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23 outubro, 2026

A base instalada do ASTROS como ponte para a retomada da Avibras Aeroco

Frotas em serviço na Ásia e no Golfo podem gerar receitas com munições, peças e modernização, enquanto a empresa amadurece o MTC, o AV-SS 120 e lançadores de nova geração

Imagem renderizada e meramente ilustrativa


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LRCA Defense Consulting - 23/10/2026 - 15h30

Um patrimônio comercial que não pode ser ignorado 
A retomada industrial da Avibras Aeroco, empresa de Jacareí (SP) que herdou os ativos e a propriedade intelectual da antiga Avibras, abre uma oportunidade que não depende apenas de novos contratos para sistemas de última geração: reconstruir o relacionamento com os países que já operam o ASTROS. 

Na Ásia, a Indonésia recebeu 63 lançadores ASTROS II MK6 em dois lotes (36 encomendados em 2012 e 27 entregues em 2020), e a Malásia opera 36 unidades, metade delas encomendada num segundo lote, em 2007. No Golfo, a Arábia Saudita adquiriu cerca de 60 sistemas na década de 1980, e Bahrein e Catar compraram quantidades não divulgadas. Iraque e Angola também receberam o sistema, mas pertencem mais ao legado histórico do que ao mercado atual. Essa base instalada concentra demandas potenciais por munições, peças de reposição, revisões, assistência técnica e atualização de equipamentos.


O que a própria empresa já sinalizou 
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em junho, o presidente da Avibras Aeroco, Sami Youssef Hassuani, informou que a nova gestão realizou diligências comerciais com visitas a clientes no Brasil e no exterior, sobretudo no Golfo e no Sudeste Asiático. Segundo ele, todos os clientes ativos no exterior foram recontatados, com visitas técnicas da própria empresa. No curto prazo, as compras se concentram em peças de reposição, mas também há negociações de novos contratos de fornecimento. 

O executivo disse confiar que a exportação de produtos, e não apenas de peças, possa recomeçar em meados de 2027, um ano antes do previsto no planejamento original. A meta para 2028 é chegar a 1.000 funcionários e a um faturamento de R$ 500 milhões. Em outubro, a Avibras Aeroco enviou uma equipe comercial ao Marrakech Air Show, realizado de 7 a 10 de outubro, vitrine para o mercado africano e para o mundo árabe, onde estão alguns dos operadores históricos do sistema.


O mercado doméstico como vitrine 
No País, a transferência do Contrato nº 130/2023, formalizada em setembro pelo Centro de Obtenções do Exército, no valor de R$ 60.800.818,56, prevê 3.072 foguetes ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS de treinamento e 448 SS-30. Em 6 de outubro, a empresa entregou seu primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro, no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa (GO), cinco meses após o início das operações, sem identificar publicamente se o lote integrava esse contrato. 

A empresa também retomou a fabricação dos foguetes SS-40 e SS-80. Para clientes estrangeiros, a regularidade das entregas ao Exército Brasileiro, que já se refere ao programa como ASTROS-FOGOS, funciona como prova de que a linha de produção voltou a operar.


Munições e MRO como primeira frente de negócios 
A reposição de foguetes e os contratos de manutenção, reparo e revisão geral (MRO) podem gerar receitas antes da maturação de novos projetos. Inspeção, recuperação de viaturas, fornecimento de componentes, treinamento e atualização de sistemas de controle ampliam o relacionamento com os operadores e preservam a reputação do produto. 

A velocidade de conversão dessas oportunidades em caixa dependerá de contratos, adiantamentos, capacidade produtiva, fornecedores e licenças de exportação. A conclusão, em 15 de outubro, da aquisição da Avibras Aeroco pela Globe Investimentos, dos empresários Joesley e Wesley Batista, pode facilitar o capital de giro necessário para atender encomendas maiores.


Munições guiadas, o elo entre o legado e a nova geração 
O maior valor agregado para a base instalada pode estar nas munições de precisão. Em comunicado de setembro, a Avibras Aeroco afirmou que o Míssil Tático de Cruzeiro (AV-MTC), de 300 quilômetros de alcance, estava em fase final de certificação. A empresa também desenvolve com o Exército o AV-SS 120, míssil balístico tático guiado de 120 quilômetros, de voo supersônico e trajetória direta ao alvo, anunciado como aguardado tanto pelo mercado interno quanto por clientes externos. 

Para um operador de MK6, incorporar munição guiada compatível com a frota existente tende a ser mais rápido e barato do que substituir lançadores. A integração em frotas estrangeiras, contudo, exigirá qualificação específica e autorização de exportação. 

Imagem renderizada e meramente ilustrativa

O MK6 continua relevante, mas o ambiente de combate mudou 
A guerra na Ucrânia ampliou a importância da dispersão, da mobilidade, da vigilância por drones e da reação aos fogos de contrabateria. Isso não significa que o ASTROS II MK6 tenha perdido utilidade: a relevância de um sistema de artilharia depende do teatro de operações, da ameaça, do apoio de inteligência, da proteção e do modo de emprego. 

