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19 agosto, 2026

Dos canhões às narrativas: uma guerra com ecos que ainda ressoam

Aval de Lula para devolver ao Paraguai o canhão capturado em 1868 reabre a discussão sobre tombamento, memória militar, narrativa historiográfica e os limites de uma decisão fechada de gabinete



*LRCA Defense Consulting - 20/08/2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou, em reunião de fim de julho com os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, a devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, peça de doze toneladas capturada pelas forças brasileiras durante a Guerra do Paraguai e guardada desde 1922 no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. A decisão, revelada pela jornalista Bela Megale, do jornal O Globo, ainda não tem data de execução e depende de trâmites do Itamaraty e de um procedimento administrativo pouco discutido publicamente: a retirada do tombamento da peça pelo Iphan.

Da fala ao pedido formal 
O episódio nasceu de uma frase. Em 24 de julho, durante visita à fábrica da Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), Lula defendeu o investimento em Defesa citando o conflito do século 19: “um belo dia o Paraguai decidiu invadir o Brasil (...) invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina”. A Câmara dos Deputados do Paraguai respondeu com nota de repúdio, acusando o presidente brasileiro de distorcer a dimensão histórica da guerra, e pediu ao Executivo paraguaio que cobrasse formalmente a restituição do El Cristiano. Dias depois, o vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, entregou ao embaixador brasileiro José Antonio Marcondes um pedido que vai além desse canhão: inclui também outro troféu, o canhão Presidente López, acesso a documentos de arquivo sobre o conflito e o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio sobre o período.

Um troféu tombado 
O El Cristiano não é um objeto qualquer no acervo público brasileiro. A peça, fundida no Paraguai em 1867 com bronze de sinos de igreja, foi trazida ao País ao fim da guerra e, depois de décadas expostas no antigo Arsenal de Guerra, foi transferida em 1922 para o Museu Histórico Nacional, durante as comemorações do centenário da independência. Desde então está inscrita no Livro do Tombo, sob proteção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Isso significa que, juridicamente, o canhão não pode simplesmente ser embalado e enviado a Assunção: é preciso, antes, destombá-lo.

O destombamento é regido pelo Decreto Lei 3.866, de 1941, e ocorre apenas por decisão do presidente da República, mediante justificativa de interesse público. Não depende de aprovação do Congresso brasileiro nem de consulta pública ampla; a prerrogativa é do Executivo. Ou seja, do ponto de vista estritamente legal, um governo pode sim, por ato administrativo, reverter um tombamento que dura mais de um século. 

A pergunta que fica em aberto não é sobre a legalidade formal do gesto, mas sobre o rito que o cerca: enquanto o Paraguai tratou o tema no plenário de seu Legislativo, aprovando nota oficial, a decisão brasileira nasceu de uma reunião fechada entre o presidente, os três comandantes militares e o ministro da Defesa, sem qualquer processo equivalente de deliberação pública.

O precedente de 2014 
Não é a primeira vez que o tema chega a Brasília. No aniversário de 150 anos do início da guerra, entre 2014 e 2015, o governo de Dilma Rousseff também cogitou devolver o canhão, num gesto que seria patrocinado pela Itaipu Binacional. A devolução não avançou por causa da oposição do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, e do próprio tombamento do Iphan, que funcionou, naquele momento, como obstáculo efetivo. Uma década depois, o impedimento legal segue de pé, mas o resultado político é distinto: agora há aval presidencial explícito, com o conhecimento dos três comandantes militares, o que sugere que o Alto Comando das Forças Armadas não vê, hoje, motivo para resistir ao pedido paraguaio. 

