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30 outubro, 2026

FAB expõe brechas em software que alimenta o controle aéreo de dezenas de países

Militares do CDCAER encontraram três vulnerabilidades no Sunhillo SureLine, plataforma que distribui dados de radar para FAA, EUROCONTROL e Pentágono; a mais grave passa pelo mesmo ponto do sistema já usado por uma botnet em ataques anteriores



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LRCA Defense Consulting - 30/10/2026 - 11h21 (atualizado às 17h36)

Uma equipe de segurança ofensiva do Centro de Defesa Cibernética da Aeronáutica (CDCAER) identificou três vulnerabilidades no Sunhillo SureLine, conjunto de software que faz funcionar os gateways e as plataformas de vigilância da empresa norte-americana Sunhillo. Esses equipamentos recebem dados de radar, convertem formatos e distribuem as informações aos sistemas de controle de tráfego aéreo de aeroportos e provedores de navegação aérea, entre eles a Federal Aviation Administration (FAA), a EUROCONTROL e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD), além de clientes em dezenas de países, incluindo o Brasil.


As falhas foram tornadas públicas em 27 de outubro, no banco de dados do programa CVE, referência mundial para o registro de vulnerabilidades. A publicação ocorreu depois que o fabricante liberou a versão 9.1.5 do SureLine, que corrige os três problemas. Segundo os registros, todas as versões da 8.0.0 até a 9.1.4 estão afetadas.

O que os pesquisadores encontraram 
A falha mais grave, catalogada como CVE-2026-112352, recebeu nota 9.1 na escala CVSS e foi classificada como crítica. Trata-se de um bypass de autenticação: o sistema aceitava um cookie de sessão que continha apenas o nome do usuário em texto aberto, sem identificador aleatório e sem qualquer proteção de integridade. Na prática, um atacante remoto, sem credenciais, poderia forjar esse cookie com nomes de contas padrão (como Admin ou sftp_user) e se passar por qualquer usuário com sessão ativa. De acordo com a descrição oficial da vulnerabilidade, o acesso obtido dessa forma pode ser encadeado até a execução de comandos com privilégios de root, o nível máximo de controle sobre o equipamento.

A segunda, CVE-2026-112351 (CVSS 8.8, alta), é uma injeção de comandos no sistema operacional, que exige apenas um acesso de baixo privilégio para ser explorada e compromete confidencialidade, integridade e disponibilidade do sistema. A terceira, CVE-2026-112350 (CVSS 7.5, alta), é um path traversal sem autenticação no módulo radarUpdater.cgi, que permite ler arquivos arbitrários do equipamento com privilégios de root. Entre os arquivos alcançáveis estão a base de senhas do sistema, o cadastro de usuários da interface web, a chave SSH privada do administrador e a chave privada TLS do dispositivo, o que abre caminho para o comprometimento completo.

Um alvo que os criminosos já conhecem 

O SureLine não é estranho ao mundo do crime cibernético. Em julho de 2021, a consultoria britânica NCC Group revelou uma falha de injeção de comandos sem autenticação no módulo networkDiag.cgi do mesmo software (CVE-2021-36380, nota 9.8), que permitia executar comandos com privilégios de root. A empresa corrigiu o problema na versão 8.7.0.1.1, mas equipamentos sem atualização continuaram expostos. Em outubro de 2023, a FortiGuard Labs, da Fortinet, registrou uma campanha da botnet IZ1H9, derivada do Mirai, explorando essa falha. Em março de 2024, a agência norte-americana de segurança cibernética, CISA, incluiu a vulnerabilidade em seu catálogo de falhas comprovadamente exploradas.

O detalhe que chama a atenção é que a cadeia de exploração descrita na nova falha crítica passa justamente pelo networkDiag.cgi, o mesmo ponto do sistema atacado anos atrás. Até a data da publicação, porém, os sensores de monitoramento da OffSeq não haviam registrado tráfego de ataque explorando as novas vulnerabilidades.

Divulgação responsável 
A descoberta seguiu o modelo de divulgação coordenada. As falhas foram reportadas por meio da VulnCheck, empresa norte-americana autorizada a atribuir identificadores CVE (as chamadas CNA), e tratadas diretamente com a Sunhillo. Os identificadores foram reservados em 19 de outubro e publicados oito dias depois, já com a correção disponível. Em outras palavras, os operadores tiveram acesso à atualização antes que os detalhes técnicos se tornassem públicos.

Os créditos da pesquisa são atribuídos a cinco militares: Bruno Alvarenga, Rafael Salema Marques, Allan Victor, Mateus Romão e Ewerton Reis. Marques, que se apresenta como oficial de operações do CDCAER e um dos autores do achado, resumiu a filosofia do trabalho em publicação no LinkedIn: “Pesquisa ofensiva com método: fecha a superfície antes que alguém a explore”. Para ele, a defesa cibernética se tornou parte essencial da segurança da aviação, no Brasil e no exterior.

O peso do achado para o Brasil 
No País, o tema ganha uma dimensão adicional. Diferentemente de nações que separam o controle de tráfego civil da vigilância militar, o Brasil adota um modelo integrado, no qual os Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA), subordinados ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), cuidam simultaneamente da aviação civil e da defesa aérea. Um equipamento que distribui dados de radar, portanto, não serve apenas para organizar pousos e decolagens; integra também a cadeia que permite detectar e acompanhar aeronaves não identificadas. 

Vale distinguir as camadas envolvidas. Os controladores do DECEA trabalham com o SAGITARIO, sistema de automação desenvolvido pela Atech, empresa do Grupo Embraer, e implantado a partir de 2010 nos Centros de Controle de Área e em Controles de Aproximação de todo o País. É ele que reúne dados de vigilância, planos de voo e meteorologia nas telas dos operadores. O SureLine atua um degrau abaixo: recebe os dados dos sensores, converte formatos, filtra, valida e distribui as informações aos sistemas de automação. As duas soluções, portanto, não são alternativas, mas partes diferentes da mesma cadeia. A FAA, por exemplo, tem seus próprios sistemas de automação e, ainda assim, emprega equipamentos da Sunhillo. As vulnerabilidades descobertas não atingem o SAGITARIO, mas um dado de radar interrompido ou adulterado na camada de distribuição chegaria comprometido a qualquer sistema que o consuma.

