesa. Outros agrupamentos importantes aparecem ao longo do litoral das regiões Sul, Nordeste e Norte.

A dependência marítima amplia a vulnerabilidade. Segundo a Marinha do Brasil, aproximadamente 95% do petróleo e 80% do gás natural produzidos no País são retirados do mar, enquanto mais de 95% do comércio exterior brasileiro utiliza rotas marítimas. Plataformas, terminais, navios, cabos submarinos e acessos portuários integram, portanto, o mesmo sistema que sustenta a infraestrutura instalada em terra.

O alcance começa muito além do horizonte 

A proximidade do litoral não deve ser entendida apenas como distância visual da costa. Armas lançadas por navios e submarinos podem atingir objetivos situados centenas de quilômetros no interior. O Tomahawk Block IV e V, empregado pela Marinha dos Estados Unidos, possui alcance divulgado de aproximadamente 1.600 quilômetros. O número não descreve uma ameaça específica ao Brasil, mas demonstra o alcance já disponível entre diferentes potências.

Uma força naval não precisaria aproximar seus meios mais valiosos da costa para ameaçar grande parte das concentrações brasileiras. Mísseis de cruzeiro podem voar em baixa altura, explorar o relevo e aproximar-se por rotas menos esperadas. A defesa passaria a exigir vigilância marítima e aeroespacial muito além do litoral, acompanhada da capacidade de localizar as plataformas lançadoras e de interceptar os vetores antes que alcancem as áreas densamente ocupadas.

O problema também existe na escala oposta. Pequenos sistemas não tripulados poderiam ser lançados de embarcações civis, contêineres, áreas urbanas ou propriedades próximas ao objetivo. Nesse caso, surgiriam abaixo do horizonte dos grandes radares ou já dentro do alcance mínimo de determinados sistemas de defesa. A ameaça de longo alcance e o ataque iniciado nas proximidades podem coexistir, obrigando o defensor a observar simultaneamente o mar distante e o entorno imediato de cada instalação.

Nem todos os objetivos estão na faixa costeira 

A litoralização não elimina a importância do interior. Brasília, Itaipu, grandes hidrelétricas, corredores de transmissão, aeródromos, instalações militares, centros logísticos e estruturas do SISFRON continuariam entre os objetivos prioritários. Alguns estariam fora do alcance de armas mais curtas, mas não necessariamente de drones e mísseis de cruzeiro modernos. A seleção das áreas a proteger teria de considerar alcance, rota, consequências da perda e possibilidade de recuperação, e não apenas a distância até o oceano.

Defesa antiaérea, defesa marítima e infraestrutura formam um único problema 
A concentração costeira torna insuficiente uma resposta limitada às baterias posicionadas ao redor dos alvos. A defesa deveria começar mar adentro, com inteligência, satélites, submarinos, navios, aeronaves de patrulha e sensores capazes de acompanhar atividades anormais na Amazônia Azul. Prosseguiria com alerta aéreo, caças e sistemas antiaéreos e terminaria junto às instalações, onde sensores locais, guerra eletrônica, canhões, metralhadoras, mísseis leves e interceptadores enfrentariam ameaças de baixa assinatura.

Essa integração também permitiria agir sobre a cadeia do ataque. Interceptar o míssil ou o sistema não tripulado é a última oportunidade. Antes dela, o País pode identificar a preparação, acompanhar a plataforma lançadora, desorganizar seus enlaces, alterar o posicionamento dos meios e dispersar os recursos que constituiriam os alvos. Quanto mais cedo ocorrer a detecção, maior será o número de respostas disponíveis.

O Brasil possui vigilância, mas ainda não tem todas as camadas 

A defesa aeroespacial brasileira não começa do zero. O Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro, coordenado pelo Comando de Operações Aeroespaciais, integra meios de detecção, comando, controle e emprego das Forças Armadas. A FAB dispõe de radares, aeronaves de alerta aéreo antecipado e caças, enquanto o Exército e a Marinha mantêm unidades e sistemas destinados à defesa antiaérea de forças e instalações.

