Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Gripen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gripen. Mostrar todas as postagens

30 outubro, 2026

LINK-BR2 cumpre primeiro voo de certificação e recebe alvos do E-99M em Canoas

Campanha IRIS 2026, encerrada nesta sexta-feira (30), leva o enlace de dados da FAB à etapa decisiva; segundo o DCTA, a integração a outras aeronaves será planejada após a certificação



*
LRCA Defense Consulting - 30/10/2026 - 10h00

O LINK-BR2, sistema de enlace de dados táticos da Força Aérea Brasileira (FAB), realizou em 20 de outubro seu primeiro voo de certificação. A missão ocorreu na Base Aérea de Canoas (BACO), no Rio Grande do Sul, durante a Campanha IRIS 2026, realizada de 19 a 30 de outubro. Segundo a FAB, que divulgou os resultados na quinta-feira (29), o sistema foi submetido a uma extensa lista de verificações e alcançou resultados expressivos, num voo classificado pela Força como marco decisivo para o projeto. O objetivo da campanha é certificar o 
LINK-BR2 para uso operacional.

Alvos do avião-radar na cabine dos caças 
Em 27 de outubro, um segundo voo verificou a integração do 
LINK-BR2 com o avião de alerta aéreo antecipado E-99M. Na ocasião, os caças F-5M receberam com sucesso os alvos detectados pelo radar da aeronave. A campanha empregou três F-5M e um E-99M. A ligação entre os caças e o avião-radar já havia sido utilizada no Exercício Conjunto Escudo-Tínia 2026, em maio, em Anápolis (GO); agora, passou por verificação formal, etapa exigida para a certificação.

Quem conduz os ensaios 
A campanha é conduzida pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e reúne a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), pilotos de prova do Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV), engenheiros do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI), militares do Primeiro Esquadrão do Décimo Quarto Grupo de Aviação (1º/14º GAV), o Esquadrão Pampa, da BACO e do Comando de Preparo (Comprep), além de engenheiros e técnicos da AEL Sistemas, desenvolvedora do sistema. 


Certificação antes das novas plataformas 
O Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, acompanhou parte dos ensaios na sala de controle da BACO. "Os resultados evidenciam o nível de maturidade do Sistema LINK-BR2, que avança mais um passo para certificação e, a partir daí, permitir o planejamento para integração em outras plataformas e sistemas da Força Aérea Brasileira", afirmou.

A declaração estabelece uma sequência: primeiro a certificação, depois o planejamento da expansão. Como a LRCA mostrou em 26 de outubro, a integração ao caça F-39 Gripen e ao cargueiro KC-390 Millennium está, até aqui, na fase de workshops técnicos, realizados com a Saab em julho e dezembro de 2025 e com a Embraer em março de 2026. A meta do DCTA é concluir o desenvolvimento do 
LINK-BR2 até dezembro de 2026. A certificação formal ainda não foi anunciada.

Um programa de 14 anos 

O contrato do 
LINK-BR2 foi assinado em dezembro de 2012 com a Mectron, no valor de R$ 193 milhões, e previa o sistema instalado até 2016 em quatro F-5M, quatro A-29 e dois E-99. Após o encerramento da Mectron, em 2017, o programa passou à AEL Sistemas, de Porto Alegre, responsável pelo núcleo do sistema. O voo de 20 de outubro é o primeiro passo oficial para que o enlace deixe a fase de desenvolvimento e entre em serviço na FAB.

29 outubro, 2026

Gripen amplia suas capacidades com sensores de reconhecimento e ataque de precisão

Ensaios realizados pela FAB com os sistemas RECCELITE e Litening representam um avanço na evolução multifuncional do F-39 e reforçam a perspectiva de substituição do A-1M AMX



*
LRCA Defense Consulting - 29/10/2026 - 11h21

A Força Aérea Brasileira (FAB) realizou, entre 6 e 8 de outubro de 2026, na Base Aérea de Anápolis (GO), os primeiros voos do F-39 Gripen equipado com os sistemas RECCELITE e Litening, fabricados pela israelense Rafael. Os ensaios, divulgados oficialmente em 28 de outubro, marcam uma nova etapa do Projeto F-X2: a incorporação progressiva de recursos destinados ao reconhecimento tático e à designação de alvos para armamentos de precisão.

Os voos fizeram parte dos Testes de Aceitação em Solo e em Voo (SAT, do inglês Site Acceptance Test) dos dois sistemas. Além das atividades aéreas, a etapa incluiu o recebimento e a verificação das estações e dos equipamentos de solo, bem como avaliações de conectividade e integração. A campanha reuniu militares da FAB e representantes da Embraer, da sueca Saab e da Rafael, com o objetivo de verificar e validar o funcionamento dos equipamentos e sua integração ao caça.

Segundo a revista Tecnodefesa, os voos foram realizados com o Gripen FAB 4100, aeronave empregada pela Saab e pela Embraer no desenvolvimento e na campanha de ensaios do caça, em coordenação com o Centro de Ensaios em Voo do Gripen (GFTC) e o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (GDDN).

Embora a etapa confirme avanços concretos, não equivale à declaração de que essas capacidades já estejam plenamente incorporadas ao emprego operacional do F-39. A própria FAB prevê importantes avanços ao longo de 2027. 


Sensores complementares para reconhecer e atacar 
Instalados externamente na aeronave, os dois pods são visualmente semelhantes, mas exercem funções distintas e complementares. O RECCELITE, desenvolvido para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, emprega sensores eletro-ópticos e infravermelhos capazes de obter imagens de alta resolução a grandes distâncias, de dia e à noite. O sistema permite monitorar extensas áreas e reunir informações detalhadas sobre o terreno e pontos de interesse, apoiando o planejamento e a execução das operações.

O Litening, por sua vez, reúne sensores de alta resolução, câmeras infravermelhas e recursos de rastreamento para detectar, identificar e acompanhar alvos a grandes distâncias, inclusive em condições de baixa luminosidade e quando estão em movimento. Sua tecnologia de designação por laser orienta armamentos compatíveis até os alvos, e seus recursos também contribuem para a avaliação dos resultados das missões. De acordo com a Tecnodefesa, entre as armas compatíveis estão as bombas Lizard, Paveway e L-JDAM; a FAB e a Saab já testaram o lançamento da bomba guiada LIZARD III pelo Gripen durante a Operação Thor, em Natal (RN).

A cobertura especializada identifica as versões submetidas a ensaio como RECCELITE XR e Litening G5; o comunicado oficial da FAB, porém, utiliza apenas as denominações RECCELITE e Litening.

Essa complementaridade permite que uma mesma plataforma desempenhe missões de vigilância, reconhecimento e ataque, respeitadas as configurações de equipamentos e armamentos e as etapas de certificação exigidas para cada tipo de emprego.

A transmissão de dados é tão importante quanto a imagem 
Um dos aspectos mais significativos da campanha é a conexão entre a aeronave e as equipes que exploram as informações em terra. O RECCELITE dispõe de recursos de transmissão e processamento de dados em tempo real, o que permite analisar em estações de solo as imagens captadas durante o voo, contribuindo para a consciência situacional e a tomada de decisões.

O tenente engenheiro Nickolas Batista Mendonça Machado, responsável pela equipe técnica da FAB envolvida no SAT, ressaltou que o voo é apenas uma parte da missão de reconhecimento, que também envolve o planejamento feito pelos operadores da estação de solo e a análise posterior das imagens. Segundo ele, o principal diferencial dos novos equipamentos é a capacidade de datalink, "que permite ao operador acompanhar em tempo real ao longo do voo o cumprimento da missão; e o recebimento de imagens também em tempo real, permitindo uma análise de toda a inteligência que está sendo coletada pela aeronave".

