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26 setembro, 2026

Drones um ano depois: Índia avança e Brasil busca escala

Nova Délhi prepara a maior encomenda de drones militares de sua história, com mais de US$ 2 bilhões reservados à indústria local; no mesmo período, o Brasil modernizou regras, testou sistemas nacionais e sinalizou recursos no orçamento, mas segue sem o programa de incentivo capaz de dar escala à BID



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Em setembro de 2025, a LRCA Defense Consulting, em matéria própria, apontou o estado indiano de Tamil Nadu e a política federal de incentivos da Índia como referência para que o Brasil estruturasse uma indústria de drones competitiva, e propôs a criação de um Programa Brasileiro de Incentivo à Produção de Drones (PBID). Doze meses depois, os dois países avançaram em ritmos muito diferentes. 

A Índia passou da fase de fomento para a de compra em larga escala, convertendo as lições do confronto com o Paquistão, em maio de 2025, em contratos, novas regras de aquisição e metas de nacionalização. 

O Brasil também se movimentou, com uma nova regulamentação da ANAC, campanhas de avaliação de drones pelo Exército e uma ação orçamentária que passa a citar os drones de forma explícita. Falta, porém, uma política industrial dedicada ao setor.

A maior encomenda da história indiana 
Em 3 de junho, a agência Reuters revelou que a Índia deverá encomendar à indústria nacional, ainda em 2026, mais de US$ 2 bilhões (acima de 200 bilhões de rúpias) em drones militares de classe tática. A informação partiu de Smit Shah, presidente da Drone Federation India, entidade que reúne mais de 550 empresas e trabalha em estreita colaboração com o governo. Segundo ele, o plano está em estágio avançado, deve seguir um rito de aquisição acelerado (fast track) e prevê entregas em 18 a 24 meses. O valor representa um salto em relação às encomendas recentes de drones táticos, estimadas em 30 bilhões de rúpias (cerca de US$ 313 milhões). O Ministério da Defesa indiano não comentou a reportagem.

Os beneficiários potenciais vão de conglomerados como Adani Group, Larsen & Toubro e Tata Advanced Systems a empresas especializadas e startups como ideaForge, NewSpace Research e Asteria Aerospace, com produtos que cobrem reconhecimento, logística, munições remotamente pilotadas, ataque de precisão e componentes críticos. A motivação é explícita: no conflito de maio de 2025, os dois lados empregaram drones em larga escala, e o episódio expôs lacunas indianas de vigilância e ataque. 

Uma sequência de decisões em poucos meses 

A encomenda bilionária não é um fato isolado. Ela se apoia em uma série de medidas adotadas desde o início do ano:

• Orçamento recorde: o orçamento de defesa para o ano fiscal 2026-27 chegou a 7,85 trilhões de rúpias, alta de cerca de 15%, com 75% das aquisições de capital reservadas a fornecedores nacionais.

• Drone de combate furtivo: em 27 de março, o Conselho de Aquisições de Defesa (DAC) aprovou a compra de 60 aeronaves de ataque remotamente pilotadas do antigo projeto Ghatak, do DRDO, estimada em 390 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 4 bilhões), com meta de 80% de nacionalização.

• Compra descentralizada: em 2 de junho, o ministro Rajnath Singh assinou a nova delegação de poderes financeiros às Forças Armadas, que permite aos comandos adquirir diretamente, com verbas de custeio, drones que dispensam pista e custam até 50 milhões de rúpias por unidade, sem passar pelo ciclo centralizado de investimentos.

• Novas aprovações: em 3 de julho, o DAC autorizou cerca de 520 bilhões de rúpias em aquisições que incluem sistemas antidrone de guerra eletrônica, um drone kamikaze a jato para o Exército, drones embarcados e aeronaves não tripuladas de alta altitude.

• Contratos assinados: em agosto, o governo contratou a Tata Advanced Systems e a NIBE Limited, por 15,77 bilhões de rúpias (cerca de US$ 165 milhões), para fornecer sistemas de munição remotamente pilotada e 840 munições ao Exército.

Em paralelo, a minuta do novo Procedimento de Aquisição de Defesa, divulgada em fevereiro, impede a importação de itens incluídos na Lista Positiva de Nacionalização e cria um caminho específico para drones comerciais de prateleira (commercial off-the-shelf), que podem ser aceitos com base na certificação do fornecedor e em testes de recebimento, sem as longas avaliações de campo. 


A demanda, mais do que o subsídio, mudou o jogo 

A comparação com o cenário de 2025 traz uma lição importante. O esquema de incentivo à produção (PLI) para drones, destacado na reportagem anterior, teve orçamento modesto: 1,2 bilhão de rúpias em três anos. O que transformou a indústria indiana foi a combinação desse estímulo inicial com a proibição de importação de drones prontos, um mercado civil em expansão e, sobretudo, a decisão do Estado de comprar em volume e rapidamente de fornecedores locais.

