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26 agosto, 2026

Marambaia sedia novo ensaio de tiro do míssil de cruzeiro brasileiro

Exercício na Restinga da Marambaia cumpre integralmente os objetivos previstos e mantém o cronograma de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro, da Avibras Aeroco, sistema que deve integrar o portfólio do ASTROS



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Nesta quarta-feira (26/08), o Exército Brasileiro (EB) e a Avibras Aeroco realizaram, com sucesso, um novo ensaio de tiro do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O exercício, que reuniu equipes das duas instituições, cumpriu integralmente os objetivos estabelecidos para esta etapa e representa mais um avanço no processo de certificação da arma.

O resultado reforça a capacidade tecnológica e operacional do País no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade e aproxima o MTC da fase final de qualificação, etapa considerada estratégica para dotar o Exército de uma capacidade de ataque de precisão a longas distâncias, hoje concentrada em poucos países no mundo.

Também conhecido como AV-TM 300 e apelidado internamente de “Matador”, o MTC integra o portfólio de munições inteligentes do Sistema de Artilharia ASTROS e tem alcance declarado de até 300 quilômetros (para exportação, pois o interno pode ser significativamente maior). O projeto, cujo desenvolvimento remonta ao início dos anos 2000, avançou nos últimos meses dentro do programa estratégico ASTROS-FOGOS, criado pelo Exército em março deste ano para reunir artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e defesa antiaérea contra drones em uma única plataforma multidomínio, com investimento previsto de R$ 3,4 bilhões entre 2026 e 2031. 


Participaram do ensaio o general de brigada João Paulo Zago, chefe do CAEx; o general de brigada R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico FOGOS; e o general de brigada R1 Moisés da Paixão Junior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha. A atividade também contou com a participação do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação (DF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em conjunto com equipes técnicas da Avibras Aeroco.

A Avibras Aeroco assumiu o portfólio tecnológico da antiga Avibras Indústria Aeroespacial após a reestruturação da empresa, concluída no início deste ano sob nova gestão privada. O MTC é apontado pela companhia como o programa mais estratégico em desenvolvimento, ao lado do futuro Míssil Tático Balístico, e é tratado pelo Exército como prioritário dentro do plano de modernização da defesa nacional.

28 junho, 2026

Avibras Aeroco retoma produção e prepara dois novos mísseis após reestruturação

AV-MTC, o míssil de cruzeiro da Avibras, em imagem renderizada por IA

*LRCA Defense Consulting - 28/06/2026

A Avibras Aeroco, empresa criada a partir da reestruturação da antiga Avibras, afirma ter concluído as diligências jurídicas, contábeis, tecnológicas e comerciais herdadas do processo de recuperação judicial e já retomou a produção industrial. Em entrevista ao Estadão, reproduzida pelo portal MSN, o presidente da empresa, Sami Youssef Hassuani, detalhou o cronograma de entregas ao Exército Brasileiro e à Força Aérea Brasileira (FAB), o desenvolvimento de dois novos mísseis e a expectativa de antecipar a retomada das exportações.

Diligências confirmam ativos intactos
O processo começou em agosto de 2025, com a mudança de controle da Avibras. Dentro da recuperação judicial, criou-se a Avibras Aeroco, empresa que herdou todos os ativos e toda a propriedade intelectual da antiga companhia. Nos cerca de oito meses seguintes, a nova gestão realizou quatro diligências: jurídica, contábil e financeira, tecnológica e industrial.

Segundo Sami, a tecnologia está intacta, incluindo servidores, propriedade intelectual e desenhos de engenharia, assim como o maquinário e o parque industrial. Uma diligência comercial também foi feita, com visitas a clientes no Brasil e no exterior, sobretudo no Golfo e no Sudeste Asiático, onde, segundo o executivo, os clientes aguardam com expectativa a chegada da nova Avibras.

Produção industrial retomada
Concluídas as auditorias, a empresa instalou as áreas jurídica e comercial, religou toda a engenharia até março e retomou as atividades de procurement e de parcerias. O parque industrial foi revisado e a produção foi oficialmente reiniciada, ainda que dependa de um ramp-up gradual de cadência.

