Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens

26 agosto, 2026

Escondidos na floresta, tanques ocidentais viram peso morto na Ucrânia

Reportagem do New York Times revela crise entre o general afastado do comando ucraniano e os blindados de 10 milhões de dólares parados diante do avanço dos drones baratos; o dilema chega também ao debate brasileiro sobre blindagem e sistemas autônomos. 



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Numa floresta na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, um grupo de tanques Leopard 2 de fabricação alemã permanece escondido sob redes de camuflagem, com as torres viradas para trás, na chamada posição de viagem. Alguns aguardam reparos; outros, cobertos de teia de aranha, ficam de prontidão para um combate que as ordens já não chegam a determinar. A cena, registrada pelo fotógrafo Brendan Hoffman e descrita em reportagem publicada pelo New York Times em 25 de agosto, resume o destino de uma das armas mais disputadas pela Ucrânia desde o início da guerra: os blindados ocidentais, hoje reduzidos a reboque de emergência e a alvo de debate estratégico dentro do próprio comando militar ucraniano.

A 33ª Brigada Mecanizada Separada, batizada em parte para operar esses veículos, hoje trava sua rotina longe deles. No posto de comando da unidade, telas mostram imagens ao vivo de drones bombardeiros, um drone terrestre avançando por uma trilha lamacenta e drones de vigilância sobre uma casa em chamas. Tanques, segundo a reportagem, não aparecem em nenhuma delas.

Da glória à floresta 
A Ucrânia pediu tanques ocidentais quase imediatamente após a invasão russa em fevereiro de 2022, quando pareciam essenciais para romper as linhas inimigas. O pedido só foi atendido em janeiro de 2023, depois de meses de negociações e de pressão pública sobre Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Berlim cedeu os Leopard 2; Washington, os Abrams; e a Suécia, os Strv 122, versão reforçada do próprio Leopard 2A5.

A 33ª Brigada foi formada, em parte, para receber esses veículos, mas, quando os Leopard finalmente entraram em combate na primavera seguinte, os drones baratos já infligiam perdas pesadas e conseguiam atingir os pontos mais vulneráveis dos blindados. Um relatório do Congressional Research Service (CRS), órgão de pesquisa do Congresso americano, mostra que o problema já se manifestava meses antes, durante a contraofensiva ucraniana de 2023: as novas unidades treinadas pelo Ocidente enfrentaram dificuldade real para executar operações de armas combinadas e para romper os extensos campos minados russos. Em julho daquele ano, o então chefe do Estado-Maior Conjunto americano, general Mark Milley, chegou a admitir publicamente que expulsar militarmente as forças russas seria “muito, muito difícil” naquele ano.

Do lado russo, tropas passaram a cobrir seus próprios tanques com telas e gaiolas antidrone, solução inicialmente ridicularizada por parecer improvisada. Segundo um chefe de manutenção da 33ª, identificado apenas pelo codinome Energetyk, os russos foram motivo de piada no início, mas estavam no caminho certo; a Ucrânia acabou seguindo pelo mesmo caminho, somando blindagem reativa (painéis externos que detonam ao serem atingidos) às gaiolas de proteção. Ainda assim, os dois lados praticamente abandonaram o emprego de blindados pesados em operações ofensivas. 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA

Rotina sem combate 
A 33ª mantém exercícios de tiro real a cada duas semanas, aproximadamente, para não perder o preparo técnico das tripulações. Num desses treinos, entre campos de girassol, um tanque disparou contra alvos distantes enquanto soldados aguardavam à sombra, comendo sementes e dividindo um refrigerante.

No dia a dia, porém, os Leopard raramente saem da floresta onde ficam guardados. Um dos veículos, atingido por um drone na torre, aguarda reparo ao lado de outro cujo motor foi trocado depois que o tanque pegou fogo ao passar sobre uma mina. Segundo Energetyk, os danos mais recentes não vieram do combate, mas das chamadas evacuações: as vezes em que o tanque reboca equipamento avariado, funcionando, na prática, como um trator extraordinariamente caro. Mesmo essas saídas só ocorrem em dias de mau tempo, quando chuva, vento e baixa visibilidade reduzem o número de drones em operação.

Um piloto de drones ucraniano entrevistado pela agência Reuters em fevereiro resumiu essa nova realidade: “a velocidade humana não se compara à de um drone FPV”, disse Andriy Meskov, ferido meses antes por um drone que ricocheteou em seu capacete.

Motoristas e artilheiros da 33ª descrevem sentimentos contraditórios sobre a nova rotina. Um deles, identificado como Golden, prefere que os tanques permaneçam fora de combate depois de ter sobrevivido a um incêndio dentro de um veículo. Outro, o motorista Mechan, compara dirigir um Leopard a dirigir um carro de luxo alemão, mas hoje pratica, à noite, a pilotagem de drones terrestres; ele reconhece que a era dos tanques, tal como a conheceu, parece ter chegado ao fim. Já Korzhyk, recruta incorporado à brigada em 2025, nunca sequer tocou num tanque: seu trabalho diário é consertar drones terrestres numa oficina escura. 

O general que perdeu o cargo 
O episódio que dá à reportagem seu contorno mais político envolve o afastamento do general Oleksandr Syrskyi, até o mês passado o principal comandante das Forças Armadas ucranianas. Segundo o New York Times, a saída de Syrskyi decorreu de um embate interno sobre estratégia de guerra, tendo como pano de fundo justamente a pergunta sobre o que fazer com os blindados ocidentais. “Praticamente não estamos fazendo uso de veículos blindados”, disse Syrskyi recentemente, segundo a reportagem, acrescentando que a situação levanta a pergunta sobre como neutralizar essa vantagem dos drones e devolver alguma vida útil aos blindados.