Uma bateria típica reúne cerca de 13 viaturas (seis lançadoras, seis remuniciadoras e uma unidade de controle de fogo com radar). Operar em bateria não obriga as viaturas a permanecerem agrupadas; a questão é o grau de dependência das lançadoras em relação à unidade de direção de tiro, nó que se torna alvo prioritário num cenário em que a rapidez de deslocamento e a autonomia aumentam a sobrevivência.


Do legado à nova geração 
Em 2023, a Avibras apresentou o ASTROS AFC, com capacidade anunciada de calcular elementos de tiro na própria lançadora e operar isoladamente ou em seção, segundo o conceito shoot and scoot. Também divulgou o ASTROS III, sobre chassi Tatra T815 8x8, com capacidade para quatro AV-MTC por lançadora (contra dois no ASTROS II) e 72 foguetes SS-30 (contra 32); à época, a empresa considerava construir um protótipo. Em 2026, o CEO revelou o desenvolvimento do ASTROS II MK7, com viatura 6x6, maior autonomia operacional e capacidade de disparar o AV-SS 120. A possibilidade de atualizar lançadores MK6 com maior autonomia merece avaliação técnica e econômica, sem pressupor que a adaptação seja simples. 

Espanha, o teste fora da base instalada
O cancelamento da compra do lançador israelense PULS, em setembro de 2025, reabriu o programa espanhol SILAM, no qual o ASTROS competiu em 2023 por meio do consórcio Ibermisil, formado pela Avibras e pela espanhola NTGS. Em levantamento publicado em 21 de outubro, a Infodefensa incluiu o ASTROS II entre as alternativas de mercado, ao lado do Chunmoo, do HIMARS, do GMARS e do lançador da Roketsan. O portal ressalvou, porém, que a parceria não representa uma oferta ativa e confirmada e que a situação financeira da Avibras havia gerado dúvidas sobre sua capacidade produtiva. Madri busca um parceiro disposto a transferir tecnologia e a ceder a autoridade de design à indústria nacional, e o futuro do programa permanece incerto. Nesse cenário, entregas regulares ao Exército Brasileiro e aos operadores atuais são o argumento mais concreto que a Avibras Aeroco pode apresentar para responder a essas dúvidas.

O desafio da execução 
Para transformar essa perspectiva em resultados, a Avibras Aeroco precisará identificar o estado real das frotas estrangeiras, reconstruir cadeias de suprimento, garantir padrões de qualidade, oferecer suporte confiável e negociar contratos sustentáveis. Há limites claros para a análise: os números de frota provêm de fontes abertas e não indicam quantos lançadores permanecem operacionais; não há base pública para quantificar a demanda reprimida de cada país; e os anúncios do AFC, do ASTROS III e do MK7 não confirmam testes, qualificação ou produção seriada. 

Além disso, os mesmos operadores são disputados por fabricantes de lançadores modernos, o que torna a resposta rápida às demandas atuais uma condição para manter a preferência pelo produto brasileiro. A prioridade comercial deve ser determinada por demanda verificável, condições de pagamento e viabilidade industrial, e não pelo número histórico de lançadores exportados.


Preservar o presente para construir o futuro 

A recuperação da Avibras Aeroco não precisa ser apresentada como uma escolha entre o ASTROS MK6 e seus sucessores. O sistema existente continua capaz de cumprir missões relevantes em determinados ambientes operacionais, enquanto as novas versões procuram responder a exigências adicionais de autonomia e sobrevivência. 

Sustentar a frota em serviço, com munições, peças e modernização, e oferecer a ela munições guiadas pode ser a maneira mais pragmática de fortalecer o caixa, recuperar a confiança dos clientes e financiar a próxima geração da artilharia brasileira.

06 outubro, 2026

Avibras Aeroco faz primeira entrega ao Exército e transforma retomada industrial em resultado concreto

Cinco meses após reiniciar as operações, empresa entrega lote de munições em Formosa; marco ocorre dias depois da transferência de contrato de R$ 60,8 milhões que prevê 3.072 foguetes ASTROS



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LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Avibras Aeroco alcançou nesta terça-feira, 6 de outubro, um dos marcos mais relevantes desde a retomada de suas operações: a entrega do primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro (EB). O material foi recebido no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt), em Formosa (GO), principal estrutura logística de apoio ao Sistema ASTROS da Força Terrestre.


A entrega ocorre apenas cinco meses depois do início oficial das atividades da nova empresa, em maio, após um longo período de crise financeira, recuperação judicial e paralisação industrial da antiga Avibras. Mais do que cumprir uma etapa contratual, o evento representa a primeira demonstração concreta de que a reorganização empresarial conseguiu reativar a cadeia produtiva, recompor equipes especializadas e voltar a colocar material de emprego militar nas mãos do principal cliente nacional da companhia.

Que munições foram entregues? 

A Avibras Aeroco não informou, em seu comunicado, o tipo nem a quantidade das munições que compõem o primeiro lote. Esse ponto impede afirmar, neste momento, que a entrega corresponda a um contrato específico.