Canhão El Cristiano exposto no Pátio dos Canhões 
do Museu Histórico Nacional

De quem é a guerra 
A disputa em torno do canhão reabre também uma questão historiográfica que a fala de Lula, ainda que sucinta, resume com razoável fidelidade aos fatos. A Guerra do Paraguai (também chamada Guerra da Tríplice Aliança, ou, no Paraguai, Guerra Grande) começou com a invasão paraguaia à província brasileira de Mato Grosso, em dezembro de 1864, precedida pela captura, em novembro daquele ano, do vapor brasileiro Marquês de Olinda. Em abril de 1865, tropas paraguaias avançaram também sobre a província argentina de Corrientes, episódio que selou a formação da Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai. O próprio Solano López justificou a ofensiva como resposta à intervenção brasileira na crise política uruguaia, mas a sequência factual dos episódios não deixa dúvida sobre quem cruzou a fronteira primeiro.

Há, é verdade, uma corrente historiográfica revisionista, popularizada a partir do livro Genocídio Americano, de Julio José Chiavenato (1979), que desloca o eixo da responsabilidade para o imperialismo britânico e para interesses geopolíticos de Brasil e Argentina. Trata-se, porém, de leitura minoritária no meio acadêmico, ainda que influente na memória popular e, ao que tudo indica, na origem do pedido paraguaio de “reconhecimento institucional” sobre o período. 

Mais que os troféus, uma narrativa
É esse item do pedido paraguaio, o menos comentado até aqui, que talvez seja o mais decisivo. Ao lado da devolução do El Cristiano e do Presidente López, e do acesso a documentos de arquivo, o vice-presidente Pedro Alliana pediu também o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio sobre a guerra, o mesmo Legislativo que, na nota de repúdio a Lula, reafirmou seu compromisso com a defesa da “memória histórica” paraguaia do conflito. Lidos em conjunto, os quatro itens sugerem que a disputa não se limita a peças de museu. 

O que Assunção parece buscar, para além dos objetos, é que Brasília valide institucionalmente uma versão do conflito que, no Paraguai, tende a enquadrar a guerra como agressão externa sofrida pelo país, relativizando a sequência factual que a historiografia brasileira majoritária reconhece: a invasão paraguaia a Mato Grosso, em dezembro de 1864, seguida do avanço sobre território argentino em 1865. Se essa leitura estiver correta, devolver o canhão seria apenas o primeiro gesto de um processo mais amplo, no qual o Brasil seria chamado, não a rever os fatos, mas sim a rever a forma pública como os reconhece.

O que fica de fora do debate 
A questão levantada pelo jornalista Angelo Nicolaci, do portal GBN Defense, em artigo publicado nesta quarta-feira (19/08), sintetiza bem o incômodo que a decisão provoca em setores ligados às Forças Armadas: reduzir o El Cristiano a um “objeto paraguaio que precisa voltar para casa” ignora que a peça também é parte da memória militar brasileira, construída com o sangue de milhares de soldados mortos em combate ou por doenças ao longo de cinco anos de guerra. Em texto de circulação nos círculos militares, o coronel reformado Alexandre de Andrade Cardoso levanta ponto semelhante ao comparar o tratamento dado por Espanha e outras nações a seus troféus de guerra (incorporados a monumentos públicos como símbolo de orgulho nacional), com a postura brasileira de sucessivas devoluções: bandeiras tomadas aos paraguaios, a espada do marechal Solano López, documentos e outras presas de guerra já retornaram a Assunção ao longo das últimas décadas. Para Cardoso, o Brasil corre o risco de ficar sem nenhum símbolo material de seu próprio patrimônio de guerra. 

O espelho paraguaio
A assimetria do debate fica mais clara com um contraponto que o próprio Cardoso lembra em seu texto: o vapor de guerra Anhambay, da Marinha brasileira, que participou da defesa do Forte Coimbra, em dezembro de 1864, e foi capturado pelos paraguaios poucos dias depois, em 6 de janeiro de 1865, no início do conflito. O casco do navio é hoje a principal atração do Parque Nacional Vapor Cué, a 98 quilômetros de Assunção, onde o resgate das embarcações e a instalação de um museu naval começaram em 1978; o local só foi formalmente declarado Patrimônio Histórico Nacional do Paraguai quase quatro décadas depois, em 2017, pelo Decreto nº 7900. Nenhuma autoridade brasileira jamais cobrou a devolução do navio ao País. A comparação não invalida o pedido paraguaio pelo El Cristiano, mas expõe que a lógica de “troféu de guerra que precisa voltar para casa”, se aplicada de um só lado, tende a esvaziar unicamente o acervo brasileiro.