A prioridade de entrega, segundo o presidente, é o mercado interno. Ainda em 2026 estão previstos dois lotes de munições e peças de reposição para o Exército Brasileiro, além de itens para a continuidade do programa espacial conduzido com a FAB. Para 2027, a empresa projeta um salto de patamar, com entregas maiores ao Exército e novos contratos, incluindo desenvolvimentos inéditos.

Em entrevista em vídeo, via portal MSN, o presidente da empresa, Sami Youssef Hassuani fala ao Estadão

Dois mísseis novos em desenvolvimento
Entre os novos produtos está um míssil balístico guiado de 120 quilômetros de alcance, desenvolvido em conjunto com o Exército Brasileiro e aguardado tanto pelo mercado interno quanto por clientes externos. Já o míssil de cruzeiro de 300 quilômetros está praticamente pronto, em fase final de certificação.

O míssil tático balístico, de alcance menor que o de cruzeiro, tem voo supersônico e trajetória direta ao alvo, sem navegação por waypoints. Segundo o executivo, esse tipo de munição foi amplamente empregado na guerra na Ucrânia e em conflitos no Golfo. De acordo com informações inéditas reveladas ao perfil @Defence360 na rede social X pelo CEO da empresa, a Avibras Aeroco está desenvolvendo uma nova versão do seu sistema de artilharia de saturação, designada como ASTROS II MK7, com uma viatura lançadora 6x6 capaz de disparar o míssil tático balístico AV-SS 120 e que contará com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores.

Exportações podem ser antecipadas para 2027
Todos os clientes ativos no exterior já foram recontatados, com visitas técnicas realizadas pela própria Avibras Aeroco. No curto prazo, as compras se concentram em peças de reposição, mas a empresa negocia também novos contratos de fornecimento.

O planejamento original previa a retomada das exportações apenas em 2028. Sami afirmou, porém, ter confiança de que produtos (não apenas peças) poderão começar a ser exportados já em meados de 2027, um ano antes do previsto, em razão do que descreveu como um mercado internacional aquecido.

O triângulo que protege a soberania
Ao falar sobre o contexto mais amplo da base industrial de defesa, Sami descreveu uma mudança de paradigma global a partir de 2022. Segundo ele, o entendimento anterior de soberania dividia-se entre dois grupos: o que via na capacidade de negociação diplomática o principal instrumento e o que apostava em forças armadas equipadas e treinadas. Para o presidente da Avibras Aeroco, os conflitos recentes mostraram que ambos os grupos estavam certos, mas incompletos.

Recém-chegado de um seminário internacional e de uma feira na França, o executivo afirmou que países sem capacidade industrial para repor estoques rapidamente e em grande escala perdem capacidade de combate em poucos dias, mesmo tendo poder de negociação e armamento inicial. Para ele, a capacidade industrial de reposição rápida de estoques passou a ser o terceiro vértice indispensável, ao lado da diplomacia e das forças armadas equipadas, para proteger a soberania de um país.

AV-SS 120, míssil balístico para ser lançado do ASTROS II MK7 (imagem renderizada por IA)

Integração entre inovação, indústria e orçamento
Questionado sobre o que falta ao modelo brasileiro, Sami reconheceu a limitação de recursos, mas apontou um problema estrutural anterior à questão orçamentária: a falta de integração entre os instrumentos disponíveis. Citou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), operado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), como um mecanismo relevante de fomento à inovação, mas insuficiente quando desconectado das demais etapas da cadeia.

Segundo o executivo, o modelo internacional adotado a partir de 2024 e 2025 condiciona o financiamento à inovação à existência de um caminho claro de industrialização e de orçamento de compra, incluindo linhas de crédito do BNDES para expansão industrial e recursos orçamentários federais. Sem essa interconexão entre fomento, crédito industrial e orçamento de aquisição, afirmou, o dinheiro disponível continua disperso e a indústria não consegue se planejar.

Sami defendeu ainda a unificação das empresas do setor para que atuem de forma sinérgica, o que, em sua avaliação, permitiria distribuir demanda de maneira mais organizada por toda a base industrial de defesa brasileira.