Enquanto o alto comando debate uma resposta doutrinária, unidades como a 33ª não esperam a solução vir de cima. Segundo o comandante Morpheus, a exigência que ele mesmo impõe ao batalhão é a de que as tripulações aprendam algo novo constantemente; hoje, metade dos efetivos sob seu comando já se retreinou como operador de drones. Para ele, um eventual retorno dos tanques ao combate dependeria de um avanço tecnológico significativo. 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA

A superioridade aérea que não basta mais
Essa premissa de superioridade tecnológica esteve historicamente ligada a outra: a de que o emprego maciço de blindados dependia de superioridade aérea, entendida como a combinação entre liberdade em relação à aviação inimiga e a consequente liberdade de manobra no solo. Foi assim na Normandia em 1944, quando o domínio aliado dos céus permitiu que colunas blindadas avançassem sem temer a Luftwaffe, e foi assim, de forma explícita, na doutrina americana AirLand Battle, de 1982, que integrava deliberadamente o poder aéreo à manobra blindada em massa para compensar a superioridade numérica do Pacto de Varsóvia na Europa.

Com os drones, esse conceito parece ter se partido em duas camadas. Analistas ocidentais vêm chamando a faixa mais baixa do espaço aéreo, entre o solo e a altitude onde operam caças e bombardeiros tradicionais, de litoral aéreo (do inglês “air littoral”). A tese é que uma força pode conquistar a chamada superioridade nos céus (“blue skies”) contra a aviação inimiga e, ainda assim, ver seus blindados impedidos de avançar, porque a faixa mais baixa permanece saturada de drones baratos demais e numerosos demais para justificar o emprego de armamento ar-ar convencional contra eles. Um artigo publicado pela revista Foreign Policy chega a afirmar que essa dinâmica tornou “as antigas doutrinas ocidentais de superioridade aérea amplamente obsoletas”.

Nem todos os analistas aceitam o conceito como uma ruptura doutrinária. A revista Air and Space Forces Magazine, publicação ligada à força aérea americana, argumenta que a faixa baixa do espaço aéreo já era historicamente disputada por artilharia antiaérea e mísseis portáteis, e que rebatizá-la de litoral aéreo não cria um domínio novo, apenas dá nome chamativo a um problema antigo. Para essa corrente, “drones e mísseis de cruzeiro não redefiniram a superioridade aérea”; eles se tornariam necessários justamente porque nenhum dos lados da guerra da Ucrânia conseguiu, de fato, obter superioridade aérea plena no sentido clássico. 

De um modo ou de outro, o efeito prático sobre os blindados ocidentais na Ucrânia é o mesmo: caças e bombardeiros podem voar livres em média e alta altitude sem que isso devolva aos tanques a liberdade de manobra que a doutrina do século 20 lhes prometia.


Questão de tripulação, não de conceito 

A experiência ucraniana sugere que a resposta talvez não esteja no fim do tanque como conceito, mas no fim do tanque tripulado como se conhece hoje. É a aposta do próprio Morpheus, que se disse convencido de que os blindados ainda têm futuro, mas ressalvou que esse futuro provavelmente será não tripulado. O comandante de companhia identificado como Fin alimenta expectativa parecida: para ele, sistemas equipados com inteligência artificial poderiam um dia criar cúpulas de proteção ou interceptores de drones próprios, devolvendo aos blindados algum grau de sobrevivência.

Essa hipótese já ecoa, em outro contexto, na literatura militar ocidental. Um artigo publicado na edição de julho e agosto de 2025 do Military Review, revista profissional do Exército americano editada pela Army University Press, discute como sistemas de proteção ativa, inteligência artificial e veículos autônomos poderiam devolver a uma força tecnologicamente superior aquilo que o texto chama de overmatch, uma vantagem operacional decisiva sobre qualquer adversário. O artigo não trata do caso ucraniano especificamente, mas descreve um raciocínio semelhante: a sobrevivência de uma plataforma blindada pode depender menos da espessura de sua blindagem e mais da capacidade de detectar, decidir e reagir antes do adversário, com ou sem tripulação a bordo.

Essa mudança de eixo toca também numa premissa histórica da indústria de defesa ocidental: a de que a superioridade tecnológica de uma plataforma sofisticada e cara compensaria sua produção em pequena escala. Durante décadas, essa lógica orientou o desenvolvimento de tanques como o Leopard, o Abrams e o Strv 122, veículos concebidos para operar sob superioridade aérea e cobertura eletrônica plena da OTAN. A guerra da Ucrânia introduz uma variável nova a essa equação: talvez a vantagem tecnológica não esteja mais concentrada na plataforma, e sim migrando para a rede de sensores, drones e dados que a cerca. 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA

O que isso significa para o Brasil 
Esse debate não é só ucraniano ou americano. Programas de blindados, sensores, guerra eletrônica, defesa antidrone, munições inteligentes e sistemas autônomos ocupam também a agenda dos militares e da indústria de defesa brasileira, e a experiência ucraniana tende a pesar sobre as próximas escolhas doutrinárias das Forças Armadas no País,  especialmente do Exército. 
 
A pergunta que atormenta o alto comando ucraniano, sobre como proteger uma plataforma blindada num campo de batalha saturado de sensores efetores baratos, é, em essência, a mesma que qualquer força blindada precisará responder daqui em diante, inclusive a brasileira, à medida que doutrina, aquisição e emprego de blindados forem reavaliados à luz da guerra na Europa.

De volta à floresta na região de Kharkiv, Energetyk segue trocando motores de tanques que talvez nunca mais disparem em combate. Entre os pinheiros, o silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros contrasta com o rugido que essas máquinas ainda prometem entregar, um dia, aos comandantes ucranianos.

19 agosto, 2026

Dos canhões às narrativas: uma guerra com ecos que ainda ressoam

Aval de Lula para devolver ao Paraguai o canhão capturado em 1868 reabre a discussão sobre tombamento, memória militar, narrativa historiográfica e os limites de uma decisão fechada de gabinete



*LRCA Defense Consulting - 20/08/2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou, em reunião de fim de julho com os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, a devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, peça de doze toneladas capturada pelas forças brasileiras durante a Guerra do Paraguai e guardada desde 1922 no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. A decisão, revelada pela jornalista Bela Megale, do jornal O Globo, ainda não tem data de execução e depende de trâmites do Itamaraty e de um procedimento administrativo pouco discutido publicamente: a retirada do tombamento da peça pelo Iphan.