Impasse
O impasse, portanto, não está em saber se o Brasil pode devolver o canhão (pode, tecnicamente, por decreto presidencial), nem em saber se o Paraguai tem direito de reivindicá-lo (tem, legitimamente, como parte de sua memória nacional). Está em dois outros pontos, um de processo e outro de conteúdo. 
 
O primeiro é que um ato de tal magnitude simbólica, envolvendo patrimônio tombado há mais de um século e a memória de milhares de brasileiros mortos em combate, está sendo decidido sem qualquer debate público equivalente ao que ocorreu no Paraguai. 
 
O segundo é que, ao lado do objeto, o próprio pedido paraguaio embute uma disputa sobre qual versão da guerra prevalece: tratar a devolução do El Cristiano como episódio isolado, sem discutir publicamente os demais itens do pacote (o segundo canhão, os documentos de arquivo e o reconhecimento institucional das posições do Legislativo paraguaio), equivale a aceitar, por omissão, os termos dessa narrativa. 
 
Caso se confirme a intenção presidencial, caberá ao Executivo brasileiro explicar, com a mesma transparência exigida do Iphan em qualquer processo de destombamento, os critérios jurídicos e históricos que sustentam a decisão, e dizer com clareza ao País até onde vai o gesto: se termina no canhão, sem ao menos exigir contrapartida com a devolução do vapor de guerra Anhambay, ou se inclui também a validação de uma versão da guerra que a própria historiografia brasileira majoritária não reconhece.

10 maio, 2026

Super Tucano: o guardião do céu paraguaio

Como a nova frota de aeronaves de ataque leve da Embraer está redesenhando as rotas do narcotráfico e restaurando a soberania aérea do Paraguai após 38 anos de vulnerabilidade


*LRCA Defense Consulting - 10/05/2026

Por décadas, o Paraguai foi descrito como um buraco negro no mapa da vigilância aérea sul-americana. Enquanto países vizinhos mantinham radares e aeronaves de patrulha, o espaço aéreo paraguaio, especialmente nas regiões de fronteira com Brasil e Bolívia, permanecia praticamente sem controle. Organizações criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e redes colombianas de tráfico de cocaína transformaram o território guarani em corredor privilegiado para voos clandestinos carregados de drogas.

Tudo isso começou a mudar em junho de 2025, quando o presidente Santiago Peña recebeu os primeiros quatro caças A-29 Super Tucano adquiridos da Embraer por um contrato total de US$ 105 milhões. Era a primeira compra de aeronaves militares ofensivas pelo país em 38 anos. "Por muito tempo o território esteve carente de defesa e segurança", afirmou Peña durante a cerimônia de entrega, reconhecendo abertamente a vulnerabilidade histórica do país.

"Desde que os Super Tucanos realizaram suas primeiras incursões, especialistas confirmam que o narcotráfico mudou de atitude." — General Óscar González, Ministro da Defesa do Paraguai, maio de 2026

Uma virada histórica: a linha do tempo

  • 1987: Paraguai adquire seus últimos aviões Tucano (versão T-27) do Brasil. Por quase quatro décadas, nenhuma renovação relevante acontece na frota de combate da Força Aérea Paraguaia.

  • 2024: o governo Peña fecha contrato com a Embraer para a compra de seis unidades do A-29 Super Tucano, no valor de aproximadamente US$ 105 milhões. Paralelamente, é assinado um contrato de US$ 45 milhões com os EUA para aquisição de radares Northrop Grumman AN/TPS-78 via sistema FMS (Foreign Military Sales).

  • Junho de 2025: os quatro primeiros Super Tucanos chegam ao Paraguai em solenidade na Primeira Brigada Aérea, em Luque. O comandante da FAP, general Julio Fullaondo, declara que o Paraguai era "o único país da região com o espaço aéreo livre de controle".