Há, entretanto, uma coincidência relevante. Em 25 de setembro, poucos dias antes da entrega, foi publicada a sub-rogação total do Contrato nº 130/2023, pelo qual a Avibras Aeroco assumiu da Avibras Divisão Aérea e Naval S.A. todos os direitos e obrigações de uma encomenda do Exército no valor de R$ 60.800.818,56, com vigência até 31 de dezembro de 2026.

Como o LRCA Defense Consulting revelou em 28 de setembro, a documentação original desse contrato prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, destinados ao treinamento das guarnições, e 56 contêineres completos AV-CL/SS-30, cada um contendo oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições.

Os AV-SS-09 TS representam a maior parcela quantitativa da encomenda e somam R$ 37,96 milhões. Os contêineres com os 448 SS-30 correspondem a outros R$ 22,85 milhões. Embora a proximidade entre a transferência contratual e a entrega desta terça-feira torne plausível uma relação entre os dois fatos, não há, até o momento, confirmação pública da empresa ou do Exército que permita estabelecer essa vinculação como fato. 



De uma fábrica paralisada à primeira entrega em cinco meses 
A velocidade da retomada é um dos aspectos mais relevantes do anúncio. A Avibras Aeroco iniciou oficialmente suas operações em maio de 2026, reunindo ativos estratégicos, instalações e o portfólio tecnológico transferidos no processo de reorganização da antiga Avibras Indústria Aeroespacial.

A reativação foi apoiada por uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O processo permitiu reintegrar trabalhadores, contratar profissionais especializados, recompor fornecedores e colocar novamente em funcionamento áreas ligadas à fabricação de mísseis, foguetes, veículos especiais e sistemas aeroespaciais.

Em maio, a nova companhia também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Em julho, durante visita às instalações de Jacareí (SP), o Ministério da Defesa registrou que a fábrica já operava na produção de componentes metálicos para mísseis e foguetes, na montagem de sistemas de defesa e na fabricação de veículos especiais.

Segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a empresa precisou, nesses cinco meses, ativar áreas produtivas, incorporar mão de obra especializada e restabelecer elos de sua cadeia de suprimentos. A primeira entrega mostra que essa recomposição ultrapassou a fase de preparação fabril e chegou efetivamente à etapa de produção, aceitação logística e fornecimento ao cliente.

O Exército como elemento central da recuperação 
O Exército Brasileiro tem exercido papel central na retomada da Avibras Aeroco. Já em 6 de maio, representantes da empresa reuniram-se no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, com autoridades responsáveis por fabricação, tecnologia, avaliação e artilharia para alinhar demandas em andamento e discutir futuros contratos.

Em julho, nova reunião na unidade industrial de Jacareí reuniu a Diretoria de Fabricação, o Comando de Artilharia do Exército, as gerências do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e do Subprograma Artilharia de Campanha, além da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia. O encontro tratou tanto dos contratos existentes quanto de novas possibilidades de cooperação.

A escolha de Formosa para a primeira entrega é igualmente significativa. O Forte Santa Bárbara concentra o Comando de Artilharia do Exército e organizações diretamente ligadas ao emprego, treinamento, manutenção e logística de mísseis e foguetes. É ali que se encontra o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, responsável por sustentar a capacidade operacional do ASTROS.

ASTROS volta ao centro da atividade industrial 

O Sistema ASTROS continua sendo o principal ativo tecnológico e comercial da Avibras Aeroco. Desenvolvido no Brasil e exportado para diferentes países, o sistema permite empregar munições de diferentes calibres e alcances a partir de uma arquitetura móvel de lançadores, viaturas de comando, remuniciamento, apoio e controle de tiro.

Para o Exército, a disponibilidade regular de foguetes não se limita à formação de estoques. As munições de treinamento são necessárias para manter guarnições qualificadas, realizar exercícios de tiro e preservar a prontidão de unidades especializadas. Já os foguetes operacionais recompõem e ampliam a capacidade de fogo da Força Terrestre.

A retomada industrial ocorre paralelamente à evolução tecnológica do próprio ASTROS. Em agosto, Avibras Aeroco e Exército realizaram com sucesso mais uma etapa da certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), no Centro de Avaliações do Exército, na Restinga da Marambaia (RJ). O armamento, integrado ao sistema, foi desenvolvido para alcançar alvos a até 300 quilômetros.

O Programa Estratégico ASTROS-FOGOS também contempla a evolução da artilharia brasileira para capacidades de maior alcance e precisão, incluindo o foguete guiado SS-40G e o MTC, além da modernização mais ampla da Artilharia de Campanha. 


Mudança de controle avança em paralelo 
A recuperação operacional ocorre ao mesmo tempo em que a estrutura de controle da empresa passa por nova transformação. Em agosto, a Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, acertou a aquisição da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco.

Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições, ao concluir que a transação representava essencialmente uma substituição de agente econômico, sem potencial de produzir problemas concorrenciais. O valor da aquisição não foi divulgado.

A combinação de novo capital, continuidade dos contratos militares e retomada das linhas industriais cria uma situação bastante diferente daquela enfrentada pela companhia nos últimos anos. A sustentabilidade dessa recuperação, porém, continuará dependendo de encomendas domésticas, exportações, investimentos em desenvolvimento tecnológico e capacidade de manter uma cadeia de fornecedores compatível com produtos de defesa de alta complexidade.