Da fala ao pedido formal 
O episódio nasceu de uma frase. Em 24 de julho, durante visita à fábrica da Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), Lula defendeu o investimento em Defesa citando o conflito do século 19: “um belo dia o Paraguai decidiu invadir o Brasil (...) invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina”. A Câmara dos Deputados do Paraguai respondeu com nota de repúdio, acusando o presidente brasileiro de distorcer a dimensão histórica da guerra, e pediu ao Executivo paraguaio que cobrasse formalmente a restituição do El Cristiano. Dias depois, o vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, entregou ao embaixador brasileiro José Antonio Marcondes um pedido que vai além desse canhão: inclui também outro troféu, o canhão Presidente López, acesso a documentos de arquivo sobre o conflito e o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio sobre o período.

Um troféu tombado 
O El Cristiano não é um objeto qualquer no acervo público brasileiro. A peça, fundida no Paraguai em 1867 com bronze de sinos de igreja, foi trazida ao País ao fim da guerra e, depois de décadas expostas no antigo Arsenal de Guerra, foi transferida em 1922 para o Museu Histórico Nacional, durante as comemorações do centenário da independência. Desde então está inscrita no Livro do Tombo, sob proteção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Isso significa que, juridicamente, o canhão não pode simplesmente ser embalado e enviado a Assunção: é preciso, antes, destombá-lo.

O destombamento é regido pelo Decreto Lei 3.866, de 1941, e ocorre apenas por decisão do presidente da República, mediante justificativa de interesse público. Não depende de aprovação do Congresso brasileiro nem de consulta pública ampla; a prerrogativa é do Executivo. Ou seja, do ponto de vista estritamente legal, um governo pode sim, por ato administrativo, reverter um tombamento que dura mais de um século. 

A pergunta que fica em aberto não é sobre a legalidade formal do gesto, mas sobre o rito que o cerca: enquanto o Paraguai tratou o tema no plenário de seu Legislativo, aprovando nota oficial, a decisão brasileira nasceu de uma reunião fechada entre o presidente, os três comandantes militares e o ministro da Defesa, sem qualquer processo equivalente de deliberação pública.

O precedente de 2014 
Não é a primeira vez que o tema chega a Brasília. No aniversário de 150 anos do início da guerra, entre 2014 e 2015, o governo de Dilma Rousseff também cogitou devolver o canhão, num gesto que seria patrocinado pela Itaipu Binacional. A devolução não avançou por causa da oposição do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, e do próprio tombamento do Iphan, que funcionou, naquele momento, como obstáculo efetivo. Uma década depois, o impedimento legal segue de pé, mas o resultado político é distinto: agora há aval presidencial explícito, com o conhecimento dos três comandantes militares, o que sugere que o Alto Comando das Forças Armadas não vê, hoje, motivo para resistir ao pedido paraguaio. 

Canhão El Cristiano exposto no Pátio dos Canhões 
do Museu Histórico Nacional

De quem é a guerra 
A disputa em torno do canhão reabre também uma questão historiográfica que a fala de Lula, ainda que sucinta, resume com razoável fidelidade aos fatos. A Guerra do Paraguai (também chamada Guerra da Tríplice Aliança, ou, no Paraguai, Guerra Grande) começou com a invasão paraguaia à província brasileira de Mato Grosso, em dezembro de 1864, precedida pela captura, em novembro daquele ano, do vapor brasileiro Marquês de Olinda. Em abril de 1865, tropas paraguaias avançaram também sobre a província argentina de Corrientes, episódio que selou a formação da Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai. O próprio Solano López justificou a ofensiva como resposta à intervenção brasileira na crise política uruguaia, mas a sequência factual dos episódios não deixa dúvida sobre quem cruzou a fronteira primeiro.

Há, é verdade, uma corrente historiográfica revisionista, popularizada a partir do livro Genocídio Americano, de Julio José Chiavenato (1979), que desloca o eixo da responsabilidade para o imperialismo britânico e para interesses geopolíticos de Brasil e Argentina. Trata-se, porém, de leitura minoritária no meio acadêmico, ainda que influente na memória popular e, ao que tudo indica, na origem do pedido paraguaio de “reconhecimento institucional” sobre o período. 

Mais que os troféus, uma narrativa
É esse item do pedido paraguaio, o menos comentado até aqui, que talvez seja o mais decisivo. Ao lado da devolução do El Cristiano e do Presidente López, e do acesso a documentos de arquivo, o vice-presidente Pedro Alliana pediu também o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio sobre a guerra, o mesmo Legislativo que, na nota de repúdio a Lula, reafirmou seu compromisso com a defesa da “memória histórica” paraguaia do conflito. Lidos em conjunto, os quatro itens sugerem que a disputa não se limita a peças de museu. 

O que Assunção parece buscar, para além dos objetos, é que Brasília valide institucionalmente uma versão do conflito que, no Paraguai, tende a enquadrar a guerra como agressão externa sofrida pelo país, relativizando a sequência factual que a historiografia brasileira majoritária reconhece: a invasão paraguaia a Mato Grosso, em dezembro de 1864, seguida do avanço sobre território argentino em 1865. Se essa leitura estiver correta, devolver o canhão seria apenas o primeiro gesto de um processo mais amplo, no qual o Brasil seria chamado, não a rever os fatos, mas sim a rever a forma pública como os reconhece.

O que fica de fora do debate 
A questão levantada pelo jornalista Angelo Nicolaci, do portal GBN Defense, em artigo publicado nesta quarta-feira (19/08), sintetiza bem o incômodo que a decisão provoca em setores ligados às Forças Armadas: reduzir o El Cristiano a um “objeto paraguaio que precisa voltar para casa” ignora que a peça também é parte da memória militar brasileira, construída com o sangue de milhares de soldados mortos em combate ou por doenças ao longo de cinco anos de guerra. Em texto de circulação nos círculos militares, o coronel reformado Alexandre de Andrade Cardoso levanta ponto semelhante ao comparar o tratamento dado por Espanha e outras nações a seus troféus de guerra (incorporados a monumentos públicos como símbolo de orgulho nacional), com a postura brasileira de sucessivas devoluções: bandeiras tomadas aos paraguaios, a espada do marechal Solano López, documentos e outras presas de guerra já retornaram a Assunção ao longo das últimas décadas. Para Cardoso, o Brasil corre o risco de ficar sem nenhum símbolo material de seu próprio patrimônio de guerra. 