17 abril, 2026

O arsenal de mísseis que o Brasil está desenvolvendo

Da crise da Avibras ao surgimento de novos players, o país acumula projetos de mísseis de longo alcance que podem redefinir sua postura estratégica 


*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026

Numa base aérea brasileira cujo nome não foi divulgado, um motor a jato de fabricação nacional quebrou o recorde de distância em voo. O feito, anunciado discretamente pela Turbomachine, empresa de São José dos Campos, passou longe dos noticiários gerais. Mas para quem acompanha a indústria de defesa brasileira, o significado era claro: o coração propulsor dos mísseis de cruzeiro do Brasil havia acabado de provar que funcionava.

Era apenas mais um capítulo de uma história que avança em silêncio há décadas e que, em 2026, entrou em fase de aceleração sem precedentes. 

O Brasil está construindo, simultaneamente e em diferentes estágios de maturidade, um arsenal de mísseis de longo alcance que abrange desde um míssil de cruzeiro a 90% de conclusão até projetos hipersônicos capazes de voar a Mach 6. No centro dessa transformação estão três empresas que o público em geral mal conhece: Avibras, SIATT e Mac Jee. E surgindo na periferia desse ecossistema, duas outras: Plasma Hub e, como fornecedora transversal de propulsão, a própria Turbomachine.

A Avibras e o "Matador": vinte e cinco anos esperando o último disparo
A história começa em 1999, com uma Avibras em plena atividade e a primeira concepção de um míssil de cruzeiro nacional. O desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001, mas os anos seguintes foram de reformulações profundas: as asas retráteis foram removidas, materiais compostos incorporados, o projeto inteiramente refeito. Em 2012, o Exército Brasileiro assinou o contrato de encomenda e investiu US$ 100 milhões na fase de desenvolvimento. O míssil ganhou o apelido de "Matador".

Hoje, em 2026, o Matador ainda não entrou em serviço. Mas está mais perto do que nunca: 90% do desenvolvimento está concluído, aguardando apenas a campanha de tiros de certificação, etapa que requer a Avibras em plena operação.

Tecnicamente, o AV-TM 300 é um projétil de engenharia aeronáutica sofisticada. Voa a cerca de mil km/h em perfil rasante, mantendo altitude de aproximadamente 800 metros e acompanhando o relevo do terreno para dificultar a detecção por sistemas antiaéreos. Seu alcance declarado é de 300 km, com precisão de até 30 metros. O motor de cruzeiro é uma variante do turbojato TJ-1000, desenvolvido pela Turbomachine e produzido pela Avibras sob acordo de licença de fabricação. Há duas versões de ogiva: uma auto-explosiva de até 200 kg e uma múltipla com 66 submunições.

O alcance declarado de 300 km, porém, não é o limite técnico... é o limite político. O Brasil é signatário do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que restringe a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, o gerente do Programa Astros 2020 declarou a jornalistas que o AV-TM 300 tem "muito mais que 300 km de alcance; quantos forem necessários à defesa do Brasil".

O segredo que escapou num vídeo
O desdobramento mais revelador da história do Matador foi a versão aerolançável, o MICLA-BR - Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance. Em março de 2019, o jornalista Roberto Caiafa recebeu uma dica: um caça F-5EM Tiger II da Base Aérea de Canoas havia sido fotografado carregando, no cabide central, um artefato alaranjado de grandes proporções. A Força Aérea silenciou. Meses depois, foi o próprio Ministério da Defesa que entregou o segredo: no vídeo comemorativo dos 100 dias do governo Bolsonaro, aos cinco minutos e cinco segundos, lá estava a imagem do teste.

A confirmação oficial veio em 24 de setembro de 2019, quando o Major-Brigadeiro Sérgio Roberto de Almeida, chefe da Sexta Subchefia do EMAER, apresentou ao Congresso Nacional os 18 projetos estratégicos da FAB. O MICLA-BR foi descrito como "o sexto projeto estratégico da Força Aérea, um projeto de grande porte que equaliza o Brasil militarmente com outros países que possuam esta capacidade". Segundo o slide exibido, trata-se de um míssil de cruzeiro com 300 km de alcance, com propulsão por motor a reação, para lançamento por plataformas aéreas e de superfície, equipado com navegação inercial/GPS e redundância por correlação de imagem. Dependendo da missão, o MICLA-BR pode carregar sensor infravermelho, radar de acompanhamento do terreno ou radar de abertura sintética (SAR).

