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03 setembro, 2026

Brasil eleva Embraer e Petrobras a peças de uma nova agenda industrial com a África do Sul

Ata da Comissão Mista Brasil-África do Sul associa o KC-390, os jatos E2 e o retorno da Petrobras dentro de uma mesma estratégia de aprofundamento econômico entre os dois países 

Renderização de um C-390 nas cores da Força Aérea Sul-Africana

*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

O chanceler brasileiro Mauro Vieira colocou, em uma única frase de discurso, três negócios que normalmente seriam tratados como notícias separadas. Na ata final da VIII Sessão da Comissão Mista Brasil-África do Sul, realizada em 26 de agosto de 2026, em Pretória, o Vieira “destacou também as negociações em curso relativas à aeronave brasileira de transporte militar KC-390 e aos jatos regionais E2 da Embraer, e observou as oportunidades decorrentes da retomada das operações da Petrobras na África do Sul”, segundo o documento assinado por ele e pelo ministro sul-africano Ronald O. Lamola.

Isoladamente, nenhum dos três temas é inédito. O interesse sul-africano pelo KC-390 já é acompanhado desde 2023; a presença comercial da Embraer no País, por meio da Airlink, é antiga; e o retorno da Petrobras à exploração na África do continente vem sendo construído desde 2024. A novidade está em outro lugar: pela primeira vez, os três temas aparecem reunidos dentro do texto oficial de uma reunião ministerial de alto nível, como parte da mesma agenda econômica e estratégica bilateral, e não mais como notícias setoriais dispersas.

Defesa: o KC-390 como carro-chefe industrial 
No eixo de defesa, o compromisso já tem lastro contratual. Em abril de 2025, durante a feira LAAD Defence and Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Denel, estatal sul-africana de defesa, assinaram um memorando de entendimento para uma futura colaboração na fabricação de aeroestruturas e em serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO) do KC-390. O acordo foi firmado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança, e Chris Boshoff, CEO da área aeroespacial da Denel.

A ata da Comissão Mista recupera esse memorando e o descreve como potencial gerador de cooperação industrial aeroespacial, desenvolvimento tecnológico, integração em cadeias internacionais de suprimentos e transferência de competências entre as indústrias de defesa dos dois países. O documento tem uma seção própria dedicada ao programa KC-390, na qual os dois governos registram que prosseguem as discussões sobre a possível adoção da aeronave na África do Sul.

Do lado comercial, a ofensiva da Embraer ganhou estrutura dedicada em janeiro de 2026, quando a fabricante nomeou Leandro Marc Pienaar como diretor de Desenvolvimento de Negócios para a África Austral, com a promoção do KC-390 e do A-29 Super Tucano entre suas atribuições. Pienaar, formado em engenharia mecânica pela Universidade de Pretória, veio da Milkor (Pty) Ltd, onde negociou contratos de defesa em todo o continente.

A publicação sul-africana DefenceWeb confirmou, em reportagem de 26 de junho de 2026, que a Embraer vê o KC-390 como a aeronave preferencial para substituir a envelhecida frota de C-130BZ Hercules da Força Aérea Sul-Africana (SAAF). Segundo Marcio Monteiro, diretor de Marketing da Embraer Defesa & Segurança, a força aérea sul-africana gastou 2,3 bilhões de rands entre os exercícios fiscais de 2021/22 e 2025/26 apenas com fretamento de aeronaves para sustentar missões de paz na República Democrática do Congo e em Moçambique, recurso que poderia ter sido direcionado à compra de aviões novos.

Um fator estratégico adicional reforça o interesse: Brasil e África do Sul operam o caça sueco Gripen (a FAB com as versões E/F, a SAAF com C/D), e o KC-390 já foi certificado, em testes conduzidos com a Saab e a Força Aérea Brasileira, para reabastecer Gripens em voo. A África do Sul perdeu sua capacidade de reabastecimento aéreo com a aposentadoria dos Boeing 707 usados como tanque. 

Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa (D) observa o interior de uma aeronave de transporte Embraer C-390 Millennium durante sua visita à Africa Aerospace and Defence (AAD) 2024 Trade and Exhibition na Base Aérea de Waterkloof, em Pretória, em 18 de setembro de 2024. (Foto de Phill Magakoe / AFP)

Aviação comercial: os E2 em um mercado já consolidado 
Se no KC-390 a Embraer ainda negocia uma venda, na família E2 ela já colhe resultados. A Airlink, maior operadora de aeronaves Embraer da África desde 2001 e dona de uma frota de 70 aparelhos da fabricante, fechou em agosto de 2025 um contrato de leasing com a Azorra para dez unidades do E195-E2. As três primeiras aeronaves foram entregues entre setembro e outubro de 2025 e entraram em operação comercial em dezembro daquele ano, com voo inaugural entre Joanesburgo e Durban; as demais devem chegar até 2027.

O mercado sul-africano foi formalmente aberto à nova geração de jatos em 3 de setembro de 2025, quando a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) concedeu a certificação de aceitação de tipo ao E190-E2 e ao E195-E2. Segundo Stephan Hannemann, vice-presidente sênior da Embraer para África e Oriente Médio, a certificação abriu novas oportunidades para as aeronaves no continente.

É nesse contexto que a menção de Vieira a negociações envolvendo os E2 ganha outro significado. Como o negócio com a Airlink já está em curso, a referência do chanceler sugere uma agenda comercial mais ampla do que essa operação isolada, possivelmente incluindo outras companhias aéreas sul-africanas ou aprofundamento da cooperação industrial em torno da família E2, e não apenas a confirmação de um contrato que já foi assinado.

Energia: a Petrobras de volta ao setor exploratório sul-africano 
O terceiro eixo citado por Vieira é a retomada das operações da Petrobras na África do Sul. A estatal brasileira participa do bloco Deep Western Orange Basin (DWOB), na costa sul-africana, operado pela TotalEnergies, dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento da companhia no continente africano desde fevereiro de 2024. A mesma estratégia já rendeu à Petrobras participação em blocos na Namíbia (o 2613, também com a TotalEnergies) e em São Tomé e Príncipe, onde a estatal brasileira é operadora, com 75% do Bloco 3.

A ata da Comissão Mista também registra que os dois países discutem a finalização de um acordo de cooperação nuclear, que permitiria o comércio na área nuclear entre Brasil e África do Sul, além de intercâmbios técnicos sobre transmissão elétrica, energias renováveis e minerais críticos.

Uma agenda industrial em formação 
Reunidos em um único parágrafo da fala oficial do chanceler brasileiro, os três temas (defesa, aviação comercial e energia) desenham algo que ultrapassa o comércio bilateral tradicional entre Brasil e África do Sul, historicamente descrito nas atas da Comissão Mista sobretudo pelos números de exportação de minérios, produtos químicos e alimentos. A ata de 2026 também documenta outros sinais dessa aproximação industrial: a cooperação entre a Denel e a Embraer, apontada como base para participação da indústria sul-africana no programa KC-390; a chegada da missão empresarial sul-africana ao Brasil em agosto de 2026, com empresas dos setores aeroespacial, de defesa e de mineração; e as tratativas para um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos entre os dois países, que ambos os lados pretendem concluir até o fim de 2026.

Ainda não há confirmação de uma decisão de compra do KC-390 pela SAAF, nem detalhamento oficial de quais negociações específicas em torno dos E2 Vieira tinha em mente ao discursar em Pretória. O que a ata deixa mais claro é a intenção política de tratar aeroespacial e energia como setores estratégicos comuns entre os dois países, ao lado de temas já consolidados como agronegócio e mineração.

28 maio, 2026

Suécia autoriza compra de Gripen E/F pela Ucrânia e promete doar 16 caças C/D

Acordo prevê aquisição inicial de até 20 aeronaves com recursos de empréstimo europeu; Saab já estuda escalonamento da produção para atender demanda ucraniana  


*LRCA Defense Consulting - 28/05/2026

A Suécia anunciou nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, que habilitará a Ucrânia a adquirir até vinte caças JAS 39 Gripen E/F numa primeira etapa, com Kiev destinando 2,5 bilhões de euros provenientes do Empréstimo de Apoio da União Europeia para financiar a compra. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Ulf Kristersson durante visita à Ala Aérea de Uppland, próxima a Uppsala, e representa o mais expressivo compromisso de transferência de aviação de combate ocidental à Ucrânia desde o início da guerra.

Atrelada ao avanço da compra, Estocolmo também manifestou a intenção de doar dezesseis Gripen C/D como assistência bilateral assim que a aquisição dos novos modelos for confirmada. Os aparelhos da versão C/D já estão fabricados e em serviço na Força Aérea sueca, o que permite prazos de entrega mais curtos do que os das aeronaves da linha E/F, ainda em produção.