O espelho paraguaio
A assimetria do debate fica mais clara com um contraponto que o próprio Cardoso lembra em seu texto: o vapor de guerra Anhambay, da Marinha brasileira, que participou da defesa do Forte Coimbra, em dezembro de 1864, e foi capturado pelos paraguaios poucos dias depois, em 6 de janeiro de 1865, no início do conflito. O casco do navio é hoje a principal atração do Parque Nacional Vapor Cué, a 98 quilômetros de Assunção, onde o resgate das embarcações e a instalação de um museu naval começaram em 1978; o local só foi formalmente declarado Patrimônio Histórico Nacional do Paraguai quase quatro décadas depois, em 2017, pelo Decreto nº 7900. Nenhuma autoridade brasileira jamais cobrou a devolução do navio ao País. A comparação não invalida o pedido paraguaio pelo El Cristiano, mas expõe que a lógica de “troféu de guerra que precisa voltar para casa”, se aplicada de um só lado, tende a esvaziar unicamente o acervo brasileiro.

Impasse
O impasse, portanto, não está em saber se o Brasil pode devolver o canhão (pode, tecnicamente, por decreto presidencial), nem em saber se o Paraguai tem direito de reivindicá-lo (tem, legitimamente, como parte de sua memória nacional). Está em dois outros pontos, um de processo e outro de conteúdo. 
 
O primeiro é que um ato de tal magnitude simbólica, envolvendo patrimônio tombado há mais de um século e a memória de milhares de brasileiros mortos em combate, está sendo decidido sem qualquer debate público equivalente ao que ocorreu no Paraguai. 
 
O segundo é que, ao lado do objeto, o próprio pedido paraguaio embute uma disputa sobre qual versão da guerra prevalece: tratar a devolução do El Cristiano como episódio isolado, sem discutir publicamente os demais itens do pacote (o segundo canhão, os documentos de arquivo e o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio), equivale a aceitar, por omissão, os termos dessa narrativa. 
 
Caso se confirme a intenção presidencial, caberá ao Executivo brasileiro explicar, com a mesma transparência exigida do Iphan em qualquer processo de destombamento, os critérios jurídicos e históricos que sustentam a decisão, e dizer com clareza ao País até onde vai o gesto: se termina no canhão, sem ao menos exigir contrapartida com a devolução do vapor de guerra Anhambay, ou se inclui também a validação de uma versão da guerra que a própria historiografia brasileira majoritária não reconhece.

12 junho, 2026

O FPV que chegou à retaguarda: como os drones ucranianos aprenderam a atacar 60 quilômetros além da linha de frente

Combinado com um VANT de reconhecimento usado como relé de comunicações, o barato drone de visão em primeira pessoa deixou de ser uma arma de combate próximo e passou a ameaçar rotas logísticas e nós de comando na profundidade operacional inimiga

 

*
LRCA Defense Consulting - 12/06/2026

Um vídeo publicado em abril de 2026 mostrou algo que, até pouco tempo, seria descartado como improvável: operadores do 426º Regimento de Sistemas Não Tripulados, subordinado ao 30º Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Ucraniana, atacando alvos russos nos arredores de Skadovsk, cidade ocupada na margem esquerda da região de Kherson, a aproximadamente 55 a 60 quilômetros da linha de contato.

O FPV (first-person view), drone pequeno, barato e controlado por piloto com óculos de realidade aumentada, sempre foi associado ao combate de proximidade: ataques a trincheiras, veículos e posições a poucos quilômetros do operador. Em Skadovsk, ele apareceu bem além disso.

A operação combinou os drones FPV com o VANT de reconhecimento PD-2, fabricado pela ucraniana Ukrspecsystems. O PD-2 é uma aeronave de asa fixa com envergadura de cinco metros, autonomia superior a oito horas e alcance declarado de 200 quilômetros. Sua arquitetura de software permite que um único sistema de controle em solo retransmita sinais para múltiplos drones simultaneamente. Na prática, o PD-2 funcionou como uma torre de comunicações voadora: encontrou os alvos, retransmitiu o link de controle para os FPVs e registrou os danos causados.

A arquitetura de rede que substituiu o alcance
O detalhe técnico central é a camada de relé. Um relé de comunicações é um equipamento (ou, no caso ucraniano, um drone) posicionado no meio do caminho que recebe o sinal fraco, amplifica-o ou regenera-o, e o retransmite ao destino final. Um FPV convencional opera, em condições normais, entre 5 e 15 quilômetros do operador. Com a inserção de um VANT maior como intermediário, esse envelope se expande para 50 a 65 quilômetros, segundo análises publicadas pelos portais Defense Express e Army Recognition. O FPV não ganhou bateria maior nem motor mais potente; ganhou uma rede.

Esse mesmo princípio já havia sido documentado do outro lado. Desde o início de 2026, forças russas registraram o uso dos drones Gerbera e Molniya como plataformas-mãe para lançar FPVs contra alvos civis e militares na retaguarda ucraniana, conforme reportado pelo Kyiv Independent. Em fevereiro do mesmo ano, a conversão de um drone Geran-2 (variante do Shahed iraniano) em carregador de FPVs foi interceptada e analisada pelo Army Recognition, que descreveu a lógica da operação: o Geran-2 resolve o problema do trânsito de longo alcance; o FPV resolve o problema da discriminação terminal.

Nos dois lados, a lógica é a mesma: um sistema barato de ataque final embarcado em, ou guiado por, um sistema maior de transporte ou retransmissão.

Profundidade operacional a custo tático 
a implicação estratégica está na geometria do campo de batalha. Skadovsk fica além do que historicamente se chamaria de zona de risco rotineiro de FPV. Uma cidade a 60 quilômetros da linha de frente pertence, na doutrina clássica, à área de retaguarda operacional, o espaço onde unidades descansam, veículos são reabastecidos, munições são estocadas e colunas logísticas trafegam com relativa segurança.

Com a arquitetura de rede agora documentada, essa margem encolhe sem que a linha de frente se mova um metro sequer. Tim De Zitter, responsável pelo ciclo de vida de sistemas antitanque, VSHORAD, contra-drone e munições teleguiadas na Defesa Belga, sintetizou a transformação em análise publicada no LinkedIn: "O FPV não se transformou em um míssil; tornou-se parte de uma rede."