Em novembro de 2020, FAB e Avibras formalizaram a parceria com um Memorando de Entendimento, no qual o então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, definiu o projeto como "um dos mais importantes" dos programas estratégicos da Força. A destinação era clara: armar os caças F-39 Gripen que a FAB começava a receber.

A versão aerolançável tem diferenças técnicas importantes em relação ao AV-TM 300 terrestre. Como o lançamento ocorre a partir de uma aeronave já em velocidade e altitude, o booster de propulsão sólida, necessário para ejetar o míssil do lançador terrestre, torna-se dispensável. Isso simplifica o projeto e potencialmente amplia o alcance efetivo. Com o F-39 Gripen armado com o MICLA-BR e apoiado pelo reabastecimento em voo do KC-390, a FAB teria condições de atingir qualquer alvo estratégico no continente sul-americano ou na costa atlântica africana, uma capacidade de dissuasão sem precedentes na história das Forças Armadas brasileiras.

O programa, porém, também foi vítima da crise da Avibras. Com a empresa em recuperação judicial e a produção paralisada por três anos, o desenvolvimento perdeu tração. 

A virada veio neste mês de abril de 2026. Joesley Batista, controlador da J&F, a holding que comanda a gigante JBS, assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a reestruturação. Com o acordo trabalhista homologado, a previsão é de que a fábrica retome as operações em maio, chegando a 200 funcionários, 500 em junho e mais de mil à medida que novos contratos forem fechados. A prioridade imediata é concluir a campanha de tiros do Matador, desbloqueando também o caminho para a versão aérea.

Além do MTC-300 e do MICLA-BR, o Exército quer ainda o S+100, um míssil balístico tático que aproveitará o conhecimento acumulado no foguete SS-80 do sistema ASTROS, com compatibilidade garantida com os lançadores existentes. Enquanto o míssil de cruzeiro voa rasante e subsônico, o balístico segue trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação dos dois sistemas dentro da plataforma ASTROS, rebatizada de "Fogos", daria ao Brasil uma capacidade de dissuasão em múltiplas camadas sem paralelo na América do Sul.

O "Matador" e o MICLA-BR aguardam seu último disparo. Ambos dependem de que as luzes da fábrica em São José dos Campos finalmente voltem a se acender e, desta vez, para não mais se apagarem.

A SIATT e o "easter egg": o segredo que escapou numa foto
Se a Avibras é a veterana em crise, a SIATT é a ascendente em expansão acelerada. Fundada há dez anos, a empresa de São José dos Campos foi adquirida em 50% pelo Grupo EDGE, conglomerado de defesa de Abu Dhabi que já investiu cerca de R$ 3 bilhões no Brasil. Em setembro de 2025 inaugurou nova sede com 6.000 m², consolidando laboratórios, engenharia e produção num único campus.

Em março de 2026, uma publicação aparentemente rotineira no LinkedIn da SIATT (foto abaixo) gerou ondas no setor. O jornalista e analista Angelo Nicolaci, ao examinar a imagem compartilhada pela empresa, identificou um míssil que não constava em nenhum catálogo oficial (na foto a seguir, à esquerda, em cima). Fontes próximas ao desenvolvimento confirmaram ao jornalista: trata-se de um novo sistema em versões com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km, categoria equivalente ao Tomahawk americano. A empresa já teria realizado uma prova de conceito com voo de teste de aproximadamente 120 km.

Imagem divulgada pela SIATT

A revelação tem dimensão estratégica que vai além do Brasil. O Grupo EDGE, que no Dubai Airshow 2025 lançou 42 novos produtos em um único dia, não possui em seu portfólio nenhum míssil com alcance próximo ao do Tomahawk. Seu sistema mais avançado, o WSM-1, alcança apenas 290 km. Um míssil com DNA brasileiro e alcance entre 500 e 1.000 km preencheria uma lacuna crítica para um conglomerado que hoje vende para mais de 50 países.