A Sunhillo exporta seus produtos para o Brasil ao menos desde a década passada, segundo informações divulgadas pela própria empresa em 2017. Não há, contudo, informação pública sobre quais unidades do sistema brasileiro de controle do espaço aéreo utilizam o SureLine, nem se as instalações nacionais já receberam a versão corrigida. Esses pontos dependem de posicionamento oficial da Força Aérea Brasileira (FAB).

Defesa cibernética que sai da teoria 
O CDCAER foi concebido como órgão central do Sistema de Defesa Cibernética da Aeronáutica (SISDCAER), com a missão de planejar, executar e supervisionar as atividades de segurança da informação, defesa e guerra cibernética em favor do poder aeroespacial, conforme a diretriz DCA 14-8/2022. O centro integra o Sistema Militar de Defesa Cibernética, coordenado pelo Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), do Exército.

O episódio é um dos primeiros resultados concretos e públicos dessa estrutura. Pesquisar vulnerabilidades em produtos de fornecedores estrangeiros, antes que adversários o façam, é prática corrente em forças armadas e agências de inteligência de países com maior tradição no domínio cibernético. Ao assinar descobertas registradas em base internacional, num produto usado pelas principais autoridades aeronáuticas do mundo, a FAB mostra que adquiriu capacidade técnica para atuar nesse nível, e que a dependência de software importado em infraestrutura crítica exige verificação independente, não apenas confiança no fornecedor.

LINK-BR2 cumpre primeiro voo de certificação e recebe alvos do E-99M em Canoas

Campanha IRIS 2026, encerrada nesta sexta-feira (30), leva o enlace de dados da FAB à etapa decisiva; segundo o DCTA, a integração a outras aeronaves será planejada após a certificação



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LRCA Defense Consulting - 30/10/2026 - 10h00

O LINK-BR2, sistema de enlace de dados táticos da Força Aérea Brasileira (FAB), realizou em 20 de outubro seu primeiro voo de certificação. A missão ocorreu na Base Aérea de Canoas (BACO), no Rio Grande do Sul, durante a Campanha IRIS 2026, realizada de 19 a 30 de outubro. Segundo a FAB, que divulgou os resultados na quinta-feira (29), o sistema foi submetido a uma extensa lista de verificações e alcançou resultados expressivos, num voo classificado pela Força como marco decisivo para o projeto. O objetivo da campanha é certificar o 
LINK-BR2 para uso operacional.

Alvos do avião-radar na cabine dos caças 
Em 27 de outubro, um segundo voo verificou a integração do 
LINK-BR2 com o avião de alerta aéreo antecipado E-99M. Na ocasião, os caças F-5M receberam com sucesso os alvos detectados pelo radar da aeronave. A campanha empregou três F-5M e um E-99M. A ligação entre os caças e o avião-radar já havia sido utilizada no Exercício Conjunto Escudo-Tínia 2026, em maio, em Anápolis (GO); agora, passou por verificação formal, etapa exigida para a certificação.

Quem conduz os ensaios 
A campanha é conduzida pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e reúne a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), pilotos de prova do Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV), engenheiros do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI), militares do Primeiro Esquadrão do Décimo Quarto Grupo de Aviação (1º/14º GAV), o Esquadrão Pampa, da BACO e do Comando de Preparo (Comprep), além de engenheiros e técnicos da AEL Sistemas, desenvolvedora do sistema. 


Certificação antes das novas plataformas 
O Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, acompanhou parte dos ensaios na sala de controle da BACO. "Os resultados evidenciam o nível de maturidade do Sistema LINK-BR2, que avança mais um passo para certificação e, a partir daí, permitir o planejamento para integração em outras plataformas e sistemas da Força Aérea Brasileira", afirmou.

A declaração estabelece uma sequência: primeiro a certificação, depois o planejamento da expansão. Como a LRCA mostrou em 26 de outubro, a integração ao caça F-39 Gripen e ao cargueiro KC-390 Millennium está, até aqui, na fase de workshops técnicos, realizados com a Saab em julho e dezembro de 2025 e com a Embraer em março de 2026. A meta do DCTA é concluir o desenvolvimento do 
LINK-BR2 até dezembro de 2026. A certificação formal ainda não foi anunciada.

Um programa de 14 anos 

O contrato do 
LINK-BR2 foi assinado em dezembro de 2012 com a Mectron, no valor de R$ 193 milhões, e previa o sistema instalado até 2016 em quatro F-5M, quatro A-29 e dois E-99. Após o encerramento da Mectron, em 2017, o programa passou à AEL Sistemas, de Porto Alegre, responsável pelo núcleo do sistema. O voo de 20 de outubro é o primeiro passo oficial para que o enlace deixe a fase de desenvolvimento e entre em serviço na FAB.

21 setembro, 2026

Senado revela planos para SARP nacional e drone comum às três Forças

Audiência pública expõe encomenda tecnológica da FAB, possível lote de até 36 aeronaves e proposta do DRODEN, mas projetos ainda dependem de viabilidade, recursos e continuidade



*LRCA Defense Consulting, 21 de setembro de 2026

Uma audiência pública realizada pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT) do Senado, em 8 de setembro, revelou que o Brasil possui iniciativas mais avançadas do que se conhecia para desenvolver aeronaves remotamente pilotadas de fabricação nacional. Entre elas estão uma encomenda tecnológica da Força Aérea Brasileira (FAB) para um SARP de inteligência, vigilância e reconhecimento de longo alcance e a proposta do DRODEN, concebido como plataforma comum à Marinha, ao Exército e à Aeronáutica.

As informações foram apresentadas pelo major-brigadeiro do ar Frederico Casarino, chefe da 6ª Subchefia do Estado-Maior da Aeronáutica, durante a reunião convocada pelo senador Astronauta Marcos Pontes para discutir a viabilidade de um Programa Nacional de Drones. Participaram ainda representantes do Ministério de Portos e Aeroportos, da Anac, da ABDrone e de empresas brasileiras.

