Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Avibras Aeroco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Avibras Aeroco. Mostrar todas as postagens

20 setembro, 2026

Bruno Dantas no Conselho indica nova arquitetura de poder na Avibras Aeroco

Informação de Lauro Jardim desloca o ex-ministro do TCU da gestão diária para o centro estratégico da companhia e amplia a expectativa sobre o futuro papel de Sami Hassuani 



*LRCA Defense Consulting, 20 de setembro de 2026

A possível chegada de Bruno Dantas à presidência do Conselho de Administração da Avibras Aeroco começa a revelar uma arquitetura de poder mais complexa do que a simples substituição de um dirigente. Segundo informação publicada por Lauro Jardim, em O Globo, o ex-ministro do Tribunal de Contas da União assumirá o posto em outubro, na empresa que passa ao controle da Globe Investimentos, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Se confirmada pela companhia, a nomeação colocará Dantas no núcleo de definição estratégica, supervisão da administração, governança, riscos e grandes decisões empresariais. A condução cotidiana da fábrica, da engenharia, dos programas tecnológicos, dos contratos e da atuação comercial poderá permanecer em uma esfera executiva separada. É justamente nessa segunda dimensão que ainda falta uma resposta decisiva: qual será o papel de Sami Hassuani na nova fase da empresa?

De hipótese de comando executivo à presidência do Conselho 
As primeiras notícias sobre o futuro profissional de Dantas indicavam que ele poderia assumir o comando da Avibras e liderar um rápido processo de recuperação, modernização e internacionalização. A referência seria a trajetória de transformação da Embraer. A informação de Lauro Jardim modifica o enquadramento: em vez de presidente executivo, Dantas ocuparia a presidência do Conselho de Administração.

A diferença é substantiva. O Conselho estabelece diretrizes, acompanha resultados, supervisiona os administradores e delibera sobre investimentos e decisões de maior alcance. Não se confunde com a gestão diária. Para Dantas, a função parece compatível com uma trajetória marcada por governança, articulação institucional, conhecimento do Estado, ambiente regulatório e interlocução de alto nível. Seu valor para a Avibras estaria menos na condução técnica da produção e mais na capacidade de organizar relações, decisões e projetos em torno de uma companhia estratégica.

Os Batista aportam controle e capacidade de recuperação 
A Globe Investimentos acordou a aquisição da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco. Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou a operação. Como a entrada ocorre por meio do escritório de investimentos da família Batista, e não diretamente por uma empresa operacional da J&F, o desenho preserva flexibilidade para organizar o novo ativo de defesa.

Os irmãos Batista chegam com capital, capacidade de recuperação de empresas em situação desafiadora e acesso a redes financeiras e empresariais. A Avibras, por sua vez, oferece um ativo industrial raro: domínio de tecnologias críticas em propulsão sólida, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos, além do Sistema ASTROS, do Míssil Tático de Cruzeiro em certificação e do Míssil Tático Balístico em desenvolvimento.

A própria Avibras antecipou a separação de funções 
Há um elemento institucional que dá consistência ao desenho agora noticiado. Em sua página de governança, a Avibras Aeroco afirma adotar uma estrutura baseada na segregação de funções, com equilíbrio entre direção estratégica e execução operacional. O texto estabelece que os órgãos de governança têm competências claramente definidas e que cabe ao modelo assegurar tanto a definição das diretrizes quanto o acompanhamento das atividades executivas.

A presidência do Conselho por Dantas se encaixaria exatamente nessa camada estratégica. A administração executiva, por sua natureza, exigiria experiência industrial, conhecimento dos produtos, domínio das relações com clientes militares e capacidade de transformar encomendas e projetos em produção, certificação e entrega.

A incógnita Sami Hassuani 
Quando iniciou oficialmente suas operações, em abril, a Avibras Aeroco apresentou Sami Hassuani como presidente executivo. Engenheiro com mais de 40 anos de experiência nos setores de defesa e aeroespacial, ele recebeu a missão de conduzir o desenvolvimento da companhia, com foco no crescimento sustentável e na expansão para novos mercados.

Até o momento, não houve anúncio público de mudança nessa função. Em comunicado de 2 de setembro, a própria empresa afirmou que continuava sem alterações em sua administração, embora já circulassem notícias sobre mudanças futuras. A nota foi divulgada antes da aprovação do Cade e antes da informação de Lauro Jardim, portanto não resolve o desenho posterior ao fechamento da operação.

A permanência de Hassuani, com atribuições executivas bem definidas, permitiria combinar dois perfis complementares: Dantas na governança, na estratégia e na articulação institucional; Hassuani na indústria, na tecnologia, nos contratos e no mercado internacional. Também evitaria perder, num momento delicado de retomada, conhecimento acumulado sobre a companhia, seus produtos, seus clientes e o setor de defesa.

Capital nacional, tecnologia estratégica e ambição internacional 
O arranjo em formação deverá ser avaliado por sua capacidade de entregar resultados concretos. A nova Avibras precisa consolidar a retomada industrial, financiar desenvolvimento tecnológico, concluir certificações, assegurar encomendas domésticas, oferecer garantias às exportações e recuperar a confiança de trabalhadores, fornecedores e clientes. A governança só terá valor se acelerar essas tarefas e proteger as competências estratégicas mantidas no País.

O Míssil Tático de Cruzeiro, com alcance de até 300 quilômetros, encontra-se em processo de certificação. O Míssil Tático Balístico AV-SS-100 está em desenvolvimento para emprego pelo Sistema ASTROS. Esses programas mostram que a transformação societária não envolve apenas a sobrevivência de uma empresa, mas a continuidade de capacidades soberanas difíceis de reconstruir caso sejam perdidas.

O que já se sabe e o que falta confirmar
A compra da Nova AVB pela Globe e a aprovação da operação pela Superintendência-Geral do Cade estão documentadas. A Avibras também confirma publicamente que Sami Hassuani ocupa a presidência executiva e que seu modelo de governança separa estratégia e execução. A ida de Bruno Dantas para a presidência do Conselho, porém, ainda se apoia na apuração de Lauro Jardim e não foi anunciada oficialmente pela Avibras Aeroco ou pela Globe Investimentos.

Também permanecem abertas a composição completa do Conselho, as atribuições reservadas a Dantas, a estrutura da diretoria após a mudança de controle e a posição que caberá a Hassuani. Essas definições mostrarão se a nova controladora pretende preservar a combinação entre articulação estratégica e experiência industrial ou promover uma reorganização mais ampla.

Uma arquitetura de poder começa a aparecer 
A reportagem publicada pelo LRCA em 29 de agosto levantou a possibilidade de separar a condução estratégica da gestão operacional da Avibras. A informação agora divulgada aponta nessa direção, mas com uma diferença relevante: Dantas não iria para o comando executivo, e sim para o topo do Conselho.