No portfólio confirmado, a SIATT já opera sistemas relevantes: o MANSUP, míssil antinavio desenvolvido com a Marinha do Brasil, com alcance de 70 km; o MANSUP-ER, versão estendida com alcance de 200 km; e o sistema anticarro MAX 1.2, contratado pelo Exército e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Em fevereiro de 2026, a Marinha assinou protocolo de intenções para o desenvolvimento do MARSUP, versão aérea do MANSUP, para lançamento por helicópteros e aviões. Na FIDAE 2026, em abril, a SIATT exibiu em tamanho real o MANSUP e o MAX 1.2 para audiência internacional.

Concepções artísticas dos mísseis

Mac Jee: a empresa que quer fazer tudo
Menos conhecida do que Avibras e SIATT, a Mac Jee se posicionou nos últimos anos como o player mais ambicioso da nova geração. Reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa e sediada no mesmo polo tecnológico de São José dos Campos, a empresa opera com a menor exposição pública e o portfólio mais diversificado.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, sistemas desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, projetado para neutralizar radares e sistemas de defesa aérea inimigos em operações SEAD (do inglês Suppression of Enemy Air Defenses - Supressão de Defesas Aéreas Inimigas). O MAA-1B é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento infravermelho avançado (IIF) e capacidade off-boresight (capacidade de mísseis rastrearem e engajarem alvos localizados fora do eixo central da aeronave).

 Os folhetos técnicos revelam dados precisos: o ARM (evolução do MAR-1) tem alcance de 70 km, peso de 272 kg e ogiva de 90 kg; o SRAAM (evolução do MAA-1B) tem alcance de 25 km e guiamento IIR dual-band de 5ª geração.

Mas são os projetos não catalogados que mais chamam a atenção. A Mac Jee também está desenvolvendo um míssil de cruzeiro com motor microjato, asas retráteis e lançamento terrestre, concorrendo diretamente com o MTC-300 num segmento em que a Avibras tem décadas de vantagem. E um SRBM (Short-Range Tactical Ballistic Missile): alcance de 300 km, peso de 2.200 kg, comprimento de 6 metros, ogiva de 250 kg, navegação GNSS/INS e precisão de até 10 metros. Lançado de silos ou plataformas móveis, com tempo de voo de apenas 5 minutos ao alvo máximo. O artigo da Infodefensa foi categórico: o SRBM coloca o Brasil como o primeiro país da América Latina a desenvolver um míssil balístico com capacidades comparáveis ao MGM-140 ATACMS norte-americano.

No front hipersônico, a Mac Jee é parceira estratégica do IEAv (Instituto de Estudos Avançados da FAB) no Projeto 14-X, o mais ambicioso da defesa brasileira. Em dezembro de 2025, os dois firmaram acordo de 36 meses envolvendo cerca de 40 engenheiros para desenvolver o sistema de propulsão hipersônica. Em 2021, o protótipo já havia atingido Mach 6 e 160 km de altitude durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Alcântara. O investimento total já passou de R$ 117 milhões. O primeiro voo efetivo está previsto para 2027; a aplicação operacional, para 2030.

A Plasma Hub e o motor do futuro
Entre as novatas do setor, a Plasma Hub se destaca por um projeto que nenhuma outra empresa brasileira assumiu explicitamente: um míssil de cruzeiro com alcance superior a 1.000 km, arma estratégica, não tática.

A empresa, também sediada em São José dos Campos e reconhecida como EED, foi formada por engenheiros com passagens pela Embraer e pela Avibras. A solução que a distingue é a parceria com a Turbomachine para uso do motor TJ-1000, o mesmo que a própria Avibras utiliza sob licença no MTC-300. Com esse propulsor, a Plasma Hub projeta velocidade de cruzeiro de aproximadamente 900 km/h e carga útil de 200 kg. O sistema de guiamento terminal infravermelho promete precisão de 2 metros. O lançamento está previsto para ocorrer de caminhões ou silos fixos.