A avaliação é reforçada por um relatório publicado pelo Army Recognition em 31 de maio de 2026, que descreve uma campanha ucraniana de drones com inteligência artificial contra a rede logística russa no sul da Ucrânia e na Crimeia. A campanha combina o sistema de gestão de campo de batalha PRISMA, da empresa americana Palantir, com FPVs de longo alcance e drones de ataque unidirecional para identificar lacunas na defesa antiaérea russa e atacar nós de transporte entre Mariupol e Dzhankoy. Antes de 2026, o alcance típico de FPVs ucranianos era de 10 a 20 quilômetros além da linha de contato. Com os sistemas de fibra óptica e as arquiteturas de relé, esse número avançou para 25 a 50 quilômetros.

Fibra óptica como caminho paralelo
Além dos relés por radiofrequência, a Ucrânia desenvolveu um segundo vetor de extensão de alcance: o controle por cabo de fibra óptica. A empresa ucraniana Ptashka Drones divulgou, em dezembro de 2025, imagens de FPVs controlados por cabos de fibra com carreteis de 50 quilômetros realizando ataques confirmados contra blindados e veículos russos. A vantagem do cabo de fibra é a imunidade à guerra eletrônica: sem sinal de rádio, não há sinal a ser bloqueado.

A Rússia também perseguiu esse caminho. Em setembro de 2025, o portal Defense Express analisou um plano russo de usar drones-relé para quadruplicar o alcance efetivo de FPVs com cabo de fibra óptica, cuja principal limitação física é a atenuação do sinal ao longo do cabo. A solução, nos dois lados, é inserir um repetidor no meio do percurso, na forma de outro drone.

O que muda para a defesa
A dissolução prática da "área segura de retaguarda" coloca pressão direta sobre conceitos doutrinários consolidados. O general Valerii Zaluzhnyi, ex-comandante-chefe das Forças Armadas ucranianas, afirmou que "a própria ideia de uma retaguarda segura está desaparecendo", citado pelo National Interest em janeiro de 2026.

Esta editoria já havia discorrido sobre esse conceito na matéria  "O fim da retaguarda segura: guerra de drones no coração do poder russo", publicada em 07 de junho último. Os fatos de agora apresentam uma nova nuance do problema.

Para forças que ainda organizam sua logística, seus postos de comando e seus estacionamentos de veículos com base na presunção de segurança a partir de determinada distância da linha de frente, a lição do eixo de Kherson é direta: essa distância já não existe. O que existe é uma rede.

A operação contra Skadovsk, um caso documentado entre vários que se acumulam desde o segundo semestre de 2025, é um marcador. Não de uma tecnologia específica, mas de uma doutrina: pequenos sistemas letais, distribuídos em rede com plataformas de reconhecimento e retransmissão, passaram a operar na profundidade operacional sem precisar do custo, do tamanho ou da complexidade que esse alcance historicamente exigia.

O drone barato chegou à retaguarda. E veio para ficar.

10 junho, 2026

As camadas de sobrevivência: o imperativo da artilharia moderna

A artilharia não morreu. Morreu a artilharia que acreditava poder ficar onde atirou e não seguiu as camadas de sobrevivência...

Lançamento do futuro Míssil Tático Balístico AV-SS 100 pelo ASTROS (renderização)
 
*LRCA Defense Consulting - 10/06/2026

Drones percorreram mais de mil quilômetros e atacaram São Petersburgo entre os dias 3 e 6 de junho de 2026, no meio do principal fórum econômico da Rússia. Incendiaram um terminal de petróleo, avariaram seriamente uma corveta da Marinha russa no dique seco de Kronstadt, explodiram paióis navais e paralisaram o aeroporto da cidade. Nenhum avião de combate, nenhum míssil balístico, nenhuma operação de grande escala: apenas drones relativamente baratos produzindo efeitos que, no século passado, exigiriam uma frota inteira de bombardeiros estratégicos.

A cena de São Petersburgo é a versão em tamanho máximo de algo que acontece todos os dias, em escala menor, nas trincheiras do leste da Ucrânia e que está redesenhando a doutrina de artilharia de todos os exércitos do mundo, incluindo o Exército Brasileiro. A lição é simples e brutal: a posição visível é uma sentença de morte. A bateria que atira e fica, é um alvo. A bateria que atira e se move, pode sobreviver.

O ciclo de três minutos
O número que mudou tudo é três. Três minutos. É o tempo que o sistema russo de aquisição de alvos pode levar, em sua versão mais eficiente, para completar o ciclo que vai da observação ao impacto: um observador localiza uma bateria de artilharia, transmite as coordenadas, a central de tiro calcula a solução e os projéteis chegam ao alvo. A informação foi citada pelo capitão Vincent Verdile em artigo publicado no Field Artillery Professional Bulletin de 2026, o boletim oficial de artilharia do Exército americano, com base em análise do Royal United Services Institute (RUSI) sobre a guerra na Ucrânia.

Três minutos é, na prática, menos do que muitas unidades de artilharia do mundo levam para desmontar, reorganizar e partir de uma posição de tiro. Verdile sabe disso por experiência própria: como comandante de pelotão de Paladins, o obuseiro autopropulsado de 155 mm do Exército americano, por dois anos, assistiu à sua bateria levar mais de dez minutos para se deslocar durante o dia. À noite, em uma ocasião, levou mais de uma hora apenas para formar o comboio e sair de uma posição.

A Ucrânia tornou esse problema fatal. O Major-General Andrii Malinovskiy, das Forças Armadas ucranianas, apresentou na Future Artillery Conference 2026, realizada em Londres em maio de 2026, dados que não deixam margem para dúvida: o campo de batalha ucraniano foi transformado em uma zona de engajamento contínuo com profundidade de até 25 quilômetros, criada pelo emprego maciço de drones. Baterias de artilharia são atacadas sistematicamente por drones Lancet russos. A meta ucraniana para o futuro é reduzir a duração de cada missão de tiro para menos de 5 minutos, tempo máximo que uma peça pode permanecer exposta antes de ser localizada e atacada.

Os números operacionais são impressionantes. A Ucrânia registrou 95.300 missões de tiro de artilharia, com 35% de eficácia e 33.360 acertos confirmados. Os drones armados realizaram 326.231 missões, com 34% de eficácia e 110.204 acertos confirmados. Para se proteger, as guarnições ucranianas adotaram grupos móveis de tiro com 2 a 3 militares, abrigos para as peças, nichos de munição separados dos obuseiros e até réplicas de MLRS e radares feitas de madeira e lona, iscas para enganar os drones inimigos.