O desenho que começa a surgir pode ser resumido em três eixos: a Globe e os irmãos Batista com o capital e o controle acionário; Bruno Dantas com a presidência do Conselho, a governança e a orientação estratégica; e uma estrutura executiva responsável por indústria, engenharia, contratos e mercados. O nome de Sami Hassuani continua sendo a principal peça ainda não definida publicamente nessa arquitetura.

Caso a composição seja confirmada nesses termos, a nova Avibras Aeroco não estará apenas trocando de controlador. Estará montando uma estrutura destinada a combinar poder financeiro, articulação institucional e competência tecnológica. O sucesso do projeto dependerá de como esses três elementos serão equilibrados e convertidos em encomendas, exportações, inovação e continuidade industrial.

15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


*
LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

07 setembro, 2026

Avibras pode assumir montagem dos 36 obuseiros ATMOS do Exército

Proposta apresentada pela Elbit prevê participação da empresa de Jacareí na montagem dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, abrindo uma nova frente de negócios para a fabricante do sistema ASTROS 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A Avibras Aeroco poderá assumir em Jacareí (SP) a montagem dos 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm que o Exército Brasileiro pretende adquirir da israelense Elbit Systems. A proposta que incorpora a empresa brasileira ao arranjo industrial foi apresentada ao Comando Logístico do Exército (COLOG) no fim de agosto e agora deverá passar por análise jurídica antes de qualquer contratação.

A informação foi revelada pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada nesta segunda-feira (7). Segundo a apuração, a solução prevê que os dois exemplares destinados ao lote de amostra e as 34 viaturas de série sejam montados em Jacareí pela Avibras, enquanto a produção de munições ficará associada à IMBEL. O valor estimado da aquisição é de aproximadamente R$ 800 milhões.

Uma licitação que espera há dois anos 
A proposta representa uma tentativa de destravar uma aquisição que permanece sem contrato desde 2024, embora o ATMOS tenha sido formalmente classificado em primeiro lugar na concorrência internacional conduzida pelo Exército. O resultado oficial, publicado em abril daquele ano, colocou o sistema da Elbit à frente do Zuzana 2, da Excalibur International, do CAESAR, da KNDS France, e do SH15, da Norinco. A Elbit foi então convocada para a assinatura do contrato inicial do lote de amostra.

O processo, entretanto, não avançou para a contratação definitiva. A escolha do equipamento israelense passou a sofrer forte pressão política em razão da guerra em Gaza e da deterioração das relações entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Paralelamente, a KNDS questionou o resultado da concorrência. Os recursos apresentados pela empresa francesa não alteraram a classificação final, e o Tribunal de Contas da União também não acolheu a tentativa de suspender o processo.

A Avibras entra na equação 
A nova solução procura preservar a escolha técnica realizada pelo Exército sem modificar as condições essenciais da proposta vencedora. Segundo a reportagem de Godoy, a proposta apresentada pela Elbit e pela AEL Sistemas já previa a participação de uma empresa brasileira na montagem dos obuseiros, embora não identificasse previamente qual empresa seria. Esse desenho permitiria, segundo a avaliação feita pelo Exército, incorporar a Avibras ao arranjo industrial sem alterar as condições fundamentais da oferta vencedora.

A aproximação entre Elbit/AEL e Avibras, portanto, não surgiu com a reportagem desta segunda-feira. O LRCA Defense Consulting já havia informado, em julho, que as empresas negociavam uma solução para a nacionalização da montagem do ATMOS em Jacareí. O portal também havia acompanhado o interesse da Elbit em ampliar sua presença industrial no Brasil.

Uma escolha com lógica industrial 

A escolha da Avibras apresenta uma lógica industrial particularmente forte. O ATMOS é um obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas, projetado para operar em diferentes configurações de chassis. A Elbit informa que o sistema pode ser integrado a caminhões 6x6 ou 8x8 escolhidos pelo cliente e que possui automação de pontaria, navegação e carregamento. A configuração brasileira foi associada à família Tatra T-815 6x6, uma plataforma com a qual a Avibras possui experiência acumulada no programa ASTROS.

Embora o obuseiro e o sistema de artilharia de foguetes sejam plataformas distintas, a experiência da empresa com integração de sistemas militares, fabricação de veículos e trabalho sobre chassis Tatra constitui uma base relevante para absorver a montagem do novo equipamento.

A parceria já vinha sendo construída 
A própria história da concorrência reforça essa conexão. A proposta do Zuzana 2, segunda colocada no processo, havia previsto uma parceria com a Avibras para a montagem nacional. A participação da empresa brasileira na produção de um obuseiro 155 mm sobre rodas, portanto, já fazia parte das alternativas industriais consideradas durante a competição, antes mesmo da escolha do ATMOS.

A aproximação entre a Avibras e a Elbit ganhou novo impulso em 2026, quando a empresa brasileira retomou suas atividades industriais em Jacareí. Em julho, o LRCA registrou as tratativas entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do ATMOS.

O peso estratégico da munição 155 mm 
Para além das viaturas, a munição constitui um componente estratégico da negociação. A proposta vencedora do ATMOS contempla participação industrial brasileira na produção de munições de artilharia. A IMBEL aparece como protagonista desse eixo, o que amplia o alcance industrial do programa para além da fabricação das próprias viaturas.

A possibilidade de desenvolver no País competências relacionadas ao calibre 155 mm pode ser tão relevante, no longo prazo, quanto a montagem dos 36 obuseiros. Trata-se de uma capacidade que interessa diretamente à autonomia logística da artilharia e à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.

KNDS volta a procurar a Avibras 

A movimentação da KNDS acrescenta outra dimensão ao cenário. Segundo Godoy, a empresa francesa voltou a procurar a Avibras e teria apresentado uma possibilidade de parceria envolvendo o CAESAR e transferência de tecnologia para munições dos calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm.

A aproximação recupera uma relação industrial anterior entre as duas empresas, que chegaram a trabalhar juntas no conceito do sistema Tupã, derivado do CAESAR. A iniciativa francesa mostra que a Avibras voltou a ser percebida como um ativo industrial relevante e que a empresa brasileira pode se tornar novamente uma parceira disputada por grandes grupos internacionais de defesa.

Ainda não há contrato 
É importante, contudo, separar o que está definido do que ainda depende de decisão. O Exército já definiu o ATMOS como vencedor da concorrência, mas a participação da Avibras ainda está vinculada à análise da proposta apresentada ao COLOG. Segundo a apuração do Estadão, a expectativa no Estado-Maior do Exército é que o primeiro contrato, relativo aos protótipos, seja assinado ainda em 2026. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), seria negociado o contrato para as demais 34 viaturas.

Assim, ainda não é correto afirmar que a Avibras tenha recebido ou assinado o contrato dos ATMOS. O que existe, neste momento, é uma proposta formal apresentada ao COLOG, apoiada por uma solução industrial que procura conciliar a decisão técnica do Exército, as restrições políticas envolvendo Israel e a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira.

Mais que uma linha de montagem 
Para a Avibras Aeroco, a eventual contratação teria importância que ultrapassa o valor financeiro do programa. Um programa de 36 viaturas criaria uma linha de produção e integração de sistemas de artilharia, preservando competências de engenharia e ampliando a carteira de encomendas da companhia.