O problema está na densidade, na distribuição e no alcance dos meios. O Exército possui sistemas de baixa altura, como o RBS 70 e o Gepard 1A2. Esses equipamentos conservam utilidade contra determinados alvos, sobretudo quando conectados a sensores externos e a uma estrutura eficiente de comando e controle. Entretanto, não constituem uma defesa nacional completa contra aeronaves, mísseis de cruzeiro, drones, munições vagantes e diferentes categorias de sistemas aéreos não tripulados.

A seleção do EMADS, com o míssil CAMM-ER, para o projeto brasileiro de defesa antiaérea de média altura e médio alcance representa um passo importante para preencher essa lacuna. Mesmo quando incorporado, porém, o novo sistema não formará uma cobertura contínua sobre o País. O número inicial de unidades deverá obrigar o planejamento a concentrá-las nos objetivos de maior importância militar e estratégica.

Na detecção, o radar nacional SABER M200 Vigilante, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e ainda em avaliação no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), identificou sistemas aéreos não tripulados de Categoria 0 a distâncias de até oito quilômetros durante o exercício Sagitta Primus 2026, resultado já destacado pelo portal LRCA Defense Consulting. É uma evolução relevante, mas também evidencia a complexidade do problema: o mesmo radar alcança cerca de 200 quilômetros contra aeronaves e mísseis. Pequenos aparelhos, com baixa assinatura e voando junto ao relevo ou em áreas urbanas, exigem uma malha de sensores muito mais próxima dos objetivos do que a necessária para acompanhar aeronaves convencionais.

Não se defende o mapa, defendem-se funções essenciais 

A resposta brasileira não deveria buscar uma cobertura homogênea do território. O primeiro passo seria elaborar uma lista dinâmica de objetivos cuja perda pudesse comprometer a continuidade da defesa, do governo, da economia ou dos serviços essenciais. O critério principal não seria apenas o valor físico da instalação, mas o efeito sistêmico provocado por sua interrupção.

Nesse nível estariam os centros de comando e controle, radares, bases aéreas e navais, depósitos de munição, instalações nucleares, refinarias, terminais de combustíveis, grandes subestações, centros de operação do sistema elétrico, portos e aeroportos essenciais, estações de comunicações, centros de dados e instalações da indústria de defesa. A localização e a proteção de rotas, pontes e entroncamentos logísticos também dependeriam do cenário de ameaça.

A campanha dos Houthis contra a Arábia Saudita, travada sobretudo entre 2015 e 2022, acrescenta uma distinção importante: um adversário não precisa conquistar superioridade aérea para produzir efeitos estratégicos. Ataques episódicos contra aeroportos, refinarias, portos e corredores logísticos podem obrigar o defensor a suspender operações, mobilizar recursos e modificar rotinas econômicas, mesmo quando grande parte dos vetores é interceptada. Por isso, penetração tática, interrupção operacional e sucesso estratégico não devem ser confundidos. Poucos impactos podem ser suficientes para paralisar uma função essencial.

A lista não poderia ser fixa. Em uma crise na Amazônia, determinados aeródromos, rios, centros logísticos e instalações do SISFRON ganhariam prioridade. Diante de uma ameaça pelo Atlântico, portos, bases navais, refinarias costeiras e instalações de vigilância marítima assumiriam maior importância. A defesa precisaria deslocar-se conforme a situação, preservando incerteza para o adversário.

Uma arquitetura brasileira contra sistemas não tripulados 

A defesa deveria começar por uma rede nacional de alerta, reunindo os radares das Forças Armadas, os sensores do SISFRON, a vigilância de aeroportos, a inteligência eletrônica, imagens de satélite e informações de órgãos civis. Essa visão comum teria de alimentar centros de comando capazes de identificar a ameaça, determinar o objetivo provável e escolher o meio de resposta adequado.