  • 31 de Janeiro de 2026: primeira grande operação de destaque: um Super Tucano detecta e intercepta uma Cessna 206 boliviana (matrícula falsa CP-298) em voo irregular na região de Concepción. A aeronave cruza a fronteira e faz pouso forçado em Porto Murtinho (Mato Grosso do Sul, Brasil). Cerca de 450 kg de cocaína são apreendidos.

  • Março de 2026: a FAP participa de exercícios multinacionais com outras forças aéreas da região, marcando sua reintegração ao cenário de defesa coletiva sul-americana com os novos caças.

  • Agosto de 2026 (previsto): chegada das duas últimas unidades do contrato, completando a frota de seis Super Tucanos. A entrega foi adiada por atraso na linha de produção de um fornecedor da Embraer. 

Narcotráfico muda de rota e de modal
O impacto mais significativo dos Super Tucanos, segundo o ministro da Defesa, general Óscar González, não está apenas nas apreensões registradas, mas em algo mais difícil de quantificar: a mudança de comportamento do crime organizado. Em entrevista ao programa "Código 650" da rádio La Tribu, em maio de 2026, González revelou que as organizações criminosas abandonaram suas rotas aéreas tradicionais e passaram a adotar táticas de maior risco, incluindo o uso de helicópteros de baixa altitude para tentar escapar da vigilância dos radares móveis implantados pela FAP.

"Desde que os Super Tucanos realizaram suas primeiras incursões, especialistas confirmam que o narcotráfico mudou de atitude", afirmou o ministro. Como evidência contundente desse novo cenário, González citou o caso do helicóptero encontrado capotado em zona boscosa da região norte do país, os criminosos tentaram enterrar tanto a aeronave quanto o piloto morto para eliminar provas de sua atividade ilícita. Em maio de 2026, a Polícia Nacional confirmou o achado de uma aeronave do tipo nessa condição em Bahía Negra, departamento de Alto Paraguay.

Por que o Super Tucano é eficaz contra o narcotráfico aéreo?

  • Opera a partir de pistas semipavimentadas de apenas 900 metros, ideal para bases avançadas em regiões remotas de fronteira
  • Baixa assinatura visual e acústica, dificultando sua detecção por pilotos narco
  • Sistema de câmeras e reconhecimento em tempo real, com transmissão para centros de comando
  • Capacidade de interceptação noturna, cobrindo período preferido pelos traficantes
  • Raio de combate de 550 km a partir das bases paraguaias cobre toda a faixa de fronteira estratégica
  • Integração com redes de radar móvel para resposta rápida após detecção

 

Controlar o controlador: tecnologia contra a corrupção interna
Além do impacto externo sobre o narcotráfico, o ministro González destacou que a modernização tecnológica também está sendo utilizada para sanear as próprias forças de segurança. Na Prefeitura Geral Naval, foi instalado um Centro de Comando e Controle que permite monitorar agentes em tempo real, o que reduziu drasticamente ocorrências irregulares como o contrabando de combustível praticado pelos próprios efetivos.

"Com a tecnologia se controla o controlador; agora se vê tudo", resumiu González com a frase que viralizou nos meios de comunicação paraguaios. A vigilância permanente tornou o esquema de "fazer vista grossa" muito mais difícil de ser mantido.

Outro avanço citado pelo ministro foi a regulamentação da Lei de Armas após 14 anos de inação legislativa. Com a nova regulamentação, a Direção de Material Bélico (Dimabel) passou a ter rastreabilidade absoluta de armas e explosivos. "Hoje cai uma arma nas mãos do crime organizado e em segundos sabemos quem a comprou, em que casa e qual é sua origem. Já não há como dizer 'eu não sei'", explicou González.

Radares: o elo que ainda falta
O Paraguai aguarda a chegada do radar de grande alcance Northrop Grumman AN/TPS-78 adquirido dos Estados Unidos por US$ 45 milhões via FMS. O prazo de entrega é de 30 meses a partir da assinatura do contrato, em janeiro de 2025, o que situa a operacionalidade plena do sistema por volta do início de 2028. Até lá, o país opera com radares móveis táticos, cuja agilidade de desdobramento é, por si só, um fator dissuasivo. Dois radares da série Elta ELM/2106NG que estavam fora de serviço também serão reformados em Israel.

