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26 setembro, 2026

Drones um ano depois: Índia avança e Brasil busca escala

Nova Délhi prepara a maior encomenda de drones militares de sua história, com mais de US$ 2 bilhões reservados à indústria local; no mesmo período, o Brasil modernizou regras, testou sistemas nacionais e sinalizou recursos no orçamento, mas segue sem o programa de incentivo capaz de dar escala à BID



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Em setembro de 2025, a LRCA Defense Consulting, em matéria própria, apontou o estado indiano de Tamil Nadu e a política federal de incentivos da Índia como referência para que o Brasil estruturasse uma indústria de drones competitiva, e propôs a criação de um Programa Brasileiro de Incentivo à Produção de Drones (PBID). Doze meses depois, os dois países avançaram em ritmos muito diferentes. 

A Índia passou da fase de fomento para a de compra em larga escala, convertendo as lições do confronto com o Paquistão, em maio de 2025, em contratos, novas regras de aquisição e metas de nacionalização. 

O Brasil também se movimentou, com uma nova regulamentação da ANAC, campanhas de avaliação de drones pelo Exército e uma ação orçamentária que passa a citar os drones de forma explícita. Falta, porém, uma política industrial dedicada ao setor.

A maior encomenda da história indiana 
Em 3 de junho, a agência Reuters revelou que a Índia deverá encomendar à indústria nacional, ainda em 2026, mais de US$ 2 bilhões (acima de 200 bilhões de rúpias) em drones militares de classe tática. A informação partiu de Smit Shah, presidente da Drone Federation India, entidade que reúne mais de 550 empresas e trabalha em estreita colaboração com o governo. Segundo ele, o plano está em estágio avançado, deve seguir um rito de aquisição acelerado (fast track) e prevê entregas em 18 a 24 meses. O valor representa um salto em relação às encomendas recentes de drones táticos, estimadas em 30 bilhões de rúpias (cerca de US$ 313 milhões). O Ministério da Defesa indiano não comentou a reportagem.

Os beneficiários potenciais vão de conglomerados como Adani Group, Larsen & Toubro e Tata Advanced Systems a empresas especializadas e startups como ideaForge, NewSpace Research e Asteria Aerospace, com produtos que cobrem reconhecimento, logística, munições remotamente pilotadas, ataque de precisão e componentes críticos. A motivação é explícita: no conflito de maio de 2025, os dois lados empregaram drones em larga escala, e o episódio expôs lacunas indianas de vigilância e ataque. 

Uma sequência de decisões em poucos meses 

A encomenda bilionária não é um fato isolado. Ela se apoia em uma série de medidas adotadas desde o início do ano:

• Orçamento recorde: o orçamento de defesa para o ano fiscal 2026-27 chegou a 7,85 trilhões de rúpias, alta de cerca de 15%, com 75% das aquisições de capital reservadas a fornecedores nacionais.

• Drone de combate furtivo: em 27 de março, o Conselho de Aquisições de Defesa (DAC) aprovou a compra de 60 aeronaves de ataque remotamente pilotadas do antigo projeto Ghatak, do DRDO, estimada em 390 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 4 bilhões), com meta de 80% de nacionalização.

• Compra descentralizada: em 2 de junho, o ministro Rajnath Singh assinou a nova delegação de poderes financeiros às Forças Armadas, que permite aos comandos adquirir diretamente, com verbas de custeio, drones que dispensam pista e custam até 50 milhões de rúpias por unidade, sem passar pelo ciclo centralizado de investimentos.

• Novas aprovações: em 3 de julho, o DAC autorizou cerca de 520 bilhões de rúpias em aquisições que incluem sistemas antidrone de guerra eletrônica, um drone kamikaze a jato para o Exército, drones embarcados e aeronaves não tripuladas de alta altitude.

• Contratos assinados: em agosto, o governo contratou a Tata Advanced Systems e a NIBE Limited, por 15,77 bilhões de rúpias (cerca de US$ 165 milhões), para fornecer sistemas de munição remotamente pilotada e 840 munições ao Exército.

Em paralelo, a minuta do novo Procedimento de Aquisição de Defesa, divulgada em fevereiro, impede a importação de itens incluídos na Lista Positiva de Nacionalização e cria um caminho específico para drones comerciais de prateleira (commercial off-the-shelf), que podem ser aceitos com base na certificação do fornecedor e em testes de recebimento, sem as longas avaliações de campo. 