Na prática, essa capacidade pode encurtar o intervalo entre a observação de determinada área, a interpretação das informações e sua utilização no processo decisório. A integração dos sensores, portanto, não deve ser compreendida apenas como a adição de equipamentos ao caça: ela envolve uma cadeia de reconhecimento que inclui planejamento, aquisição de imagens, enlaces de dados, estações terrestres e operadores especializados. A eficácia do conjunto dependerá da maturidade de todos esses elementos.

A transição das missões do AMX para o Gripen 
Os ensaios também têm importância para o futuro das missões hoje realizadas pelo A-1M AMX, aeronave que a FAB emprega em atividades de ataque e reconhecimento. Segundo a Tecnodefesa, as poucas unidades restantes do jato ítalo-brasileiro (cerca de seis) estão concentradas no Esquadrão Poker (1º/10º GAV), sediado na Base Aérea de Santa Maria (RS), que já utiliza o Litening e o RECCELITE em versões de geração anterior às que equiparão o Gripen.

A integração de equipamentos mais modernos ao F-39 constitui, assim, uma etapa tecnológica relevante para a transferência dessas missões à nova plataforma. Isso não significa, contudo, que a substituição operacional esteja concluída: ela exige, além dos sensores, a validação de armamentos, procedimentos, treinamento, infraestrutura e doutrina de emprego.

A Tecnodefesa informa que os Gripens deverão iniciar a operação em Santa Maria a partir de 2029, já capazes de desempenhar as missões hoje atribuídas aos A-1. Trata-se de uma perspectiva divulgada pela publicação especializada, e não de um cronograma confirmado no comunicado da FAB sobre os testes de outubro.

Duas frentes de evolução no programa F-X2 
Os testes em Anápolis começaram no mesmo dia em que o primeiro Gripen E produzido no Brasil realizou seu voo inaugural. Em 6 de outubro, às 10h21, a aeronave decolou do aeródromo da Embraer em Gavião Peixoto (SP), conduzida pelo piloto de provas chefe da Saab, Jakob Högberg, no que foi classificado como o primeiro teste de aceitação de produção. Concluída essa campanha, o caça será certificado e transferido para o 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), em Anápolis, que opera atualmente dez Gripens. Trata-se do primeiro de 15 exemplares previstos para produção no País.

As duas atividades foram distintas, mas revelam frentes complementares do programa: a consolidação da capacidade industrial brasileira e a expansão gradual das funções operacionais da aeronave.

O contrato do F-X2, assinado em 2014, contempla 36 caças Gripen (28 monopostos e oito bipostos), além de transferência de tecnologia e participação da indústria nacional. Em 21 de julho de 2026, durante o Farnborough International Airshow, Saab e Embraer assinaram um acordo preliminar (Heads of Agreement) para a potencial produção de 20 Gripen adicionais em Gavião Peixoto, conforme noticiou o LRCA. A evolução do projeto depende, portanto, tanto da fabricação e sustentação da frota quanto da incorporação sucessiva de capacidades de missão.

Um avanço concreto, ainda em desenvolvimento 
A incorporação do RECCELITE e do Litening amplia o horizonte de emprego do Gripen brasileiro e fortalece a perspectiva de concentrar em uma plataforma moderna funções hoje distribuídas entre diferentes aeronaves da FAB. Especialmente relevante é a possibilidade de combinar reconhecimento de alta resolução e ataque de precisão com uma arquitetura de transmissão de informações para os escalões de decisão.

O alcance efetivo desse salto, contudo, somente poderá ser medido à medida que as etapas de integração, certificação, treinamento e avaliação operacional sejam concluídas. Por enquanto, o resultado confirmado é importante e específico: a FAB executou ensaios de aceitação em solo e em voo dos sistemas, preparando a evolução dessas capacidades ao longo de 2027.

26 outubro, 2026

Link-BR2: o enlace de dados prometido para 2016 busca a certificação no fim de 2026

Campanha IRIS 2026 tenta encerrar os ensaios no F-5M, enquanto FAB, AEL Sistemas, Saab e Embraer preparam a chegada do sistema ao Gripen e ao KC-390 



*
LRCA Defense Consulting - 26/10/2026 - 20h10 (atualizado em 27/10 às 15h36)

O Link-BR2, sistema brasileiro de enlace de dados táticos que permite a aeronaves, sensores e centros de comando e controle compartilhar informações com segurança, chega ao fim de 2026 diante de uma prova decisiva. Na Base Aérea de Canoas (RS), a Operação IRIS 2026 busca concluir, no caça F-5M, os requisitos de certificação que ficaram pendentes na campanha anterior. Ao mesmo tempo, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a indústria preparam a integração do sistema ao F-39 Gripen e ao KC-390 Millennium, plataformas que permanecerão em serviço por décadas.

Em publicação no LinkedIn, o Tenente-Coronel Mattos Brito, gerente técnico do projeto na FAB e coordenador-geral da operação, classificou como positivos os resultados preliminares e informou que os dados subsidiarão decisões do Alto Comando da Aeronáutica. A certificação definitiva, porém, ainda não foi anunciada. O planejamento do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) fixa dezembro de 2026 como meta para encerrar os ensaios de certificação e a integração final dos sistemas de solo e voo.

Um prazo que avançou uma década 
O contrato foi assinado em 6 de dezembro de 2012 entre a FAB e a Mectron, de São José dos Campos (SP), com valor divulgado de R$ 193 milhões. O cronograma original previa que, até 2016, o sistema estivesse instalado em quatro F-5M, quatro A-29 e dois E-99, além de estações em solo, inclusive para uso do Exército e da Marinha. A meta atual registrada pela FAB, de dez Rádios Terminais Data Link (RTDL), corresponde numericamente ao total de aeronaves previsto naquele cronograma.

A busca por uma rede única é anterior ao contrato. A FAB já operava o Link-BR1, que ligava os aviões E/R-99 às estações do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), e o A-1 modernizado recebeu uma primeira versão do Link-BR2. O contrato de 2012 visava a uma versão com capacidades adicionais, capaz de unificar enlaces até então restritos a aeronaves específicas e de trocar dados com a versão instalada no A-1.

Da Mectron à AEL Sistemas 
O atraso tem origem conhecida. A partir de 2015, a Operação Lava Jato atingiu o grupo Odebrecht, controlador da Mectron, que encerrou suas atividades em 2017, deixando inconclusos também programas de mísseis da FAB. Segundo relato publicado pela DefesaNet, o contrato foi então dividido, e a parcela da Mectron foi transferida à AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, durante a gestão do Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Rossato no Comando da Aeronáutica (2015-2019).

Sob a AEL, sediada em Porto Alegre (RS), os ensaios avançaram. Os primeiros voos com o sistema embarcado no F-5M ocorreram em 2020; em outubro de 2021, dois caças trocaram dados entre si. Em janeiro de 2022, a empresa concluiu, a bordo de dois F-5M, ensaios de integração do rádio definido por software E-LynX, da Elbit, que serve de transmissor ao sistema. Em outubro de 2024, os voos passaram a contar, pela primeira vez, com soluções embarcadas de criptografia e cibersegurança da Kryptus, de Campinas (SP). Na mesma ocasião, a AEL anunciou que o sistema estava em fase final de integração com o Gripen, em parceria com a Saab. Dois anos depois, essa integração ainda está na etapa de workshops técnicos.