Cooperação bilateral com a Argentina
Outro frente de atuação relevante é a colaboração estreita com a Prefeitura Naval da Argentina, que permitiu recentemente desmantelar passagens clandestinas e apreender carregamentos de fentanil nas zonas de fronteira mais permeáveis do país. Esta cooperação binacional é considerada peça-chave para frear o ingresso de opioides e o tráfico de armas, dois problemas que cresceram em paralelo à consolidação das rotas de cocaína. O fentanil, droga sintética que provocou epidemia devastadora nos EUA, começa a ser monitorado com atenção crescente no Cone Sul.

O A-29 na América Latina: uma aeronave para a era do crime organizado
O Paraguai é apenas o mais recente de uma série de países latino-americanos que recorreram ao A-29 Super Tucano como ferramenta central de suas políticas antidrogas aéreas. Colômbia, Equador, República Dominicana e Honduras já operam a aeronave em missões semelhantes. A Força Aérea Brasileira, pioneira no programa, mantém esquadrões de Super Tucano especificamente posicionados para cobrir as fronteiras com Venezuela, Bolívia e Paraguai, onde os fluxos de cocaína são mais intensos.

A aeronave foi projetada desde o início para operar nesse ambiente. Com detectabilidade reduzida, capacidade de voo noturno e sistema de armas preciso, o A-29 representa a convergência entre custo operacional acessível e eficácia em missões de patrulha e interdição. "É a melhor aeronave em sua categoria no mundo. Fazem parte da Força Aérea em 20 países, incluindo os Estados Unidos", explicou o historiador e especialista em aeronáutica Antonio Sapienza quando da chegada dos primeiros aparelhos ao Paraguai, em junho de 2025.

Com mais de 600.000 horas de voo acumuladas globalmente e presença confirmada em 22 forças aéreas, o Super Tucano acumula um histórico de combate real que vai do Afeganistão ao Mali e à Colômbia. Para o Paraguai, um país que havia ficado 38 anos sem adquirir aeronave militar ofensiva, a incorporação do A-29 representa não apenas uma atualização tecnológica, mas uma declaração política de que o Estado pretende recuperar o controle do seu próprio território.

"Paraguay era o único país da região que estava com o espaço aéreo livre de controle." — General Julio Fullaondo, Comandante da Força Aérea Paraguaia, junho de 2025

Soberania aérea como política de estado
A trajetória dos Super Tucanos paraguaios nos primeiros meses de operação revela uma lição mais ampla sobre o combate ao narcotráfico transnacional: a dissuasão tecnológica pode ser tão eficaz quanto a repressão direta. Ao fazer com que os traficantes mudem de rota, aumentem seus custos logísticos e recorram a métodos mais arriscados, e mais detectáveis, a presença das aeronaves desgasta as redes criminosas mesmo quando não há confronto direto.

Os desafios, contudo, permanecem consideráveis. O radar de longo alcance ainda não chegou. Dois dos seis Super Tucanos contratados só serão entregues em agosto de 2026. A fronteira com o Brasil e a Bolívia é extensa, fragmentada e porosa. O PCC e outras organizações têm recursos para se adaptar rapidamente. E a corrupção institucional, combatida agora pela vigilância tecnológica interna, foi construída ao longo de décadas.

Ainda assim, o sinal enviado pelo helicóptero enterrado na mata do norte paraguaio é inequívoco: pela primeira vez em muito tempo, o céu do Paraguai tem dono... e os criminosos sabem disso.