Contexto: da carta de intenções ao contrato
O caminho para o acordo foi aberto em 22 de outubro de 2025, quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o premier Kristersson assinaram, na cidade de Linköping (sede da Saab), uma Carta de Intenções sobre cooperação em capacidades aéreas. Na ocasião, Zelensky afirmou que Kiev aguardava pelo menos cem aeronaves do tipo, enquanto Kristersson descreveu o documento como "o início de uma longa jornada de dez a quinze anos".

Em novembro de 2025, o ministro da Defesa ucraniano, Denys Shmyhal, visitou a sede da Saab para discutir detalhes técnicos e etapas de entrega. No mesmo mês, um memorando entre empresa ucraniana e a fabricante sueca lançou as bases para a eventual produção local dos caças na Ucrânia a partir de 2033. Em maio de 2026, o CEO da Saab, Micael Johansson, afirmou esperar a assinatura de um contrato de fornecimento em questão de meses, condicionando o avanço aos acordos políticos entre os dois governos.

O Gripen E/F: capacidades técnicas
O JAS 39 Gripen E é a versão mais avançada da família Gripen, equipado com radar de varredura eletrônica ativa (AESA) Raven ES-05, motor General Electric F414G (25% mais potente do que o RM12 das variantes anteriores) e sistema integrado de guerra eletrônica. O raio de combate foi ampliado para cerca de 1.500 km, 40% superior ao das versões C/D, enquanto a aeronave conta com dez pontos de fixação para armamentos, incluindo mísseis ar-ar de longo alcance como o Meteor. A versão F é a variante biplaza do mesmo modelo.

Uma característica estrategicamente relevante para o contexto ucraniano é a capacidade de operar em pistas curtas e não convencionais, de até 800 metros, permitindo decolagens e pousos em aeródromos improvisados ou com infraestrutura danificada. Esse requisito foi historicamente incorporado ao projeto para refletir as doutrinas de defesa territoriais dos países nórdicos.

A Saab consegue fabricar entre 20 e 30 aeronaves por ano, capacidade considerada insuficiente para atender à demanda ucraniana, que seria de 100 a 150 exemplares no curto prazo. Além da Ucrânia, a empresa já tem contratos ativos com o Brasil (36 Gripen E/F), a Colômbia (17 Gripen E/F) e a Tailândia (4 Gripen E/F na série Peace Burapha 1), além dos 60 exemplares encomendados pela própria Força Aérea sueca.

Imagem meramente ilustrativa

Pacote de apoio militar mais amplo
O governo sueco apresentou simultaneamente o maior pacote de apoio militar a Kiev até a data do anúncio. Além de viabilizar a doação dos Gripen C/D, o pacote inclui capacidades de longo alcance, munição, equipamentos de guerra eletrônica e apoio à inovação em defesa. O total acumulado de suporte militar sueco à Ucrânia desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022 ultrapassa 103 bilhões de coroas suecas, e o governo propôs um arcabouço de 80 bilhões de coroas para os anos de 2026 e 2027.

Frota ocidental ucraniana em expansão
Os Gripen serão integrados a uma frota de aviões ocidentais que a Ucrânia vem montando desde meados de 2024. O país já opera F-16s de fornecimento norte-americano e holandês, além de Mirage 2000 da França. Apesar dos reforços, as autoridades ucranianas reiteraram que a capacidade aérea atual ainda é insuficiente para deter os ataques diários de drones e mísseis russos sobre cidades e infraestruturas críticas.

A perspectiva de pilotos ucranianos com o Gripen é entusiasmada. O piloto Vadym Voroshylov, com o codinome Karaya, descreveu o JAS 39 como "o único caça pelo qual abriria mão de tudo" e como "opção ideal" para as necessidades do país. Programas de treinamento de pilotos e técnicos ucranianos em solo sueco foram discutidos em dezembro de 2025.

Próximas etapas
A formalização do contrato de compra dos Gripen E/F depende da confirmação política entre os dois governos, condição apontada pelo CEO da Saab como o principal fator determinante do calendário. Uma vez firmado o acordo, a empresa afirmou estar pronta para iniciar os trabalhos imediatamente. A entrega dos primeiros Gripen C/D doados pode ocorrer em prazo mais breve, dado que se trata de aeronaves já em operação.