O ecossistema resultante já soma mais de 600 empresas ligadas a drones, das quais mais de uma centena atua em defesa. O programa iDEX, voltado a startups e pequenas empresas, reunia 676 participantes em março de 2026, e 58 protótipos, avaliados em 38,5 bilhões de rúpias, receberam autorização de compra. A dependência de componentes chineses (motores, sensores e sistemas de imagem) continua sendo o ponto fraco reconhecido pelo próprio governo, que estabeleceu a meta de produzir no país ao menos 40% dos componentes-chave até o ano fiscal de 2028, com apoio de crédito barato do banco estatal SIDBI. A imprensa indiana também noticiou a preparação de um novo esquema quinquenal de incentivo à manufatura de drones, da ordem de 100 bilhões de rúpias, cuja implantação ainda não aparece confirmada nas fontes consultadas.

O Brasil também saiu do lugar 
Do lado brasileiro, o ano trouxe avanços concretos, alguns deles alinhados às propostas feitas pela LRCA em 2025:

• Nova regulamentação: a ANAC aprovou o RBAC 100 pela Resolução nº 805, em vigor desde 16 de junho, substituindo o RBAC-E 94. As operações passaram a ser classificadas por risco (categorias Aberta, Específica e Certificada), e não mais pelo peso da aeronave. O Decea complementou o marco com a ICA 100-40, sobre acesso ao espaço aéreo, e a ICA 100-48, sobre gerenciamento de tráfego não tripulado, ambas vigentes desde 1º de julho.

• Certificações nacionais: o Harpia, da Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril, habilitando sua produção em série; em setembro, o Nauru 100D, da XMobots, foi autorizado a operar até 30 quilômetros de alcance e 6 mil pés de altitude, de dia e à noite.

• Avaliação pelo Exército: entre 22 de junho e 3 de julho, a Diretoria de Fabricação conduziu uma campanha de pré-qualificação de drones lançadores de munição e de sistemas de munições remotamente pilotadas. Das 84 propostas submetidas por empresas da BID, 32 chegaram aos testes práticos e sete estavam qualificadas até 30 de junho; um segundo edital foi publicado em agosto. Entre os pré-qualificados figura a Vultis, startup criada por estudantes da UFSC em Joinville (SC).

• Espaço fiscal: a lei complementar que exclui até R$ 30 bilhões em investimentos de defesa do arcabouço fiscal, ao longo de seis anos, permitiu ao Exército projetar cerca de R$ 3 bilhões anuais para seus programas estratégicos entre 2026 e 2031.

• Sinal orçamentário: o PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões ao Sisfron. A primeira ação não se destina apenas a drones e o projeto ainda depende de aprovação no Congresso, mas é a primeira vez que o termo aparece no título de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre.

• Sinal político: em 8 de setembro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou ao Metrópoles que as Forças Armadas investirão fortemente em drones para reforçar a vigilância das fronteiras, onde atuam cerca de 20 mil militares, e citou a Ucrânia, a China e a Turquia como referências.

Somam-se a isso a inclusão de drones de impacto na lista de Produtos Estratégicos de Defesa, em agosto, e a Política de Inteligência Artificial do Ministério da Defesa, instituída pela Portaria GM-MD nº 4.360, de 24 de agosto, que trata da redução da dependência tecnológica, tema diretamente ligado à soberania sobre o software embarcado.

O que continua no solo 
Apesar dos avanços, o diagnóstico de 2025 permanece essencialmente válido. Em audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, em 8 de setembro, convocada a pedido do senador Marcos Pontes (PL-SP) para discutir um Programa Nacional de Drones, foi informado que o País já tem 177 mil drones cadastrados na ANAC e registra cerca de 10 mil novos equipamentos por mês. A representante da Secretaria Nacional de Aviação Civil, Júlia Lopes da Silva Nascimento, listou os entraves: carga tributária elevada, falta de incentivos à cadeia produtiva, escassez de mão de obra especializada, pouco fomento à pesquisa, crédito restrito e ausência de uma estratégia nacional para o setor.

O presidente da ABDrone, Pedro Curcio Júnior, defendeu redução de impostos sobre equipamentos e componentes, apoio a pequenos empreendedores e integração entre ANAC, Decea e Anatel. Pela Força Aérea, o major-brigadeiro do ar Frederico Casarino tratou o desenvolvimento de drones nacionais como questão de soberania, resumindo a posição da FAB na frase "o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil". Pontes anunciou a intenção de propor um marco legal para o setor e de criar uma frente parlamentar.

Em outras palavras, o Brasil ainda não criou um programa de incentivo à produção, um conselho nacional que articule governo, empresas e universidades, nem uma encomenda plurianual com volumes definidos. A diferença de escala é evidente: enquanto a Índia prepara um pacote superior a US$ 2 bilhões apenas para drones táticos, a principal ação brasileira que menciona drones soma R$ 520 milhões e é compartilhada com a Aviação do Exército. 


Lições para dinamizar a BID 

A experiência indiana dos últimos doze meses permite atualizar a agenda proposta em 2025, deslocando o foco do subsídio para a demanda:

• Encomenda firme e previsível: mais do que incentivos fiscais, a indústria precisa de um horizonte de compras. Um plano plurianual de aquisição de sistemas não tripulados, com quantidades e categorias definidas, daria às empresas a segurança para investir em linhas de produção, a exemplo do que o pedido de 60 aeronaves Ghatak fez pela cadeia indiana.

• Rito de aquisição compatível com a tecnologia: drones táticos envelhecem em meses. A pré-qualificação do Exército é um bom primeiro passo, mas precisa desembocar em compras experimentais por lotes e, possivelmente, em autorização para que os Comandos Militares de Área adquiram diretamente sistemas de pequeno porte já qualificados, como fez a Índia.