O analista Roberto Caiafa foi direto ao ponto: se o fabricante declara "longo alcance" com o TJ-1000, o sistema necessariamente ultrapassa os 1.000 km. E se ultrapassa os 300 km do MTCR, fica evidente que o projeto foi concebido tendo o Estado Brasileiro como cliente exclusivo, pois não pode ser exportado dentro das regras internacionais às quais o Brasil aderiu.

A Plasma Hub integra ainda o consórcio do ML-BR (Micro Lançador de Satélites Brasileiro), responsável pela montagem e integração dos sistemas de bordo, demonstrando a sobreposição intrínseca entre tecnologia espacial e missilística.

Turbomachine: o motor silencioso de tudo
Por trás de vários desses programas, há uma empresa que raramente aparece nas manchetes: a Turbomachine. Fundada em 2007 a partir do CTA/ITA pelo engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, ela nasceu de um desafio da Petrobras para criar a primeira turbina a gás brasileira. Em 2009, a Avibras bateu à sua porta para pedir o motor do Matador.

Hoje o TJ-1000 - turbojato de 5.000 N de empuxo, com mais de 600 partidas bem-sucedidas e mais de 100 horas de operação acumulada - é classificado como Produto Estratégico de Defesa (PED) e integra ou está em negociação com quase todos os programas de mísseis do país. Em novembro de 2024, a Turbomachine anunciou outro marco: seu turbofan de baixa razão de bypass, o primeiro desenvolvido no hemisfério sul, alcançou 25 mil RPM com estabilidade operacional.

A confirmação do interesse governamental no trabalho da empresa veio no final de março de 2026, quando representantes do Ministério da Defesa, do MCTI e da ABIN visitaram suas instalações durante a semana de apresentação do PRONABENS (Programa Nacional de Integração Estado-Empresa na Área de Bens Sensíveis). A presença simultânea dos três órgãos, incluindo o órgão de inteligência nacional, não passou despercebida: indica que o TJ-1000 e seus derivados são acompanhados ao nível de tecnologia sensível classificada.

Quadro estratégico: o que está em jogo
Somados, os projetos em curso desenham um Brasil missilístico que não existia há uma década. Na camada de alcance médio (até 300 km), o MTC-300 da Avibras e o míssil de cruzeiro da Mac Jee competem pelo mesmo espaço, com o primeiro em fase de conclusão e o segundo em desenvolvimento. Na camada longa (300–1.000 km), o míssil ainda não confirmado da SIATT (se chegar ao mercado) colocaria o Brasil numa categoria de pouquíssimos países. Na camada estratégica (mais de 1.000 km), o projeto da Plasma Hub aponta para um sistema sem precedentes na América do Sul. E na fronteira hipersônica (Mach 5+), o 14-X da Mac Jee com a FAB aguarda seu primeiro voo real em 2027.

O contexto não poderia ser mais favorável. A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal. O orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. A indústria que quase perdeu sua principal empresa agora dispõe (em princípio) de capital, legislação e demanda que não tinha.

A pergunta que fica é a do jornalista especializado Roberto Caiafa ao contemplar a Plasma Hub, e que serve para todo o setor: as Forças Armadas demonstrarão interesse pelos projetos? Investirão os recursos necessários para transformar protótipos e conceitos em armas operacionais? 

A Avibras esperou 25 anos pelo último disparo do Matador. O Brasil pode não ter esse tempo no mundo que está se formando.

25 janeiro, 2025

IAV 2025: Exército Brasileiro busca adquirir MBT e IFV com alto grau de comunalidade


*European Security & Defence, por Pedro Felstead - 24/01/2025

Em seus planos de modernização para adquirir novos carros de combate principais (MBTs) e veículos de combate de infantaria (IFVs), o Exército Brasileiro está buscando obter soluções com alto grau de comunalidade, conforme foi revelado.

Em discurso na conferência internacional de veículos blindados (IAV 2025) da Defence iQ, realizada em Farnborough (Inglaterra) de 21 a 23 de janeiro, o general Hertz Pires do Nascimento, comandante do Comando Militar Sul do Exército Brasileiro, disse em 21 de janeiro que, ao substituir os MBTs Leopard 1 e os veículos blindados de transporte de pessoal (APCs) M113 do Brasil, o exército "está buscando plataformas com o mais alto nível possível de comunalidade".