As campanhas IRIS 
A campanha IRIS 2025 durou 20 dias, com atividades em solo e em voo. Segundo Mattos Brito, os resultados indicavam atendimento à maior parte dos requisitos da FAB, mas ainda exigiam redução e análise detalhada dos dados. A IRIS 2026 retoma parte dessas verificações e demonstra funcionalidades adicionais. A página de projetos estratégicos da FAB registra seis dos dez rádios previstos já recebidos, com previsão de atualização dos dois primeiros, além de 67,74% das etapas contratuais executadas. 

Visita do Diretor-Geral do DCTA e o Presidente da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), organizações da Força Aérea Brasileira - FAB, na Operação IRIS 2026

Rumo ao Gripen e ao KC-390 
O F-5M foi a principal plataforma de ensaios do Link-BR2, mas está na fase final de sua carreira na FAB. Preservar o investimento depende de levar o enlace às aeronaves que o substituem. A preparação para o Gripen ocorreu em duas etapas. De 22 a 24 de julho de 2025, o Laboratório de Guerra Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, sediou um workshop com militares da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), do Comando de Preparo (Comprep), do 1º Grupo de Defesa Aérea e do DCTA. Entre 2 e 4 de dezembro de 2025, representantes da Saab, da AEL Sistemas e da FAB voltaram a se reunir, desta vez no 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis (GO), conforme relatou Mattos Brito, que participou do encontro.

A segunda frente envolve o cargueiro da Embraer. Um workshop de dois dias, encerrado em 24 de março de 2026 no DCTA (foto abaixo), reuniu Embraer e AEL Sistemas para alinhar os requisitos de integração do Link-BR2 ao KC-390, segundo publicação de Mattos Brito. A inclusão da aeronave amplia o alcance do enlace para além da aviação de caça. Cronograma de integração, quantidade de equipamentos e resultados de ensaios no KC-390, contudo, ainda não foram divulgados. 


Interoperabilidade em exercício 

O emprego mais visível ocorreu no Exercício Conjunto Escudo-Tínia 2026, realizado de 11 a 29 de maio na Base Aérea de Anápolis, pela primeira vez fora do Rio Grande do Sul. O Link-BR2 conectou caças F-5M a dados do avião de alerta aéreo antecipado E-99M, de radares de solo e de estruturas de comando e controle, num cenário com meios da Marinha e do Exército. Em ensaios anteriores, a partir do rebocador de alto-mar Tritão, em Rio Grande (RS), militares da Marinha trocaram mensagens táticas com a estação do Link-BR2 em Canoas, por meio do enlace naval Sterna (Sistema Tático de Enlace de Radiofrequência Naval), do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), e do processador de dados MDLP, do Centro de Análises de Sistemas Navais (Casnav).

O valor militar de uma rede tática está em distribuir posições e dados de sensores entre participantes autorizados, reduzindo a dependência de relatos por voz e acelerando decisões coordenadas. A extensão dessa vantagem dependerá da cobertura, da segurança e da integração certificada em cada meio. 

Engenharia nacional no núcleo da rede. Radar de exportação (item atualizado)
O Link-BR2 costuma ser apresentado como símbolo de autonomia tecnológica, e a arquitetura do sistema ajuda a medir até onde essa leitura procede. O transmissor de radiofrequência pertence à família E-LynX, de rádios definidos por software da Elbit Systems, controladora da AEL. Segundo apurou a LRCA, porém, o núcleo do sistema, a unidade acoplada ao rádio que funciona como o "cérebro" do enlace, foi desenvolvido integralmente pela AEL Sistemas, em Porto Alegre, tanto em hardware quanto em software. Sem esse componente, o Link-BR2 não existe. A única exceção no desenvolvimento é a criptografia, a cargo da Kryptus, de Campinas (SP).

A divisão importa. O elemento que dá identidade ao Link-BR2 é de engenharia brasileira, enquanto o transmissor é de projeto estrangeiro. Permanece no horizonte, como risco hipotético, um eventual veto político brasileiro a fornecedores israelenses, discutido no setor de defesa; nesse cenário, a exposição recairia sobre o rádio, e não sobre o núcleo do sistema. O grau efetivo de autonomia depende ainda da titularidade da propriedade intelectual, tema que não foi tornado público.

O sistema também entrou no radar da exportação. Durante a feira FIDAE 2026, no Chile, a Alada (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil) firmou memorando de entendimento com a AEL Sistemas para ofertas de governo a governo (G2G) que incluem o Link-BR2.

Da certificação à capacidade permanente 
O desafio não se limita a encerrar os ensaios do F-5M. Trata-se de transformar o Link-BR2 em capacidade sustentável, com integração progressiva às plataformas atuais e futuras, formação de operadores, suporte logístico, atualização tecnológica e governança de uma rede compartilhada pelas três Forças. Catorze anos após o contrato e dez anos após o prazo original, a medida do sucesso será a passagem das demonstrações para uma rede certificada, sustentada e efetivamente disseminada nas Forças Armadas.

19 outubro, 2026

Carteira do Gripen passa de 130 caças e amplia o espaço de Gavião Peixoto na produção global

Segunda fase tailandesa, contrato ucraniano e meta de quase dobrar a produção valorizam a linha da Embraer, mas a montagem de aeronaves estrangeiras no Brasil ainda depende de decisões contratuais

 


*
LRCA Defense Consulting - 19/10/2026 - 22h31

A Real Força Aérea da Tailândia (RTAF) pretende dar sequência à compra de caças Gripen E/F, com recursos previstos no orçamento fiscal de 2027 e recebimento das novas aeronaves em 2029. O anúncio, feito em 12 de outubro pelo comandante da força, Seksan Khantha, soma-se a um ano de forte expansão da carteira do caça sueco e aumenta a pressão sobre a capacidade industrial da Saab, que tem no complexo da Embraer em Gavião Peixoto (SP) sua única linha de montagem final fora da Suécia.

A segunda fase tailandesa ainda não constitui contrato, e o comandante não informou publicamente quantas aeronaves serão adquiridas. O Parlamento sueco autorizou a venda de até 12 Gripen E/F à Tailândia, e a Saab mencionou, em fevereiro, conversas sobre um segundo e um terceiro lotes de quatro aeronaves cada; publicações especializadas brasileiras falam em até oito unidades adicionais. O orçamento de 2027 poderá, portanto, cobrir um lote de quatro aviões ou as oito unidades restantes de uma só vez.

O primeiro lote tailandês, contratado em 25 de agosto de 2025 por aproximadamente 5,3 bilhões de coroas suecas, reúne três Gripen E e um Gripen F, além de equipamentos, suporte e treinamento. O contrato prevê entregas no período de 2025 a 2030, com a primeira aeronave esperada para 2029. As novas unidades substituirão os F-16A/B da Ala 1, em Nakhon Ratchasima, e operarão ao lado dos 11 Gripen C/D que a RTAF mantém desde 2011.

Ucrânia muda a escala da carteira 
Desde a origem, o programa Gripen E/F acumula 133 aeronaves contratadas: 60 para a Suécia, 36 para o Brasil, 17 para a Colômbia, 16 para a Ucrânia e quatro para a Tailândia. O número inclui unidades já entregues e, por isso, não equivale à carteira de produção ainda pendente. Caso a segunda fase tailandesa seja formalizada com oito aeronaves, o total chegará a 141.