• Preferência nacional clara: a Lei nº 12.598/2012 já oferece os instrumentos de Empresa Estratégica de Defesa e Produto Estratégico de Defesa. Falta definir categorias de drones em que a importação seja excepcional, à semelhança da lista positiva indiana.

• Cadeia de componentes: metas de conteúdo nacional para motores, baterias, sensores, enlaces de dados e software embarcado, com linhas de crédito da Finep e do BNDES, atacariam o ponto que a própria Índia ainda não resolveu.

• Ponte entre startups e Forças Armadas: a presença de uma empresa nascida em ambiente universitário entre os pré-qualificados mostra que há talento disponível. Um mecanismo nos moldes do iDEX, com desafios, financiamento de protótipos e compromisso de compra, poderia multiplicar esses casos.

• O marco legal como oportunidade: o debate aberto na CCT do Senado pode ser o veículo para institucionalizar o PBID e o Conselho Nacional de Drones propostos em 2025, integrando regulação, incentivo à produção e demanda de defesa em um único instrumento.

Da vitrine à escala 
Há um ano, o Brasil tinha potencial, mas não tinha regras modernas, sinal orçamentário nem processo estruturado de avaliação de sistemas nacionais. Hoje tem os três, ainda que em estágio inicial. A Índia mostra que o passo seguinte, e decisivo, é transformar protótipos qualificados em encomendas de volume, com prazos curtos e preferência pela indústria local. Sem isso, empresas como XMobots, AdTech SD, Stella Tecnologia e outras seguirão demonstrando capacidade em vitrines e exercícios, mas sem a escala que sustenta uma base industrial. Com isso, o País pode, enfim, fazer a decolagem que parecia iminente em 2025.

21 setembro, 2026

Senado revela planos para SARP nacional e drone comum às três Forças

Audiência pública expõe encomenda tecnológica da FAB, possível lote de até 36 aeronaves e proposta do DRODEN, mas projetos ainda dependem de viabilidade, recursos e continuidade



*LRCA Defense Consulting, 21 de setembro de 2026

Uma audiência pública realizada pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT) do Senado, em 8 de setembro, revelou que o Brasil possui iniciativas mais avançadas do que se conhecia para desenvolver aeronaves remotamente pilotadas de fabricação nacional. Entre elas estão uma encomenda tecnológica da Força Aérea Brasileira (FAB) para um SARP de inteligência, vigilância e reconhecimento de longo alcance e a proposta do DRODEN, concebido como plataforma comum à Marinha, ao Exército e à Aeronáutica.

As informações foram apresentadas pelo major-brigadeiro do ar Frederico Casarino, chefe da 6ª Subchefia do Estado-Maior da Aeronáutica, durante a reunião convocada pelo senador Astronauta Marcos Pontes para discutir a viabilidade de um Programa Nacional de Drones. Participaram ainda representantes do Ministério de Portos e Aeroportos, da Anac, da ABDrone e de empresas brasileiras.

A audiência mostrou, entretanto, que existem três iniciativas distintas que ainda precisam convergir: o futuro Programa Nacional de Drones, de alcance civil, industrial, regulatório e tecnológico; a encomenda da FAB para um SARP IVR de grande porte; e o DRODEN, projeto conjunto e evolutivo das três Forças Armadas. Nenhuma delas deve ser confundida com um programa já aprovado, financiado e contratado.

FAB busca substituir dependência externa 
A FAB opera atualmente o RQ-900, de origem israelense, empregado em missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e apoio às ações do Estado. O sistema pode operar por linha de visada e por enlace satelital, possui sensores eletro-óptico e infravermelho e já acumulou cerca de 8,5 mil horas de voo em mais de 15 anos de operação.

Casarino enfatizou que a capacidade não se resume à aeronave. Ela depende de estações de pilotagem remota, antenas, enlaces, geradores, sensores, infraestrutura, pilotos, operadores de sistemas e pessoal de inteligência. Segundo o oficial-general, um conjunto do RQ-900 custa aproximadamente US$ 15 milhões, valor que a FAB gostaria de direcionar, ao menos parcialmente, para a indústria nacional.

A alternativa em estudo é uma encomenda tecnológica para desenvolver no País um SARP IVR da mesma categoria, com requisitos que poderão superar os do equipamento hoje empregado. A solução deverá incorporar sensor eletro-óptico e infravermelho, radar de abertura sintética, recursos de guerra eletrônica, integração com o Link BR2 e capacidade de emprego armado.

Até 36 aeronaves em eventual industrialização 
A FAB informou que 49 empresas manifestaram interesse no processo, 39 assinaram termo de confidencialidade e 23 empresas encaminharam 21 propostas em resposta ao pedido de informações. O projeto encontra-se na fase de estudo de viabilidade.

São desejadas duas alternativas de propulsão, uma com turbina e outra com motor a hélice. O requisito preliminar prevê carga útil de aproximadamente 400 quilos, operação média no nível de voo FL 200, equivalente a cerca de 20 mil pés, alcance superior a 500 milhas e desenvolvimento de uma estação de controle em solo.