Ao redor dos pontos vitais seriam estabelecidas defesas locais em camadas. Os sistemas de médio alcance enfrentariam aeronaves, mísseis de cruzeiro e ameaças de maior desempenho. Armas de curto alcance, canhões, mísseis portáteis, sensores eletro-ópticos, bloqueadores, drones interceptadores e, futuramente, sistemas de energia dirigida formariam a camada contra alvos menores e mais numerosos.

A defesa em camadas também teria de acompanhar as forças em campanha. A experiência da 147ª Brigada de Artilharia ucraniana mostra a combinação de guerra eletrônica, drones interceptadores e torres de combate remotamente operadas para proteger posições de tiro, munições, logística e centros de comando. A presença desses diferentes meios não comprova, por si só, que estejam integrados a uma única cadeia de sensores e comando e controle, mas indica que brigadas de artilharia e outras grandes unidades precisarão dispor de proteção orgânica, móvel e compatível com seu ritmo de operação contra sistemas não tripulados.

A saturação como método 
A ofensiva ucraniana de 20 de setembro de 2026 acrescentou outra advertência. O ataque contra Moscou e diferentes regiões russas combinou mais de mil sistemas não tripulados com armas de outros perfis, entre elas o míssil de cruzeiro FP-5 Flamingo e o novo FP-7 Pelican, apresentado como míssil balístico. A refinaria de petróleo de Moscou foi atingida durante a operação. Embora o emprego dos novos armamentos tenha sido anunciado pelo governo ucraniano, a atribuição de cada impacto a um vetor específico ainda não pôde ser confirmada de maneira independente.

A operação demonstrou que uma defesa territorial pode ter de enfrentar simultaneamente aparelhos lentos e baratos, mísseis voando a baixa altura e vetores de trajetória balística, lançados em grande quantidade e por diferentes direções. Para o Brasil, essa combinação reforça a necessidade de integrar sensores e interceptadores de várias categorias. Nenhum sistema isolado possui capacidade ou munição suficiente para responder economicamente a todos esses alvos.

Ataques compostos por vetores de diferentes velocidades, assinaturas e perfis de voo não saturam apenas os lançadores. Eles pressionam toda a cadeia defensiva: detecção, acompanhamento, classificação, distribuição de alvos, escolha do armamento e autorização de fogo. Cada engajamento consome tempo, atenção, canais de controle e munição, enquanto uma classificação equivocada pode deixar o sistema mal posicionado diante do vetor seguinte. Por isso, a eficácia de uma defesa aérea não deve ser avaliada pela quantidade de disparos realizados, mas pela parcela do ataque que ela impede de alcançar funções essenciais.

A economia de combate seria decisiva, mas não poderia ser reduzida à comparação entre o preço do vetor atacante e o do interceptador. O cálculo precisaria considerar a probabilidade de neutralização, a disponibilidade dos sistemas, o pessoal necessário, a manutenção, o consumo de munição, os riscos para terceiros e o valor da função protegida.

Empregar um míssil caro pode ser racional para impedir a paralisação de uma refinaria, de um aeroporto ou de uma instalação nuclear. Contra ameaças menos complexas, entretanto, a interferência eletrônica, canhões com munição programável, drones interceptadores ou mísseis leves ofereceriam respostas mais sustentáveis. A defesa deveria empregar o recurso de menor custo que proporcionasse a confiabilidade exigida em cada situação, preservando os interceptadores mais sofisticados para os alvos que realmente os demandassem.



A defesa terminal como infraestrutura 

A experiência ucraniana aponta para a transformação da defesa terminal em infraestrutura permanente. Em outubro de 2026, o presidente Volodymyr Zelensky informou que mais de 12 módulos automatizados já haviam sido posicionados em Kiev e que outros oito, equipados com metralhadoras calibre .50, estavam sendo instalados na região da capital. Diferentemente dos grupos de fogo móveis, essas posições podem permanecer junto a pontes, subestações e outros objetivos previsíveis, prontas para reagir quando o ataque começa.