O pacote anunciado hoje representa o estágio mais concreto da parceria aérea sueco-ucraniana, que começou como uma carta de intenções há pouco mais de sete meses e avança agora para compromissos financeiros e prazos de entrega.

Quadro de dados

Item

Detalhe

Aeronaves doadas

16 JAS 39 Gripen C/D

Aeronaves a adquirir (1ª etapa)

Até 20 JAS 39 Gripen E/F

Valor alocado pela Ucrânia

2,5 bilhões de euros (Empréstimo de Apoio da UE)

Perspectiva de longo prazo

100 a 150 Gripen E/F

Produção local na Ucrânia

Prevista a partir de 2033

Capacidade de produção da Saab

20 a 30 aeronaves por ano

Motor (Gripen E)

General Electric F414G (+25% de empuxo)

Radar

AESA Raven ES-05 (Gripen E)

Raio de combate (Gripen E)

Cerca de 1.500 km

 

02 maio, 2026

O Gripen sobrevoa Lisboa: como a Suécia corteja Portugal numa das maiores decisões de defesa da sua história recente

De Linköping a Alverca, passando por Brasília e Lisboa, uma teia de interesses industriais, geopolíticos e tecnológicos está sendo tecida em torno de uma única questão: que caça irá substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa?

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 02/05/2026

Céu azul sobre Linköping. Na cidade que é considerada o berço da Força Aérea sueca, o Gripen-E sobe a pique, mergulha, regressa, manobra com uma agilidade quase irritante para quem olha de baixo. A demonstração, realizada no final de abril para a imprensa portuguesa no aeroporto local, foi calculada. A Saab sabe que Portugal está ouvindo e quer que Portugal veja.

Dois anos depois de a Suécia ter aderido à NATO, e num contexto de aumento dos gastos em Defesa, a sueca Saab quer voar mais alto e estar à altura de outros fornecedores de caças que ambicionam fechar negócio com Portugal para a substituição da esquadra dos F-16, como os Estados Unidos da América, com os F-35, ou o consórcio europeu que inclui a Airbus e os seus Eurofighters.

A questão não é nova, mas ganhou uma urgência inesperada. Durante décadas, a Força Aérea Portuguesa sonhou com o F-35. Em 2019, a sua liderança reiterou publicamente esse desejo. O avião de quinta geração, com a sua furtividade característica e sensores integrados de última geração, era o horizonte natural para substituir os 28 F-16AM e BM que compõem a frota atual, aeronaves que se aproximam velozmente do fim da vida útil.

Mas o mundo mudou.

A virada de março de 2025
Em março de 2025, o ministro da Defesa, Nuno Melo, anunciou o cancelamento da aquisição dos F-35, citando preocupações com custos, imprevisibilidade das relações com Washington e a necessidade de privilegiar alternativas europeias. A mudança de posição ocorreu num contexto de tensões crescentes entre a Europa e os EUA, com o governo Trump a pressionar aliados através de tarifas comerciais e a tornar os parceiros europeus menos confortáveis com uma dependência excessiva de equipamento militar americano.

Foi neste vácuo que a Saab entrou com passo firme, argumentos preparados e uma proposta que vai muito além da venda de um avião.

O argumento técnico central da empresa sueca não é a furtividade, pois admite que o Gripen perde nesse parâmetro face ao F-35. O que contesta é a relevância crescente dessa característica no campo de batalha moderno. Executivos e engenheiros da empresa argumentam que os avanços tecnológicos em aviônica tornaram a furtividade menos decisiva do que era. A eficácia de uma aeronave, segundo esta visão, mede-se cada vez menos pela velocidade ou agilidade e cada vez mais pela capacidade de usar poder computacional para superar o adversário.

No centro desta filosofia está a arquitetura de software do Gripen E, aquilo que a própria Saab compara a um iPhone: um dispositivo cujo hardware permanece estável enquanto o software evolui continuamente. O sistema DIMA (Distributed Integrated Modular Avionics) permite que todos os componentes da aeronave funcionem como um único sistema integrado, com interfaces de software abertas que tornam possível introduzir novas funcionalidades de forma ágil, sem necessidade de reverificar o sistema inteiro.

Inteligência artificial a bordo
Se há um argumento da Saab que captura a imaginação e a atenção dos analistas militares, é o da inteligência artificial integrada em combate real.