A audiência mostrou, entretanto, que existem três iniciativas distintas que ainda precisam convergir: o futuro Programa Nacional de Drones, de alcance civil, industrial, regulatório e tecnológico; a encomenda da FAB para um SARP IVR de grande porte; e o DRODEN, projeto conjunto e evolutivo das três Forças Armadas. Nenhuma delas deve ser confundida com um programa já aprovado, financiado e contratado.

FAB busca substituir dependência externa 
A FAB opera atualmente o RQ-900, de origem israelense, empregado em missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e apoio às ações do Estado. O sistema pode operar por linha de visada e por enlace satelital, possui sensores eletro-óptico e infravermelho e já acumulou cerca de 8,5 mil horas de voo em mais de 15 anos de operação.

Casarino enfatizou que a capacidade não se resume à aeronave. Ela depende de estações de pilotagem remota, antenas, enlaces, geradores, sensores, infraestrutura, pilotos, operadores de sistemas e pessoal de inteligência. Segundo o oficial-general, um conjunto do RQ-900 custa aproximadamente US$ 15 milhões, valor que a FAB gostaria de direcionar, ao menos parcialmente, para a indústria nacional.

A alternativa em estudo é uma encomenda tecnológica para desenvolver no País um SARP IVR da mesma categoria, com requisitos que poderão superar os do equipamento hoje empregado. A solução deverá incorporar sensor eletro-óptico e infravermelho, radar de abertura sintética, recursos de guerra eletrônica, integração com o Link BR2 e capacidade de emprego armado.

Até 36 aeronaves em eventual industrialização 
A FAB informou que 49 empresas manifestaram interesse no processo, 39 assinaram termo de confidencialidade e 23 empresas encaminharam 21 propostas em resposta ao pedido de informações. O projeto encontra-se na fase de estudo de viabilidade.

São desejadas duas alternativas de propulsão, uma com turbina e outra com motor a hélice. O requisito preliminar prevê carga útil de aproximadamente 400 quilos, operação média no nível de voo FL 200, equivalente a cerca de 20 mil pés, alcance superior a 500 milhas e desenvolvimento de uma estação de controle em solo.

Caso o projeto avance à industrialização, a previsão apresentada é adquirir um lote pioneiro de 24 aeronaves, com possibilidade de ampliação por mais 12. O número, portanto, não representa contrato assinado nem compra autorizada. Trata-se de uma perspectiva destinada a oferecer escala inicial ao desenvolvimento e à produção.

A intenção declarada é alcançar uma solução integralmente nacional. A FAB mencionou a existência de uma turbina desenvolvida no País pela Aero Concepts em cooperação com o Instituto de Aeronáutica e Espaço. O motor a hélice, por sua vez, ainda aguarda apoio da Finep.

Nacionalização terá de alcançar tecnologias críticas 
A meta de um sistema 100% nacional é ambiciosa porque a soberania não depende apenas da fabricação da célula. Sensores, radares, semicondutores, sistemas de navegação, comunicações por satélite, atuadores, criptografia e enlaces resistentes à interferência estão entre os componentes de maior complexidade e dependência externa.

Para que a nacionalização tenha valor estratégico, o País precisará dominar a arquitetura do sistema, os códigos, os enlaces, a integração dos sensores, os dados produzidos e a capacidade de modificar a aeronave sem autorização de fornecedores estrangeiros. Um elevado índice de conteúdo local, por si só, não garante autonomia se permanecer estrangeiro o controle sobre elementos críticos.

DRODEN propõe plataforma comum às três Forças 
Outra novidade foi a apresentação do DRODEN, sigla para Drone de Defesa Nacional. A iniciativa pretende desenvolver e produzir uma plataforma brasileira comum às três Forças, ampliar a interoperabilidade, reduzir custos, fortalecer a Base Industrial de Defesa e criar uma estrutura que possa receber capacidades específicas ao longo do tempo.

A concepção inicial prevê um SARP IVR de custo relativamente baixo, dotado de sensor óptico, estação de controle comum e operação por linha de visada. Essa primeira configuração também serviria à formação de operadores. Em uma segunda fase, Marinha, Exército e Aeronáutica poderiam incorporar equipamentos e missões próprios, preservando a plataforma e a estação de solo.

A FAB também propôs um Centro de Adestramento Conjunto de Operadores, com possibilidade de instalações no Nordeste e no Sul, regiões nas quais a menor densidade de tráfego aéreo favoreceria ensaios e treinamento. A expectativa apresentada é que as três Forças possam operar o sistema a partir de 2029.

O cronograma, contudo, é preliminar. Um grupo de trabalho conjunto estava sendo ativado para analisar viabilidade, requisitos, custos e prazos. O representante da FAB reconheceu, inclusive, que uma solução estrangeira poderá ser considerada caso a indústria nacional não consiga vencer os desafios tecnológicos.

Acauã deixa advertência sobre a continuidade 
O antecedente do Projeto Acauã oferece uma advertência. Desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço, pelo Centro Tecnológico do Exército e pelo Instituto de Pesquisas da Marinha, o projeto realizou 59 voos, mas foi descontinuado no período em que o Brasil adquiriu aeronaves israelenses.

A experiência demonstra que pesquisa e protótipos não são suficientes para sustentar capacidade industrial. Empresas precisam de encomendas plurianuais, lotes economicamente viáveis, evolução contínua do produto, compras coordenadas e apoio às exportações. Sem cliente âncora e previsibilidade, equipes se dispersam, fornecedores abandonam a cadeia e o conhecimento acumulado é perdido.

Nesse sentido, a união das demandas das três Forças poderá ser mais importante do que a própria escolha da plataforma. Requisitos comuns, estação de solo padronizada, treinamento conjunto e logística compartilhada aumentariam a escala e reduziriam a fragmentação de recursos.