Um marco que pode ser mais importante que o tamanho do lote 

Mesmo sem a divulgação da quantidade entregue nesta terça-feira, o significado industrial do evento é claro. Para uma fabricante de sistemas complexos, voltar a produzir não significa apenas religar máquinas. É necessário requalificar processos, restabelecer fornecedores, assegurar matérias-primas e componentes, recompor equipes de engenharia e produção, executar controles de qualidade e atender aos requisitos de aceitação do cliente militar.

A primeira entrega ao Exército indica que a Avibras Aeroco conseguiu percorrer esse ciclo em aproximadamente cinco meses. Trata-se de um indicador concreto de recuperação de capacidade produtiva, ainda que não seja suficiente, isoladamente, para assegurar a sustentabilidade financeira de longo prazo da companhia.

O próximo ponto a observar será a cadência das entregas. Caso o lote esteja relacionado ao Contrato nº 130/2023, a empresa terá diante de si uma encomenda que, em sua configuração original, envolve milhares de foguetes e prazo contratual até o fim de dezembro. Se pertencer a outro instrumento, a entrega continuará tendo relevância própria e reforçará a existência de uma carteira em execução.

De qualquer forma, cinco meses depois de iniciar uma nova etapa empresarial, a fabricante do ASTROS voltou a fazer aquilo que constitui a razão central de sua existência: transformar tecnologia nacional em sistemas e munições entregues às Forças Armadas brasileiras.

26 agosto, 2026

Marambaia sedia novo ensaio de tiro do míssil de cruzeiro brasileiro

Exercício na Restinga da Marambaia cumpre integralmente os objetivos previstos e mantém o cronograma de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro, da Avibras Aeroco, sistema que deve integrar o portfólio do ASTROS



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Nesta quarta-feira (26/08), o Exército Brasileiro (EB) e a Avibras Aeroco realizaram, com sucesso, um novo ensaio de tiro do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O exercício, que reuniu equipes das duas instituições, cumpriu integralmente os objetivos estabelecidos para esta etapa e representa mais um avanço no processo de certificação da arma.

O resultado reforça a capacidade tecnológica e operacional do País no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade e aproxima o MTC da fase final de qualificação, etapa considerada estratégica para dotar o Exército de uma capacidade de ataque de precisão a longas distâncias, hoje concentrada em poucos países no mundo.

Também conhecido como AV-TM 300 e apelidado internamente de “Matador”, o MTC integra o portfólio de munições inteligentes do Sistema de Artilharia ASTROS e tem alcance declarado de até 300 quilômetros (para exportação, pois o interno pode ser significativamente maior). O projeto, cujo desenvolvimento remonta ao início dos anos 2000, avançou nos últimos meses dentro do programa estratégico ASTROS-FOGOS, criado pelo Exército em março deste ano para reunir artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e defesa antiaérea contra drones em uma única plataforma multidomínio, com investimento previsto de R$ 3,4 bilhões entre 2026 e 2031. 


Participaram do ensaio o general de brigada João Paulo Zago, chefe do CAEx; o general de brigada R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico FOGOS; e o general de brigada R1 Moisés da Paixão Junior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha. A atividade também contou com a participação do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação (DF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em conjunto com equipes técnicas da Avibras Aeroco.

A Avibras Aeroco assumiu o portfólio tecnológico da antiga Avibras Indústria Aeroespacial após a reestruturação da empresa, concluída no início deste ano sob nova gestão privada. O MTC é apontado pela companhia como o programa mais estratégico em desenvolvimento, ao lado do futuro Míssil Tático Balístico, e é tratado pelo Exército como prioritário dentro do plano de modernização da defesa nacional.

28 junho, 2026

Avibras Aeroco retoma produção e prepara dois novos mísseis após reestruturação

AV-MTC, o míssil de cruzeiro da Avibras, em imagem renderizada por IA

*LRCA Defense Consulting - 28/06/2026

A Avibras Aeroco, empresa criada a partir da reestruturação da antiga Avibras, afirma ter concluído as diligências jurídicas, contábeis, tecnológicas e comerciais herdadas do processo de recuperação judicial e já retomou a produção industrial. Em entrevista ao Estadão, reproduzida pelo portal MSN, o presidente da empresa, Sami Youssef Hassuani, detalhou o cronograma de entregas ao Exército Brasileiro e à Força Aérea Brasileira (FAB), o desenvolvimento de dois novos mísseis e a expectativa de antecipar a retomada das exportações.

Diligências confirmam ativos intactos
O processo começou em agosto de 2025, com a mudança de controle da Avibras. Dentro da recuperação judicial, criou-se a Avibras Aeroco, empresa que herdou todos os ativos e toda a propriedade intelectual da antiga companhia. Nos cerca de oito meses seguintes, a nova gestão realizou quatro diligências: jurídica, contábil e financeira, tecnológica e industrial.