A demanda, mais do que o subsídio, mudou o jogo 

A comparação com o cenário de 2025 traz uma lição importante. O esquema de incentivo à produção (PLI) para drones, destacado na reportagem anterior, teve orçamento modesto: 1,2 bilhão de rúpias em três anos. O que transformou a indústria indiana foi a combinação desse estímulo inicial com a proibição de importação de drones prontos, um mercado civil em expansão e, sobretudo, a decisão do Estado de comprar em volume e rapidamente de fornecedores locais.

O ecossistema resultante já soma mais de 600 empresas ligadas a drones, das quais mais de uma centena atua em defesa. O programa iDEX, voltado a startups e pequenas empresas, reunia 676 participantes em março de 2026, e 58 protótipos, avaliados em 38,5 bilhões de rúpias, receberam autorização de compra. A dependência de componentes chineses (motores, sensores e sistemas de imagem) continua sendo o ponto fraco reconhecido pelo próprio governo, que estabeleceu a meta de produzir no país ao menos 40% dos componentes-chave até o ano fiscal de 2028, com apoio de crédito barato do banco estatal SIDBI. A imprensa indiana também noticiou a preparação de um novo esquema quinquenal de incentivo à manufatura de drones, da ordem de 100 bilhões de rúpias, cuja implantação ainda não aparece confirmada nas fontes consultadas.

O Brasil também saiu do lugar 
Do lado brasileiro, o ano trouxe avanços concretos, alguns deles alinhados às propostas feitas pela LRCA em 2025:

• Nova regulamentação: a ANAC aprovou o RBAC 100 pela Resolução nº 805, em vigor desde 16 de junho, substituindo o RBAC-E 94. As operações passaram a ser classificadas por risco (categorias Aberta, Específica e Certificada), e não mais pelo peso da aeronave. O Decea complementou o marco com a ICA 100-40, sobre acesso ao espaço aéreo, e a ICA 100-48, sobre gerenciamento de tráfego não tripulado, ambas vigentes desde 1º de julho.

• Certificações nacionais: o Harpia, da Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril, habilitando sua produção em série; em setembro, o Nauru 100D, da XMobots, foi autorizado a operar até 30 quilômetros de alcance e 6 mil pés de altitude, de dia e à noite.

• Avaliação pelo Exército: entre 22 de junho e 3 de julho, a Diretoria de Fabricação conduziu uma campanha de pré-qualificação de drones lançadores de munição e de sistemas de munições remotamente pilotadas. Das 84 propostas submetidas por empresas da BID, 32 chegaram aos testes práticos e sete estavam qualificadas até 30 de junho; um segundo edital foi publicado em agosto. Entre os pré-qualificados figura a Vultis, startup criada por estudantes da UFSC em Joinville (SC).

• Espaço fiscal: a lei complementar que exclui até R$ 30 bilhões em investimentos de defesa do arcabouço fiscal, ao longo de seis anos, permitiu ao Exército projetar cerca de R$ 3 bilhões anuais para seus programas estratégicos entre 2026 e 2031.

• Sinal orçamentário: o PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões ao Sisfron. A primeira ação não se destina apenas a drones e o projeto ainda depende de aprovação no Congresso, mas é a primeira vez que o termo aparece no título de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre.

• Sinal político: em 8 de setembro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou ao Metrópoles que as Forças Armadas investirão fortemente em drones para reforçar a vigilância das fronteiras, onde atuam cerca de 20 mil militares, e citou a Ucrânia, a China e a Turquia como referências.

Somam-se a isso a inclusão de drones de impacto na lista de Produtos Estratégicos de Defesa, em agosto, e a Política de Inteligência Artificial do Ministério da Defesa, instituída pela Portaria GM-MD nº 4.360, de 24 de agosto, que trata da redução da dependência tecnológica, tema diretamente ligado à soberania sobre o software embarcado.

O que continua no solo 
Apesar dos avanços, o diagnóstico de 2025 permanece essencialmente válido. Em audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, em 8 de setembro, convocada a pedido do senador Marcos Pontes (PL-SP) para discutir um Programa Nacional de Drones, foi informado que o País já tem 177 mil drones cadastrados na ANAC e registra cerca de 10 mil novos equipamentos por mês. A representante da Secretaria Nacional de Aviação Civil, Júlia Lopes da Silva Nascimento, listou os entraves: carga tributária elevada, falta de incentivos à cadeia produtiva, escassez de mão de obra especializada, pouco fomento à pesquisa, crédito restrito e ausência de uma estratégia nacional para o setor.