O verdadeiro alcance da oportunidade, porém, dependerá do conteúdo da transferência tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em engenharia, fabricação de componentes, integração, manutenção e desenvolvimento de munições, maior será o efeito estruturante do programa sobre a empresa e sobre a Base Industrial de Defesa.

O caso também ilustra uma característica cada vez mais importante dos grandes programas militares: o equipamento selecionado é apenas uma parte da decisão. A capacidade de gerar produção local, domínio tecnológico, cadeia de fornecedores, autonomia logística e condições para futuros desenvolvimentos pode determinar o verdadeiro valor estratégico de uma aquisição.

No caso do ATMOS, a entrada da Avibras pode transformar uma compra que estava travada por razões políticas e geopolíticas em um programa com impacto direto sobre a indústria brasileira de defesa. A próxima etapa, portanto, será acompanhar a análise do COLOG e verificar se a proposta se converterá, de fato, em contrato.

05 setembro, 2026

PLOA 2027 coloca programas de mísseis 14-X e MICLA em duas frentes estratégicas da FAB

Proposta orçamentária reserva R$ 23,7 milhões para o desenvolvimento da propulsão hipersônica e para a aquisição de mísseis de longo alcance; documentos não indicam que os dois projetos sejam integrados 



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 revela um dado que passou relativamente despercebido no detalhamento dos recursos destinados à Defesa: a Força Aérea Brasileira (FAB) terá, caso a proposta seja aprovada, duas dotações específicas para projetos de elevada complexidade tecnológica. Uma delas reserva R$ 12.694.107 ao Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X, identificado no orçamento como PropHiper. A outra destina R$ 11 milhões à aquisição de mísseis de longo alcance no âmbito do Projeto MICLA.

Somadas, as duas dotações chegam a R$ 23.694.107. Os valores não são expressivos quando comparados aos grandes programas de reaparelhamento das Forças Armadas, mas chamam atenção pela especificidade das ações e pelo que representam em termos de soberania tecnológica. De um lado, o País mantém uma linha de desenvolvimento de propulsão hipersônica. De outro, preserva no orçamento uma iniciativa voltada à obtenção de mísseis de longo alcance.

O dado ganha ainda mais relevância porque aparece poucos dias depois da publicação, pelo LRCA Defense Consulting, de uma análise ampla do PLOA 2027, na qual foram identificados os principais projetos de Defesa contemplados na proposta. Naquela reportagem, o foco estava nos grandes volumes destinados a aeronaves, submarinos, fragatas, blindados, drones e sistemas de mísseis. A análise específica das ações da Aeronáutica permite agora identificar duas rubricas que merecem atenção especial. 

14-X recebe dotação específica para o PropHiper 
A ação 16CN do PLOA 2027 tem uma denominação inequívoca: “Desenvolvimento do Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper)”. A dotação proposta é de R$ 12.694.107, com R$ 11.694.107 classificados como despesas correntes e R$ 1 milhão como investimento. O produto orçamentário é descrito como pesquisa ou projeto desenvolvida(o), com meta física de uma unidade.

A natureza da rubrica é importante. O PLOA não está propondo a compra de um sistema de armas denominado 14-X, nem sua incorporação operacional. O recurso está associado ao desenvolvimento tecnológico da propulsão hipersônica. Portanto, o valor não pode ser interpretado como o custo de uma futura arma hipersônica, mas como uma dotação para a continuidade de uma linha de pesquisa e desenvolvimento.

O 14-X é desenvolvido no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica da FAB e utiliza tecnologia de propulsão do tipo scramjet. Como esse tipo de motor necessita de velocidades muito elevadas para operar, o programa envolve um desafio adicional: levar o veículo às condições adequadas antes que sua própria propulsão hipersônica entre em funcionamento.

RATO-14X é o elo com a campanha de ensaios 
É nesse ponto que entra o RATO-14X, sistema de decolagem assistida por foguete desenvolvido para impulsionar o veículo hipersônico. Segundo informações divulgadas pela Agência Espacial Brasileira e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o projeto é desenvolvido pela FAB, por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em parceria com empresas e instituições de pesquisa.

A Mac Jee participa do desenvolvimento do RATO-14X e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) também firmou parceria com a empresa para atividades relacionadas a aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória. O sistema deverá levar o 14-X a mais de 30 quilômetros de altitude e a velocidades superiores a Mach 8, criando as condições necessárias para os ensaios do veículo hipersônico.

Em julho de 2026, o LRCA Defense Consulting informou que a Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X havia sido concluída e que o lançamento do 14-X estava previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. Na mesma ocasião, foi destacado que o DCTA havia inaugurado o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5 e relacionada ao esforço tecnológico do PropHiper.

MICLA aparece nominalmente no orçamento 
A segunda descoberta é igualmente relevante. A ação 16CQ do PLOA 2027 é denominada “Aquisição de Mísseis de Longo Alcance, Projeto MICLA” e recebe R$ 11 milhões. Aqui, a linguagem orçamentária é diferente da empregada no 14-X: não se trata de desenvolvimento de um projeto, mas de aquisição de armamento.

A proposta, entretanto, não informa quantos mísseis serão adquiridos, qual configuração será contemplada, quem será o fornecedor, qual será o cronograma de entrega ou qual parcela da dotação corresponde a eventual produção nacional. Também não é possível concluir, apenas a partir do PLOA, que os R$ 11 milhões resultarão em um lote operacional de MICLA-BR.

Ainda assim, a identificação nominal do Projeto MICLA é significativa. O projeto não é uma referência genérica a qualquer míssil de longo alcance. O orçamento vincula expressamente a ação 16CQ ao MICLA, mantendo a iniciativa dentro do planejamento da Aeronáutica para 2027.

Um projeto com história ligada à Avibras 
O MICLA-BR possui uma trajetória anterior à atual proposta orçamentária. O projeto foi desenvolvido pela FAB em parceria com a Avibras e está associado à busca brasileira por um míssil de cruzeiro de longo alcance. Em 2019, um F-5EM foi utilizado como plataforma de ensaios do sistema, em uma das evidências públicas mais importantes de que o projeto havia avançado para a fase de testes em voo.

O MICLA-BR foi descrito em fontes técnicas e documentos de planejamento como um míssil de cruzeiro destinado a lançamento a partir de plataformas aéreas, com alcance previsto na faixa de 300 quilômetros. O projeto também foi relacionado ao desenvolvimento de uma capacidade nacional de ataque de precisão de longo alcance e, historicamente, à futura integração com a família de caças Gripen.

A relação histórica com a Avibras torna a nova dotação especialmente interessante, mas exige cautela. O PLOA não identifica a empresa como destinatária dos R$ 11 milhões. Assim, não é possível afirmar que a previsão orçamentária represente uma nova encomenda à Avibras Aeroco ou mesmo que o eventual fornecimento será realizado pela empresa. O que o documento permite afirmar é que o Projeto MICLA continua nominalmente presente no planejamento orçamentário da FAB.