Segundo Sami, a tecnologia está intacta, incluindo servidores, propriedade intelectual e desenhos de engenharia, assim como o maquinário e o parque industrial. Uma diligência comercial também foi feita, com visitas a clientes no Brasil e no exterior, sobretudo no Golfo e no Sudeste Asiático, onde, segundo o executivo, os clientes aguardam com expectativa a chegada da nova Avibras.

Produção industrial retomada
Concluídas as auditorias, a empresa instalou as áreas jurídica e comercial, religou toda a engenharia até março e retomou as atividades de procurement e de parcerias. O parque industrial foi revisado e a produção foi oficialmente reiniciada, ainda que dependa de um ramp-up gradual de cadência.

A prioridade de entrega, segundo o presidente, é o mercado interno. Ainda em 2026 estão previstos dois lotes de munições e peças de reposição para o Exército Brasileiro, além de itens para a continuidade do programa espacial conduzido com a FAB. Para 2027, a empresa projeta um salto de patamar, com entregas maiores ao Exército e novos contratos, incluindo desenvolvimentos inéditos.

Em entrevista em vídeo, via portal MSN, o presidente da empresa, Sami Youssef Hassuani fala ao Estadão

Dois mísseis novos em desenvolvimento
Entre os novos produtos está um míssil balístico guiado de 120 quilômetros de alcance, desenvolvido em conjunto com o Exército Brasileiro e aguardado tanto pelo mercado interno quanto por clientes externos. Já o míssil de cruzeiro de 300 quilômetros está praticamente pronto, em fase final de certificação.

O míssil tático balístico, de alcance menor que o de cruzeiro, tem voo supersônico e trajetória direta ao alvo, sem navegação por waypoints. Segundo o executivo, esse tipo de munição foi amplamente empregado na guerra na Ucrânia e em conflitos no Golfo. De acordo com informações inéditas reveladas ao perfil @Defence360 na rede social X pelo CEO da empresa, a Avibras Aeroco está desenvolvendo uma nova versão do seu sistema de artilharia de saturação, designada como ASTROS II MK7, com uma viatura lançadora 6x6 capaz de disparar o míssil tático balístico AV-SS 120 e que contará com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores.

Exportações podem ser antecipadas para 2027
Todos os clientes ativos no exterior já foram recontatados, com visitas técnicas realizadas pela própria Avibras Aeroco. No curto prazo, as compras se concentram em peças de reposição, mas a empresa negocia também novos contratos de fornecimento.

O planejamento original previa a retomada das exportações apenas em 2028. Sami afirmou, porém, ter confiança de que produtos (não apenas peças) poderão começar a ser exportados já em meados de 2027, um ano antes do previsto, em razão do que descreveu como um mercado internacional aquecido.

O triângulo que protege a soberania
Ao falar sobre o contexto mais amplo da base industrial de defesa, Sami descreveu uma mudança de paradigma global a partir de 2022. Segundo ele, o entendimento anterior de soberania dividia-se entre dois grupos: o que via na capacidade de negociação diplomática o principal instrumento e o que apostava em forças armadas equipadas e treinadas. Para o presidente da Avibras Aeroco, os conflitos recentes mostraram que ambos os grupos estavam certos, mas incompletos.

Recém-chegado de um seminário internacional e de uma feira na França, o executivo afirmou que países sem capacidade industrial para repor estoques rapidamente e em grande escala perdem capacidade de combate em poucos dias, mesmo tendo poder de negociação e armamento inicial. Para ele, a capacidade industrial de reposição rápida de estoques passou a ser o terceiro vértice indispensável, ao lado da diplomacia e das forças armadas equipadas, para proteger a soberania de um país.

AV-SS 120, míssil balístico para ser lançado do ASTROS II MK7 (imagem renderizada por IA)

Integração entre inovação, indústria e orçamento
Questionado sobre o que falta ao modelo brasileiro, Sami reconheceu a limitação de recursos, mas apontou um problema estrutural anterior à questão orçamentária: a falta de integração entre os instrumentos disponíveis. Citou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), operado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), como um mecanismo relevante de fomento à inovação, mas insuficiente quando desconectado das demais etapas da cadeia.

Segundo o executivo, o modelo internacional adotado a partir de 2024 e 2025 condiciona o financiamento à inovação à existência de um caminho claro de industrialização e de orçamento de compra, incluindo linhas de crédito do BNDES para expansão industrial e recursos orçamentários federais. Sem essa interconexão entre fomento, crédito industrial e orçamento de aquisição, afirmou, o dinheiro disponível continua disperso e a indústria não consegue se planejar.

Sami defendeu ainda a unificação das empresas do setor para que atuem de forma sinérgica, o que, em sua avaliação, permitiria distribuir demanda de maneira mais organizada por toda a base industrial de defesa brasileira.

17 abril, 2026

O arsenal de mísseis que o Brasil está desenvolvendo

Da crise da Avibras ao surgimento de novos players, o país acumula projetos de mísseis de longo alcance que podem redefinir sua postura estratégica 


*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026

Numa base aérea brasileira cujo nome não foi divulgado, um motor a jato de fabricação nacional quebrou o recorde de distância em voo. O feito, anunciado discretamente pela Turbomachine, empresa de São José dos Campos, passou longe dos noticiários gerais. Mas para quem acompanha a indústria de defesa brasileira, o significado era claro: o coração propulsor dos mísseis de cruzeiro do Brasil havia acabado de provar que funcionava.