Programa nacional precisa ir além da Defesa
O Programa Nacional de Drones discutido pela CCT possui alcance mais amplo. O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Drones (ABDrone), Pedro Curcio Júnior, defendeu políticas organizadas em sete eixos, envolvendo soberania tecnológica, estímulo à indústria, redução de tributos, financiamento, qualificação de operadores, segurança e integração dos órgãos públicos.

Dados apresentados na audiência indicam aproximadamente 177 mil drones cadastrados na Anac, mais de 400 mil autorizações de voo processadas pelo DECEA e cerca de 5 mil quilômetros de rotas de entrega em funcionamento. A Speedbird Aero relatou operações em 14 países, enquanto a SkyDrones destacou a experiência acumulada pela indústria brasileira desde a década passada.

A atualização regulatória promovida pela Anac com o RBAC nº 100, baseado na avaliação do risco operacional, foi reconhecida como avanço. A expansão do mercado, porém, exigirá coordenação entre Anac, DECEA, Anatel, Receita Federal, órgãos de segurança e demais instituições envolvidas.

Dados, fiscalização e financiamento permanecem como gargalos 

A segurança dos dados recebeu atenção especial. Representantes da indústria advertiram que informações de voos realizados no agronegócio podem ser armazenadas em servidores estrangeiros. Mapas de propriedades, produtividade, topografia e infraestrutura têm valor econômico e estratégico, o que torna indispensáveis regras sobre localização, auditabilidade, proteção e emprego desses dados.

Também foi apontada a concorrência desigual entre empresas que investem em certificação, seguro e segurança operacional e operadores que utilizam equipamentos importados irregularmente. Identificação remota, rastreabilidade, fiscalização de importações, formação de pilotos e medidas contra o uso criminoso precisarão integrar a política nacional.

Outro problema é a dificuldade das pequenas empresas para atravessar o intervalo entre o protótipo e a produção. Os mecanismos de fomento deverão contemplar pesquisa, ensaios, certificação, industrialização e exportação, evitando que recursos se concentrem apenas em grandes empresas ou terminem antes que a tecnologia alcance o mercado.

Uma oportunidade que depende de convergência 
A audiência não lançou formalmente um Programa Nacional de Drones, tampouco autorizou a aquisição dos novos sistemas militares. Sua importância está em tornar pública uma oportunidade de convergência entre Defesa, aviação civil, indústria, universidades e centros tecnológicos.

O Brasil já possui empresas exportadoras, experiência operacional, áreas de ensaio, capacidade de engenharia e mercado suficiente para justificar uma estratégia nacional. Falta transformar esses recursos dispersos em política de Estado, apoiada por demanda continuada, financiamento, proteção de tecnologias críticas e compromisso de longo prazo.

A encomenda tecnológica da FAB e o DRODEN podem tornar as Forças Armadas clientes âncoras de uma nova cadeia industrial. Para isso, precisarão ser complementares, e não concorrentes, e articulados ao programa nacional. Caso contrário, o País corre o risco de multiplicar projetos, fragmentar recursos e repetir a descontinuidade observada no Acauã.

19 setembro, 2026

Imagens da visita da FAB à Mac Jee revelam MAR-1 e produção de bombas BGB-82

Registros divulgados pela empresa mostram que a comitiva do COMGAP conheceu o míssil antirradiação, munições aéreas de 500 libras e a estrutura industrial destinada à fabricação em série



*LRCA Defense Consulting - 19/09/2026

O material fotográfico divulgado pela Mac Jee sobre a visita de uma comitiva do Comando-Geral de Apoio da Força Aérea Brasileira (COMGAP) acrescenta informações que não aparecem no texto institucional da empresa. As imagens mostram que os oficiais tiveram contato direto com o míssil antirradiação MAR-1, com bombas BGB-82 de 500 libras e com instalações destinadas à fabricação e ao acabamento de munições aéreas.

A constatação torna o encontro mais significativo. A visita não se limitou à apresentação genérica das capacidades do grupo. Dirigentes responsáveis por material bélico, certificação, manutenção e pesquisa aeroespacial observaram produtos específicos e a estrutura industrial que poderá sustentar sua produção, seu recebimento e seu apoio durante a vida útil.

A Mac Jee divulgou os registros nesta quinta-feira (17), sem informar a data exata em que a visita ocorreu. A comitiva foi liderada pelo tenente-brigadeiro do ar Valter Borges Malta, comandante-geral de Apoio da FAB, e reuniu representantes de organizações que participam de diferentes etapas do ciclo de vida dos meios aeronáuticos e bélicos. 


O MAR-1 integrou a apresentação 

Uma das fotografias mostra claramente um exemplar identificado como MAR-1, ainda com as inscrições do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e da antiga Mectron. Ao fundo, aparece outro componente com a mesma designação. A imagem confirma que o míssil fez parte da agenda apresentada à comitiva.

O MAR-1 foi desenvolvido no Brasil para missões de supressão de defesas aéreas. Seu sistema de guiamento passivo busca as emissões eletromagnéticas de radares adversários, permitindo atacar sensores e sistemas de defesa antiaérea. O projeto teve participação do DCTA e da Mectron e chegou a ser exportado ao Paquistão.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva do MAR-1 e do míssil ar-ar MAA-1B Piranha II. Desde então, a empresa passou a apresentar planos de modernização do MAR-1, incluindo aumento de alcance e aperfeiçoamento de sua capacidade de detectar diferentes faixas de emissão de radares.

A fotografia não comprova que a FAB tenha decidido retomar o programa ou adquirir uma nova versão. Entretanto, elimina uma dúvida importante: o MAR-1 não era apenas uma possibilidade associada ao portfólio da Mac Jee. Ele foi efetivamente mostrado aos dirigentes da Aeronáutica.

Comitiva reúne áreas decisivas para o futuro do míssil
Além do comandante do COMGAP, participaram da visita o major-brigadeiro do ar Luiz Cláudio Macedo Santos, chefe do Estado-Maior do COMGAP; o major-brigadeiro Clauco Fernando Vieira Rossetto, diretor da Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico (DIRMAB); o brigadeiro do ar Eduardo Alexandre Bacelar, diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE); e o coronel aviador Gabriel Gaertner, diretor do Parque de Material Bélico da Aeronáutica do Rio de Janeiro (PAMB-RJ).