Diagnóstico americano: o problema começa no adestramento
Verdile não se limitou a descrever o problema. Ele o viveu. Em seu artigo, descreve três vulnerabilidades que encontrou durante uma rotação de adestramento no National Training Center (NTC), em Fort Irwin, Califórnia. o principal campo de treinamento de combate do Exército americano.

A primeira vulnerabilidade é a navegação. O principal meio de orientação das baterias era o JBC-P, um sistema digital de comando e controle embarcado, e aplicativos de celular. Enquanto o sistema funcionava adequadamente para os oficiais, era instável para as guarnições dos obuseiros e para as Centrais de Direção de Fogo, que são os postos onde se calculam as soluções de tiro. O resultado: os pelotões conduziam 90% dos deslocamentos entre posições de tiro, porque os chefes de seção simplesmente não conseguiam navegar sozinhos. Mais de 50% das guarnições não sabiam ler um mapa nem usar um transferidor.

A segunda vulnerabilidade é a consciência situacional, ou seja, saber onde se está no campo de batalha. Sem isso, o padrão regulamentar americano de 75 segundos para executar uma missão de fogo de emergência fora de uma posição designada torna-se impossível. Esse tempo exige que o chefe de seção tome a iniciativa: posicionar o obuseiro e aguardar os dados de tiro, em vez de depender que alguém aponte a direção. Sem consciência situacional, o chefe de seção fica paralisado, o ciclo se dilata e o tempo de sobrevivência se esgota.

A terceira vulnerabilidade é estrutural: o adestramento não replicava a mobilidade necessária para sobreviver. Os exercícios de tiro combinado priorizavam cadência e precisão, sem ênfase em sobrevivência. Os pelotões reusavam as mesmas posições de tiro, repetiam os mesmos percursos, e o modelo mental dominante era o de posições estáticas, herança das operações de contrainsurgência no Iraque e no Afeganistão, onde a maior ameaça era um combatente a pé, não um drone de reconhecimento conectado a um radar de contrabateria.

A solução proposta por Verdile é direta: adestramento em quatro níveis, do soldado até a bateria, que incorpora navegação com e sem apoio tecnológico, planos de comunicação alternativos, reação a todos os tipos de contato, incluindo drones, e exercícios de tiro real com deslocamento de sobrevivência entre posições. Sua frase central resume a intenção: "The intent of prioritizing situational awareness and land navigation in training is to create independent platoons that can displace and move quickly and effectively"; em tradução livre: o objetivo é criar pelotões independentes, capazes de se deslocar com rapidez e eficácia.

Tim De Zitter, gerente de ciclo de vida de sistemas de defesa antiaérea e munições vagantes da Defesa Belga, resumiu a conclusão no LinkedIn no mesmo dia em que o Gen Paixão apresentava em Londres: "A arma que atira e permanece, agora é um alvo. A arma que atira e se move, permanece na luta." 

Mover não basta: as seis camadas de sobrevivência
O Laboratório de Ciência e Tecnologia da Defesa britânico, o Dstl, foi além e apresentou em Londres uma tese incômoda para quem acredita que mover-se é suficiente: o simples shoot and scoot, atirar e correr, não basta diante de drones FPV (que voam na perspectiva do piloto e atacam em alta velocidade), munições guiadas e ciclos de reação cada vez mais curtos.

Os pesquisadores britânicos descreveram a ameaça pelo acrônimo EOF: Exposto, Observado e Frágil. As plataformas de artilharia estão sob vigilância constante, com risco de detecção por sensores sofisticados e de ataque por meios baratos, inclusive drones comerciais adaptados com explosivos que custam menos de 500 dólares e podem destruir um obuseiro que vale milhões.

A resposta proposta é um sistema de proteção em camadas: evitar ser visto, depois evitar ser identificado, depois evitar ser adquirido como alvo, depois evitar ser engajado, depois evitar ser atingido e, por fim, minimizar os danos se for atingido. São seis camadas de sobrevivência. A mobilidade resolve apenas uma delas.

A resposta brasileira em Londres
No mesmo dia em que De Zitter publicava sua análise, o General de Brigada R/1 Moises da Paixão Junior apresentava na Future Artillery Conference 2026 a palestra "Modernising Brazilian Army Artillery for a Multi-Domain Future" (Modernizando a Artilharia do Exército Brasileiro para um Futuro Multidomínio). A conferência, em sua 25ª edição, é considerada o maior fórum mundial de fogos indiretos. O Brasil não enviou apenas um representante: a delegação incluía o Comandante de Artilharia do Exército, o Adido Militar para o Reino Unido, o Subcomandante do Centro de Instrução de Mísseis e Foguetes e dois representantes da Avibras Aeroco. O evento foi tratado institucionalmente como prioridade estratégica.


A posição do Gen Paixão como gerente do Subprograma de Artilharia de Campanha no Escritório de Projetos do Exército (EPEx) coloca-o no centro de todos os programas de modernização da Força Terrestre nessa área.

A palestra organizou a modernização brasileira em três eixos: maior mobilidade e alcance estendido; controle digital do tiro e integração em rede; e fortalecimento da capacidade industrial nacional. Os três respondem diretamente ao diagnóstico de Verdile e De Zitter, e ao ambiente descrito por Malinovskiy nas trincheiras ucranianas.

O obuseiro que sabe onde está: M109 A5+BR e o sistema Gênesis
O eixo da digitalização tem um produto já operacional que merece atenção especial, porque é exatamente a resposta ao problema de navegação e consciência situacional que Verdile diagnosticou nos Estados Unidos: o obuseiro M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis, desenvolvido pela empresa estatal IMBEL.

São 32 obuseiros autopropulsados de 155 mm que agora sabem exatamente onde estão no campo de batalha a qualquer momento, com ou sem apoio de liderança superior. O Gênesis permite posicionamento preciso da peça, o que reduz o tempo entre chegar em uma posição e estar pronto para atirar. O sistema inclui ainda o rádio digital Falcon III e o sistema de intercomunicação SOTAS, da Thales. O resultado é que o chefe de seção do M109 A5+BR pode tomar a iniciativa, posicionar-se e aguardar os dados de tiro sem depender de ninguém para apontar a direção, exatamente o que Verdile recomenda como padrão de adestramento.