O presidente da ABDrone, Pedro Curcio Júnior, defendeu redução de impostos sobre equipamentos e componentes, apoio a pequenos empreendedores e integração entre ANAC, Decea e Anatel. Pela Força Aérea, o major-brigadeiro do ar Frederico Casarino tratou o desenvolvimento de drones nacionais como questão de soberania, resumindo a posição da FAB na frase "o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil". Pontes anunciou a intenção de propor um marco legal para o setor e de criar uma frente parlamentar.

Em outras palavras, o Brasil ainda não criou um programa de incentivo à produção, um conselho nacional que articule governo, empresas e universidades, nem uma encomenda plurianual com volumes definidos. A diferença de escala é evidente: enquanto a Índia prepara um pacote superior a US$ 2 bilhões apenas para drones táticos, a principal ação brasileira que menciona drones soma R$ 520 milhões e é compartilhada com a Aviação do Exército. 


Lições para dinamizar a BID 

A experiência indiana dos últimos doze meses permite atualizar a agenda proposta em 2025, deslocando o foco do subsídio para a demanda:

• Encomenda firme e previsível: mais do que incentivos fiscais, a indústria precisa de um horizonte de compras. Um plano plurianual de aquisição de sistemas não tripulados, com quantidades e categorias definidas, daria às empresas a segurança para investir em linhas de produção, a exemplo do que o pedido de 60 aeronaves Ghatak fez pela cadeia indiana.

• Rito de aquisição compatível com a tecnologia: drones táticos envelhecem em meses. A pré-qualificação do Exército é um bom primeiro passo, mas precisa desembocar em compras experimentais por lotes e, possivelmente, em autorização para que os Comandos Militares de Área adquiram diretamente sistemas de pequeno porte já qualificados, como fez a Índia.

• Preferência nacional clara: a Lei nº 12.598/2012 já oferece os instrumentos de Empresa Estratégica de Defesa e Produto Estratégico de Defesa. Falta definir categorias de drones em que a importação seja excepcional, à semelhança da lista positiva indiana.

• Cadeia de componentes: metas de conteúdo nacional para motores, baterias, sensores, enlaces de dados e software embarcado, com linhas de crédito da Finep e do BNDES, atacariam o ponto que a própria Índia ainda não resolveu.

• Ponte entre startups e Forças Armadas: a presença de uma empresa nascida em ambiente universitário entre os pré-qualificados mostra que há talento disponível. Um mecanismo nos moldes do iDEX, com desafios, financiamento de protótipos e compromisso de compra, poderia multiplicar esses casos.

• O marco legal como oportunidade: o debate aberto na CCT do Senado pode ser o veículo para institucionalizar o PBID e o Conselho Nacional de Drones propostos em 2025, integrando regulação, incentivo à produção e demanda de defesa em um único instrumento.

Da vitrine à escala 
Há um ano, o Brasil tinha potencial, mas não tinha regras modernas, sinal orçamentário nem processo estruturado de avaliação de sistemas nacionais. Hoje tem os três, ainda que em estágio inicial. A Índia mostra que o passo seguinte, e decisivo, é transformar protótipos qualificados em encomendas de volume, com prazos curtos e preferência pela indústria local. Sem isso, empresas como XMobots, AdTech SD, Stella Tecnologia e outras seguirão demonstrando capacidade em vitrines e exercícios, mas sem a escala que sustenta uma base industrial. Com isso, o País pode, enfim, fazer a decolagem que parecia iminente em 2025.

24 setembro, 2026

A corrida pela autonomia nacional em sistemas não tripulados: o Brasil entre a dependência e a liderança



*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026 

O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América Latina, a Xmobots e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.

O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.

Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa (BID).

A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado atualmente.

A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer . Em 2026, o Grupo EDGE, conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos. No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.

A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação, expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.

Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em ciclos contínuos extremamente curtos.

A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.

Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado, sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos objetivos traçados para a década.

O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos, compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves, motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS); links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.

A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.

Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos, a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos principais agentes industriais do país permite identificar as competências já internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.

No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado, a Xmobots destaca-se como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.

Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até 28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD 2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às plataformas nacionais.

A AERO CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.

No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta confiabilidade, a AEL Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras, notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.

A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi, empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em 2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026, consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia decisória.

Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025, adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.

A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no Brasil.

Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte (OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.

A coordenação institucional desse contingente fabril deu um salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE, congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid, Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella Tecnologia, Taurus Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade, simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de maior sofisticação tecnológica.

Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados, revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas brasileiras.

Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes. O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres, navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software no centro do poder de combate.

Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033 demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de dados especializados em sistemas autônomos.

O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa), a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.

O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo à independência tecnológica de fato.

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


*
LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

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