O contrato ucraniano é o fato mais relevante do ano para o programa. Assinado em 30 de junho entre a Saab e a Administração de Material de Defesa da Suécia (FMV), cobre 16 Gripen E, peças de reposição e equipamentos, por cerca de 24,6 bilhões de coroas suecas, com entregas à FMV em 2029 e 2030. É a primeira parcela de uma cooperação que, segundo os governos sueco e ucraniano, poderá chegar a até 150 aeronaves. Paralelamente, a Suécia decidiu doar Gripen C/D à Ucrânia e comprar caças novos para repor os aviões cedidos, o que cria demanda adicional para a fabricante.

A Colômbia, por sua vez, firmou em novembro de 2025 contrato estimado em 3,1 bilhões de euros para 15 Gripen E e dois Gripen F, com entregas previstas até 2032. O Peru, que chegou a anunciar a escolha do Gripen em julho de 2025, ilustra o outro lado da moeda: o processo travou em meio à instabilidade política, e o governo peruano passou a sinalizar preferência pelo F-16 Block 70, ainda sem decisão formal confirmada. Intenções de compra, portanto, não podem ser somadas a contratos firmes.

Meta de quase dobrar a produção 
O desafio para a Saab está menos na soma dos pedidos do que na sobreposição dos cronogramas entre 2028 e 2032. Na teleconferência de resultados do segundo trimestre, em 17 de julho, o presidente e CEO da empresa, Micael Johansson, informou que a capacidade efetiva atual está próxima de 15 aeronaves por ano e que a meta é alcançar algo entre 25 e 30. A companhia não anunciou o ano em que atingirá esse ritmo, e a execução depende de fornecedores de motores, radares e sistemas eletrônicos, além de mão de obra qualificada e estoques.

A expansão não se limita à montagem final. Em São Bernardo do Campo (SP), a Saab abriu uma segunda linha de aeroestruturas e dobrou, de oito para 16 unidades por ano, a capacidade de produção da fuselagem traseira do caça, o que amplia a participação brasileira na cadeia de fornecimento do programa. 



O lugar de Gavião Peixoto 
Em 21 de julho, durante o Farnborough International Airshow, Saab e Embraer assinaram um acordo preliminar (Heads of Agreement, HoA) para a potencial produção de 20 Gripen adicionais em Gavião Peixoto, em complemento à linha sueca de Linköping, como noticiou o LRCA. As empresas pretendem concluir o acordo definitivo ainda em 2026; até lá, não há valores, cronograma nem destinatário definidos para essas aeronaves.

O acordo industrial veio pouco mais de um mês depois de o governo brasileiro manifestar, em 4 de junho, em Estocolmo, interesse em adquirir mais 20 Gripen para a Força Aérea Brasileira (FAB), além dos 36 do contrato de 2014. A intenção foi registrada em declaração assinada pelos ministros da Defesa José Múcio Monteiro Filho e Pål Jonson, que informaram estar em negociação um aditivo ao contrato existente; segundo Jonson, essas aeronaves seriam fabricadas no Brasil. As empresas, contudo, descrevem os 20 Gripen do HoA como capacidade para oportunidades nacionais e internacionais, sem esclarecer se correspondem ao lote pretendido pela FAB. Os dois números não devem, portanto, ser somados nem tratados automaticamente como a mesma encomenda.

A capacidade da linha brasileira ganhou demonstração concreta em 6 de outubro, quando o primeiro Gripen E montado no País realizou seu voo inaugural, conduzido por um piloto de testes da Saab. A aeronave é a primeira de 15 previstas para produção local dentro do contrato da FAB, que abrange 28 Gripen E e oito Gripen F. Concluída a campanha de aceitação, seguirá para o 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), na Base Aérea de Anápolis (GO).

Colômbia, o primeiro teste exportador 
O contrato colombiano é o candidato mais provável a inaugurar a exportação a partir de Gavião Peixoto. Em junho, Johansson declarou à CNN Brasil que a Saab pretende fazer no Brasil o máximo possível do contrato com a Colômbia, ampliando a capacidade tanto em Linköping quanto na linha brasileira. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 7 de outubro informou que os 15 Gripen E colombianos deverão ser montados em Gavião Peixoto, e os dois Gripen F, em Linköping. A divisão de tarefas, entretanto, ainda carece de confirmação formal das fabricantes.

Tailândia, uma possibilidade ainda distante 
No caso tailandês, a montagem no Brasil é apenas uma hipótese. A RTAF exige transferência de tecnologia e cooperação industrial com a própria Tailândia, e a definição sobre onde as aeronaves serão montadas dependerá da negociação com Bangkok, da ocupação das linhas, dos custos e das condições de fornecimento. A distância geográfica, por si só, não determina a origem dos aviões; a ocupação de Linköping com os contratos sueco e ucraniano, por outro lado, pode fazer de Gavião Peixoto uma alternativa para distribuir a carga de produção.

Gripen F e os limites da participação brasileira 
A versão biposto, desenvolvida com participação da indústria brasileira, constitui outra dimensão da parceria. O primeiro F-39F foi apresentado em Linköping em 2 de junho e voou em agosto, na Suécia, onde cumprirá a campanha de ensaios antes da entrega à FAB. Brasil, Colômbia e Tailândia encomendaram exemplares dessa configuração. O envolvimento nacional no desenvolvimento pode gerar atividades adicionais de engenharia e fornecimento, mas não significa que os Gripen F exportados serão montados no País; no caso colombiano, a previsão é de que os bipostos saiam da linha sueca.

O que está em jogo para a BID 
Para a Base Industrial de Defesa (BID), a principal oportunidade é transformar a infraestrutura criada pelo Projeto F-X2 em atividade contínua. O programa já qualificou mais de 350 profissionais brasileiros na Suécia e, segundo levantamento do LRCA, está associado a mais de 2 mil empregos diretos e 10 mil indiretos. Sem novas encomendas, porém, a linha de Gavião Peixoto teria sua carga de trabalho esgotada com o último dos 15 caças previstos no contrato original.

A nova intenção tailandesa reforça essa perspectiva, mas não assegura a montagem de aeronaves daquele país no Brasil. O avanço mais concreto está na combinação entre a capacidade já demonstrada pela Embraer, o acordo preliminar com a Saab, a intenção da FAB de ampliar a frota e o contrato colombiano. O passo decisivo será converter esses movimentos em contratos com atribuições de produção efetivamente definidas.

13 outubro, 2026

Atech: a engrenagem que dá à Embraer domínio de sistemas, do escudo antidrone ao cérebro das fragatas

Publicação do CEO Rodrigo Persico expõe o portfólio de proteção contra drones da subsidiária, que une sensores, inteligência e comando e controle, e revela o peso de uma empresa pouco visível para o Grupo Embraer na defesa aérea, no controle do espaço aéreo e na Marinha do Brasil



*LRCA Defense Consulting - 13/10/2026 - 17h01

Quando se fala em Embraer, a imagem que vem à mente é a de aviões: o KC-390 Millennium, o A-29 Super Tucano, os jatos comerciais e executivos. Mas boa parte da inteligência que o grupo vende às Forças Armadas não voa. Ela está em consoles, servidores e algoritmos desenvolvidos pela Atech, a subsidiária paulistana que se define como a “casa de sistemas” da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Nesta terça-feira (13), o diretor-presidente da empresa, Rodrigo Persico, usou o LinkedIn para apresentar o portfólio antidrone da Atech, chamado em inglês de counter-unmanned aerial systems (C-UAS), e reafirmar que se trata de tecnologia brasileira voltada à proteção de pessoas, operações e ativos estratégicos.