Obuseiro M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis, desenvolvido pela IMBEL

O controle digital de fogos para toda a bateria (chamado SISDAC, Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha) é desenvolvido pela própria IMBEL, com foco em precisão, agilidade e apoio de fogo contínuo. Na Future Artillery Conference, esse sistema foi apresentado ao lado de soluções de exércitos como os da Espanha (TALOS), da Alemanha (TARANIS/ADLER III) e da França (ATLAS III), todos buscando o mesmo objetivo: transformar o processo de solicitar, calcular e executar um tiro, que hoje ainda tem muitas etapas manuais, em um fluxo digital rápido, em que sensores, calculadoras e obuseiros falam a mesma língua em tempo real.

A Embraer, em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) desde 2021, desenvolve um radar de contrabateria nacional, um sistema capaz de localizar de onde o inimigo atirou, em tempo real, rastreando o projétil inimigo de volta à sua origem. Esse radar fecha o ciclo: a bateria que se move para não ser localizada também precisa localizar o inimigo antes que ele se mova. A Omnisys, empresa do grupo Thales com sede no Brasil, contribui com radares de vigilância de espaço aéreo e sistemas antidrone.

O ATMOS, Gaza e a necessidade que não desapareceu
O eixo da mobilidade tem seu ponto mais aguardado e mais politicamente delicado. O obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm foi objeto de um processo licitatório concluído com a seleção do ATMOS 2000, da israelense Elbit Systems, vencedor sobre o CAESAR francês, o Zuzana 2 tcheco-eslovaco e o SH-15 chinês. O plano era adquirir 36 sistemas.

O ATMOS é um canhão de 155 mm montado sobre um caminhão 6x6, capaz de alcançar mais de 40 quilômetros com munição padrão, chegar a uma posição, disparar múltiplos projéteis e partir em questão de minutos, a encarnação perfeita da doutrina do shoot and scoot. Velocidade máxima de 100 km/h na estrada. Exatamente o tipo de sistema que Verdile pede e que o campo de batalha ucraniano exige.

O contrato foi cancelado no início de 2025. A razão não foi técnica: foi política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva suspendeu a aquisição em razão de sua posição crítica em relação à conduta de Israel na guerra em Gaza. O ministro da Defesa, José Múcio, havia alertado que a decisão estabeleceria um precedente perigoso para a integridade dos processos de aquisição do Exército e que prejudicaria empresas nacionais que já haviam firmado acordos com a Elbit para participar da produção de componentes e da montagem final no Brasil. A necessidade operacional, contudo, permanece intacta.

Em paralelo, o Exército avança na substituição dos obuseiros rebocados M114 de 155 mm, uma peça desenvolvida na Segunda Guerra Mundial e que ainda serve em algumas unidades brasileiras, e no desenvolvimento de uma nova solução de 105 mm para tropas paraquedistas e aeromóveis, mais leves e com necessidades específicas de mobilidade aérea.

 
ATMOS - 
obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm (vídeo)

Foguetes, mísseis e munições vagantes: o alcance que muda tudo
No campo dos foguetes e mísseis, o Brasil tem uma das capacidades mais singulares da América do Sul: o ASTROS II, sistema de artilharia de saturação da Avibras Aeroco que pode disparar foguetes de diferentes calibres e alcances a partir do mesmo lançador. O programa de modernização, agora chamado ASTROS-FOGOS após reestruturação formalizada em março de 2026 pela Portaria nº 1.703 do Estado-Maior do Exército, está desenvolvendo dois novos vetores.

O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro TCM 300: alcance de 300 quilômetros (para exportação; interno pode chegar a mais de 1.000 quilômetros), precisão de 30 metros e capacidade de alterar a rota durante o voo para evitar defesas inimigas. Para ter uma referência: São Paulo fica a 430 quilômetros do Rio de Janeiro. O segundo é o Míssil Tático Balístico AV-SS 100, com alcance superior a 100 quilômetros, novo projeto da Avibras Aeroco. Juntos, esses sistemas colocariam o Exército Brasileiro em uma categoria de capacidade de fogos de profundidade que poucos países da região possuem.

O Exército também abriu licitação internacional para munições vagantes, as chamadas loitering munitions ou drones-bomba. Esses sistemas decolam como drones, ficam circulando sobre uma área à espera de um alvo adequado e depois mergulham sobre ele. São capazes de atacar alvos que não estão na linha de visada (atrás de um morro, dentro de uma floresta, escondidos num celeiro) e podem ser lançados por sistemas de foguetes já existentes. A licitação exige capacidade de lançamento assistido e engajamento além da linha de visada. É a resposta brasileira ao que ucranianos e russos já empregam em massa.


Sistema ASTROS realiza tiro noturno durante a Operação Amazônia 

Lançamento do Míssil Tático de Cruzeiro AV-TM 300 pelo ASTROS

A defesa antiaérea que faltava: o EMADS
A apresentação do Gen Paixão em Londres explicitou também a maior vulnerabilidade estrutural da artilharia brasileira: a ausência de defesa antiaérea de média altitude. Um sistema de artilharia que consegue se mover rapidamente, mas não tem proteção contra drones de reconhecimento que voam a altitudes médias, acima do alcance dos mísseis portáteis como o RBS-70 e o Igla-S, continua sendo uma bateria que pode ser observada, rastreada e atacada.

O Exército brasileiro reconheceu essa lacuna como emergencial. Por meio da Portaria EME nº 1.086, de 22 de dezembro de 2025, formalizou a seleção do sistema EMADS da empresa europeia MBDA, para aquisição por acordo direto governo a governo com a Itália. O sistema integra o radar Kronos da Leonardo, os mísseis CAMM-ER da MBDA, capazes de interceptar alvos a até 40 quilômetros de distância e 15 quilômetros de altitude, e plataforma sobre caminhão. Um dia após a conferência de Londres, em 20 de maio de 2026, o Comando Logístico do Exército realizou reunião bilateral com autoridades italianas em Brasília para avançar nas negociações.