O general observou que o projeto MBT está programado para começar em 2028 com o objetivo de fornecer ao exército uma frota de tanques “em linha com as tendências atuais na guerra de tanques”, mas que um subprograma “também inclui a implementação de um projeto de veículo de combate de infantaria”.

O Gen Hertz não deu mais detalhes sobre o programa, que poderia, por exemplo, envolver a aquisição de um IFV pesado sobre esteiras com uma variante de apoio de fogo direto, mas acrescentou: “Estamos buscando oportunidades de mercado internacional e potenciais parceiros para cooperar no desenvolvimento desses projetos com o objetivo de construí-los no Brasil”.

Em uma apresentação abrangente, o Gen Hertz também detalhou os atuais esforços de modernização do Exército Brasileiro. Em relação ao desenvolvimento das forças blindadas, ele observou que o Guarani 6×6 APC é o foco principal. Desenvolvido pela Iveco em colaboração com o Exército Brasileiro, o Guarani já está em serviço operacional, com o Gen Hertz observando que mais de 1.300 APCs Guarani serão finalmente entregues em diversas variantes, incluindo uma variante armada com um canhão Elbit de 30 mm operado remotamente, um veículo de posto de comando, veículos de defesa aérea com unidades de disparo e radar, veículos de comunicação e variantes de ambulância, além do APC básico. Uma variante de engenharia blindada, acrescentou o general, está nos estágios finais de avaliação e subsequente produção em série.

Para modernizar seus regimentos de cavalaria mecanizada e substituir seus carros blindados Engesa 6×6 Cascavel armados com canhões de 90 mm, o Exército Brasileiro selecionou o Centauro II armado com um canhão de 120 mm e construído pelo Consórcio Iveco – Oto Melara (CIO), disse o Gen Hertz. Ele acrescentou que o Exército Brasileiro concluiu a avaliação técnica e operacional de dois veículos de amostra e em breve espera assinar um contrato para 98 veículos. Enquanto isso, 98 Cascavel serão atualizados por um consórcio de empresas brasileiras contratadas em 2023 para estender suas vidas úteis, acrescentou o general. Enquanto os canhões de 90 mm dos Cascavel serão mantidos, parte da frota será armada com o míssil anti-tanque brasileiro MAX 1.2 AC (da SIATT) para aumentar seu poder de fogo.

Em relação aos veículos mais leves, o Gen Hertz disse que a introdução dos Iveco LMV-BR 2 4×4s “representa uma mudança significativa nas capacidades das brigadas mecanizadas”, acrescentando que algumas dessas plataformas já estão em serviço e que 420 veículos devem ser entregues até 2033 para substituir os veículos de carroceria macia atualmente em serviço.

Em termos de artilharia, o Gen Hertz observou o sucesso do programa estratégico de lançadores múltiplos de foguetes Astros do Brasil. Enquanto o sistema de artilharia Astros II entrou em serviço com o Exército Brasileiro no início dos anos 1990, o Astros II Mk6, que entrou em serviço em 2014, pode disparar mísseis de cruzeiro AVMT-300 brasileiros com alcance de 300 km.

O general também destacou o programa do Exército Brasileiro para adquirir obuses autopropulsados ​​(SPHs) de 155 mm. Em abril de 2024, foi anunciado que o exército havia selecionado a Elbit Systems de Israel para fornecer 36 de seus SPHs sobre rodas ATMOS, embora um contrato para esses sistemas tenha sido adiado pelo governo brasileiro em vista da conduta de Israel na guerra em Gaza.

01 agosto, 2023

SCOPA injetará recursos na Avibras e comprará mísseis de cruzeiro AV-MTC 300 e foguetes SS-150

Míssil de Cruzeiro Avibras AV-MTC 300 lançado pelo Sistema Astros

*Rio Times - 01/08/2023

A Avibras Aerospace and Defense do Brasil assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com a empresa saudita Scopa Defense em 31 de julho.

O acordo foi assinado durante o Fórum de Investimentos Brasil-Arábia Saudita, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A parte saudita vai injetar recursos na empresa brasileira, agilizando seu processo de recuperação judicial e revitalizando sua vantagem competitiva.