Segundo a publicação, as soluções da empresa integram sensores de radiofrequência, radares, câmeras e recursos de comando e controle para detectar, identificar, classificar e apoiar a neutralização de ameaças aéreas. Persico destacou ainda a capacidade de localizar a origem dos sinais de controle, o que ajuda a identificar o operador do drone hostil e a coordenar as forças de resposta, e listou cinco frentes de emprego: defesa, segurança pública, grandes eventos, infraestruturas críticas e emergências, como o combate a incêndios.

A mensagem chega num momento em que o drone barato se tornou uma das principais ameaças do campo de batalha e da segurança urbana, e ajuda a entender por que uma empresa de cerca de 550 a 600 funcionários (o número varia conforme a fonte) ocupa posição tão estratégica dentro do Grupo Embraer. 


Do sensor ao policial na porta do piloto 
O núcleo do sistema antidrone é a plataforma Arkhe Integrated Surveillance (Arkhe IS), da família de produtos Arkhe, que reúne as soluções de defesa e segurança da Atech. Conforme o material técnico da empresa e a reportagem publicada pelo portal LRCA em abril, a arquitetura é multissensor e modular. Seu ponto de partida é um sensor de radiofrequência passivo, que cobre de 70 MHz a 6 GHz (incluindo as faixas de 433, 868 e 915 MHz e de 2,4, 5,2 e 5,8 GHz, usadas pela grande maioria dos drones comerciais) e opera em 360 graus, de dia ou de noite, inclusive sob mau tempo. Por ser passivo, ou seja, apenas “escuta” o espectro, o sensor dispensa homologação da Anatel.

O equipamento detecta drones com ou sem Remote ID, o protocolo de identificação remota, e coleta telemetria dos modelos comerciais que usam protocolo aberto. Para aeronaves não colaborativas, o modo Strobe executa a radiogoniometria (direction finding), apontando o azimute de origem do sinal. Com dois ou mais sensores, o sistema faz a triangulação e fixa a posição do drone e do rádio controle. O alvo aparece georreferenciado na interface do operador, com simbologia padronizada pela norma militar MIL-STD-2525, e pode ser classificado como amigo, neutro ou hostil. Um módulo de aprendizado de máquina (machine learning) refina a classificação, reduz falsos positivos e apoia a manutenção preditiva.

Sobre essa base, a solução agrega radares, câmeras eletro-ópticas e infravermelhas (EO/IR) e meios de neutralização, como bloqueadores (jammers), que interrompem o enlace do drone, e spoofers, que manipulam os sinais de navegação para desviá-lo. A instalação pode ser fixa (prédios e torres), móvel (viaturas) ou transportável (tripés), e a empresa propõe uma escalada gradual: o cliente começa com sensores de radiofrequência e incorpora radares e câmeras conforme a criticidade da área e o orçamento. Prever a integração de interferidores, porém, não significa que toda configuração entregue inclua neutralização ativa: o emprego de jammers no Brasil depende de autorização e de avaliação de riscos, sobretudo nas proximidades de aeroportos e de sistemas de comunicação sensíveis. O alcance de detecção também não é universal, pois varia com a altura de instalação, a linha de visada e as interferências do local.

O diferencial que a Atech mais enfatiza, e que Persico repetiu na postagem, é tratar o problema como questão de inteligência, e não apenas de bloqueio. Quando um drone é classificado como hostil, a localização da aeronave e do piloto é repassada ao Arkhe GDI, a plataforma de gestão de incidentes, que coordena as equipes em campo, exibe a posição dos agentes e dos drones policiais e transmite vídeo em tempo real. Em áreas sem cobertura celular, a comunicação segue por satélite, por meio de kits de mochila (os “Mochilinks”). Os dados acumulados alimentam o Arkhe Data Analysis, que gera mapas de calor, históricos de modelos detectados e pontos recorrentes de decolagem, enquanto o módulo Arkhe Athena cuida da segurança cibernética de todo o conjunto.

“O desafio é identificar rapidamente o que é risco e reagir antes que o problema se torne um incidente”, resumiu Claudio Nascimento, gerente comercial da Atech. A solução foi apresentada ao público na LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada de 14 a 16 de abril, em São Paulo, com demonstrações ao vivo do fluxo completo, da detecção à resposta. Na ocasião, o diretor de Negócios de Defesa, Giacomo Staniscia, afirmou que o objetivo era mostrar como a empresa pode apoiar inclusive operações de busca e captura do operador. 


Um mercado aquecido, e ainda dependente de fornecedores estrangeiros 
As cinco frentes citadas por Persico não são hipotéticas. Drones já são usados para lançar drogas e celulares em presídios, sobrevoar multidões, transportar contrabando nas fronteiras e, no limite, carregar explosivos. Em 2025, o governo do Rio de Janeiro abriu pregão para comprar 80 sistemas antidrone, de quase R$ 27 milhões, destinados às polícias Civil e Militar e à administração penitenciária. Em junho de 2026, a Polícia Federal fechou contrato de R$ 21,7 milhões com a israelense D-Fend Solutions para seis sistemas (quatro fixos e dois móveis), dentro do esquema de segurança dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano.

O dado revela, ao mesmo tempo, a demanda e o espaço ainda ocupado por tecnologia importada. É exatamente nesse ponto que a Atech aposta no argumento da soberania: ao manter internamente todo o ciclo de desenvolvimento, da concepção ao suporte, a empresa oferece às forças de segurança e às Forças Armadas um sistema cujos algoritmos, base de dados e atualizações permanecem sob controle nacional. Ainda assim, nem a postagem de Persico nem os documentos públicos da empresa informam contratos específicos, quantidades de sistemas entregues ou resultados de ensaios operacionais da solução, o que impede, por ora, medir o estágio comercial do produto.

Do solo ao ar: a ponte com o Super Tucano 
A integração entre a Atech e a controladora fica evidente no conceito antidrone do A-29 Super Tucano. Em novembro de 2025, a Embraer anunciou o SANT (Super Tucano Anti-Drone Tactics), conceito operacional que permite aos operadores atuais e futuros da aeronave interceptar drones com os sensores e armamentos já qualificados: a torre eletro-óptica com designador laser, as metralhadoras .50 nas asas e foguetes de 70 mm guiados a laser. Não se trata de uma nova versão do avião, mas de uma missão adicional.

A peça que fecha a cadeia sensor-atirador é justamente a rede terrestre da Atech. Segundo o material da empresa, quando o C-UAS terrestre é integrado a aeronaves de ataque leve como o A-29, as coordenadas dos alvos detectados pelos sensores no solo chegam à cabine pelo enlace de dados, ampliando o alcance e a eficácia da neutralização. Na prática, o grupo passa a oferecer um pacote completo, em que a subsidiária detecta e coordena, e o avião da Embraer engaja ameaças maiores, como os drones de ataque do tipo Shahed. 


O cérebro das Fragatas Classe Tamandaré 
Se no antidrone a Atech constrói mercado, no mar ela já ocupa uma das posições mais sensíveis da Defesa brasileira. No Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), contratado em 2020 com o consórcio Águas Azuis, formado por TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, a empresa responde pelo desenvolvimento e integração do Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS, na sigla em inglês), do enlace de dados táticos e das atividades de integração e testes do sistema de combate, em parceria com a alemã ATLAS ELEKTRONIK, subsidiária da TKMS. Também é responsável, com a L3Harris, pelo Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS).