Sistema EMADS da empresa europeia MBDA

O que a conferência de Londres disse ao Brasil
O relatório que o Gen Paixão assinou ao retornar de Londres é um documento que merece ser lido com atenção por qualquer artilheiro brasileiro. Em 27 páginas, ele resume as principais palestras de 55 países e extrai quatro conclusões que são, ao mesmo tempo, um diagnóstico global e um roteiro para o Brasil.

- Primeira conclusão: alcance com sobrevivência em campo transparente. Todos os exércitos presentes, do Reino Unido à Hungria, dos Estados Unidos à França, discutiram como reduzir o tempo que uma bateria passa em uma posição de tiro e como se defender de drones enquanto isso. A Artilharia britânica introduziu o conceito de disciplina de assinatura: não apenas mover-se, mas também reduzir as emissões de rádio, o calor gerado pelos motores e qualquer outra característica que permita a um sensor inimigo identificar uma posição de tiro.

- Segunda conclusão: digitalização do ciclo sensor-atirador. O tempo entre detectar um alvo e disparar sobre ele precisa cair de minutos para segundos. Isso exige que sensores, sistemas de C2 e obuseiros falem a mesma língua digital, sem precisar de um operador humano para digitar coordenadas em cada etapa. A IA apareceu na conferência não como substituta do comandante, pois as decisões letais permanecem humanas, mas como assistente que filtra dados, prioriza alvos e recomenda qual arma é a mais adequada para cada situação.

- Terceira conclusão: efeitos em camadas. Artilharia de tubo, foguetes, mísseis, morteiros, drones e munições vagantes não são substitutos uns dos outros, mas sim são complementares. A 3ª Divisão Britânica apresentou um conceito de composição de forças que é uma régua útil para medir onde o Brasil está: 20% de capacidades de alto valor e difíceis de destruir (como o ASTROS), 40% de sistemas de médio custo que podem ser perdidos em combate (drones e munições vagantes) e 40% de munições convencionais de consumo. A artilharia brasileira, ainda fortemente concentrada em tubo rebocado de 105 mm, tem um caminho a percorrer nessa direção.

- Quarta conclusão: resiliência industrial. Prontidão não se mede apenas pelo número de obuseiros em serviço. Mede-se também pela capacidade de produzir munição em escala, de manter estoque suficiente para semanas de combate intenso e de certificar sistemas para que possam operar com aliados. A Ucrânia consumiu munição mais rápido do que qualquer país conseguia produzir. O Brasil, com a IMBEL e a Avibras Aeroco como pilares industriais, está avançando nessa direção, mas a reestruturação financeira da Avibras, que passou por recuperação judicial, é uma vulnerabilidade que o setor ainda carrega.

O problema que o equipamento não resolve
O Gen Paixão encerrou seu relatório com uma frase que é ao mesmo tempo uma conquista e um aviso: "O desafio para os próximos anos será transformar projetos, normas e indústrias em capacidade disponível nas unidades de tiro".

Essa frase merece ser lida com muita atenção. O Brasil tem os programas certos. Tem parte dos equipamentos certos. Tem, no ASTROS-FOGOS, uma arquitetura institucional capaz de integrar diferentes vetores de fogo. Tem, no M109 A5+BR com o sistema Gênesis, um obuseiro que sabe onde está e pode se mover com precisão. Tem, no desenvolvimento do radar de contrabateria com a Embraer e do SISDAC com a IMBEL, as peças de um sistema digital de fogos que começa a tomar forma.

O que ainda falta, e é o ponto mais difícil de resolver com dinheiro ou contratos, é o elemento que Verdile identificou na sua própria bateria americana: a cultura de adestramento que transforma mobilidade em reflexo, desde que seja treinada exaustivamente inúmeras vezes e sob diversas condições táticas. Uma peça que nunca treinou para sair de uma posição em menos de três minutos, à noite, sem JBC-P funcionando, sob a ameaça de um drone que pode aparecer a qualquer momento, não vai fazer isso automaticamente no momento em que precisar. A doutrina do shoot and scoot não nasce com o equipamento. Ela precisa ser treinada, repetida e internalizada até virar instinto.

A conferência de Londres mostrou que essa é uma preocupação universal. O painel operacional final, com representantes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Suécia, foi explícito: as soluções tecnológicas precisam sobreviver ao terreno, à guerra eletrônica, ao atrito logístico e ao ritmo de decisões de uma frente em movimento. Tecnologia sem doutrina é sucata cara.


A artilharia brasileira, neste 10 de junho de 2026, comemora o Dia da Arma com um programa de modernização consistente, uma presença ativa nos principais fóruns internacionais e uma indústria de defesa que, apesar dos percalços, ainda é uma das mais completas da América do Sul. 

O ciclo de três minutos que Verdile descreve não é uma ameaça imaginária ou distante: é o padrão que qualquer conflito de alta intensidade vai impor, em qualquer teatro de operações, a qualquer bateria que não tenha aprendido a se mover.

A bateria que atira e fica, e que não segue as camadas de sobrevivência, torna-se um alvo. O Exército Brasileiro parece ter entendido a sentença. O próximo passo é garantir que cada artilheiro, em cada bateria do país, também a tenha internalizado antes que precise aprender da pior maneira possível.

 

Fontes e referências

CPT Vincent Verdile. "Moving to Survive: Transforming Artillery Training for Modern Warfare". Field Artillery Professional Bulletin: E-Edition 2026, US Army.

Gen Bda R/1 Moises da Paixão Junior. Relatório Future Artillery 2026. EPEx/EME, Brasília, 9 jun. 2026.

Gen Bda R/1 Moises da Paixão Junior. "Modernising Brazilian Army Artillery for a Multi-Domain Future". Future Artillery Conference 2026, Londres, 19 mai. 2026.

Maj Gen Andrii Malinovskiy. "Ukrainian Perspectives: Artillery as Central, Decisive Component of Modern High Intensity Warfare". Future Artillery Conference 2026, Londres, 19 mai. 2026.

Tom Newbery (Dstl). "Active Survivability Suites for Artillery Systems". Future Artillery Conference 2026, Londres, 20 mai. 2026.

Tim De Zitter. Post analítico no LinkedIn sobre o artigo de Verdile. Belgian Defence, 19 mai. 2026.

Postagem em destaque