14-X e MICLA não são dois componentes do mesmo sistema 
A presença das duas ações no mesmo orçamento pode induzir a uma interpretação equivocada. Não há, no PLOA 2027, qualquer indicação de que o MICLA seja o sistema de lançamento do 14-X ou que os R$ 11 milhões destinados ao projeto de mísseis tenham relação direta com a campanha de ensaios hipersônicos.

O sistema associado ao lançamento experimental do 14-X é o RATO-14X. Seu objetivo é acelerar o veículo hipersônico até as condições de velocidade e altitude necessárias para o funcionamento do scramjet. O MICLA, por sua vez, é um projeto de míssil de cruzeiro de longo alcance, com finalidade militar distinta.

A relação entre os dois programas é, portanto, estratégica e não física. O 14-X representa a busca por domínio de tecnologias de propulsão e voo hipersônico. O MICLA representa a busca por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. São iniciativas diferentes, mas ambas inseridas no esforço de ampliar o domínio tecnológico e as capacidades estratégicas da FAB. 

A grande pergunta agora é o que será comprado no âmbito do Projeto MICLA 
O aspecto mais intrigante da ação 16CQ é a palavra “aquisição”. Se o PLOA fosse destinado apenas a financiar pesquisa, desenvolvimento ou estudos, seria natural esperar uma formulação semelhante à utilizada na ação do PropHiper. A escolha do termo indica que a Aeronáutica pretende utilizar a dotação de 2027 para obter algum tipo de material relacionado ao Projeto MICLA.

O orçamento, porém, não permite saber se a aquisição será de protótipos, componentes, subsistemas, unidades para ensaios, itens destinados à integração com plataformas ou efetivamente mísseis completos. Essa informação será decisiva para avaliar o estágio real do programa e deverá ser buscada junto ao Comando da Aeronáutica, ao Ministério da Defesa e às empresas envolvidas.

Também será importante acompanhar a tramitação do PLOA no Congresso Nacional. A proposta ainda poderá sofrer alterações durante a discussão orçamentária e, depois de transformada em Lei Orçamentária Anual, a execução dependerá da programação financeira do Governo Federal.

Duas linhas de alta tecnologia no mesmo orçamento 
O dado mais relevante do PLOA 2027 não está apenas nos R$ 23,7 milhões somados. Está na decisão de manter, lado a lado, duas linhas tecnológicas que podem ter impacto significativo no futuro da Força Aérea.

No campo hipersônico, o Brasil procura dominar tecnologias de propulsão, materiais, aerodinâmica, controle e ensaios em velocidades superiores a Mach 5. No campo dos mísseis de longo alcance, busca preservar e transformar em capacidade militar um conhecimento acumulado ao longo de anos, incluindo a experiência do MICLA-BR e sua relação histórica com a indústria nacional.

O orçamento de 2027, portanto, não permite concluir que o Brasil esteja prestes a colocar em serviço uma arma hipersônica ou um novo míssil de cruzeiro. Permite, entretanto, afirmar algo mais preciso: a FAB reservou espaço orçamentário específico para continuar o desenvolvimento do 14-X e, simultaneamente, para adquirir material no âmbito do Projeto MICLA.

É uma combinação que merece acompanhamento. No caso do 14-X, porque 2027 pode ser o ano de uma campanha de ensaio em voo que representará um dos mais ambiciosos testes tecnológicos da história aeroespacial brasileira. No caso do MICLA, porque a palavra “aquisição” pode indicar uma mudança de estágio do programa, cuja natureza somente poderá ser esclarecida quando forem conhecidos os contratos, objetos de compra e fornecedores.

A partir desses dois movimentos, o PLOA 2027 passa a oferecer uma leitura adicional do esforço de modernização da FAB: além dos grandes programas já conhecidos, como Gripen e KC-390, existe uma agenda de tecnologias de alto risco e alto impacto potencial que continua recebendo recursos específicos.

02 setembro, 2026

Exército prevê evolução do míssil Avibras MTC-300 com maior alcance e guiamento terminal

MTC Bloco II amplia a capacidade planejada para o sistema ASTROS-FOGOS, mas ainda não há indicação pública de início do desenvolvimento ou definição do alcance

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Exército Brasileiro prevê uma evolução do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), atualmente em fase avançada de certificação, para uma futura versão denominada MTC Bloco II. A proposta contempla maior alcance, novas cabeças de guerra e a incorporação de guiamento terminal, ampliando o espectro de alvos que o sistema poderá enfrentar.

A previsão integra a atualização das diretrizes do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e confirma que a evolução do MTC não se limita ao aumento da distância de emprego. O objetivo é acrescentar capacidades que permitam maior flexibilidade operacional, inclusive diante de alvos móveis.

O MTC-300 atualmente em certificação tem alcance declarado de até 300 quilômetros. Em 26 de agosto de 2026, a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro realizaram com sucesso novo ensaio de tiro no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, os objetivos previstos para aquela etapa foram integralmente alcançados.

Uma evolução que já estava prevista 
A concepção do MTC Bloco II, entretanto, não surgiu apenas com a atualização de 2026. Documentos de planejamento da Defesa já previam uma evolução do sistema em razão de novas necessidades operacionais, especialmente para a defesa do litoral e o emprego contra alvos móveis. Entre os requisitos apontados estavam justamente o guiamento terminal, novas cabeças de guerra e alcance superior ao MTC então existente.

O Plano Estratégico do Exército também já havia associado o Bloco II à necessidade de desenvolver um Míssil Tático de Cruzeiro com guiamento terminal contra alvos móveis. Isso mostra que a nova diretriz representa a continuidade de uma linha de planejamento, e não a criação repentina de um novo projeto.

Mais do que simplesmente aumentar o alcance 
A principal mudança qualitativa do Bloco II poderá estar no guiamento terminal. O MTC-300 foi concebido para ataques de precisão contra alvos previamente definidos, enquanto a capacidade de buscar ou discriminar o alvo na fase final do voo abre a possibilidade de emprego contra alvos móveis, incluindo, em determinados cenários, meios navais em movimento.

Essa característica tem relevância especial para a defesa do litoral. Estudos produzidos no âmbito do próprio Exército já apontaram que um míssil de cruzeiro destinado a engajar vetores navais em manobra necessita de uma solução de guiamento terminal, complementar aos sistemas de navegação inercial e por satélite.

O alcance do Bloco II ainda não foi definido publicamente 
Embora o planejamento estabeleça que o Bloco II deverá superar os 300 quilômetros associados ao MTC-300, não há, nas informações públicas consultadas, um número oficial para o alcance da futura versão.

Estimativas muito superiores, frequentemente atribuídas ao futuro míssil em discussões públicas, não devem ser confundidas com requisitos oficialmente divulgados ou capacidades demonstradas. Até o momento, a referência segura é a de que o Bloco II deverá ter alcance superior ao atual, sem especificação pública de quantos quilômetros serão alcançados. 