O CMS integra os 22 componentes do sistema de combate do navio: radares, sonar, guerra eletrônica, optrônicos, mísseis antiaéreos de lançamento vertical, torpedos e o canhão de 76 mm. O sistema compila os dados dos sensores, identifica e classifica múltiplas ameaças e sugere ao comando a melhor resposta tática. O IPMS, por sua vez, monitora e controla 68 sistemas de propulsão, energia, auxiliares e controle de avarias. Os laboratórios de integração e testes funcionam no escritório da Atech no Rio de Janeiro, inaugurado em outubro de 2021.

O ano de 2026 marcou a consolidação desse trabalho. Entre 9 e 13 de abril, a fragata Tamandaré (F200) passou pela certificação técnica e operacional de seus sistemas de combate na área marítima de Cabo Frio (RJ), incluindo o lançamento de torpedo que testou a integração entre sonar, sistema de lançamento e CMS. O navio foi incorporado à Esquadra em 24 de abril. No mesmo mês, a Atech e a Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) assinaram um Protocolo de Intenções voltado à evolução contínua do CMS ao longo da vida útil dos navios. O documento sinaliza a intenção de manter a parceria, mas não equivale, por si só, à contratação de novos desenvolvimentos. Em maio, a empresa inaugurou na Base Naval do Rio de Janeiro o Simulador Tático e o Centro de Suporte do Sistema de Combate (CSSC), instalado no Centro de Apoio a Sistemas Operativos (Casop), estrutura que permite configurar o sistema, validar atualizações de software e treinar as tripulações antes do embarque.

O programa soma R$ 12 bilhões no primeiro lote, inserido no Novo PAC, e prevê a entrega das quatro fragatas, construídas pela TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), até 2029. A Atech é também a receptora da transferência de tecnologia dos dois sistemas, o que dá à Marinha capacidade de manter e evoluir o “cérebro” dos navios sem depender exclusivamente de fornecedores europeus. A Força já manifestou intenção de contratar um segundo lote de quatro fragatas, com meta de elevar o conteúdo local de 32% para 42% e integrar o míssil antinavio nacional MANSUP-ER, o que tende a ampliar o papel da empresa. 

C4I, espaço aéreo e até o reator do submarino 
A competência em comando, controle, comunicações, computação e inteligência (C4I) é a origem da Atech. A empresa atua na evolução do Dacom (Defesa Aérea e Circulação Operacional Militar), o sistema central de comando e controle da defesa aeroespacial brasileira, e há mais de três décadas desenvolve, em parceria com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (Ciscea), os sistemas que gerenciam o tráfego aéreo do País, como o Sigma e o Sagitario. 

Segundo a Embraer, as soluções da subsidiária apoiam a gestão de cerca de 22 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo, área que inclui a porção oceânica sob responsabilidade brasileira. Em julho de 2024, durante o Farnborough International Airshow, a Atech fechou com o Decea dois contratos que somam US$ 17 milhões para modernizar esses sistemas, e o relatório da administração de 2025 registra mais quatro contratos com o órgão para desenvolver e modernizar sistemas de controle de tráfego aéreo. No Dacom, a empresa firmou no mesmo ano acordo de continuidade do Simulador de Operações Militares (SOpM).

O portfólio vai além. A empresa é a principal fornecedora dos sistemas de instrumentação e controle do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), protótipo em terra da planta de propulsão do submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear Álvaro Alberto, e concluiu em 2025 os testes desses sistemas. Também desenvolveu o sistema de missão N-TDMS dos helicópteros AH-15B Super Cougar da Marinha, participa dos simuladores do caça Gripen e integra, há cinco anos consecutivos, o exercício Locked Shields, o maior treinamento de ciberdefesa do mundo, organizado pelo centro de excelência da OTAN em Tallinn.

No exterior, a Atech fornece sistemas de gestão de fluxo de tráfego aéreo à Índia e sistemas de vigilância aérea e terrestre a programas de defesa no Norte da África. Em setembro de 2025, assinou contrato com a sul-africana ATNS para modernizar o gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo, com conclusão prevista para o terceiro trimestre de 2027. Em junho de 2025, abriu em Lisboa seu primeiro escritório fora do Brasil, ao lado da Embraer Defense Europe. Em junho deste ano, firmou parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC/USP) para usar inteligência artificial na previsão de trajetórias de aeronaves em quatro dimensões. A experiência em tráfego aéreo também serve a outra empresa do grupo: em 2023, a Eve Air Mobility informou que a Atech apoiou o desenvolvimento de seu software de gestão de tráfego aéreo urbano, voltado aos futuros “carros voadores”. 


Por que a Atech importa para a Embraer 
A empresa nasceu em dezembro de 2009, da cisão parcial da Fundação Atech, herdeira de um programa de absorção de tecnologia de controle de tráfego aéreo da Força Aérea Brasileira iniciado na década de 1980. A Embraer Defesa & Segurança comprou 50% do capital em abril de 2011 e assumiu o controle total em 2013. Credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa, a Atech mantém unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, São José dos Campos e Brasília.

Para o grupo, a subsidiária cumpre ao menos três funções. A primeira é transformar a Embraer de fabricante de plataformas em fornecedora de soluções integradas: o avião, o radar, o centro de comando e o software que une tudo. A segunda é financeira, pois os contratos de suporte e atualização de sistemas de missão e de tráfego aéreo geram receitas recorrentes que suavizam os ciclos longos das encomendas de aeronaves. A terceira é a credibilidade internacional: o sistema brasileiro de gestão de tráfego aéreo é reconhecido pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), e a presença em programas como o Labgene e as fragatas atesta capacidade de lidar com sistemas de missão crítica.

Os números confirmam o peso da operação. Segundo as demonstrações financeiras de 2025, a Atech, controlada integralmente pela Embraer Defesa e Segurança Participações, registrou receita líquida de R$ 344,6 milhões, alta de cerca de 27% sobre os R$ 271,3 milhões de 2024. O lucro líquido somou R$ 70,6 milhões, pouco abaixo dos R$ 73,9 milhões do ano anterior. O relatório da administração aponta ainda crescimento de 75% nas vendas e de 25% na carteira de pedidos (backlog), indicadores que se referem a negócios fechados e não devem ser confundidos com a receita reconhecida no exercício. Um detalhe chama a atenção: o documento não menciona a linha antidrone entre os destaques do ano, o que indica que o C-UAS, embora promissor, ainda não tem peso relevante no faturamento. 


A estratégia ganhou novo instrumento em 28 de abril, quando a Atech assinou memorando de entendimento com a ALADA, estatal designada pelo Ministério da Defesa para conduzir exportações no modelo governo a governo (G2G). O acordo pode facilitar a venda de sistemas de C4I e antidrone a governos estrangeiros, em sintonia com as negociações que a própria Embraer conduz para o KC-390 e o Super Tucano.

À frente da empresa está um executivo formado dentro do grupo. Engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com MBAs pela FIA-USP e pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Rodrigo Persico acumula mais de duas décadas na Embraer, onde atuou em engenharia de produto no Brasil e no exterior e, a partir de março de 2020, ocupou a vice-presidência de Inteligência de Mercado da unidade de Defesa & Segurança, antes de suceder Edson Mallaco na presidência da Atech.