Em junho de 2025, a Saab e a empresa alemã de IA Helsing anunciaram a conclusão bem-sucedida dos primeiros três voos integrando o agente de inteligência artificial "Centaur" num Gripen E real, sobre o Mar Báltico. Nestes voos, o agente assumiu o controlo de manobras de combate além do alcance visual, sugerindo disparos de mísseis contra um Gripen de treino adversário e evitando trajetórias desfavoráveis, enquanto o piloto humano permanecia a bordo como comandante final.

O que impressionou os analistas não foi apenas a capacidade técnica da IA, mas a velocidade de integração: o trabalho pré-voo do agente Centaur começou apenas seis meses antes dos primeiros testes, com o sistema inicialmente treinado em simuladores do Gripen. Isto só foi possível graças à arquitetura aberta do avião, que separa o software crítico de voo do software tático, permitindo inserir o agente de IA sem tocar nos sistemas de segurança.

Não é ficção científica. É o argumento mais concreto que a Saab tem para dizer que o Gripen não é um caça do passado, mas sim uma plataforma em permanente evolução.

A isto soma-se uma parceria tecnológica com a Critical Software, empresa portuguesa de Coimbra. A Saab está a alargar as suas parcerias com entidades portuguesas através da assinatura de vários memorandos de entendimento, nomeadamente com a Critical Software, com quem está a desenvolver um programa baseado em Inteligência Artificial que permite o treino de pilotos destes caças através de uma espécie de "jogo virtual".

O trunfo industrial: a OGMA e a Embraer
Mas a proposta da Saab a Portugal vai muito além da tecnologia. O argumento mais sedutor e mais politicamente relevante é o industrial.

A Saab não propõe apenas a venda destes caças a Portugal, mas quer inserir o país na cadeia de produção, numa lógica de cooperação mútua. Daniel Boestad, vice-presidente e diretor da área de negócio Gripen, deixou claro que existe "potencial" para uma parte do processo de montagem de componentes e estrutura destes caças poder ser feita em Portugal, nomeadamente na OGMA, localizada em Alverca.

O responsável acrescentou ainda que existe a possibilidade de ir mais além, admitindo a montagem final em território português, ou operações de manutenção e reparação, hipótese que depende dos contornos de um eventual negócio para a aquisição de caças pelo Estado português.

No centro desta equação está um nome inesperado para quem não conhece a história recente da aviação lusófona: a Embraer.

A fabricante brasileira controla 65% do capital da OGMA desde 2005. A empresa de Alverca tornou-se, ao longo de duas décadas, uma referência europeia em manutenção, reparação e revisão aeronáutica, e é precisamente esse histórico que a posiciona hoje como um elo estratégico entre a Suécia e Portugal.

Este não é um pé-na-porta diplomático. É uma relação industrial já testada e consolidada. A Embraer e a Saab trabalham como parceiras desde 2014, quando o governo brasileiro assinou o contrato para fornecer à Força Aérea Brasileira 36 aeronaves Gripen, que incluíam não apenas a aeronave, mas também apoio logístico, sistemas de apoio, simuladores, treinamento e desenvolvimento. Por meio de um memorando de entendimento assinado em 2023, ambas as empresas reafirmaram a sua colaboração.

Os sinais diplomáticos desta aproximação vinham já de 2024. Em julho desse ano, a OGMA recebeu a visita da Embaixadora da Suécia em Portugal, Elisabeth Eklund, acompanhada por Rickard Strandberg, Encarregado de Assuntos Políticos da Embaixada. Os visitantes foram recebidos pelo CEO da OGMA, Paulo Monginho, e visitaram as instalações da empresa, nomeadamente as áreas de manutenção de aeronaves e motores e aeroestruturas.

Sede da OGMA

O modelo brasileiro: uma referência para Portugal
O programa Gripen no Brasil tornou-se a referência que a Saab mais gosta de citar quando fala com Lisboa. E com razão: os números são impressionantes.

Um dos pilares centrais do programa foi o compromisso da Saab em oferecer acesso irrestrito aos códigos-fonte do caça, algo que os concorrentes Boeing F/A-18 Super Hornet e Dassault Rafale não conseguiram igualar de forma tão abrangente. Este ponto ganhou especial relevância quando, em 2025, tornou-se público que a francesa Dassault rejeitou firmemente o pedido da Índia de acesso aos códigos-fonte dos 62 caças Rafale que adquiriu, citando a importância estratégica e a sensibilidade dos códigos à segurança.