Caso o projeto avance à industrialização, a previsão apresentada é adquirir um lote pioneiro de 24 aeronaves, com possibilidade de ampliação por mais 12. O número, portanto, não representa contrato assinado nem compra autorizada. Trata-se de uma perspectiva destinada a oferecer escala inicial ao desenvolvimento e à produção.

A intenção declarada é alcançar uma solução integralmente nacional. A FAB mencionou a existência de uma turbina desenvolvida no País pela Aero Concepts em cooperação com o Instituto de Aeronáutica e Espaço. O motor a hélice, por sua vez, ainda aguarda apoio da Finep.

Nacionalização terá de alcançar tecnologias críticas 
A meta de um sistema 100% nacional é ambiciosa porque a soberania não depende apenas da fabricação da célula. Sensores, radares, semicondutores, sistemas de navegação, comunicações por satélite, atuadores, criptografia e enlaces resistentes à interferência estão entre os componentes de maior complexidade e dependência externa.

Para que a nacionalização tenha valor estratégico, o País precisará dominar a arquitetura do sistema, os códigos, os enlaces, a integração dos sensores, os dados produzidos e a capacidade de modificar a aeronave sem autorização de fornecedores estrangeiros. Um elevado índice de conteúdo local, por si só, não garante autonomia se permanecer estrangeiro o controle sobre elementos críticos.

DRODEN propõe plataforma comum às três Forças 
Outra novidade foi a apresentação do DRODEN, sigla para Drone de Defesa Nacional. A iniciativa pretende desenvolver e produzir uma plataforma brasileira comum às três Forças, ampliar a interoperabilidade, reduzir custos, fortalecer a Base Industrial de Defesa e criar uma estrutura que possa receber capacidades específicas ao longo do tempo.

A concepção inicial prevê um SARP IVR de custo relativamente baixo, dotado de sensor óptico, estação de controle comum e operação por linha de visada. Essa primeira configuração também serviria à formação de operadores. Em uma segunda fase, Marinha, Exército e Aeronáutica poderiam incorporar equipamentos e missões próprios, preservando a plataforma e a estação de solo.

A FAB também propôs um Centro de Adestramento Conjunto de Operadores, com possibilidade de instalações no Nordeste e no Sul, regiões nas quais a menor densidade de tráfego aéreo favoreceria ensaios e treinamento. A expectativa apresentada é que as três Forças possam operar o sistema a partir de 2029.

O cronograma, contudo, é preliminar. Um grupo de trabalho conjunto estava sendo ativado para analisar viabilidade, requisitos, custos e prazos. O representante da FAB reconheceu, inclusive, que uma solução estrangeira poderá ser considerada caso a indústria nacional não consiga vencer os desafios tecnológicos.

Acauã deixa advertência sobre a continuidade 
O antecedente do Projeto Acauã oferece uma advertência. Desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço, pelo Centro Tecnológico do Exército e pelo Instituto de Pesquisas da Marinha, o projeto realizou 59 voos, mas foi descontinuado no período em que o Brasil adquiriu aeronaves israelenses.

A experiência demonstra que pesquisa e protótipos não são suficientes para sustentar capacidade industrial. Empresas precisam de encomendas plurianuais, lotes economicamente viáveis, evolução contínua do produto, compras coordenadas e apoio às exportações. Sem cliente âncora e previsibilidade, equipes se dispersam, fornecedores abandonam a cadeia e o conhecimento acumulado é perdido.

Nesse sentido, a união das demandas das três Forças poderá ser mais importante do que a própria escolha da plataforma. Requisitos comuns, estação de solo padronizada, treinamento conjunto e logística compartilhada aumentariam a escala e reduziriam a fragmentação de recursos.

Programa nacional precisa ir além da Defesa
O Programa Nacional de Drones discutido pela CCT possui alcance mais amplo. O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Drones (ABDrone), Pedro Curcio Júnior, defendeu políticas organizadas em sete eixos, envolvendo soberania tecnológica, estímulo à indústria, redução de tributos, financiamento, qualificação de operadores, segurança e integração dos órgãos públicos.

Dados apresentados na audiência indicam aproximadamente 177 mil drones cadastrados na Anac, mais de 400 mil autorizações de voo processadas pelo DECEA e cerca de 5 mil quilômetros de rotas de entrega em funcionamento. A Speedbird Aero relatou operações em 14 países, enquanto a SkyDrones destacou a experiência acumulada pela indústria brasileira desde a década passada.

A atualização regulatória promovida pela Anac com o RBAC nº 100, baseado na avaliação do risco operacional, foi reconhecida como avanço. A expansão do mercado, porém, exigirá coordenação entre Anac, DECEA, Anatel, Receita Federal, órgãos de segurança e demais instituições envolvidas.

Dados, fiscalização e financiamento permanecem como gargalos 

A segurança dos dados recebeu atenção especial. Representantes da indústria advertiram que informações de voos realizados no agronegócio podem ser armazenadas em servidores estrangeiros. Mapas de propriedades, produtividade, topografia e infraestrutura têm valor econômico e estratégico, o que torna indispensáveis regras sobre localização, auditabilidade, proteção e emprego desses dados.

Também foi apontada a concorrência desigual entre empresas que investem em certificação, seguro e segurança operacional e operadores que utilizam equipamentos importados irregularmente. Identificação remota, rastreabilidade, fiscalização de importações, formação de pilotos e medidas contra o uso criminoso precisarão integrar a política nacional.