Projeto ainda não equivale a desenvolvimento iniciado 
Outro ponto importante é a diferença entre uma capacidade prevista no planejamento estratégico e um projeto efetivamente em desenvolvimento. A documentação disponível indica que o Bloco II permanece no campo da evolução planejada. Não há evidência pública suficiente para afirmar que uma campanha de desenvolvimento já tenha sido iniciada.

Essa distinção é particularmente relevante porque o MTC-300 e o MTC Bloco II encontram-se em situações diferentes. Enquanto o primeiro vem passando por ensaios destinados à certificação, o segundo continua associado a uma capacidade futura, cujos requisitos e soluções tecnológicas ainda podem sofrer alterações. 

A questão da propulsão permanece em aberto 
Também não há definição pública consolidada sobre a turbina que equipará o Bloco II. Referências anteriores do setor associaram diferentes soluções de propulsão à evolução da família MTC, mas os documentos públicos mais recentes consultados não permitem afirmar que o TF-1200, o TJ-1000B ou qualquer outro modelo tenha sido oficialmente selecionado para a futura versão.

A ausência de uma definição pública, portanto, não significa que determinadas alternativas tenham sido descartadas. Significa apenas que não há informação oficial suficiente para atribuir ao Bloco II uma configuração de propulsão específica. 

O novo contexto do ASTROS-FOGOS 
A evolução do MTC ocorre em um momento de reorganização do portfólio estratégico do Exército. Em março de 2026, a Força estruturou o ASTROS-FOGOS como um de seus programas prioritários, concentrando sob uma mesma arquitetura iniciativas relacionadas à artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.

Nesse contexto, o MTC Bloco II passa a integrar uma visão mais ampla de capacidades de fogos de longo alcance. O desenvolvimento de munições mais precisas, com maior alcance e capacidade de enfrentar diferentes tipos de alvos, é coerente com a busca do Exército por maior capacidade de dissuasão e projeção de efeitos sem a necessidade de empregar meios aéreos tripulados. 

MTC-300 avança enquanto o Bloco II permanece no horizonte 
O contraste entre os dois projetos é importante. O ensaio realizado em 26 de agosto reforçou o avanço do MTC-300 no processo de certificação. A atividade reuniu equipes do Exército e da Avibras Aeroco e contou ainda com representantes do Escritório de Projetos do Exército, da Diretoria de Fabricação, do Instituto Militar de Engenharia e do Centro Tecnológico do Exército.

Já o Bloco II representa uma etapa posterior. Sua importância está menos em uma capacidade já disponível e mais na direção tecnológica que o Exército pretende seguir: maior alcance, novas opções de carga militar e capacidade de guiamento terminal. Caso o projeto avance para a fase de desenvolvimento, essas características poderão transformar o MTC em uma arma significativamente mais versátil do que a versão atualmente em certificação. 

O que deve ser observado 
Os próximos documentos de planejamento e eventuais decisões de contratação serão importantes para verificar se o MTC Bloco II deixará o estágio de previsão e passará a uma fase formal de desenvolvimento. Também será relevante acompanhar eventual definição dos requisitos de alcance, do sistema de guiamento terminal, das cabeças de guerra e da propulsão.

Por enquanto, o quadro que emerge da documentação pública é claro: o Brasil trabalha para consolidar o MTC-300 de até 300 quilômetros e, paralelamente, mantém planejada uma evolução capaz de ampliar substancialmente suas possibilidades de emprego. O Bloco II, porém, ainda deve ser tratado como uma capacidade futura, e não como um míssil já em desenvolvimento ou com características técnicas definitivamente estabelecidas. 

29 agosto, 2026

O articulador: por que Bruno Dantas pode ser a peça que falta à Avibras Aeroco

Capital do grupo J&F, experiência de Sami Hassuani e capacidade de articulação de Dantas podem definir o próximo capítulo da fabricante, favorecendo a construção de uma plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional



*LRCA Defense Consulting - 29/08/2026

O ministro Bruno Dantas comunicou ao presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo, sua decisão de renunciar ao cargo, segundo informações divulgadas em 28 de agosto. A renúncia deve ser formalizada nos próximos dias. Dantas tem 48 anos e, pelo critério de idade, poderia permanecer na Corte até 2053.

Entre os destinos cogitados para sua passagem à iniciativa privada, a presidência da Avibras Aeroco, fabricante brasileira de mísseis e sistemas de artilharia, desponta como a alternativa mais comentada, embora ainda não haja confirmação unânime entre as fontes: a revista Veja, que revelou o movimento, afirma que ele deve assumir o comando da empresa, enquanto a Folhapress trata a Avibras como uma entre três frentes em negociação.

Uma saída anunciada 
A decisão de Dantas não chega de surpresa. Em junho de 2025, o ministro já havia negado publicamente qualquer intenção de deixar o TCU, atribuindo o boato a "maus gestores" insatisfeitos com sua atuação na Corte. Em maio de 2026, no entanto, a Folha revelou que Dantas negociava sua saída para o setor privado, tendo a Avibras, a CSN e um grupo de tecnologia do Oriente Médio como alternativas. Um escritório de advocacia com atuação no Brasil e nos Estados Unidos também entrou na lista mais recente de opções.

A confirmação da renúncia, em 28 de agosto, também tem efeito político imediato: a vaga de Dantas no TCU é uma indicação do Senado Federal, e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, já sinalizou interesse em indicar o senador Rodrigo Pacheco, preterido por Lula na disputa por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Se a renúncia for oficializada a tempo, o Senado pode votar o substituto já no esforço concentrado de 31 de agosto a 4 de setembro.

O articulador, não o engenheiro 
Dantas não chegaria à Avibras Aeroco com currículo de executivo industrial. Formado em Direito, ingressou no TCU em 2014, indicado pelo Senado após atuar como consultor legislativo, e presidiu a Corte entre 2022 e 2024. Seu histórico mais relevante para o novo desafio talvez seja a criação e condução da SecexConsenso, mecanismo do TCU voltado à solução negociada de conflitos entre governo e empresas.

Esse perfil de articulação institucional, e não de domínio técnico de engenharia, seria o principal ativo que Dantas levaria à Avibras Aeroco, empresa que precisa simultaneamente recuperar capacidade industrial, executar contratos estratégicos com as Forças Armadas, ampliar exportações e reconstruir sua imagem após anos de crise. A empresa também precisará seguir dialogando de perto com o Ministério da Defesa, o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), além de estruturar financiamento para sustentar sua expansão.

Segundo apurou a Folha em maio, o projeto associado à eventual chegada de Dantas seria um turnaround rápido, com o objetivo de modernizar e internacionalizar a companhia, tendo como referência informal o processo que transformou a Embraer em player global a partir de sua privatização.