Também estiveram presentes o coronel engenheiro Nelson Muta Hotta, subdiretor de Material Bélico; o coronel aviador Alisson Henrique Vieira, diretor do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI); e o coronel engenheiro Bruno Giordano de Oliveira Silva, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEAv).

A composição da delegação é compatível com uma avaliação ampla. A DIRMAB e a Subdiretoria de Material Bélico atuam na gestão dos meios da FAB. O PAMB-RJ está ligado à manutenção e ao apoio do material bélico. O IFI tem responsabilidades de certificação, validação e garantia da qualidade. IAE e IEAv acrescentam competências relacionadas a foguetes, propulsão, sensores e tecnologias avançadas.

Essas atribuições não autorizam concluir que exista uma encomenda. Mostram, porém, que estavam presentes os órgãos capazes de examinar os principais desafios para recolocar um armamento complexo em condições de desenvolvimento, certificação, produção e sustentação. 



BGB-82 de 500 libras recebeu destaque 
Outro conjunto de imagens registra a apresentação da BGB-82, bomba de emprego geral de 500 libras fabricada pela Mac Jee. Em uma das fotografias, a comitiva aparece reunida ao redor da munição. Em outra, o brigadeiro Malta recebe uma maquete com a inscrição BOMB BGB-82 500 LBS.

A BGB-82 integra a família brasileira de bombas baseada na série internacional MK. A classe de 500 libras corresponde à categoria da MK-82, munição de queda livre amplamente utilizada e que também pode servir de base para a instalação de kits de guiagem.

O material fotográfico mostra ainda bombas de diferentes dimensões na área de exposição da empresa. Uma delas traz inscrição associada à família BGB. Outra aparece identificada como munição penetradora, embora o enquadramento não permita determinar com segurança o modelo apresentado.

A escolha da BGB-82 para a lembrança entregue ao comandante do COMGAP reforça a centralidade desse produto na visita. As bombas aeronáuticas parecem ter sido uma das principais capacidades industriais demonstradas pela empresa. 


Imagens mostram capacidade de produção em série 
A comitiva também percorreu uma ampla área fabril. As fotografias mostram numerosos corpos cilíndricos acondicionados em estruturas metálicas, peças em diferentes etapas de acabamento, equipamentos de movimentação e áreas protegidas para tratamento industrial.

O formato dos componentes e sua proximidade com a apresentação da BGB-82 indicam uma área relacionada à fabricação de corpos de bombas aeronáuticas. Não é possível determinar pelas imagens se as peças estavam carregadas com material explosivo ou se eram corpos inertes ainda em processamento.

Mesmo com essa ressalva, os registros comprovam que a FAB conheceu mais do que maquetes e projetos. A delegação observou uma infraestrutura organizada para produção seriada, armazenamento intermediário, inspeção e acabamento. Esse aspecto interessa diretamente ao COMGAP, à DIRMAB, ao PAMB-RJ e ao IFI, pois a incorporação de um armamento depende da capacidade de fornecimento regular, controle da qualidade, documentação técnica e apoio logístico. 


Possível apresentação do Armadillo 
Uma das fotografias externas mostra a comitiva diante de um veículo da família HMMWV e de uma estrutura verde com superfícies inclinadas e grades de proteção. O conjunto é compatível com o Armadillo, sistema lançador de foguetes de 70 mm desenvolvido pela Mac Jee sobre plataforma 4x4 e equipado com lançador retrátil.

Como o equipamento aparece parcialmente fora do enquadramento e não há identificação visível, não é possível assegurar que se trate do Armadillo. A imagem permite apenas registrar que uma plataforma terrestre da empresa, aparentemente ligada ao sistema, também foi apresentada aos visitantes.

As imagens redirecionam a interpretação da visita 
Antes da análise das fotografias, a composição da comitiva permitia considerar diferentes projetos do grupo, entre eles o acelerador RATO-14X, o MAA-1B e o kit de guiagem DAGGER. O material visual torna o quadro mais preciso.

Não aparecem nas imagens divulgadas identificações inequívocas do RATO-14X, do MAA-1B, do DAGGER ou do drone ANSHAR. Isso não significa que esses programas tenham ficado fora das reuniões. Significa apenas que a própria seleção de fotografias feita pela Mac Jee priorizou o MAR-1, a família de bombas BGB e a infraestrutura industrial.

A presença dos diretores do IAE e do IEAv mantém aberta a possibilidade de que o RATO-14X e outras tecnologias de propulsão tenham sido discutidos. O registro público, contudo, aponta de forma mais direta para armamentos aeronáuticos e para a capacidade de produzi-los em escala.
 

Segunda visita amplia o acompanhamento da FAB 
A nova visita ocorreu pouco mais de dois meses depois de a Mac Jee receber, em 1º de julho, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, acompanhado pelo próprio brigadeiro Malta, pelo diretor-geral do DCTA, tenente-brigadeiro do ar Mauro Bellintani, e pelo vice-diretor do departamento, major-brigadeiro do ar Eric Breviglieri.

A primeira comitiva representava o nível estratégico e científico-tecnológico da FAB. A segunda reuniu órgãos ligados à certificação, ao material bélico, à manutenção e ao apoio logístico. A sequência indica um acompanhamento institucional mais amplo das capacidades da Mac Jee.

Ainda não há anúncio público de contrato, requisitos formais, cronograma de ensaios ou encomenda. As imagens, porém, permitem uma conclusão mais sólida do que a oferecida pelo comunicado: a FAB examinou produtos concretos, entre eles o MAR-1 e a BGB-82, e conheceu a estrutura industrial que poderia sustentar sua fabricação e seu apoio.

O fato não confirma a retomada do míssil antirradiação nem uma nova aquisição de bombas. Mostra que a relação entre a Aeronáutica e a Mac Jee alcançou um nível em que programas, produtos e meios de produção são apresentados diretamente aos responsáveis pelas etapas que transformam tecnologia em capacidade militar operacional.