Essa característica ganha importância diante dos drones a jato, cuja velocidade reduz drasticamente o tempo disponível para detectar, classificar, acompanhar e engajar o alvo. Segundo o porta-voz da Força Aérea ucraniana, Yurii Ihnat, os módulos instalados em Kiev são do sistema Sky Sentinel, desenvolvido pela Carmine Sky, que utiliza visão computacional e inteligência artificial para detectar e acompanhar ameaças. A torre reconhece e segue o alvo sozinha, mas a autorização para abrir fogo permanece humana: o operador, que pode estar a centenas de quilômetros, confirma o disparo, subordinado ao comando da defesa aérea. Cada unidade custa cerca de US$ 150 mil, valor muito inferior ao de grande parte dos mísseis interceptadores, e estima-se que de 10 a 30 sistemas seriam necessários para proteger uma cidade.

Para o Brasil, determinados pontos críticos poderiam receber posições automatizadas permanentes, integradas a sensores locais e ao sistema de comando e controle. Elas não substituiriam unidades móveis, mísseis ou aeronaves, mas constituiriam uma camada terminal relativamente econômica para proteger instalações conhecidas e cuja perda produziria efeitos sistêmicos.

Essa arquitetura também necessitaria de unidades móveis de reserva. Em vez de distribuir permanentemente poucos meios por dezenas de pontos, o País poderia manter grupos capazes de reforçar rapidamente as áreas ameaçadas. Exercícios periódicos seriam essenciais para testar o deslocamento, a integração com autoridades civis e a defesa de instalações que normalmente não possuem presença militar.

Proteção passiva e capacidade de recuperação 

A experiência ucraniana mostra que a interceptação é apenas uma parte da defesa. Aeronaves expostas, grandes depósitos, tanques de combustível concentrados e centros de comando instalados em um único local transformam um impacto bem-sucedido em perda desproporcional.

O Brasil precisaria investir em dispersão, abrigos reforçados, compartimentação de estoques, redundância de comunicações, geradores, instalações alternativas e equipes treinadas para reparar rapidamente pistas, redes elétricas e sistemas de combustível. Camuflagem, controle das emissões eletromagnéticas, posições falsas e simulacros ajudariam a consumir munições inimigas e dificultar a seleção de alvos.

O objetivo realista não seria impedir todos os impactos, mas evitar que poucos deles paralisassem uma função essencial. Uma refinaria protegida, mas sem capacidade de combater incêndios e recuperar seus sistemas, continuaria vulnerável. Uma base aérea com mísseis antiaéreos, mas com aeronaves estacionadas sem abrigo e combustível concentrado, ainda ofereceria ao adversário uma oportunidade de alto valor. Os exercícios, portanto, não deveriam terminar com a interceptação simulada. Precisariam testar combate a incêndios, atendimento médico, avaliação de danos, reparos emergenciais, comunicações alternativas e a autoridade responsável por decidir quando uma instalação poderia retomar suas operações.

Uma nova indústria de proteção física 
Assim como a ameaça de mísseis estimulou a construção de abrigos reforçados, a disseminação dos drones poderá criar um mercado de estruturas leves, modulares e relativamente baratas, destinadas a cobrir áreas extensas e preservar os componentes mais vulneráveis de instalações militares e industriais. Redes, malhas, cabos, pórticos, ancoragens e módulos substituíveis após impactos precisariam combinar resistência, baixo peso, durabilidade e custo compatível com a área protegida.

Essas barreiras não substituiriam a defesa ativa. Poderiam deter ou desestabilizar determinados aparelhos, provocar a detonação antecipada da carga ou aumentar a distância entre a explosão e o equipamento protegido. Seu emprego exigiria critérios técnicos e ensaios contra diferentes massas, velocidades e ogivas, além de cuidados para não comprometer ventilação, manutenção, rotas de emergência e combate a incêndios. A defesa contra sistemas não tripulados poderá, dessa forma, modificar não apenas os arsenais, mas também a engenharia das infraestruturas críticas.

A Base Industrial de Defesa como parte da proteção 
Uma campanha prolongada consumiria radares, munições, componentes eletrônicos e interceptadores em grande escala. Por isso, a proteção do território dependeria tanto das unidades operacionais quanto da capacidade de fabricar e repor os meios utilizados.