Outro problema é a dificuldade das pequenas empresas para atravessar o intervalo entre o protótipo e a produção. Os mecanismos de fomento deverão contemplar pesquisa, ensaios, certificação, industrialização e exportação, evitando que recursos se concentrem apenas em grandes empresas ou terminem antes que a tecnologia alcance o mercado.

Uma oportunidade que depende de convergência 
A audiência não lançou formalmente um Programa Nacional de Drones, tampouco autorizou a aquisição dos novos sistemas militares. Sua importância está em tornar pública uma oportunidade de convergência entre Defesa, aviação civil, indústria, universidades e centros tecnológicos.

O Brasil já possui empresas exportadoras, experiência operacional, áreas de ensaio, capacidade de engenharia e mercado suficiente para justificar uma estratégia nacional. Falta transformar esses recursos dispersos em política de Estado, apoiada por demanda continuada, financiamento, proteção de tecnologias críticas e compromisso de longo prazo.

A encomenda tecnológica da FAB e o DRODEN podem tornar as Forças Armadas clientes âncoras de uma nova cadeia industrial. Para isso, precisarão ser complementares, e não concorrentes, e articulados ao programa nacional. Caso contrário, o País corre o risco de multiplicar projetos, fragmentar recursos e repetir a descontinuidade observada no Acauã.

12 junho, 2026

O FPV que chegou à retaguarda: como os drones ucranianos aprenderam a atacar 60 quilômetros além da linha de frente

Combinado com um VANT de reconhecimento usado como relé de comunicações, o barato drone de visão em primeira pessoa deixou de ser uma arma de combate próximo e passou a ameaçar rotas logísticas e nós de comando na profundidade operacional inimiga

 

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LRCA Defense Consulting - 12/06/2026

Um vídeo publicado em abril de 2026 mostrou algo que, até pouco tempo, seria descartado como improvável: operadores do 426º Regimento de Sistemas Não Tripulados, subordinado ao 30º Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Ucraniana, atacando alvos russos nos arredores de Skadovsk, cidade ocupada na margem esquerda da região de Kherson, a aproximadamente 55 a 60 quilômetros da linha de contato.

O FPV (first-person view), drone pequeno, barato e controlado por piloto com óculos de realidade aumentada, sempre foi associado ao combate de proximidade: ataques a trincheiras, veículos e posições a poucos quilômetros do operador. Em Skadovsk, ele apareceu bem além disso.

A operação combinou os drones FPV com o VANT de reconhecimento PD-2, fabricado pela ucraniana Ukrspecsystems. O PD-2 é uma aeronave de asa fixa com envergadura de cinco metros, autonomia superior a oito horas e alcance declarado de 200 quilômetros. Sua arquitetura de software permite que um único sistema de controle em solo retransmita sinais para múltiplos drones simultaneamente. Na prática, o PD-2 funcionou como uma torre de comunicações voadora: encontrou os alvos, retransmitiu o link de controle para os FPVs e registrou os danos causados.

A arquitetura de rede que substituiu o alcance
O detalhe técnico central é a camada de relé. Um relé de comunicações é um equipamento (ou, no caso ucraniano, um drone) posicionado no meio do caminho que recebe o sinal fraco, amplifica-o ou regenera-o, e o retransmite ao destino final. Um FPV convencional opera, em condições normais, entre 5 e 15 quilômetros do operador. Com a inserção de um VANT maior como intermediário, esse envelope se expande para 50 a 65 quilômetros, segundo análises publicadas pelos portais Defense Express e Army Recognition. O FPV não ganhou bateria maior nem motor mais potente; ganhou uma rede.

Esse mesmo princípio já havia sido documentado do outro lado. Desde o início de 2026, forças russas registraram o uso dos drones Gerbera e Molniya como plataformas-mãe para lançar FPVs contra alvos civis e militares na retaguarda ucraniana, conforme reportado pelo Kyiv Independent. Em fevereiro do mesmo ano, a conversão de um drone Geran-2 (variante do Shahed iraniano) em carregador de FPVs foi interceptada e analisada pelo Army Recognition, que descreveu a lógica da operação: o Geran-2 resolve o problema do trânsito de longo alcance; o FPV resolve o problema da discriminação terminal.

Nos dois lados, a lógica é a mesma: um sistema barato de ataque final embarcado em, ou guiado por, um sistema maior de transporte ou retransmissão.

Profundidade operacional a custo tático 
a implicação estratégica está na geometria do campo de batalha. Skadovsk fica além do que historicamente se chamaria de zona de risco rotineiro de FPV. Uma cidade a 60 quilômetros da linha de frente pertence, na doutrina clássica, à área de retaguarda operacional, o espaço onde unidades descansam, veículos são reabastecidos, munições são estocadas e colunas logísticas trafegam com relativa segurança.

Com a arquitetura de rede agora documentada, essa margem encolhe sem que a linha de frente se mova um metro sequer. Tim De Zitter, responsável pelo ciclo de vida de sistemas antitanque, VSHORAD, contra-drone e munições teleguiadas na Defesa Belga, sintetizou a transformação em análise publicada no LinkedIn: "O FPV não se transformou em um míssil; tornou-se parte de uma rede."