Além disso, serão feitos pedidos de mísseis de cruzeiro AV-MTC 300, novos foguetes SS-150 (altamente precisos) com alcance de 150 km e outros implementos necessários para operar essas armas.

Este acordo fornecerá uma atualização valiosa para a Arábia Saudita.

17 julho, 2023

Com mísseis de cruzeiro indianos, Argentina busca vantagem estratégica no Continente

Enquanto o Brasil ainda não sabe o que faz com a Avibras - única fabricante de mísseis de cruzeiro da América Latina - a Argentina vai à Índia para adquirir esse tipo de armamento, buscando uma vantagem estratégica na América do Sul.



*Financial Express, por Huma Siddiqui - 17/07/2023

A Argentina expressou grande interesse no sistema de mísseis lançados do ar BrahMos, marcando um passo significativo para melhorar suas capacidades de defesa. Com a chegada do ministro da Defesa da Argentina, Jorge Taiana, a Nova Delhi, as negociações estão marcadas para acontecer nas instalações de BrahMos, destacando a crescente cooperação entre as duas nações.

O míssil de cruzeiro supersônico BrahMos, um produto da joint venture indo-russa, atraiu a atenção de vários países da América do Sul, incluindo Argentina, Brasil e Chile. O Financial Express Online informou anteriormente que na recente exposição de defesa no Brasil 'LAAD', várias delegações da região visitaram o estande da BrahMos, demonstrando sua curiosidade sobre este míssil desenvolvido localmente.

Um míssil supersônico multiplataforma
A versatilidade do míssil BrahMos não pode ser subestimada. Ele pode ser lançado de uma ampla variedade de plataformas, incluindo caças, submarinos, navios e sistemas terrestres. Tendo sido introduzido nas Forças Armadas da Índia, a proeza operacional do míssil foi comprovada. Conforme relatado anteriormente, adicionalmente, os testes em andamento visam estender seu alcance além dos atuais 290 quilômetros, chegando até 450 quilômetros e até 600 quilômetros. O lançamento de teste bem-sucedido do destróier de mísseis stealth local, INS Visakhapatnam , é uma prova de sua eficácia.

Argentina busca vantagem estratégica
O interesse da Argentina em mísseis de cruzeiro decorre da necessidade de fortalecer suas capacidades de defesa. Em um cenário de segurança em constante evolução, possuir tecnologia de ponta torna-se crucial para proteger os interesses nacionais. Mísseis de cruzeiro oferecem uma vantagem estratégica, fornecendo capacidades de ataque de precisão de longo alcance, aumentando a dissuasão e permitindo uma resposta rápida em situações críticas. “Ao adquirir o sistema BrahMos, a Argentina poderia melhorar significativamente sua postura de defesa, garantindo a proteção de sua integridade territorial e segurança nacional”, explicou um oficial superior, que preferiu permanecer anônimo.

Filipinas foi o primeiro país a adquirir o BrahMos
A BrahMos Aerospace Pvt Ltd, já realizou exportações com sucesso. O recente contrato com as Filipinas, no valor de US$ 375 milhões, destaca a demanda global por esse notável sistema de armas. A Marinha das Filipinas adquiriu três baterias do míssil, com discussões em andamento para uma variante terrestre para fortalecer seu exército. Este sucesso abre caminho para potenciais exportações para outras nações, após o cumprimento de procedimentos intergovernamentais necessários.

Além disso, a joint venture indo-russa por trás da BrahMos é considerada uma “jóia preciosa” na cooperação de defesa entre a Índia e a Rússia. Esta colaboração significa a confiança e experiência compartilhada entre as duas nações, resultando no desenvolvimento de tecnologia militar avançada. Ao alavancar essa parceria, a Argentina pode aproveitar o conhecimento e a experiência acumulados, fortalecendo ainda mais suas capacidades de defesa.

O interesse da Argentina em adquirir mísseis de cruzeiro, especificamente o sistema BrahMos, reflete seu compromisso com a modernização de sua infraestrutura de defesa. À medida que a Argentina se envolve em negociações com autoridades indianas, o potencial de colaboração nesse domínio é promissor. 

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