13 agosto, 2026

Mac Jee e Aeronáutica formalizam parceria para o desenvolvimento de drones kamikaze

Protocolo de intenções, assinado em 3 de agosto e publicado no Diário Oficial da União em 11 de agosto, tem vigência de 36 meses e mira o Anshar, sistema de ataque único já apresentado pela empresa em feiras internacionais



*LRCA Defense Consulting - 13/08/2026

A Mac Jee Indústria de Defesa e sua subsidiária Equipaer Indústria Aeronáutica assinaram um protocolo de intenções com o Comando da Aeronáutica (COMAER) voltado ao desenvolvimento de drones kamikaze no País. O documento foi assinado em 3 de agosto e publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 11 de agosto, formalizando um vínculo que já vinha se desenhando entre a empresa e a Força Aérea Brasileira (FAB) ao longo dos últimos meses.

O que diz o protocolo
Segundo o texto publicado no DOU, o objetivo do acordo é estimular e coordenar os esforços necessários para o desenvolvimento de capacidades relacionadas ao emprego de Sistemas Aéreos Autônomos de Ataque Único, categoria na qual se enquadram os chamados drones kamikaze, voltados ao cumprimento de missões de interdição. O protocolo também prevê a cooperação institucional entre a Mac Jee, a Equipaer e o COMAER para a comunicação pública conjunta das iniciativas das duas empresas, além do planejamento de futuras ações de cooperação técnica, industrial e institucional alinhadas aos interesses estratégicos da Aeronáutica.

A assinatura coube ao tenente brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, comandante da Aeronáutica, e à empresária Alessandra Batista Stefani, diretora executiva da Mac Jee e sócia administradora da Equipaer. O prazo de vigência é de 36 meses, com possibilidade de prorrogação, período em que a empresa deverá evoluir seus projetos de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) já em desenvolvimento, além de dar origem a novos programas.

O Anshar, principal candidato do portfólio
Embora o protocolo não cite nominalmente nenhum produto, o principal ativo da Mac Jee no segmento é o Anshar, drone kamikaze cujo protótipo foi apresentado publicamente pela primeira vez em novembro de 2023, durante a Dubai Airshow. O nome faz referência ao deus do horizonte celeste na mitologia babilônica.

Nas especificações divulgadas pela empresa em 2023, o Anshar teria peso máximo de decolagem de 160 kg, carga útil (payload) de 20 kg e peso de combustível de 46 kg, com velocidade máxima de 170 m/s (612 km/h), altitude mínima de 10 metros em voo sea skimming e máxima de 8 mil metros. Já o alcance variou conforme a fonte consultada à época: parte da imprensa especializada registrou 100 km, enquanto outra parte, citando material da própria empresa, mencionou até 180 km.

Uma maquete em tamanho real do sistema voltou a ser exibida na LAAD Defence Security de 2025, no Riocentro. Segundo cobertura pós-evento do site Assuntos Militares, o Anshar poderia atingir cerca de 600 km/h, com alcance de até 120 km e ogiva de 20 kg de explosivo, número que se aproxima do citado mais recentemente em análises do setor sobre a evolução do projeto.

Uma aproximação que já vinha se consolidando

O protocolo de agosto não é o primeiro elo formal entre a Mac Jee e o Comando da Aeronáutica. Em 12 de junho, durante o 1º Encontro de Inovação Aeroespacial (INOVAERO), realizado na Base Aérea de Salvador, o COMAER já havia assinado protocolos de intenções com um grupo de empresas da Base Industrial de Defesa (BID), entre elas a própria Mac Jee, a BRVANT, a Helisul Engenharia, a OBL e a Taurus Armas. O evento teve como um dos destaques uma munição de espera (vagante ou kamikaze) em testes a bordo do Embraer C-390 Millennium.

A empresa também mantém outras frentes de cooperação com instituições ligadas ao COMAER, como o acordo de fevereiro de 2026 com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para o desenvolvimento do RATO-14X, foguete acelerador do veículo hipersônico 14-X, e recebeu em 1º de julho uma visita do Alto Comando da FAB às suas instalações em São José dos Campos. Até aquele momento, contudo, o Anshar seguia sem contrato público confirmado com a Força Aérea.

Contexto: a corrida por drones de ataque único na indústria nacional
A movimentação da Mac Jee se insere em um esforço mais amplo do COMAER para fomentar essa categoria de sistemas na indústria nacional. Em fevereiro de 2026, a Stella Tecnologia já havia assinado protocolo semelhante com a Aeronáutica, também com foco no desenvolvimento de sistemas remotamente pilotados de ataque único, priorizando soluções de propulsão nacionais. Outras frentes correlatas do próprio portfólio da Mac Jee incluem a munição suicida de asa fixa LM-1 Defensor, desenvolvida em parceria com a AERO.ID e voltada à combinação com o drone de vigilância MQ-25 PTROS.

O movimento também dialoga com o que já ocorre em outras Forças: a Marinha do Brasil incorporou drones kamikaze e ativou esquadrão especializado no início de 2026, evidenciando que a munição de ataque único deixou de ser tema apenas de vitrine em feiras para se tornar prioridade declarada nos planejamentos de médio prazo das Forças Armadas.

Próximos passos
Com o protocolo assinado, a expectativa é que Mac Jee e Equipaer avancem nos estudos técnicos que poderão embasar, ao longo dos 36 meses de vigência, uma futura contratação do Anshar ou de outro sistema de ataque único pela FAB. Até o fechamento desta matéria, não havia cronograma público de testes operacionais ou de qualificação divulgado pelas partes.