O Brasil reúne competências importantes em radares, comunicações, aeronaves, mísseis, foguetes, veículos, munições, sistemas não tripulados, materiais e estruturas metálicas. O desafio é transformar projetos isolados em uma arquitetura integrada e em linhas de produção com escala. A aquisição externa pode preencher lacunas urgentes, mas deveria incorporar manutenção no País, estoques adequados, transferência de conhecimento e participação efetiva da indústria nacional.

A experiência ucraniana demonstra ainda a possibilidade de mobilizar empresas e recursos privados para ampliar a proteção local. A UNITED24 arrecadou US$ 3,3 milhões para adquirir 22 sistemas Sky Sentinel. Além disso, a Resolução nº 699, anunciada pelo governo ucraniano em 2 de março de 2026, permitiu que empresas de infraestrutura crítica formassem grupos próprios de defesa aérea, recebessem armas cedidas temporariamente pelas Forças Armadas e operassem sob o comando unificado da Força Aérea, desde que treinadas e certificadas pelo Ministério da Defesa. O modelo não pode ser automaticamente transplantado para o Brasil, mas evidencia que os proprietários de infraestruturas estratégicas poderão participar do financiamento e da manutenção de sua proteção, sob coordenação estatal.

Também será necessário reconhecer que a própria indústria se tornará alvo. Empresas responsáveis pela produção de radares, mísseis, munições e aeronaves precisarão de planos de continuidade, dispersão de componentes críticos, fornecedores alternativos, redundância no fornecimento de energia e algum grau de proteção antiaérea. Taganrog demonstra a lógica dessa escolha: atingir repetidamente a fábrica, ou a subestação que a alimenta, pode reduzir a ameaça futura sem enfrentar diretamente cada aparelho no campo de batalha.

A principal lição para o Brasil 

A guerra na Ucrânia não oferece um modelo pronto para ser copiado, mas apresenta um aviso claro. Um território continental pode proporcionar profundidade estratégica, dispersão e numerosas rotas de apoio. Ao mesmo tempo, multiplica os objetivos, alonga as distâncias e obriga o defensor a escolher o que proteger.

Para o Brasil, a resposta não estará em tentar cobrir cada quilômetro quadrado. Estará em identificar as funções vitais do País, conectar sensores e centros de decisão, criar camadas específicas contra sistemas não tripulados, combinar posições permanentes com reservas móveis, proteger passivamente as instalações e garantir capacidade industrial de reposição. Concebida dessa forma, a defesa antiaérea passa a ser uma rede de sobrevivência e continuidade, medida não pela quantidade de vetores abatidos, mas pela capacidade de preservar ou restabelecer rapidamente as funções essenciais do País.

Se o adversário não puder prever onde estarão os meios, não conseguir paralisar funções essenciais com poucos ataques e souber que cada perda poderá ser rapidamente reposta, a própria dificuldade de obter resultados estratégicos passará a constituir uma forma de dissuasão.

20 outubro, 2026

Cerimônia cancelada deixa contrato do ATMOS sem data e reabre impasse na Artilharia

Exército desmarca assinatura prevista para 27 de outubro sem explicar o motivo; lote inicial seria fabricado em Israel, e a eventual participação da Avibras ficaria restrita à fase seriada



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LRCA Defense Consulting - 20/10/2026 - 18h50

O Exército Brasileiro cancelou a cerimônia de assinatura do contrato do lote experimental do obuseiro autopropulsado Atmos 2000, de 155 mm, marcada para as 14h de 27 de outubro no Comando Logístico (Colog), em Brasília. O Comando do Exército confirmou a decisão nesta terça-feira (20) ao jornalista Marcelo Godoy, colunista do Estadão, sem informar o motivo nem indicar nova data. A suspensão da solenidade não equivale, por ora, à revogação da escolha do sistema nem ao encerramento do programa.