Era apenas mais um capítulo de uma história que avança em silêncio há décadas e que, em 2026, entrou em fase de aceleração sem precedentes. 

O Brasil está construindo, simultaneamente e em diferentes estágios de maturidade, um arsenal de mísseis de longo alcance que abrange desde um míssil de cruzeiro a 90% de conclusão até projetos hipersônicos capazes de voar a Mach 6. No centro dessa transformação estão três empresas que o público em geral mal conhece: Avibras, SIATT e Mac Jee. E surgindo na periferia desse ecossistema, duas outras: Plasma Hub e, como fornecedora transversal de propulsão, a própria Turbomachine.

A Avibras e o "Matador": vinte e cinco anos esperando o último disparo
A história começa em 1999, com uma Avibras em plena atividade e a primeira concepção de um míssil de cruzeiro nacional. O desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001, mas os anos seguintes foram de reformulações profundas: as asas retráteis foram removidas, materiais compostos incorporados, o projeto inteiramente refeito. Em 2012, o Exército Brasileiro assinou o contrato de encomenda e investiu US$ 100 milhões na fase de desenvolvimento. O míssil ganhou o apelido de "Matador".

Hoje, em 2026, o Matador ainda não entrou em serviço. Mas está mais perto do que nunca: 90% do desenvolvimento está concluído, aguardando apenas a campanha de tiros de certificação, etapa que requer a Avibras em plena operação.

Tecnicamente, o AV-TM 300 é um projétil de engenharia aeronáutica sofisticada. Voa a cerca de mil km/h em perfil rasante, mantendo altitude de aproximadamente 800 metros e acompanhando o relevo do terreno para dificultar a detecção por sistemas antiaéreos. Seu alcance declarado é de 300 km, com precisão de até 30 metros. O motor de cruzeiro é uma variante do turbojato TJ-1000, desenvolvido pela Turbomachine e produzido pela Avibras sob acordo de licença de fabricação. Há duas versões de ogiva: uma auto-explosiva de até 200 kg e uma múltipla com 66 submunições.

O alcance declarado de 300 km, porém, não é o limite técnico... é o limite político. O Brasil é signatário do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que restringe a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, o gerente do Programa Astros 2020 declarou a jornalistas que o AV-TM 300 tem "muito mais que 300 km de alcance; quantos forem necessários à defesa do Brasil".

O segredo que escapou num vídeo
O desdobramento mais revelador da história do Matador foi a versão aerolançável, o MICLA-BR - Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance. Em março de 2019, o jornalista Roberto Caiafa recebeu uma dica: um caça F-5EM Tiger II da Base Aérea de Canoas havia sido fotografado carregando, no cabide central, um artefato alaranjado de grandes proporções. A Força Aérea silenciou. Meses depois, foi o próprio Ministério da Defesa que entregou o segredo: no vídeo comemorativo dos 100 dias do governo Bolsonaro, aos cinco minutos e cinco segundos, lá estava a imagem do teste.

A confirmação oficial veio em 24 de setembro de 2019, quando o Major-Brigadeiro Sérgio Roberto de Almeida, chefe da Sexta Subchefia do EMAER, apresentou ao Congresso Nacional os 18 projetos estratégicos da FAB. O MICLA-BR foi descrito como "o sexto projeto estratégico da Força Aérea, um projeto de grande porte que equaliza o Brasil militarmente com outros países que possuam esta capacidade". Segundo o slide exibido, trata-se de um míssil de cruzeiro com 300 km de alcance, com propulsão por motor a reação, para lançamento por plataformas aéreas e de superfície, equipado com navegação inercial/GPS e redundância por correlação de imagem. Dependendo da missão, o MICLA-BR pode carregar sensor infravermelho, radar de acompanhamento do terreno ou radar de abertura sintética (SAR).

Em novembro de 2020, FAB e Avibras formalizaram a parceria com um Memorando de Entendimento, no qual o então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, definiu o projeto como "um dos mais importantes" dos programas estratégicos da Força. A destinação era clara: armar os caças F-39 Gripen que a FAB começava a receber.

A versão aerolançável tem diferenças técnicas importantes em relação ao AV-TM 300 terrestre. Como o lançamento ocorre a partir de uma aeronave já em velocidade e altitude, o booster de propulsão sólida, necessário para ejetar o míssil do lançador terrestre, torna-se dispensável. Isso simplifica o projeto e potencialmente amplia o alcance efetivo. Com o F-39 Gripen armado com o MICLA-BR e apoiado pelo reabastecimento em voo do KC-390, a FAB teria condições de atingir qualquer alvo estratégico no continente sul-americano ou na costa atlântica africana, uma capacidade de dissuasão sem precedentes na história das Forças Armadas brasileiras.

O programa, porém, também foi vítima da crise da Avibras. Com a empresa em recuperação judicial e a produção paralisada por três anos, o desenvolvimento perdeu tração. 