A avaliação é reforçada por um relatório publicado pelo Army Recognition em 31 de maio de 2026, que descreve uma campanha ucraniana de drones com inteligência artificial contra a rede logística russa no sul da Ucrânia e na Crimeia. A campanha combina o sistema de gestão de campo de batalha PRISMA, da empresa americana Palantir, com FPVs de longo alcance e drones de ataque unidirecional para identificar lacunas na defesa antiaérea russa e atacar nós de transporte entre Mariupol e Dzhankoy. Antes de 2026, o alcance típico de FPVs ucranianos era de 10 a 20 quilômetros além da linha de contato. Com os sistemas de fibra óptica e as arquiteturas de relé, esse número avançou para 25 a 50 quilômetros.

Fibra óptica como caminho paralelo
Além dos relés por radiofrequência, a Ucrânia desenvolveu um segundo vetor de extensão de alcance: o controle por cabo de fibra óptica. A empresa ucraniana Ptashka Drones divulgou, em dezembro de 2025, imagens de FPVs controlados por cabos de fibra com carreteis de 50 quilômetros realizando ataques confirmados contra blindados e veículos russos. A vantagem do cabo de fibra é a imunidade à guerra eletrônica: sem sinal de rádio, não há sinal a ser bloqueado.

A Rússia também perseguiu esse caminho. Em setembro de 2025, o portal Defense Express analisou um plano russo de usar drones-relé para quadruplicar o alcance efetivo de FPVs com cabo de fibra óptica, cuja principal limitação física é a atenuação do sinal ao longo do cabo. A solução, nos dois lados, é inserir um repetidor no meio do percurso, na forma de outro drone.

O que muda para a defesa
A dissolução prática da "área segura de retaguarda" coloca pressão direta sobre conceitos doutrinários consolidados. O general Valerii Zaluzhnyi, ex-comandante-chefe das Forças Armadas ucranianas, afirmou que "a própria ideia de uma retaguarda segura está desaparecendo", citado pelo National Interest em janeiro de 2026.

Esta editoria já havia discorrido sobre esse conceito na matéria  "O fim da retaguarda segura: guerra de drones no coração do poder russo", publicada em 07 de junho último. Os fatos de agora apresentam uma nova nuance do problema.

Para forças que ainda organizam sua logística, seus postos de comando e seus estacionamentos de veículos com base na presunção de segurança a partir de determinada distância da linha de frente, a lição do eixo de Kherson é direta: essa distância já não existe. O que existe é uma rede.

A operação contra Skadovsk, um caso documentado entre vários que se acumulam desde o segundo semestre de 2025, é um marcador. Não de uma tecnologia específica, mas de uma doutrina: pequenos sistemas letais, distribuídos em rede com plataformas de reconhecimento e retransmissão, passaram a operar na profundidade operacional sem precisar do custo, do tamanho ou da complexidade que esse alcance historicamente exigia.

O drone barato chegou à retaguarda. E veio para ficar.

20 abril, 2026

Exército Brasileiro adota drone chinês para uso militar, enquanto o mundo ocidental já acendeu o alerta vermelho

Portaria de 2026 padroniza o DJI Matrice 300 RTK como VANT oficial da Força Terrestre, enquanto EUA e aliados banem a fabricante por riscos de espionagem. Brasil desenvolve alternativas nacionais, mas caminho ainda é longo 

DJI Matrice 300 RTK

*LRCA Defense Consulting - 20/04/2026

No início de abril de 2026, o Exército Brasileiro deu um passo que passaria quase despercebido pelo grande público, mas que carrega peso estratégico considerável: por meio da Portaria nº 2.660/2026, o Comando do Exército formalizou a adoção do DJI Matrice 300 RTK, drone fabricado pela empresa chinesa DJI, sediada em Shenzhen, como veículo aéreo não tripulado (VANT) de uso padrão da Força Terrestre. A decisão, que transforma o aparelho em item oficial de inventário militar com doutrina, logística e cadeia de suprimentos padronizadas, vem exatamente quando o Ocidente acelera o movimento oposto: banir a mesma empresa de seus arsenais e redes governamentais por suspeita de espionagem a serviço de Pequim.

O que é o Matrice 300 RTK
Lançado em 2020, o DJI Matrice 300 RTK é o topo de linha industrial da DJI. Com até 55 minutos de autonomia de voo, alcance de transmissão de 15 km e posicionamento RTK de precisão centimétrica, o equipamento foi projetado para missões exigentes de inspeção, mapeamento e segurança pública. O drone suporta cargas úteis de até 2,7 kg, opera entre -20°C e +50°C e conta com sistema de detecção de obstáculos em seis direções. Para uso militar, a configuração mais comum inclui o payload Zenmuse H20T, que combina câmera com zoom óptico de 20x, sensor térmico, telêmetro laser e câmera para baixa luminosidade, recursos que permitem identificação de alvos noturnos e apoio à artilharia.