O recuo ocorre um dia depois de vir a público que a contratação voltaria a andar, destravada por um memorando de entendimento entre a Avibras Aeroco e a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, fabricante do Atmos. Escolhido pelo Exército em abril de 2024, o sistema integra um planejamento de 36 viaturas, com valor estimado em quase R$ 1 bilhão. O processo está parado há cerca de dois anos, período marcado pelo desacordo entre os governos brasileiro e israelense a respeito das operações militares de Israel em Gaza e da ação de colonos na Cisjordânia.

O que mudou entre 19 e 20 de outubro 
Na segunda-feira (19), a expectativa era de que o Colog formalizasse o contrato do lote inicial; o LRCA Defense Consulting registrou a previsão e examinou as possibilidades de integração industrial na fábrica da Avibras em Jacareí (SP). A confirmação do cancelamento, no dia seguinte, desfaz esse cronograma. Até o fechamento desta edição, não havia indicação pública de quando a assinatura poderá ocorrer.

A hipótese político-eleitoral 
Segundo a coluna de Godoy, havia receio de que a assinatura, marcada para dois dias após o segundo turno das eleições, fosse interpretada como um favorecimento aos empresários Joesley e Wesley Batista, que assumiram o controle da Avibras Aeroco por meio da Globe Investimentos. Como o contrato havia sido congelado por razões geopolíticas, sua retomada logo após a mudança de controle da fabricante tornou-se politicamente sensível. O Exército não apresentou essa explicação de forma oficial; trata-se de apuração jornalística, e não de causa confirmada.

A compra da Avibras pela Globe foi anunciada em 15 de outubro. Conforme o LRCA já informou, a operação preserva o controle acionário nacional da fabricante, que retomou a produção neste ano, após cerca de quatro anos de paralisação, e voltou a entregar material ao Exército em outubro. A Globe é uma holding de investimentos pessoais dos irmãos Batista e, segundo a comunicação da companhia, não integra a J&F S.A.

Participação da Avibras ainda é hipótese 
Antes do memorando, previa-se que o Atmos brasileiro utilizasse o chassi Tatra, o mesmo dos lançadores de foguetes e mísseis do sistema Astros, produzido pela Avibras, e que a montagem fosse feita no País. A nova apuração do Estadão indica um arranjo mais restrito: as duas viaturas do lote experimental seriam fabricadas em Israel. Somente após a avaliação desse lote poderia ser contratada a série de 34 unidades, fase em que a Avibras eventualmente entraria. Ainda segundo o jornal, a própria indústria brasileira estimava que sua fatia não passaria de 10% do valor do contrato.

O presidente da Avibras, Sami Hassuani, disse à coluna que a empresa analisa propostas de parceria de oito grupos, quatro brasileiros e quatro estrangeiros, e que o memorando com a AEL não significa que a fabricante participará desde o lote experimental.

Depois da assinatura do memorando, o Colog examinou aspectos jurídicos e técnicos e concluiu não haver impedimento para que a Avibras figure como subcontratada, desde que o contrato inicial não seja alterado. Trata-se de uma possibilidade contratual, não de uma encomenda industrial formalizada.

Uma aquisição em duas etapas 
O lote experimental serviria para avaliar as compensações comerciais e tecnológicas (offset), a cadeia logística e a integração do Atmos aos demais sistemas de artilharia do Exército, além de permitir nova comprovação de preços. A compra das 34 viaturas restantes dependeria desses resultados e de decisões contratuais posteriores. Para o primeiro contrato, a Força contava com recursos obtidos com base na Lei Complementar nº 235.

Impactos militares e industriais 
O Atmos combina um obuseiro de 155 mm/52 calibres com plataforma sobre rodas e recursos automatizados de navegação e pontaria. A mobilidade reduz o tempo de permanência em posição de tiro, atributo valioso diante da vigilância por drones e da ameaça de contrabateria, embora não dispense camuflagem, dispersão, defesa antidrone e integração a sensores e sistemas de comando e controle.