Uma Avibras Aeroco em novo patamar 
O momento da possível chegada de Dantas coincide com a reinvenção da própria empresa. A Avibras Aeroco nasceu formalmente em 30 de abril, incorporando ativos estratégicos da antiga Avibras Indústria Aeroespacial, que hoje comemora o fim de uma greve de 1.280 dias, uma das mais longas da história sindical brasileira, além de anos de dívidas trabalhistas e paralisação de fábricas.

A reestruturação teve como âncora um aporte de R$ 300 milhões do empresário Joesley Batista, do grupo J&F, via Fundo Brasil Crédito, com plano aprovado por 99,2% dos credores. A empresa já sinalizou ambição internacional: em 2024, a australiana DefendTex chegou a propor a aquisição da Avibras, movimento então interpretado como tentativa de capturar know-how brasileiro em mísseis para fazer frente à presença chinesa no Indo-Pacífico. O negócio não avançou, mas expôs o valor estratégico e geopolítico do ativo.

A eventual chegada de um articulador do perfil de Dantas, somada ao capital e à ambição já demonstrados pelo grupo J&F, sugere que os novos controladores podem estar planejando algo mais amplo do que a simples retomada da produção do sistema de foguetes ASTROS: a construção de uma plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional. 

Um precedente do setor: o caso Mac Jee
Apenas como uma hipótese prospectiva, um novo desenho societário para o caso da Avibras Aeroco não seria algo inédito na Base Industrial de Defesa brasileira. Em 2020, o Grupo Mac Jee, fabricante nacional de sistemas de defesa e aeroespacial, viveu transição semelhante: o fundador Simon Jeannot deixou o cargo de CEO da companhia para presidir um Conselho de Administração recém-criado, dedicado à decisão estratégica e à expansão internacional do grupo, hoje presente em mercados como Arábia Saudita, Estados Unidos e Europa. A gestão executiva passou a Alessandra Stefani, então diretora executiva e ex-CFO da empresa, que segue como CEO até hoje.

Um arranjo nos mesmos moldes é, em tese, imaginável para a Avibras Aeroco, ainda que não haja qualquer indicação pública nesse sentido até o fechamento desta reportagem: Sami Youssef Hassuani, que já elevou as exportações da companhia a até 80% da receita em sua gestão anterior, assumiria a presidência do Conselho de Administração para conduzir a expansão internacional, enquanto Dantas entraria como CEO, concentrado na articulação institucional, regulatória e de financiamento que marcou sua passagem pelo TCU. A hipótese permanece especulativa, mas ilustra um caminho já testado no setor para conciliar conhecimento técnico consolidado com a chegada de um novo articulador político-institucional.

Quarentena ou conflito de interesses? 
A renúncia de Dantas para assumir posto em empresa que teve, ao longo dos anos, contratos e processos sob análise do TCU já levanta a discussão sobre eventuais impedimentos legais. É preciso, no entanto, separar dois institutos jurídicos distintos.

A chamada "quarentena de três anos", prevista no art. 95, parágrafo único, inciso V, da Constituição Federal, aplicável aos ministros do TCU por equiparação aos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), veda o exercício da advocacia perante o tribunal do qual o magistrado se afastou. A regra não impede, por si só, a ocupação de cargo executivo em empresa privada; o impedimento seria outro, se Dantas viesse a atuar como advogado da Avibras Aeroco perante o próprio TCU.

O risco jurídico mais concreto está em outro ponto: se Dantas relatou ou votou processos envolvendo a Avibras (seja a antiga Avibras Indústria Aeroespacial, seja a nova Aeroco), teve acesso a informações estratégicas sobre a empresa no exercício do cargo, ou poderá vir a representá-la em processos no TCU que ele próprio examinou. Também está em aberto se a Lei nº 12.813/2013, que trata de conflito de interesses no Poder Executivo federal, alcança ministros de um tribunal de contas, que tem regime constitucional próprio e não integra o Executivo. 

O que esse conjunto pode significar
Somados, os elementos levantados nesta apuração apontam para uma tensão central que vai definir o sucesso ou o fracasso da operação. De um lado, Dantas traz exatamente o que falta à Avibras Aeroco: capacidade de articulação com o Estado, crédito político para destravar financiamento e reconstruir confiança institucional, num momento em que a empresa ainda carrega a memória recente da greve de 1.280 dias e da recuperação judicial. De outro, afastar Hassuani da presidência executiva tem custo real: são mais de 40 anos de casa, relação já consolidada com o Exército, e foi sob sua gestão anterior que as exportações da companhia chegaram a 80% da receita, justamente a competência que um turnaround de internacionalização mais precisaria preservar, não afastar.

Se a hipótese inspirada no precedente da Mac Jee se confirmar, ou algo equivalente a ela, a saída de Hassuani da presidência não precisaria significar perda, mas realocação: ele seguiria à frente da expansão internacional que já provou saber conduzir, agora com o capital e a ambição já demonstrados pelo grupo J&F como respaldo. Somado à experiência institucional de Dantas, o conjunto sugere menos uma disputa de poder interna e mais uma tentativa de reproduzir, tardiamente, o roteiro que transformou a Embraer em player global após sua privatização: separar quem sabe operar tecnicamente e vender no mundo de quem sabe negociar com o Estado e captar capital, colocando as duas frentes para trabalhar em paralelo.

O risco, no entanto, é simples de nomear. Esse tipo de arranjo só funciona se as duas frentes permanecerem complementares; se a chegada de Dantas significar, na prática, esvaziamento da influência de Hassuani em vez de realocação de seu papel, a Avibras Aeroco corre o risco de perder o capital de confiança técnica e militar que ele levou décadas para construir, sem garantir, em troca, que a experiência internacional que teoricamente seria preservada de fato se converta em resultado. 

Feito com equilíbrio, o conjunto de movimentos pode elevar a Avibras Aeroco de fabricante recuperada da crise a uma verdadeira plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional; feito sem essa cautela, corre o risco de repetir o erro de trocar continuidade técnica por articulação política sem garantir que as duas coexistam.

O que ainda está em aberto 
Além da confirmação oficial do destino de Dantas, resta o acompanhamento sobre o futuro de Sami Youssef Hassuani, hoje à frente da Avibras Aeroco, caso o ex-ministro assuma a presidência. 

27 agosto, 2026

DCT conhece capacidades de propulsão e sistemas inteligentes da Avibras Aeroco

Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército visitou a planta da empresa em Jacareí (SP) nesta quarta-feira (26/08), em mais uma etapa da aproximação entre a Força Terrestre e a indústria nacional de defesa



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A Avibras Aeroco recebeu, nesta quarta-feira (26/08), em sua unidade fabril em Jacareí (SP), a visita do chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército Brasileiro, general de Exército Hertz Pires do Nascimento. A comitiva reuniu ainda o general de Divisão Erb Lyra Leal, chefe do Gabinete de Planejamento e Gestão do DCT, e o general de Brigada Douglas Corbari Corrêa, chefe do Núcleo do Parque Tecnológico de Defesa e Segurança em Campinas.