18 julho, 2026

AERO Concepts e IAE apresentam turbina a etanol aerotransportável pelo KC-390

Unidade geradora UGEE1000BR, apresentada no Instituto de Aeronáutica e Espaço em São José dos Campos, resulta de duas décadas de parceria entre a empresa e a Força Aérea Brasileira e coloca o País entre os seis do mundo capazes de produzir turbinas a gás
 
 
*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026
 
Na última segunda-feira, 13 de julho, a AERO Concepts apresentou a UGEE1000BR ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), unidade vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos (SP). O equipamento é a primeira unidade brasileira de geração de energia elétrica equipada com turbina a gás desenvolvida integralmente no País e movida a etanol hidratado, combustível renovável amplamente disponível no território nacional.
A agenda reuniu autoridades de primeiro escalão do Governo Federal e da Aeronáutica, entre elas o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno. A presença de autoridades desse nível evidenciou a relevância estratégica atribuída ao projeto pelo Governo.
Duas décadas de trabalho conjunto
A entrega da UGEE1000BR ocorreu dois anos após o desafio lançado pelo presidente Lula e pelo comandante da Aeronáutica para o desenvolvimento da primeira unidade geradora movida integralmente a etanol, mas a trajetória tecnológica que sustenta o projeto é bem mais longa. Segundo a AERO Concepts, o trabalho é uma continuidade de pesquisas iniciadas em 2005 entre as equipes da empresa e do DCTA, com investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento a partir de 2016.
A base tecnológica do projeto é a TR5000 (também identificada como ATJA45-30), principal plataforma de turbinas a gás aeronáuticas da AERO Concepts, desenvolvida em parceria com a FAB sob o DCTA. Para a aplicação de geração elétrica em solo, a turbina foi reconfigurada para operar com etanol, dando origem ao protótipo funcional integrado a um contêiner transportável que resultou na UGEE1000BR.
O diretor do Grupo AERO Concepts, engenheiro Alexandre Roma, classificou o momento como um marco forjado em vinte anos de parceria entre as equipes da empresa e da FAB, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo ele, o feito prova que "o Brasil agora domina tecnologias restritas a pouquíssimas nações", ainda que o projeto não deva ser tratado como encerrado, mas como o alicerce de um Programa de Estado voltado à proteção e à perpetuação dessa capacidade tecnológica.
Como funciona e para que serve
Com potência de 1 megawatt (MW), a UGEE1000BR tem capacidade para abastecer o equivalente a cerca de 3.600 residências. O funcionamento segue a lógica de um motor de avião: o ar é comprimido e misturado ao etanol em uma câmara de combustão, e os gases resultantes movimentam a turbina conectada a um gerador, convertendo energia térmica em eletricidade. A caixa de redução de rotações do equipamento também é de desenvolvimento nacional.
Dividida em módulos, a unidade foi projetada para ser aerotransportável pelo KC-390 Millennium, da Embraer, e para operar de forma integrada com plantas solares e sistemas de armazenamento em baterias, ampliando a autonomia energética em cenários de uso contínuo. O comandante da FAB, tenente-brigadeiro Damasceno, destacou que a solução é compacta, móvel e integrada em um contêiner de 20 pés, concebida para proporcionar rápido transporte, instalação e operação em localidades remotas.
Entre as aplicações previstas estão o atendimento a pelotões de fronteira sem infraestrutura elétrica estável, hospitais de campanha, operações fora de base e cenários de calamidade, além da possibilidade dual de substituir geradores a diesel em aplicações civis e industriais, reduzindo emissões de carbono e a dependência de combustíveis fósseis.
 Vídeo do portal Defesa Raíz no YouTube
Repercussão e próximos passos
Durante a apresentação, o presidente Lula afirmou que o Brasil passa a ser o sexto país do mundo a produzir uma turbina, destacando o simbolismo de a tecnologia ser movida a etanol em um País que é referência global em biocombustíveis. O vice-presidente Alckmin, por sua vez, associou o feito à trajetória brasileira na produção de etanol, iniciada há cerca de cinco décadas, e à abertura de uma nova matriz energética a partir do biocombustível.
Segundo Alexandre Roma, os investimentos públicos acumulados na infraestrutura laboratorial utilizada pelo IAE ao longo dos anos, incluindo bancos de ensaio e equipamentos compartilhados por diferentes projetos, somam cerca de R$ 200 milhões, valor que não corresponde ao custo específico da UGEE1000BR, mas ilustra a dimensão do apoio da FAB e da Finep à capacidade laboratorial que viabilizou o desenvolvimento.
A próxima etapa do projeto prevê a implantação de um sistema de ciclo combinado e a conexão da unidade a uma usina sucroenergética, testes que, segundo os desenvolvedores, poderão abrir caminho para aplicações civis, militares e industriais em maior escala, inclusive diante do crescimento da demanda global de energia impulsionado pela expansão de data centers, computação em nuvem e inteligência artificial.
A AERO Concepts afirma projetar-se como a única empresa do mundo com domínio simultâneo, dentro de determinadas faixas de potência, sobre turbinas a vapor e a gás aplicadas à geração de energia, ao acionamento mecânico e à propulsão naval, terrestre e aeronáutica, com avanços também em desenvolvimento na área de motores para as mesmas aplicações. 
A empresa defende que a continuidade do programa depende de apoio irrestrito como fornecedora estratégica não apenas para o Ministério da Defesa, mas também para o MCTI, o Ministério de Minas e Energia e demais órgãos federais voltados à inserção do Brasil no mercado internacional de tecnologia.

12 julho, 2026

FAB ativa Comando de Atividades Espaciais para centralizar governança espacial de Defesa

Novo comando, subordinado ao Comandante da Aeronáutica, reúne atribuições estratégicas para consolidar o Brasil como Autoridade Espacial de Defesa

 

*LRCA Defense Consulting - 12/07/2026

A Força Aérea Brasileira (FAB) ativou, em 7 de julho de 2026, o Comando de Atividades Espaciais (COES), novo Grande Comando destinado a centralizar, integrar e coordenar as atividades espaciais de interesse da Defesa. A criação e a ativação do COES foram formalizadas pela Portaria GABAER/GC3 nº 1.684, de 24 de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União (DOU1 nº 118, de 26 de junho de 2026) e assinada pelo Comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno. O ato entrou em vigor exatamente em 7 de julho de 2026, data da cerimônia militar de ativação, realizada das 11h às 12h no Salão Nobre da Base Aérea de Brasília, segundo a agenda oficial do Ministério da Defesa.