Para a Base Industrial de Defesa, o valor de uma eventual participação brasileira dependerá menos da montagem final e mais das competências efetivamente absorvidas: engenharia, componentes, manutenção, munições e suporte logístico. Com um teto estimado em 10% do valor contratual, essa absorção tende a ser limitada. A IMBEL foi apontada, em propostas examinadas anteriormente pelo LRCA, como possível participante da cadeia de munições de 155 mm, mas não há contrato público que defina suas obrigações.

O que está em jogo 

O cancelamento deixa sem data o início de uma aquisição relevante para modernizar os fogos de longo alcance do Exército e obriga a separar três questões: a escolha técnica do Atmos, a decisão político-administrativa de contratar e o alcance real da participação da indústria nacional. São dimensões ligadas, mas distintas.

O próximo passo decisivo será um posicionamento formal do Exército sobre o cronograma e a manutenção das condições contratuais. Havendo assinatura, caberá verificar quais contrapartidas e qual participação brasileira estarão, de fato, no papel.

19 outubro, 2026

ATMOS avança com Avibras e abre nova etapa para a artilharia brasileira

Exército prevê contratar dois obuseiros em 27 de outubro; montagem em Jacareí e participação da IMBEL podem ampliar o conteúdo nacional de um programa de 36 viaturas



*LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 15h10

O Exército Brasileiro deverá assinar em 27 de outubro, no Comando Logístico (COLOG), em Brasília, o primeiro contrato relativo à aquisição do obuseiro autopropulsado ATMOS 2000, de 155 mm, desenvolvido pela israelense Elbit Systems. A etapa inicial abrange duas viaturas destinadas à avaliação e precede uma eventual contratação de outras 34 unidades. A data foi informada nesta segunda-feira (19) pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, e repercutida pelo portal Forças Terrestres. Até a publicação desta reportagem, portanto, a assinatura ainda era uma previsão.

A novidade não se limita à retomada de uma aquisição interrompida por divergências diplomáticas entre Brasil e Israel. A entrada da Avibras Aeroco no arranjo industrial, mediante memorando de entendimento com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit, cria a perspectiva de montagem das 36 viaturas em Jacareí (SP). A produção de munições de 155 mm também aparece nas informações divulgadas como uma frente de participação da IMBEL. O detalhamento das obrigações, contudo, dependerá dos instrumentos contratuais.

Da seleção técnica ao novo arranjo industrial 
O ATMOS foi selecionado em abril de 2024 no processo para obtenção de Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado Sobre Rodas (VBCOAP-SR). A contratação não avançou no ritmo inicialmente esperado, em meio à deterioração das relações políticas entre os governos brasileiro e israelense por causa da guerra na Faixa de Gaza.

A solução industrial que agora ganha contornos mais definidos não surgiu de improviso. O LRCA Defense Consulting registrou, em julho de 2026, tratativas entre Avibras, AEL e Elbit. Em 7 de setembro, detalhou a proposta de montagem nacional dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, submetida ao COLOG no fim de agosto. Segundo a apuração publicada por Godoy, a oferta vencedora já contemplava uma parceira nacional sem identificá-la nominalmente, circunstância que teria permitido incluir a Avibras sem alterar as condições essenciais da seleção.

A Avibras e o aproveitamento da experiência com o ASTROS 
A escolha de Jacareí apresenta coerência industrial. A Avibras possui experiência na integração de sistemas de artilharia, veículos especiais e plataformas da família Tatra empregadas no ASTROS. A configuração brasileira do ATMOS é associada, nas informações divulgadas, a um chassi Tatra, embora seus detalhes finais ainda dependam de confirmação contratual e técnica.

Em 15 de outubro, a Avibras anunciou a conclusão de sua aquisição pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista. A reorganização societária e a retomada das atividades industriais formam o contexto da nova oportunidade. A eventual montagem do ATMOS pode diversificar encomendas e preservar competências industriais, mas não equivale, por si só, à transferência integral de tecnologia ou à fabricação nacional de todos os componentes. 