Durante a visita, os oficiais conheceram diferentes áreas da empresa, com destaque para as competências de engenharia, a capacidade industrial e a certificação de produtos. A apresentação incluiu, em particular, os processos ligados à propulsão e à integração de sistemas inteligentes de defesa de última geração, áreas em que a Avibras Aeroco concentra parte de seu portfólio tecnológico.

O DCT é o órgão de direção setorial do Comando do Exército responsável por entregar as soluções científico-tecnológicas necessárias à implementação de capacidades da Força, conforme as políticas, os planejamentos e as diretrizes estratégicas estabelecidas pela instituição.

Em nota, a Avibras Aeroco classificou a visita como um reforço à conexão entre a indústria de Defesa e as instituições responsáveis pelo desenvolvimento tecnológico e pela geração de capacidades estratégicas para o País, contribuindo, segundo a empresa, para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) e para a soberania nacional.

A agenda desta quarta-feira integra uma sequência de visitas institucionais recebidas pela Avibras Aeroco ao longo de 2026, período de retomada de suas operações industriais em Jacareí. Em 1º de julho, a fábrica recebeu o comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva; em 24 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve nas instalações, acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin; e em 18 de agosto, a direção do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), chefiada pelo tenente-brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, também visitou a planta para tratar de projetos de defesa e espaço.

A Avibras Aeroco foi constituída em outubro de 2025, no âmbito do processo de recuperação judicial da antiga Avibras Indústria Aeroespacial, e herdou o parque fabril, os contratos e o portfólio tecnológico da companhia histórica, entre eles o sistema de artilharia Astros e o míssil tático de cruzeiro MTC-300. A retomada da produção na unidade de Jacareí ocorreu em maio de 2026.

O general Douglas Corbari Corrêa, um dos integrantes da comitiva, também chefia a iniciativa do Exército para a criação de um parque tecnológico de defesa e segurança em Campinas (SP), projeto que prevê laboratórios, centros de pesquisa e espaços voltados a startups, em parceria com o governo paulista e a prefeitura da cidade.

26 agosto, 2026

Marambaia sedia novo ensaio de tiro do míssil de cruzeiro brasileiro

Exercício na Restinga da Marambaia cumpre integralmente os objetivos previstos e mantém o cronograma de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro, da Avibras Aeroco, sistema que deve integrar o portfólio do ASTROS



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Nesta quarta-feira (26/08), o Exército Brasileiro (EB) e a Avibras Aeroco realizaram, com sucesso, um novo ensaio de tiro do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O exercício, que reuniu equipes das duas instituições, cumpriu integralmente os objetivos estabelecidos para esta etapa e representa mais um avanço no processo de certificação da arma.

O resultado reforça a capacidade tecnológica e operacional do País no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade e aproxima o MTC da fase final de qualificação, etapa considerada estratégica para dotar o Exército de uma capacidade de ataque de precisão a longas distâncias, hoje concentrada em poucos países no mundo.

Também conhecido como AV-TM 300 e apelidado internamente de “Matador”, o MTC integra o portfólio de munições inteligentes do Sistema de Artilharia ASTROS e tem alcance declarado de até 300 quilômetros (para exportação, pois o interno pode ser significativamente maior). O projeto, cujo desenvolvimento remonta ao início dos anos 2000, avançou nos últimos meses dentro do programa estratégico ASTROS-FOGOS, criado pelo Exército em março deste ano para reunir artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e defesa antiaérea contra drones em uma única plataforma multidomínio, com investimento previsto de R$ 3,4 bilhões entre 2026 e 2031. 


Participaram do ensaio o general de brigada João Paulo Zago, chefe do CAEx; o general de brigada R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico FOGOS; e o general de brigada R1 Moisés da Paixão Junior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha. A atividade também contou com a participação do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação (DF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em conjunto com equipes técnicas da Avibras Aeroco.

A Avibras Aeroco assumiu o portfólio tecnológico da antiga Avibras Indústria Aeroespacial após a reestruturação da empresa, concluída no início deste ano sob nova gestão privada. O MTC é apontado pela companhia como o programa mais estratégico em desenvolvimento, ao lado do futuro Míssil Tático Balístico, e é tratado pelo Exército como prioritário dentro do plano de modernização da defesa nacional.

23 agosto, 2026

Avibras Aeroco: o comprador tem nome, sobrenome e não é nem JBS nem J&F

Family office pessoal de Joesley e Wesley Batista afirma ao órgão antitruste e em comunicado próprio que a estrutura usada na compra está fora do conglomerado J&F; a JBS não tem qualquer participação na operação



*LRCA Defense Consulting - 23/08/2026

A compra da totalidade da Nova AVB S.A., controladora da Avibras Aeroco, está sendo feita pela Globe Investimentos S.A., family office pessoal dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e não pela J&F Investimentos S.A., a holding empresarial da família, nem pela JBS, a companhia de alimentos controlada por ela. A distinção consta tanto do pedido de aprovação submetido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) quanto de comunicado divulgado pela própria Globe, segundo reportagem da Folhapress publicada pelo Jornal de Brasília em 22 de agosto. O esclarecimento contrasta com boa parte da cobertura sobre o negócio, que vem descrevendo a operação genericamente como uma compra pela "J&F" ou pelo "Grupo J&F".

O que os Batista disseram ao Cade 
No pedido submetido ao Cade, os advogados do grupo e da Avibras solicitaram que a análise da operação ocorresse pelo rito sumário, reservado a negócios considerados de baixo risco concorrencial. Segundo o requerimento, a operação não seria capaz de gerar efeitos concorrenciais relevantes, dada a ausência de sobreposição entre as atividades das partes nos mercados envolvidos. Os advogados afirmaram ainda que nenhuma empresa da J&F detém participação igual ou superior a 10% no capital social de qualquer outra companhia brasileira ligada ao mercado aeroespacial ou de defesa. O texto do pedido também descreve o interesse dos Batista na aquisição: soluções de defesa como o sistema de artilharia Astros, mísseis, foguetes, veículos espaciais e produtos para o setor espacial civil, como propulsores e foguetes de treinamento.

Globe, J&F e JBS: estruturas distintas 
A reportagem é direta ao afirmar que a compra da Avibras será feita por meio da Globe Investimentos, family office dos irmãos Batista que não integra o conglomerado J&F, do qual fazem parte empresas como a JBS, a Âmbar Energia, a Eldorado Papel e Celulose e o banco Original. Em comunicado próprio, citado por outro veículo que também apurou o caso, a Globe afirmou que o investimento seria realizado por meio do patrimônio de investimentos pessoais da família Batista, sem integrar a estrutura da J&F S.A. A JBS, companhia de alimentos com ações negociadas em bolsa, não é mencionada em nenhuma das fontes consultadas como parte da operação.

Ainda assim, a J&F aparece no processo submetido ao Cade, já que o pedido cita todos os atos de concentração notificados pela holding ao órgão nos últimos cinco anos, além de suas demonstrações financeiras mais recentes. A menção decorre de exigências regulatórias sobre a composição do grupo econômico dos compradores, e não de uma participação direta da J&F no negócio.