Para Portugal, a lição é clara: escolher um caça é também escolher o grau de autonomia tecnológica que o país terá nas próximas décadas.

O programa de transferência de tecnologia (ToT) associado ao Gripen no Brasil é descrito como o maior da história da Suécia e o mais extenso em curso naquele país. Ele envolve mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos, abrangendo áreas como sistemas de comunicação, integração de armamentos, ensaios em voo, aviônicos, aerodinâmica e produção de componentes estruturais.

A linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto (SP), inaugurada em 2023, é a única fora da Suécia. Das 36 aeronaves contratadas, 15 estão sendo produzidas no Brasil, com a primeira já em fase de montagem final.

A proposta da Saab para Portugal vai além da aeronave em si, enfatizando benefícios industriais e econômicos que poderiam repercutir em Lisboa. A empresa tem um histórico de oferecer transferência de tecnologia e acordos de produção local, como demonstrado em seu acordo de 5,4 mil milhões de dólares com o Brasil em 2014, que incluiu a instalação de uma linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto.

Setembro de 2025: os acordos de Lisboa
Em setembro de 2025, durante uma visita a Lisboa do ministro da Defesa sueco, a diplomacia industrial deu um salto qualitativo.

A Saab assinou dois acordos com as empresas OGMA e Critical Software. Com a OGMA, controlada maioritariamente pela Embraer, a colaboração volta-se principalmente para áreas de produção, manutenção, reparação e revisão de aeronaves militares. No caso da Critical Software, os projetos articulados concentram-se em software para aviação e sistemas críticos de missão.

Daniel Boestad, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios Gripen na Saab, foi claro: "A OGMA e a Critical são excelentes parceiros independentemente do que aconteça." Os acordos não estão condicionados à compra dos Gripen por Portugal; são, segundo a empresa, uma resposta ao aumento global de procura que a Saab enfrenta.

Em dezembro do mesmo ano, foi a vez de um novo acordo com o AED Cluster Portugal, a associação que reúne mais de 160 entidades do setor aeronáutico, espacial e de defesa nacional.

"Portugal tem de estar no ciclo produtivo"
Do lado português, o ministro da Defesa Nuno Melo tem sido explícito quanto às condições que Portugal impõe a qualquer aquisição de caças: o retorno industrial é inegociável.

"Temos de produzir mais na Europa e comprar mais na Europa. As opções têm de ser as europeias e Portugal tem de estar no ciclo produtivo. Não quer dizer que esteja de A a Z, mas na produção de componentes ou manutenção", declarou o ministro.

O ministro acrescentou: "Cerca de 80% das aquisições da UE vêm de fora da UE, portanto há uma margem brutal. E têm de ser nossas também."

O ministro deu ainda o exemplo do KC-390, o avião de transporte da Embraer que Portugal opera e em cujas vendas tem participação financeira direta: "Cada KC que é vendido significam 10 milhões que entram nos cofres do Estado."

A ideia para o Gripen pode passar por um modelo de negócio semelhante ao que a Saab já desenvolve com a Força Aérea brasileira: através da Embraer, parte do caça Gripen é produzido no Brasil. Este modelo é semelhante ao que une Portugal e a Embraer na produção das aeronaves KC-390, que a cada venda gera lucro para o Estado português.

Imagem meramente ilustrativa

Portugal já está dentro do Gripen
Há um dado que a Saab gosta de sublinhar e que poucos conhecem: Portugal já participa, ainda que de forma limitada, na cadeia de produção do Gripen.

Daniel Boestad adiantou que Portugal "já é parte da construção do Gripen", através do fornecimento de material, mencionando empresas como a Vangest (localizada na Marinha Grande), a metalúrgica Ristaltek, ou a Thyssenkrupp em território português.

Para o vice-presidente da Saab, "Portugal é muito interessante e tem muito potencial. Não tem a maior indústria de Defesa, mas a que tem é brilhante."

As sombras no horizonte
A proposta sueca não é isenta de fragilidades, e seria desonesto ignorá-las.

Uma das principais é a dependência do Gripen E de componentes fabricados nos EUA, em particular o motor F414G da GE Aviation, que exige licenças de exportação e suporte de manutenção de empresas americanas, o que complica a narrativa de "autonomia total" face a Washington.