O que vem pela frente 
A demanda por proteção antidrone deve continuar crescendo, impulsionada pelas lições da Ucrânia e do Oriente Médio, pela proteção de grandes eventos e pela escalada do uso criminoso dessas aeronaves no País. O posicionamento da Atech, porém, tem limites que convém observar. Sensores de radiofrequência dependem de que o drone emita sinais. Aeronaves totalmente autônomas, que voam sem enlace de rádio, ou os drones FPV guiados por fibra óptica, cada vez mais comuns no front ucraniano, não deixam rastro no espectro. Contra esse tipo de ameaça, a detecção depende de radares e câmeras, e a neutralização exige meios cinéticos (hard kill), que a empresa não fabrica e precisaria integrar por meio de parceiros.
No entanto, sua grande capacidade de integração representa um passo importante em direção a esse objetivo.

É justamente nessa capacidade de integração que reside a principal vantagem da subsidiária. Como camada de comando e controle, o Arkhe pode, em tese, agregar sensores e armas de diferentes fabricantes, inclusive os de uma eventual defesa antiaérea em camadas do Exército e da Força Aérea. Se essa vocação de integradora se confirmar também no antidrone, como já ocorre nas fragatas e no controle do espaço aéreo, a Atech tende a deixar de ser a parte menos visível do Grupo Embraer para se tornar uma das mais estratégicas.

03 setembro, 2026

Brasil eleva Embraer e Petrobras a peças de uma nova agenda industrial com a África do Sul

Ata da Comissão Mista Brasil-África do Sul associa o KC-390, os jatos E2 e o retorno da Petrobras dentro de uma mesma estratégia de aprofundamento econômico entre os dois países 

Renderização de um C-390 nas cores da Força Aérea Sul-Africana

*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

O chanceler brasileiro Mauro Vieira colocou, em uma única frase de discurso, três negócios que normalmente seriam tratados como notícias separadas. Na ata final da VIII Sessão da Comissão Mista Brasil-África do Sul, realizada em 26 de agosto de 2026, em Pretória, o Vieira “destacou também as negociações em curso relativas à aeronave brasileira de transporte militar KC-390 e aos jatos regionais E2 da Embraer, e observou as oportunidades decorrentes da retomada das operações da Petrobras na África do Sul”, segundo o documento assinado por ele e pelo ministro sul-africano Ronald O. Lamola.

Isoladamente, nenhum dos três temas é inédito. O interesse sul-africano pelo KC-390 já é acompanhado desde 2023; a presença comercial da Embraer no País, por meio da Airlink, é antiga; e o retorno da Petrobras à exploração na África do continente vem sendo construído desde 2024. A novidade está em outro lugar: pela primeira vez, os três temas aparecem reunidos dentro do texto oficial de uma reunião ministerial de alto nível, como parte da mesma agenda econômica e estratégica bilateral, e não mais como notícias setoriais dispersas.

Defesa: o KC-390 como carro-chefe industrial 
No eixo de defesa, o compromisso já tem lastro contratual. Em abril de 2025, durante a feira LAAD Defence and Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Denel, estatal sul-africana de defesa, assinaram um memorando de entendimento para uma futura colaboração na fabricação de aeroestruturas e em serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO) do KC-390. O acordo foi firmado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança, e Chris Boshoff, CEO da área aeroespacial da Denel.

A ata da Comissão Mista recupera esse memorando e o descreve como potencial gerador de cooperação industrial aeroespacial, desenvolvimento tecnológico, integração em cadeias internacionais de suprimentos e transferência de competências entre as indústrias de defesa dos dois países. O documento tem uma seção própria dedicada ao programa KC-390, na qual os dois governos registram que prosseguem as discussões sobre a possível adoção da aeronave na África do Sul.

Do lado comercial, a ofensiva da Embraer ganhou estrutura dedicada em janeiro de 2026, quando a fabricante nomeou Leandro Marc Pienaar como diretor de Desenvolvimento de Negócios para a África Austral, com a promoção do KC-390 e do A-29 Super Tucano entre suas atribuições. Pienaar, formado em engenharia mecânica pela Universidade de Pretória, veio da Milkor (Pty) Ltd, onde negociou contratos de defesa em todo o continente.

A publicação sul-africana DefenceWeb confirmou, em reportagem de 26 de junho de 2026, que a Embraer vê o KC-390 como a aeronave preferencial para substituir a envelhecida frota de C-130BZ Hercules da Força Aérea Sul-Africana (SAAF). Segundo Marcio Monteiro, diretor de Marketing da Embraer Defesa & Segurança, a força aérea sul-africana gastou 2,3 bilhões de rands entre os exercícios fiscais de 2021/22 e 2025/26 apenas com fretamento de aeronaves para sustentar missões de paz na República Democrática do Congo e em Moçambique, recurso que poderia ter sido direcionado à compra de aviões novos.

Um fator estratégico adicional reforça o interesse: Brasil e África do Sul operam o caça sueco Gripen (a FAB com as versões E/F, a SAAF com C/D), e o KC-390 já foi certificado, em testes conduzidos com a Saab e a Força Aérea Brasileira, para reabastecer Gripens em voo. A África do Sul perdeu sua capacidade de reabastecimento aéreo com a aposentadoria dos Boeing 707 usados como tanque. 

Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa (D) observa o interior de uma aeronave de transporte Embraer C-390 Millennium durante sua visita à Africa Aerospace and Defence (AAD) 2024 Trade and Exhibition na Base Aérea de Waterkloof, em Pretória, em 18 de setembro de 2024. (Foto de Phill Magakoe / AFP)

Aviação comercial: os E2 em um mercado já consolidado 
Se no KC-390 a Embraer ainda negocia uma venda, na família E2 ela já colhe resultados. A Airlink, maior operadora de aeronaves Embraer da África desde 2001 e dona de uma frota de 70 aparelhos da fabricante, fechou em agosto de 2025 um contrato de leasing com a Azorra para dez unidades do E195-E2. As três primeiras aeronaves foram entregues entre setembro e outubro de 2025 e entraram em operação comercial em dezembro daquele ano, com voo inaugural entre Joanesburgo e Durban; as demais devem chegar até 2027.

O mercado sul-africano foi formalmente aberto à nova geração de jatos em 3 de setembro de 2025, quando a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) concedeu a certificação de aceitação de tipo ao E190-E2 e ao E195-E2. Segundo Stephan Hannemann, vice-presidente sênior da Embraer para África e Oriente Médio, a certificação abriu novas oportunidades para as aeronaves no continente.

É nesse contexto que a menção de Vieira a negociações envolvendo os E2 ganha outro significado. Como o negócio com a Airlink já está em curso, a referência do chanceler sugere uma agenda comercial mais ampla do que essa operação isolada, possivelmente incluindo outras companhias aéreas sul-africanas ou aprofundamento da cooperação industrial em torno da família E2, e não apenas a confirmação de um contrato que já foi assinado.

Energia: a Petrobras de volta ao setor exploratório sul-africano 
O terceiro eixo citado por Vieira é a retomada das operações da Petrobras na África do Sul. A estatal brasileira participa do bloco Deep Western Orange Basin (DWOB), na costa sul-africana, operado pela TotalEnergies, dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento da companhia no continente africano desde fevereiro de 2024. A mesma estratégia já rendeu à Petrobras participação em blocos na Namíbia (o 2613, também com a TotalEnergies) e em São Tomé e Príncipe, onde a estatal brasileira é operadora, com 75% do Bloco 3.

A ata da Comissão Mista também registra que os dois países discutem a finalização de um acordo de cooperação nuclear, que permitiria o comércio na área nuclear entre Brasil e África do Sul, além de intercâmbios técnicos sobre transmissão elétrica, energias renováveis e minerais críticos.