A cerimônia reuniu o Ministro da Defesa, José Mucio Monteiro Filho, o próprio Damasceno, além de autoridades civis e militares, representantes da academia e da indústria. Entre os presentes estava a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), representada por seu presidente, Julio Shidara, acompanhado de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, empresa associada à entidade. A Saipher participou da cerimônia e foi representada por seu Diretor de Inovação e Novos Negócios, Brigadeiro José Vagner Vital , e por seu Consultor Estratégico, Tenente-Brigadeiro Jeferson Domingues de Freitas. 

Pela portaria de criação, o COES é diretamente subordinado ao Comandante da Aeronáutica, e tem por finalidade planejar, coordenar, controlar, integrar e empregar as capacidades espaciais de interesse do Ministério da Defesa; atuar na implantação da Consciência Situacional Espacial; exercer as atribuições de Autoridade Espacial de Defesa, nos termos da Lei nº 14.946, de 31 de julho de 2024; coordenar o ciclo de vida das capacidades espaciais, da concepção à desativação; e desenvolver e consolidar a doutrina espacial de defesa. A sede do novo comando fica na área perimetral do Sexto Comando Aéreo Regional (VI COMAR), no Distrito Federal, e o cargo de Comandante do COES é privativo de Oficial-General ou Coronel do Quadro de Oficiais Aviadores da ativa. O apoio administrativo caberá ao Grupamento de Apoio do Distrito Federal (GAP-DF), que atuará como Unidade Gestora Executora.

A nomeação da cúpula do COES já constava do Diário Oficial da União desde o mês anterior à publicação da portaria de criação. Pela Portaria GABAER nº 850/GC1, de 12 de junho de 2026, também assinada por Damasceno, o tenente-brigadeiro do Ar Sérgio Barros de Oliveira foi nomeado Comandante de Atividades Espaciais. O major-brigadeiro do Ar André Luiz Alves Ferreira foi designado chefe do Estado-Maior do COES, e o brigadeiro do Ar Sandro Bernardon, até então chefe do Centro de Operações Espaciais (COPE), assumiu a Subchefia de Operações Espaciais do novo comando, o que evidencia a continuidade entre a antiga estrutura do COPE e a nova organização.

A criação do COES é o desfecho de um processo formalmente iniciado em 29 de maio de 2026, quando a Portaria GABAER/GC3 nº 1.658 aprovou a Diretriz de Implantação do Comando de Atividades Espaciais (DCA 19-12). O texto da diretriz justifica o novo comando pela dispersão institucional das capacidades espaciais, hoje distribuídas entre diferentes organizações do Comando da Aeronáutica, e pela crescente dependência de serviços espaciais, fatores que, segundo o documento, impõem desafios à coordenação estratégica, à eficiência operacional e à autonomia nacional. A criação do COES decorre das conclusões de um Grupo de Trabalho instituído especificamente para esse fim, consolidadas em relatório final aprovado pelo Comando da Aeronáutica.

A diretriz também define o cronograma de transição. A implantação observará duas fases, a de ativação e a de consolidação, esta última com prazo de até dezoito meses a partir da criação do comando. Nesse período, o Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE) deverá transferir ao COES o controle operacional do COPE em até quinze dias após a ativação, mantendo o apoio administrativo, logístico e de tecnologia da informação durante a transição, enquanto o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) terá até cento e oitenta dias para transferir ao COES a subordinação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) e do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI). A diretriz prevê ainda a criação do Sistema de Atividades Espaciais (SISAE), a ser disciplinado por norma específica e tendo o próprio COES como órgão central.

A criação do comando brasileiro se insere em uma tendência internacional de ampliar a importância organizacional das atividades espaciais nas forças aéreas, segundo reportagem da Revista Asas. A Itália criou o Comando Operazioni Spaziali em 2020, e o Reino Unido lançou o Space Command em 2021. Espanha e França alteraram os próprios nomes de suas forças aéreas, em 2022 e 2020, passando a se chamar, respectivamente, Ejército del Aire y del Espacio e Armée de l'Air et de l'Espace. Nos Estados Unidos, a mudança foi ainda mais ampla, com a criação, em 2019, de uma força armada específica, a United States Space Force.

Durante a cerimônia, o Comandante do COES, Tenente-Brigadeiro Sergio Barros de Oliveira, afirmou que a Força Aérea tem tanto a vocação quanto a autoridade legal para operar em diversas áreas do segmento espacial e permanece determinada a continuar trabalhando em parceria com instituições públicas e privadas, bem como com nações amigas, para superar os desafios que o Brasil enfrenta em sua busca por acesso autônomo ao espaço.

Para o presidente da AIAB, Julio Shidara, a criação do COES tem valor simbólico e prático para o setor. Com a implantação do COES, avaliou Shidara, o Comando da Aeronáutica (COMAER) transmite à sociedade brasileira a mensagem de que elevou a prioridade com que os temas espaciais serão tratados a partir de agora. A entidade avalia que a nova estrutura fortalece o ambiente institucional necessário para ampliar as capacidades nacionais, estimular a inovação e criar oportunidades para a indústria brasileira em áreas estratégicas de alto valor agregado, e manifestou a expectativa de que outras instituições responsáveis pela condução do Programa Espacial Brasileiro (PEB) sigam o mesmo caminho, de modo a reduzir a atual dependência estrangeira em áreas sensíveis para o desenvolvimento e a soberania do País.

Segundo o Brigadeiro Vital, da Saipher, é necessário evitar a fragmentação de esforços, reduzir a vulnerabilidade dos Sistemas Espaciais Brasileiros e estabelecer um ponto focal operacional capaz de pavimentar o caminho para a criação e o desenvolvimento de missões de Controle e Defesa Espacial e de Apoio Espacial. “Essa unidade de comando operacional facilitará a gestão durante crises ou batalhas envolvendo o Domínio Espacial, de forma integrada com os demais domínios”, afirmou.

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