18 dezembro, 2025

Paraguai certifica avião agrícola da Embraer e abre mercado latino-americano para o Ipanema

Aviação agrícola brasileira dá passo estratégico na América Latina com homologação da aeronave movida a etanol pela autoridade paraguaia 


*LRCA Defense Consulting - 18/12/2025

O avião agrícola Ipanema 203, da fabricante brasileira Embraer, recebeu certificação da Direção Nacional de Aeronáutica Civil do Paraguai, abrindo portas para operações no país vizinho. A homologação representa um marco na trajetória da aeronave, que já possui mais de 1.700 unidades entregues no mercado brasileiro, onde detém cerca de 60% de participação no segmento.

"A certificação DINAC é um marco importante na história de sucesso da Ipanema. Ela marca o início da nossa expansão para mercados estratégicos que buscam alta produtividade, eficiência, baixo custo operacional e sustentabilidade no setor", afirmou Sany Onofre, líder de Aviação Agrícola da Embraer.

Primeira entrega internacional já foi realizada
A Synerjet, empresa líder em soluções de aviação e representante de aeronaves, já entregou a primeira unidade do Ipanema EMB 203 no Paraguai em novembro de 2025. A cerimônia contou com a presença de autoridades aeroportuárias paraguaias, marcando oficialmente a chegada do novo modelo ao setor de aviação agrícola do país.

Mateus Dallacqua, diretor de Vendas e Inovação da Synerjet, demonstrou otimismo com os próximos passos: "Estamos muito contentes com esta entrega no Paraguai e confiantes de que outras virão em breve. Os mercados do Uruguai e da Argentina também estão no nosso radar para a aviação agrícola".

Mercado paraguaio oferece grande potencial
O Paraguai desponta como um dos principais polos agrícolas da região, com destaque para a produção de soja, milho, arroz e farelo de soja. A cadeia da soja, especialmente, tem papel central na economia local. No ciclo 2023/24, as oito principais culturas do país registraram uma colheita expressiva, impulsionadas pelo aumento da produtividade de cereais. O setor agrícola responde por cerca de 12% do Produto Interno Bruto paraguaio.

Com essa certificação, os operadores e empresas agrícolas paraguaias agora têm acesso a uma solução adicional de pulverização, com suporte de uma equipe dedicada a atender os futuros clientes no país.

Tecnologia e sustentabilidade como diferenciais
O Ipanema 203, movido a etanol, pode pulverizar mais de 200 hectares por hora, com uma eficiência equivalente a quatro grandes pulverizadores terrestres operando simultaneamente. A aeronave garante aplicação de altíssima qualidade, sem compactar o solo ou disseminar pragas por contato, gerando um aumento de até 15 sacas por hectare.

Desde a certificação do modelo movido a etanol em 2004, o Ipanema já evitou a emissão de mais de 28 milhões de toneladas de CO2, uma média de 1,4 milhão de toneladas por ano. A aeronave é a primeira e única do mundo produzida em série certificada para voar com biocombustível.

A envergadura de asa do Ipanema 203 permite uma faixa de deposição de até 24 metros, dado comprovado em testes realizados pelo departamento de engenharia rural da FCA/UNESP. Equipada com motor Lycoming de 320 HP e seis cilindros operando a 2.700 RPM, a aeronave possui hopper (compartimento de agrotóxicos) com capacidade de 1.050 litros.

Crescimento esperado para os próximos anos
A Embraer projeta manter a média de 60 a 70 unidades por ano em 2025, com expectativa de crescimento gradual. A meta da fabricante é chegar ao patamar de 100 aeronaves anuais nos próximos cinco anos. A fábrica de Botucatu, em São Paulo, onde o Ipanema é produzido, emprega mais de 1.800 pessoas.

Recentemente, a Embraer celebrou a entrega da unidade 1.700 do avião agrícola Ipanema, que será utilizada na pulverização de diversas culturas por um cliente na cidade de Imperatriz, Maranhão. Com mais de 180 unidades entregues nos últimos três anos, o avião segue sendo a preferência dos operadores brasileiros.

A expansão para o Paraguai representa o primeiro passo de uma estratégia mais ampla de internacionalização da aviação agrícola brasileira na América Latina, com Uruguai e Argentina já no radar da Embraer para os próximos movimentos.

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