A virada veio neste mês de abril de 2026. Joesley Batista, controlador da J&F, a holding que comanda a gigante JBS, assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a reestruturação. Com o acordo trabalhista homologado, a previsão é de que a fábrica retome as operações em maio, chegando a 200 funcionários, 500 em junho e mais de mil à medida que novos contratos forem fechados. A prioridade imediata é concluir a campanha de tiros do Matador, desbloqueando também o caminho para a versão aérea.

Além do MTC-300 e do MICLA-BR, o Exército quer ainda o S+100, um míssil balístico tático que aproveitará o conhecimento acumulado no foguete SS-80 do sistema ASTROS, com compatibilidade garantida com os lançadores existentes. Enquanto o míssil de cruzeiro voa rasante e subsônico, o balístico segue trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação dos dois sistemas dentro da plataforma ASTROS, rebatizada de "Fogos", daria ao Brasil uma capacidade de dissuasão em múltiplas camadas sem paralelo na América do Sul.

O "Matador" e o MICLA-BR aguardam seu último disparo. Ambos dependem de que as luzes da fábrica em São José dos Campos finalmente voltem a se acender e, desta vez, para não mais se apagarem.

A SIATT e o "easter egg": o segredo que escapou numa foto
Se a Avibras é a veterana em crise, a SIATT é a ascendente em expansão acelerada. Fundada há dez anos, a empresa de São José dos Campos foi adquirida em 50% pelo Grupo EDGE, conglomerado de defesa de Abu Dhabi que já investiu cerca de R$ 3 bilhões no Brasil. Em setembro de 2025 inaugurou nova sede com 6.000 m², consolidando laboratórios, engenharia e produção num único campus.

Em março de 2026, uma publicação aparentemente rotineira no LinkedIn da SIATT (foto abaixo) gerou ondas no setor. O jornalista e analista Angelo Nicolaci, ao examinar a imagem compartilhada pela empresa, identificou um míssil que não constava em nenhum catálogo oficial (na foto a seguir, à esquerda, em cima). Fontes próximas ao desenvolvimento confirmaram ao jornalista: trata-se de um novo sistema em versões com alcance estimado entre 500 km e 1.000 km, categoria equivalente ao Tomahawk americano. A empresa já teria realizado uma prova de conceito com voo de teste de aproximadamente 120 km.

Imagem divulgada pela SIATT

A revelação tem dimensão estratégica que vai além do Brasil. O Grupo EDGE, que no Dubai Airshow 2025 lançou 42 novos produtos em um único dia, não possui em seu portfólio nenhum míssil com alcance próximo ao do Tomahawk. Seu sistema mais avançado, o WSM-1, alcança apenas 290 km. Um míssil com DNA brasileiro e alcance entre 500 e 1.000 km preencheria uma lacuna crítica para um conglomerado que hoje vende para mais de 50 países.

No portfólio confirmado, a SIATT já opera sistemas relevantes: o MANSUP, míssil antinavio desenvolvido com a Marinha do Brasil, com alcance de 70 km; o MANSUP-ER, versão estendida com alcance de 200 km; e o sistema anticarro MAX 1.2, contratado pelo Exército e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Em fevereiro de 2026, a Marinha assinou protocolo de intenções para o desenvolvimento do MARSUP, versão aérea do MANSUP, para lançamento por helicópteros e aviões. Na FIDAE 2026, em abril, a SIATT exibiu em tamanho real o MANSUP e o MAX 1.2 para audiência internacional.

Concepções artísticas dos mísseis

Mac Jee: a empresa que quer fazer tudo
Menos conhecida do que Avibras e SIATT, a Mac Jee se posicionou nos últimos anos como o player mais ambicioso da nova geração. Reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa e sediada no mesmo polo tecnológico de São José dos Campos, a empresa opera com a menor exposição pública e o portfólio mais diversificado.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, sistemas desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, projetado para neutralizar radares e sistemas de defesa aérea inimigos em operações SEAD (do inglês Suppression of Enemy Air Defenses - Supressão de Defesas Aéreas Inimigas). O MAA-1B é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento infravermelho avançado (IIF) e capacidade off-boresight (capacidade de mísseis rastrearem e engajarem alvos localizados fora do eixo central da aeronave).

 Os folhetos técnicos revelam dados precisos: o ARM (evolução do MAR-1) tem alcance de 70 km, peso de 272 kg e ogiva de 90 kg; o SRAAM (evolução do MAA-1B) tem alcance de 25 km e guiamento IIR dual-band de 5ª geração.

Mas são os projetos não catalogados que mais chamam a atenção. A Mac Jee também está desenvolvendo um míssil de cruzeiro com motor microjato, asas retráteis e lançamento terrestre, concorrendo diretamente com o MTC-300 num segmento em que a Avibras tem décadas de vantagem. E um SRBM (Short-Range Tactical Ballistic Missile): alcance de 300 km, peso de 2.200 kg, comprimento de 6 metros, ogiva de 250 kg, navegação GNSS/INS e precisão de até 10 metros. Lançado de silos ou plataformas móveis, com tempo de voo de apenas 5 minutos ao alvo máximo. O artigo da Infodefensa foi categórico: o SRBM coloca o Brasil como o primeiro país da América Latina a desenvolver um míssil balístico com capacidades comparáveis ao MGM-140 ATACMS norte-americano.