O Exército já utilizava o modelo desde pelo menos 2022, quando adquiriu quatro unidades para experimentação doutrinária pela Aviação do Exército, ao lado de 30 unidades do DJI Mavic 2 Enterprise, com o objetivo inicial de aprimorar técnicas de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos (IRVA). A portaria de 2026 representa a transição da fase experimental para a incorporação definitiva. A padronização reforça a modernização da Aviação do Exército, integrando tecnologias COTS, sigla para Commercial Off-The-Shelf, ou seja, soluções comerciais prontas para uso, enquanto o país desenvolve capacidades autônomas de fabricação de VANTs. Modelos semelhantes da linha Matrice já são empregados por polícias militares, bombeiros e pela própria Força Aérea Brasileira, que adquiriu o Matrice 30T para vigilância de bases em 2026.

O outro lado: espionagem, banimentos e a Lei de Inteligência da China
Enquanto o Brasil abraça o equipamento, diversos países tratam o mesmo drone com crescente desconfiança, 
como Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão. Os EUA alertaram repetidamente que drones fabricados na China podem apresentar riscos de espionagem e dar a Pequim acesso irrestrito aos dados de seus usuários.

O temor tem raiz legal: a Lei Nacional de Inteligência da China, de 2017, obriga empresas e cidadãos chineses a cooperar com os serviços de segurança do país quando solicitados, mesmo que operem fora do país. Isso significa que, legalmente, Pequim pode exigir que fabricantes entreguem dados coletados no exterior ou forneçam acesso a tecnologias estratégicas instaladas em seus produtos sem que os clientes, ou mesmo os países onde operam, tenham qualquer poder de veto.

A DJI, por sua vez, nega as acusações. A empresa afirma que o compartilhamento de registros de voo ou imagens é uma escolha puramente do cliente, não uma configuração padrão, e que oferece um "Modo de dados local" para operações sem acesso não autorizado. Desde 2017, seus drones passaram por auditorias de segurança de terceiros. A companhia argumenta que as restrições têm mais a ver com disputa geopolítica e competição de mercado do que com riscos reais.

Mas alguns países não se convenceram. A escalada regulatória chegou ao ápice em dezembro passado. Em 23 de dezembro de 2025, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) adicionou todos os novos drones estrangeiros e seus componentes críticos à sua "Lista Coberta" de riscos à segurança nacional. Sem autorização da FCC, um drone não pode ser legalmente importado, comercializado ou vendido nos Estados Unidos. Na prática, isso congela o acesso da DJI e de qualquer fabricante estrangeira ao maior mercado de drones do planeta para novos modelos. O Departamento de Defesa americano também identificou a DJI como uma "empresa militar chinesa", e em outubro de 2025 um tribunal dos EUA manteve essa classificação.

As alternativas ocidentais existem, mas custam caro
O espaço deixado pela DJI no Ocidente não está vazio. A chamada "Blue UAS Cleared List", gerida pela Unidade de Inovação de Defesa dos EUA, inclui drones verificados como seguros para uso federal. Os fabricantes atualmente aprovados incluem Skydio, Parrot, Autel (modelos enterprise) e algumas plataformas fabricadas nos EUA.

A francesa Parrot lidera o segmento europeu voltado à defesa. A empresa lançou o ANAFI UKR, desenvolvido com base nas experiências de guerra eletrônica na Ucrânia, capaz de operar em ambientes sem GPS e sob forte interferência de sinal, em modo totalmente offline, sem necessidade de conexão à nuvem. O modelo já foi integrado por instituições da OTAN e de países europeus.

A americana Skydio aposta em inteligência artificial. O Skydio X10D, variante de defesa do X10, é totalmente compatível com a legislação NDAA e consta da Blue UAS Cleared List, equipado com câmeras de alta resolução e sensores térmicos. Contudo, há uma limitação prática: a Skydio saiu do mercado consumidor em agosto de 2023 e hoje vende exclusivamente para clientes governamentais e enterprise, com preços a partir de vários milhares de dólares.

Representantes dos EUA e da Europa reconhecem o desejo de migrar de fornecedores chineses, mas alertam que levará tempo para construir cadeias de suprimento independentes que consigam fabricar as peças a preços competitivos. Em outras palavras: os ocidentais têm alternativas técnicas, mas ainda sem a combinação de desempenho e preço que a DJI oferece.

DJI Matrice 300 RTK

Brasil: o paradoxo entre dependência e soberania tecnológica emergente
A decisão de adotar o DJI M300 ocorre num momento ambíguo para o país. De um lado, a conveniência operacional e o custo acessível da solução chinesa. De outro, um movimento crescente e concreto de desenvolvimento de VANTs nacionais, embora nenhum deles preencha, ainda, exatamente o nicho ocupado pelo drone chinês.

O exemplo mais robusto de produção nacional é o Nauru 1000C, da paulista XMobots, empresa fundada em 2007, em São Carlos, e considerada a principal fabricante de drones militares da América Latina. O Nauru 1000C é um VTOL (Vertical Take-Off and Landing) híbrido, com propulsão elétrica para decolagem e pouso e motor a combustão para voo de cruzeiro, alcance de 60 km e autonomia de 10 horas. O drone já estreou em missões oficiais do Exército, tendo participado da Operação Perseu, fase final de instrução de 7.800 militares no Comando Militar do Sudoeste. Uma versão armada está em desenvolvimento, com integração ao míssil europeu ENFORCER Air, capaz de atingir alvos a até 8 km de distância.