Uma agenda industrial em formação 
Reunidos em um único parágrafo da fala oficial do chanceler brasileiro, os três temas (defesa, aviação comercial e energia) desenham algo que ultrapassa o comércio bilateral tradicional entre Brasil e África do Sul, historicamente descrito nas atas da Comissão Mista sobretudo pelos números de exportação de minérios, produtos químicos e alimentos. A ata de 2026 também documenta outros sinais dessa aproximação industrial: a cooperação entre a Denel e a Embraer, apontada como base para participação da indústria sul-africana no programa KC-390; a chegada da missão empresarial sul-africana ao Brasil em agosto de 2026, com empresas dos setores aeroespacial, de defesa e de mineração; e as tratativas para um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos entre os dois países, que ambos os lados pretendem concluir até o fim de 2026.

Ainda não há confirmação de uma decisão de compra do KC-390 pela SAAF, nem detalhamento oficial de quais negociações específicas em torno dos E2 Vieira tinha em mente ao discursar em Pretória. O que a ata deixa mais claro é a intenção política de tratar aeroespacial e energia como setores estratégicos comuns entre os dois países, ao lado de temas já consolidados como agronegócio e mineração.

28 maio, 2026

Suécia autoriza compra de Gripen E/F pela Ucrânia e promete doar 16 caças C/D

Acordo prevê aquisição inicial de até 20 aeronaves com recursos de empréstimo europeu; Saab já estuda escalonamento da produção para atender demanda ucraniana  


*LRCA Defense Consulting - 28/05/2026

A Suécia anunciou nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, que habilitará a Ucrânia a adquirir até vinte caças JAS 39 Gripen E/F numa primeira etapa, com Kiev destinando 2,5 bilhões de euros provenientes do Empréstimo de Apoio da União Europeia para financiar a compra. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Ulf Kristersson durante visita à Ala Aérea de Uppland, próxima a Uppsala, e representa o mais expressivo compromisso de transferência de aviação de combate ocidental à Ucrânia desde o início da guerra.

Atrelada ao avanço da compra, Estocolmo também manifestou a intenção de doar dezesseis Gripen C/D como assistência bilateral assim que a aquisição dos novos modelos for confirmada. Os aparelhos da versão C/D já estão fabricados e em serviço na Força Aérea sueca, o que permite prazos de entrega mais curtos do que os das aeronaves da linha E/F, ainda em produção.

Contexto: da carta de intenções ao contrato
O caminho para o acordo foi aberto em 22 de outubro de 2025, quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o premier Kristersson assinaram, na cidade de Linköping (sede da Saab), uma Carta de Intenções sobre cooperação em capacidades aéreas. Na ocasião, Zelensky afirmou que Kiev aguardava pelo menos cem aeronaves do tipo, enquanto Kristersson descreveu o documento como "o início de uma longa jornada de dez a quinze anos".

Em novembro de 2025, o ministro da Defesa ucraniano, Denys Shmyhal, visitou a sede da Saab para discutir detalhes técnicos e etapas de entrega. No mesmo mês, um memorando entre empresa ucraniana e a fabricante sueca lançou as bases para a eventual produção local dos caças na Ucrânia a partir de 2033. Em maio de 2026, o CEO da Saab, Micael Johansson, afirmou esperar a assinatura de um contrato de fornecimento em questão de meses, condicionando o avanço aos acordos políticos entre os dois governos.

O Gripen E/F: capacidades técnicas
O JAS 39 Gripen E é a versão mais avançada da família Gripen, equipado com radar de varredura eletrônica ativa (AESA) Raven ES-05, motor General Electric F414G (25% mais potente do que o RM12 das variantes anteriores) e sistema integrado de guerra eletrônica. O raio de combate foi ampliado para cerca de 1.500 km, 40% superior ao das versões C/D, enquanto a aeronave conta com dez pontos de fixação para armamentos, incluindo mísseis ar-ar de longo alcance como o Meteor. A versão F é a variante biplaza do mesmo modelo.

Uma característica estrategicamente relevante para o contexto ucraniano é a capacidade de operar em pistas curtas e não convencionais, de até 800 metros, permitindo decolagens e pousos em aeródromos improvisados ou com infraestrutura danificada. Esse requisito foi historicamente incorporado ao projeto para refletir as doutrinas de defesa territoriais dos países nórdicos.

A Saab consegue fabricar entre 20 e 30 aeronaves por ano, capacidade considerada insuficiente para atender à demanda ucraniana, que seria de 100 a 150 exemplares no curto prazo. Além da Ucrânia, a empresa já tem contratos ativos com o Brasil (36 Gripen E/F), a Colômbia (17 Gripen E/F) e a Tailândia (4 Gripen E/F na série Peace Burapha 1), além dos 60 exemplares encomendados pela própria Força Aérea sueca.

Imagem meramente ilustrativa

Pacote de apoio militar mais amplo
O governo sueco apresentou simultaneamente o maior pacote de apoio militar a Kiev até a data do anúncio. Além de viabilizar a doação dos Gripen C/D, o pacote inclui capacidades de longo alcance, munição, equipamentos de guerra eletrônica e apoio à inovação em defesa. O total acumulado de suporte militar sueco à Ucrânia desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022 ultrapassa 103 bilhões de coroas suecas, e o governo propôs um arcabouço de 80 bilhões de coroas para os anos de 2026 e 2027.

Frota ocidental ucraniana em expansão
Os Gripen serão integrados a uma frota de aviões ocidentais que a Ucrânia vem montando desde meados de 2024. O país já opera F-16s de fornecimento norte-americano e holandês, além de Mirage 2000 da França. Apesar dos reforços, as autoridades ucranianas reiteraram que a capacidade aérea atual ainda é insuficiente para deter os ataques diários de drones e mísseis russos sobre cidades e infraestruturas críticas.

A perspectiva de pilotos ucranianos com o Gripen é entusiasmada. O piloto Vadym Voroshylov, com o codinome Karaya, descreveu o JAS 39 como "o único caça pelo qual abriria mão de tudo" e como "opção ideal" para as necessidades do país. Programas de treinamento de pilotos e técnicos ucranianos em solo sueco foram discutidos em dezembro de 2025.

Próximas etapas
A formalização do contrato de compra dos Gripen E/F depende da confirmação política entre os dois governos, condição apontada pelo CEO da Saab como o principal fator determinante do calendário. Uma vez firmado o acordo, a empresa afirmou estar pronta para iniciar os trabalhos imediatamente. A entrega dos primeiros Gripen C/D doados pode ocorrer em prazo mais breve, dado que se trata de aeronaves já em operação.

O pacote anunciado hoje representa o estágio mais concreto da parceria aérea sueco-ucraniana, que começou como uma carta de intenções há pouco mais de sete meses e avança agora para compromissos financeiros e prazos de entrega.

Quadro de dados

Item

Detalhe

Aeronaves doadas

16 JAS 39 Gripen C/D

Aeronaves a adquirir (1ª etapa)

Até 20 JAS 39 Gripen E/F

Valor alocado pela Ucrânia

2,5 bilhões de euros (Empréstimo de Apoio da UE)

Perspectiva de longo prazo

100 a 150 Gripen E/F

Produção local na Ucrânia

Prevista a partir de 2033

Capacidade de produção da Saab

20 a 30 aeronaves por ano

Motor (Gripen E)

General Electric F414G (+25% de empuxo)

Radar

AESA Raven ES-05 (Gripen E)

Raio de combate (Gripen E)

Cerca de 1.500 km

 

Postagem em destaque