ATMOS 2000

O papel estratégico da IMBEL 
A participação indicada para a IMBEL na produção de munições de 155 mm merece atenção própria. Para uma força terrestre, a disponibilidade de munições, sua qualificação, a capacidade de reposição e o domínio de processos produtivos são elementos essenciais da autonomia logística. Ainda não estão esclarecidos publicamente o escopo exato da produção, os tipos de munição abrangidos e o grau de nacionalização previsto.

Dois obuseiros agora, 34 em etapa posterior 
A assinatura prevista para 27 de outubro diz respeito somente ao lote inicial de duas viaturas. Segundo a apuração de Godoy, o passo seguinte dependerá da avaliação do equipamento, da análise das compensações industriais e tecnológicas (offset), da cadeia logística, da integração aos sistemas de artilharia do Exército e de nova comprovação de preços. A contratação das outras 34 unidades é apontada como possibilidade para 2027, não como obrigação já firmada.

As estimativas financeiras publicadas também exigem cautela: a reportagem atribuída a Godoy menciona aproximadamente R$ 800 milhões, enquanto o Forças Terrestres se refere a investimento total próximo de R$ 1 bilhão. Sem a documentação contratual definitiva, não é adequado tratar qualquer desses valores como preço final fechado.

Mobilidade e sobrevivência no combate moderno 
O ATMOS combina canhão de 155 mm com tubo de 52 calibres e plataforma sobre rodas, além de recursos automatizados de navegação, pontaria e operação. A mobilidade e a redução do tempo de permanência em posição de tiro são atributos particularmente relevantes diante da ameaça de drones de reconhecimento, munições vagantes e fogos de contrabateria. Isso não elimina a necessidade de camuflagem, dispersão, defesa antidrone, comunicações seguras e integração com sensores e sistemas de comando e controle.

Para o Exército, o ganho operacional dependerá menos da simples incorporação de uma peça moderna do que de sua inserção em uma arquitetura de fogos capaz de detectar alvos, transmitir dados, engajar e mudar rapidamente de posição. A nacionalização do suporte e das munições pode ser decisiva para sustentar essa capacidade ao longo do tempo.

O que ainda precisa ser confirmado 
A assinatura anunciada deverá esclarecer o cronograma de entregas, a divisão de trabalho entre Elbit, AEL e Avibras, a configuração das viaturas, as obrigações de suporte e os mecanismos de transferência de conhecimento. Também será importante verificar a extensão da participação da IMBEL e os critérios para a passagem do lote inicial à produção em série.

Se confirmada, a contratação encerrará uma fase de incerteza e abrirá outra, de execução industrial e validação operacional. Para a Base Industrial de Defesa, o resultado estratégico não estará apenas nas 36 viaturas previstas, mas nas competências que efetivamente permanecerem no País.

24 setembro, 2026

A corrida pela autonomia nacional em sistemas não tripulados: o Brasil entre a dependência e a liderança



*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026 

O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América Latina, a Xmobots e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.

O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.

Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa (BID).

A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado atualmente.

A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer . Em 2026, o Grupo EDGE, conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos. No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.

A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação, expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.

Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em ciclos contínuos extremamente curtos.

A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.

Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado, sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos objetivos traçados para a década.

O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos, compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves, motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS); links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.

A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.

Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos, a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos principais agentes industriais do país permite identificar as competências já internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.

No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado, a Xmobots destaca-se como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.

Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até 28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD 2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às plataformas nacionais.

A AERO CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.

No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta confiabilidade, a AEL Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras, notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.

A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi, empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em 2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026, consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia decisória.

Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025, adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.

A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no Brasil.

Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte (OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.

A coordenação institucional desse contingente fabril deu um salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE, congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid, Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella Tecnologia, Taurus Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade, simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de maior sofisticação tecnológica.

Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados, revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas brasileiras.

Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes. O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres, navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software no centro do poder de combate.

Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033 demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de dados especializados em sistemas autônomos.

O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa), a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.

O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo à independência tecnológica de fato.

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

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