A família Nauru conta ainda com o 500C ISR, plataforma de porte intermediário que merece destaque à parte. Com 1,86 m de comprimento, 3,64 m de envergadura e peso máximo de decolagem de 25 kg, o Nauru 500C possui autonomia de 4 horas e alcance de até 60 km, sendo certificado pela ANAC para operações BVLOS (além da linha de visada visual) acima de 400 pés. Primeiro drone brasileiro autorizado para voos noturnos, o sistema embarca inteligência artificial capaz de reconhecer veículos e pessoas tanto de dia quanto à noite, e utiliza tinta de baixa detecção visual e sistema de propulsão de baixa audibilidade para missões de inteligência. A Marinha do Brasil já o incorporou para operações de busca e salvamento em alto-mar, e o sistema também é usado pelo Censipam no combate ao garimpo ilegal em terras Yanomami.

A XMobots lançou ainda o Nauru 100D, uma variante menor e mais ágil, concebida para missões táticas de reconhecimento e aquisição de alvos em ambiente urbano e de combate próximo, com sistema de IA embarcada e operação discreta.

A gaúcha SkyDrones Tecnologia Aviônica, de Porto Alegre, é outro ator relevante. Fundada em 2008 e reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa pelo Ministério da Defesa desde 2018, a empresa tem longa tradição em desenvolvimento de plataformas multirrole, da pulverização agrícola à vigilância. Seus drones garantem armazenamento de dados no Brasil, sem transmissão para servidores estrangeiros, o que a empresa destaca como vantagem direta sobre concorrentes asiáticos. A SkyDrones desenvolve plataformas personalizadas para clientes de segurança e defesa, como a integração de radares SAR (Synthetic Aperture Radar) em seus drones, e já exportou tecnologia para países como Finlândia e Emirados Árabes Unidos.

No segmento estratégico de maior porte, a Stella Tecnologia, de Duque de Caxias (RJ), desenvolveu o Atobá, o maior drone já produzido na América Latina, com 11 metros de envergadura e até 28 horas de autonomia. Em parceria com a FAB e a AERO Concepts, a Stella também é responsável pelo Albatroz Vortex, drone tático com turbina 100% nacional, que realizou seu primeiro voo em dezembro de 2025 na Base Aérea de Santa Cruz. A empresa também entrou para o seleto clube dos desenvolvedores de drones kamikaze guiados por fibra óptica, tecnologia imune a interferências de guerra eletrônica.

Por que nenhum deles substitui o Matrice 300 RTK?
Apesar desse ecossistema em expansão, há um vazio claro: nenhum produto nacional ocupa hoje, com maturidade operacional e custo competitivo, o nicho exato do Matrice 300 RTK. O drone chinês pertence a uma categoria específica: multirrotor elétrico compacto, de decolagem e pouso vertical sem infraestrutura, com altíssima versatilidade de payload e operação por um único operador em campo. Essa combinação o torna ideal para reconhecimento tático de curto alcance, vigilância urbana e apoio imediato a tropas.

O Nauru 1000C, por exemplo, é uma plataforma poderosa, mas de outra categoria: pesa até 150 kg, exige logística mais complexa de transporte e preparo, e é otimizado para missões longas de fronteira e ISR de longa distância, não para o apoio tático imediato e ágil que o Matrice oferece. O Nauru 100D é mais próximo do nicho tático, mas ainda está em fase inicial de adoção e maturação operacional. A SkyDrones, por sua vez, tem competência consolidada em plataformas de asa fixa, de asa rotativa e integração de sensores, mas sem um multirrotor de reconhecimento com as especificações e certificação militar equivalentes ao M300.

Em síntese: o Exército usa o que tem disponível e funciona, enquanto a indústria nacional amadurece para um salto que, por ora, ainda está em construção.

O dilema em aberto
O Senado brasileiro aprovou ao final de 2025 um novo aporte de R$ 30 bilhões, a ser distribuído ao longo de seis anos para projetos estratégicos de Defesa, incluindo drones Hermes 450/900, blindados Guarani e o sistema ASTROS. O movimento é claro: reduzir a dependência externa e fortalecer a Base Industrial de Defesa. A tendência é diminuir gradualmente o uso de plataformas estrangeiras e padronizar mais sistemas nacionais, especialmente à medida que modelos como o Nauru 100D e futuros multirrotores ganhem escala de produção, certificação militar plena e custo competitivo. Tecnologia aeroespacial não se constrói da noite para o dia, mas o movimento está acelerando em 2025 e 2026.

A padronização do DJI Matrice 300 RTK pelo Exército Brasileiro, portanto, não é uma decisão técnica menor. É, acima de tudo, uma escolha geopolítica implícita, feita no contexto em que o mundo debate, com urgência crescente, os riscos de confiar infraestrutura de inteligência a equipamentos vinculados a um Estado com interesses estratégicos definidos e que, por vezes, usa expedientes não convencionais para atingi-los.

O Brasil caminha, ao mesmo tempo, em duas direções: incorpora tecnologia chinesa de ponta pelo custo-benefício inegável e pela ausência de alternativas nacionais maduras no curto prazo; e investe, de forma concreta, no desenvolvimento de uma Base Industrial de Defesa capaz de romper essa dependência no futuro.

O debate que os generais americanos encerram com banimentos, os brasileiros ainda precisam ter, abertamente e com toda a sua complexidade.

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