No front hipersônico, a Mac Jee é parceira estratégica do IEAv (Instituto de Estudos Avançados da FAB) no Projeto 14-X, o mais ambicioso da defesa brasileira. Em dezembro de 2025, os dois firmaram acordo de 36 meses envolvendo cerca de 40 engenheiros para desenvolver o sistema de propulsão hipersônica. Em 2021, o protótipo já havia atingido Mach 6 e 160 km de altitude durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Alcântara. O investimento total já passou de R$ 117 milhões. O primeiro voo efetivo está previsto para 2027; a aplicação operacional, para 2030.

A Plasma Hub e o motor do futuro
Entre as novatas do setor, a Plasma Hub se destaca por um projeto que nenhuma outra empresa brasileira assumiu explicitamente: um míssil de cruzeiro com alcance superior a 1.000 km, arma estratégica, não tática.

A empresa, também sediada em São José dos Campos e reconhecida como EED, foi formada por engenheiros com passagens pela Embraer e pela Avibras. A solução que a distingue é a parceria com a Turbomachine para uso do motor TJ-1000, o mesmo que a própria Avibras utiliza sob licença no MTC-300. Com esse propulsor, a Plasma Hub projeta velocidade de cruzeiro de aproximadamente 900 km/h e carga útil de 200 kg. O sistema de guiamento terminal infravermelho promete precisão de 2 metros. O lançamento está previsto para ocorrer de caminhões ou silos fixos.

O analista Roberto Caiafa foi direto ao ponto: se o fabricante declara "longo alcance" com o TJ-1000, o sistema necessariamente ultrapassa os 1.000 km. E se ultrapassa os 300 km do MTCR, fica evidente que o projeto foi concebido tendo o Estado Brasileiro como cliente exclusivo, pois não pode ser exportado dentro das regras internacionais às quais o Brasil aderiu.

A Plasma Hub integra ainda o consórcio do ML-BR (Micro Lançador de Satélites Brasileiro), responsável pela montagem e integração dos sistemas de bordo, demonstrando a sobreposição intrínseca entre tecnologia espacial e missilística.

Turbomachine: o motor silencioso de tudo
Por trás de vários desses programas, há uma empresa que raramente aparece nas manchetes: a Turbomachine. Fundada em 2007 a partir do CTA/ITA pelo engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, ela nasceu de um desafio da Petrobras para criar a primeira turbina a gás brasileira. Em 2009, a Avibras bateu à sua porta para pedir o motor do Matador.

Hoje o TJ-1000 - turbojato de 5.000 N de empuxo, com mais de 600 partidas bem-sucedidas e mais de 100 horas de operação acumulada - é classificado como Produto Estratégico de Defesa (PED) e integra ou está em negociação com quase todos os programas de mísseis do país. Em novembro de 2024, a Turbomachine anunciou outro marco: seu turbofan de baixa razão de bypass, o primeiro desenvolvido no hemisfério sul, alcançou 25 mil RPM com estabilidade operacional.

A confirmação do interesse governamental no trabalho da empresa veio no final de março de 2026, quando representantes do Ministério da Defesa, do MCTI e da ABIN visitaram suas instalações durante a semana de apresentação do PRONABENS (Programa Nacional de Integração Estado-Empresa na Área de Bens Sensíveis). A presença simultânea dos três órgãos, incluindo o órgão de inteligência nacional, não passou despercebida: indica que o TJ-1000 e seus derivados são acompanhados ao nível de tecnologia sensível classificada.

Quadro estratégico: o que está em jogo
Somados, os projetos em curso desenham um Brasil missilístico que não existia há uma década. Na camada de alcance médio (até 300 km), o MTC-300 da Avibras e o míssil de cruzeiro da Mac Jee competem pelo mesmo espaço, com o primeiro em fase de conclusão e o segundo em desenvolvimento. Na camada longa (300–1.000 km), o míssil ainda não confirmado da SIATT (se chegar ao mercado) colocaria o Brasil numa categoria de pouquíssimos países. Na camada estratégica (mais de 1.000 km), o projeto da Plasma Hub aponta para um sistema sem precedentes na América do Sul. E na fronteira hipersônica (Mach 5+), o 14-X da Mac Jee com a FAB aguarda seu primeiro voo real em 2027.

O contexto não poderia ser mais favorável. A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal. O orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. A indústria que quase perdeu sua principal empresa agora dispõe (em princípio) de capital, legislação e demanda que não tinha.

A pergunta que fica é a do jornalista especializado Roberto Caiafa ao contemplar a Plasma Hub, e que serve para todo o setor: as Forças Armadas demonstrarão interesse pelos projetos? Investirão os recursos necessários para transformar protótipos e conceitos em armas operacionais? 

A Avibras esperou 25 anos pelo último disparo do Matador. O Brasil pode não ter esse tempo no mundo que está se formando.

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