Para atenuar esse problema, a Saab enfatizou a arquitetura aberta do jato, que permite aos clientes desenvolver o seu próprio software e integrar sistemas não americanos. Para Portugal, essa flexibilidade poderia permitir a colaboração com empresas de defesa europeias, reduzindo a dependência das cadeias de suprimentos americanas ao longo do tempo.

Do lado português, o processo foi também perturbado por instabilidade política interna: em 2025, o primeiro-ministro Luís Montenegro apresentou a demissão na sequência de uma moção de censura, e as eleições subsequentes foram fator de atraso nas decisões estratégicas de defesa. A concorrência inclui ainda o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale.

Portugal ainda não deu início ao processo formal de substituição dos F-16, de acordo com o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, que afirmou que a escolha terá por base critérios técnicos, sem manifestar preferência. O general João Cartaxo Alves, agora Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), nunca escondeu a sua preferência por um caça de quinta geração, ou seja, os americanos F-35, quando ainda liderava a Força Aérea.

O Gripen como aposta estratégica
O que se passa hoje em Portugal é sintomático de uma transformação mais ampla. A Europa questiona a dependência de sistemas de armas americanos. Os conflitos em curso, sobretudo na Ucrânia e no Oriente Médio, onde a capacidade de atualização rápida de software e a guerra eletrônica provaram ser tão decisivas quanto o hardware, mudaram os termos do debate estratégico.

O custo é outro elemento central. Comparado aos seus concorrentes, o Gripen E/F oferece vantagens distintas para uma nação como Portugal. O F-35A, embora incomparável em furtividade e fusão de sensores, tem um custo unitário superior a 80 milhões de dólares e despesas anuais de manutenção que podem sobrecarregar orçamentos menores de defesa.

Sem detalhar valores, o responsável da Saab estimou que a aquisição deste tipo de programa, totalizando todo o seu ciclo de vida, ronda "um terço" do custo comparativamente às empresas concorrentes no mercado.

Há ainda uma lógica de complementaridade operacional que a Saab não cansa de sublinhar: o Gripen E pode ser reabastecido em voo, e Portugal está a preparar-se para adquirir os kits de reabastecimento para os seus KC-390 da Embraer. A combinação das duas aeronaves, utilizadas tanto pela Suécia como pelo Brasil, é apresentada pela Saab como o exemplo perfeito de uma parceria de sucesso que Portugal poderia replicar.

Uma decisão que vai além dos aviões
A Saab afirma estar "pronta para apoiar Portugal na aquisição da futura plataforma para a Força Aérea Portuguesa" e apresenta o Gripen E como "uma solução verdadeiramente europeia, combinando velocidade de inovação, adaptabilidade e eficiência de custos". Se Portugal escolher o Gripen, não comprará apenas um avião. Comprará um modelo de soberania industrial, um acesso à cadeia de valor global de um programa aeronáutico em expansão e, através da OGMA e da Embraer, uma posição singular na encruzilhada entre a Europa e o Brasil num dos setores de maior valor tecnológico do século XXI.

A decisão final pertence a Lisboa. Mas o debate técnico, estratégico, industrial e geopolítico já está em pleno andamento. E Johan Segertoft, o vice-presidente da Saab que desembarcou em Lisboa para dizer que o Gripen é "o caça mais avançado do mundo", voltou para Estocolmo com a certeza de que Portugal está, de fato, a ouvir.

O que vai fazer com o que ouviu é outra história. Essa ainda se escreve... 

23 fevereiro, 2026

GE Aerospace e FAB firmam acordo estratégico para suporte ao motor do Gripen em avanço para a soberania aeroespacial brasileira


*LRCA Defense Consulting - 23/02/2026

Em um movimento que reforça tanto a capacidade operacional da Força Aérea Brasileira quanto os alicerces da Base Industrial de Defesa do país, a GE Aerospace e a FAB assinaram, em 26 de janeiro de 2026, um Acordo de Assistência Técnica (TAA, na sigla em inglês) para os motores F414-GE-39E que equipam os caças SAAB JAS-39E Gripen da aviação de combate nacional.

O que o acordo prevê
O acordo permitirá ao Brasil receber suporte técnico avançado, treinamento e serviços de defesa para os motores F414-GE-39E. Na prática, a FAB terá acesso a dados técnicos e serviços essenciais para apoiar a integração, operação, testes e manutenção dos motores. A GE Aerospace fornecerá programas abrangentes de treinamento, manuais técnicos e representação em território nacional para ampliar as capacidades de prontidão e manutenção da Força. A empresa MDS Aero Support Corporation também contribuirá com serviços de bancada de testes e desenhos de equipamentos.