A ponte entre as duas estruturas 
A confusão entre Globe e J&F tem uma explicação prática: as duas estruturas compartilham quadros de gestão. A presidência da Globe é ocupada por Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista, que também ocupou a presidência da própria holding J&F Investimentos a partir de 2021 e exerceu outros cargos executivos no grupo, como a administração da LHG Mining. Foi esse mesmo padrão que se repetiu na compra de 4,99% do capital da Usiminas junto à CSN, em julho de 2025: a operação também foi conduzida pela Globe Investimentos, e reportagens da época já registravam que o veículo pertence diretamente à família Batista, sem integrar formalmente a holding J&F.

O contexto da Avibras
A Avibras Indústria Aeroespacial entrou em recuperação judicial em março de 2022 e permaneceu cerca de três anos com a produção parada, após uma greve de funcionários por falta de pagamento. A Avibras Aeroco, criada em outubro de 2025 para receber os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da companhia antiga, não teve faturamento naquele ano e só voltou a operar em maio de 2026, depois de uma captação de R$ 300 milhões junto a investidores brasileiros, entre eles Joesley Batista. Historicamente, a Avibras teve como clientes países como Arábia Saudita, Catar, Indonésia e Malásia, e forneceu equipamentos usados nas guerras Irã-Iraque e do Golfo, nas décadas de 1980 e 1990. Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a fábrica da empresa em Jacareí e defendeu mais investimentos nas Forças Armadas brasileiras.

O que ainda depende de aprovação 
Apesar da assinatura do contrato entre as partes, a operação ainda não foi concluída e depende do aval do Cade. A Avibras Aeroco confirmou, em comunicado ao mercado de 21 de agosto, que a transação foi submetida à análise do órgão antitruste e que o negócio só se concretiza caso seja aprovado e desde que sejam finalizados os trâmites de fechamento.

21 agosto, 2026

Avibras Aeroco confirma venda da Nova AVB à Globe Investimentos, do Grupo J&F

Comunicado ao mercado confirma a venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da empresa, mas a operação ainda depende de aprovação do Cade e da conclusão dos trâmites de fechamento 


*LRCA Defense Consulting - 21/08/2026

A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. divulgou nesta sexta-feira (21), em Jacareí (SP), um comunicado ao mercado confirmando que a totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da empresa, será vendida à Globe Investimentos S.A., veículo do Grupo J&F. Segundo o texto, a companhia foi informada da operação pelo Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimentos em Participações Multiestratégia (Fundo Brasil Crédito), acionista vendedor, e a transação já foi submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A venda só se concretiza caso seja aprovada pelo órgão antitruste e desde que sejam concluídos os trâmites necessários para o fechamento.

O que diz o comunicado 
O documento, assinado pela própria Avibras Aeroco, é direto: informa que o Fundo Brasil Crédito comunicou a submissão da transação ao Cade e que, em caso de aprovação e fechamento, o resultado será a venda de 100% das ações da Nova AVB S.A. para a Globe. A empresa afirma que manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos, mas não divulga valor, cronograma estimado para a análise do Cade ou detalhes adicionais da operação.

Reconstituindo a estrutura societária 
A Nova AVB S.A. (CNPJ 60.160.089/0001-85) foi constituída em 31 de março de 2025 como sociedade anônima fechada, com sede na Avenida Paulista, 1636, em São Paulo, e capital social subscrito de R$ 100 milhões. A empresa passou a constar formalmente no quadro societário da Avibras Aeroco em 9 de abril de 2026, na mesma data em que Thiago Luiz Cavassutti de Oliveira, diretor da Nova AVB, entrou como administrador da Avibras Aeroco; André Felipe Rosado França, presidente da própria Nova AVB, assumiu a segunda vaga de administrador em 7 de maio.

Ata de assembleia geral extraordinária da Nova AVB, realizada em 20 de janeiro de 2026, mostra que a totalidade das 100 milhões de ações ordinárias da empresa pertence ao Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, o Fundo Brasil Crédito. Parte do capital social, R$ 99.999.960,00, foi integralizada por meio da utilização de um crédito reconhecido judicialmente contra a Avibras Indústria Aeroespacial S.A., a companhia antiga. Segundo laudo da V4 Auditores Independentes que instruiu a assembleia, esse crédito teve origem em uma dívida de serviços de marketing internacional contraída pela antiga Avibras junto à Poris Duta Sarana Co. em 2022, cedida ao Fundo Brasil Crédito em 2024 e reconhecida em ação de execução movida contra o fiador João Brasil Carvalho Leite, da qual resultaram a penhora de 59,1 milhões de ações da companhia antiga e sua posterior adjudicação à Vita Gestão e Investimentos, em julho de 2025, no valor atualizado de R$ 227,17 milhões.

Em outras palavras, o Fundo Brasil Crédito é hoje o único acionista da Nova AVB S.A., e é justamente essa posição de controle integral que está sendo vendida à Globe Investimentos, segundo o comunicado ao mercado divulgado nesta sexta-feira.

A Nova AVB não deve ser confundida com a Avibras Indústria Aeroespacial S.A., a companhia antiga, que segue em recuperação judicial sob controle da Martinelli Gestora de Ativos e Participações Ltda., holding criada em 5 de maio de 2026, com capital de R$ 100 mil e sede em um coworking de São José dos Campos, que sucedeu a Vita Gestão e Investimentos, ligada ao advogado Fábio Guimarães Leite. Segundo reportagem da revista Veja publicada em 14 de julho, a data, o valor e as condições dessa transferência de controle não foram divulgados, e a Martinelli não controla a operação industrial que retomou a produção de mísseis e foguetes, transferida para a Avibras Aeroco, hoje sob a Nova AVB.

O Fundo Brasil Crédito também coordenou a captação de R$ 300 milhões que viabilizou a retomada da produção da Avibras Aeroco em maio de 2026, captação da qual Joesley Batista participou como investidor. A Globe Investimentos, compradora na operação anunciada nesta sexta-feira, já havia atuado como veículo da família Batista na aquisição de 4,99% do capital da Usiminas junto à CSN, em 2025, e é presidida por Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista.

Repercussão no Congresso 
A distinção entre as duas estruturas também chegou ao Congresso. Em 12 de agosto, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou requerimento de informações ao Ministério da Defesa sobre o processo de aquisição da Avibras por grupos privados, de autoria do presidente do colegiado, deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança. O requerimento, citando a reportagem da Veja, reproduz a mesma distinção: a Martinelli não contempla a operação industrial, transferida para a Avibras Aeroco sob controle da Nova AVB, para a qual o Grupo J&F já havia aportado cerca de R$ 300 milhões.

Próximos passos 
A conclusão da operação depende agora do julgamento do Cade e da finalização dos trâmites de fechamento, sem prazo divulgado pela empresa. A Avibras Aeroco comprometeu-se a manter o mercado informado sobre novos desdobramentos. 

Postagem em destaque