O que muda para a FAB
O acordo representa uma guinada significativa na relação da FAB com seu principal sistema de propulsão de combate. Até então, a dependência de suporte externo para os motores do Gripen era um ponto de vulnerabilidade operacional: qualquer falha ou necessidade de manutenção mais complexa exigia recorrer a parceiros estrangeiros, com custos, prazos e riscos de disponibilidade inerentes a esse modelo.

Com o TAA, a Força passa a ter acesso direto a dados técnicos proprietários e a programas de capacitação estruturados, o que eleva substancialmente o nível de expertise dos mecânicos e engenheiros brasileiros. O resultado prático é uma manutenção mais ágil, menor tempo de aeronave em solo e maior prontidão operacional da frota, fator crítico em cenários de crise ou conflito.

Asha Belarski, diretora de suporte ao cliente e sustentação de Defesa & Sistemas da GE Aerospace, afirmou que o acordo "contribuirá para o sucesso operacional da frota Gripen e para a expansão da capacidade de defesa do Brasil."

Impactos para o Programa Gripen
O Gripen é o maior programa de defesa em curso no Brasil. Além da aquisição das aeronaves, o contrato original com a Suécia previu robustos compromissos de transferência de tecnologia, e o TAA com a GE Aerospace se encaixa como peça complementar e indispensável nesse quebra-cabeça.

O motor F414 é o coração da aeronave: sem plena capacidade de mantê-lo e testá-lo em solo brasileiro, qualquer avanço na produção ou operação dos caças teria seu valor reduzido. O acordo fecha essa lacuna, garantindo que o Brasil não apenas opere, mas entenda e domine tecnicamente a propulsão de sua principal plataforma de combate de nova geração.

Consequências para a Base Industrial de Defesa
Os efeitos do acordo transcendem os hangares da FAB. Empresas brasileiras já envolvidas no programa FX-2, a iniciativa que originou a aquisição dos Gripen, poderão ampliar sua participação em atividades de integração, manutenção e suporte técnico, especialmente com a inclusão da MDS Aero Support na estrutura do acordo.

A transferência de conhecimento prevista cria um ciclo virtuoso: engenheiros e técnicos nacionais capacitados formam uma mão de obra qualificada que pode ser absorvida por empresas do setor aeroespacial, estimulando inovação e gerando empregos de alta tecnologia, justamente o tipo de ativo que o Brasil precisa consolidar para avançar na cadeia produtiva de defesa.

O TAA se insere em uma relação histórica entre a GE Aerospace e o Brasil: em 2025, a FAB celebrou o 50º aniversário do caça F-5, equipado com o motor J85 da empresa. A GE Aerospace possui acordo semelhante para o motor T700, que impulsiona os helicópteros Sikorsky UH-60 Black Hawk operados pelo Brasil. O novo acordo, portanto, aprofunda uma parceria que já dura décadas.

Soberania em tempos de incerteza
O contexto geopolítico confere ao acordo uma dimensão que vai além da técnica. Num mundo marcado por disputas comerciais, restrições a exportações de tecnologia sensível e volatilidade nas cadeias globais de suprimentos, a capacidade de manter e operar seus próprios sistemas de defesa em solo nacional é, em si, um ativo estratégico.

Todos os acordos celebrados respeitam os regulamentos do ITAR (International Traffic in Arms Regulations), que asseguram que todas as transferências de dados técnicos e serviços de defesa sejam devidamente autorizadas e controladas. Dentro desses limites regulatórios, o Brasil avança em autonomia operacional sem prescindir da colaboração com parceiros globais de referência.

Passo estratégico
O Acordo de Assistência Técnica entre GE Aerospace e FAB não é um evento isolado: é mais um passo em uma estratégia de longo prazo para que o Brasil deixe de ser apenas usuário de tecnologia aeroespacial de ponta e se consolide como ator capaz de integrá-la, mantê-la e, progressivamente, desenvolvê-la. 

Para a FAB, significa maior prontidão. Para o Programa Gripen, mais robustez. Para a Base Industrial de Defesa, novas oportunidades. E para o país, um passo concreto rumo à soberania no setor mais sensível da segurança nacional.

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